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Koan

[Republico mais um texto antigo, por pura falta do que dizer misturada com preguiça.]

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“Trem parador com destino a Deodoro. Próxima estação, Engenho de Dentro”. Queria mesmo é que esse anúncio fosse com a voz daquela moça já não tão moça do aeroporto, como é mesmo o nome?, ah, da Íris Lettieri, e todos os pêlos eriçaram só de lembrar. Não era. Claro, o que ela faria ali, a caminho de Madureira? Também, não importa, já ia saltar mesmo, faltavam só três paradas. Levantou e começou a se deslocar para a primeira porta do primeiro vagão, que, obsessivo que era, adorava coordenar as coisas. Onde era a saída daquela estação, qual o vagão e qual de suas três portas ficava estrategicamente mais próxima dela, a escada, qual o menor número de passos para chegar até aquelas enormes catracas de formato quase universal, com que pé começaria a andar para que o último fosse o direito, o de sua preferência. Isso tudo em frações de segundo, repetidas ad infinitum, tornando o tempo da costumeira viagem mais curto e minorando o enfado. Mas a alvorada prenunciara o mau agouro, que saltar da cama e por incompreensível engano apoiar-se no pé esquerdo era, batata!, azar pelas próximas vinte e quatro horas. Daí a razão de ter posto de molho as barbas que não tinha, antecipando em duas estações o seu deslocamento para o primeiro vagão do tal parador rumo a Deodoro. Mas destino é assim mesmo, não dá para dar-lhe rasteira que ele é bom nos contra-golpes, o danado há de ser faixa-preta de judô, se bem que maktub é árabe e não japonês, segundo lera nos livros de Paulo Coelho, o Mago, ou vira numa novela das oito. E com isso outras centenas de frações de segundo se passaram, até o fatídico instante em que, no corredor do primeiro vagão, as suas divagações metafísico-obsessivas foram devidamente postas para correr pelos urros daquele sujeito enorme, de cabeça desproporcionalmente pequena praquele corpanzil todo. “Cadê tua Oxum, cadê teu Oxóssi, traz eles aqui pra ver se curam que nem Criiisto!”, imprecou, e bem nos ouvidos do azarado-obsessivo-metafísico. E assim que aquela voz de trovão parou de reverberar em seu cérebro, juntou-se de coragem e pediu respeitosamente só um minutinho, que ele tinha uma dúvida de ordem semântica, omitindo a palavra semântica, obviamente. E com ar entre inocente e cansado, trouxe da memória um conhecido raciocínio e desfiou-o de supetão: “Rapaz, prestenção, se esse teu Deus é tão poderoso, então por que você não pede pra ele criar uma pedra tão grande, mas tão grande que não possa carregar? Só tem um problema: se ele não conseguir criar essa pedra, então não é tão poderoso assim. E se criar e não conseguir levantar, também não tá com essa bola toda não”, as últimas palavras ditas já de saída pela porta central do primeiro vagão, pé esquerdo primeiro, chegando com o direito de sua preferência à enorme catraca de formato quase universal, feliz por pegar o destino no contrapé e afirmar a superioridade do Oriente Distante sobre o Oriente Médio, ao menos nas artes marciais.

Ninguém é substituível

Você leu direito, escrevi “substituível” em vez de “insubstituível”. É que a máxima original, idolatrada-salve-salve por todo e qualquer gestor/gerente/chefe/manda-quem-pode-obedece-quem-tem-juízo pode até fazer sentido lá nos discursos administrativos/corporativos e quantos idos você quiser, mas a mim não convence. (Verdade é que não sou um sujeito de importância reconhecida — ainda bem! —, mas isso não me impede de expressar uma opinião ou outra, não é?)

Não quero com essa frase do título afirmar que só você e mais ninguém possa realizar uma determinada tarefa na micro/pequena/média/mega/putaempresa onde você trabalha, ou que, sei lá, o amor-que-tu-lhe-tinhas não possa ficar um dia tão somente na lembrança, e que ainda por cima apareça um novo e o atropele. Afinal de contas, você é especial, mas também não exagere. Insisto, sim, numa coisa, e trata-se do óbvio: há uma singularidade que, no máximo, encontra paralelo em outras pessoas; mas paralelo é paralelo, e nunca será idêntico. Discorda? Então pense em alguém que você prezava muito, muito mesmo, e a quem perdeu, ele ou ela não voltará mais. Pensou? Agora responda: tem alguém ocupando o mesmo lugar e evocando os mesmos sentimentos que você tinha pelo anterior? Seja sincero, vá. Pode até ser muito melhor, mais intenso, interessante ou seja lá o que for, mas insisto outra vez, não há Cristo, Maomé, Buda ou o iluminado que seja para conseguir que ele substitua o primeiro.

Acredito que ainda estou longe de te convencer. Acredito é pouco, tenho quase certeza. Claro, o que digo tem cara de uma bobagem sem tamanho, e vai ver é mesmo uma dessas obviedades vocabulares que nem deveriam dar lugar a um post. Mas fazer o quê: comecei, então o melhor é tentar terminar. E para isso, vou contar uma história.

Era uma vez um renomado psiquiatra, em viagem à Argentina para receber o título honoris causa de uma universidade de lá. Nela, como em boa parte das universidades do país vizinho, a psicanálise era soberana. Não à toa que os alunos se mostrassem insatisfeitos com a escolha de alguém tão crítico da psicanálise para o lugar de homenageado, uma insatisfação que acabou nos ouvidos do psiquiatra pouco antes do seu discurso de agradecimento. Foi então que este surpreendeu a todos, contando sobre a série de afinidades do seu trabalho com o de Freud, alimentando a plateia com histórias pouco conhecidas e muito positivas a respeito do pai da psicanálise, de sorte que em poucos minutos caíra nas graças da audiência. E antes de encerrar, resolveu (ele também) contar-lhes uma história. Disse-lhes de um certo bairro judeu onde vivia um rabino muito sábio, respeitado e querido por todos. Sua sabedoria era tanta que, com toda razão, havia uma enorme preocupação sobre não existir ninguém à altura para ocupar o seu lugar tão logo fosse necessário. Mas o dia chegou, já que o velho rabino veio a falecer, e todos os membros da congregação aguardaram ansiosos por aquele que se sentaria em sua cadeira. Foi quando surgiu um jovem rabino, trazendo consigo uma nova cadeira e colocando-a ao lado da antiga, que permaneceu vazia ao longo daquele e dos próximos serviços religiosos, anos a fio. Foi quando arrematou o psiquiatra: ninguém jamais poderá sentar-se na cadeira de Freud, isso é ponto pacífico. Então peguemos as nossas cadeiras, coloquemo-las respeitosamente ao lado da dele e sigamos em frente. (E não é que ele foi aplaudido de pé ao final do discurso? Ah, esses argentinos…)

Ninguém é, pois, verdadeiramente substituível. Mas a historinha aí de cima sugere que se siga em frente, mesmo assim. E isso, de fato, a gente pode fazer.

Indagações sabatinas

Não sei se virará rotina, mas deu vontade de aderir a uma das práticas mais comuns e banais que conheço: transcrever o trecho de um texto qualquer, de preferência contendo alguma indagação que tenha me chamado a atenção. Ah, publicá-lo sem fazer maiores considerações sobre ele, quando muito grifando uma ou outra palavra ou frase. Então vamos ao primeiro:

A falta de respeito, embora seja menos agressiva que o insulto direto, pode assumir uma forma igualmente ofensiva. Nenhum insulto é feito ao outro, mas ele tampouco recebe reconhecimento; ele não é visto — como um ser humano pleno, cuja presença tem importância.

Quando uma sociedade trata a grande maioria das pessoas desta forma, julgando apenas alguns poucos dignos de reconhecimento, é criada uma escassez de respeito, como se não houvesse o bastante desta preciosa substância para todos. Como muitas formas de escassez, esta é produzida pelo homem; ao contrário da comida, o respeito nada custa. Por que, então, haveria uma crise de oferta?

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[SENNETT, Richard. Respeito: a formação do caráter em um mundo desigual. RJ: Record, 2004, p. 17.]

