Ágora com dazibao no meio Rotating Header Image

Sem perspectivas de recuperação

Diz o dicionário Aurélio que o primeiro substantivo corresponde a

Perseverança, constância, pertinácia.

Já o outro, segundo o mesmo dicionário, refere-se a

Teima persistente; obstinação, contumácia.

Você lá, supondo que todo o seu emprenho reflete o primeiro, a persistência, aquela palavra que quase sempre é vista como de caráter positivo, dos lutadores, do sou brasileiro e não desisto nunca, sem perceber que há pelo menos meia-hora o “per” saiu de cena e em seu lugar entrou o “in”, aquela teimosia chata dos que, sabe-se lá por que tipo de disfunção cerebral, não notam de cara que daquele mato não sairá coelho, nem que o impasse já estava lá antes mesmo do “oi, sou fulano”, “prazer, sicrano e sicrana”.

Casal novinho, ele 23, ela 19. Bem apessoados, só para usar uma expressão muito mais velha do que os dois. Não os conhecia, mas como calhou de sentar-me próximo deles e não do amigo que me convidara, foi com ambos que se deu a eternidade daquela conversa. O tema onde empacamos: o país. Dito assim parece vago (de tão vasto), então restrinjo um pouco. Tratamos do momento pelo qual o país passa, conversa que depois derivou para o Rio de Janeiro, para as próximas eleições (de leve) e ainda passeou um tiquinho pela nossa democracia.

[A esta altura você deve estar se perguntando onde raios eu pretendia chegar com uma conversa dessas, levando em conta que dois parágrafos acima pôde ler meu mea culpa pela insistência míope com que me portei, logo eu que só tenho astigmatismo e presbiopia — é o laudo do exame de vista de três meses atrás que diz, não sou eu.]

Tive a nítida impressão de que havia uma inversão nas nossas idades. Meu discurso, embora sereno e com genuíno interesse de não ser um monólogo fingindo-se diálogo, tinha uma certa animação juvenil, mal-disfarçando a empolgação que carrego com as perspectivas amplamente positivas que vejo para o país. Já o do casal novinho era puro desencanto — palavra logo corrigida por ele, que disse que para desencantar-se precisaria um dia ter se encantado, o que segundo ele nunca acontecera. A fala dos dois carregava nas tintas do nada presta, nada se salva, do não concordo com esse sistema que está aí. E como os meus argumentos nem faziam mossa no aço inoxidável das opiniões de ambos, indaguei o que propunham pôr no lugar, mas não obtive resposta. Encaminhei a conversa para a condição de elite que eles encarnavam, o que implicaria no oposto, em mais participação dos dois, onde omitir-se, ao contrário do que pretendiam, seria ratificar o tal “sistema que aí está” e que supostamente eles queriam que fosse outro, só não sabiam dizer qual. De troco, tive que ouvir sobre uma tal corrupção em níveis inimagináveis, sobre o bolsa família ser o dar o peixe em vez de ensinar a pescar, de que uma determinada candidata à presidência era terrorista, e que o problema do país era educação e saúde, ambos supostamente em falta. Disse-lhes com muito tato que precisavam informar-se melhor sobre todos esses pontos, que há indicadores bastante positivos em relação ao país e ao estado do Rio de Janeiro, mas que é evidente que há muitíssimo o que fazer e que é preciso que sejamos todos sempre críticos, mas certamente bem mais participativos, e que há muito mais vida acontecendo fora dos veículos de comunicação tradicionais, um país fervilhando, energizado.

Eu falei bem mais do que isso e é claro que ouvi mais ainda. Só que, de lembrar o que ouvi de volta, confesso que desanimo. Que o país precisa de pulso forte; que o Collor, por exemplo — droga, quem mandou eu falar nele? —, foi meio injustiçado, tirado do poder pelo “sistema que aí está” por não ter se vendido a ele; que na ditadura, embora tenha havido excessos e coisa e tal, pelo menos havia mais ordem e se podia sair à noite sem medo de assalto, e o curioso é que nenhum dos dois fosse vivo naquela época e eu sim. Essas frases (entre outras) foram o golpe de misericórdia na minha tentativa de encontrar alguma convergência em nossas falas. Reconheço que fracassei rotundamente, nem parece que eu já me envolvi em mais discussões do que aquele casal novinho pudesse imaginar. Mesmo assim perdi de goleada, e o pior é que, para mim, sequer se tratava de ganhar deles, mas com eles.

Não sei se da outra ponta da mesa dava para o meu amigo ouvir a discussão da gente, mas tenho quase certeza que não. Porém, enquanto aquela conversa se encaminhava para o melancólico fim, ele começou a jogar papeizinhos na minha cabeça, palitos, tudo o que encontrava ao alcance da mão, como se me mandasse mudar o rumo da minha prosa. Seja como for, posso garantir duas coisas: primeiro, que a persistência dele não suplantou a minha insistência, que já disse ter sido míope; e, segundo, que infelizmente ainda não ouvi falar em nenhum tipo de óculos para essa modalidade de chatice — a minha, não a do meu amigo —, seja ela do grau que for.

Consola-me um pouco saber que mesmo nunca tendo tido opiniões parecidas às do casal novinho — o que não é mérito nenhum, devo dizer —, na idade deles eu também parecia um velho ranzinza, cheio de opiniões amargas e definitivas. Ainda bem que tive a sorte de passar por experiências e relações que mudaram o curso do tempo e alinharam a minha suposta idade mental à minha idade cronológica, que faz algumas décadas têm andado mais ou menos juntas. Espero sinceramente que o casal novinho tenha essa mesma sorte que eu. Assumo que uma ou outra opinião amarga eu ainda tenho, mas garanto a você que é passível de reformulação. Pena mesmo é constatar que para não mais trocar persistência por insistência eu provavelmente precisasse de mais duas ou três vidas. E o problema é que não acredito em reencarnação.

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Alguém sabe dizer?

Um dos meus hábitos nos inúmeros cursos em que já dei aula é começar anotando no quadro toda sorte de expressões que os alunos usam no dia a dia. É divertido, porque sendo eles mesmos os especialistas, o quadro geralmente acaba sem espaço para outras tantas que sobram. Cá no Rio é um tal de olha só, tipo assim, veja bem, caraca, a parada, mó adrenalina, não me atrasa, me erra, não rola, demorô, já é, fui!, tá me entendendo? Mas não sou eu quem quer saber se você está de fato me entendendo, é a forma com que boa parte da turma costuma terminar as suas frases.

A brincadeira não para por aí, mas avança na discussão sobre como abusamos dessas expressões, tanto pela quantidade, quanto pelos contextos em que lançamos mão deles. E é por isso que combino com os alunos que todos, eu inclusive, ficamos proibidos de usar em sala algumas dessas e de outras expressões, pelo menos ao longo do semestre. É mesmo para ver se de nossas bocas consegue sair, sem empacar, algum raciocínio mais ou menos importante (para cada um) que se queira exprimir. É divertido, pelo menos para mim.

Mas por conta dessa prática e ciente de como me canso bem rápido de ouvir certas expressões, como o jargão de algumas tribos depois de muito pouco tempo se torna insuportável para mim, fiquei pensando numa questão: para além deste que vos fala, qual seria a vida útil de uma dessas expressões? E quando digo vida útil, refiro-me ao seu poder de ainda dizer algo e não soar a discurso vazio, jargão sem conteúdo, clichê, fala falada ou mero blá-blá-blá. Certo, há uma série de variáveis no meio do caminho, seja a faixa etária, se em ambiente de trabalho ou fora dele, sua origem — “tribo”, televisão, ambiente corporativo, asilos, prisões e conventos —, se em língua portuguesa, estrangeira, traduzida, mal-traduzida, abrasileirada, marketing, se ela serve para incluir ou excluir… Enfim, gostaria mesmo é de saber de algum cálculo que mostrasse o momento em que uma expressão cai na fama e em que momento cai na lama.

Se algum linguista dos bons, algum comunicólogo habilidoso conseguir fazer esse cálculo, por favor me avise. Sei que seria apenas uma primeira etapa, a do diagnóstico, e que este infelizmente não garante um tratamento bem sucedido. Porque, faltou dizer, gostaria que pudéssemos desenvolver algum remédio que fizesse sumir o quanto antes pelo menos algumas palavras e expressões que sou obrigado a ouvir diariamente — remédio esse que não consistisse em me deixar surdo, é claro —, quem sabe alguma estratégia nos moldes da obsolescência planejada. No que dependesse de mim, a sinergia, o empreendedorismo, a empregabilidade e tudo que agrega valor seria o primeiro a cair no limbo.

Alguém me ajuda?

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Flexão ré

Ré confessa, essa minha flexão. Mas preciso descascá-la, antes de proferir a sentença. À cebola, então.

Numa das caixas de comentários do antigo Weblog do Pedro Doria, deparei-me com o trecho de um texto do tal do Janer Cristaldo — procurem no Google, não vou pôr o link para ele não — colado por um exímio copiador-colador que costuma freqüentar aquele espaço. O texto do polemista aborda, obviamente, uma polêmica: a entrevista que George Steiner deu, em sua casa, ao suplemento El País Semanal no dia 24 de agosto deste ano [2008].

Devo dizer, cá entre nós, que até aqui a entrevista está deliciosa, perfeita para uma sábado. Bom-humor, erudição sem afetação, reflexões importantes a respeito da “alta cultura” — como esta, sobre Walter Benjamin:

Walter Benjamin dizia que toda grande obra assenta-se sobre uma montanha de desumanidade. É uma verdade incômoda.

E com acréscimos do próprio Steiner:

Sim, lamento a quantidade de livrarias que estão fechando as portas, e de hoje em dia as indústrias da pornografia e das drogas serem bem mais rentáveis. Deveríamos perguntar-nos o seguinte: como é possível que estas indústrias sejam as mais poderosas deste universo ao qual estamos nos referindo? Estamos em perigo, sim, mas também há sinais positivos. Não podemos nunca esquecer que durante o esplendor de Florença, nos tempos de Michelangelo, Da Vinci e dos Medici, por mês muitos eram assassinados debaixo da Ponte Vecchio. Costumamos esquecer-nos de toda a selvageria que existiu nas grandes culturas.

É mesmo sabido que os períodos de grande efervescência cultural, científica e política da história estão cercados de um negrume demasiadamente humano, só para reafirmar a menção a Benjamin. Mas o oposto também se aplica. Mesmo nos períodos mais sombrios da história da humanidade, grandes legados artísticos, intelectuais e afins foram deixados para a posteridade.

Pois é, até aqui não tinha encontrado nada de polêmico em George Steiner. O furdunço que vem sendo objeto de debate, especialmente na Inglaterra, vem mais abaixo, quando fala do panorama atual, e provoca:

É muito fácil sentar aqui, na sala desta casa, e dizer: “O racismo é horrível!” Mas pergunte-me a mesma coisa depois que uma família jamaicana, com seis filhos que escutam reggae e rock and roll o dia inteiro, mudar-se para a casa ao lado. Ou quando meu assessor vier me comunicar que desde que essa família jamaicana se mudou para cá o valor de minha propriedade caiu a pique. Faça a mesma pergunta depois disso! Em todos nós, nos nossos filhos, e para manter a nossa comodidade, a nossa sobrevivência, se escavar um pouco, aparecerão muitas áreas sombrias. Não se esqueça. Olhe para a questão basca. Como me enganei em relação a esse tema! Quando a questão do IRA estava para se resolver, publiquei um artigo dizendo que a mesma coisa aconteceria com o ETA. Mas não, o ETA continua matando.

Pronto, instaurou-se a bronca por todos os lados. Ainda que a entrevista continue — basta ver o link lá em cima — e que muitos outros temas sejam tratados nela, a leitura da maioria terminou na frase “aparecerão muitas áreas sombrias”, com o exemplo dos barulhentos vizinhos jamaicanos, que ainda por cima contribuiriam para desvalorizar o seu imóvel, servindo para tachar o Steiner de velho racista, para dizer o mínimo. E a discussão pelas bandas do Velho Continente não podia deixar de descambar para o espinhoso tema dos imigrantes, linha seguida pelo Cristaldo.

Não me interessa falar especificamente da Europa, nem tentar importar essa discussão para estas bandas. Prefiro dar um tratamento mais particular ao tema, já que antecipei que este post trataria do julgamento de uma reflexão pessoal. Mude para Brasília, 1984, tendo o Beirute como cenário, um conhecido bar e restaurante que durante anos teve a pecha de maldito, antro, mas que acima de tudo sempre foi um espaço amplamente democrático, com a constante presença de jornalistas, gente da classe teatral e toda sorte de figuras da noite. Pense agora num sujeito bêbado, que resolve falar em altos brados para o bar inteiro, despejando palavrões a torto e a direito, além de tentar seduzir sem sucesso todas as mulheres do recinto, de forma reconhecidamente inconveniente. Conseguiu visualizá-lo? Levou em consideração que para alguém ser considerado inconveniente no Beirute, a pessoa precisava realmente se exceder? Esse era o sujeito. E ao ser abordado primeiro pelos garçons, e finalmente pelo próprio dono do bar ele gritou a plenos pulmões algo como “mas é que eu fui torturado pela tortura (sic) militar do Brasil!”, como se pela gravidade do motivo em pauta ele tivesse um crédito infinito que lhe garantisse o direito de desagradar a meio mundo, com todos ainda por cima devendo aceitar o seu comportamento sem ousar reclamar.

Você deve estar pensando o que uma coisa tem a ver com a outra, isso se não pulou diretamente para a constatação de que eu só posso estar começando a dar mostras de uma porção classista, preconceituosa, intolerante ou sei lá mais o que, que o Steiner e eu compartilhamos da mesma atitude fascista, tendo eu seguido os passos de muitos que se diziam à esquerda na juventude e depois de uma certa idade passam a se dizer “amadurecidos”, portanto “de direita”. Se fizer isso, direi que é uma pena, mas não reconheço nem a mim nem ao Steiner nessas imagens — e que me desculpe o Steiner se para formular o meu raciocínio me coloquei no mesmo grupo que ele… Não falo pelo professor, mas, no que me diz respeito, continuo afeito à idéia de sociedades mais justas, mais pluralistas, menos intolerantes e com mais justiça social. Sigo desejoso de uma coexistência que respeite a diversidade, mas que aposte na viabilidade dessa mesma coexistência, isto é, com um acordo mínimo de respeito entre as partes, acordo esse que não me obrigue a aceitar de bom grado que bêbados me importunem, só para continuar no exemplo aí de cima, e nem que com isso eu passe a ser considerado um velho reacionário e intolerante.

Mas afinal de contas, o George Steiner demonstrou ser um preconceituoso racista? Não penso assim. Não depois de ler toda a entrevista, de saber do seu histórico pessoal e de manter suas frases dentro do contexto, e naquele caso, no tema maior da falibilidade humana, com o egoísmo, a auto-referência, a dissensão e tantas outras sendo apontadas como o que são, isto é, características de todos nós, e que mesmo que passemos uma vida inteira defendendo os mais nobres ideais, isso não nos isenta de termos lá as nossas mesquinharias em algum momento dado. E seja o exemplo dele pouco feliz ou original, tirá-lo desse contexto e atribuir ao autor o rótulo de racista é no mínimo interpretar equivocadamente sua entrevista, isso se não se tratar, no fundo, de uma tremenda má-fé em relação a ele. Entendamos, porém, uma coisa. O que acabou de ser dito neste parágrafo pretende em parte ser uma explicação, em parte uma constatação. Mas nunca, em tempo algum, uma justificativa, o que seria algo totalmente diferente.

Sendo assim, declaro agora, em alto e bom som, que não fico nem um pouco satisfeito dos vizinhos do prédio em frente ao meu fazerem festas infantis com música estridente e “animadores” urrando em potentes microfones; que a despeito do funk carioca ser objeto de aclamados estudos antropológicos, e de ser também uma via de expressão de alguns segmentos da sociedade, considero-o melodicamente indigente e de letras toscas demais; que apesar da vileza do desemprego e das dificuldades de inserção em um mercado de trabalho cada vez mais excludente, não fico nem um pouco satisfeito quando o sujeito que se diz “guardador de carros” da rua próxima ao meu trabalho se comporta como dono dela, ainda por cima destratando as pessoas que passam por lá e ameaçando riscar a lataria de seus carros se não lhe pagarem no mínimo quatro reais a cada hora. Por último, o pecado maior: mesmo sem desejar fazê-lo, sei que o meu discurso pode muito bem ser considerado reacionário, de direita e intolerante por alguns, ainda que moderado demais para aqueles verdadeiramente reacionários, de direita e intolerantes. Paciência, isso está além do meu controle.

Agora sim, descascada a minha cebola, estou disposto a pagar o preço por esta pequena exposição pública. Uns quatro reais, mas por quatro horas de estacionamento, no mínimo.

[Mais um texto velho, também de setembro de 2008. Falta do que dizer dá nisso.]

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Reclamação

Quando vi a sua filha, adorei o contraste. Juntar os meus panos de bunda com uma depressiva-reflexiva, cética até a medula e ainda por cima meio grossa, dessas que não levam desaforo pra casa, foi tudo o que as minhas manias sempre pediram a Deus. Mas a senhora me trapaceou. Validade só de um mês foi sacanagem! Pior: além de embarcar em todas as minhas maluquices, ela nunca mais me deu um esporro bem dado. Unzinho sequer! Tome, faça o que quiser com ela. E pra que eu pegue de volta, só do jeito que a senhora me prometeu: igualzinha a minha mãe.

[Bobagem velha, de dois anos atrás]

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Parâmetros

É o seguinte: eu me lembro da época em que não havia torcida organizada porque não havia jogo. A ditadura determinava. Eu perdi gente amada na ditadura. Então, hoje em dia, quando as pessoas reclamam da barulhada, das “torcidas organizadas”, da confusão da internet, coisa e tal, eu realmente não consigo sentir empatia. Eu tenho idade suficiente para me lembrar da época em que não havia barulho nenhum, porque o silêncio estava atravessado pelo medo. E as pessoas perdem a dimensão disso. Caramba, é só escolher! Eu, particularmente, gosto de tudo. Gosto da confusão, gosto dos trolls, gosto do xingatório, gosto dos erros de ortografia, gosto do miguxês, acho tudo lindo. Sou bem Gilberto Gil nisso. Amemos essa cacofonia caótica. Há uma beleza nela. (Idelber Avelar, comentário feito no Google Reader ontem, 30 de agosto)

Gostei tanto desse comentário, mas tanto, que em vez de colocá-lo perto do penúltimo parágrafo, que é onde me posiciono em relação a ele, preferi que viesse primeiro. Fazer o que, sou mais um dos que admiram muito esse sujeito e não têm o menor pudor em dizê-lo.

