Ágora com dazibao no meio

Prolegômenos, (re)flexões e nadas, de todo tipo.

June 23, 2013
by Ricardo C.
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É com você

Já teve a sensação de algo começar a escapar dos seus dedos, sei lá, quando duas pessoas estão conversando animadamente e de repente elas não estão mais sentadas no mesmo banco do ônibus e sim cada uma em um ônibus diferente, no começo seguindo caminhos paralelos e dando para continuar a conversar pela janela, até que um dos ônibus começa a mudar de faixa, a ficar mais longe, e a gente tem que falar mais alto, depois gritar, e por fim os caminhos deixam de ser os mesmos, ainda que a gente, ou em todo caso eu, não quisesse?

Sei que nós dois falávamos a mesma língua, entendíamos o que dizíamos um ao outro, e dizíamos muito, fosse bobagem, fosse a resolução das mazelas do mundo, até que de uma hora pra outra você começou a falar num idioma diferente, embora eu ainda entendesse tudo o que você dizia porque era tudo parecido ao que você dizia antes, ou quase tudo, vá lá, mas o fato é que essa história de parecer outro idioma dificultou um pouco as coisas, como se fossem pessoas que só falassem português e de repente uma delas passasse a dizer tudo em espanhol, espanhol com sotaque madrilenho, aquele com um ovo na boca, carregado, duro, ou portenho, cheio de jotas, ou então em catalão, que a gente até pensa que entende muito, mas não passa de impressão, e o que até então costumava ser transparente para os dois agora começa a ter partes sombreadas, algumas, e com o tempo o escuro aumenta a ponto de parecer aqueles documentos secretos liberados pelos governos depois dos anos regulamentares e dos quais a gente pensa que vai entender quando for ler, mas no máximo conseguirá supor.

E se não bastasse, volta e meia eu te via por perto, acenava, mas parece que você não me via direito, ou então estava meio ocupado conversando com outra pessoa e, claro, seria indelicado interromper o papo para poder dizer oi e depois não me incluir na conversa, e num assunto que parecia importante, diga-se de passagem. Até o dia em que você pareceu não me reconhecer mais e eu também fiquei com vergonha de chegar perto e dizer Olá! Como vai? Eu vou indo. E você, tudo bem?, e esperar te ver sorrir com essa referência musical, porque pelo menos musical eu sei que você não deixou de ser. Ou deixou?

Isso eu creio que vou ter dificuldade de aceitar. Aceitar não, de entender, porque mesmo não aceitando, a gente se acostuma, a vida acostuma a gente. Mas não entender é não entender, sem meio termo. E entre nós, a meu ver, tudo isso continua a não fazer sentido, é como se não combinasse. Se bem que… bom, reconheço que sou distraído, acima da média, e vai ver que o tempo passou na janela e só Carolina e eu não vimos, só para seguir nas chicobuarqueisses, e você bem pode ter deixado um monte de sinais espalhados por aí, mas eu não me dei conta.

Sinais fechados?

April 22, 2013
by Ricardo C.
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Conversê

Você pensa: entender a “impermanência” e exercitar o “desapego” são a combinação perfeita para lidar com isso que chamamos “viver”. Então pensa mais um pouco e vê que gerações mais novas do que a sua já experimentam essas mesmas palavras, só que de outro jeito, um jeito próprio… de gerações mais novas. Em parte é isso mesmo, um jeito parecido com gerações anteriores — a sua inclusive —, quando eram… mais novas; em parte não, pois é um jeito que carrega algo próprio, relacionado aos últimos quinze, vinte anos se tanto, e ainda por cima elevado à terceira potência nos dez ou cinco que se passaram. As novas gerações, pois, vivem a impermanência e o desapego de maneira diferente. É que elas não se empenham em exercitá-las, como faz um aprendiz do budismo; elas são consumidas, às vezes até atropeladas por elas.

Ocorre que “impermanência” é o nome próprio que o cotidiano das últimas duas décadas carrega, onde tudo é costumeira e baumanianamente líquido, em especial para os nascidos há 20 anos ou menos. Você pode argumentar: ora, isso é ter vinte anos ou menos, e não poderei negar (de todo). Mas acrescentarei que a parafernália tecno-eletrônico-informática que nos envolve resultou, sim, numa forma qualitativamente distinta e transformadora em relação às noções de tempo, espaço, afetos,* tendo papel central no que chamamos “viver” e “mundo” — e aqui é você que vai ter que pensar um pouco antes de negar o que digo. É com o auxílio dessa parafernália que a noção de que tudo é impermanente deixou de ser algo que só se consegue compreender por meio de muita reflexão, meditação, do esforço por desidentificar-se — do corpo, do eu, de objetos, de conceitos etc. —, entre outros métodos ativos, e passou a ser “a” realidade. Só tem um porém: uma realidade que nos dirige, não uma realidade que somos.

Não sei se fui muito feliz na última frase acima, então deixe eu tentar distinguir o que seriam essas “duas impermanências”, falando principalmente da dos tempos atuais. Primeiro devo dizer que esta impermanência contemporânea não é o que nos constitui:** trata-se apenas de um efeito, o resultado da incrível velocidade que imprimimos (e/ou que nos imprimem) a tudo o que fazemos, tocamos, sentimos, pensamos e desejamos. Ora, é senso comum que hoje em dia tudo se torna obsoleto em segundos; ou melhor, tudo é planejado e construído para que sua obsolescência seja quase instantânea. Não é de estranhar que as próprias relações afetivas sejam influenciadas por isso. E é aqui que entra o tal desapego: ele não é exatamente o modo como se quer efetivamente lidar com os objetos, as pessoas, o próprio corpo. Não se trata da compreensão de que o apego é uma prisão, uma ilusão irresistível de que devemos nos libertar ou coisa parecida. No fundo, o que parece desapego não passa de uma versão do seu antônimo, o próprio apego, só que vivido em versão acelerada. Pula-se de um apego ao outro como se pula de um pensamento a outro, de um desejo a outro, feito um cavalo xucro lutando para não ser domado; mas a busca pelo apego segue a mesma e não cessa. Se há desapego, ele só exite no intervalo entre um apego que não se quer mais e o apego que ainda não foi alcançado.

Se falei que no mundo das gerações mais novas a impermanência e o desapego não passam de versões disfarçadas de permanência e apego, entre os*** mais velhos as coisas não são muito melhores. Contra o que lhes parece volátil demais, inconstante demais, apegam-se aos seus objetos e lembranças, sentindo-se estrangeiros neste viver etéreo, certos de que o bom já aconteceu e o hoje não passa de uma versão resumida e descartável do ontem. Com isso, muitos não percebem que, ao viver assim, o presente passa inadvertido por eles.

É tudo isso e não é nada disso.

Se, como disse por aí, o mundo das novas gerações não conhece o limo, só os filtros do Instagram que o emulam, preciso acrescentar que o limo das velhas gerações também não parece mais ao alcance da mão, pois só existe o de suas lembranças.

Vamos sair à rua e andar com vagar: uns diminuindo a velocidade do passo e olhando ao redor; outros, deixando as lembranças em casa e vendo tudo como se fosse pela primeira vez.

Hora dessas pretendo fazer isso. As duas coisas.

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_______________

* A compressão do tempo e do espaço em função de novas tecnologias ocorre desde que o ser humano criou sua primeira ferramenta. A diferença hoje talvez esteja não apenas na velocidade das mudanças, mas na capacidade que o ser humano tem de digeri-las adequadamente nesses intervalos cada vez mais curtos. Particularmente, percebo uma indigestão generalizada, o que considero um tipo resposta de nossa espécie sobre a lida com essa questão.
** Vale dizer que não sei bem o que nos constitui, mas isso é outra conversa.
*** Talvez o mais correto seja dizer “nós”.

April 12, 2013
by Ricardo C.
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A culpa é do tradutor

Gosto do I Ching porque é chinês. Ou seja, veio do outro lado do mundo, foi traduzido de um idioma esquisito e difícil pra chuchu, é da terra duns caras que fazem umas lutas muito malucas que ficam lindas em câmera lenta, onde tinha o Mestre e Gafanhoto, o discípulo dele, que era o David Carradine, que teria se enforcado num hotel de luxo em Bangcoc, que também não é longe da mesma China onde viveu um tal de Lao Tsé, que supostamente escreveu o Tao Te King — ou escreveram pra ele, sei lá —, uma figura que também disse umas coisas que a gente não entende e depois fica dizendo que é porque rompem com os nossos esquemas lógico-racionais de pensar, um sujeito dessa terra que por sinal fica perto da Índia, de onde vem Buda, que por sua vez não é longe do Japão, aquele conjunto de ilhas onde rolou uma forma de budismo particular, o tal do Zen, cheio de koans e de sei lá mais quantas coisas diferentes em relação ao jeito da gente entender o mundo por aqui, e que só por isso muitos dizem ohh!, ahh!, acreditando que aquilo tudo só pode ser super profundo, dum misticismo tão próprio — porque aprendi, acho que com o Gershom Scholem num livro chamado A Mística Judaica, dado por uma amiga que não vejo há um tempão, que misticismo, pra São Tomás de Aquino, é Cognitio Dei Experimentalis, ou seja, o conhecimento de Deus através da própria experiência —, misticismo tão próprio esse que sequer pode ser chamado realmente de misticismo, porque o budismo não tem Deus, ora, então que raio de experiência de Deus haveria nele?, embora a gente veja aquele monte de divindades no budismo tibetano e acabe meio confuso, só que parece que os budistas eram super flexíveis e diziam “beleza, topo incorporar teus deuses se você topar incorporar meus ensinamentos” ou algo parecido, devo ter lido sobre o assunto naquela revista Seleções do Reader’s Digest que nem sei se ainda existe, e lembro dela porque dizia meu pai que eu tinha “conhecimento de revista Seleções” e só não ficava muito chateado porque ele só fazia esse comentário quando eu tentava engambelá-lo, e não era sempre, e é engambelado assim que eu me sinto quando leio o meu exemplar do I Ching, que foi traduzido do chinês pro italiano e dali pro espanhol, diferente da versão brasileira, que foi traduzida do chinês pro alemão, depois pro inglês e por último pro português, o que me faz ficar pensando no monte de ideogramas chineses do original, essas coisinhas cheias de tracinhos e palitinhos e borrõezinhos, e em como os primeiros tradutores, o do chinês pro italiano e o do chinês pro alemão, podem ter derramado café em cima dos originais e ficado sem saber o que estava escrito de verdade, ou como algum deles ficou tentado a inventar que aquela flor roxa que inspira o sábio sobre a natureza do vazio na verdade era amarela, ou nem flor era, e talvez na minha versão do I Ching o café do tradutor tenha sido expresso, e a mancha teria sido mais espessa, e, por conta disso,  mais ideogramas dançaram, então o resultado pode ter ficado ainda mais obscuro e difícil de entender, e a gente, de novo, achando que precisa quebrar essa besteira analítica do Ocidente que nos molda, e por conta disso deve mergulhar fundo no conhecimento da inexistência, e pra chegar perto de lá não adianta ler o I Ching com três moedinhas, o certo é com o método de varetas ou palitos, e digo, ou dizem, que é o jeito certo porque dá mais trabalho e se a gente que é preguiçoso e ao mesmo tempo acelerado preferir moedinhas ou quem sabe um I Ching virtual pra instalar no Smartphone vai ficar ainda mais longe do caminho da iluminação, mais ainda se continuar querendo tudo pra ontem, então é melhor comprar logo uma lanterna e parar de tonterias porque esse papo já está de bom tamanho por hoje.

March 3, 2013
by Ricardo C.
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Nadando contra a corrente, só pra exercitar (ou, por que não, “a Geni da vez”)

Ok, muita gente se indignou com a privatização da praia do Forte de Copacabana, veiculada na matéria que saiu na Veja Rio no fim de semana passado. (Tem por aí, é fácil de achar na rede, não quero ficar fazendo propaganda gratuita dessa publicação.) Cá entre nós, eu também fiquei bastante contrariado. E ainda vimos o tom de indignação nas redes sociais ser turbinado pela legenda da foto de uma moça, “A socióloga Camila, que trocou Ipanema pelo beach club carioca”, e pelo que seriam trechos de um depoimento seu. Diz a “matéria”:

‘Deixei de frequentar Ipanema e passei a vir aqui todos os dias porque o público é muito mais selecionado’, diz a socióloga Camila Diniz. ‘Posso beber champanhe na taça e fazer escova no cabelo após mergulhar.’ Assídua desde a inauguração, ocorrida em 9 de janeiro, Camila calcula já ter gastado 3.000 reais na brincadeira (veja o quadro com os valores nesta página). ‘Vale muito a pena. Nem em Paris os garçons entendem tanto de bebida’, justifica.

Ok de novo, porque essas falas acompanhadas pelo “socióloga” de fato não ajudam muito. E com isso a moça virou a representante mor de um grupo de endinheirados em busca de privilégios em relação à matulagem - e, sobretudo, querendo distância dela.

Esse é o resumo da história.

Mas é isso mesmo? A moça seria a reencarnação de Maria Antonieta, ou melhor, do infeliz raciocínio atribuído à L’Autre-chienne (“Se o povo não tem pão, que coma brioches!”)? Ainda bem que apareceu um “outro lado”, não na Veja, mas no jornal O Globo, seu aparentado. Mesmo sem livrar a moça de todo o mal, amém, a matéria sugeriu que as coisas não foram bem assim, que as falas da menina teriam sido editadas e, com isso, soaram a puro preconceito:

 Me senti prejudicada com a matéria, pois colocaram duas coisas de contextos diferentes em uma frase: ‘A socióloga Camila Diniz deixou de frequentar Ipanema para ir ao Beach Club: o público é mais selecionado’. Isso soou com tom de preconceito da minha parte e não falei isso. O que eu disse foi que deixei de ir onde ia enquanto o clube funcionava naquela temporada e que as pessoas que vão ali buscam algo diferente do comum, uma praia com djs, com garçom, com ambiente diferente, buscam ter uma praia pra dançar, um clube onde você tem outros atrativos.