Algumas razões

Há algo de geracional no que tenho a dizer. Geracional, posto que os meus coetâneos e contemporâneos costumam ser bem mais discretos a respeito de suas vidas do que as gerações mais novas — desde que não sejam contemporâneos do meio artístico, é claro. Mas além de geracional, é também ligado à minha formação profissional e, suspeito fortemente, a dimensões mais pessoais e privadas. E como para mim aquilo que é mais pessoal significa (ainda) que não serve para ser tornado público, seguirá assim, privado.

Mas chega de tergiversar. O que me ocorre dizer vem de um comentário que deixei no (ótimo) blog da Lu, É bom pra quem gosta, e diz respeito às minhas reservas sobre a exposição pública — especialmente na internet ou, por exemplo, nesses  programas de auditório que passam na tevê (e os Big Brothers da vida e demais reality shows também estão no pacote) — de experiências pessoais trágicas, traumáticas. Transcrevo parte do que comentei no post da Lu:

Explico quais as minhas reservas. É que em boa parte das vezes, quando o que se busca ainda é um efeito catártico, libertador, uma tentativa de enfrentar os fantasmas e traumas de determinadas experiências, essas exposições públicas perdem parte do efeito pretendido simplesmente por não estarem diante da ‘plateia’ ideal (ou ao menos pretensamente ideal), isto é, pessoas mais significativas para você — sejam elas amigas, parentes, profissionais psi, grupos de apoio etc. O resultado é que depois desse esvaziamento inicial, que não deixa de ter seu lado bom, o vazio que sobra ‘pede’ para ser compreendido, trabalhado, algo que o desabafo por si só dificilmente dá conta, pois fica muito aquém da necessária e desejada elaboração daquela experiência, uma busca de reparação. E o complicado é que depois de um tempo tendemos a repetir essa mesma exposição em foros que não são os ideais para a mínima elaboração dessa experiência.

Como disse, uma parte das minhas reservas se confunde com a minha (de)formação profissional. Há de ser uma limitação, na opinião de alguns. Aceito a crítica, e não me furto a pagar o preço por ela.

Um brinde ao tempo

Uma foto — ruim, é verdade — que mostra uma cena comum: a comemoração de um aniversário. Vê-se uma mesa com um bolo de chocolate ao centro, e cinco membros de uma mesma família sentados ao seu redor, com seus copos levantados (um deles está à direita, só se vê o seu braço). Eu disse cinco à mesa, sim, embora um deles fisicamente à 9.273,42 km de distância. (É aquela moça ao centro, o único rosto da foto que aparece de frente, sorrindo na tela de um notebook, a despeito das cinco horas de fuso horário que a separavam do parabéns pra você pesando-lhe as pálpebras.)

É a tecnologia, que tanto tem sido objeto de discussão por aqui, criando possibilidades impensáveis tempos atrás, ao menos fora dos livros e filmes de ficção científica. E uma tecnologia que fomenta relacionamentos, como no caso daquela criança da foto, à esquerda da moça sorridente — que por sinal é mãe dela. Não fosse a tecnologia, esse aniversário não teria sido comemorado de maneira tão cotidiana, tão parecida ao de anos anteriores — a mãe só se queixou de não provar o bolo de brigadeiro, um de seus favoritos —, a ponto da criança sair da mesa para buscar os presentes que ganhara e mostrá-los à moça sorridente, tendo apenas o cuidado de lembrar-se de colocá-los um pouco mais acima do olhar dela, justo diante da webcam que encimava a tela do computador.

Não se pode negar o papel central dessa mediação tecnológica. Palmas para ela. Mas é necessário prestar atenção em algumas questões que não acompanham seu manual de instruções. Uma delas eu chamo de “facilidade que mais adiante se transforma em dificuldade”. Parte dessa sentença diria respeito a uma espécie de “tecnodependência”, o não saber como proceder sem a mediação de ferramentas tecnológicas, e inclusive raciocinar da maneira como a ferramenta induz a fazer. (Exemplo besta: a ferramenta PowerPoint, uma interface nem um pouco ingênua, que “produz”, entre outras excrescências, “Professores PowerPoint” e mesmo “Alunos PowerPoint”.) Outro aspecto de que volta e meia tenho notícia diz respeito às redes sociais virtuais (orkut, facebook, myspace etc.). É que estas facilitam tremendamente o contato entre semelhantes e reforça a intimidade de uma maneira formidável. Mas como sempre tenho um mas, acredito que esse contato entre semelhantes sirva também para reforçar uma semântica familialista da amizade (Gomes e Silva Junior, 2008), 1 semântica essa que “…privilegia processos de homogeneização e supressão da alteridade, podendo configurar práticas intolerantes, de desumanização e descriminação do outro” (p. 267).

Claro que esse último exemplo tem um quê de catastrofista. Mas além de mim, há discussões sobre temas próximos que vale a pena lembrar, e não fui eu que comecei. Só por isso trago de volta as palavras de Francisco Ortega (IMS-UERJ) em seu artigoPor uma Ética e uma Política da Amizade“, que já citei em outra ocasião:

Na atualidade estamos dominados pela crença de que a proximidade constitui um valor moral, o que nos leva a desenvolver nossa individualidade na proximidade dos outros. (…) É necessária uma distância entre os indivíduos para poder ser sociável. O contato íntimo e a sociabilidade são inversamente proporcionais. Quando aumenta um, o outro diminui; quanto mais se aproximam os indivíduos, menos sociáveis, mais dolorosas e fratricidas são suas relações. (Grifos meus)

Ou seja, não bastando o declínio do espaço público e a tirania da intimidade (cf. Richard Sennett) — bem antes do advento da internet, vale dizer —, temos a companhia de certas “políticas”: a busca diuturna da felicidade e do prazer, a valorização do “tempo real”, a “moral do espetáculo”, e “a busca do novo” como forma de evitar o tédio e o fastio, entre outras. Comum a todas elas é a exigência de velocidade; e vejo outro efeito colateral, ainda por cima associado à tal semântica familialista da amizade: a superficialidade. Porque, convenhamos, com tanta pressa é impossível aprofundar muito; e com tanta obsessão pelo prazer e pela felicidade, todo e qualquer desconforto ou mínimo sofrimento é o suficiente para descartarmos o outro e buscarmos um novo semelhante, sem sequer dar tempo a que as relações se tornem o suficientemente perenes. Sim, de volta ao meu tema-fetiche: aprofundar, estender, digerir, tudo isso demanda tempo. Diria que um tempo de digestão, tempo que parece ser encarado como vilão, responsável pela obsolescência precoce de tudo, até mesmo da condição humana.

Mas é bom parar de uma vez com esse panorama sombrio e retornar à foto lá de cima, com todos brindando felizes, mais felizes ainda pela distância anulada graças à tecnologia. É uma cena deliciosa, sem dúvida. Mas como o igualmente delicioso bolo de chocolate sobre a mesa, para que o prazer perdure e não corra o risco de virar indigestão, melhor apreciá-la com moderação.

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1 Cabe ressaltar que a relação entre essa semântica familialista da amizade e as redes sociais virtuais é minha e não dos autores do artigo.

(Im)pensata

Desconfio de todo aquele que alardeia a solidez de suas convicções.

Quando escrevi essa frase pela primeira vez, sua mensagem pareceu-me clara, embora as palavras escolhidas lhe dessem um não sei o quê entre solene, marcial e cafona, e talvez um outro tanto de arrogante. E se explicito algumas das impressões que tenho sobre a forma que envelopa essa sentença, é porque esse é o jeito que funciono: reflito, revejo, reviso, redireciono, remoo — e entre um re e outro, silencio. (Silêncios ora realmente silenciosos, relaxados, ora novamente reflexivos, daqueles de revolver os miolos, ciente de que boa parte desses res eu devo à idade, já não tão pouca.) É por isso que registro aqui o meu espanto quando ouço alguém começar uma argumentação qualquer dizendo:

No fundo, a questão é muito simples.