Rasgação de seda feita, começo por reconhecer que ultimamente venho me repetindo mais do que de costume, se é que isso é possível. Parece que a maior parte das minhas reflexões giram em torno de um único tema: o quanto você e eu conseguimos nos descolar (1) do nosso gosto particular e/ou das nossas preferências estéticas; e (2) das questões que nos afligem/absorvem hoje, na hora em que tratamos de analisar posicionamentos, crenças, valores e atitudes dos demais, especialmente quando se trata daqueles de quem costumamos discordar. Imagine então se essas questões que te afligem forem realmente intensas, que na tua escala particular de sofrimento (e de falta de perspectiva de livrar-se dele) estivessem acima de oito (de zero a dez). Você se vê dando conta de deixar de lado isso tudo, nem que seja por um momento, e tecer considerações sobre o outro, ou melhor, sobre os outros,1 levando em conta que eles têm os mesmos direitos que você, são regidos pela mesma Constituição?

Porque, convenhamos, se o mundo fosse composto de pessoas que agissem como ajo, pensassem de maneira muito parecida com a minha e gostassem sobretudo das coisas que eu gosto, seria o planeta mais insuportável de se viver, imaginando que houvesse outro habitável e dando sopa por aí. E generalizando sem dó e nem piedade, se trocarmos de papel, esse mundo parecido com você não será muito melhor não.

Claro que gostaria que ao meu redor a generosidade fosse a tônica, onde houvesse menos gritaria e mais respeito pelo outro. E nesse sentido, não deixarei de sentir engulhos sempre que tomar ciência de manifestações que não passem da mais abjeta selvageria. Porém, boa parte das referências que uso para mim podem ser modificadas pelo contexto, que por sua vez vai depender dos parâmetros que use. E é aí que entra esse comentário do início do post, dito pelo Idelber, sujeito que dispensa apresentações e que eu e grande parte da torcida blogosférica admiramos. É nessa toada sobre a cacofonia caótica dos dias atuais em contraste com o “silêncio atravessado pelo medo” da época da ditadura, fico sem dúvida com a primeira opção.

Só não sei se consigo ser tão Gilberto Gil quanto o Idelber. E como não quero ficar com toda a responsabilidade que me cabe por isso, ponho a culpa na cacofonia copacabânica. Lá se vão vinte e três anos no bairro e, com eles, um pouco da minha combalida audição.

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1 Porque a gente costuma generalizar mais do que particularizar, não é? Não? Sou só eu? Sério? Não acredito! Droga.

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“O Indivíduo atingido no coração pelo poder público” (Paul Veyne)

Em tempos eleitorais, sempre lembro deste artigo. Daí tenho vontade de perguntar aos meus amigos filósofos, sociólogos, antropólogos, historiadores e cientistas políticos não só como eles veem os argumentos do Paul Veyne, mas também de que maneira poderíamos analisar em que lugar os principais atores envolvidos nas próximas eleições — notadamente a Dilma, o Serra, a Marina e o Plinio, mas também levando em conta o lugar de Lula, que definitivamente é o mais relevante ator social desse processo. Enfim, deixo o texto aqui embaixo, com várias passagens que negritei por chamarem mais a minha atenção. Quem tiver paciência para ler um texto tão longo para os padrões de um blog e depois dar um ou outro palpite, sinta-se à vontade. E se quiser levar essa discussão para blogs com maior ressonância, faça-o. O que vale é que essas questões circulem o máximo possível.

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O indivíduo atingido no coração pelo poder publico[1]

Paul Veyne

A Michel Foucault, como recordação das nossas divertidas conversas de terça-feira à noite.

Entende-se aqui, por indivíduo, um sujeito, um ser ligado à sua própria identidade pela consciência ou pelo conhecimento de si. Suponhamos que esse sujeito, no sentido filosófico da palavra, é também um sujeito no sentido político da mesma palavra; suponhamos que é o «sujeito»[2] de um rei; nesse caso, não obedecerá na inconsciência, como tudo indica que fazem os animais; pensará algo da sua obediência e do seu amo, e também de si mesmo como sujeito dócil ou indócil do seu rei.

No sentido que aqui atribuímos à palavra, um sujeito não é um animal dum rebanho; é, pelo contrário, um ser que dá valor à imagem que tem de si mesmo. A preocupação com esta imagem pode levá-lo a desobedecer, a revoltar-se, mas pode também, e é o que sucede mais freqüentemente, levá-lo a obedecer ainda mais; entendida neste sentido, à noção do indivíduo não se opõe de modo algum à noção de sociedade ou de Estado. Pode então dizer-se que esse indivíduo é atingido no coração pelo poder público quando é atingido na sua imagem de si, na relação que tem consigo mesmo quando obedece ao Estado ou à sociedade. Gostaríamos de distinguir este ataque à imagem de si mesmo, que foi sempre um dos maiores mecanismos em jogo nos conflitos históricos, de outros mecanismos não menos importantes, por exemplo, os mecanismos económicos ou os mecanismos de partilha do poder. Quando um indivíduo é atingido assim na própria ideia que faz de si próprio, pode dizer-se que a sua relação com o poder público é a mesma que estabeleceria com outro indivíduo que o tivesse humilhado ou, pelo contrário, que houvesse lisonjeado o seu orgulho.

Para dar um exemplo do mecanismo historicamente importante que é a imagem de si ou a subjectividade, as guerras religiosas no século XVI ou as lutas anticlericais até 1905, que foram revoltas contra a autoridade pastoral da Igreja, fizeram correr mais sangue e provocaram maiores paixões do que o movimento operário do séc. XIX. Como escreveu Lucien Febvre, «se havia algo que os contemporâneos de Martinho Lutero recusavam com todas as suas forças era o argumento da autoridade»; «tudo o que era mediação ou intercessão os irritava».

O que gostaríamos de tentar dizer aqui é que a importância do mecanismo da subjectividade não é menor no domínio político propriamente dito. Vejamos um exemplo da história romana, neste caso Nero. Trata-se de saber por que é que os romanos, ou certos círculos de Roma, derrubaram Nero quando a sua vida privada, que era a principal razão de queixa que contra ele existia, não afectava fosse de que maneira fosse a marcha dos negócios, os interesses económicos, sociais ou internacionais, que permaneciam como sempre ou até evoluíam melhor do que noutras épocas.

Ou, usando outras palavras, esta exposição surgiu de uma perplexidade, a de ouvir alguém dizer-me: «Voto em De Gaulle por causa da dignidade da sua vida privada». Constatamos que a imagem de si dos sujeitos do soberano é provavelmente a chave daquilo que se designa por imagem de marca do próprio soberano, carisma, política-espetáculo, imagem do pai, ideologia ou legitimação. Na minha aldeia, que foi sensibilizada no princípio deste século pela luta contra o que se sentia como a autoridade clerical, os votos socialistas devem-se menos ao conteúdo da política socialista do que a uma hostilidade contra o estilo de autoridade gaullista. Numa sociedade como o Império romano, os conflitos que constituem a trama da história política raramente estão ligados à partilha do poder e ainda mais raramente às relações económicas; a questão residia em saber se o imperador seria «bom» ou «mau»; era bom se respeitava as susceptibilidades da casta senatorial, susceptibilidades essas tão platónicas e ocas como as do duque Saint-Simon. A subjectividade é simplesmente aquilo a que uma expressão da moda, mas muito exacta chama a «identidade de si».

Existe, evidentemente, uma diferença de natureza entre uma revolta da miséria e da fome e uma revolta do orgulho e da altivez. No entanto, sendo o homem um indivíduo, encontramos várias revoltas económicas que tiveram também um aspecto de subjectivação; a ideia de «dignidade social» é bem conhecida no movimento operário do século passado; sabe-se que esta fome de dignidade incluía também o dever, por parte do operário, de se elevar por via da instrução e da moralidade. Acrescentemos, a propósito, que a estetização de si, a famosa «distinção», é seguramente um instrumento de classe, uma barreira social. Mas não o foi desde a origem, nem o foi sempre; muitas vezes, torna-se nisso, mas nasce em primeiro lugar da forma particular da relação de si consigo mesmo a que se chama estetização. É que existe também uma elegância popular.

Uma última observação introdutória; a susceptibilidade dos sujeitos em relação à modalidade de comando explica outro facto curioso: a desproporção entre a violência das reacções afectivas ao soberano e o alcance frequentemente muito limitado do poder do soberano. O poder dum rei de França atolava-se na impotência uma vez ultrapassadas as portas das cidades e tal poder tinha muito menos influência nos interesse sociais e políticos do que o poder das famílias, da nobreza, das confrarias, etc. ; apesar disto, a imagem do rei possuía um forte impacto nas subjectividades, muito mais do que a imagem dum actual presidente da república, no entanto bem mais poderoso.

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Recordamos primeiramente a frase: «Voto em De Gaulle por causa da dignidade da sua vida privada»; quando os meus ouvidos escutaram esta frase, ela pareceu-me estúpida: a única questão em jogo não eram as opções políticas ou as capacidades políticas de De Gaulle? Estava enganado: a frase não era estúpida, mas ingénua a grandiosa como os vestígios da antiguidade.

Suponhamos, como o autor da frase, que a política não constitui um domínio específico, onde há problemas a resolver, reformas a organizar, etc. Suponhamos, pelo contrário, que a política se reduz ao dever de ser bom pai, bom esposo, cidadão disciplinado. Por outras palavras, que a política se reduz à moral cívica; em suma, que não é preciso «fazer política». Neste caso, só um homem virtuoso merecerá dirigir-nos. Nós, que somos gente honesta e não temos outra política que não seja sê-lo, sentir-nos-íamos enxovalhados se, a governar o país, estivesse um homem cuja vida privada fosse objecto de críticas. Efectivamente, é para nós um ponto de honra a nossa moralidade impecável; ora, por essência, a moralidade é universal: ninguém tem o direito de se furtar às obrigações que ela impõe. Esta universalidade que é o nosso ponto de honra sofreria a pior das afrontas se um homem de costumes levianos fosse por nós colocado no lugar de honra.

É escusado dizer que, na prática, esta concepção ética da política leva ao conservadorismo, pois o apolitismo virtuoso exclui qualquer ideia de reforma, de militantismo, etc. Mas, por favor, que não se confunda a instância de política conservadora e a instância de subjectividade que não quer ser conspurcada. Com efeito, as duas instâncias podem estar separadas na realidade. Vamos supor que estávamos a lidar com um conservador incorrigível mas cínico, como Vilfredo Pareto: ele teria votado em De Gaulle porque De Gaulle sabia humilhar os comunistas. O que ele esperava de um político é que fosse um bom técnico e nada mais. A Antiguidade greco-romana viveu também, durante um bom milénio, uma moral cívica e que nada tinha de cínica, pelo contrário. Esta moral resume-se numa frase: só se pode ser honradamente governado por um homem que sabe governar suas paixões. E com razão: quando se obedece a um chefe que é senhor de si próprio, não se obedece verdadeiramente a um chefe – obedece-se à moral a que o chefe é o primeiro a obedecer; o bem moral é o senhor comum do rei e dos seus súbditos; a heteronomia é, na realidade, uma autonomia. De tal modo que ser senhor de si próprio consiste, dizia Filóstrato, em ser obediente em vez de teimoso, impulsivo, indisciplinado. Em suma, a relação que o sujeito ético tem consigo próprio é idêntica, neste caso, à relação que o sujeito político tem com o imperador. O orgulho cívico está salvo: reina a autodisciplina.

Apresso-me a esclarecer que aquilo que acabo de resumir era a moral dos nobres, dos notáveis, ou, como costumava dizer-se, das pessoas instruídas. Seria um erro tirar-se deste caso articular a falsa conclusão de que a subjectivação, a relação de si para consigo mesmo, é essencialmente uma questão de autonomia, de relações simétricas. Nada disso: cada classe social arranja a sua própria subjectivação como pode, a partir das possibilidades de que dispõe; o orgulho continua a ser o privilégio das classes que podem permitir-se tê-lo. Mas existe sempre subjectivação, mesmo entre os plebeus. Existia uma concepção plebeia da autoridade que era mais ou menos o inverso da dos notáveis.

Uma frase curiosa de Aristóteles diz mais ou menos o seguinte: os tiranos fazem ostentação da sua imoralidade, dos seus amores e das suas libações. Aristóteles fala verdade: durante um bom meio milénio, desde António amante de Cleópatra aos «maus» imperadores romanos, entre os quais Nero, adopta-se a política de certos monarcas que fazem alarde da sua riqueza e da sua superioridade sobre a moral vulgar; e a plebe ainda os amava mais por isso. É fácil compreendê-la; um notável tem como ponto de honra obedecer apenas ao seu semelhante. Em contrapartida, um plebeu, que se sentiria ultrajado por ver um dos seus semelhantes na miséria pretender dar-lhe ordens, aceitará de bom grado obedecer a um mestre cuja superioridade, provada através de sinais exteriores, é flagrante. Na sua humildade, um plebeu não universaliza os seus valores; o único recurso que tem é exigir obedecer a um senhor cujos valores se revelem superiores àqueles de que a plebe dispõe; não é humilhante submeter-se a um homem que não pertence ao vulgo. O humilde orgulho do plebeu exige a desigualdade, a dissimetria. [Grifo meu]

Tocámos de passagem no tema do consumo ostentatório; é costume explicá-lo através da imaginação: quando o rei bebe, diz-se habitualmente, o povo bebe em pensamento. Será isto verdade? Estou a lembrar-me de uma página interessante de Victor-Louis Tapié no seu livro sobre a arte barroca e a civilização das sumptuosas igrejas barrocas: o pobre povo, escreve Tapié, «habituava-se a viver pobremente convivendo com igrejas ou palácios de ouros e mármores refulgentes, e cuja riqueza, em vez de o ofuscar, parecia pertencer-lhe em parte». Mas, para alguém que se ofusque com a riqueza de outrem, é preciso universalizar a partir de si a noção do homem; ora, o pobre povo considerava que a Igreja ou a nobreza eram de uma essência superior, como a sua própria riqueza demonstrava. Não se inveja o fausto de um rei, do mesmo modo que ninguém se apaixona pela rainha. O problema não era cobiçar os ouros e os mármores dos palácios e das igrejas ou possuí-los em imaginação, mas ter a satisfação interior de estar submetido a uma autoridade evidente. Não se participava no seu fausto em imaginação, como num filme pornográfico. Da mesma maneira, a vida faustosa que levavam António e Cleópatra, ou mesmo Nero, apenas podiam ofuscar a aristocracia, e isso só sucedia porque os seus festins se desenrolavam publicamente; ora, era contrário à igualdade aristocrática que Nero desse os seus festins numa cena pública que se erguesse mais alto do que a nobreza e que limitasse a pretensão dos nobres a impor os seus valores em toda a parte. Da mesma maneira, Emile Zola atribuirá proporções de escândalo à imoralidade do segundo Império na qual estavam envolvidas apenas escassas centenas de pessoas; mas a festa imperial tinha um brilho público que chocava o universalismo republicano da virtude. Ora, só a festa dionisíaca é que tem brilho; a virtude não.

O que está em jogo por trás de tudo isto não é, como vemos, a desigualdade económica nem exactamente as relações de classe; estas e aquela são trunfos de enorme peso, mas não estão aqui em jogo. Outro exemplo: diz-se que os estabelecimentos de banhos da antiga Roma, com os seus dourados e os seus mármores, eram as catedrais da Antiguidade. Quando um homem do povo lá ia, obtinha duas satisfações: gozava de um modo muito real aquele ambiente sumptuoso, do mesmo modo que o gozo que nos dá o TGV[3], que no entanto não nos pertence, não é imaginário; e dizia consigo próprio que o imperador que mandara construir aquele sumptuoso edifício amava a plebe e era tão poderoso que ninguém se envergonhava por lhe obedecer.

Regressemos agora à aventura de Nero para vermos o que é que aquele imperador pretendeu realmente fazer e por que foi derrubado; vamos verificar que Nero quis impor aos seus súbditos uma nova imagem de si próprio e deles, ou seja, das relações deles consigo. Todos conhecem o escândalo causado pela partida de Nero para a Grécia a fim de aí ver reconhecido, em jogos ou em concursos, o seu génio artístico. Até então, exercera de forma notável os seus poderes tanto na política interna como externa. O motivo da queda final do imperador não reside, pois, nesse ponto. Nada tem a ver também com os seus crimes de serralho, nem com o cabotinismo por ele demonstrado na Grécia, pois tal cabotinismo não foi o que se julga; quando Nero se exibia em Olímpia como músico ou desempenhando o papel de cocheiro não estava a abusar do grande poder que possuía para fazer que o cidadão privado se apercebesse dos seus talentos; dava livre curso a uma utopia de carácter estritamente político, a do soberano que, para reinar, se socorre do fascínio ou do encanto do seu génio pessoal. Foi por causa desta utopia que a ordem senatorial o derrubou.

Deixaremos de encarar Nero como um caso psicológico especial e compreenderemos que o seu projecto era político se nos lembrarmos do seguinte: o príncipe Sihanuk, que não é exactamente um ingénuo, criou em Phnom Penh um festival anual de cinema cuja medalha de ouro recebia todos os anos; ao mesmo tempo, era também proclamado por todos os jornais do Camboja como o melhor jornalista do seu reino. Recordamos que Estaline foi o primeiro teórico e até mesmo o melhor linguista da sua época.