Terceiro oquei, porque a defesa que a moça faz de si mesma não é propriamente um portento, mas tampouco dá a entender que se trate de uma alienada fútil cujo diploma de sociologia foi tão comprado quanto qualquer bolsa L&V ostentada pelos beach clubs mundo afora, e que o canudo só teria sido dessa profissão porque os das outras já tinham acabado.

Mas nada disso importa, porque seguir nessa toada é continuar a malhar [a] Judas ou jogar pedra na Geni, enquanto outras personagens mais centrais ficam de fora. (Aliás, é interessante saber das iniciativas que pretendem “invadir a praia” dessa gente de salto alto bebendo champanhe, semelhante ao Churrascão da Gente Diferenciada que ocorreu em Higienópolis em 2011. Saberemos dos desdobramentos, caso eles resolvam mesmo sair do virtual.) Dito isso, ninguém vai falar sobre o veículo que fez a matéria, sobre sua (questionável) credibilidade? Ninguém vai discutir, por exemplo, o tom irônico da “reportagem”, um tantinho crítico a tudo e todos os que ela descreve, ironia essa que, curiosamente, serve para neutralizar seu próprio lado deslumbrado, estilo Revista Caras, que adora mostrar a “pujança” do capital, neste caso emoldurada pelos dezessete valores em Reais citados – que vão de 65 a 2,5 milhões – e por sua referência a uma atração que aproximaria o Rio de Janeiro das “[...] sofisticadas praias de Ibiza, na Espanha, [...] [de] Punta del Este, no Uruguai, e [...] [da] badalada Jurerê Internacional”? Ninguém vai indagar sobre a edição das entrevistas, cujo tom oscila entre a crítica desdenhosa e o elogio “inveja boa”? E não há nada a dizer sobre o foco da matéria ter sido posto nas mulheres? Porque, convenhamos, até os grãos de areia da praia do forte sabem que ao colocar o feminino em evidência abre-se a porteira para incontáveis argumentos ad hominem, todos eles rondando o significante “puta”, não é?

E para piorar um pouco as coisas, houve menções aqui e acolá sugerindo que os críticos do empreendimento na praia do forte de Copacabana estariam apenas com inveja, que no fundo eles queriam mesmo ter grana para gozar daqueles mimos todos regados a champanhe e embalados em música eletrônica. Pois direi algo que talvez vocês estranhem, se é que não vão detestar: esses comentários, por mais babacas que soem, não são tão descabidos assim, mesmo quando dirigidos a defensores da justiça social nem um pouco chegados à música eletrônica e que preferem uma boa cerveja numa roda de samba. (Eu avisei que pioraria as coisas.) Sim, a inveja é uma merda, mas ela não deixa de ter seu quinhão nesse imbróglio todo. (Não sei se consola, mas se ela diz respeito a vocês e a mim, não deixa de incluir os próprios comentaristas babacas do início do parágrafo.) E para dar sustança ao que digo, recorro a um artigo do psicanalista Manfred F. R. Kates de Vries: 1

O sociólogo Helmut Shoeck [...] levanta a questão da universalidade da ‘causa da inveja’. Ele sustenta que ‘a inveja é uma força que se situa no coração do homem como ser social e que se manifesta assim que dois indivíduos estão em condições de estabelecer uma comparação recíproca.
Segundo Shoeck, a essência da inveja reside na rejeição da diversidade. O homem experimenta uma grande necessidade de igualização. Por exemplo, mesmo uma política governamental, como a progressividade dos impostos, encontraria raízes na inveja. É assim que a inveja geraria os controles sociais dos quais depende a sociedade.

Bom, conviria comentar um pouco mais sobre a citação aí de cima, mas fica para outro dia. É que está na hora de terminar, já falei muito sobre uma notícia velha demais para os parâmetros da internet. Agora vou ali, pedalar vendo o mar, imaginando a praia do forte de Copacabana não mais privada, por fim livre de riquinhos e outra vez exclusiva dos valorosos militares que servem por lá e precisam renovar constantemente suas energias mergulhando nas águas daquele pedaço de paraíso. Vou na direção de Ipanema, perguntando-me se a Camila Diniz já pode voltar a frequentar essa praia sem medo, quem sabe escolhendo ficar no posto 9, e, já pensou, com sua canga estendida pertinho d@ jornalista que a entrevistou e do grupo que pediu a cassação do seu diploma.

__________

1 “A inveja, grande esquecida dos fatores de motivação em gestão”. In: CHANLAT, Jean-François (coord.). O Indivíduo na Organização: Dimensões Esquecidas. SP: Atlas, 1996, pp. 67-82.

February 14, 2013
by Ricardo C.
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Par

Você e eu, amig@, vivemos um momento ímpar. Somos testemunhas de uma verdadeira revolução de costumes, de quebra de tabus, sobretudo sexuais, de contestação da autoridade patriarcal e de modelos fossilizados de Estado. Como é fantástico assistirmos de camarote a tanta gente dizer em alto e bom som tudo aquilo que deseja e pensa, a tantos que enfrentam, destemidamente, as tentativas de censura dos moralistas, da igreja e dos conservadores em geral. Que emoção nos dá ao ouvir todos esses gritos por liberdade, contra qualquer tipo de opressão, tirania e afins, não é?

Por isso não me canso de repetir: que privilegio nosso, o de viver nestes primeiros e gloriosos anos da década de 1960.

February 8, 2013
by Ricardo C.
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Tempo tempo tempo tempo

Tomava um café em Ipanema, olhando o movimento dos já-não-apenas-pedestres-mas-sim-foliões, de todas as cores e línguas, quando postou-se na minha linha de visão uma senhora esguia, de postura corporal que sugeria uma estatura muito maior do que de fato tinha. A idade parecia muita, e sem medo de ser mostrada.

[Admito gostar disso. Numa cidade como o Rio de Janeiro, onde se cometem cirurgias plásticas na mesma proporção com que os foliões urinam pelas ruas durante o Carnaval, ver alguém ostentar mais de sessenta anos sem tentar se passar por balzaquian@ é um bálsamo para os meus olhos quase cinquentões.]

Suas costas, seus braços e as pernas exibiam uma quantidade bem significativa de rugas, e o fato de todas estarem à vista, em sintonia com a temperatura do verão carioca, me fez pensar em como é bom ainda existirem pessoas que conseguem não brigar com o tempo, apenas vivem-no. Mas o pensamento durou pouco, transformou-se tão logo a senhora mudou de posição e ficou de perfil. Foi quando surgiu diante dos meus olhos um contraste, impossível de não notar: um par de seios em riste, impávidos, desafiando a gravidade, que equivocaram a mim e ao garçom que me atendia, enquanto a moça na mesa ao lado da minha ia mais longe, ornando o próprio rosto com o cenho franzido, na mais franca das desaprovações estéticas.

[É bem provável que eu não passe de um reles conservador em matéria de transformações corporais, correndo o sério risco de pertencer à mesma categoria dos moralizadores de plantão que costumo criticar por aí. Reconheço que muitas dessas modificações corporais não são mesmo do meu agrado, embora não costume registrar isso com frequência nas internetes da vida, no máximo em conversas de bar ou no intervalo do café. Paciência, não se pode acertar todas.]

Estou certo de que a senhora de ampla idade e o par de seios que portava já foram mais próximos, decerto coetâneos. Mas hoje, sexta-feira de Carnaval, pareciam três estranhos, com o desentendimento comum aos de gerações diferentes. E por conta disso, um desejo me atravessou: que um dia todas as próteses que a medicina inventou e ainda há de inventar sejam obrigadas a envelhecer junto com seus donos.

Não sei dizer sobre o companheiro tempo, mas eu ficaria deveras agradecido.

September 12, 2012
by Ricardo C.
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Ainda há pouco

No balcão, depois do trabalho.

No balcão, depois do trabalho, tomando sakê.

No balcão, depois do trabalho, tomando sakê e lendo um artigo, enquanto espero uma dupla de enguia.

No balcão, depois do trabalho, demorando a terminar o sakê e a terceira página do artigo, olhando com pena para a segunda unidade da ex-dupla de enguia, pena de comê-la e daquele festival de sensações que inunda a minha boca acabar logo.

No balcão, depois do trabalho, pedindo o segundo sakê e lendo, extasiado, já não sei mais que página do artigo, esperando o dono do restaurante me recomendar outra iguaria, a mais esquisita que passar pela cabeça dele, enquanto o prato e o masu, aquela caixinha onde se bebe sakê, me olham vazios.

Lendo um balcão depois do artigo, digo, pedindo para encher o artigo vazio, quer dizer, mais sakê, por favor, e por fim chega a dupla de ankimo de tamboril — o fois gras japonês, veio dizer o dono num português sorridente e sofrível — e depois de comer o primeiro, penso que o artigo, que responde por “Onde começam os erros de Lacan“, faz ainda mais sentido e que o Peter Sloterdijk só não é meu novo herói porque não pretendo começar a cultivar heróis depois de velho, e depois do segundo ankimo só quero saber do que paira no céu da minha boca, de papilas para lá de gustativas, de sorrisos imperceptíveis ao olhar alheio por serem meus e eu ter certeza que ninguém está me observando, e de voltar logo pra casa, e compartilhar com a Rê tudo isso menos sobre os erros de Lacan, que o negócio dela é o Freud mesmo, e combinar de ampliar a minha dose e inaugurar a dose dela no fim de semana, o menu degustação, por favor, porque a gente merece rir um com e do outro, e ainda mais pelo prazer de estarmos juntos há quatorze anos e querer refestelar-nos, regozijar-nos e quantos ar-nos ainda dermos conta juntos, enquanto seu lobo não vem.

August 11, 2012
by Ricardo C.
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Martedi, 7 agosto, de Ipanema a Laranjeiras, passando por Copacabana

Visconde de Pirajá, Gomes Carneiro, Francisco Sá, o sinal fecha. Uns três minutos para o 485, linha Penha – Pça. General Osório, tornar a andar e logo virar à esquerda, mais ou menos no início da Avenida Nossa Senhora de Copacabana.

Éramos o motorista, o trocador, eu e mais um, até o ônibus frear nalgum ponto do bairro e outro passageiro entrar. Parei de ler meu livro e dirigi o olhar para a roleta, sabendo que a explicação do gesto fica por conta das teorias sobre atenção e percepção. Não notei se o pagamento foi em dinheiro ou com algum bilhete eletrônico, mas lembro de ter perguntado aos meus botões se o cara seria estrangeiro, um estrangeiro de cara conhecida, ou se era cearense. A dúvida só acabou quando o sujeito atendeu o celular com um sotaque de alguém vindo de terras mais distantes que o nordeste brasileiro, e a cara que não me era estranha ganhou nome e sobrenome bem na hora em que ele olhou de rabo de olho para mim, eu sorri e perguntei “o senhor não é escritor?”, e ele acenou naquele gesto universal dizendo que sim, sorrindo de volta.

Voltei meus olhos para o livro assim que o tempo regulamentar dos sorrisos entre cidadãos que não se conhecem acabou, mas não deu nem meia página até  ter que guardá-lo na pasta e apertar o botão para descer do ônibus. Mais de cinco passos e escutei um “ei!, ei!” e me virei para ver que se tratava do estrangeiro de cara conhecida que se aproximava estendendo a mão para me cumprimentar.  ”Eu até tive vontade de tirar um retrato seu, mas fiquei constrangido, não queria ser invasivo”, disse a ele, deixando claro por que não há a menor chance de um dia eu vir a ser um bom fotógrafo. “Pode tirar”, foi o que entendi ele responder. Tirei da pasta a câmera que vivo levando para passear comigo, a cara conhecida postou-se ao meu lado e bati a foto. Achei o registro aceitável, ele pareceu concordar, então perguntei como andavam as coisas. “Tem só um juiz chateando, falou que não dei meu endereço pra polícia federal, mas não é verdade. Acho que quer mídia”, e depois piscou. “Então boa sorte”, foi a última coisa que eu disse, os dois seguindo em direções opostas.

Sigo achando que o Cesare Battisti tem um pé no Ceará

Pode que ele tenha feito aquilo de que o acusam, pensei.  E se eu tivesse certeza, teria bateria a foto?, pensei também.

June 3, 2012
by Ricardo C.
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Estas son las mañanitas que cantaba el rey David

Lembro que aos treze eu tinha certeza de que não passaria dos trinta e cinco. E também de ficar chateado ao ouvir que essa quase certeza era um dos mais comuns lugares-comuns vivenciados por nossa espécie, não uma, mas várias vezes ao longo da vida, mudando apenas os anos das quase certas mortes e os endereços dos moribundos.

Cá pra nós, saber-se comum, igual à maioria, a previsibilidade em pessoa, não deve ser propriamente o nirvana, o zênite ou o Sunyata para moleques de treze anos, que só por terem uma idade dessas já devem sentir-se desagradavelmente diferentes de si, não mais meninos e ainda longe de serem homens feitos. Decerto o pior dos mundos: sensações igualmente previsíveis às dos demais, diferenças igualmente semelhantes às dos demais. E nos dois casos, tudo o que se gostaria de ser era justamente o oposto.

Já se passou um bom tempo desde que eu tinha treze. Trinta e cinco anos, por sinal. E um pouco menos tempo desde que aquele querer ser diferente deixou de ter importância, o tipo de querer que de tão central e presente quase define a vida da gente — e não só aos treze. Trata-se de uma diferença tão frequentemente desejada, mas nada fácil de realizar, que por isso mesmo gera uma angústia  danada — a angústia pela diferença —, tão intensa quanto o seu reverso, a diferença entre a maioria e os que estão à margem, invisíveis aos demais, angustiados pelo não pertencimento e pelo isolamento resultante — uma angústia da diferença.

Certas idades são boas. A de agora, por exemplo, sem todo aquele desejo ora pela diferença, ora pelo pertencimento, ao menos não com a urgência e centralidade de outros tempos.  Gosto disso.

Não tenho mais treze, não morri aos trinta e cinco.

Espere: treze mais trinta e cinco dá quarenta e oito, a idade que fiz hoje. Será que isso quer dizer alguma coisa?