Embora acredite que cortar nós górdios seja por vezes o mais sensato e inteligente a fazer, fico intrigado com a facilidade com que alguns começam a argumentar com essa frase em destaque no parágrafo anterior. Que ousadia! é das coisas que me ocorre dizer aos meus botões. Nada contra a tentativa de, como recurso retórico em uma discussão qualquer, arvorar-se um saber maior e último. O problema torna-se sério quando o sujeito que começa a argumentar assim realmente acredita que determinada questão possa ser de fato muito simples, e mais grave ainda quando se trata de temas polêmicos, de assuntos que digam respeito ao destino de muitos, enfim, de questões que vão além de escolher com que roupa ir pro samba que você me convidou. Nessas horas, a não ser que a tal frase com que se inicia a argumentação não passe de ironia, costumo escolher entre: o enfado por perder meu tempo lendo aquilo; a incredulidade frente a seres humanos com argumentos tão arrogantes e ao mesmo tempo primários; e o constrangimento diante do papelão de se tornar pública tamanha ignorância vendida como verdade definitiva.

Mas tudo o que falei se esvai quando encontro pessoas que defendem consistente e inteligentemente as suas convicções, e ao mesmo tempo permanecem abertas ao debate e verdadeiramente interessadas nele. A algumas delas — poucas, diga-se de passagem — reservo a melhor parte da minha atenção. E se ainda por cima tenho a sorte de poder chamá-las de meu amigo, só posso agradecer, e muito, por tamanho privilégio.

Ioga

[Republico um texto antigo, por pura falta do que dizer.]

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Foi logo depois que a van encostou à direita do meu carro naquele inferno de engarrafamento e o cara falou alguma coisa que eu não gostei porque ele olhou de cara feia e olha que o cara já era bem feio e por isso mandei ele pra aquele lugar mas ele não ouviu porque já tinha virado pra frente e se espremido entre dois carros e não fez cara feia pra eles que eu bem que reparei e ficou uns três carros adiante do meu e foi quando a raiva transbordou do meu sistema límbico e me fez acelerar e tentar chegar perto dele e despejar toda a ira que eu não sabia que tinha e que já inundara o cerebelo e não foi do nada que eu quase quebrei o volante de tanto apertar enquanto tentava dar um jeito de ultrapassar aqueles dois na minha frente pra quem o cara da van não fez cara feia que eu também vi e pro terceiro que não deu pra ver e poder chegar na van do cara bem feio pra ele sim poder ver a cara de raiva que eu ia fazer e que tinha a ver com as amígdalas que todo mundo tem no cérebro e que fazem parte do sistema límbico e que eu também tenho mas que todo mundo pensa que quando se fala de amígdalas são sempre aquelas que a maioria opera quando é criança e depois ganha muito sorvete mas fica sem vontade de tomar porque a garganta dói muito mas não tanto quanto o soco que eu queria dar na cara feia do cara da van que falou alguma coisa que eu já disse que não ouvi mas sei que não foi coisa boa porque me deu raiva e eu não fico com raiva à toa e nem o meu cerebelo fica tão encharcado assim a ponto de me dar vontade de ultrapassar três carros de uma vez só pra chegar do lado da van e que o cara da van visse eu mandar ele pra aquele lugar com uma cara feia de quem tem muita raiva mas não é tão feio que nem o cara que falou aquilo que me deixou desse jeito antes da coisa esquisita que começou a me acontecer se for ver o tamanho da raiva que já foi pra lá do bulbo e me fez lembrar das aulas de neuroanatomia e das coisas que eu estudava sobre o cérebro e sobre as emoções e a consciência e seus vinte estados fora a vigília e o sono e do Martin me falando de meditação e de respiração e de mantras e de que ele gostava mais de Ham-Sá do que do Om e só não sei por que isso veio agora na minha cabeça mas reparei que começou a enxugar a raiva das mãos que já doíam de tanto apertar o volante e fez minguar a vontade de ultrapassar os três ou dois ou um carro que fosse e que estivesse entre mim e o cara da van que nem devia ser tão feio assim e que eu nem tenho certeza se falou alguma coisa tão feia assim pra eu ficar desse jeito que eu nem sabia que ficava e que uns quinhentos metros mais lá pra frente já tinha virado outra coisa diferente e agora sim esquisitíssima porque me fez acelerar e passar os três carros um de cada vez e conseguir ficar perto da van mas nem tão perto assim que é pro cara nem tão feio não ficar achando que eu quero brigar com ele antes de chegar no sinal lá adiante onde são quatro pistas em vez de só uma e eu parar do lado esquerdo dele na pista mais à esquerda ainda e dar uma buzinada e ele me olhar sem entender nada quando eu digo pra ele que lá atrás eu queria ter brigado com ele porque achava que ele tinha feito cara feia pra mim e que não faz nem quarenta segundos eu entendi que era tudo da minha cabeça que tinha sido inundada da raiva que transbordara do cérebro pro cerebelo que sempre achei parecido com uma couve-flor e que aquela raiva não só chegou como até passou do bulbo e que agora não só o bulbo e o tal do cerebelo que sempre me lembrou uma couve-flor não têm mais raiva mas o cérebro todo ficou vazio dela e cheio de Om e de Ham-Sá e que a única coisa que eu queria mas queria de verdade era que ele me desculpasse e que tivesse um bom dia.

Um escuro onde a gente vê

Por ocasião da 32ª Mostra Internacional de Cinema, Wim Wenders, convidado de honra da  encontro algo sobre o seu último filme (mal recebido pela crítica no penúltimo festival de Cannes) deu uma entrevista, onde disse:

Numa das cenas mais curiosas de ‘Palermo Shooting’, que conta a história de um fotógrafo em crise, Finn (o roqueiro alemão Campino), assiste-se a um diálogo do protagonista com ninguém menos do que a Morte (Dennis Hopper) fazendo uma defesa do filme 35 mm. Wenders explica o que está por trás disso: “Nos últimos 150 anos, ficamos tão acostumados culturalmente à idéia de que tirar uma foto é um ato irreversível, que acontece apenas uma vez, e é um ato no tempo, um ato de verdade. Todas estas idéias, de algo acontecendo apenas uma vez, estão indo pelo ralo com a revolução digital. A fotografia como ‘a morte em ação’, como diziam alguns filósofos, foi uma das bases do século 20 e isso desapareceu. Então, não se estranhe que o sr. Morte reclame, estamos bagunçando a condição de seu trabalho. É estranhamente engraçado. (Grifos meus)

Cinema e morte, taí uma dupla para lá de interessante. Mas não qualquer morte, nem qualquer cinema. Penso sobretudo nas versões personificadas da morte, como no caso do clássico Bergman (”O Sétimo Selo”) em que ela joga xadrez com o Cavaleiro (Max Von Sydow), uma citação obrigatória (e desgastada) sobre o assunto — e é claro que também estou curioso para ver o Dennis Hopper assumindo o posto. Sei que daria para encher páginas e páginas de filmes em que ela aparece, mas não estou aqui para desfiar saberes enciclopédicos sobre isso, até porque não os possuo. Contento-me com outras duas lembranças: um diálogo de “O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante”, do Peter Greenaway, onde Richard, o cozinheiro, diz a Georgina, a mulher do título, que (…) a comida negra é mais cara, como caviar, trufas, amoras, uvas, azeitonas — porque comer coisas negras é como consumir a morte (Martinho, 2006). E a segunda, que retoma o questão dos atores que encarnam a morte, referência de certa forma secundária na história do cinema (mesmo contando com a Palma de Ouro em Cannes, em 1980). Ela aparece em “All That Jazz“, filme um tanto quanto convencional, mas que ainda me é caro: trata-se da representação da morte por Jessica Lange. O filme é datado, reconheço. Mas Ms Lange encarnando a desalmada, além de ser uma equilibrada combinação de beleza, erotismo e finitude, é também atemporal, ainda mais porque a própria morte é o único que há de permanente. (Hmmm, já vi que hoje estou afiado nos clichês, sinal que ainda vou sapecar mais alguns.)