E curioso que, pelo menos que eu saiba, ninguém tivesse compreendido que o famoso episódio de Nero exibindo-se como cócheiro e músico em Olímpia constitui um episódio de crise de utopia política, ao mesmo título que a Comuna de Paris de 1871 ou a revolução dos anabaptistas de Münster em 1534. A razão disto é, talvez, a seguinte: desde a revolta de Münster à de Paris em 1968, as revoluções apelidadas, só o diabo sabe porquê, de utópicas foram sempre fenómenos de massa. Isso faz-nos esquecer que em épocas mais recuadas, em que os povos estavam ao nível do chão, as desordens utópicas eram, regra geral, obra dos próprios soberanos, como os faraós Amenófis IV Akhénaton ou o califa Al-Hakim.

A utopia de Nero foi pretender colocar no poder a fascinação amorosa: entre o príncipe e os seus súbditos, a relação seria idêntica à que um virtuoso estabelece com um público de melómanos. Esta ideia não era nem mais nem menos absurda do que a de colocar no poder a imaginação, o amor segundo Santo Agostinho, a bondade paternal do rei, os sovietes, o povo soberano ou a devoção de uma nobreza hereditária. A invenção de Nero é muito original, pois, na sua época, a prática vulgar dos tiranos era antes fazer que os saudassem como deuses vivos. E isso Nero nunca fez.

O que é desconcertante no caso de Nero constitui uma particularidade típica da época: para manifestar a sua utopia, Nero meteu-se na pele de um actor; de que modo a obtenção de um prémio nos concursos olímpicos provaria a capacidade para governar um império? De modo algum mas, nesse tempo, os vencedores dos concursos tornavam-se figuras tão míticas como o são actualmente os vencedores dos prémios Nobel. Um prémio Nobel é considerado hoje em dia como alguém que pertence a um escalão superior da humanidade em geral; mesmo que tenha ganho o prémio da Química será chamado a manifestar-se sobre a política ou os direitos do homem. Aceitamos a autoridade dum homem de ciência ou dum pensador, não a dum desportista. Ora, os romanos não estabeleciam a mesma oposição que nós entre diversão, classificação que daríamos aos jogos, e a outra face, laboriosa e séria da vida.

A utopia de Nero tentou modificar as razões que, pensava ele, os sujeitos podiam ter para lhe obedecer. Esta utopia nem por isso constituiu uma boa jogada ideológica (versão marxista) ou um modo de legitimação (versão weberiana); traduziu-se em decisões específicas e teve consequências bem reais. A mais importante das decisões foi, nada mais nada menos, que libertar a Grécia do domínio romano, descolonizá-la: até à queda de Nero, a Grécia deixou de ter um governador romano e de pagar imposto a Roma. Isto é compreensível: se os gregos tinham reconhecido em Olímpia o génio do imperador, não era necessário um governador para os obrigar a obedecer; daí em diante, obedeceriam a Nero porque estavam fascinados pelo seu génio.

Quanto às consequências dessa utopia foram a pró­pria queda de Nero. Os gregos amavam naturalmente o seu libertador e conservarão dele uma grata lembran­ça, a plebe de Roma continuava a venerar o seu nome no tempo dos imperadores cristãos, três séculos mais tarde; e após a queda deste imperador, vários «falsos Neros» irão aparecer e tentar arrastar multidões. Se Nero caiu, foi por uma simples razão de subjectivação de classe: os senadores e os notáveis municipais não puderam suportar ter que obedecer a um chefe genial; queriam, segundo o estilo de comando da época, ser cortesmente solicitados, como de igual para iguais, pelo primeiro magistrado do Estado.

O estilo de comando foi a única razão da ceda de Nero. Pela sua natureza, a utopia de Nero não mudava em nada as relações de poder; sabe-se que o Senado era tão impotente sob o domínio de imperadores bons, que se lhe dirigiam polidamente, como sob o de imperadores maus. Nero também não tocou nas relações de classe e de produção. Enquanto desenvolvia a sua utopia na cena grega, o Império continuava a girar, a máquina administrativa e fiscal prosseguia a rotina habitual. Nada modificava essa rotina, excepto uma coisa: o entusiasmo da plebe por um príncipe que não a menosprezava, muito pelo contrário, uma vez que atribuía suficiente valor aos plebeus para querer transformá-los em admiradores seus.

Em todas as épocas, tem sido importante o papel desempenhado pelo mecanismo da subjectivação. Nos nossos dias, vemos o corpo eleitoral nos Estados Unidos ou em França exigir que um candidato à presidência não seja divorciado. Os factos deste género escapam à politologia de esquerda, que parte das relações de classe, e à politologia de direita, que visa as funções do Estado consideradas sérias. Então, na falta de aceitação da subjectivação como um mecanismo total, utiliza-se o recurso habitual, faz-se o golpe do dualismo; falar-se-á de ideologia, símbolo ou imagem de marca. Nos dois casos, negar-se-á contra toda a evidência a especificidade desse mecanismo que se considerará ou o simples reflexo dos mecanismos sérios, ou algo de anedótico com que a «verdadeira» politologia não deve misturar-se pois trata-se de algo pouco credível, quando muito uma concessão verbal a fazer ao ingénuo e rebelde animal popular.

Dito isto, o assunto não ficou resolvido; há aqui um problema, incontestavelmente, e será preciso perdermos algum tempo a examiná-lo. Nos outros domínios, as reivindicações da subjectividade podem ser tão substanciais e sangrentas como as da miséria ou do nacionalismo; mas, no caso particular do soberano, estas reivindicações podem permanecer em grande parte verbais; quase tudo se passa, neste caso, ao nível de frases ou símbolos: bastará aos sujeitos terem a satisfação de saber que o seu rei os ama eternamente, que o seu chefe é genial ou que o povo é soberano. Pouco importa que a bondade de um rei não se traduza em nada, nem sequer numa redução de impostos: cada um sente obscuramente que essas frases sobre o Estado e as humildes realidades do Estado pertencem a duas ordens de coisas diferentes; tanto mais que ninguém espera maravilhas do Governo.

As coisas passam-se assim: o conhecimento que os sujeitos têm do Estado surge-lhes de duas origens bem diferentes, uma é da ordem da comunicação, da interlocução; afecta, por consequência, a subjectividade. A ideia do Estado é tão vasta, mais ainda, é tão abstracta que nunca se pode ter dela uma experiência de conjunto nem uma experiência concreta; tudo o que experimentamos, na prática, são os impostos a pagar, as multas de estacionamento, além de um sentido geral de obrigação social, cujos limites em relação à moral propriamente dita permanecem vagos.

Há pois, por um lado, as experiências sempre parciais do Estado, assim como as relações que os sujeitos mantêm em consequência com os agentes do soberano ou com os ministros que atraiçoam as suas puras intenções. Mas, por outro lado, existe uma experiência bem diferente, em que o Estado aparece na sua totalidade e nos solicita de uma forma completamente diversa: é quando a República nos chama ou quando o rei promulga as leis. Então, e só então, o Estado parece surgir em pessoa; mas só pode fazê-lo usando da palavra. O Estado deixa então de depender de experiências práticas nunca totalizadas; torna-se uma entidade pertencente à rede de comunicação. O Estado toma a palavra na televisão para um diálogo com os seus súbditos, diálogo em que a sua prerrogativa é, aliás, monologar.

A experiência do Estado nos seus efeitos dispersos nada tem de transparente; seria preciso um verdadeiro estudo sociológico para a conseguir perceber. Em contrapartida, a rede de comunicação é imediata por definição: aí, cada um conhece o seu interlocutor, ou antes, trava conhecimento com ele; aí, cada um percebe qual o direito de falar ou de estar calado que lhe é concedido. Na verdade, a comunicação é por si só um império, com a sua hierarquia de locutores, os seus direitos desiguais à palavra, que não são certamente exclusivos de relações de forças, com os seus privilégios de poder dizer de sua justiça, de ter a última palavra ou de não ter senão uma palavra a dizer. Quando o príncipe entra em comunicação com os seus súbditos, por exemplo, ao fazer promulgar um édito, a questão não é de saber quem governa realmente no fundo e como e que isso se processa: a única questão é saber quem tem o direito de falar como soberano, aos outros que apenas têm o direito de o ouvir.

Podemos reconhecer aqui, se quisermos, uma personalização do poder, mas na condição de lhe inverter os termos: o poder não vai confundir-se com um homem, é, pelo contrário, um homem que vem emprestar a sua voz à entidade locutora que é, à partida, o soberano; na verdade, um homem público já não é um indivíduo. Quando Nero se exibia no palco em Olímpia tocando lira, ninguém esquecia que ele era o senhor do mundo. A semiologia pragmática está a ensinar-nos que, na comunicação, o pensamento que cada locutor quer exprimir pesa menos do que os diferentes papéis dos locutores, que já estão fixados previamente. O papel do interlocutor soberano, de príncipe, é desses: o indivíduo, rei ou presidente, que vem desempenhar tal papel eclipa-se no seu papel.

O Estado assume de bom grado fisionomias pessoais, nem que seja a de um simples presidente da III República. Não se trata de carisma ou de outra imagem do pai: isso corresponde à mais simples das necessidades; o Estado só pode aparecer na sua totalidade soberana se entrar na comunicação; por outras palavras, terá que haver um chefe, que dirá a primeira ou a última palavra. Um chefe é precisamente isso, comunicacional; pois saber quem comanda de verdade, e sobretudo por que e que todos obedecem, é uma questão que se situa noutro campo. Eis portanto o Estado transformado em entidade locutora; é preciso que um homem lhe empreste a sua voz, pois uma entidade não a possui. Isto pode traduzir-se da seguinte maneira: é preciso um chefe.

Voltemos agora à subjectivação. Os sujeitos conhecem pois o Estado, o soberano, sob duas formas: obedecem a mil pequenas obrigações dispersas e conhecem a voz sem réplica do chefe. Esse chefe assume aos seus olhos uma estatura gigantesca e como que antropomórfica: os sujeitos imaginam que o príncipe é tão poderoso como a linguagem com que se lhes dirige. Aquilo que a sua subjectividade esperará desse poderoso locutor são, evidentemente, frases, gestos simbólicos. Entretanto, o publicano continua a exigir pesados impostos. Mas isso não traz qualquer desmentido às palavras do rei. Uma experiência muito geral prova, com efeito, que não se sente a contradição possível entre duas ideias quando essas ideias têm origem em dois domínios de realidade diferentes e afectam, deste modo, partes diferentes da nossa personalidade: a existência do perceptor é uma coisa, o amor do rei é outra; da mesma maneira, os interesses de dinheiro são uma coisa, a exigência de poder respeitar-se a si próprio quando se obedece é outra. E esta exigência é tão específica como outras exigências que, pensando bem, não são menos bizarras, por exemplo, o patriotismo.

Da subjectivação resulta que a relação do cidadão com o Estado não é, nunca é uma relação de pura opressão, uma vez que os sujeitos reagem a esta opressão: no perímetro que os poderes sociais lhes deixam, estabelecem um acordo íntimo com o seu próprio eu; se este acordo é mau, talvez se revoltem, mesmo na ausência de razões sociais. O Estado não é, ou não é apenas uma empresa que desempenha funções necessárias; os cidadãos exigem também dele coisas com que os accionistas de uma sociedade, que apenas visam os seus interesses materiais, não se preocupam.

O problema da subjectivação não é filosófico; é histórico, ao mesmo título que a história social ou política; melhor ainda, é exclusivamente histórico, uma vez que o sujeito dos filósofos varia historicamente. Há um problema do sujeito porque, em política, é-se activo no próprio momento em que se obedece. Activo, portanto sujeito; obedecer é fazer por si próprio aquilo que outros lhe dizem para fazer; não são os satélites do tirano que vos agarram nos braços e nas pernas para os colocar na posição adequada; mas esses gestos não se executariam se não se tivesse recebido ordem para isso. Chama-se poder àquilo que determina as condutas. A que título faço aquilo que me obrigam a fazer? Talvez os historiadores tenham uma palavra a dizer sobre isto. ‘

Enfim, para vermos como nada disto é ideologia ou mascarada, perguntamos o que teria acontecido se Nero, em vez de ser derrubado, tivesse conseguido fazer triunfar a sua utopia. Cinco coisas teriam acontecido e com isto terminamos:

1. Roma, capital imperial, tornar-se-ia a capital mundial dos jogos, acima de Olímpia; no que efectivamente se tornou no século III. Tê-lo-ia sido um século e meio antes.

2. O Senado, academia e conservatório da nobreza, teria sido suprimido ou perderia a sua importância, o que sucedeu no século IV. Um regime de sultanato, com camareiros e vizires, instalar-se-ia em Roma.

3. Dar-se-ia a descolonização das províncias, generalização do sistema de «self-government» que regia a Itália. Acabariam os governadores de província; em caso de perturbação, o Governo central enviaria o exército. Os impostos provinciais, que marcavam a sujeição das províncias, teriam sido substituídos pelos impostos indirectos que as cidades italianas pagavam; do ponto de vista fiscal, seria mais ou menos a mesma coisa.

4. O imperialismo romano teria deixado de considerar como alvos tradicionais a Mesopotâmia e a Arábia: voltar-se-ia para as nascentes do Nilo e a planície do baixo Volga, onde Nero preparava expedições. Com efeito, Nero estava romanticamente obcecado por esses estrangulamentos para lá dos quais o Império parecia estender-se até ao infinito. Os espíritos tradicionalistas ter-lhe-iam criticado, sem dúvida, esses objectivos longínquos, da mesma forma que Jules Ferry recebeu críticas por sonhar em conquistar a Indochina em vez de reconquistar a Alsácia-Lorena. Em vez das províncias romanas da Mesopotâmia e da Arábia teria havido províncias da Etiópia e da Transcaucásia. Nero estava apenas a mil quilómetros de Estalinegrado.

5. Finalmente, teria havido rotinização do carisma. O sucessor de Nero não devia possuir provavelmente o mesmo talento artístico que ele. Nesse caso, a competição de Nero em Olímpia ter-se-ia transformado numa cerimónia simbólica de entronização, em que cada novo imperador se exibiria em cima de um carro, com um instrumento de música na mão. Seria apenas mais um ritual imperial.
_____________

[1] In: VEYNE, Paul et al. Indivíduo e Poder. Lisboa: Edições 70, 1987, pp. 9-23.

[2] «Sujet» em francês tanto significa sujeito como súbdito. Neste caso, traduzimos «sujet» por sujeito na acepção sociológica do termo, entendendo-se como tal o indivíduo enquanto submetido à vontade do soberano. (N. da T.)

[3] TGV – iniciais de Train Grand Vitesse, comboio de alta velocidade existente em França. (N. da T. )

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O trailer foi bacana

Não tem nem dez minutos que o candidato a deputado estadual em quem pretendo votar saiu daqui de casa. E enquanto ele segue circulando por Copacabana, visitando parte do seu eleitorado no bairro, cá estou matutando sobre a experiência e falando dela aos dois ou três ventos além deste que sopra por aqui.

Eu não o conhecia, nem tampouco me ocorreu perguntar em que momento histórico a equipe dele conseguiu aproximar-se de mim a ponto de agendar essa visita. Se bem que, sabendo o tanto que me distraio, o mais provável é que eu mesmo tenha fornecido esses dados, e nem sei dizer se de bom grado. Mas bom moço (já nem tão moço) que sou, abuso do direito de ser solícito e de mostrar-me disponível para conversas de todo tipo, com os mais variados personagens e nos mais inusitados contextos. Sendo assim, não é de estranhar que eu tenha caído na mailing list de um político, pelo menos aos olhos de “de novo, meu amor?, você não cansa de ser fofo?” da minha mulher.

Mas o que importa desta história não é saber em que momento mais do que remoto da minha estada no Rio de Janeiro forneci meu endereço ao candidato a deputado estadual em quem pretendo votar. Interesso-me mais em contar como nesse intervalo entre as primeiras correspondências que recebi dele, quando ainda era vereador — reeleito duas vezes —, e sua visita a minha casa em busca de votos para reeleger-se deputado estadual, eu mudei. Em parte isso se deu graças a um puro e simples amadurecimento político; em parte em função dos seguidos anos desde a redemocratização do país. E, claro, tudo temperado pela expressiva participação dessa ferramentazinha do demo que é a internet, mais ainda em tempos de redes sociais.

O agendamento da visita se deu por telefone. Uma assessora do candidato a deputado estadual em quem pretendo votar disse que ele estaria em Copacabana entre os dias 24 e 26, e perguntou se não seria do meu interesse receber sua visita. Sem titubear eu respondi que sim. A ideia de fazer-lhe algumas perguntas e conversar sobre questões ligadas à cidade, ao contexto histórico, à própria noção de campanha política e à participação da internet no meio disso tudo me interessava, e mais ainda pelo fato de eu não ter que sair de casa para isso acontecer. E como diz o título do post: o trailer foi bacana. Passadas as eleições, quero ver se o filme estará à altura.

Preciso ser mais claro com essa conversa de trailer e filme, então deixe eu falar um pouco da visita do candidato a deputado estadual em quem pretendo votar. Ele chegou com duas assessoras, todos provavelmente um pouco arrependidos por desconhecer os quatro andares sem elevador que teriam que vencer até chegar aqui em casa. É o preço de estar em campanha, disse a todos ainda na porta, oferecendo-lhes água e café. Como dispensaram o café, se algum deles gosta de expresso, diria sem modéstia que perderam a oportunidade de tomar um muito bom, de café arábica Bourbon moído na hora. Eu é que não dispensei, e fiz sala com meu balde em punho.

Boa conversa ele tem, compatível com o que eu esperava. Como conheço um pouco suas propostas, quis mesmo perguntar detalhes sobre a assembleia legislativa do estado, conversar sobre os dois grandes eventos que vêm por aí — copa do mundo e olimpíadas, porque o Rock in Rio, que de rock parece que não terá muito, quase nada me interessa —, saber de seus futuros planos e interrogá-lo sobre sua relação com a internet. Comecei  fazendo uma observação a respeito de sua conta aberta recentemente no twitter, dizendo que seu perfil acentuava demais a palavra “honesto”. Como entendo que é o que já se espera de qualquer candidato, mais ainda daqueles que têm um perfil político à esquerda, disse que me parecia um apelo à moral pouco relevante, na linha do “mulher, negra e favelada” que a Benedita da Silva usara anos atrás, e que outras características talvez fossem mais importantes. Ele contra-argumentou perguntando se eu levava em consideração grande parte do eleitorado do Rio, que com frequência costuma votar muito mais em pessoas e muito pouco em partidos, e que nesse sentido se importa muito com características dessa natureza. Respondi alegando que o público que maneja o twitter e demais redes sociais costuma ser não só muito mais informado (e aparentemente um pouco mais politizado) do que a média, mas também bastante rápido na aferição de dados sobre o que quer que seja. Em segundos qualquer um poderia saber qual a afinidade política de suas ideias com as dos deputados do Congresso Nacional, por exemplo, usando para isso uma ferramenta como a do CEBRAP, que, mesmo sem ter procurado, aposto ser apenas uma de tantas.