April 5, 2012
by Ricardo C.
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“Eu sou aquilo que aconteceu com a minha mãe” [Página/12]

Por Andrea Homene *

Madrugada de inverno na emergência de um hospital público. Uma regra implícita diz que ninguém deve mencionar como o plantão anda calmo, que é para evitar que de repente tudo mude. São superstições dos trabalhadores da saúde. E, de fato, depois de achar que o plantão vai terminar sem maiores surpresas, você escuta a sirene de uma patrulha, seguida pela da ambulância. Na maca, uma jovem adolescente com ataduras caseiras nos pulsos. Sangra muito, então rapidamente a levamos para a UTI e os cirurgiões correm para atendê-la. Carolina tentou o suicídio. Não foi a primeira vez, relata um familiar cheio de angústia. Já tentou tantas vezes que provavelmente um dia vai conseguir se matar.

No dia seguinte, depois do tratamento intensivo, eu a entrevisto. Carolina tem 16 anos. Conta que desde bem nova sente muita vontade de se matar; que tenta desde os doze e que lamenta que desta vez a descobrissem na hora em que se trancou no banheiro. Já tentou várias formas de suicídio e, garante, da próxima vez não vai falhar. Fala de sua mãe: “Nunca me quis”; “Da parte dela só senti ódio”. Não suporta o olhar da mãe, que descreve como “de desprezo”. Diz que não tem fotos de quando era bebê; melhor dizendo, ela não tem foto nenhuma. E que de tanto perguntar-se e perguntar o porquê de sempre ter se sentido só e vazia, finalmente a mãe confessou o que era um segredo bem guardado, mas muito mal dissimulado: Carolina é produto de um estupro.

Quando a mãe de Carolina tinha 14 anos, um parente próximo, já falecido, abusou sexualmente dela quantas vezes quis, até que a engravidou. Sua mãe, prossegue Carolina, não soube o que fazer. Não queria tê-la, escondeu a gravidez até não conseguir mais dissimular a barriga. Quando o pai de sua mãe descobriu, deu-lhe uma surra, duvidando do que ela contara sobre os abusos. Depois ela quis dar Carolina a alguém, mas não deixaram. Foi desse jeito que ficou com ela, sem nenhuma possibilidade de fazer “daquilo”, do produto de um estupro, uma menina filha de algum desejo. “Aquilo”. É assim que Carolina se diz: “Eu sou aquilo que aconteceu com a minha mãe, e não quero mais viver”.

A suprema Corte argentina deu recentemente uma sentença admitindo que uma adolescente estuprada, que acabou grávida e decidiu abortar, não fosse penalizada por isso. Da mesma forma, ficam isentos de consequências penais os médicos que praticarem o aborto, com o consentimento dado pela mulher através de declaração juramentada, sem necessidade de autorização judicial. Em casos anteriores as exigências jurídicas resultaram na impossibilidade de realizar o aborto, já que quando as sentenças favoráveis saíam a gravidez estava tão avançada que era impossível interrompê-la.

Como visto no presente caso, o estupro não apenas resulta em consequências tremendas para a psique da mulher violentada: as consequências também se dão para a criança fruto do estupro, em relação ao lugar que ela ocupará no desejo materno; frente aos olhares, às vezes de ódio, às vezes de desprezo, às vezes até piedosos, de que a criança pode ser objeto sem que possua um saber consciente que ajude a decodificá-los.

Não se deveria ignorar — por respeito à dignidade, ao desejo — que a ausência absoluta de um desejo vital sobre o qual sustentar-se pode fazer com que a vida da criança que é fruto de um estupro carregue a marca do mortífero. Carolina transforma essa marca em ato. Ela quer se matar, não há vida possível para ela. Sua marca de origem assinala o seu destino, condenando-a a viver com um pesar imenso, impossível de suportar. Ninguém quis que ela vivesse; ela não quer. É a memória permanente do horror sofrido.

A sentença da Suprema Corte criou as bases para que o aborto sem punição possa ser tratado no Congresso. O debate está aberto, mas é imprescindível que se escute a voz dos mudos: as mulheres violentadas, os filhos que resultaram dessa violência, seu sofrimento, o sentimento de culpa que os invade, a vergonha que sentem ao falar disso, como se eles, os filhos, fossem responsáveis pelo ato aberrante que lhes deu origem.

* Autora do livro “Psicoanálisis en las trincheras. Práctica analítica y derecho penal” (ed. Letra Viva).

Mais um exemplo que os nossos vizinhos nos dão. Assim fica difícil não ficarmos envergonhados com a forma como lidamos com o assunto em nossa sociedade.

[Página/12, domingo 25 de março de 2012. Tradução (e erros): Ricardo Cabral]

March 30, 2012
by Ricardo C.
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Sexta-feira, 30 de março de 2012

Sim, é fato que morreram figuras célebres na semana passada.

Verdade, não dá para ficarmos quietos quando um bando de viúvas da ditadura querem comemorar 31 de março de 64 como se tivessem salvado o país e não feito um estrago de proporções mastodônticas.

Sério, não há como ficar indiferente ao ver uma vestal como o Demóstenes Torres, o arauto da moralidade do DEM, ser flagrado no maior chamego com um contraventor de carteirinha (e mostrando-se tão contraventor quanto).

Concordo, as contradições e retrocessos do governo Dilma são um desgosto danado, especialmente para os que (como eu) votaram nela.

Mas mesmo sabendo de tudo isso (e de uma ou outra coisa a mais), estando razoavelmente atento aos movimentos do nosso tempo, constato que o meu próprio tempo, dimensão, território e crítica são outros. É do Complexo do Alemão, de suas pessoas, projetos, riqueza, violência, afetos, tensões, tráfico, desconfiança, ignorância, saberes, esperteza, solidariedade, orgulho, simpatia, beleza, intolerância, impertinência, temperança e mais trezentos e quarenta e nove mil outros atributos que falo. São eles que me ocupam, que tomam a maior parte de quem sou. E o Brasil? E o mundo? Por sorte têm quem cuide deles. Além disso, sou um só, pouco tem sobrado de mim e ainda por cima tenho muito o que fazer. Ou seja, a bola seguirá com vocês e continuarei não lhes fazendo falta. Mas se acontecer do calo apertar e precisarem de uma mãozinha, eu volto. Só não aparecerei sozinho, porque um monte de novos amigos lá dos lados de Bonsucesso, Inhaúma, Penha e que tais vão querer vir comigo. E sem eles nada feito, combinado?

March 11, 2012
by Ricardo C.
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“Acho que foi coisa da minha imaginação” [Página|12]

Por Carlos E. Sluzki*

Tempos atrás eu estava ajudando um homem em terapia a reorganizar sua identidade, danificada durante dois meses de impiedosa tortura numa prisão do governo militar do seu país de origem, seguida de exílio forçado. Depois de algumas sessões onde se mostrara profundamente embotado, esse homem começou a chorar de maneira inconsolável, o que durou semanas. Chorava, dizia ele, pelo tempo perdido, pela inocência perdida, por seus ideais traídos, pelos amigos mortos ou que continuavam presos, pelo seu próprio sofrimento. Em certo momento do processo terapêutico incitei-o com suavidade a incluir comentários sobre seus algozes, que expressasse suas emoções sobre o assunto. Freou minha iniciativa: “Não estou interessado neles — disse. — Deixe-me viver meu luto do meu jeito, em paz”. É claro que ele tinha razão.

Recentemente, ao longo do processo terapêutico com uma mulher que fora abusada emocional e sexualmente durante muito tempo pelo seu namorado, ela começou a descrever seu violador referindo-se ao seu contexto, sua história e seu estilo. Como tive a impressão de que com essas descrições ela estava tentando justificar essa violência, desafiei sua descrição, definindo sem nenhuma ambiguidade a responsabilidade que ele tinha sobre tal violência. Ela me corrigiu: ”Não é que eu esteja justificando seus atos. Tento entendê-lo, vê-lo como um ser humano e não como um objeto, para diferenciar-me dele. É isso que eu estou fazendo”. De fato, ela tinha razão.

Outra mulher, vítima de assalto e estupro que a deixou profundamente traumatizada, passou um longo período dominada pelo que considerei um discurso interminável de ódio, com planos fantasiosos de vingança contra seus agressores. Enquanto isso, como testemunha da sua história, eu legitimava a sua indignação, de vez em quando fazendo observações centradas no seu sofrimento, na perda da inocência, sua decepção a respeito do mundo. E cada vez que eu fazia isso, ela me acusava de tentar distraí-la do que era central para ela, isto é, a legitimidade de sua fúria. E, claro, ela também estava certa.

O trabalho terapêutico com vítimas de violência — sobreviventes de atrocidades individuais e coletivas — envolve um processo de descoberta e recuperação de verdades, de facilitar o luto, de reconstituir a autoria e a capacidade de tomar iniciativas através da ação e da reivindicação, de recuperar o futuro e reconectar-se consigo mesmo e com os outros. Isto implica numa tarefa por vezes árdua de ajudar nossos pacientes a mudar especificamente aquelas narrativas sobre a sua experiência de vitimização e as consequências morais e comportamentais das mesmas, que os aprisionaram num mundo onde sua capacidade de autoafirmação, reconhecimento, autoria, autonomia, crescimento, alegria e enriquecimento emocional recíproco foi drasticamente reduzida.

Qualquer ato de violência interpessoal põe em cheque nossas premissas sobre como conceber e descrever nossa vida e nosso entorno, destruindo nosso lugar no mundo. Não surpreende que o primeiro efeito de um ato de violência sobre a vítima seja uma experiência de confusão, uma perda da coerência interna que constitui sua identidade: a violência destrói o modo de descrever o mundo; consequentemente, destrói esse mundo. Uma criança com um braço quebrado por uma surra de um pai ou de uma mãe mal-humorados, uma mulher que recebe um soco de seu marido, um idoso inválido emancipado pelo abandono de seus filhos, uma menina que acaba estuprada num encontro que ela pensou ser amigável, uma pessoa que é assaltada num beco por um ladrão, um cidadão que é torturado por um agente de segurança, o estupro em massa de mulheres para “contaminar seu grupo racial”, o extermínio sistemático de uma determinada população, a expulsão massiva de um grupo étnico, o Holocausto, os atos de Khmer Vermelho, Ruanda, Darfur, todos têm em comum a violação dessas premissas básicas de segurança e de respeito mútuo enquanto seres humanos, desse apoio que esperamos como membros de uma família, de uma comunidade ou da família humana. Em cada um desses casos as vítimas são despojadas do requisito de coerência necessário para viver em um mundo previsível, ordenado e razoável.

Essa fratura na trama do mundo despedaça a identidade e gera, nos que a padecem, uma fome de coerência, um desejo básico de ordem. Consequentemente, buscarão e aceitarão qualquer descrição que lhes permita restabelecer uma aparente estabilidade em sua visão de mundo e de si mesmos. Esta necessidade extrema de clareza faz com que as vítimas de violência estejam disponíveis para incorporar narrativas distorcidas e tóxicas provenientes de sua cultura ou da tradição familiar, de suas próprias experiências anteriores, ou ainda daquelas oferecidas seja por seus próprios algozes ou pelas testemunhas da violência.

Uma bofetada, o estupro, um ato de tortura, uma morte violenta são rótulos descontextualizados, desnudos, que definem atos de violência e não a sequência dos atos, o total de participantes, o contexto ou os preceitos morais ou relacionais, a totalidade de elementos constitutivos de uma história. Muitos dos traços das histórias — e de suas transformações a partir de uma experiência de violência e a partir de uma terapia — são facilitados pelas histórias dominantes em nossas culturas, pelas tradições e mitos e múltiplas histórias que outorgam identidade a nossa família e a nosso entorno cultural e étnico, pelos temas dominantes em nosso estrato sócio-econômico-político — com sua cota variável de sexismo, classismo e regionalismo —, por nossos credos — tais como a noção de carma num contexto budista e a de pecado e castigo num contexto judaico-cristão —, e pelos relatos dominantes nos meios de comunicação de massa. Esses mitos e histórias arquetípicas ou idiossincráticas proporcionam anteprojetos explicativos prontos para influenciar ou ainda guiar as histórias pessoais em vias de serem reorganizadas logo que uma experiência de violência tira uma pessoa do prumo.

Só que os algozes, os cúmplices, os possíveis espectadores, as testemunhas (mesmo as mais bem intencionadas) e até a própria vítima têm o poder de, através de suas ações e comentários, facilitar, semear, inocular certos argumentos que mistificam, opacam e re-editam, por assim dizer, a natureza violenta do ato, assim como a responsabilidade tanto dos perpetradores quanto de suas vítimas.

Quando se deturpa a quem pertence a iniciativa e se mistifica o papel do agressor, a violência passa a ser definida como se seu autor tivesse sido forçado por alguma outra instância (“Eu não queria, mas …”), culpando, em última instância, a vítima (“você me fez fazer isso”), as circunstâncias externas (“Eu estava estressado pelo meu trabalho”,”Eu apenas obedecia ordens”), os hormônios (“O que você quer? Eu não sou feito de pedra! “), os genes (“você sabe que eu sou assim, temperamental. Por que foi me provocar?”), os mal-entendidos (“Você me convidou para ir ao seu apartamento, por isso não venha me dizer que não esperava que fôssemos para a cama!”), as outras gerações (“Eu estava me vingando pelo que seus avós fizeram com os meus avós”).

Acrescentando mais confusão ao cenário, o agressor — ou uma testemunha, ou mesmo a vítima, quando foi “adequadamente treinada” por suas experiências anteriores — pode rotular o ato de violência não como violência, mas como educação (“É pra você aprender!”) ou como amor (“Fiz isso porque te amo demais!”).

Desqualificando a experiência da vítima, o efeito físico ou emocional da violência pode ser negado (“Não doeu tanto assim!”; “Bem que você gostou, não é?”).

Mistificando o corolário moral, a intenção do ato de violência pode ser redefinida (“O que estou fazendo é pro teu bem!”). Além disso, o agressor, o contexto ou mesmo o imaginário da vítima podem forçar esta última a aceitar uma versão distorcida da realidade, através de ameaças de isolamento social, de risco de desesperança, do apelo à vergonha (“Todos te conhecem e vão ficar sabendo que, na verdade, foi você que provocou, você vai ser motivo de chacota pra todo mundo!”), à falta de credibilidade (“Ninguém vai acreditar em você!”), ao terror (“Se você contar pra alguém eu volto e te mato!”), à loucura (“Você está completamente louco/a! Isso nunca aconteceu!”).