Bom, se o Dennis Hopper se queixa da bagunça que as novas tecnologias têm feito em relação à imagem, enfraquecendo a possibilidade desta ser um “um ato no tempo, um ato de verdade” (como diz Wenders), eu também tenho as minhas queixas. E elas dizem respeito à minha má-vontade com o lugar que as últimas transformações tecnológicas alcançaram, o que talvez não passe de reflexo da rabugice que a idade instalou em mim. Eu sei que parte dessas transformações, ao menos aquelas que dizem respeito à maneira como a morte é encarada nas sociedades ocidentais, não é nova; pelo contrário, me pré-existe.

Durante a Idade Média a morte era um fenômeno comum, costumeiro, que causava uma dor tolerável, posto que não era uma ruptura entre o aqui e o além e os ritos eram comunais. (…)

A morte transforma-se em acontecimento detestável no século XIX, pois representa uma ruptura no andamento normal da vida. As práticas funerárias são apropriadas pela família, pela medicina e pelo poder público. Desenvolve-se uma estética fúnebre em que predomina a concepção de beleza do morto (signo de ausência de sofrimento) que é a dissimulação do medo da própria morte.

O século XX traz uma transformação revolucionária da morte, que deixa de ser “tudo”, parte constituinte da vida normal e do ciclo pessoal, para se tornar “nada”, ocultada do dia-a-dia, tratada com aparente indiferença. O luto é abandonado às práticas individuais, com a finalidade de poupar a coletividade. É um luto privatizado. A neutralização dos ritos funerários e ocultação da morte fazem parte dessa incapacidade social de se lidar com ela. Isso explica ainda a transferência do ato de morrer para o hospital, aonde o doente se despersonaliza, ao mesmo tempo em que se protege a família da morte, o doente das pressões emocionais dessa família e a sociedade da publicidade da morte. Esta passa a ser uma espécie de responsabilidade técnica passível de ser controlada. Nasce o mito da amortalidade humana (versão moderna da imortalidade) e uma nova escatologia. (Oigman, 2007, p. 2248)

“Ocultação da morte”, “luto privatizado”, um controle proporcionado pela técnica que “preserva” (estas aspas são minhas) a sociedade. Aí está a evidência de como esse fenômeno me pré-existe, mas que se torna cada vez mais gritante. Por isso realmente acredito no que andei dizendo: damos crédito demais às ferramentas que inventamos e crédito de menos àquilo que está mais próximo de nós, às vezes dentro da fronteira básica que a nossa pele representa. E por favor, não se incomode muito com esse meu jeito aparentemente anacrônico, como se advogasse por uma espécie de volta à Arcádia ou mostrasse um viés saudosista e conservador. Não tenho a menor dúvida de que tecnologia é algo muito bom, e gosto demais das inúmeras facilidades que ela nos trouxe, traz e trará. Apenas observo uma coisa, pelo menos umazinha, onde a tecnologia pouca diferença faz: é que mesmo que a “roupagem” varie, nascer e morrer continuam sendo os mesmos processos desde que a nossa espécie surgiu. Pouco importa se hoje em dia o sujeito é fruto de inseminação artificial e foi gestado em útero de aluguel, ou se deixou instruções para que congelem a sua cabeça em hidrogênio líquido depois de sua morte, supondo que novas técnicas da medicina o ressuscitem. Todo sujeito nasce só, ao sair do útero, seja através da vagina ou de um corte feito com bisturi, e costuma chorar de dor quando respira pela boca por primeira vez — e mesmo que num futuro huxleyano ele venha a nascer de um útero artificial, seguirá chorando à primeira respiração. Por outro lado, se dizem que se morre de mil formas, estas se referem apenas ao processo, já que estar morto é de um jeito só, e não vale “meio”, “quase”, “semi” ou “bem”. Ah, e também se morre só.

Agora, cá entre nós, a bagunça gerada pela ideia de que a morte logo será reversível, de que as transformações e promessas tecnológicas um dia resolverão esse “problema”, mudanças essas que tanto incomodam a morte-Denis-Hooper e dificultam o seu trabalho, não chegam a eliminar o que as experiências singulares em torno da morte são capazes de nos proporcionar. Refiro-me à morte dos outros, especialmente dos próximos a nós, e também às vivências em torno da nossa própria morte, essa que vem aí, que não sabemos se avisará ou não. E digo que ainda bem, já que tais experiências teriam o potencial de funcionar como “antígenos”, permitindo que desenvolvêssemos os necessários “anti-corpos” contra a inautenticidade.

Bom, talvez amanhã eu assista o filme do Wenders. Vai ser interessante ver o Dennis Hopper encarnando a inominável. E sobre esta última, confesso: gostaria mesmo é daquela Jessica Lange batendo um papo comigo pouco antes de tudo virar breu. Uma singular conversinha mole com ela cairia muito bem numa hora dessas. Se for no escuro do cinema, ainda melhor.

Um nada de quarta

Tenho uma amiga recente que gosta muito do falecido seriado Seinfeld — “falecido pra você, seu ingrato!”, não é bem a frase que ela diria, mas suponho que o espírito lhe fosse próximo —, e eventualmente pontua algumas situações com episódios da série. Pois hoje, logo após um agradabilíssimo almoço em companhia de outros dois amigos igualmente recentes, ela, eu e um dos dois seguimos proseando pelas ruas do Centro do Rio. Foi quando, do nada, veio à baila um episódio do seriado, aquele em que o Seinfeld namorava uma moça que adorava andar nua em casa — para deleite do comediante. E ao que tudo indica, essa referência foi a senha para que viessem à tona certas reminiscências de um dos três — não vem muito ao caso dizer quem —, com a particular lembrança de uma bela praia, com belas pessoas, todas belamente nuas, em total consonância não apenas com a estética do lugar, mas também com o que, no tal episódio, o comediante chamara de good naked. Bom, é claro que em Seinfeld nada pode ser inocentemente good, daí que em dado momento a nudez da namorada acabou mostrando uma face não tão sexy quanto ele imaginava

E o que tem a ver com o que eu falava mesmo? Ah, lembrei: que nas reminiscências de não importa qual de nós três sobre um certo grupo de pessoas nakedmente belas em uma igualmente bela praia, deu-se o momento em que sobraram apenas duas dessas pessoas belamente nuas; que num intervalo desse mesmo momento, enquanto um dos desnudos deitava os olhos com discreto vagar pelas curvas, promontórios, saliências e reentrâncias de sua bela amiga, deparou-se com um cordão azulado pendendo esticado, ruidoso e ímpio dentre suas bem torneadas pernas; e que de uma hora para outra tudo correspondeu à perfeição ao que no episódio se chamou de bad naked, para confirmar que a vida, muitas vezes, é tão somente um episódio de Seinfeld — e, neste caso, o 165.

Radicais de direita, radicais de esquerda

No Weblog do Pedro Doria, que hoje tratava do discurso de Obama no Cairo, o cientista social Antonio Engelke, depois de ler o que os radicais de sempre vociferavam, escreveu:

Da série “Contradições Delirantes e Paradoxos Esquizofrênicos”:

1. Radicais de direita não se cansam de proclamar a superioridade intrínseca da ordem liberal-democrática.

2. Quando questionados, justificam da seguinte maneira (com razão, diga-se): “ora, porque a democracia é o único regime que garante a liberdade dos indivíduos exercerem suas potencialidades; é o único que fornece um arcabouço teórico e jurídico que visa a minimizar o sofrimento, a crueldade e a dor humana; é o único que, em função dos princípios listados acima, permite e mesmo encoraja o sistema a melhorar e corrigir a si próprio”.

3. O fundamento filosófico do sistema liberal-democrático é o falibilismo. Que, em linhas gerais, consiste no reconhecimento de que toda tese é contingente: isto é, não há qualquer tese que esteja para além da possibilidade da dúvida. Se alguém disser que a tese X não pode ser colocada em dúvida, este alguém é um dogmático, não está agindo racionalmente. O falibilismo tende a levar ao que Weber chamou de “ética da responsabilidade”; o dogmatismo tende a levar à “ética da convicção”.