Conversamos de outras coisas também, mas tanto ele precisava seguir com sua programação de campanha quanto eu precisava trabalhar e, antes disso, ainda por cima começar a escrever  este post (e terminar logo, que já está ficando comprido-demais-da-conta-mesmo). disse a ele que esperava sua reeleição, mas que só depois dela entraria em contato com ele para sugerir alguns dos caminhos e dos interlocutores que conheci na esfera virtual, seja no twitter, seja na blogosfera, e que estou certo que turbinariam não propriamente a sua candidatura, mas sim a sua já positiva atuação parlamentar, graças à troca de informações com pessoas de circuitos alternativos desta cidade que estão fortemente conectados, trabalhando com um dinamismo e uma efervescência que muito pouca visibilidade tem na mídia tradicional, de um jeito que ele talvez nem suspeite. E ainda terei que lembrar de dizer, é claro, que sou apenas um cidadão comum, e que como eu há no mínimo milhares, certamente caminhando para milhões.

A mim importa é que essa proximidade inaugural e o fato de ter dialogado com o candidato a deputado estadual em quem pretendo votar deram um outro tom ao meu futuro voto, uma perspectiva diferente sobre o papel que me cabe nesse processo, qualitativamente muito mais relevante do que em outras eleições. E esse é o tal filme de que faltou falar. Ele só estreará depois das eleições e, muito em função do movimento que ocorre (e do qual participo) na internet, talvez tenha a mim como um dos seus inúmeros participantes, alguns felizes como eu por conciliar uma boa dose de anonimato e um importante protagonismo.

Gostei disso.

.

P.S. Já disse algumas vezes em quem pretendo votar nas próximas eleições, mas não era esse o mote do post. Mas se alguém ainda não souber, repito: Dilma (presidente); Sérgio Cabral (governador, sem nenhum parentesco com ele, folgo em dizer); Lindberg e Milton Temer (senadores); Alessandro Molon (deputado federal); e Fernando Gusmão (deputado estadual, o candidato que deixou de tomar um bom café expresso no dia de hoje).

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A culpa é de Fidel do B

Sobre a minha relação com os anos de chumbo, umas poucas linhas da parte que (ainda) me toca.

Nasci no exato ano do golpe — dois meses depois, para ser mais preciso. E bem cedo saí do país, só voltando com Geisel na “presidência”.

Cedo, sim, e criança demais para entender boa parte das discussões que aconteciam lá em casa, regadas a jazz, bossa nova e eventuais (e, na época, soporíferos) Mercedes Sosa, Atahualpa Yupanqui e Violeta Parra, saídos dos LP’s na vitrola ou do Grundig (que não lembro bem, mas acredito que estivesse) ao seu lado. Sem falar das estranhas siglas relacionadas ao trabalho do meu sempre engravatado pai, ou de imaginar que ouvia seus dentes rangendo a cada vez que alguém lembrava do esvaziamento de uma tal de Sudene onde ele também trabalhara antes de sair do país.

Curioso. Mal lembro da palavra “militar” sendo dita lá em casa, mesmo sabendo que um dos meus tios era ou tinha sido coronel e que o presidente do país em que estávamos, cuja cara séria me desagradava um pouco, tinha a patente de general. E por falar em palavras pouco ditas, só mais tarde, já maiorzinho, fui saber que um ou outro dos que nos visitavam era exilado, outro termo que eu não sabia muito bem o que queria dizer, mas que devia ser muito ruim, já que parecia tabu para os mais velhos, pois raramente o pronunciavam.

Agora mesmo emergiu, suspeito que do hipocampo, uma lembrança muito antiga, ainda naquele país. Almoço na casa dos Coutinho e tenho quase certeza que o cardápio era feijoada, coisa rara por aquelas longitudes. Vários brasileiros torcendo como loucos pela fantástica seleção de 1970, o teor alcoólico certamente nas alturas. E mais tarde, a imagem de alguns desses mesmos adultos hora melancólicos, hora (contidamente) coléricos, com o som da palavra “Brasil” quase sempre no meio das ininteligíveis frases…

E três anos depois, na televisão, os aviões bombardeando o Palacio de la Moneda, e o meu espanto tornado tristeza, não tão profunda quanto a dos meus pais e seus amigos, boa parte de uma geração de brasileiros profundamente vinculados às ideias de uma América Latina menos desigual, mais justa e mais independente das potências hegemônicas de então, e que viram na queda do governo chileno a confirmação de como tudo ruíra. O negro, agora, seria não apenas a cor do luto pelos mortos, mas também pelos futuros anos de exceção que encobririam quase todo o continente.

Muitas outras histórias ocorreram depois daquelas imagens, algumas delas já no Brasil, com o AI-5 ainda em vigor. Mas por hoje chega, já abusei das reminiscências que meu hipocampo “liberou para a leitura”. O que posso é lançar uma pequena ponte entre mim e Ana, personagem central de “A culpa é de Fidel”.

Não me lembro de ter dado a mão ao meu pai como Ana fez com o dela assim que o viu desolado, logo depois da notícia da morte de Salvador Allende. Mas assim que a vi ao lado do próprio pai, entre o um minuto e trinta e oito e o um minuto e quarenta e um desse vídeo aí de cima, reconheci os sentimentos que ali havia. Todos. E garanto que Fidel não tinha culpa nenhuma de nada daquilo.

[De 31 de março do ano passado. De novo por aqui, porque ando latino-americano como o quê.]

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Receitas para escolher receitas para escolher…

Ingredientes:

1) Necessidade de escolha

2) Dúvidas

3) Potência, Dever e Desejo, independente da ordem

Modo de preparar:

Em vez de um passo-a-passo, apresento uma história. Era uma vez uma bela e casada moça, que em dado momento se viu muito bem cortejada por um belo e solteiro moço. Diante das insistentes investidas do rapaz, e tentada a lançar mão daquela velha máxima que diz que “a melhor forma de se livrar de uma tentação é ceder”, chamou-o para uma conversa, da qual deixo de lado as tratativas iniciais e vou logo aos finalmentes:

Querido, deixe eu te dizer: não vou para a cama com você.

— Mas… não entendo.. o clima entre a gente… por quê?

Sim, o clima, tem razão… Então vou tentar te explicar. Quando tenho que tomar decisões, penso em três palavras: poder, dever e desejar. E, na situação da gente, não é diferente.

— Ahn??!!

— Explico. Não posso negar que, sobre ir pra cama com você, desejar, eu desejo. Ao mesmo tempo, poder, eu posso. Sei que tenho nas mãos o poder de ir pra sua casa, pro motel, pra onde eu quiser. Não há, por exemplo, nenhum obstáculo de ordem física que me impeça. Mas tem uma coisa que você já sabe: sou casada.

— E daí?

— Daí que o relacionamento que o meu marido e eu escolhemos ter não é do tipo relação aberta. Sendo assim, sei que o magoarei, sei que sentirei culpa por isso, sei um monte de outras coisas e desconheço mais algumas. Mas entendo, acima de tudo, que por esses e outros aspectos não devo ir pra cama com você.

— Mas… mas você vai abrir mão do seu desejo?

— Não se trata de abrir mão, querido, trata-se de não ser prisioneira do meu desejo, achando que ele deva ser o meu único parâmetro para tomar uma decisão, por mais que viver atendendo aos desejos seja visto faz tempo por muitos como A expressão de liberdade e de autenticidade. Mas deixando qualquer psicanálise e filosofia de botequim de lado, meu anjo, te garanto que se acontecer de eu dever ir pra cama com você, não se preocupe, é claro que você vai ser o primeiro a saber. Mas se isso ocorrer, torça para que eu e você também possamos, e que ainda desejemos. Porque se não, ou não vai ser, ou será muito ruim…

.

[Outra história velha, de 22/11/2007, mas gosto dela até hoje.]

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“Somos os outros” [do Página|12]

Por Ana María Fernández*

Por que as novas gerações de mulheres não demonstram interesse por ações coletivas que melhorariam suas posições de gênero? Por que ocupam com tanta naturalidade os lugares de onde partem para concretizar seus projetos pessoais? Parecem esquecer que esses lugares são produto de muitas lutas políticas da história das mulheres. Será que não percebem que esse atual retorno ao privado pode gerar novas fragilizações?

Por que, à medida que a academia formava cada vez mais e melhores pesquisadoras especializadas em gênero, elas pouco se interessavam em indagar sobre de que maneira as oportunidades desiguais entre mulheres — geralmente pobres — poderiam relacionar-se aos problemas de outras ‘minorias’ ou a questões político-sociais mais amplas? Por que o avanço na construção do ofício resultava em despolitização?

Agora eu me pergunto se, num mundo onde o neoliberalismo esvaziou de sentido todo tipo de luta emancipatória, seria possível manter ações coletivas de peso no que se refere ao gênero. Por outro lado, as armadilhas produzidas pela radicalidade dos nossos contemporâneos exigiram quanto de prudência, bom senso, pragmatismo e cuidado nos passos a dar destas novas mulheres, nossas filhas? Não se trata de olhar para aqueles radicalismos com nostalgia e fascínio pelo passado. A solidão, a loucura, o charme patético pelo que está à margem não foram questões de importância menor para as pioneiras. Mas diante de tanta irreverência, como poderíamos questionar as habilidades desenvolvidas pelas mais novas para sustentar os territórios conquistados?

As mais novas criarão suas próprias equações; em muitas delas possivelmente faremos parte de sua linhagem, mas não se trata de esperar que elas sejam nossas continuadoras. Este momento histórico lhes pertence. Cabe a elas pensar o que é preciso fazer hoje. De qualquer forma, muitas de nós seguimos por aqui. Estamos à disposição.

Os rapazes também constataram o padecimento, tanto das mães que se liberaram “demais” quanto daquelas que não se animaram a desafiar o mundo que tinham.

Rapazes e moças notaram a falta de compreensão desses homens de gerações anteriores, encerrados em uma masculinidade bastante estereotipada; conquistadores seriais, voltados para o sucesso público, sem se permitir relaxar e desfrutar do que há de mais íntimo, mais cúmplice, mais amigável na relação amorosa.

Diante de tanta afetação e desencontro no universo heterossexual, o olhar se voltou para alguns e algumas que se aventuraram por erotismos e amores com pessoas do mesmo sexo. Diversidade sexual e novas configurações, onde a lógica binária parecia ter se esgotado. Porém, na hora das conjugalidades dos recém saídos do armário, parecem surgir armadilhas semelhantes às que aprisionaram a heterossexualidade. Mas ainda falta muito para que a última palavra sobre o assunto seja dita.

Quando se tenta desentranhar as diferentes lógicas que unem e confrontam homens e mulheres, por onde passam suas diferenças? É possível pensar as diferentes lógicas em que operam os gêneros sem partir de suas desigualdades históricas? Como foram gestados os seus modos de subjetivação, que ainda hoje apresentam tantas diferenças nas formas de individuação, de construção de diferenças e de liberdade de escolha?

Seria possível pensar que as políticas da diferença se esgotaram ou não fazem mais sentido? Seria exagerado afirmar algo assim, mas certamente se pode afirmar que nenhum grupo social que convive com a desigualdade verá as suas reivindicações plenamente atendidas apenas a partir da diferença. Por outro lado, a atual crise mundial das políticas neoliberais gerará mais desigualdade nos grupos sociais já desigualados. De formas diversas, é sobre eles que o peso da crise será maior. Muitas das conquistas e das garantias alcançadas poderão ser perdidas. Mulheres, negros, pobres, etnias, regiões geopolíticas subalternas, orientações sexuais não heterossexuais, jovens, todos poderão piorar de vida.

Se no âmbito acadêmico é possível propor reformulações conceituais para permitir que os excluídos de um sujeito universal essencializado tenham lugar, visibilidade e voz, no âmbito político torna-se necessário articular, em redes globais, as histórias e propostas da diversidade de grupos, sexos, etnias e regiões desigualados. Não num futuro próximo, não amanhã, mas hoje, para que se possa dizer junto com Harvey Milk: ‘Somos os outros. Todos somos os outros’.

* Professora da Faculdade de Psicologia da UBA [Universidade de Buenos Aires]. Texto extraído de Las lógicas sexuales. Amor, política y violencias (Ed. Nueva Visión).

[Página|12, seção "Psicologia", a respeito das "Lógicas sexuais contemporâneas". Tradução minha.]

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Três murmúrios com o tempo no meio

Noto que hoje em dia, ou melhor, há pelo menos dois ou três anos, graças em grande parte às (ainda) novas tecnologias da informação prevalece a valorização de um tal de “tempo real”, seja lá o que isso de fato quer dizer. Por conta dele, suspeito que boa parte das reflexões sobre o tempo andem relegadas aos livros e artigos de história, de filosofia e de física. Mesmo não sendo versado em nenhuma dessas disciplinas, me arrisco a caraminholar uma ou outra coisa sobre. Certas peculiaridades, por exemplo. Destaco algumas.

A primeira: com excessiva frequência é um tempo regido pelo fígado e pelos pulmões.

A segunda: caso não se fale de forma sintética, de preferência com frases de efeito, poucos escutam. Não por acaso quase sempre prevalecem as primeiras impressões a respeito do que é dito, com o fígado da peculiaridade anterior tendo importante papel sobre o que acaba sendo (ou não) compreendido.

A terceira: embora todos pareçam saber que o mundo ficou mais complexo, com muitas cores intermediárias, impera o maniqueismo. A lógica dominante é a do “quem não está comigo está contra mim”.

Diante disso, alimento uma enorme dúvida: como, apesar do anterior, as pessoas conseguem se entender minimamente sem enganar-se de todo? Reformulando: por que insistem em tentar se entender?

* * * * *

Cinco minutos atrás vi uma velha crença balançar. Tenho heróis, sim. É que são tantos e tão discretos que nunca pensei neles como tal. Trata-se de um heroísmo diário, feito da soma de pequenos gestos cotidianos, razão pela qual eu não os via como algo digno de nota. (Some-se a isso uma histórica má-vontade com a própria ideia de herói, um sujeito que de tanto ser instrumentalizado a torto e a direito ainda me dá urticária, levando-me a preferir gastar, digo, perder meu tempo cultivando anti-heróis.)

Acredito ter apenas uma coisa em comum com boa parte desses heróis até então anônimos para mim: o desejo de um mundo onde o berro se restrinja aos bons cabritos e aos que por conta da própria passagem do tempo já não escutam muito bem (vide a primeira peculiaridade do murmúrio anterior). Fora deles, só em situações extremas e com cotas individuais mínimas. (Gastou os gritos? Agora, só no ano que vem.) De resto, a diferença entre a gente é uma só: eles são muito melhores do que eu. Mais generosos e mais justos, no mínimo. Ou de humanidade mais calibrada, por assim dizer.

* * * * *

Sou do tempo em que ninguém dava bola para os que começavam uma conversa dizendo sou do tempo em que.

Uma frase dita sábado passado. Há milênios, pois. De alguém de uma geração que seguia os passos daquela outra que não confiava em ninguém com mais de trinta anos. Farsa, portanto.

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Mescalina, psilocibina e azeite de dendê

Rodoviária de Nanuque, nordeste de Minas, 6:17 a.m. Ônibus para Belo Horizonte, só às oito e meia. Cadu e a irmã — hoje não se dão bem, há doze anos sim —, sonolentos da maratona iniciada em Itupeva (três e meia da madrugada), léguas de chão de terra batida atrás. Levanta-se ela e compra um jornal local, querendo enganar o tempo que teima andar mineira e baianamente devagar. Um minuto só e ele já escuta um “Posso dar uma palavrinha com o senhor?”, moça de uns dezenove se tanto, trança rapunzeliana, saia de escolar abaixo do joelho, manga comprida e colarinho abotoado, naquele calor abafado, tadinha… Tadinha nada!, “A Sentinela” na mão, aquele conhecido jornal dos Testemunhas de Jeová, “saco!” (Apenas pensado, por sorte…) Segue-se um “Pois não?”, de sorriso meia boca. “É que gostaria de lhe oferecer um exemplar da palavra do Senhor…”. “Muito obrigado, senhorita, mas é que sou agnóstico”, a pobrezinha agora sem entender, fazendo aquela cara de por favor me ajuda pro sujeito um passo atrás, que parecia uma espécie de supervisor do que seria a primeira transação comercial-religiosa daquela devota, ex-tadinha. E Salvador — digamos que fosse o nome do sujeito — se aproxima do agora herege, “O senhor disse… ateu?”, e a resposta em forma de “Não, eu disse agnóstico, porque não afirmo a inexistência de Deus, só penso que a compreensão dessa existência é inacessível ou incognoscível ao entendimento humano, daí que é inútil indagar-nos sobre isso”, uma réplica tirada do dicionário Houaiss e o Cadu já bem desperto, calibrando as armas. Pois Salvador rebate num “É porque o senhor ainda não deixou o seu coração ser tocado pela Palavra…”, treplicado com “Engano seu, fui religioso praticante, mas dadas as incongruências e incoerências do catolicismo…”, contestado pelo “Ahá!, eu sabia que o senhor não tinha ouvido a verdadeira Verdade” de Salvador, seguido do “Peraí, me escute um pouco…”, um freio meia-sola, mas funcionou.

(A irmã-hoje-desafeta agora assiste, sentada metros à frente, de camarote. Sabia — hoje não sabe mais — o irmão que tinha, e pôs-se a mirar a cena.)