Resumindo, depois de sofrer atos de violência intensa e às vezes repetida, as vítimas, em função dos processos descritos acima, tenderão a apresentar graus variados de confusão ou desorganização — efeito da diminuição de sua capacidade de narrar sua história sobre as circunstâncias e manter a coerência a respeito do seu mundo —, ou então distorções na história da violência onde creem ocupar, em alguma medida, a posição de auto-agressoras ou no mínimo cúmplices de sua própria vitimização e sofrimento (“Fui eu que provoquei”; “Fui eu que procurei”; “Eu mereci”; “Acho que foi coisa da minha imaginação”).

Estas descrições distorcidas dão à vítima uma pausa temporária, uma saída provisória para o terrível sentimento de traição das premissas básicas da vida por parte do ato de violência, já que essas mistificações questionam a própria existência da traição: na verdade teria sido um ato de amor, ou pedagógico, ou provocado pela vítima ou mesmo desfrutado por ela. Assim a vítima esquece o que aconteceu, redesenhando e adequando a história distorcida. Essa alternativa, a que muitas vítimas de violência se agarram como tábua de salvação, ocorre às custas do abandono de qualquer insight,validação e protagonismo ético. De fato, tal saída acarreta desvantagens significativas: requer um intenso esforço psíquico para ser mantida, já que ocorre a partir da negação de sinais provenientes do feedback dos demais, do próprio corpo e até do senso comum; portanto, esta estratégia promove um entorpecimento emocional, levando ao isolamento progressivo em relação aos membros significativos da rede social — família, amigos, vizinhos — que contrariam essa versão da realidade, levando à redução do contato social íntimo; aumenta o risco de recorrência do dano, posto que não favorece comportamentos protetores necessários para evitar a recorrência da violência, ou seja, reduz a possibilidade de aprendizagem e mudança, obscurece a necessidade de uma reparação em relação ao sofrimento, já que o agressor deixa de aparecer como tal na história. Portanto, escamoteia a ética relacional e, a longo prazo, consolida uma visão solitária e desesperançada da realidade, já que a visão de mundo adotada frequentemente implica que “as pessoas estão sempre prontas para tirar vantagem de mim” ou que “eu mereço ”, minimizando a resistência e facilitando a perpetuação da violência.

Um dos resultados — e às vezes uma das intenções — de todo tipo de violência coletiva é não apenas a eliminação da própria vítima (seu desaparecimento, seu absoluto denegrir, sua expulsão), mas também a destruição da história de vida das vítimas, de seus testemunhos e lembranças, da sua identidade. Esse processo é frequentemente compartilhado pela violência interpessoal, privada.

O objetivo do processo terapêutico com vítimas da violência é exatamente o oposto: é “dar voz” às vitimas desestabilizando os componentes mistificados da história de vitimização, restaurando a memória e a identidade e abrindo as possibilidades de re-capturar o protagonismo de sua vida, assim como de recuperar sua dignidade.

Narrativas de recuperação

A evolução de cada narrativa de violência daquele que sobrevive é idiossincrática: cada paciente evoluirá em seu próprio ritmo, através de seu próprio calvário e seus próprios ritos de passagem. A cura frequentemente inclui uma série de transformações na história da violência. Cada paciente permanecerá em uma ou outra das possíveis narrativas durante o tempo que precisar para poder tecer a trama que recapturará de forma digna suas identidades, suas introspecções e sua capacidade para a alegria e a esperança. Algumas incluirão o mundo dos seus agressores, o mundo dos seus autores, algumas não (e ela pode evoluir da não inclusão para a inclusão ou vice-versa). Algumas localizarão a fonte da responsabilidade de vitimização no agressor, outros nos expectadores, ou no contexto, ou em outros personagens (frequentemente movendo-se de uma história simples, linear, para uma mais complexa e rica) ou, em parte, na vítima — se disto se depreenderem aprendizagens e insights enriquecedores. Alguns apresentarão uma história em contínua evolução, enquanto outros alcançarão um determinado ponto e pararão por aí. De fato, existem muitas maneiras de viver uma vida.

No curso desse processo acompanhamos nossos pacientes através de alguns paradoxos resistentes. Um deles é que o fechamento da história, a resolução interior é algo necessário, mas toda conclusão definitiva da história é impossível, já que para garantir que se retenha tudo o que se aprendeu dela é preciso, até certo ponto, mantê-la viva.

É importante ter em mente que, apesar de toda a expectativa, a terapia não é restauradora, isto é, as vidas dos sobreviventes nunca serão “como antes”. Eles viverão, esperamos, vidas diferentes, vidas com menos sofrimento e mais prazer, com mais iniciativa e mais liberdade, vidas valiosas, mas não “como antes”. De fato, as fantasias de restitutio ab initio (ou seja, de que a experiência traumática vai desaparecer através da terapia, como uma espécie de recompensa pelo esforço e pelo sofrimento) constituem uma expectativa ilusória bastante frequente não apenas em muitas das vítimas de violência em processo de recuperação, mas também em muitos terapeutas, o que acrescenta ao processo mais um nível de luto (a perda do final feliz tanto para a vítima quanto para o terapeuta). É por isso que podemos prever que a conclusão de um processo de reparação será seguida por uma sensação ambivalente de sucesso e de fracasso, de satisfação e de vazio.

* Extraído do artigo ”Victimización, recuperación y las historias ‘con mejor forma’”, incluído na revista Sistemas Familiares y otros Sistemas Humanos, da Associação de Psicoterapia Sistêmica de Buenos Aires.

[“Las 'Narrativas' en la Terapia con Víctimas de Violencia”, Página|12, domingo, 4 de março de 2012. Tradução: Ricardo Cabral.]

March 4, 2012
by Ricardo C.
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Posta restante

Querida F.,

Era pra ser um email, mas eu e meus botões ficamos pensando no que a M. falou sobre privacidade, na minha própria relação com o público e o privado e no fato de nós dois blogarmos faz tempo, eu para meia-dúzia e você para as multidões, minha Emilinha Borba das internetes. Foi por isso que resolvi pôr a conversa aqui no blog e deixar pra quem quiser ler do jeito que quiser ler. Você sabe, é a tal questão, comum à maioria, que não sei dizer se o quanto nos inclui, mas agora já foi, e que só se diferencia pela escala: o fato de todos sermos meio voyeurs,  minha flor, sorvendo histórias alheias, furtando-as nos pontos de ônibus (e dentro dos próprios), no restaurante, na fila do pão, da loteria e até na sala de espera do oncologista, torcendo pra não ser melanoma, só marcas da galopante velhice. Além do mais, de vez em quando é bom arrefecer esse péssimo e constante hábito de tentar controlar os pingos da chuva, a dureza das pedras e o fato dos cheiros e dos sons não pedirem licença para invadir-nos enquanto perambulamos por aí, não é? Eu pelo menos preciso aprender.

O que me faz lembrar que há cinco dias — na verdade tinha escrito há três, depois há quatro, mas como não consigo terminar este post-carta nunca, anteontem já é hoje e nessa marcha daqui a pouco será há trinta e três dias atrás —, naquela hora do dia em que a gente resolve dizer boa tarde e os outros respondem boa noite, aconteceu da minha composição chegar na estação X do metrô, pertinho aqui de casa, eu posicionado na primeira porta do terceiro vagão, a mais próxima da escada rolante — você bem sabe como o tédio das longas jornadas leva a mim e outros tantos a calcular essas coisas — e nem te conto, ou melhor, conto sim, sabe quem entrou antes que eu conseguisse dar o primeiro passo? Uma maresia inverossímil e intensa, e tinha mesmo que ser assim para ter chegado até ali, a seis quadras da praia, minha preta, isso mesmo, seis, sem contar as duas escadas rolantes que ela teve que descer quando resolveu entrar na composição em que eu estava, com especial atenção ao terceiro vagão, tenho pra mim que porque achou de resolver mudar de praia. Maresia pra maravilhar crianças, linda minha, e ao mesmo tempo preocupar velhos, temerosos de que aquilo seja mais um sinal daquele fim do mundo que eles ouvem falar desde que se entendem por gente.

Mas as visitas inopinadas não pararam por aí. Dois dias depois, ou seja trasantontem — palavra que o Houaiss diz ter surgido em 1721, sessenta e oito anos antes de trasanteontem —, tomei um susto danado quando vi uma abelha na capa do livro que há uma semana venho lendo todo dia de manhã a caminho do trabalho — sabe como é, nessa hora do dia a vista ainda está razoável, bem diferente do lixo que ela fica oito horas depois e que me tira a concentração e me convence que emburreci, ou seja, melhor rever de uma vez o grau dos meus óculos de velhinho. Mas eu falava da abelha que pousou na capa, tenho quase certeza de que na cadeira vermelha ali estampada, vá entender o que essa abelha viu nela, mas vale dizer que a cadeira deixou a capa bem bonita, pelo menos eu achei, não sei se você também vai gostar, espera um pouco…

pronto, olha ela aí, não tem mesmo o jeito de puteiro de cidade do interior de que o livro trata? Dá até pra imaginar a Nelly, a Irene, a Maria Bonita ou o próprio Larsen sentados nessa cadeira. Aliás, não sei se você o conhece, é o Junta-Cadáveres do título, chamado assim

… por se fazer ‘colecionador de putas pobres’, do hábito de tratar mulheres já gastas com uma condescendência interesseira e ao mesmo tempo mesclada de dolorosa piedade — desde que elas, as mulheres, fossem aproveitáveis.

Li esse livro faz uma eternidade, mas naquele então não lhe fui digno, se é que dignidade é a melhor palavra, porque só agora, nas manhãs a caminho do trabalho, com surpreendentes abelhas me acompanhando e tendo a vista remoçada por um tiquim de sono bem dormido, e também semi-saciado do mundo ao redor por conta dos registros matinais em P&B feitos em dezembro e janeiro, consegui apreciar com o vagar necessário as imagens meio Francis Bacon meio Lucian Freud que o Onetti imprimiu nas minhas retinas, só consigo falar mesmo das minhas. E invejei tudo o que li até agora, F., as cento e dez páginas — porque leio devagar, umas vinte por viagem, até a trezentos e dezessete ainda falta a companhia de um enxame inteiro —, sem essa conversa de inveja boa, inveja branca e que tais, pois vá pôr em cinco linhas tanta poética lá no raio que os parta, seu Juan Carlos.

Sabe, tô aqui pensando que não é só a beleza das prosas que me arrebata. É que depois de velho reconheço ter finalmente sucumbido às tais identificações, minha nega, à precária ilusão de que quando algo se parece com um arremedo do (que imagino ter sido) real colecionado nestas mais de quatro décadas respirando por aí, esse meu instável real, só me resta baixar a guarda e dar corda à condescendência, igualzinho àquelas mães que veem seus filhos sociopatas como anjos barrocos, sabe? E a cada dia parece que conservo com mais carinho, nos cantos da minha divagante memória, essas histórias relatadas, filmadas, emolduradas ou encapadas, brochura ou capa dura, tanto faz, que com a guarda baixa conseguem me tirar do sério, do conforto, das certezas que vivo dizendo que não tenho e que de vez em quando dão o ar da graça. O exemplo mais próximo, fora a ficção do Onetti lá de cima, é o filme que vi ontem, que a R. gostou, mas que eu disse gostei com a boca mais cheia, os olhos mais abertos, mesmo não sendo o filme do ano de 2010, deste mês então nem se fala. Mas tenho que te dizer que ele é próximo, F., próximo da história da gente, da nossa geração, daquela história que alguns andam dizendo que nem existiu ou então que temos que virar a página, parar de insistir. Pois eu só quero esquecer aquilo que estiver doendo demais, minha amiga, mas só enquanto estiver doendo demais. Assim que o sangue esfriar um pouco quero mais é lembrar, lembrar e elaborar, lembrar e chorar, gritar, acusar, sei lá se perdoar (embora saiba que faz um bem danado pra quem perdoa), e depois seguir em frente, se der. E esse filme bateu ali, nas identificações, no latinoamericanismo que carrego e que não sumiu, não tem como sumir, e por isso condescender vai virando o verbo a conjugar, em papel, película, tela ou suporte que for.

Bom, é isso, dona moça, acho que te atualizei um pouco das coisas por estas bandas. Tem outras novidades, coisa boa, mas essas só você ouvindo a minha voz, sem registro escrito. Te ligo, me ligue, o celular você tem e pode chamar quando quiser, pode ser por skype.

Beijo grande,

Eu

February 12, 2012
by Ricardo C.
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O mundo e o umbigo

É o melhor do mundo
É o melhor da América Latina
É o melhor do Brasil…
É o melhor do estado
É o melhor da cidade
É melhor do bairro
Bom, das três lojinhas da rua que eu costumo frequentar, garanto que é o melhor.

January 22, 2012
by Ricardo C.
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Filosofia de botequim

Alguém sabe dizer se existe algum estudo sobre “a história universal do” elogio ou da crítica elogiosa? Porque só hoje, depois de semanas desatualizado sobre o que anda sendo noticiado, comentado, criticado, elogiado e sei lá o que mais, acabei lendo em blogs, Facebook e twitter umas quatro ou cinco críticas elogiosas sobre os temas mais díspares, mas todas com uma característica comum: seus autores acrescentaram às tais críticas elogiosas que fizeram o fato delas coincidirem com aquilo que eles mesmos pensavam.

Mesmo sem ter saído do país nos últimos oito anos e circulando relativamente pouco pelos diferentes estados da nação nesse mesmo período, tenho a nítida impressão de que a gente — você, eu, o Eike Batista, o Mr. Catra e boa parte das torcidas dos times mais populares do país — anda mais umbiguista do que antes. Se de fato a diferença não for estatisticamente significativa, parece que as manifestações do gênero têm sido mais visíveis. Claro, é preciso levar em consideração que estamos muito mais conectados do que antes, acessando informações e manifestando nossas opiniões em fóruns diversos com muito mais facilidade do que na era pré-internet. Ou seja, o que antes dizíamos apenas a um círculo restrito de pessoas, hoje pode se tornar um viral e chegar ao outro lado do planeta em poucas horas, com gente respondendo, concordando, discordando e tudo mais. Mas insisto no ponto: é possível avaliar se com a consolidação de uma cultura do narcisismo e do individualismo — ao menos em boa parte do Ocidente — a autorreferência do nosso olhar para o mundo aumentou nas últimas décadas?