4. Mas, quando confrontado, o radical de direita abandona por completo a possibilidade de que possa estar errado: sua argumentação é desenvolvida exclusivamente por sobre a base da “convicção”, e não da “responsabilidade”. Tudo de que ele dispõe para debater são certezas absolutas, últimas , cujo mero questionamento já constitui uma impropriedade.

5. E, finalmente, quando algum moderado lhe chama a atenção sobre esta contradição — dizendo-lhe que o seu modo de proceder não está de acordo com os preceitos que ele, liberal-democrata, tanto diz defender, e no qual se arvora para justificar a sua superioridade — o radical de direita se refugia numa espécie de pragmatismo bastante peculiar: aquele que acusa qualquer outro tipo de pragmatismo de ser “frouxo”, “ingênuo”, “idealista”, e, portanto, não-pragmático.

6. Resumindo: o radical de direita absolutiza sua própria posição ao mesmo tempo em que acusa seus adversários de serem absolutistas.

E mais adiante:

Da série “Contradições Delirantes e Paradoxos Esquizofrênicos” (Parte 2):

1. Radicais de esquerda não se cansam dizer que o capitalismo é intrinsecamente perverso, e que sua forma política por excelência — a ordem liberal-democrática — também não é lá flor que se cheire, uma vez que lhe serve de suporte e garante o seu funcionamento.

2. Quando questionados, justificam da seguinte maneira (com alguma razão, diga-se): “ora, o capitalismo pode até gerar riqueza, mas gera muito mais desigualdade. Ele é bom apenas para uma minoria. A maioria — e aqui estamos falando não da maioria em um ou outro país desenvolvido, mas da imensa maioria da população mundial, bilhões de pessoas — é absolutamente explorada a um nível degradante: a maioria não vive, apenas sobrevive, e mesmo assim muito mal.”

3. A luta contra o capitalismo, portanto, não precisa de nenhum fundamento filosófico: a mera observação empírica basta. É simplesmente uma questão de justiça. Justiça para bilhões de indivíduos, que muitas vezes sequer têm consciência de que têm direito a uma vida mais digna. Logo, a tomada do poder, a instauração de uma ordem revolucionária com vistas a socializar a produção e distribuição de riquezas, não é apenas uma questão de conferir materialidade a esta abstração filosófica chamada “justiça”: é também e sobretudo um imperativo moral.

4. O problema é que, para tornar efetiva a socialização da produção e distribuição de riquezas, é necessário suprimir a liberdade individual das pessoas a um nível que para muitos é sufocante. Ninguém pode ter mais do que ninguém. Ninguém pode “ser” mais do que ninguém — embora, é claro, os membros do quadro político oficial “tenham” e “sejam” mais do que os cidadãos comuns que eles supostamente representam.

5. Não obstante, muitos se sentem sufocados, ou simplesmente ficam descontentes com o rumo que as coisas tomam, e partem então para criticar o governo. Isto, é claro, deixa a liderança política em pânico: pois trata-se, afinal, de um sistema que, para funcionar, exige a cooperação uníssona de todos. Se as vozes de descontentamento ganharem projeção e alcance, podem espalhar uma onda subversiva, colocando em risco a viabilidade do sistema. Daí a única alternativa: reprimir com mãos de ferro toda e qualquer possibilidade de crítica, de dissidência.

6. Quando questionados — isto é, quando criticados pelo fato absolutamente contraditório de que, em nome da criação de uma sociedade melhor e mais justa a liderança socialista não hesita em moer os indivíduos que a compõem, por razão pouca ou nenhuma –, os radicais de esquerda se refugiam numa espécie de messianismo auto-evidente: a Verdadeira Universalidade Futura, intrinsecamente virtuosa, a tudo redimirá.

7. Resumindo: o radical de esquerda é motivado pelo objetivo final de instaurar uma ordem justa, mas persegue este objetivo recorrendo a expedientes os mais injustos.

Nada como um ler comentário elegante, inteligente e bem escrito.

Sem dúvida nenhuma

Anos atrás, tive a oportunidade de acompanhar de perto o caso de um paciente que foi submetido a um transplante de coração e que acabou falecendo dois meses depois da cirurgia — por complicações que pouco importam para o que gostaria de discutir. Recordo que a cirurgia ocorreu não muitas horas depois de se ter notícias de um doador compatível, e que do ponto de vista técnico, tudo correu muito bem, tão bem que o paciente chegou a sair da UTI e foi para um quarto individual, começou a exercitar-se e chegou a fazer planos para o futuro, algo que nos últimos meses via como proibido… Mas já estou me alongando, deixe eu voltar ao que me interessa, e que neste exemplo diz respeito não ao paciente que conheci, mas ao doador, de quem o transplantado e seus parentes próximos nada sabiam e nem tampouco vieram a saber. Parte desse desconhecimento se deve ao fato da cirurgia ter ocorrido fora do Brasil — apenas porque o paciente não vivia aqui, embora fosse brasileiro. O máximo que seus parentes e eu soubemos sobre o doador é que tratara-se de uma mulher, com vinte e poucos anos, que falecera de acidente de automóvel. Dizia o protocolo que mesmo essa simples e genérica informação deveria seguir sigilosa. Só que ao conversar com os parentes do paciente, um dos médicos — o que fora buscar o coração no lugar onde ocorrera o acidente — acabou deixando escapar, enquanto lamentava o falecimento de uma pessoa de quem passou a considerar-se amigo ao longo dos meses de sua internação no hospital.

Tempos depois, acompanhei mais de uma vez, aqui no Brasil, notícias em torno a transplantes ocorridos depois de alguma tragédia: uma morte por acidente, uma vítima de assassinato e casos semelhantes, casos estes em que os familiares tiveram a grandeza de doar os órgãos do morto. Mas com um aspecto “ruidoso”: os receptores desses órgãos sendo mostrados em rede nacional de televisão, com sua gratidão tornada pública, muitas vezes em encontros com os parentes do doador,  “patrocinados” pelos tais canais de tevê e com uma trilha ao fundo dando o tom obrigatoriamente lacrimogêneo,  tendo como efeito “involuntário” muitos e “inocentes” pontos a mais de audiência.1

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[Mudo então de cenário.]

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Dentre as inúmeras notícias que li logo que sobre do desastre com o voo 447, uma que não mudou foi a de que a companhia de aviação só divulgará uma lista de passageiros depois que conseguir entrar em contato com parentes de todos eles. (Há uma previsão de que a lista saia amanhã, 3 de junho.) Em alguns noticiários essa informação vem acrescida de que se trata daquilo que a legislação francesa determina, embora eu não saiba se isso procede. Em todo caso, o que me chamou a atenção foi ver imagens de familiares dos passageiros sendo levados a uma área reservada no aeroporto francês, protegida por um cordão de isolamento bastante amplo e com policiais garantindo que ele permanecesse de fato reservado. Já no aeroporto Tom Jobim, no Rio de Janeiro, a situação era diferente. Dezenas de representantes de todos os meios de comunicação engalfinhando-se para contatar os parentes que apareciam no aeroporto, formando um verdadeiro “corredor polonês” por onde esses fragilizados parentes teriam que passar. Enquanto isso, a companhia aérea providenciava acomodações em um hotel para atender os familiares dos passageiros (inclusive com médicos e psicológicos) — o que não é nenhum favor, apenas o procedimento esperado em situações como essa.

Ainda quanto à forma como a notícia vem sendo tratada, na manhã de hoje, além das esperadas reportagens com os habituais passageiros que afirmam ter “renascido” ao não embarcar nesse voo por um motivo ou outro, não se fizeram esperar novas entrevistas, estas com parentes dos passageiros neste ou naquele programa matutino, com a apresentação de fotos de alguns dos desaparecidos — parte das fotos provavelmente fornecida pelos próprios familiares, diga-se de passagem — e o ar consternado dos entrevistadores, como sói acontecer. Além disso, a cada momento a lista não oficial com os nomes dos passageiros aumenta, mini-currículos colados a alguns deles, tudo em nome da necessidade de se fazer a informação vir a público.

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[Vou para outro canto, mais uma vez.]