“Meu caro”, é Cadu no comando, “estamos aqui, você… posso chamá-lo de você? Ótimo! Então estamos você, eu, sua aluna e todos aqui na rodoviária, acreditando piamente que levamos uma vida autônoma”“Guiados por Deus!”, Salvador inflamado, “Calma, paciência, me escute um pouco”, Cadu com as rédeas de novo. “Imagine, só imagine que tudo isso não passa de uma ilusão”, e Salvador com ar de como-assim?? não dá nem um pio e põe cara de sim, continue, ao que retoma Cadu: “Pois é, suponha, apenas suponha que ontem à noite você foi dormir”… “O sono dos justos!”, não se aguenta o Salvador, “Tudo bem, vá lá que dos justos. E enquanto você dormia, não se assuste, mas te conto que uns filhos do demo te anestesiaram, abriram teu crânio, tiraram o teu cérebro inteirinho lá de dentro e puseram ele numa bacia cheia de uma espécie de gelatina que eles chamam de ‘nutrientes’… Pera mais um pouco, sossegue essa ira santa mais um segundo que já já eu termino… não, eu vou é te contar de outro jeito que é pra tirar essa sua cara de não entendi patavinas… já sei!, imagina que teu cérebro é um peixe, que o peixe tá num aquário, que a água do aquário tá cheia de comida pra peixe e que nesse aquário, que na verdade é uma bacia, em vez de comida pra peixe tem comida pros miolos, e que além do mais aqueles filhos do cramunhão espetaram um monte de agulhas com fios, ligadas numas máquinas parecidas com aquelas de hospital e que servem pra te manter vivo, sabe quais?, porque a gente sabe que peixe nada e come sozinho, mas cérebro não”… “Oxe, que diacho, isso não existe, só pode ser sacrilégio!”, “Né não, caaalma, meu jovem, que você não sabe do que esses gringos são capazes… Mas deixe eu continuar. Pois então você, ou melhor, a tua massa cinzenta, agora tá lá, na bacia, e os sem mãe ficam apertando uns botõezinhos nas máquinas, e elas dão uns choques nesse teu monte de miolos… e não esqueça, você tava dormindo quando isso tudo começou, e aí esses choques fazem você acreditar que está acordando, e os pai-d’égua dão outros choques e você começa a sentir o seu corpo, e acha mesmo que está deitado na cama, na sua própria cama, a que fica no seu próprio quarto, e então toma mais uns choques e pronto, senta na cama, e outro choque e abre os olhos, e vê tudo no lugar de sempre, e mais uns choquinos e se levanta, veste esse seu terno puído e vem aqui pra rodoviária, se encontra com sua aluna, e manda ela falar com aquele sujeito, sim, eu mesmo!, e você nem desconfia que é tudo choque junto com comida pro seu tutano, e aproveitando que está na cara que ele, ou seja, eu, não é, ou seja, não sou, de Nanuque, você diz pra sua aluna, sem saber que nem ela e nem você estão lá de verdade, pra ela falar dessa tal Verdade com ele, ou seja, comigo, sem saber que no fundo isso tudo é só um monte de choque, uma pá de estimulação no seu cocuruto, e que o teu mundinho não passa de um mentirinha, e que a verdadeira verdade é que eu não estou aqui, a sua aluna também não, a rodoviária e todo o resto também não, é pura descarga de eletricidade naqueles miolos lá na bacia, que se bobear podem nem ser os seus, vai ver que são os meus e é você que não existe, que é coisa que aqueles discípulos do chifrudo puseram no meu próprio cocuruto, e que”… “Desculpe senhor, com licença, a prosa está boa mas preciso ir embora, desculpe de novo incomodar o senhor”, e lá se vai Salvador, siderado e apressado, levando a aluna-rapunzeliana-ex-tadinha pelo braço, com os sovacos encharcados e as ideias confusas.

Cadu sorri, se espreguiça, estende e apoia os braços no espaldar do banco da rodoviária de Nanuque, a irmã-com-quem-nunca-mais-falou ainda na plateia, cúmplice daquela nova empreitada gestada ali, às 7:14.

“Uma religião só minha. Por que não?”

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[É de 11 de janeiro de 2008, às 23:53. De tanto ver ateus e teístas debatendo deus(es) blogosfera afora, lembrei desse conto.]

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Cura

Itabuna, Bahia, década de 40, trinta anos antes chamada Vila de Itabuna que, por força da Lei n° 807 de 28 de julho de 1910, elevou-se à categoria de cidade, quando nesse então restavam à Rua J.J. Seabra não mais que vinte anos a carregar esse nome, expropriado no rebatismo para “Avenida do Cinquentenário”, por pura falta de imaginação e do que fazer de seus governantes.

Mas isso desimporta. Vale saber é que em certa manhã, ou vá lá que tarde, uma senhora de cabelos brancos, talvez nem tão brancos assim, bateu à porta de um consultório médico, um dos poucos da balzaquiana cidade, pedindo para falar com o doutor — já calvo, embora aos trinta e algo. Dotô, o sinhô pode me ajudá?, e o escalvado dotô, de ouvidos atentos, a senhora me diga o que tem e verei o que posso fazer, para então escutar perplexo a revelação: tô c’uma aranha no cocuruto… E sem dar chance ao jovem médico de pensar em perscrutar-lhe a alva (talvez nem tão alva) cabeleira, sua dona arrematou: que entrou pela aqui, apontando para a orelha esquerda.

Surpreendentemente sereno, nosso alopécico protagonista não teve dúvida. A senhora venha amanhã de manhã, que eu vou operá-la e tirar esse aracnídeo da sua cachola, mirando-lhe a cabeça e deixando-a quase tão serena quanto ele, sobretudo por fazer-lhe entender que o tal de araqueninho nada mais era do que o bicho que andava aranheirando-lhe os miolos.

Não se sabe ao certo a hora do dia, mas o acomiado médico tratou de rumar para casa, onde pediu ao segundo dos seus três filhos, pode que tenha sido ao terceiro, que lhe desse a aranha de borracha a ele presenteada por ocasião das festas natalinas, ou quem sabe em seu aniversário, ou mesmo sem razão festiva nenhuma, com a promessa, tampouco se sabe se cumprida mais tarde, de que seria logo substituída por outra ainda mais bela, se é que existe aranha assim, embora seja bem sabido que o brilho dos olhos dos meninos criados soltos em casa com quintal tende a aumentar diante de formigas, centopeias, lagartixas, sapos e bichos de todas as espécies, por conta das malvadezas e torturas que eles, os meninos é claro, costumam fazer com eles, os bichos é claro.

Feitas essas considerações, deixemos de delongas, pulemos alguns detalhes e voltemos à cirurgia marcada e à senhora que, já no consultório, depois de recostada na maca pelo doutor, é avisada por este da necessidade dum ambiente penumbroso, evitando assim que a aranha se assustasse e resolvesse fugir para outra parte do corpo, bem longe da orelha esquerda, tornando inútil toda aquela empreitada. E a trêmula senhora que, como foi dito, seguia recostada na maca e naquela penumbra que lhe parecia macabra, mesmo sem saber o que macabra quer dizer, aguardou ansiosa pelos procedimentos do jovem dotô. Até que este, com um brilho nos olhos parecido ao dos seus filhos quando fazem peraltices e malvadezas com os tais bichos, e que por sorte não se pôde ver no escuro — sigo falando do tal brilho —, munido que estava de um desses instrumentos médicos que parecem de tortura, começou a cutucar a orelha esquerda da dorida paciente, não a ponto de causar-lhe mais dor, mas o suficiente para que ela soubesse que a cura logo chegaria, enquanto com uma pinça na outra mão batia nos frascos de vidro na mesa ao lado, assustando-a só mais um tiquinho, para então dar um salto, acender todas as luzes, mostrar rapidamente à padecente um chumaço de algodão tingido de carmim, gritar pronto, está aqui a aranha! e jogar tudo no lixo, diante dos olhos primeiro aparvalhados e logo agradecidos daquela senhora não mais sofredora. Dotô, o sinhô curô eu. Como posso li pagá? A senhora não se preocupe, que essa operação é de graça, disse o dotô. Só trate de pôr um algodão em cada ouvido antes de dormir, já se prevenindo das formigas, centopeias, lagartixas, sapos e bichos de todas as espécies que pudessem atacá-la das ideias da próxima vez.

Daquela senhora, o jovem dotô nunca mais soube. Mas deu para perceber, em meio aos largos sorrisos que dava enquanto narrava o acontecido, uma ponta de orgulho, só não lembro se dele ou minha. Pode até não ter sido assim, mas parecido eu sei que foi.
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[Da série "ando sem ter nada que valha a pena contar". É de novembro de 2007. Esqueci o dia.]

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Kafka

Madrugada atribulada de uma metrópole qualquer. Um homem de pouco mais de vinte anos chega ao pronto-socorro com uma bala de pequeno calibre alojada numa das têmporas, fruto de uma mal-sucedida tentativa de suicídio. A equipe médica, liderada por um jovem plantonista e trabalhando em condições precárias, consegue remover a bala, não sem enorme esforço e horas de dedicação. E o jovem médico, entre exausto e irritado, descarrega sobre o paciente:

— Da próxima vez que for tentar se matar, vê se atira no céu da boca, “caramba”! [O termo usado é impublicável.]

Diligente, dois dias depois da alta o paciente seguiu à risca as recomendações médicas.
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P.S. A história tem mais de 40 anos. Creio que deu para contar sem ferir suscetibilidades. A maioria dos envolvidos não mora mais aqui, ou melhor, não mora mais.

[Foi publicado originalmente em 30 novembro de 2007. Olhe ele aqui outra vez.]

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Brasileiros, até que enfim latino-americanos

Conheço um sujeito que anda contente. Eu estranhei, então ele tratou de me explicar, bem do comecinho.

Em castelhano, que sem saber por que sempre preferiu chamar de espanhol, escreveu seus primeiros rascunhos, tatibitateou declarações de amor, iniciou-se na arte de jogar conversa fora e contou suas primeiras piadas ruins, muito ruins. Não era a língua de casa, pelo menos não a oficial. Naqueles tempos estrangeiros, pai e mãe brasileiros questão faziam de plantar, em bom português, alguns dos pés-de-família que aprendeu a cultivar à distância, suas memórias emprestadas, como gosta de chamar. Só que o português de então vivia sendo “corrompido”, aspas com capricho, pelo espanhol de Zoila, zê com som de esse, e de Avelina, as empregadas responsáveis por parte das histórias nada brasileiras que enformaram o portunhol de raiz que ele falava logo que voltou ao Brasil, crente que de português se tratava. (Não sei se deu para entender que ele nasceu no Brasil, saiu daqui vestindo fraldas e voltou ainda moço. Se o subentendido estava mais do que entendido, peço que desculpem a explicação da piada.)

Resumindo: brasileiro, sem dúvida, e latino-americano, óbvio. Mas garantiu que o truísmo não era tão truísta assim. Explicou que sua latino-americanice e a de um monte de conterrâneos ao redor não se pareciam, e que nem precisava ir muito longe para comprová-lo. Bastava falar com os vizinhos do prédio, as colegas do trabalho, o tradutor de Sabrina e Júlia que virou um bom amigo ou boa parte dos primos espalhados pelo país. Disse que, ao contrário do norte-americano médio, todos eles sabiam de cor quais são os países hermanos mais próximos, e que muitos até dirão o nome de no mínimo um dos seus presidentes, nem que para falar mal. E é aí que as diferenças ficavam mais nítidas, ressaltou. Aliás, contou uma historinha besta, já que vive com preguiça de explicar suas teses, ou pelo menos essa é a desculpa que adora dar. Tem a ver com um grande amigo carioca seu, por sinal mais da gema do que muitos, nascido num Panamá que é só mais uma das tantas nacionalidades que carrega, com destaque para duas: rubro-negra e copacabanense (da Gastão). Disse que faz tempo não se veem, mas lembrou, abrindo um saudoso sorriso, como se divertiam com pouquíssima coisa. Uma era começar, do nada, um diálogo em portunhol clássico e, de uma hora para outra, mudar para o espanguês castiço. Fiz cara de não entendi, então falou que era simples: primeiro hablávamos em espaniól, cômo buêna parte de lôs brazilênhos acreditam que fassem, duêla a quiem duêla escutchar. Despuês dávamos una reviravuêlta e entáo falábamus emm bómm portoguéss, tal y qual falan tudus us nóssus ermáos dos paísses becínus, e caíamos na gargalhada. Tá na cara que só eles riam, ninguém acharia a menor graça nessa bobagem.

Aquela lembrança totalmente idiossincrática meio que destampou a panela de onde ele tirou outras tantas, passando a falar empolgado do Chavo del Ocho e del Chapulín Colorado, de Mercedes Sosa, Violeta Parra, Tania Libertad e Atahualpa Yupanqui, do Silvio Rodríguez e do Pablo Milanés, de Charly García e Fito Páez, do Botellita de Jerez, emocionando-se um pouco mais ao lembrar dos velhos discos da María Elena Walsh e desatando a cantar Me dijeron que en el Reino del Revés nada el pájaro y vuela el pez e eu disse tá bom, entendi, não preciso da trilha sonora inteira pra ver que tipo de latino-americano você é. Diga logo uma coisa, perguntei, o que tudo isso tem a ver com o seu contentamento? Desta vez resolveu explicar. Disse que nos últimos tempos, um período que ele não sabia precisar direito, mas ia para mais de dois ou três anos, começou a perceber um contingente maior de pessoas que não só sabiam bem mais do que de costume a respeito das coisas que aconteciam nos países vizinhos, como também se interessavam genuinamente por esses assuntos. Via reflexos disso na música, por exemplo, com cada vez mais artistas argentinos, mexicanos, cubanos e de tantos outros cantos vindo ao Brasil, gente não propriamente ligada ao folclore mais conhecido (e às vezes caricato) de seus respectivos países. Na literatura, no cinema, nas discussões políticas, em todo canto ele notava que as vozes em português pareciam finalmente ir muito além dos clichês chicanos, criollos ou cucarachos. Sua crença, até então tristemente inabalável, de que sempre viveríamos de costas para os países de língua espanhola, começava a claudicar.

Mas não só isso. Ele falou entusiasmado sobre diversos acontecimentos recentes, uma verdadeira inflexão em relação às experiências que tinha sobre o que ele chamava de um jeito entre o insular e o imperialista do Brasil em relação ao resto da América Latina, um imperialismo que só não se mostrara ultra-evidente por conta da necessidade do país de lidar com seus inúmeros e abissais problemas internos. Foram várias as referências que ele mencionou, mas lembro melhor de algumas: a importante participação brasileira na MINUSTAH (Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti), assim como a atuação do país no recente golpe em Honduras, que mesmo não tendo o desfecho que ele gostaria, foi bem mais ativa do que de costume. Também viu com olhos compreensivos a reação brasileira frente aos reclamos da Bolívia quanto à exploração de suas reservas de gás natural, do mesmo modo que do Paraguai a respeito do valor recebido pela energia de Itaipu. Esperava, é claro, que boa parte das reações pátrias fossem negativas, críticas de um Brasil que se mostrava fraco e blá-blá-blá, e de fato viu isso inundar a mídia. Mas, para sua surpresa, muitas vozes destoaram desse discurso habitual e entenderam de outra maneira o papel do país em relação aos seus parceiros mais pobres, que a necessidade de fortalecê-los era a atitude muito mais do que acertada. E vi sua emoção pela manifestação de júbilo de incontáveis jovens brasileiros por conta da aprovação, pelo Senado argentino, do matrimônio civil de casais homossexuais, com a torcida para que esse exemplo seja seguido por aqui de uma vez.

Para coroar, falou da análise do Samuel Pinheiro Guimarães sobre o futuro da América Latina — que tomou conhecimento por um dileto vizinho deste blog, o jornalista Marco Weissheimer, do RS Urgente— e ainda arrematou com a sua empolgação mais recente: a notícia de que agora em agosto começará a funcionar a Unila, “a primeira universidade criada para impulsar e consolidar os laços entre as nações da América latina”, segundo o jornalista Javier Lorca escreveu para o Página|12, um avanço concretizado sobretudo graças ao empenho do governo Lula. Tudo bem, vamos ver os percalços dessa iniciativa, talvez no começo não funcione direito, mas duvido que seja mais difícil do que aconteceu coma União Europeia, ponderou com animação.

Diante de tudo isso, entendi muito bem todo o seu contentamento. Ele pôde ver ainda em vida como o panorama finalmente mudou, de que ao falar em América Latina há algo bem mais compartilhado, muito mais amplo, vivo e coletivo do que as suas lembranças pessoais ou as brincadeiras com seu amigo carioca-panamenho. Outras vozes, com histórias muito diferentes das dele, não só veem as coisas de maneira semelhante, mas também fazem por onde para as nossas latino-americanices falarem bem mais do que portunhol ou espanguês.

E cá entre nós, eu também fiquei contente.

[Na blogosfera mais próxima há um monte de gente tão ou mais latino-americana do que esse sujeito que eu conheço.  O Maurício Santoro o Sergio Leo, o Idelber Avelar (infelizmente hibernando), o Alex Castro são só alguns dos mais bacanas que me ocorrem.]

Um P.S. tardio: o sujeito que conheço esqueceu de dizer que ele sabe muito bem da existência de um Brasil há muito tempo latino-americano. Dele fazem parte os estados do sul do país, além de todas as cidades de fronteira. É um Brasil que grande parte do centro, do  norte, do sudeste e do nordeste desconhece. Faz tempo esse Brasil sabe o que é bom.

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Sobre rótulos

Primeiro, uma ótima entrevista de Iara Biderman com o psiquiatra Daniel Martins de Barros, do núcleo de Psiquiatria Forense do Instituto de Psiquiatria da USP, publicada no Caderno Equilíbrio e Saúde da Folha de SP, na esteira do “Caso Bruno”:

Psiquiatra forense critica ‘telediagnósticos’ de psicopatia – 17/07/2010 | Folha de SP

Crimes brutais como o caso Bruno costumam trazer à cena a caracterização do suspeito como “psicopata”.

Para Daniel Martins de Barros, do núcleo de Psiquiatria Forense do Instituto de Psiquiatria da USP, “diagnosticar” transtornos psiquiátricos dessa forma é um desserviço à sociedade.