Em outras palavras, espero não estar confundindo duas coisas:

1) que, de forma explícita ou não, nós realmente andamos mais autorreferentes do que em outros tempos; e
2) o fato de hoje em dia explicitarmos com maior frequência aquilo que pensamos (e sermos incentivados a fazer isso), ou seja, que isso é apenas mais visível do que antes, mas que sempre funcionamos mais ou menos do mesmo jeito, que é algo relativamente atemporal e universal, mudando um pouco a forma como isso é manifesto, levando em consideração diferenças culturais, de gênero, de geração, de classe social e de crença religiosa, entre outras.

Por último, tenho para mim que quanto mais conseguirmos enxergar aspectos positivos em notícias, modos de viver, pensar e agir que sejam francamente distintos das nossos (e mesmo opostos), o nosso mundinho pessoal se verá amplamente enriquecido, a despeito da angústia que esse tipo de atitude possa gerar em nós. Só espero conseguir agir de acordo e ainda por cima manter-me firme nessa trilha.

January 15, 2012
by Ricardo C.
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Já disseram tudo sobre Belo Monte? Posso mostrar só uma coisinha que vi por aí?

XINGÚ (sic) VIVO.
ACORDE O ÍNDIO DENTRO DE VOCÊ
RESPEITE NOSSA  CULTURA
BELO MONTE NEVER

O bom destes tempos globalizados é o cada vez mais frequente congraçamento dos povos, inclusive povos indígenas. Por isso mesmo, sejam bem-vindos ao calçadão de Copacabana, irmãos Sioux, Comanches, Apaches, Cherokees e demais povos do hemisfério norte. Então gritemos em uníssono: Belo Monte NEVER!

[P.S. Belo Monte e sua justificativa mal-ajambrada em torno de um modelo desenvolvimentista não me agradam em nada, que fique bem claro. Mas no bom espírito carioca, não resisto: perco o amigo, mas não a piada.]

January 11, 2012
by Ricardo C.
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E também não somos classistas

Não apoie as mãos nas portas.
Não sente no chão.
Não use viaje com mochila nas costas.
Evite acidentes, a sua segurança também depende de você.

O texto com a frase em negrito aí de cima corresponde a uma das mensagens sonoras do metrô carioca, na voz que responde pela nova identidade sonora da concessionária MetrôRio. Gostaria de dizer que simpatizo bastante com o jeito cotidiano da nova narradora, bem diferente da voz grave, pausada e atuada de antes, naquele estilo Iris Lettieri de locução que já não anda muito valorizado. Só que tenho uma dificuldade danada em dissociar a voz do conteúdo — ou em termos chicobuarqueanos, a voz do dono e o dono da voz —, fazendo com que a simpatia dê lugar a um incômodo de que quero falar há tempos.

Mas antes de entrar propriamente no assunto, convém apresentar aos que não são do Rio uns poucos dados sobre o metrô daqui. Primeiro, que ele só tem duas linhas, a 1 (General Osório-Saens Peña) e a 2 (Botafogo-Pavuna) — quadro bem distante do projeto original, que previa seis (e que parece que ficará só com quatro). A linha 1 percorre bairros da Zona Sul carioca, a parte com maior visibilidade e onde ficam as praias mais famosas, vai até o centro da cidade e termina na Tijuca, tradicional bairro de classe média. Já a linha 2 atende sobretudo ao subúrbio da cidade, área historicamente “tão” privilegiada pelo poder público quanto a periferia de São Paulo. (Adendo: não é só o poder público que pouco olha para o subúrbio. Há inúmeros cariocas que desconhecem qualquer coisa que se passe fora da já falada Zonas Sul e de parte da Zona Oeste — leia-se Barra da Tijuca —, dando a entender que esta seria uma cidade partida, felizmente um entendimento equivocado).  E para arrematar, com as últimas mudanças no traçado da linha 4 — objeto de forte manifestação contrária, incluindo ação civil pública —, a ideia de “malha” que norteia qualquer projeto metroviário parece ter ido mesmo para o brejo.

Questões “técnicas” apresentadas, deixe eu contar algumas das minhas próprias impressões sobre o metrô carioca, especialmente sobre a linha 2. Sei que é do jogo que a maioria das ações urbanísticas de monta ocorram a partir dos interesses dos grupos e áreas mais ricos. Gostaria muito que fosse diferente, mas não há sinais no horizonte de que essa dinâmica vá mudar. Só que às vezes o resultado desses interesses é tão absurdamente grotesco que não dá para fingir que se trata de algo normal e/ou aceitável. Nesse sentido, apreciem as duas imagens abaixo:

A foto da esquerda corresponde ao interior dos antigos vagões da linha 2 e a da direita aos da linha 1 (que ainda estão em uso, agora também na linha 2). Os antigos vagões que circulavam pela linha 2 correspondiam ao que se conhecia como “pré-metrô”, expressão que só posso considerar como uma piada de

péssimo gosto que os moradores da Zona Norte começaram a ouvir em 1981 e da qual só se livraram em 2002. Porque as fotos talvez não deixem claro, mas as diferenças eram gritantes: a linha 2 não passava de alguns bondes, inicialmente importados da Bélgica, que foram adaptados para rodar sobre os trilhos do metrô. Eram composições de quatro vagões, mais estreitos que os da linha 1 e de interior bem modesto, grande intervalo entre as composições e o fato de que os vagões do famigerado pré-metrô simplesmente não tinham ar-condicionado, o que em se tratando da canícula do Rio de Janeiro só pode ser encarado como um detalhe praticamente insignificante…

Mas os tempos são outros, as diferenças entre as composições das duas linhas já não existe mais e a cidade parece querer fazer valer a fama de democrática e horizontal que suas praias lhe deram… Democrática? Horizontal? Falamos da cidade que precisou sancionar uma lei vedando “… qualquer forma de discriminação em virtude de raça, sexo, cor, origem, condição social, idade, porte ou presença de deficiência e doença não contagiosa por contato social no acesso aos elevadores existentes no Município do Rio de Janeiro? Ou que outro dia mesmo andou protestando contra uma estação do metrô em Ipanema, entre outros argumentos porque “… vai aumentar o trânsito de pessoas estranhas ao bairro? Melhor paro nesses dois exemplos, caso contrário não termino este post hoje. Até porque falei, falei e aquele parágrafo lá do começo acabou abandonado, sem justificativa nenhuma. Então trato de consertar as coisas contando a vocês uma particularidade sobre essas frases. É que cinco dias na semana ouço a nova narradora de fala cotidiana pedir a mim e aos demais passageiros que não nos sentemos no chão dos vagões. Só que não falo de todos os passageiros do metrô, mas apenas os que andam na linha 2, justo aquela que circula no subúrbio do Rio. Sim, tanto texto só para dizer que os passageiros da linha 1 parecem não precisar ouvir certas mensagens “pedagógicas”, ao contrário dos que andam pelos trilhos por onde circulou o antigo pré-metrô estreito e sem ar-condicionado. É como se ao passar do um ao dois se saísse da civilização e caísse na barbárie, faltando apenas alguns feitores nas estações distribuindo chibatadas sobre a turba.

Não sei como é para você, mas para mim as palavras não são simplesmente levadas pelo vento, coisas inocentes ou mera brincadeira. E nas minhas diárias idas e vindas pelas duas linhas do metrô carioca, o que vejo ferir surda e cotidianamente não são essas palavras ditas na linha 2, mas o fato de nunca ouvi-las na linha 1.

Adendo: nos comentários, Débora Leão fez um importante comentário:

Essas mensagens tocam na Linha 1, sim. Pego o metrô todos os dias, saindo da Saens Peña, e escuto a cantilena (aliás, é “não viaje com mochila nas costas”). [Frase já devidamente corrigida]

Só fiquei com uma pulga atrás da orelha: só costumo ouvir essas mensagens na ida, ou seja, saindo da Tijuca pra Zona Sul. Na volta, saindo da civilizada Zona Sul, não lembro de ouvir nada.

Se por um lado o primeiro parágrafo bate de frente com o que escrevi, o segundo, a “pulga atrás da orelha”, o ratifica. A minha resposta foi:

Especificamente em relação à frase “não sente no chão”, entre Ipanema e Botafogo, onde salto para pegar a linha 2, nunca ouvi essa mensagem. E digamos que ela passe e eu não tive a sorte de ouvi-la em nenhum dia ao longo dos últimos dois meses. Mesmo que ela passe, suspeito que na linha 1 a frequência seja mínima… Enfim, tendo a acreditar em dois pesos e duas medidas, até por conta da histórica cisão que os da parte rica operam sobre a parte mais pobre.

Demorei muito tempo para escrever este post, por uma razão: achei por bem acumular um número suficiente de viagens no metrô para sustentar que a frase se ouvia na linha 2, mas não na linha 1. Mas devo ser preciso, especialmente depois do comentário da Débora. Embora ande de segunda a sexta-feira nas duas linhas, não o faço em toda a extensão da linha 1, só entre cinco de suas dezoito estações, e todas na Zona Sul (que por sua vez soma nove). Acrescento que ouvi a famigerada frase pela primeira vez no dia 16 de novembro, na linha 2, e ela tanto me chamou tanto a atenção que vivia esperando ouvi-la novamente. Até que, para meu espanto, percebi que ao longo destas oito semanas nunca, repito, nunca a ouvira na linha 1.

January 4, 2012
by Ricardo C.
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Na aldeia Tel Ilan, assim como em Nova York, Budapeste, Curitiba, Nairóbi…

Entre ele e Rachel reinava na maior parte do tempo aquele armistício tão comum entre casais depois de longos anos de casamento, depois que a briga e a ofensa e as separações temporárias já ensinaram os dois a medir com cuidado cada pisada e a contornar o campo cheio de minas sinalizadas. A rotina desse cuidado era, vista de fora, quase igual a uma mútua transigência e até deixava espaço para uma espécie de tranquila amizade, do tipo daquelas amizades que se desenvolvem às vezes entre soldados de dois exércitos inimigos que ficam frente a frente à distância de poucos metros numa longa guerra de trincheiras.

Dani Franco, aquele que no dia do seu quinquagésimo aniversário deixou Rachel Franco viúva e If’ at e Osnat órfãs. É personagem secundário da história Os que cavam (pp. 43-87), do livro Cenas da vida na aldeia, de Amós Oz.

December 30, 2011
by Ricardo C.
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Sabedoria impopular

Na mesa ao lado, quatro moças e um rapaz num animado burburinho pós-natalino, até que do zum-zum despontou uma fala inteligível para no mínimo quatro mesas ao redor.

“Porque se meu marido me trair, que seja por uma que ele se apaixone e que eu diga: bom, pelo menos ela é bonitona, gostosona, inteligente, bem sucedida. Já que o feladaputa resolveu esmerdalhar tudo, fez por uma melhorzinha que eu!” e as outras três “é isso mesmo!”, “tem razão, amiga!”, “também acho, mas antes ele tinha apanhar!” e hahaha e hehehe, até que o rapaz meio que atravessou o samba: “quero te enganar não, mas teu marido não vai te trair por uma melhor” e pausa, não se sabe se para que as moças aquietassem e ele virasse o centro das atenções ou se por ter percebido a trilha perigosa em que se meteu e que vai dar em beco sem saída, banco de areia movediça, precipício ou a uma combinação dos três. Fosse a razão que fosse, prosseguiu:

“Acho até que o teu marido ainda não sabe, mas ele vai querer é uma pior, menos inteligente, mais nova e imatura, que se encante por ele ou que pelo menos finja bem, que lhe babe o ovo, primeiro sem trocadilhos e depois com, e que quando o ego dele ficar satisfeito ou que ele começar a enjoar ou que a menina passe a dar trabalho, que ela acredite ou finja acreditar no tal não é com você, é comigo que ele disser pra ela. É uma dessas que ele vai querer.”

Rapaz corajoso, aquele. Ou burro. Ou com incontinência verbal e falta de superego. Ou que não gosta de hahahas e hehehes, que por sinal sumiram, ficando só um silêncio inteligível para no mínimo quatro mesas ao redor.

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[Suspeito que seja meu último post do ano. Em 2012, roubo outras conversas e ponho por aqui.]

December 18, 2011
by Ricardo C.
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A função psicológica do trabalho

“A história não diz respeito ao passado. A história é precisamente a transformação do passado em futuro ou o fracasso dessa transformação” 

Lev Vygotski

Ontem lembrei da minha velha dissertação de mestrado. E só compartilho essa lembrança por conta da forte inflexão que o que escrevi à época vem sofrendo, especialmente nas últimas semanas. Não vem ao caso me alongar muito em questões acadêmicas, já que (pelo menos) este blog não é o melhor lugar para isso. Basta dizer que o que desenvolvi girava em torno da noção de trabalho, em particular da categoria “sofrimento no trabalho”, sobretudo no que se refere às transformações que vêm ocorrendo nas últimas décadas, no contexto da globalização.

[Espere, não desista de ler. Talvez piore um pouquinho antes de melhorar, mas quero crer — e que você creia — que o saldo será positivo.]

Anos atrás falei um pouco sobre esse tema aqui no blog, numa série (inacabada, eu sei) que, não por acaso, intitulei Tripalium (1 e 2) — nome de um instrumento de tortura que os romanos usavam para supliciar os escravos e que se acredita ter dado origem, na língua portuguesa, à palavra “trabalho”. Foi no clima de desencanto que essa etimologia carrega, assim como de derrota diante das transformações que prometiam a diminuição do trabalho (mas resultaram em sua intensificação e precarização) que escrevi aqueles posts. E, sendo justo, ainda considero que tudo o que está ali continua válido, embora não creia mais que dê conta do que seja a atividade laboral, menos ainda quando comparado ao que ultimamente tenho visto, acompanhado e, reconheço, vivido.