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Dias atrás acompanhei uma discussão em torno da decisão do presidente Barack Obama de não tornar públicas cerca de duas mil fotos de “…cenas de abusos de prisioneiros tanto no Iraque quanto no Afeganistão, entre 2002 e 2004. Por conta, seu governo vem sendo alvo de pesadas críticas por falta de transparência” (Pedro Doria, Weblog). Penso que alguns já têm claro que tais fotos devem ser divulgadas, por entender que

…há um poder que as imagens têm que nenhum texto é capaz de simular. Apenas imagens como estas são capazes de expor a população dos EUA – e do mundo – aos horrores praticados nos porões da guerra. Jane Mayer apud Pedro Doria, op. cit.)

E em parte como eles, acredito tratar-se de um contraponto consistente, que deva ser discutido e até valer neste caso em particular (e em muitos outros que a ele se assemelham), apesar da espetacularização e do caráter perverso que vem no bojo da divulgação dessas fotos.

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[E agora, tento costurar um pouco as coisas. Um pouco, pois a linha não é muita.]

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Temos: a notícia; a verdade; a transparência; o justo; a valorização do humano. E, por outro lado: o espetáculo; o gozo, um gozo perverso; o lucro com a dor alheia (que quase dá no mesmo); o império da desumanização.

Há no entanto, uma imperiosa e incessante necessidade: a de distinguir uns dos outros, especialmente quando se vê o vil e a barbárie travestidos de “defesa da liberdade” ou qualquer outra expressão de forte apelo ético-moral — a má-fé em sua melhor forma, estejam certos disso.

Da minha parte, só queria se valorizasse uma premissa: o respeito, em especial o respeito à dor alheia. E se para isso ela precisar permanecer distante do público, que seja. Saber apenas que o doador é homem ou mulher; que entre os passageiros do voo 447 havia 58 brasileiros, 61 franceses, 26 alemães, 9 chineses, 9 italianos, 6 suíços, 5 britânicos, 5 libaneses, 4 húngaros, 3 eslovacos, 3 noruegueses, 3 irlandeses, 2 marroquinos, 2 espanhóis, 2 americanos, 2 poloneses, 1 russo, 1 belga, 1 romeno, 1 croata, 1 gambiano, 1 islandês, 1 filipino, 1 sueco, 1 turco, 1 argentino, 1 austríaco, 1 canadense, 1 sul-africano, 1 dinamarquês, 1 estoniano, 1 holandês, já é mais do que o suficiente, especialmente para aqueles não diretamente envolvidos. E mesmo em casos como os dos X, Y, Z abusos contra tais e quais homens e mulheres na prisão de Abu Ghraib, que a eles ao menos seja dado o direito à preservação de sua imagem, aquela mesma que já foi devidamente jogada no esgoto junto com sua dignidade.

Essa é a minha posição. E quanto a ela, nada de dúvidas.

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______________
1 Soube de uma recente reportagem de televisão que mostrou a dura rotina de pacientes à espera de órgãos que lhes salvariam a vida. Trata-se de uma situação completamente diferente da que descrevi, já que envolve o explícito interesse dos próprios pacientes em promover a doação de órgãos, sabedores que são sobre o desconhecimento e os preconceitos em relação ao tema. Não vejo nisso exploração hipócrita e cínica da matéria. Para marcar posição sobre isso, afirmo que caso eu mesmo fosse um paciente à espera de transplante, possivelmente topasse abrir mão da minha (caríssima) privacidade se avaliasse positivamente os benefícios pessoais e coletivos de uma atitude dessas.

Amigo [versão completa]

[Arte: Sizenando, um presente e tanto!]

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Além de laço de cadarço, só conhecia nó cego. Foram quatro, um para cada mão e pé, todos bem firmes na cadeira. Deu tremedeira, puro cagaço de algo sair errado, e resolveu checar. Todos corados, ufa!, bom não ter que afrouxar. E a mordaça?, a respiração vai bem? Parece que sim. Pingou uma gota de descongestionante em cada narina, só para garantir.

Matutou tudo durante três meses, o monólogo inclusive. E o danado até ritmo tinha (na cabeça dele, pelo menos). Quebrá-lo por questões que ele chamaria de técnicas seria uma frustração do cão, imagine só aquela trabalheira inteira no lixo. (A tripa enrolou só de pensar.) Aliás, daquilo tudo, só descobrir o endereço do amigo é que foi fácil. A grana da viagem não, essa veio suada. Empréstimo a pagar em doze parcelas, a gerente do banco jogo duríssimo. (Quase boa, essa gerente; boa, só se negasse.) A passagem, também à prestação. Parte do dinheiro, que nem era tanto, virou um mapa detalhado do Eixample, três diárias no hostal mais fuleiro que pôde achar, sete metros de corda , comida em lata, uma cafeteira elétrica e vários litros de água mineral (com gás).

Tentou cochilar algumas vezes. Mas e o medo do amigo acordar de repente naquele quarto estranho, preso numa cadeira dessas bem pesadas e metidas à besta, veludo e taxinhas douradas nos braços, e ainda por cima descobrindo no susto que era ele o seu captor? Queria estar inteiro, receava não dar conta de fazer tudo funcionar de acordo. Mas o café estava ali para isso mesmo, meio litro bem forte e ele estaria tinindo.

Esperou clarear.

— Calma, não se assuste — frase idiota, porém eficaz, pelo menos por encerrar os gemidos e diminuir os inúteis esforços do preso para soltar-se daquela cadeira; e, por outro lado, para que começasse logo a entender que merda era aquela. — Não fique tentando sair, você só vai é se machucar. Guenta aí que eu já volto, vou pegar um café pra gente. Fiz bem forte, mas se quiser eu ponho um pouco d’água no seu.

Os olhos do preso desesbugalharam um pouco, meio por conta de perceber, no absurdo da cena, tratar-se do Nestor, nove anos depois de tê-lo visto pela última vez; e que provavelmente dali a algumas horas, assim que o filho da puta terminasse de se explicar, daria uma porrada bem dada nele. Uns três socos, no mínimo, o terceiro só por conta do guenta aí que eu já volto.

— Vou te dar um copo d’água primeiro, faz um tempão que você não bebe nada. E vê se não perde tempo tentando gritar. A gente tá longe de tudo, não tem ninguém aqui pra ouvir. Vai o café? Mais tarde eu faço outro, não aguento ficar muito tempo sem tomar uma xícara. É, imaginei que você não falaria nada, nisso não mudou tanto assim. Melhor pra mim, não tô muito contente de tapar a sua boca só pra garantir que vai ouvir até o fim o que eu vou dizer. Mesmo assim vou pôr a mordaça mais um pouco, pelo menos no começo. Posso?  …  Bom, pra início de conversa, desculpe. E não pense que vou ficar pedindo o tempo todo não, é só por conta desse jeito que arrumei de você me ouvir. Foi meio radical, concordo, ou radical e meio, tá escrito isso na sua testa. Tudo bem, fique puto à vontade, direito seu. Mas entender eu sei que vai.  …  Anos, cara, anos que você sumiu. Éramos irmãos, porra, você não tinha esse direito. E nem dá pra comparar, o meu caso era diferente. Eu não podia mais ficar por lá, você sabe, eles não iam renovar mais o meu visto, era mais do que certo. E você e a Leila organizaram aquela puta festa de despedida, lembra?, me pegaram de surpresa, eu não esperava de jeito nenhum.  …  Acho que demorei uns dois ou três meses até me aprumar e a gente voltar a ter notícias um do outro, não foi? A merda é que ligação internacional era caro pra burro, além de nenhum de nós ter lá muito saco pra escrever. Pré-internet era foda, difícil de lembrar como era a vida da gente sem ela… exceto pra você, claro, que nem a porra de um e-mail quer ter, vá ser tecnofóbico assim na casa do caralho! Mas até que a gente se falou algumas vezes, e quando não era por você, dava pra acompanhar um pouco pelo resto do povo: a Sílvia, o Chico, o Luis e a Leila; aliás, principalmente a Leila. Turma boa, a nossa, só quando consegui passar de novo uns dias por lá é que vi a falta danada que eu sentia de todos.  …  Você sabe que eu vou falar da Leila, né? Não, não ficou tudo cem por cento resolvido. Naquela viagem só nos encontramos dois dias depois que cheguei, e eu tava tão eufórico que nem te ouvi direito quando contou que tinha trepado com ela. Tá certo, eu também não ia saber o que dizer se estivesse no teu lugar, mas agora isso não importa. Tenho certeza que, enquanto me contava suas putarias, você viu bem que aquilo tava incomodando, por mais que eu tentasse disfarçar por trás daqueles “e aí, como foi, conta, ela é tudo aquilo que a gente imaginava?, onde vocês treparam?, cacete!, em cima da mesa da sala dos professores?!, vocês são foda!, a sacana me viu e nem disse nada” …  E do meu jeito Polyanna, ainda pensei “tudo bem, eu fui embora mesmo”, e que pelo menos ela deu foi pra você. Nas duas semanas que passei na tua terra a Leila tava tão, mas tão radiante, que toda aquela felicidade acabou baixando um pouco o meu ciúme. Eu nem sabia muito bem o que estava sentindo, essa é a verdade. Só conseguia ver vocês fodendo em cima da mesa da sala dos professores, ela com a saia levantada e o clichê da calcinha no calcanhar, sua mão tapando a boca da Leila, ela gemia pra cacete e o pessoal da limpeza tava pra chegar, eu também ficaria nervoso. Imaginação é um troço escroto mesmo, não para na hora que a gente quer… e as pernas dela enroscadas na tua cintura, uma sandália caída no chão depois da quarta ou quinta enfiada, e o gosto, ah!, e o cheiro!, foi foda, cara, foi foda ouvir que você só lavou os dedos no dia seguinte, só pra continuar sentindo, e ainda fez o gesto. Mas eu disfarcei; mal, mas disfarcei.