Ele diz que rotular comportamentos não ajuda a buscar soluções para o crime, e aproveita para criticar o determinismo biológico, corrente segundo a qual as causas do ato criminoso estão em configurações do cérebro ou de genes.
Em entrevista à Folha, Barros explica por que é tão difícil para a medicina lidar com a psicopatia.

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Folha - Faz sentido chamar supostos autores de crimes bárbaros de psicopatas?

Daniel Martins Barros - A vulgarização da palavra psicopata é um desserviço para a sociedade, a psiquiatria, a justiça, todo mundo.

Por quê?
Antes, nas novelas, havia o mocinho e o bandido. Hoje, é o mocinho e o psicopata. A pessoa não tem mais direito de ser bandido, é de cara rotulada de psicopata. É o uso indevido de uma caracterização que se pretende científica. Há psicopatas de fato, e eles têm características que são um transtorno de personalidade. É uma forma disfuncional de se relacionar que é permanente, refratária a modificações. Se você pega uma pessoa que cometeu um crime, por mais bárbaro e bizarro que seja, e fala que ela é psicopata, está dizendo que ela sempre foi assim, que desde muito cedo é fria e indiferente ao sentimento alheio, que nunca vai mudar. O pior é o telediagnóstico: você vê uma cena na TV e fala que o cara é psicopata. É tratar o diagnóstico de forma muito leviana.

Que tipo de dano isso traz?
Há uma tendência de querer considerar crimes como fruto de uma alteração psíquica. A sociedade tenta buscar nas ferramentas médicas a solução para o crime.
Nós já passamos por isso na história e sempre nos demos mal. Um exemplo atual e polêmico é um diagnóstico criado no Reino Unido chamado “transtorno de personalidade grave e perigoso”. Se uma pessoa tem esse diagnóstico, pode ter a liberdade cerceada para “tratamento”, independentemente de ter cometido um crime.
A banalização da psicopatologia aponta para o reducionismo do crime, que tira a sua multicausalidade.
Você não pode falar: crime é fruto [apenas] da pobreza, da falta de educação, da ausência de Estado. É uma conjunção de fatores. Da mesma forma, você não pode falar que o crime é [apenas] fruto do psiquismo do indivíduo
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O que define o psicopata?
A psicopatia já significou um monte de coisas na história da psiquiatria. No início, era qualquer doença mental. Depois, designou transtornos de personalidade.
Hoje, as principais correntes a definem como um subtipo de personalidade antissocial caracterizada pelo desapego às normas sociais, por certa indiferença e propensão à criminalidade.
O psicopata é o grupo mais grave desse tipo de personalidade, com características como extrema frieza, total indiferença ao outro e maior vivência criminosa. Não são necessariamente crimes violentos. O cara pode ser um político, um médico, não um criminoso comum, ele vai exercer sua frieza e sua crueldade em outros contextos.

Essas características podem se manifestar ou não?
Exato. Um cara que é mais frio e não se afeta com o sofrimento alheio pode ser um bandido ou um socorrista de ambulância. Para o sujeito pegar miolo no asfalto ele não pode se afetar muito com o sofrimento alheio. A frieza não é necessariamente um defeito. Só estou querendo matizar a questão.

Mas há correntes para as quais exames de neuroimagem mostram alterações que determinam um psicopata.
É um erro de interpretação científica. O sujeito está fazendo ciência, mas não está refletindo, não tem visão do todo. Faz estudo de neuroimagem e vê que, na maioria dos psicopatas, há função reduzida do córtex frontal.
Bom, tem todo o sentido, o córtex frontal é o que nos dá capacidade de autocontrole. Aí, o cara fica feliz: “encontrei a causa da psicopatia, é a função reduzida do córtex!”.
Calma aí. Associação é diferente de causa. A associação entre o córtex e a personalidade psicopata pode ser a causa ou a consequência.

E se uma pessoa que não manifesta sintomas tem a imagem cerebral com essa alteração no córtex?
Aí é que está. A alteração no córtex aparece em 80% dos psicopatas e em 30% dos não psicopatas. A ligação está estatisticamente provada.
Mas há 20% dos psicopatas que não têm alteração nenhuma e, pior, 30% de pessoas sem transtorno de personalidade que mostram alteração na imagem cerebral.

Quais são as outras supostas causas da psicopatia?
Não sabemos. Como tudo em psiquiatria, é multifatorial. É uma conjunção como predisposição biológica, funcionamento cerebral, influência do meio etc.

Como é feito o diagnóstico?
É clínico, apoiado em um questionário.

O diagnóstico de psicopatia pode mudar a pena?
O psicopata não tem prejuízo do entendimento ou do autocontrole. É imputável, se for condenado, é um preso comum. Pode merecer tratamento psiquiátrico, mas não significa que tenha a responsabilidade diminuída.

Há cura para a psicopatia?
Não há tratamento comprovado. Se o sujeito é mais impulsivo ou muito irritado, pode tomar remédio para diminuir essas características, mas é só sintomático. As terapias psicológicas, em alguns casos, até pioraram o quadro do transtorno.

Qual é a incidência de psicopatas na população?
Cerca de 1% da população mundial e, em média, 10% da população carcerária. [Todos os destaques em vermelho são obviamente meus.]

Em segundo lugar, quero fazer uma simples pontuação sobre os rótulos que todos nós usamos: como são dinâmicos!

Antes de entrar no mérito, melhor apresentar definições de alguns termos relacionados aos rótulos. Eles dizem respeito a um modelo sobre a forma como percebemos e que consiste em três fases: atenção, organização e recordação. Falarei um pouco das duas primeiras.

Na fase da atenção filtramos a maior parte das informações disponíveis ao nosso redor. Isso se dá pelo simples fato de que os nossos sentidos são bombardeados por muito mais informação do que conseguem processar. Há, porém, alguns vieses nesse processo, que consistem no fato de sentir-nos mais atraídos tanto por objetos ou informações que confirmem nossas expectativas quanto por aqueles que satisfazem nossas necessidades ou interesses. Ou seja, não somos nem um pouco passivos em relação àquilo que nos chama a atenção, ao contrário do que muitos supõem.

Na fase de organização a porca torce o rabo mais uma vez. É que como ainda sobraram muitas informações da primeira fase e para entendê-las e armazená-las tendemos a simplificá-las e agrupá-las em forma de esquemas, dos quais se destacam dois tipos: os scripts e os protótipos.

Os scripts nada mais são do que roteiros, sequências a respeito de alguma ação. Em outras palavras, pegamos aqueles elementos aos quais num primeiro momento prestamos atenção e montamos uma historinha com eles. Trata-se de uma forma de entender e guardar melhor esses dados. O aspecto crítico desta fase é que ao montarmos esses roteiros numa sequência que faça sentido, costumamos tanto acrescentar algumas coisas e eventos que não faziam parte do cenário original quanto apagar outras que realmente aconteceram. (“Quem conta um conto aumenta um ponto”, diz o ditado, embora boa parte das vezes uma série de pontos sejam simplesmente excluídos…)

Os protótipos, por sua vez, são esquemas que refletem características das pessoas. Alto, baixo, gordo, magro, negro, branco, asiático, careca, cabeludo, falante, silencioso… Trata-se de uma espécie de esboço, que por isso mesmo não representa um retrato fiel do original. Sem falar que a eles somamos os estereótipos,1 generalizações amplamente disseminadas sobre um grupo de pessoas. Costumam organizar-se em torno à idade, sexo, origem étnica, grupo sócio-econômico e a tantas outras características socioculturais, além de serem quase sempre negativos. (Todo cigano é ladrão, baianos são preguiçosos, cariocas são malandros, mulheres dirigem mal etc.)

Tendo em mente esses dados sobre uma parte do nosso processamento das informações a respeito do mundo que nos cerca, volto aos rótulos, especialmente ao de psicopata, pedindo a você que sirva de exemplo no que diz respeito ao uso do termo.

Imagine-se dizendo que alguém é psicopata. Que seja o goleiro Bruno, pois. O que esse rótulo significaria? A esta altura do campeonato, depois do bombardeio diuturno sobre o possível assassinato de Eliza Samudio e de que o jogador seria no mínimo conivente e no máximo participante do crime, é quase certo que o sentido do termo psicopata seria o de um assassino frio, sanguinário, sádico, um completo monstro ou alguma variação do tema, não?

Então mude o personagem. Tire o Bruno do cenário e coloque no lugar um primo que não vê há décadas e cuja lembrança nutre com carinho; ou então um amigo de infância, de quem a vida te afastou. Um belo dia você recebe a notícia de que ele cometeu um crime. Matou alguém, e a informação que te chega é que o fez de forma fria, sem nenhum motivo aparente, nada que justificasse tal ato. Você ainda lembra de como ele era, de seu comportamento quando garoto, mas não te vem à mente qualquer atitude que o caracterizasse como um possível assassino na vida adulta. Psicopata, alguém diz. É, parece mesmo tratar-se de um psicopata, você pensa.

Pergunto: o sentido da palavra, os sentimentos e impressões que ela evoca, tudo o que envolve o termo “psicopata” teria o mesmo valor nos dois casos? O seu uso seria o mesmo em ambas circunstâncias?

Tem certeza?

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____________

1 Encontrei um blog interessante sobre o assunto: Os Estereótipos e a Psicologia Social, do psicólogo Marcos Emanoel Pereira, professor do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal da Bahia. Não o explorei em profundidade, mas vi muito material bastante interessante, com links para artigos e conferências. Vale uma olhada.

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Do vosso venti. Jesus.

Da nossa morrrte, amém

[Aparecendo um pequeno ícone em forma de caixa de som à
esquerda do link é só apontar o mouse, não precisa clicar]

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Não lembro como foi que a minha sobrinha, filha de pais ateus, conseguiu esse ursinho de pelúcia que reza Ave Maria. Pode que tenha sido presente de algum desavisado amigo da mãe dela; pode que se trate de uma boutade do pai, que teria adquirido o boneco quando esteve em São Paulo, no ano passado, em viagem de trabalho. O que sei é que há algo de ardiloso nele — no boneco, não no meu cunhado —, e falo sério. É que tenho sérias dúvidas sobre qualquer suposta função evangelizadora em sua gênese, a menos que se trate de uma evangelização às avessas. Porque, confesso, essa voz infantil declamando a Ave Maria com sotaque do interior paulista faz com que “Do vooosso venti (sic). Jesus” e “da nossa morrrte, amém” sejam as únicas frases a reverberar em meus ouvidos.

Sei não, mas por trás dessas mãozinhas unidas em oração, desses olhinhos fechados e do som de órgão ao fundo da gravação há algo de muito estranho, arrisco a dizer que potencialmente maligno. Bem mais, mesmo, do que um seu congênere de feições humanas que se tornou, décadas atrás, reconhecido ícone do horror, gerando inclusive uma verdadeira horda de seguidores.

Regina Duarte, se viva estivesse — politicamente falando —, teria medo.

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Brilhante, cara, adorei o que você disse, é exatamente o que eu penso!

Todos os domingos uma das vias da orla da zona sul do Rio é fechada ao trânsito, tornando-se uma grande área de lazer ao ar livre. É um programa gratuito, agradabilíssimo e de grande valor não apenas por proporcionar lazer para todos, mas também pelo seu caráter pedagógico: olhar para aquela barafunda de gente saindo ao sol desde as primeiras horas da manhã é aprender muitíssimo sobre quem somos.

A respeito desse aprendizado, é lugar-comum dizer que prestamos uma atenção danada naqueles com quem nos identificamos, com destaque especial para os que apresentam características que desejaríamos ter. Vale o mesmo para o fato de também voltarmos o nosso olhar àqueles que representam tudo o que não queremos para nós ou para os nossos. Precisamos dos dois tipos, é óbvio. Aprendemos, reforçamos o que já sabemos e reafirmamos quem somos através de ambos.

[Identidade é algo mais rico e complexo do que essas identificações e esses reforçamentos, além das demais considerações que seguirão abaixo. Mas como este é um post-conversê e não um artigo acadêmico vou deixar como está, está bem? Prossigo.]

O que acabei de dizer me faz evocar uma imagem bem comum nessa tal grande área de lazer domingueira e zona-sulística: o grande número de crianças conduzindo carrinhos elétricos, perseguidos por pais e mães ansiosos (e quase sempre de língua de fora) tentando acompanhar-lhes o ritmo e gritando prestenção, filho, vira pra esquerda, não, pro outro lado, cuidaado, sai da freeeente! E ai dos nossos tornozelos se os alvos do sai da freeeente! formos nós… O ideal é que não fôssemos, claro, porque assim poderíamos ver algo tão comum quanto os tais gritos de pais e mães desesperados: o fato da direção dos carrinhos quase sempre ser a mesma que a das cabeças das crianças. É só elas olharem para qualquer coisa à direita ou à esquerda e lá se vão seus bracinhos virar o volante para o mesmo lado, e dá-lhe sai da freeeente!… Fofo, não é assim que se diz?

Bom, em todo caso, eu acho. Só falta agora dizer qual a relação dessa imagem com o primeiro parágrafo, e dar logo a entender o que o título tem a ver com as calças. Começo pela direção perigosa e ao mesmo tempo fofa das crianças. Acontece que não vejo a mesma graça quando se trata de adultos fazendo algo semelhante. E não, não me refiro propriamente a adultos dirigindo automóveis de verdade. Afina de contas, auto-escola e exame para tirar carteira de habilitação estão aí para impedir esse tipo de cena, é claro. Fico pensando mesmo é sobre o que falei lá em cima, a respeito desse jeito de enxergarmos o mundo tomando a nós mesmos como base para avaliar tudo. Sim, penso nesse mecanismo que, quando levado a extremos, vem a ser não mais do que um umbiguismo radical que nos cega a respeito do outro, do diferente, do estranho, incitando-nos a julgá-lo quase sempre de maneira negativa. Trata-se de um umbiguismo que também nos leva, com excessiva frequência, a ter olhos apenas para aquilo que confirme as nossas crenças, desejos, ideias, pensamentos, valores e seja lá o que for que nos constitua. Ou seja, o frequente, o comum, o rotineiro é não termos olhos para o que destoe da gente, é valorizar apenas aquilo que se coadune com as nossas ideias. Nosso olhar, nossos corpos e nossas visões do mundo tendem a seguir o mesmo rumo, desconsiderando outros caminhos e, muitas vezes, deixando roxos os tornozelos de quem insiste em não sair da frente.

Bom, a esta altura do campeonato não preciso mais explicar o título do post, não é?

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Engana-se, deputado, a Argentina é um exemplo virtuoso

É um exemplo danoso, muito próximo de nós.

Quem disse essas palavras foi o deputado Jairo Paes de Lira, do PTC-SP (e tem blog), coronel da reserva da Polícia Militar, a propósito da louvável aprovação, pelo Senado argentino, do matrimônio civil de casais homossexuais. O parlamentar brasileiro, na contramão dos argentinos, é autor de uma excrescência em forma de projeto de lei, o de número 5167, que pretende alterar o Código Civil para tornar explícito que “nenhuma relação entre pessoas do mesmo sexo pode equiparar-se ao casamento ou a entidade familiar” (UOL Notícias).

Uma curiosidade infeliz: Paes Lira ocupa a vaga deixada pelo falecido Clodovil Hernandes. Este também propôs um projeto de lei que segue tramitando na Câmara, mas que caminha na direção oposta: propõe reconhecer a união homoafetiva.

Ao ser entrevistado, o deputado Paes Lira disse mais:

O casamento existe para perpetuação da espécie humana; até por percalços naturais, não há perpetuação com pessoas do mesmo sexo. (Id.)

Tenho algumas perguntas, nobre deputado, e para chegar a elas, começo dizendo que vivo em união estável com uma mulher, e lá se vão doze anos; que nenhum dos dois temos problemas físicos de caráter reprodutivo; e que, a despeito disso, não tivemos filhos porque não quisemos. Agora, as perguntas:

1) Existe algum lugar para pessoas como nós no seu modelo de casamento e de sociedade?

2) Como é provável que não exista, o que o senhor propõe? O paredão, talvez?

Em tempo: o exemplo de uma união estável entre pessoas de sexo diferente que escolheram não ter filhos foi usado de forma anedótica, é claro. No máximo eles podem ser considerados um par pouco comum — algo que acontece, apesar de estarmos em pleno século XXI —, mas ambos seguem amparados por lei, com os mesmos direitos de qualquer outro que escolheu casar-se no civil e no religioso, e quis ter uma penca de filhos.

Ah, o primeiro casal espera viver o suficiente para ver o Brasil estender esses direitos a casais do mesmo sexo.

[Leia uma matéria simples da BBC Brasil falando da questão no Brasil.]

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“Quando eu morrer quero ir de fralda de camisa, defunto pobre de luxo não precisa”

Hoje li uma notícia que me incomodou bastante: Brasil é o 3º pior em ranking de ‘qualidade de morte‘”. Em outras palavras, entre os 40 países consultados, ficamos em 38º lugar no que diz respeito à qualidade e disponibilidade dos cuidados oferecidos às pessoas no fim da vida. Poderíamos supor que isso se devesse à baixa qualidade da saúde pública no Brasil, mas isso não daria conta do assunto. Acontece que a pesquisa constatou que muitos países com sistemas públicos de saúde de muito boa qualidade têm “uma qualidade de morte ruim, por não haver, por exemplo, cuidados paliativos suficientes para os doentes”.

O que me faz perguntar: por que somos tão desumanos?

Bom, é óbvio que não tenho resposta, ao menos não uma resposta satisfatória. Mas algumas questões correlatas já vi tratadas blogosfera afora. Sobreveio ainda agora a lembrança de um antigo post da Carla Rodrigues, publicado no falecido NoMínimo, com o título: “Sobre as mudanças na morte contemporânea“. Um trecho dele:

… A ‘humanização’ da morte – a idéia de que o doente vai morrer em casa, cercado da família e dos amigos – depende de uma mudança cultural profunda, que ainda não aconteceu. A morte como mais uma etapa da vida, como é tratada pelas equipes de cuidados paliativos, está longe de ser aceita culturalmente por gente que foi criada com medo da morte, tentando manter uma distância segura em relação aos mortos, como se a proximidade fosse uma ameaça, uma constatação inevitável da nossa finitude.