Antes de dizer o que mudou, deixe eu situar algumas diferenças. Naquele tempo a principal referência que usei foram os trabalhos do psiquiatra e psicanalista Christophe Dejours, um ícone da psicodinâmica do trabalho. E foi a partir de textos como O fator humano, Psicodinâmica do trabalho e, sobretudo, do polêmico A banalização da injustiça social que analisei a questão do sofrimento psíquico no trabalho, das estratégias coletivas de defesa para lidar com a banalização do mal e da injustiça social, assim como também subscrevi a visão dejouriana de que essa banalização se sustenta muito menos na violência do que na colaboração (ou no “colaboracionismo”) e no zelo com que a maioria dos trabalhadores age ao lidar com as novas formas de organização do trabalho. (Ou seja, os trabalhadores seriam co-autores da injustiça e do verdadeiro “trabalho do mal” sofrido por eles mesmos e que regeria o cotidiano das organizações.)

Mas sempre tem um mas, e ele tem alguns nomes: Yves Clot (e sua Clínica da Atividade) e o Complexo do Alemão. Do primeiro vem o nome do post, justamente o título de um de seus livros. E o “mas” que ele representa é que para ele, diferente de Dejours, a subjetividade no trabalho não se une automaticamente ao sofrimento a respeito do qual os sujeitos podem no máximo defender-se. Para Clot, o sofrimento no trabalho deve ser considerado

como atividade contrariada e até reprimida, [...] como um desenvolvimento impedido. Trata-se então de uma amputação do poder de agir que proíbe os sujeitos de dispor de suas ações, que não os deixa transformar seu vivido em recurso de vivência de uma nova experiência. (2006, p. 9-10)

É verdade que no trabalho há conflitos insolúveis e de caráter perverso, mórbido mesmo. Mas isso não quer dizer que a única saída seja compensar as dificuldades sofridas por meio de defesas. Isso porque estas, “[...] ao fixar as proteções sobre objetivos fictícios, diminuem aqueles que trabalham”. Existe a perspectiva de reagir. E no sentido inverso das estratégias defensivas, “as reações autorizando um real desprendimento subjetivo dos conflitos do real, coloca os trabalhadores ‘uma cabeça acima deles mesmos’, segundo a expressão de Vygotski” (Clot, 2001, p.7).

Falta falar do outro “mas”, o Complexo do Alemão, mesmo que eu tenha dito no post anterior que ainda é cedo para entrar em detalhes. Reitero apenas que de segunda a sexta-feira tenho estado por lá a trabalho, e que este não é voluntário. Afirmo também que aquele conjunto de comunidades somando mais de duzentas mil pessoas tem sido um manancial de reações nos termos postos acima pelo próprio Clot. Além disso, as condições de trabalho estão longe do ideal e as relações com (e entre) os atores (governos estadual e municipal, ONGs, empresas privadas e estatais, e sobretudo moradores) são complexas, permeadas de tensões, expectativas, conflitos e frustrações, mas também de esperança, aprendizado e transformações, muitas transformações.

Costuma-se dizer que tudo falta no Alemão. O que tenho visto e vivido desmente com sobras essa afirmação. Digo isso porque por lá sobra aquilo que falta em boa parte das atividades laborais contemporâneas: sentido. Ele está presente no trabalho, nas relações entre as pessoas dentro e fora dele, no que lhe falta e nas suas possibilidades insuspeitas. E graças a ele a história tem se configurado em efetiva transformação do passado em futuro, como disse Vygotski. Mas que fique bem claro: não falo (apenas) do meu passado.

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Referências

CLOT, Yves. Clínica do trabalho, clínica do real. Le journal des Psychologues, nº 185, março 2001.

_______ (2006). A função Psicológica do Trabalho. Petrópolis: Vozes.

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[A foto que ilustra o post é minha, a primeira de uma série que comecei e que intitulei "O último (vagão do) metrô", brincadeira com o filme do Truffaut e alusão ao fato de todos os dias pegar o metrô em Copacabana e saltar em Del Castilho, sempre no último vagão. Uma parte dessa série está aqui, disponível para contatos no facebook.]

December 5, 2011
by Ricardo C.
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Os ares do Alemão

O blog tem andado às moscas, no twitter quase não pio e daqui a pouco o facebook inaugurará comigo a ferramenta dislike, é quase certo. Mas tudo por uma boa causa, da qual aos poucos darei ciência. Enquanto não adianto nada, vão aqui algumas fotos e um pequeno sobrevoo pelo Complexo do Alemão, de dentro de uma das gôndolas do teleférico, que começou a funcionar todos os dias da semana desde sábado último. Esses vídeos são de  ontem, domingo, depois de um evento ocorrido na estação Palmeiras, a última do teleférico. Mas antes, duas fotos tiradas de lá.

Pus o foco no alambrado da futura quadra poliesportiva — que como está, de terra batida, só dá para chamar mesmo de futura, embora a molecada das redondezas já esteja usando —, mas o que me interessa está no fundo, naquela estradinha subindo o morro, que dá pra ver melhor abaixo:

Não sei se você ainda não lembra que lugar é esse, então vou refrescar a sua memória:

Sim, foi essa imagem que correu o mundo no ano passado, agora você certamente lembrou. Mas te garanto uma coisa: de maneira nenhuma ela reflete o que é o Complexo do Alemão.

E não digo o Alemão do ano passado, quando a imagem passou em todo canto, mas o Alemão de sempre.

Já dei a entender que ainda não é hora de dar muitos detalhes sobre o que ando fazendo nessa área. São apenas vinte dias desde que pus os pés por lá pela primeira vez, então não passo de um gringo no samba daquelas paragens — gringo do funk nem se fala. Mas prometo, depois que cumprir alguns critérios mínimos, que vou contar mais detalhes. Os mínimos são os seguintes: assim que eu puder ciceronear razoavelmente algum dos meus amigos, que fizermos o circuito gastronômico em busca dos melhores quitutes locais — certeza que em 2012 ele sai —, que passearmos pelas áreas de mata reflorestada guiados pelas educadoras ambientais Cátia e Kelly ou pelos jovens capacitados pelo Verdejar, que apreciarmos os mosaicos das estações feitos pelas artesãs do Musiva (e os da numeração de várias casas, que vão ficar bem bonitos), que formos a uma roda de samba — desculpem, mas os bailes funk eu passo —, que assistirmos a uma sessão no CineCarioca da Nova Brasília e que eu possa apresentar os meus mais recentes amigos de infância, alguns deles parceiros de labuta com quem tenho aprendido muito mais do que ensinado. Enquanto sigo longe de alcançá-los, no máximo mostro algo como este post.

E sobre os videozins cá de baixo — por problemas técnicos seguem os links, assim que as coisas se ajeitarem nos blogs do OPS! eu ponho os próprios —, não se iludam, o que verão é apenas um trecho entre duas das cinco estações construídas dentro do Complexo — fora a primeira, que fica na estação Bonsucesso do trem. E o que mais quero agora é poder filmar e fotografar à noite. Assim que o fizer, repito a dose por aqui.
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[Saída da estação Palmeiras]

[Quando fiquei sozinho na gôndola, deu para registrar em 360º]

November 7, 2011
by Ricardo C.
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Pensata de segunda

Que fique claro: não se trata de nada novo ou original. Quero apenas reiterar o que penso sobre um dos nossos modos de funcionar socialmente. Sim, falo de religião, do fato de que as promessas de redenção e de felicidade e vida eternas após a morte de boa parte das tradições religiosas sirvam acima de tudo para aplacar a angústia inerente à condição humana. E as religiões não são nada bobas: o discurso moral de que se servem é acessível a todos, justamente por operar sobre o cotidiano do homem comum, mostrando-se facilmente assimilável. Ferramentas como discursos habitualmente maniqueístas, uso de bodes expiatórios e a suposta remissão dos pecados “intermediada” por representantes de uma instância pretensamente divina também ajudam, além do fato de que boa parte dessa instrumentalização afetivo-cognitiva ocorre em grupo, em celebrações com cantos e sons que induzem ao transe, o que contribui para reforçar ainda mais as convicções religiosas individuais (tanto as que o sujeito já possuía quanto as que recém-adquiriu no próprio contexto religioso).

Dito isso, tudo o que diz respeito à religiosidade fica esclarecido? Não, não fica. Tenho para mim que de fato há mistério na dimensão religiosa, um mistério tão válido quanto aquele que move a ciência. Claro que é necessário distinguir essas duas áreas e a forma como religião e ciência lidam com elas. Enquanto a ciência reconhece que há uma imensa área escura atestando a ignorância humana sobre o universo, que o saber alcançado até o presente momento é precário e provisório, passível de reformulação à medida em que novas formulações deem conta de explicar melhor o funcionamento/sentido das coisas, boa parte das religiões sobrevive graças à  sacralização do mistério, isto é, à noção de que sobre certas coisas não se deve sequer perguntar, basta aceitá-las da forma como se apresentam e, sobretudo, aceitar o papel de intermediador das instituições religiosas. A elas não parece realmente interessar que se amplie a “área iluminada”: o terreno das sombras deve seguir como está, ameaçador, especialmente para quem estiver fora do círculo das religiões.

Eu disse que esta singela pensata era mesmo de segunda categoria, bem aquém do que certa vez consegui expressar sobre o assunto anos atrás neste mesmo blog. Falo especialmente sobre três posts:

Crença, fé e experiência religiosa (1): a psicodinâmica da crença;

Crença, fé e experiência religiosa (2): a fé; e

Crença, fé e experiência religiosa (3): o que dizer desta última?

As ideias contidas neles não são minhas e sim de Ken Wilber — em seu livro Um Deus Social: Breve Introdução a uma Sociologia Transcendental (Cultrix, 1987) —, com meu papel tendo sido apenas o de sintetizá-las. E aquela caixa com excelentes missivistas e seus comentários foi uma das que mais alegria me deu nestes anos todos de blogagem.

November 4, 2011
by Ricardo C.
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Perversão

Um pacto bem simples: entre os dois só a verdade, sempre, não importasse qual.

Ligou pra Lúcia, amiga de infância de Sílvia. Preciso conversar com você, pode ser às sete?, te apanho no trabalho. O primeiro chope nem pela metade e ele atacou sem dó, até ouvir aqueles Sérgio, não, para com isso largados no chão, ao lado do sutiã, meu Deus, o que foi que a gente fez!, a Sílvia não pode saber, ela nunca vai me perdoar… Ele ouviu, com ar de tudo bem, você tem razão, nem esperando ela entrar no prédio para engrenar a primeira e sumir dali, a Lúcia que se foda.

Já em casa, encostado no batente da porta do quarto: Sílvia, combinamos a verdade, pausa, sempre, pausa, foi com a Lúcia, pausa, caprichando nos detalhes sem disfarçar o gozo de vê-la murchar.

November 3, 2011
by Ricardo C.
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“E você, como se chama?” [Juan Eduardo Tesone - Página/12]

Ninguém escapa do nome próprio. O nome é ao mesmo tempo um direito da criança e uma instituição, a única instituição que individualiza num ato de reconhecimento, relacionada com as funções simbólicas da maternidade e da paternidade. Nomear é fazer a criança entrar na ordem das relações humanas. Escolher, dar um nome a uma criança, é doar-lhe uma história imaginária e simbólica familiar. Essa doação insere-o na continuidade de uma filiação, inscreve-o nas linhagens materna e paterna, o fio de Ariadne trans-geracional que indica a ele um caminho, mas sem traçá-lo de antemão, já que o nome faz desse sujeito um ser insubstituível que não se confunde com nenhum outro membro da linhagem.

Essa doação inclui algo de sagrado; é um bem que não pode ser dado nem vendido, é outorgado para ser guardado. Na escolha do nome da criança, primeira inscrição simbólica do ser humano, o desejo dos pais aparece em filigrana. A criança quando nasce não é tábula rasa, virgem de qualquer inscrição. Precede-o uma ante-texto que também é um inter-texto parental. O nome torna-se o traço escrito da encruzilhada do desejo dos pais. Sobre esse pré-texto, a criança inscreverá o seu próprio texto, apropriar-se-á de seu próprio nome. Então convém percorrer esse livro familiar, reconhecer esse manuscrito de letras cursivas unidas por laços que atravessam várias gerações, para permitir que o filho tome posse do seu nome próprio. Revitalizar o nosso nome é sempre uma tarefa inacabada.

No pensamento grego o destino é uma figura composta, destacando-se três aspectos: a) Moira, inflexível predeterminação de uma existência, palavras ditas de antemão sobre as quais toda a história deverá se curvar; b) Tukhé, o encontro (bom ou ruim), o acaso; c) Daimon, o personagem no interior do sujeito, ignorado por ele, que guia seus passos independente de sua vontade. O nome reúne os três aspectos; condensa a necessidade e o acaso, permite que o sujeito possa reapropriar-se do seu prenome, enriquecido pelas incertezas do acaso.

Na escolha do prenome há sempre um ato de criação, constantemente recriado na medida em que a criança toma posse do seu nome. Somente no curso desse processo o nome realmente se tornará nome próprio. Se em algum momento a criança desenvolvesse um sintoma, o prenome poderia ser tomado como um criptograma cuja decifração poderia ser útil para liberar a criança desse ponto de ancoragem necessário, sem dúvida, para a sua filiação, mas que às vezes pode amarrá-lo a uma patologia. Atribui-se um nome a uma criança, mas às vezes atribui-se uma criança a um nome.

Os elementos do sistema onomástico moderno comum no Ocidente são o sobrenome e o prenome. Não devemos esquecer que é recente o fato do sobrenome ter adquirido maior importância em nosso atual sistema. A utilização do nome começa a aparecer por volta do ano mil, sendo que apenas durante o Renascimento o seu uso estendeu-se por toda a Europa. Só então passou a prevalecer a fórmula: prenome mais sobrenome. Sem estender-nos sobre a evolução do uso do sobrenome na antroponímia moderna, convém destacar que na época (exceto no sistema romano de nominação) só havia um nome. Esse nome único correspondia, em linhas gerais, ao atual prenome, não sendo transmissível de geração a geração. Atribuía-se um nome diferente a cada criança, criado livremente por seus genitores. As motivações poderiam ser influenciadas por algum acontecimento histórico dentro da comunidade, pelas características do parto ou pelos traços da criança, pela relação com os ancestrais ou, provavelmente, pela expressão dos desejos concernentes à criança. Os nomes eram frequentemente inéditos (os homônimos eram incomuns), de forma que a criação simbólica desse nome dotava a criança de uma originalidade comparável ao patrimônio genético.