Botou as mãos na altura dos rins e levantou a cabeça, olhos fechados, alongando o máximo que podia. Não demorou a perceber o sadismo do seu gesto, o outro lá, horas na mesma posição.

— Vou afrouxar um pouco as tuas mãos, mas não tenta fazer nada não, tá? Entenda, não tô aqui de brincadeira, esse trabalho todo não foi à toa. Agora estique e encolha os dedos. Vai formigar um pouco, já já passa. … Bom, de volta ao assunto. Depois de uns meses vocês começaram a namorar, a Sílvia me contou. Foi ali que a ficha caiu. Aquilo que eu senti não foi ciúme não, cara. Foi inveja, inveja e raiva. Raiva porque me faltou culhão pra tentar alguma coisa com a Leila na época em que a gente se conheceu; e inveja de saber que você tinha esse culhão.  …  Mas torci, meu irmão, torci pra cacete pra que vocês fossem logo morar juntos, casassem, tivessem uma penca de filhos, tudo pra tirar o peso da minha covardia, acreditar que os dois teriam juntado os trapos mesmo, e que nada que eu fizesse mudaria o rumo das coisas. A distância ajudou, não nego, foi bem mais fácil com esse tempão sem nenhum de nós três se falar. Mas calhou de eu saber, sei lá por quem, que você tinha ido embora. Tem ideia do que isso queria dizer pra mim, hein?, hein?! Puta que pariu, cara, sem a Leila?!

Respirou fundo, três vezes, três também os círculos que deu ao redor da cadeira, fazendo hora para que as veias do pescoço parassem de corcovear. Foi até o banheiro e pegou os dois copos em cima da pia, dividindo por igual o que sobrara de uma das garrafas de água mineral. Enquanto abaixava a mordaça, perguntou ao amigo se queria.

— Me solta, preciso mijar.

— Agora não.

— Me solta, caralho, não tô mais aguentando!

— Então mije nas calças.

— Por quê? Por que você está fazendo isso?!

— Mije.

Aos poucos a calça mudou de cor, e uma poça se formou embaixo da cadeira. Não muito grande, por certo; a maior parte o veludo segurou.

— Vambora, tome logo a água. Tá quente aqui, não quero que você desidrate.

Abriu a boca, mas não disse nada. Deixou que a água oferecida escorresse garganta adentro, cara de derrota. (Cuidadoso, o Nestor. Não deixou derramar uma só gota no amigo.) Seu captor bebeu do outro copo, em pé, diante dele. Depois virou-se, apontando para a parede às suas costas: — Pode marcar naquele relógio. Mais dez, no máximo quinze minutos, termino — disse, a perna direita da calça escurecida, como que restabelecendo um equilíbrio perdido, e a poça no carpete três vezes maior.

— Voltei pra tua terra outra vez. Vi a Leila, outra vez. … Ouvi a versão dela. A única, pois de você, zero. Eu lá, cheio de saudade, feliz da vida, doido pra saber de todo mundo, e ela me solta, do nada: “Quer saber, Nestor, a minha história com ele nunca rolou, ele não quis”. Gravei o que ela falou, meu velho, tá tudo aqui — dois toques secos na testa —, aquela conversa fodeu tudo. Não vou tentar imitar a voz dela, mas agora faz de conta que sou a Leila e que você sou eu, sentado na minha frente, e eu, Leila, te digo: “Me apaixonei de verdade, Nestor, mas nada do que eu fizesse dava conta do rancor dele, só podia ser rancor. Ele nunca deixou que eu chegasse perto. E o tom, Nestor, e as caras que ele fazia. Era como se dissesse o tempo todo que eu nunca o entenderia, como se eu fosse uma burguesinha filhinha de papai e ele um proletário injustiçado, sozinho no mundo, e que o que eu sentia por ele era pena, só podia ser, e que ele me odiava por isso. Tudo com o olhar, Nestor, tudo com o silêncio. Nem demorou muito pra eu murchar, me sentir feia, burra, além de tudo uma escrota. E claro que a culpa era minha, só não sabia direito de quê.”

Parou na Leila. Baixou a cabeça, olhos fixos na mão direita, fechada. Tremia. Outra vez a raiva. Precisava livrar-se dela, podia estragar tudo. Voltou-se para o amigo, estranhando-lhe os olhos. Pareciam alheios. Ou indiferentes. Talvez altivos, não dava para ver direito. Indefiníveis, no fim das contas. Incômodos. Sim, incômodos. (Bosta.)

— Você pisou na bola com ela, feio, e eu embarquei. Fiquei puto contigo, tinha tudo pra ser diferente. Mas não era nada disso, eu é que não tinha entendido nada. Bastou um dado, umzinho só, e tudo mudou. Sabe o que a Leila falou no fim da conversa? “Preciso te dizer uma coisa, Nestor, uma coisa que a Sílvia me contou. Assim que ele soube que você vinha pra cá, parece que surtou, ficou repetindo puta que pariu, o Nestor vai ficar com a Leila, ele não pode!, ele não pode!!”

Tirou-lhe a mordaça e sentou no chão, encostado na parede. O relógio acima, à direita, fazia a hora correr devagar. Exausto, vinte anos mais velho, dobrou as pernas, os braços apoiados nos joelhos, a mão direita displicente. A cabeça do amigo começou a fazer movimentos circulares, os dedos das mãos repetindo aquele encolhe e estica, a circulação de volta. Algumas caretas, a língua por fim solta, quieta por opção. Os dois suspiraram ao mesmo tempo, quase um sinal de trégua. Sorriram cansados.

— Pelos velhos tempos — disse Nestor ainda com os dentes à mostra, logo acanhados por mais outro olhar indefinível. — Tempos mortos. Morreram com teu “ele não pode!, ele não pode!!”

Olhou para o relógio, ainda tinha seis minutos dos quinze programados.