A partir desse trecho, fiz algumas considerações num texto pessoal que trazia esse título aqui de cima, as primeiras linhas do samba “Nego Véio Quando Morre”, do grupo Os Originais do Samba, do qual o saudoso Mussum, do finado Os Trapalhões, fazia parte. Transcrevo então o que disse à época, com mínimas modificações em algumas frases, mas preservando o seu sentido original:

O que me atrevo a dizer sobre o assunto [a humanização da morte] é que os próprios avanços tecnológicos, em particular na área da saúde, aumentaram tremendamente a expectativa de vida do homem, o que em princípio é bom. Porém, um dos efeitos colaterais de tanta tecnologia é, por incrível que pareça, o paulatino desconhecimento de si, algo que não me canso de pontuar. Temos especialistas garantidos para nos falar sobre absolutamente tudo a nosso respeito, seja na figura dos médicos, dos counselors de áreas diversas ou dos personal sei-lá-o-que. E mais do que aprender sobre nós mesmos, em muitos momentos acabamos reféns, fragilizados pelo que seria a imensidão da nossa ignorância, que só com o ‘auxílio luxuoso’ (e de preço nem sempre módico) dos tais especialistas garantidos conseguiríamos aplacar. Por outro lado, com a ideia de uma família há tempos entendida como família nuclear, com poucos membros, muitas das tarefas que antes podiam ser distribuídas entre mais gente agora precisam ficar a cargo de uns poucos: o cuidado com as crianças, o acompanhamento de incapacitados (físicos e/ou mentais), e também dos moribundos, foco de um antigo texto da jornalista Carla Rodrigues do qual destaquei o trecho aí de cima. Quero dizer com isso que ‘antes era bom e hoje não é’? Claro que não! Seria leviano fazer uma simplificação dessas. Jamais trocaria os procedimentos médicos contemporâneos por sangrias, emplastros e orações, enquanto urra-se de dor por conta de algum tipo de câncer, por exemplo. Mas penso no tempo empregado nos cuidados com pessoas totalmente dependentes, inclusive no tempo afetivo, isto é, o quanto cada pessoa consegue dedicar ao adoecer de um ente querido, um padecimento tão grave que chegue até à morte. E nesse sentido, o peso sobre a tal família nuclear tornou-se imenso, família essa que também precisa manter-se trabalhando, até mesmo para cobrir os gastos que as situações anteriormente descritas exigem.
Por último, na toada das transformações sociais, a própria morte vem sendo tratada por muitos como uma doença e não como parte do viver. Sendo assim, cada vez sabemos menos sobre os processos que envolvem a morte — no sentido de ‘termos contato, proximidade, experiência, convívio’, e não no de ‘termos informações sobre’ —, já que ela é encarada (também) cada vez menos como um processo inerente à vida, fazendo com que permaneçamos sempre distantes dela — exceto em situações consideradas excepcionais e ‘não naturais’, tais como acidentes, assassinatos etc. — e, com isso, nos tornemos mais e mais incompetentes para lidar com a elaboração do luto, a assimilação das perdas e a superação das dores, processos fundamentais para seguir adiante com a própria vida.

E para terminar, o simpático samba Nego Véio quando Morre:

Os Originais Do Samba – Nego Véio Quando Morre

[basta apontar o mouse para o pequeno ícone em forma
de caixa de som à esquerda do link e a música começa]

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Perspectiva

Tenho um amigo, que tem um primo, que tem um vizinho… e é desse telefone sem fio que vem a história.

Década de setenta. Um garoto de classe média, com seus quatorze anos, precisa passar por uma cirurgia. Hospital público, nenhum luxo, exceto pela equipe que o opera, liderada por um dos mais renomados ortopedistas do país, e mais sorte ainda por ter ficado num quarto só para ele. Operação bem-sucedida, um belo parafuso abaixo da patela, três meses de gesso e muletas, outros três de fisioterapia, até a nova internação para enfim retirar o dito parafuso.

As contas dizem: seis meses se passaram. E o desânimo do garoto aparecia no andar, nos sorrisos bissextos, na perspectiva de voltar ao hospital, ao gesso e às muletas, o que não melhorava o cenário. Fazer o que, lá se foi ele. E o quarto? Nada feito, todos ocupados, só tinha enfermaria, droga. Outra anestesia, tudo escuro. Acorda, já com o joelho livre do parafuso, numa das camas da ala masculina onde ficaria por uma noite, mais dois ou três meninos também operados fazendo-lhe companhia. Queixava-se entre dentes da dor, da vida paralisada, da interrupção da carreira de atleta, da incômoda falta de privacidade daquela enfermaria, embora ninguém ali estivesse sequer olhando para ele. Até que a noite chegou e quis alguma distração para que o tempo passasse depressa. Que tal ver televisão? Ali não havia, só na ala feminina. Destravou a sua cama de rodas e tratou de manobrá-la rumo ao fundo do corredor. Foi só passar pelos biombos que separavam os meninos das meninas e pronto, começou o bombardeio. A garota da primeira cama à direita, duas pernas engessadas, chamou a atenção das outras: “olha lá, que gatinho!”, e a gargalhada foi geral. “Chegou o meu remédio!”, disse outra, o tronco completamente imobilizado, mal podendo virar o rosto e ainda assim mostrando todos os dentes do tanto que ria. O menino foi do sem-gracismo ao raivismo num pulo só, e mais ele se enfurecia, mais elas caçoavam dele. Especialmente uma magricela, a perna direita com um daqueles ferros para alongamento ósseo, suas duas mãos saindo do tronco por conta da falta de braços, decerto Síndrome da Talidomida, mas com a língua e o humor em ótima forma, afiadíssimos. Minoria que era (e menino-objeto que se sentiu), o garoto saiu de lá bufando, dirigindo sua cama a toda velocidade em direção a sua ala, os braços ágeis compensando direitinho a falta de mobilidade nas pernas. Estacionou sua cama na vaga que lhe cabia. Ao longe, as gargalhadas diminuíram, substituídas pouco a pouco pelo som de algum programa de tevê. A raiva sumindo, também pouco a pouco. Uma outra vergonha aparecendo, pouco a pouco de novo, ocupa o espaço da anterior, a de ter sido objeto de troça, daquela forma de sedução que na hora lhe pareceu disparatada, inconveniente. Vergonha nova, vergonha de nem ter lembrado que tinha dor, graças àquela menina que nunca andaria com as próprias pernas, àquela outra sem braços, a uma terceira, presa a uma cama de hospital por boa parte da vida, e a outras tantas que lhes seguiram nas gargalhadas. Todas juntas, com quadros um zilhão de vezes mais graves do que o dele e um tom debochado que desmantelava qualquer tragédia, acabaram levando-o a esquecer de seus queixumes, a dar-se conta que dali a algumas horas ele sairia daquela enfermaria, em algumas semanas se livraria do gesso, faria nova fisioterapia e retomaria a vida de antes, quase igual, apenas com os novos desafios impostos a alguém que interrompera suas costumeiras atividades ao longo de mais ou menos um ano.

Mais ou menos um ano. Antes daquela noite, com jeito de sua existência inteira. Agora, não parecia mais grande coisa.

O tal vizinho do início do post de vez em quando se lembra dessa história. Perspectiva, lembre-se da perspectiva, ele diz ao primo do meu amigo sempre que se encontram. E de sentir as vergonhas certas, especialmente aquelas que resultam em sorrisos bem-humorados, acrescento, só para não deixar a ligação do telefone sem fio cair.

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Prosódia

— Não nega, Nego!
— Nego sim, Nega, nego sim.
— Nega?!
— Ué, Nega, nego não nega?
— E como! Né não, Nego?
— E nega não nega não?
— Não, Nego, não nega não.
— Como não?!
— Tá, Nego, nega nega, não nego; mas Nega não.
— Ah, Nega, não nega, nega sim…
— Nego não!
— Nega, ô se nega!
— Bom, Nego, não nego que nego, mas você nega mais.
— Nego?
— Nega.
— Então tá, nego mais que você.

— Nego?
— Que é, Nega.
— Não nega mais não…
— Tá bom, Nega, não nego mais.
— E??
— Mulata, Nega. Ela era mulata.

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[Para acompanhar, Nega de Obaluê, do Wando, com Pedro Luís e a Parede.]

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Ingredientes: cultura, diversidade, (des)respeito, ingerência, gênero, sexualidade, religião y otras cositas [ATUALIZADO]

PETIÇÕES:
Por Sakineh Mohammadi Ashtiani: assine aqui
Pelo fim da pena de apedrejamento: assine aqui

* * * * *

Calma, não vou falar dessas coisas todas, elas só estão implícitas no tema dos textos que traduzi e que aparecem abaixo (e já sabem, os prováveis erros são do tradutor, não do original).

Como creio que esses pequenos textos jornalísticos dizem o suficiente, não pretendo acrescentar nada de minha lavra. Aos textos, portanto:

Ao paredão, por adúltera

Ángeles Espinosa, Teerã, 09/07/2010

Sakineh Mohammadi Ahstiani foi condenada à morte no Irã. Não a qualquer tipo de morte, mas ao apedrejamento. A iminência de sua execução vem mobilizando as organizações de defesa dos direitos humanos. Se as autoridades iranianas não mudarem a sentença, Ahstiani, de 43 anos e mãe de dois filhos, será enterrada até a altura dos seios e supliciada até a morte por pedras que não sejam nem tão grandes, a ponto de matá-la instantaneamente, nem tão pequenas, de forma a não a machucá-la, tal como é estabelecido pelo código penal de la República Islâmica.

‘Não há provas que justifiquem esta sentença desumana’, denunciou a Campanha Internacional pelos Direitos Humanos no Irã, a primeira a soar o alarme. A campanha respondia ao apelo do advogado de Ashtiani, Mohammad Mostafaeí, quem, esgotadas todas as instâncias, difundiu o caso em seu blog. Desde então, Anistia Internacional e Human Rights Watch, entre outras, somaram-se à mobilização internacional pelo seu perdão.

Desde a revolução islâmica de 1979, o código penal vigente no Irã estabelece o apedrejamento para os adúlteros, mas de acordo com essa polêmica interpretação da sharia (lei islâmica), o delito deve ser comprovado através da confissão repetida pelo acusado ou de quatro testemunhas do sexo masculino (ou de três homens e duas mulheres). O aiatolá Mohammad Ebrahim Yannati garante não haver base religiosa para esse castigo.

Ashtiani foi primeiro condenada a 99 chicotadas por ‘relação ilícita’ com o presumido assassino do seu marido. Entretanto, outro tribunal reabriu o caso e decidiu que tal relação ocorreu quando o falecido ainda estava vivo, o que configuraria ‘adultério’, apesar de não haver testemunhas. No julgamento, a mulher retratou-se da confissão que fizera durante o interrogatório, afirmando ter sido coagida. Desde então vem refutando a acusação e pedindo clemência. Além disso, segundo seu advogado, tem dificuldades para entender o persa, por pertencer à minoria azeri, que fala um dialeto turco.

‘Somente uma campanha internacional que pressione o regime de Teerã pode salvar-lhe a vida’, declarou Mina Ahadi, diretora do Comitê Internacional contra o Apedrejamento e a Pena de Morte. Segundo a Anistia, ‘no Irã, as circunstâncias em torno do caso de Ashtiani não são a exceção, mas a regra’. Fruto do diálogo com a UE [União Europeia], o poder judicial decretou uma moratória dessa pena em dezembro de 2002. Assim como outros avanços conseguidos durante o mandato do reformista Mohamed Jatami, não se transformou em lei. Sendo assim, sentenças de apedrejamento continuaram a ser promulgadas, e juízes mais conservadores as têm executado. O último caso conhecido ocorreu em janeiro do ano passado, na cidade de Mashhad.

* * * * *

Quem atirará a primeira pedra?

Ángeles Espinosa, Teerã, 09/07/2010

Deve ser uma das mortes mais horríveis que se possa imaginar. Uma a uma, as pedras vão batendo na parte superior do corpo, ferindo, dilacerando, até que os inúmeros ferimentos matam o réu. Lentamente. Impiedosamente. O processo é descrito, com toda a frieza dos textos jurídicos, nos artigos 98 à 107 do Código Penal iraniano, que especifica ainda quem deve atirar a primeira pedra.

Em primeiro lugar, o condenado é enterrado em um buraco ‘até a cintura’, se for um homem, e ‘acima dos seios’, no caso das mulheres, tal como prevê o artigo 102. Parece evidente que é mais fácil escapar do buraco no primeiro caso, o que garante o perdão do réu desde que não haja testemunhas (artigo 103). Determina-se também (artigo 104) que ‘as pedras não podem ser tão grandes como para matar a vítima no primeiro ou segundo golpe, nem tão pequenas que não possam ser chamadas de pedras.’

Se a condenação resultou de uma confissão, como se afirma ter ocorrido no caso de Sakineh Ashtiani, o juiz deve atirar a primeira pedra. Tendo havido testemunhas do crime, caberia a elas essa duvidosa honra; a seguir, o juiz e o resto dos presentes prosseguiriam com a execução — um grupo de pessoas que não pode ser inferior a três, diz a lei.

Posto que os apedrejamentos são bastante polêmicos, costumam ocorrer a portas fechadas, sendo difícil saber que tipo de pessoas concordam em participar de um castigo tão cruel. É preciso muito estômago para aguentar a lenta agonia que o apedrejamento produz, até que as hemorragias ou a fratura do crânio causem a morte. O filme ‘O Apedrejamento Soraya M.’ [The Stoning of Soraya M.], baseado no livro com o mesmo título, de Freidoune Sahebjam, permite aproximar-nos desse horror.

* * * * *

Em tempo: as últimas notícias, ainda não confirmadas, dão conta de uma suposta suspensão do apedrejamento de Ashtiani (ontem, 09/07/2010). Seu advogado, porém, não confirma se a sentença foi mesmo revogada. “Não há nenhuma garantia“, declarou (hoje, 10/10/2010).

.

E para terminar, um adendo que vale a pena ter em mente:

Declaração Universal dos Direitos Humanos

Artigo I
Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.

Artigo II
Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.

Artigo III
Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
[Grifo meu]

(…)

Artigo V
Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.
[Grifo meu]

(…)

Artigo VII
Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.
[Grifo meu]

(…)

Artigo X
Toda pessoa tem direito, em plena igualdade, a uma audiência justa e pública por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir de seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.
[Grifo meu]

Artigo XI
1. Toda pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa.
2. Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Tampouco será imposta pena mais forte do que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso.

(…)

A íntegra da declaração você encontra aqui.

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Onde (ou quando) começa um debate?

Acabei de ler, no ótimo O blog do Guaciara, um post com o título “As pessoas na sala de jantar“, escrito por Walter Hupsel (@hupsel), que trata da agressividade que campeia entre os comentaristas na internet. Recorto e colo cá embaixo boa parte do próprio post:

…duas constatações:
Nós, pessoas da elite cultural/intelectual, criadas dentro dos muros das escolas particulares e das universidades, não conhecemos o povo brasileiro (perdoem minha abstração… povo?)
A segunda, decorrente desta constatação em certa medida até que óbvia, é uma tentativa de entender o que está se passando, ou, “quem é esta galera?”.
Cunhamos (já roubei!!!) a expressão “pessoas da sala de jantar” em referência óbvia à musica dos Mutantes.
Quem são estas pessoas, as da sala de jantar?  São aquelas que sempre existiram, mas nunca tiveram oportunidades de se expressar, que emitiam seus comentários apenas no almoço de família na casa da vó.
Entre iguais, numa caixa de ressonância, suas opiniões reverberavam, a ponto das opiniões virarem verdades inabaláveis. “Ora, como alguém pode pensar diferente?”
Agora, com a internet e uma certa “popularização” da banda larga, elas aparecem, aparecem e soltam suas vozes, suas verdades.  Desacostumadas com o debate (pois nunca o enfrentaram), vêm o outro cheio de ódio, e, tal como crianças, partem para a agressão e desqualificação do “adversário”.
Este fenômeno é interessante e merece mais atenção, coisa que não sou o mais indicado a fazer. O fato é que a internet trouxe microfones pra esta galera, e nosso dever é ouvi-las, até mesmo para nos conhecer melhor, saber o que é de fato o Brasil, saber mais sobre quem é a nossa classe média. Saber um pouco melhor quem são as pessoas da sala de jantar.
Quem são estas pessoas, as da sala de jantar? São aquelas estão ocupadas em nascer e em morrer.

Não sei se distingo tanto esse “nós x eles” de que o Walter fala. Não que eu me identifique com o tal estilo agressivo. Quem já passeou um pouco por este blog ou me viu debatendo em blogs alheios não encontrará vociferações, gritos e impropérios, posso garantir. Porém, isso não quer dizer que eu não seja capaz de algo assim, nem que seja na esfera privada. Porque ando há tempos desconfiado do quão déspotas esclarecidos somos, a depender das circunstâncias…

Mas deixo isso para outra ocasião e volto ao que esse post do Walter me fez lembrar. Trata-se também de um post, só que meu. Escrevi faz tempo, em 2007, e nele expus algumas das minhas modestas reflexões — modestas, limpinhas e de que ainda gosto — sobre um tema que considero ser o pano de fundo dessa questão da agressividade de que o Walter falou. Que tema? O debate. Segue pois o que pensei e ainda penso sobre esse assunto, uma tentativa não de responder ao título lá de cima, mas de discutir um pouco sobre ele. Aí vai.

*  *  *  *  *

Onde (ou quando) começa um debate? Essa é uma pergunta que (me) faço. E para desenvolver o meu ponto de vista, começarei pelo que chamo de as condições que promovem (ou dificultam/impedem) um debate. Não me parece algo fácil de responder, pois as razões certamente são muitas. Falarei de três que me vêm à cabeça.