Nas sociedades ocidentais os prenomes tem tido o seu significado esmaecido, na medida em que vem sendo escolhidos a partir de uma lista pré-existente. Esse não é o caso da maioria dos povos da antiguidade ou da África tribal, onde o sentido dos nomes é relativamente transparente, pois eles são uma criação livre daqueles que o aplicam, geralmente os pais, às vezes com a contribuição do meio familiar e social.

Entretanto, penso que em nossas sociedades o sentido não desapareceu. Não falo do sentido literal dos prenomes que aparece nos dicionários. Falo das motivações pessoais dos pais e das condições mitopoéticas da escolha do prenome, que a meu ver passaram para o registro inconsciente. Antes da nossa chegada ao mundo somos precedidos e determinados por uma complexa rede de relações familiares, já que várias gerações confluem, inconscientemente, na escolha do prenome da criança.

Depois que a criança nasce, a função primordial da família é fornecer-lhe um lugar gerador de alteridade. E ao ser interpelado por  seu prenome, a criança vai se reconhecendo como ser-separado-de seus pais. Responde ao seu prenome antes de conseguir dizer “eu”.

Se desdobramos o ato de nomear em transmissão do sobrenome e escolha do prenome, não seria fundamentalmente este último que expressaria o desejo parental? Se existe uma força determinante — significante —, ela não se expressaria nas razões inconscientes de tal escolha? Um nome nunca é indiferente, implica uma série de relações entre aquele que o carrega e a fonte de onde procede. Nesse sentido, o prenome só é um nome “próprio” se estiver inserido numa história simbólica familiar e social. Na escolha do prenome há uma inscrição e uma transcrição do desejo parental. O nome é o sedimento móvel de um mito familiar em suspensão que compromete a criança. É a moldura, a fundação, a base de sua futura identidade.

No prenome, sobre-determinado, condensam-se e entrecruzam-se as cadeias associativas dos sonhos dos pais a respeito da criança que gostariam de ter. O significante do nosso nome contém, numa alquimia fundadora, o desejo de nossos pais. Sobre o ante-texto, que é também inter-texto, com sua cunha a criança imprimirá o seu próprio texto, tornando seu o seu nome próprio. J. Derrida (“Freud e a cena da escritura”) sugere pensar a vida como uma pegada com força determinante, que opera antes do ser existir como presença. Se aceitarmos essa proposta é possível conceber o prenome, que vem a ser o ante-texto, não mais como uma estátua imóvel, entalhada em pedra de forma única e definitiva, mas como uma escultura cinética cujo movimento admitirá novas orientações, assumindo diferentes formas em incessantes reformulações.

Segundo Ouaknin y Rotnemer (Le grand livre des prénoms bibliques et hébraïques, Paris, Albin Michel, 1993), o nome tem essencialmente três funções: de identificação, de filiação e de projeto. J. Clerget (Le nom et la nomination, Toulouse, ed. Erès) assinala que o ato de nomear cria um furo no Uno do narcisismo onipotente: diante do chamado da ninfa Eco, apaixonada, Narciso permanece indiferente, sem dar atenção aos seus gemidos; ser chamado não cria um furo em Narciso, que prefere morrer afogado do que responder ao chamado do seu nome.

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* Juan Eduardo Tesone, autor de En las huellas del nombre propio (Ed. Letra Viva), que recebeu o segundo Prêmio Nacional 2011 da Secretaría de Cultura de Nación na categoria “Ensaio psicológico”. Texto extraído do trabalho “El nombre propio en la encrucijada transgeneracional”, a ser publicado no próximo número da revista Imago-Agenda.

[Y vos, ¿cómo te llamás? Página/12, 03 de novembro de 2011. Tradução: Ricardo D. Cabral]

October 31, 2011
by Ricardo C.
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O Lula, o SUS, a barafunda da internet e a minha promessa de parar por aqui com esse assunto

Sobre o assunto deste fim da semana:

A todos os que desejam a morte de Lula ou repetem a ladainha de que ele deve se tratar pelo SUS, meus sentimentos. É mesmo trágico ver tantos padecendo dessa metástase de preconceito e rancor que lhes privou do mínimo traço de humanidade, um mal que não há SUS nem plano de saúde que cure.

Deixei esse recado ontem no facebook, já no início da noite. Digo “já” porque o auge da “discussão” se dera bem antes, enquanto eu andava ocupado, dividido entre a leitura, os chopes e a hipnótica observação da fauna que costuma circular aos domingos na orla de Copacabana (além das compras de supermercado, meu castigo de Sísifo quase sempre dominical).

Quando escrevi isso tinha em mente o que haveria de humor (de mau gosto, mas humor) e/ou de mau-humor nos comentários a respeito do câncer do Lula, atitudes que supostamente refletiriam algum tipo de revolta contra o “político em evidência” da vez, ao mesmo tempo tratando de distingui-los das manifestações do mais puro e genuíno preconceito (especialmente de classe social). Um colega aqui do OPS, o Serbão, chegou a comentar:

Quando vejo essa reação, dá impressão que o Lula foi um ditador cruel de uma república de bananas, que quebrou o país, que rasgou a constituição…

Eu complementei:

Pois é, Serbão, também me espanto com isso. Claro que cabe fazer críticas ao político Lula e ao seu governo, do mesmo jeito que fizemos com os governos anteriores, fazemos com o atual e faremos com os próximos. Mas o ódio, o rancor desse tipo de comentário a que me referi refletem outra coisa e não pertencem à esfera da crítica política.

Algumas vozes alegam que não haveria realmente esse desejo de que o Lula morresse, e que querer que ele fosse se tratar pelo SUS era acima de tudo uma crítica ao que o ex-presidente disse em certa ocasião sobre o SUS, somada à já comentada grita costumeira contra toda sorte de político. Mas não custa lembrar, por exemplo, o fato de que não se falou nada parecido por ocasião da doença da Ruth Cardoso, mulher do FHC, nem tampouco quando o vice do Lula, José Alencar, se viu lutando contra o câncer. Por quê? Ambos não eram figuras públicas associadas a partidos, governos? Sim, mas curiosamente não carregavam a pobreza na origem. (O José Alencar enriqueceu como empresário, então parece ter “escapado”.) Há nessas manifestações o recorrente quê de “Lula, você devia era voltar ao seu lugar, que ousadia foi essa de ascender socialmente?” embolado em argumentações ditas políticas. (Políticas também são, mas na pior expressão do termo.) Em outras palavras, muito classismo, ranço e rancor, ou seja, fartas doses de preconceito travestidas de opinião política.

A propósito do assunto, o jornalista Alon Feuerwerker publicou hoje em seu blog:

A política brasileira vem perdendo certo traço característico dos tempos em que se lutava contra a ditadura. (…)

As pessoas tinham mais pudor, vergonha do que lhes ia na alma. Cuidavam de manter a boçalidade algo recolhida, para não passar vexame. Não era bonito exibir publicamente a própria estupidez.

Não chego a concordar com o post inteiro dele, mas vejo nesse trecho aí de cima o jornalista atirar no que vê e acertar no que não vê. Isso porque as reações ao meu recado no facebook — a quase totalidade concordando com ele, umas duas vozes criticando-o no conteúdo, outras poucas achando um certo exagero nele, um erro no foco —, martelaram em meus miolos um assunto nada original: a maneira como nos comportamos na internet, onde tudo é sempre muitos tons acima do que ocorre no mundo offline. (Se não tudo, quase.)

Mas por que agiríamos assim?

Bom, não sei você, mas acredito que andamos olhando demais para os efeitos e menos para o contexto em que as coisas se dão. Estou certo de que parte do problema não está propriamente no aumento do calibre dos petardos disparados, no grau zero de tolerância (ou cem de intolerância) em relação ao que quer que seja, nem na aparente incapacidade contemporânea de refletir minimamente sobre os acontecimentos antes de sair sapecando “verdades definitivas” pelas redes sociais afora, independente da faixa etária dos envolvidos.

Pensemos juntos: o preconceito que cada um traz dentro de si realmente aumentou? Ou será que o que percebemos como ampliado resulta de um momento histórico onde tudo de fato é mais explícito, manifesto — inclusive muito do que antes era entendido como íntimo e mantido na esfera privada —, mas que se combina com algumas mudanças no próprio jogo — não tanto nas “regras”, mas nos “jogadores” —, onde “times” até pouco tempo na quarta divisão subiram à primeira, e atores sociais que antes só jogavam entre si vêm-se agora forçados a conviver com outros não tão do seu agrado?

Pois agora some a esse quadro o próprio ambiente virtual. Dizer que ele é um reflexo daquilo que somos é bobo de tão óbvio. Só que esse ambiente é bastante diferente do mundo (cada vez  menos) offline. Mais digitamos do que falamos; “entramos” e “saímos” dos “lugares” se e quando quisermos; podemos recorrer ao anonimato com incomum facilidade; temos ferramentas ao alcance dos dedos (o Google, por exemplo) que potencializam as nossas ações (falas), mas que nem sempre estão disponíveis “em campo aberto”; geralmente nos sentimos fisicamente protegidos (em casa, no trabalho, na Lan House mais próxima, atrás de um smartphone ou de um tablet), distantes do ambiente onde eventuais embates se dão (aos palavrões e em caixa alta); a sensação de impunidade, essa mesma a que se atribui a existência de tanto crime — seja os no trânsito ou os de colarinho branco, só para falar de alguns —, na internet se vê elevada à enésima potência. E sem me alongar em outras tantas particularidades do mundo virtual, toda essa facilidade para transitar por qualquer lado descalibra bastante a nossa adequação aos códigos de conduta, de linguagem, às permissões habitualmente requeridas de acordo com o lugar em que se anda. Não vemos guardas de trânsito nem seguranças pedindo documentos, tíquetes ou ingressos; podemos permanecer invisíveis, apenas observando, sem prestar contas a ninguém ou pedir autorização para isso; e sequer precisamos cuidar da aparência, da adequação da vestimenta — ficando inclusive nus se for do nosso desejo. Em quantos contextos cotidianos podemos funcionar assim, tão livres de convenções sociais e sem grandes sanções caso sejamos inconvenientes? Porque até para ir a um estádio de futebol é preciso adequar-se: não é com qualquer roupa, companhia, quantidade de dinheiro ou badulaque eletrônico que se pode ir. (Corrijo: poder, pode; só não convém.) E quem fizer pouco caso dessas regras não necessariamente escritas vai descobrir de forma rápida (e quando não dolorosa) o custo de descumpri-las. Do mesmo jeito, capaz daquilo que vez ou outra dizemos numa roda de amigos regada a álcool possa ser considerado fascista, racista, classista, misógino, homofóbico e sei lá quantas outras condutas reprováveis e mesmo criminosas, mas que no contexto mais restrito em que foram ditos seu tom de piada funcione exatamente como tal, seguido de vaias e reprovações aos ofensores e de gargalhadas por parte dos ofendidos. Um último exemplo: discussões políticas, especialmente em época de eleições, onde a maneira mais carinhosa de tratar os próprios políticos é chamá-los de crápulas ou dizer “já foi tarde” e “bem feito” quando morrem ou caso adoeçam. Mas, novamente, faz toda a diferença do mundo quem diz, quando, como e em que contexto. O bate boca ao vivo entre conhecidos de hoje pode facilmente ser esquecido no próprio dia das eleições, com as partes se abraçando e dizendo “mal aê, aquele dia eu peguei pesado” ou coisa parecida. Mas na internet é diferente, nosso blog não é tão nossa casa quanto a gente gostaria, e mesmo se o que a gente escreveu certo dia foi uma infelicidade fruto de mau-humor matutino, não se sabe quantos nesse mundo poderão lê-la, e a depender do teor, acionar-nos na justiça, sim senhor. Aqui tudo está à vista de todos, amigos, inimigos ou desconhecidos, fica registrado, nem que seja em cache, e pode constituir prova contra quem escreveu. E por mais que todos saibamos disso, nos descuidamos com mais facilidade do que gostaríamos. Por isso reitero que o contexto (inclusive histórico) e as pessoas envolvidas fazem toda a diferença no significado, na dimensão e no alcance do que é dito, e a internet não é o mais amigável deles, mesmo que em tese só digamos nossas besteiras para quem faz parte da nossa lista de amigos virtuais.

E por falar em dizer, já comentei em várias ocasiões não gostar de certo tipo de selvageria que às vezes encontro na internet, menos ainda da perspectiva de me ver, inadvertidamente, funcionando (ou sendo visto funcionar) de forma parecida. Ao mesmo tempo, a barafunda do título do post também tem a sua graça e traz consigo um vigor transformador de valor incalculável, tanto que deploro a ideia de algum tipo de regulação da internet que acabe por tirar-lhe sua horizontalidade e essa frágil neutralidade que ainda conserva. Mas cá entre nós, até que seria bom se as maneiras que a gente usa em casa alheia, especialmente na de pessoas que a gente aprecia muito, daquelas casas com família grande, avós, netos e agregados incluídos, pautassem um pouco mais o nosso comportamento na internet. De minha parte estou certo de que apreciaria muito o resultado e mudaria finalmente de assunto, já que nem eu me aguento mais.

October 21, 2011
by Ricardo C.
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Enquanto os candidatos ao prêmio se esmeram, alguns incautos preocupam

Quem lê blog faz tempo certamente conhece a impagável série As alegrias que o Google me dá, do blogueiro iconoclasta (aposentado) Rafael Galvão. E eu mesmo homenageei esse fio do cabrunco do tanto de buscas esquisitas que uma pá de gente fez no google e que foram encaminhadas a este blog, embora saiba que o resultado nunca chegaria perto do dele. Quem sabe não vale a pena instituir um prêmio “alegrias do Rafael Galvão”?

Mas enquanto alguém não cria esse prêmio e eu nem faço uma nova lista com as bizarrices que o google traz para cá, reitero que a googlada campeã continua levando ao post que descreve a Profissão 5198-05, Profissional do sexo. (Por alguma razão que me escapa, os dados que retirei do sítio do Ministério do Trabalho e Emprego não estão mais lá, constando apenas uma versão sumária. Vá entender!) O interessante é a forma como a busca é feita. Alguns digitam o código da profissão, enquanto outros pedem a CBO de: garota de programa, garoto de programa, acompanhante, prostituta, puta, meretriz, quenga, messalina, michê e hoje, pela primeira vez, rapariga. Há também os que querem saber se a profissão é regulamentada, se assina carteira de trabalho e quais os seus direitos, mas batem com a cara na porta porque o post não trata do assunto. Enfim, a curiosidade é vasta em torno da difícil vida fácil.