Primeiro: o lugar onde se debate. Se o tema em questão for debatido na internet e não num auditório, sala de aula, bar, arena, picadeiro de circo ou qualquer outro lugar que implique na presença física dos debatedores (mas sem as feras não-humanas do tal circo, de preferência. Se bem que, hmm… deixa pra lá), o resultado tem boa chance de ser diferente. Mas antes de falar propriamente do resultado, deixe eu pôr o acento num ponto em particular: penso que quando a conversa se dá “ao vivo”, “face-a-face”, com poucos participantes, parte do que acontece em debates virtuais sobre algum assunto talvez nem entre em pauta. Explico. É mais do que sabido que a presença física tem um forte poder regulador nas relações — que, por sua vez, são bastante capengas no mundo virtual. “Ao vivo” tem-se o tom de voz, as pausas e silêncios, atitudes em forma de interrupções, ironias etc., além da linguagem não-verbal — que começa no primeiro olhar escrutinador, nos pré-conceitos estéticos, de classe social, de gênero, geracionais, muitos deles “despertados” pela aparência do outro antes mesmo dele abrir a boca. Nada disso participa do formato virtual — falo apenas do escrito, evidentemente, com emoticons e tudo —, exceto quando os debatedores já se conheciam antes. Aqui entra, portanto, o próprio foco do debate, que pode facilmente ser perdido, já que, no ambiente virtual, o nível de agressividade dos debatedores precisa ser moderado explicita e constantemente, sem o “auxílio” das regulações silenciosas de que falei antes e que se dão involuntária/inconscientemente quando as pessoas estão no mesmo ambiente físico, vendo-se e ouvindo-se. Esse nível de agressividade costuma ocupar, com desmedida frequência, boa parte do debate. E o humor, a ironia, os olhares de aprovação, descaso, reprovação e/ou cumplicidade entre os debatedores, por exemplo, ficam de fora dessa equação ou, no mínimo, dependerão demais da qualidade da escrita de cada um — lembrando que as expressões faciais, por exemplo, são razoavelmente universais e quase automáticas, aprendidas na mais tenra infância e muito mais facilmente decodificadas.

Segundo, e em paralelo a isso: a vontade de diálogo. Aqui vejo um problema sério: às vezes, o que pareceria genuíno interesse em conversar, é apenas interesse em falar sem ser interrompido, com o outro servindo de plateia. É claro que vale ter opiniões diferentes, caso contrário não seria debate. Mas não vale ter intenções diferentes em relação ao ato de debater, não é? Daí a pergunta: quantas vezes você vê isso acontecer realmente?

Terceiro: o crédito que os debatedores dão uns aos outros. E aqui fico pensando em aspectos como: um é “doutor”, o outro “nem estudo tem”; um é “bonito” (aos meus olhos), o outro é “feio que dói” (também aos meus olhos); um é “pobre”, o outro é “rico”; um é “branco”, o outro é “preto (ou-pardo-ou-amarelo-ou-furta-cor)”; um é “mulher”, o outro é “homem”; um é “heterossexual”, o outro é “homo (ou-bi-ou-multi)ssexual”; um é “um senhor”, o outro é “apenas um rapazote” etc…

Pois é, bastante do que foi dito no primeiro e no terceiro pontos ocorre antes mesmo do debate começar! É por isso que muito me admira que alguém consiga realmente discutir o que quer que seja, exceto se os participantes tenham algum tipo de relação afetiva — que não seja ódio… — e, portanto, tenham a intenção de estreitar, aprofundar, ou apenas preservar essa relação — algo que, por um lado, pode neutralizar o poder destruidor dos eventos que circundam o debate, mas por outro, pode tornar-se uma “ação entre amigos”, a mera ratificação de opiniões mais ou menos estabelecidas em cada um dos participantes desse mesmo debate.

Enfim, são as minhas reflexões iniciais sobre o assunto, e reflexões sem base filosófica — sei que os estudiosos sobre comunicação e linguagem, assim como vários filósofos (um tal de Jürgen Habermas entre eles, que fala de um certo “agir comunicativo”, bastante criticado por muitos, mas posto aqui pelo menos como um desses tais  teóricos), já se debruçaram sobre isso, mas não quero estudá-los durante anos apenas para poder escrever com embasamento um simples post. Até porque, em se tratando deste blog e dos seus visitantes, prefiro preservar essa amizade, apesar dela pouco ter acontecido fora do universo virtual — pelo menos não tanto quanto eu desejaria.

É isso. E, por enquanto, no que diz respeito ao conjunto de ideias que pus aqui, não vou me dar ao trabalho de revisar. Já em relação à revisão de erros de português e à forma de algumas frases, duvido que eu consiga cumprir…

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Ah, gente, deixem de má vontade, auto-ajuda serve sim

[via nosololibros]

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Só um tiquinho de futebol e mudo logo de assunto

Mas futebol pelas beiradas, por aquilo que ele desperta/evoca/afeta em/a nós, como não poderia deixar de ser cá neste canto. Então, pontifico.

No que diz respeito a nós, brasileiros, tristeza em Copas do Mundo, tristeza mesmo, só duas:

1ª: 1950, o “Maracanazo“, impossível de não reconhecer, mesmo aos que como eu sequer eram nascidos.

2ª: 1982, a “Tragédia do Sarriá“, quando por primeira vez vi gente andando pelas ruas feito zumbi, entendendo “no tapa” que a existência é mesmo absurda e que não resta dúvidas sobre o sem-sentido do universo.

De resto, seja o fiasco de 74; dizer-se “campeão moral” em 78; a crucificação do galinho pelo pênalti perdido em 86; pulemos 90, por favor; o apagão na final de 98; o meião de Roberto Carlos de 2006; e, finalmente, este dunguismo de 2010, é tudo café pequeno, chateação e desconforto, mas nada que chegue a tirar o sono, exceto o dos moleques que estão em sua primeira ou segunda Copa, dos quais me compadeço.

Bom, vale dizer que quem quiser análises futebolísticas de qualidade tem inúmeras opções na blogosfera, certamente não neste blog. Por sinal, meus amigos Luiz e Darwinista fazem a sua parte no Torcedor Obsessivo Compulsivo , que por sinal também me agrada pelo título — vícios do ofício, é claro.

E agora, voltemos a nossa programação normal.

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CAIXA ALTA

Foi logo que eu li o teu perfil.
Era curto, irônico, e eu sou um curioso da porra.
Não deu nem dez segundos e te vi online.
Arrisquei, te chamei prum papo: o pior que podia acontecer era tu me dizer não.
Mas cê topou.
Fiz o ar mais blasé que eu conhecia pra que tu não visse meu coração na boca, queria pelo menos uns quinze minutos teclando, antes que tu sacasse os meus vinte e um em vez dos trinta e três que eu pus no meu perfil de designer gráfico, eu digitando aqui do ateliê, segundo mês de estágio, ainda faltando dois anos preu me formar, pelo menos não me arrependo de ter largado administração, aquela eca.
Assim que banquei de perguntar sobre ti, me espantei quando do nada tu começou a faLAR GRITANDO, DE UM JEITO MEIO AGRESSIVO, E COMO EU FIQUEI QUIETO, PARECE QUE AÍ FOI QUE TU DESATOUAFALARRAPIDOENAOCONSEGUIENTENDERMAISPORRANENHUMA
DOQUEVOCEDISSEATEAHORAQUE,DENOVO DO NAda,tu teacalmou um POuco,diSSE qUE tinha que desCOnecTar, eque a geNTE se esbarrava por aÍ.
Verdade, na hora te achei meio doida.
Deu medo.
Medinho, mas deu.
Mas lembrei de alguém ter me dito que experimentasse trocar “medo” por “desejo” e visse que cheiro que dava.
E arrisquei de novo.
Daí eu vi que tu era contato da Malú.
Com três minutos de conversa, ela soltou o teu endereço.
E eu apareci lá, de surpresa, lembra?
A cara de susto que tu fez — sustinho, mas deu, não é? — só não foi melhor do que a seguinte, na hora de abrir o presente que te dei.
Teu sorriso dizendo
Nossa, que teclas macias!…
Grafite, do jeito que eu sempre quis!…
E o mouse também é wireless!
,
até hoje não sai da minha cabeça, de tão lindo.
Feliz aniversário, meu amor.
Desconecta.
Não, tu primeiro, vá…

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Palavras

De vez em quando a palavra “tolerância” me irrita profundamente, mais até do que “intolerância”. E a razão, para mim, é simples. “Tolerância” é algo bem aquém do mínimo necessário entre as pessoas. Basta vê-la substituindo, mais do que acertadamente, a palavra “democracia” na expressão “o Brasil é uma democracia racial”. Para falar bem da gente é que não é!

Ela também surge em minha mente, de quando em vez, especialmente por conta de eventos absurdos como o das chacinas de que volta e meia temos notícia, por exemplo — que provavelmente não serão as últimas, para o nosso horror. Sua presença se faz notar, passados alguns dias, semanas, meses ou anos desses horrores inaceitáveis, por ser ela a que quase sempre permanece, denunciando o nosso esquecimento em nome do “seguir adiante” da própria vida.

É muito pouco.

Troco “tolerância” por “respeito”. Mas não esse respeito de hoje, colado demais na palavra “admiração”, cujo sentido — que faz com que as pessoas só respeitem aos que admiram já que “ao resto, nem dou bola!” — lê-se nas entrelinhas. Esse é muito fácil. É o tipo de respeito, tão frequente, que vale menos até do que a tolerância.

De uma vez por todas: o respeito ao outro é fundamental, simplesmente por ele ser “outro”, nada além disso. Não interessa se é rico ou pobre, minoria, bem sucedido ou fracassado, pelos critérios vigentes ou por qualquer outro critério. Não importa sequer se gosto ou não dele. O único (e suficiente) critério é ser outro, um outro ser.

Por isso, não precisa nem mesmo tolerar-me. Quero de você o que tenho por você: respeito.

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[Escrito em 2007. Válido, no que me diz respeito, enquanto eu viver.]

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Comentários esparsos sobre um “dia sem Globo”

São 9:50 do dia 25 de junho de 2010. Ou seja, comecei a digitar isto aqui faltando uma hora e dez minutos para o jogo Brasil vs. Portugal. Atrás de mim há uma televisão ligada, não sei em que canal. (A tecla “mudo”, que apertei minutos atrás, extrapolou as suas funções e silenciou até a minha lembrança. Melhor assim.)  Enquanto teclo, o TweetDeck, ferramenta que comecei a usar recentemente para acessar ao Twitter, fica trinando a cada cinco segundos, anunciando as tuitadas dos cento e cinquenta e poucos usuários que sigo por lá e que surgem e desvanecem em forma de janelinhas na parte superior direita do monitor. Ou seja, a possibilidade de escrever algo que valha a pena anda (convenientemente) prejudicada pela quantidade de estímulos a me distrair.

E sobre o que pretendia falar mesmo? Ah, ainda bem que escrevi primeiro o título do post, que me trouxe de volta à ideia inicial: comentar sobre uma iniciativa que surgiu no próprio Twitter, ao que parece disparada depois de uma coletiva onde o técnico Dunga foi grosseiro com um repórter da Globo — rede de televisão que dispensa apresentações, mas não opiniões. (Aliás, sobre as grosserias do Dunga, cá entre nós, chamar alguém de cagão é tão calça curta, tão te pego lá fora, passa dessa linha se tu é ômi, é a mãe, é a tua… Faz tempo isso, não?) A iniciativa tem nome: Dia Sem Globo (ou #diasemglobo, como aparece no Twitter), a ideia de não acessar o referido canal hoje, mas que na prática é muito menos “dia” e muito mais “horas”, no caso, ver o jogo Brasil vs. Portugal em outro canal, na internet, qualquer lugar que não o principal da emissora.

[Os rojões aumentam, a hora do jogo se aproxima.]

A iniciativa tem algo de pilhéria, algo de revolta adolescente. Mas não só. Há gente graúda, cãs sobrando, estimulando a iniciativa. Não sei se assistirão ao jogo, e, se assistirem, se o farão em canais que não sejam da rede em questão — como seria o caso do SportTV, por exemplo —, ou se só abrirão mão do canal em que um determinado locutor narrará a contenda. O que sei é que é inegável, à raiz da internet, a sensação de influir sobre os meios de comunicação, em particular sobre as ações de conglomerados midiáticos verdadeiramente Quarto Poder, caso da Globo. E fazê-lo sem pegar em armas, em casa, sentados de pijamas diante de telas de todos os tamanhos, usando apenas os dedos das mãos e gastando muito pouco, apenas a luz e o acesso à internet, em certo sentido é mesmo revolucionário.

[10:47. O ritmo da escrita deste post é de alguém que apenas está aprendendo a escrever. Telefonemas e outras tantas atividades nada lúdicas arrastaram ainda mais o ritmo. Paciência, termino depois do jogo.]

O jogo acabou — chatíssimo, por sinal. Desliguei a televisão faz tempo, para voltar a escrever só agora. Então antes de seguir com o tema da campanha tuiteira propriamente dita, começo por um aspecto técnico da transmissão: no lugar em que assisti ao jogo de hoje, o tal do delay não foi só entre quem tem TV à cabo e quem não tem, mas também, no caso da transmissão à cabo, entre os canais que transmitiram o jogo. A Globo teve menos delay em relação aos “sem cabo”, vindo depois o SprotTV, a Band e, por último, a ESPN. Além do mais, a qualidade da imagem, como de costume, foi muito melhor na Globo, seguida de perto pelo SportTV e bem atrás pela ESPN, com a Band fechando a raia. Como não estamos mais na era do rádio, imagem melhor tem peso, não é?

Voltemos ao tal movimento “Dia Sem Globo”, que talvez devesse chamar-se “Jogo Brasil vs. Portugal Sem Globo”. As prévias sobre a audiência registraram mudança, com alguma perda da Globo em relação a Band — mesmo com a primeira mantendo larga vantagem —, como informa o Jornal Direto, embora análises mais consistentes só possam ser feitas quando os números finais aparecerem. Mas não creio ser o mais importante, e sim o movimento em si. Afinal de contas, todo esse barulho foi válido? As partes envolvidas, suspeito, devem estar satisfeitas. Cada uma vai cantar vitória, e em certa medida, ambas terão razão. Por um lado, a inexpressiva mudança nos números da audiência e o ar de não é comigo da Globo parecerão um já-ganhei-como-sempre. Por outro, a turma interneteira, em particular a tuiteira, vai dizer que só o fato do “#diasemglobo” ter entrado, nem que por um momento, nos trending topics brasileiros, valeu a pena. Sobre os primeiros, direi: não é bem assim. Como empresa de comunicação, a Globo está certamente de olho em todos os segmentos. E o Twitter, que recentemente gerou o movimento “Cala a boca Galvão”, brincadeira de repercussão mundial, certamente não ficou de fora. Tudo repercute, para o bem ou para o mal, e interessa aos anunciantes que financiam boa parte da mídia. Por isso me arrisco a interpretar o pedido feito no Jornal Nacional da noite anterior ao jogo — que se levasse alimentos não perecíveis aos locais públicos onde a Globo transmitiria o jogo, que serão entregues às vítimas das enchentes em Alagoas e Pernambuco — como uma estratégia que também serviria para neutralizar a campanha no Twitter. Exagero meu? Teoria conspiratória? Pode que seja, mas não creio. Aposto mais numa forma de unir o útil — a ajuda aos necessitados, que melhora a imagem — ao agradável — sustentar os números da audiência.

[Você dirá que ir aos lugares públicos não muda o resultado da audiência, pois não é lá que ela é medida, o que invalidaria a minha linha de raciocínio. Embora esse seja um argumento mais lógico, ainda acredito que a campanha pró-vítimas das enchentes possa ajudar na manutenção dos índices de audiência — embora eu não tenha como prová-lo —, já que a própria televisão costuma funcionar como veículo para informar sobre como ajudar os desabrigados e onde fazê-lo, o que significa manter-me ligado na emissora...]

Em relação aos que se engajaram na campanha, volto ao dito antes. Teve um certo tom de revolta adolescente, de “a partir de agora não tomo mais iogurte de pêssego, só de morango, viu?”. Poderia ter sido mais consistente, embora eu não tenha ideia sobre como essa consistência poderia ser alcançada. Entretanto, vale ao menos pelo princípio do boicote, bastante frequente em outras paragens, como no exemplo expresso pela blogueira-tuiteira Denise Arcoverde:

Há 20 anos, participo da campanha contra Nestlé. Não abala as vendas a curto prazo, mas atinge a credibilidade a longo

Esse tipo de movimento, embora muitas vezes mais ligado a nossa posição de consumidores e menos ao nosso papel de cidadãos quanto seria desejável, é algo mais positivo do que negativo. Nesse sentido, embora o alvo do “#diasemglobo” não necessariamente tenha sido o conglomerado midiático tupiniquim e a sua cota de absurdos para a história do país, teve lá o seu valor. Só gostaria que não parasse por aí, na mera expectativa de aparecer no trending topics Brazil.

Termino dizendo que as leituras mais maniqueistas não são bem-vindas, por pouco representativas do que ocorreu — e segue ocorrendo, já que o dia ainda não terminou. Fato é que há algumas mudanças, se não no jogo, ao menos no modo de jogá-lo. E, como cidadãos, dá para afirmar que hoje em dia temos a impressão de sermos mais protagonistas e menos espectadores passivos. Mas não custa ressaltar que não é um jogo só, sequer uma única modalidade. E que somos muito diferentes uns dos outros, nossos interesses variam, muitas vezes até o de cada um em relação a si mesmo no decorrer de uma partida, segundo o andar da carruagem e o que se estiver perdendo ou ganhando.

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Uma boa pergunta

Do blog de Carlos Orsi, no Estadão, homenageando Turing hoje e encerrando com um resumo sobre argumentos do filósofo Daniel C. Dennett:

se as coisas mais determinísticas que somos capazes de criar — programas de computador — conseguem, a partir de um certo grau de complexidade, ser imprevisíveis, por que nossas mentes, que são muito mais complexas (e muito mais imprevisíveis) que os programas que criamos não poderiam ser simplesmente fruto do determinismo das leis naturais? (grifos meus)

Estou preguiçoso demais para aprofundar essas questões com sua bibliografia correspondente (mas dá para indicar dois livros do Dennett em português: “A Perigosa Ideia de Darwin” e “Tipos de Mentes”, ambos pela Rocco), sem falar que assumo faltar-me a própria base filosófica e científica para tal. Mas não preciso saber muito para notar o quanto esse argumento do Dennett é provocador.

Abaixo, um vídeo em três partes com o filósofo dissertando sobre a consciência:

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