Mas se de vez em quando dá para rir, em outras ocasiões aparecem algumas visitas realmente preocupantes. Hoje, por exemplo, alguém digitou: bati em minha mulher

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Com uma pesquisa dessas não me interessa fazer piada. Começo perguntando-me o que alguém que afirma ter feito isso espera que o google lhe diga. E torço muito para que a motivação dessa busca seja um imenso sentimento de culpa, que ele siga ativo e que sirva de motivação para procurar ajuda realmente efetiva: um psicólogo, o CAPS de sua cidade (sim, a busca foi em português e veio daqui do Brasil) e afins. Aqui neste blog só encontrará mesmo a reportagem que traduzi sobre uma experiência com homens agressores na França, que foi justamente o que chamou a atenção desse que digitou dizendo-se agressor de sua mulher. Pois agora sou eu a responder: releia aquele post, inspire-se e peça ajuda efetiva e não mais ao google, antes que repita o que fez. E se for o caso, só volte aqui depois disso.

É uma ordem.

October 19, 2011
by Ricardo C.
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Eu era nené-em, não tinha talco…

Deu nisso zapear num sábado à noite, que por chuvoso pediu casa e preguiça. Parei num programa sobre “malditos” da MPB e do pop: Jards Macalé, Luis Melodia, Jorge Mautner, Itamar Assumpção e (o escroto, mais do que maldito) Carlos Imperial. O programa é do Nelson Motta, figura que anda em baixa para importante parte da blogosfera. (Não é para menos, seus recentes textos no Estadão, especialmente os que se aventuram pela análise da conjuntura política, são tão primários, tão do gênero neoudenista suavizado por um ar blasé Zona Sul carioca, que chegam a dar vergonha.) Convenhamos, com suas raivinhas e análises rasas ele facilita bastante a vida da blogosfera à esquerda, até mesmo aquela mais chapa branca (para a qual os problemas da gestão do MinC são irrisórios, não há nada de errado com Belo Monte e os índios que moram por aquelas bandas não passam de uns vendidos, e para quem não se pode criticar o governo porque é dar munição ao inimigo etc..). Ou seja, que vontade de tratá-lo como um Jabor ou um R. Azevedo e não dar a menor pelota para o que ele diz. (Você nunca fez isso? Bom, eu admitido que fiz, apesar de não haver nenhuma vantagem ou superioridade moral/intelectual nisso.)

O problema de darmos corda a esse tipo de vontade, a essa surdez e desdém por quaisquer opiniões emitidas por aqueles com quem não temos afinidade, é que nem sempre se trata de atitude sábia. Aos poucos nos acostumamos a dar ouvidos apenas àqueles com quem temos o hábito de concordar com frequência — e de tanto fazê-lo nem nos damos conta quando eles dizem coisas de que nem concordamos tanto assim —, sobretudo às opiniões que ratifiquem aquilo que pensamos. (Cá entre nós, fazemos isso boa parte do tempo e desde a mais tenra infância, algo que decerto só deixará de ocorrer quando decretarem a hora do nosso óbito.) Isso sem contar com o auxílio luxuoso dos filtros-bolha que cada vez restringem mais a diversidade ao nosso redor. E sem o contraditório, sem a diferença, acabamos reforçando uma versão diametralmente oposta à daquele pensamento único que tanto criticamos no passado, que justo por ser diametralmente oposta acaba sendo tão pensamento único quanto. Sério, se soubéssemos o quanto perdemos com isso veríamos como valeria a pena dedicarmos um pouquinho do nosso tempo para explorar falas, ideias e ações produzidas por pessoas de praias que não costumamos frequentar.

Todo este conversê só para dizer que foi bom, muito bom assistir ao programa do Nelson Motta, que valeu a pena desentortar o nariz para ele por conta de suas colunas reaças no Estadão e, por que não, aprender e me deliciar com algumas de suas informações sobre figuras tão importantes do nosso cenário musical. Não foi um programa erudito ou sofisticado (nem precisava), mas um bom passeio pela trajetória desses multi-artistas. Do Jorge Mautner, hoje setentão, aprendi que aos vinte e um anos ganhou um prêmio Jabuti por seu primeiro livro, Deus da Chuva e da Morte (1962). (Se já gostava da figura, passei a gostar mais.) Do Jards, do Luis e do Itamar não vi nada de que já não tivesse notícia, enquanto do Imperial valeu a pena descobrir algo além do seu propalado mau-caratismo, das pornochanchadas que dirigiu e em que atuou, e do bordão Dez! Nota dez! surgido na apuração do desfile das escolas de samba do Rio, em 1984. As imagens e a costura do texto de Nelson Motta foram redondas e belas o suficiente para me fazer esquecer dos gritos da vizinha e de sua filha, das contas a pagar na segunda-feira e dos trabalhos de alunos que ainda falta corrigir. E esqueci também da passagem do tempo, trinta, quarenta anos atrás eram hoje, a ditadura em que nasci estava de volta, gritando malditos comunistas, malditos subversivos, e estes respondiam com sambas, tropicalismo, contracultura e vanguardas que hoje tanto nos orgulham, ao menos a mim sim. Essa é a graça da história. O eterno “jovem” Nelson Motta, que hoje em dia dedica tempo demais a cometer suas conservadoras desinteligências políticas em colunas de jornal e televisão, seus revisionismos de fazer o cadáver de Bob Fields sorrir, esse moço bem mais velho do que eu produziu um programa, a partir de sua própria experiência na cena cultural das últimas décadas, e resgatou impressões, memórias e sentimentos com os quais me identifico tanto e que, ao que parece, sobrepuseram-se ao seu próprio crivo reacionário. Resumindo, vale a pena pôr nossos a priori de lado e desfrutar com gente de quem provavelmente não temos a melhor impressão. Afinal de contas, mesmo que você e eu não tenhamos nenhuma expressividade pública, é bem provável que também sejamos mal-vistos por uma pá de gente, não é?

Só um porém: no que me diz respeito, deixo claro que do Nelson Motta eu dou conta, mas do Reinaldão e do Jabor não. Falta-me desprendimento e/ou maturidade necessários para a insalubre empreitada de esmiuçar as entrelinhas dos escritos de figuras como esses dois em busca de saberes que não possuo. Como eles são um limite que não me convém cruzar, melhor buscar saberes nos escritos de outros tratantes sujeitos cuja proximidade provoque em mim menos engulho e outros tantos efeitos colaterais.

P.S. Para quem não conhece, o título do post é parte da música “Mamãe passou açúcar em mim” interpretada por Wilson Simonal e composta pelo Carlos Imperial.

October 13, 2011
by Ricardo C.
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Premonição

“Êi! Êi! Tem gente atravessando!”, o berro reforçado por três tapas na lataria do táxi que parou um metro à frente do sinal de pedestres e não satisfeito deu marcha-ré e por pouco não atropelou os que ainda tentavam chegar à calçada, o indignado entre eles, que à moda dos comentaristas de blog que largam palavrões e lições de moral em caixa alta e somem levando embora seu interesse nenhum em debater, já dera as costas ao veículo infrator e seguia a passos largos rumo ao corredor do shopping que o levaria à lotérica em que jogaria os números sonhados duas noites antes, certeza que agora sim o prêmio de nãoseiquantoscentos milhões seria só dele, empreitada adiada pelo giro de cento e oitenta graus sobre os próprios cascos assim que ouviu a réplica sair pela fresta do vidro do passageiro do veículo de película escura claramente em desacordo com a lei, “que é que é, aqui não tem nada dizendo que eu não posso parar!” dirigida a ele mesmo, o quase atropelado esbofeteador de táxis que agora andava a passos curtos e lentos, porque não mudara de direção e andar a passos largos de costas sem tropeçar e se esborrachar só mesmo para especialistas em moonwalk, e que a três, três e vinte, três e quarenta, agora quatro metros de distância respondeu no mesmo tom e volume do primeiro petardo, “você parou embaixo do sinal de pedestres!”, e o outro “mas não tem faixa nenhuma, cadê, cadê?!” porque a rua acabava de ser recapeada e sabe como são esses serviços da prefeitura, é uma firma para fresar o asfalto, outra para recapear, mais uma para pintar as faixas e vêm as empresas de saneamento, luz e gás para esburacar a rua horas depois do serviço pronto e ainda tapam tudo com aquele asfalto bem vagabundo que logo logo vira farelo, o que explica mas não justifica o fato da faixa de pedestres ainda não ter sido pintada, só não servia como argumento porque o sinal seguia lá, uma hora verde, outra amarelo e no momento vermelho para os carros, inclusive o táxi de vidros com película mais escura do que a lei permite e que atravessou e parou um metro à frente do sinal de pedestres e não satisfeito deu marcha-ré e levou três tapas na lataria e um esporro de um quase atropelado e indignado pedestre que agora andava de costas com passos que não eram moonwalk, um cidadão que estava com sua costumeira paciência para discutir o assunto que fosse com quem fosse meio estropeada por conta de uma infecção intestinal que o obrigara a passar a noite anterior em claro, sentado ao lado do vaso sanitário, pondo as desgraças do mundo para fora qual bebedor de ayahuasca em sua primeira vez no Santo Daime, o que explica, mas não justifica, por que em vez de insistir argumentando com o motorista de táxi sobre o quanto ele estava errado só disse “mas tem um sinal aí!” e arrematou, “e quer saber, vá, se, fo, der!” de um jeito tão alto e claro que as pessoas ao redor simplesmente congelaram diante da cena e puderam ouvir o contragolpe do taxista, “belo exemplo de educação, senhor”, tão alto e claro quanto, atingindo o atrabiliário cidadão pelas costas, levando em consideração os novos cento e oitenta graus girados e mais passos largos não mais na direção da lotérica e sim na de qualquer lugar longe daquela plateia petrificada por um “vá, se, fo, der!” que ele nunca empregara em local público e nem dirigira a taxista nenhum, mesmo aqueles que merecessem, e o contragolpe pareceu ter causado estrago, reverberando nas cócleas do iracundo somado à imagem do povo imóvel ao seu redor julgando que seu “vá, se, fo, der!” tirara-lhe a razão e entregara de bandeja ao infringente, e aquele misto de injustiça e vergonha e vontade de que a última palavra que reverberasse nas suas cócleas e nas do mundo fosse a sua e não a do transgressor fez com que desse mais meia volta, num total de quinhentos e quarenta graus em menos de sete minutos, e enquanto seguia em direção ao táxi com a intenção de bater na janela do lado do passageiro, que por conta da película em desacordo com a lei não deixava ver o motorista, esperando que ele abrisse e que pudesse surpreendê-lo, mas surpreendê-lo de verdade, com seu “voltei porque lhe devo desculpas, por mais que o senhor estivesse errado eu não tinha o direito de dirigir-lhe nenhum palavrão”, o “dirigir-lhe” mais formal e com ar entre contrito e humilde que alguém poderia dizer, mesmo que só escondesse a necessidade de restabelecer a superioridade que estava certo de ter e que o “vá, se, fo, der!” turbinado pela noite insone vomitando os males do mundo teria posto a perder, e quando o vidro escurecido finalmente começou a abrir, e ele, formal e com ar entre contrito e humilde, começou seu “voltei porque lhe…” só se ouviu pôu pôu pôu, três pipocos bem dados na boca do ex-raivoso-arrependido-em-vias-de-dizer-alguma-coisa que agora ninguém vai saber o que era, o táxi em disparada aproveitando a combinação entre sinal verde, potência do motor, pneus recauchutados dias antes e asfalto novo em folha, sem os remendos que logo viriam, ah se viriam, e as pessoas descongeladas correndo para bem longe do que sobrara do sonhador dos seis números vencedores do sorteio de hoje à noite, ou seja, o prêmio vai mesmo acumular.

October 10, 2011
by Ricardo C.
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Uma andorinha não faz verão, mas é mais do que uma gota no oceano

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Essa obra aí de cima é a famosa O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli, que faz parte do acervo da espetacular Galleria Uffizi. Se eu já gostava desse museu e tinha uma grata lembrança do impacto que esse quadro causou em mim, em minha mulher e nos quinze japoneses, doze chineses e nove coreanos que me rodeavam, imagine agora ao saber que a Galleria acabou de inaugurar uma versão em baixo-relevo de 60 cm de altura por 93 cm de largura — o quadro original tem 172,5 cm de altura por 278,5 cm de largura —, feita em resina branca (como se pode ver nas imagens abaixo) e que permitirá a um sem-número de pessoas desfrutar obras de arte de uma maneira quase direta, com menos intermediação:


Durante a cerimônia inaugural, Antonio Quatraro, da União Italiana Cegos de Florença, Prato e Ledo, passou suas mãos pela obra por vários minutos e mostrou-se bastante emocionado:

Tudo isto parece um sonho. Para além da altíssima qualidade do produto, apreciamos este gesto, que no fundo é uma maneira de criar uma sociedade mais inclusiva.

As notícias sobre a inauguração contam que ainda falta colocar uma placa com texto em Braille para aprofundar a “leitura tátil” do trabalho, que existem outras obras em baixo-relevo no mesmo museu e que a iniciativa tende a se repetir em outros acervos espalhados pelo país.

Alguém perguntou ao senhor Antonio Quatraro se no futuro o baixo-relevo d’O Nascimento de Vênus traria as belas cores do original de Botticelli. “Trabalhar com cores não é fácil, requer encontrar o profissional adequado”, respondeu de maneira cortês. Ao que parece, quem fez a pergunta não insistiu no assunto, talvez por ter se dado conta de sua miopia na hora de formulá-la, ou por perceber que a discussão sobre a relação entre cegos e cores era assunto vasto, complexo e rico, exigindo conversa mais demorada do que a ocasião permitia.

Educação inclusiva é sobretudo para ensinar os que já estão dentro a não atrapalhar a entrada dos deixados de fora, pensei eu, incluindo-me nessa imensa maioria que enxerga, mas nem sempre vê.