— Você não queria a Leila. Você quis o que eu queria; você quis porque eu queria. A razão mais antiga, o motivo mais primário e mais babaca da humanidade, e era você, eu não queria acreditar, não podia ser você. A minha vida, cara, você queria era viver a minha vida, e resolveu começar pela Leila. A merda é que pra isso eu tinha que lutar, você precisava que eu também batalhasse. Porque ficar com ela sem briga fazia tudo virar esmola, vamo lá, pessoal!, vamo dar logo dois por cento de abono pra esse porra de proletariozinho injustiçado! … Você não ia aguentar, e não aguentou mesmo. Largou a Leila, abandonou tudo e veio parar aqui. … Ainda não entendeu nada?, não sacou a ironia? Então vou te explicar: eu nunca lutaria contigo. Nunca. Você lá, obcecado, querendo o meu lugar… mas eu já tinha entregado tudo, nada daquilo me pertencia, eu não era nada, eu era um nada, toda a minha vida era alugada, eu simplesmente tava ali de favor. Tudo era teu, cara, há muito tempo, entendeu agora? Eu é que queria ser você, porra, eu!

Levantou-se, foi até o quarto e voltou com uma mochila. Sentou novamente, abriu o fecho ecler e olhou para dentro dela por uns dez segundos, se tanto. De lá tirou uma pistola, pôs ao lado da perna direita. Os olhos do amigo fixaram-se nela, tensos, mas nem com a arma ele soltou um ai.

— Tô cansado.

Pega a pistola e fica outra vez de pé, perto da cadeira.

— Você queria a minha vida — balança a arma —, mas ela já era sua faz tempo — desata o nó de um dos braços —, era viver e pronto. Eu assistiria a tudo, feliz, pois seria você, cara, você! — agora o outro. — Por que jogou tudo fora? Por que simplesmente não tomou posse? Por quê?! — o amigo ainda sentado, ainda em silêncio. — Nove anos, cara, nove anos no limbo. Vim pegar de volta.

Um tiro só, dois minutos antes.

.

Sobrava um resto de carga na bateria. Código do país, da cidade, oito números, triiim, triiim, triiim. — Alô? É, Leila, sou eu mesmo. … Muito tempo, eu sei. … Preciso te dizer… sim, é sobre o Nestor.

Amigo [4]

[A primeira parte está aqui; a segunda é esta, e a terceira está aqui.]

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— Voltei pra tua terra outra vez. Vi a Leila, outra vez. … Ouvi a versão dela. A única, pois de você, zero. Eu lá, cheio de saudade, feliz da vida, doido pra saber de todo mundo, e ela me solta, do nada: “Quer saber, Nestor, a minha história com ele nunca rolou, ele não quis”. Gravei o que ela falou, meu velho, tá tudo aqui — dois toques secos na testa —, aquela conversa fodeu tudo. Não vou tentar imitar a voz dela, mas agora faz de conta que sou a Leila e que você sou eu, sentado na minha frente, e eu, Leila, te digo: “Me apaixonei de verdade, Nestor, mas nada do que eu fizesse dava conta do rancor dele, só podia ser rancor. Ele nunca deixou que eu chegasse perto. E o tom, Nestor, e as caras que ele fazia. Era como se dissesse o tempo todo que eu nunca o entenderia, como se eu fosse uma burguesinha filhinha de papai e ele um proletário injustiçado, sozinho no mundo, e que o que eu sentia por ele era pena, só podia ser, e que ele me odiava por isso. Tudo com o olhar, Nestor, tudo com o silêncio. Nem demorou muito pr’eu murchar, me sentir feia, burra, além de tudo uma escrota. E claro que a culpa era minha, só não sabia direito de quê.”

Parou na Leila. Baixou a cabeça, olhos fixos na mão direita, fechada. Tremia. Outra vez a raiva. Precisava livrar-se dela, podia estragar tudo. Voltou-se para o amigo, estranhando-lhe os olhos. Pareciam alheios. Ou indiferentes. Talvez altivos, não dava para ver direito. Indefiníveis, no fim das contas. Incômodos. Sim, incômodos. (Bosta.)

— Você pisou na bola com ela, feio, e eu embarquei. Fiquei puto contigo, a história de vocês tinha tudo pra ser diferente. Mas não era nada disso, eu é que não tinha entendido nada. Bastou um dado, umzinho só, e tudo mudou. Sabe o que a Leila falou no fim da conversa? “Preciso te dizer uma coisa, Nestor, uma coisa que a Sílvia me contou. Assim que ele soube que você vinha pra cá, parece que surtou, ficou repetindo puta que pariu, o Nestor vai ficar com a Leila, ele não pode!, ele não pode!!”

Tirou-lhe a mordaça e sentou no chão, encostado na parede. O relógio acima, à direita, fazia a hora correr devagar. Exausto, vinte anos mais velho, dobrou as pernas, os braços apoiados nos joelhos, a mão direita displicente. A cabeça do amigo começou a fazer movimentos circulares, os dedos das mãos repetindo aquele encolhe e estica, a circulação de volta. Algumas caretas, a língua por fim solta, quieta por opção. Os dois suspiraram ao mesmo tempo, quase um sinal de trégua. Sorriram cansados.

— Pelos velhos tempos — disse Nestor ainda com os dentes à mostra, logo acanhados por mais outro olhar indefinível. — Tempos mortos. Morreram com teu “ele não pode!, ele não pode!!”

Olhou para o relógio, ainda tinha seis minutos dos quinze programados.

— Você não queria a Leila. Você quis o que eu queria; você quis porque eu queria. A razão mais antiga, o motivo mais primário e mais babaca da humanidade, e era você, eu não queria acreditar, não podia ser você. A minha vida, cara, você queria era viver a minha vida, e resolveu começar pela Leila. A merda é que pra isso eu tinha que lutar, você precisava que eu também batalhasse. Porque ficar com ela sem briga fazia tudo virar esmola, vamo lá, pessoal!, vamo dar logo dois por cento de abono pr’esse porra de proletariozinho injustiçado! … Você não ia aguentar, e não aguentou mesmo. Largou a Leila, abandonou tudo e veio parar aqui. … Ainda não entendeu nada?, não sacou a ironia? Então vou te explicar: eu nunca lutaria contigo. Nunca. Você lá, obcecado, querendo o meu lugar… mas eu já tinha entregado tudo, nada daquilo me pertencia, eu não era nada, eu era um nada, toda a minha vida era alugada, eu simplesmente tava ali de favor. Tudo era teu, cara, há muito tempo, entendeu agora? Eu é que queria ser você, porra, eu!

Levantou-se, foi até o quarto e voltou com uma mochila. Sentou novamente, abriu o fecho ecler e olhou para dentro dela por uns dez segundos, se tanto. De lá tirou uma pistola, pôs ao lado da perna direita. Os olhos do amigo fixaram-se nela, tensos, mas nem com a arma ele soltou um ai.

— Tô cansado.

Pega a pistola e fica outra vez de pé, perto da cadeira.

— Você queria a minha vida — balança a arma —, mas ela já era sua faz tempo — desata o nó de um dos braços —, era viver e pronto. Eu assistiria a tudo, feliz, pois seria você, cara, você! — agora o outro. — Por que jogou tudo fora? Por que simplesmente não tomou posse? Por quê?! — o amigo ainda sentado, ainda em silêncio. — Nove anos, cara, nove anos no limbo. Vim pegar de volta.

Um tiro só, dois minutos antes.

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Sobrava um resto de carga na bateria. Código do país, da cidade, oito números, triiim, triiim, triiim. — Alô? É, Leila, sou eu mesmo. … Muito tempo, eu sei. … Preciso te dizer… sim, é sobre o Nestor.

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Divagar é preciso

Há tempos não viajo. Creio que por conta disso me veio à lembrança o filme The Truman Show, e uma cena em particular. Truman, já certo de que algo muito estranho acontece em sua vida, “sai do script” e entra de supetão num edifício, dirigindo-se ao elevador. Como as portas se fecham antes que pudesse entrar, ele se dirige ao seguinte. Mais do que depressa, um funcionário da portaria vai em sua direção e Truman se vira para ouvi-lo perguntar “oi, posso ajudar?”, ao que responde “é, eu tenho um encontro na empresa Gable (ou coisa parecida); e enquanto o funcionário rebate que é “impossível!” ele se vira na direção do elevador, mas… espanto, o elevador não está lá! Só algumas pessoas, pegas de surpresa, que rapidamente tratam de colocar “no devido lugar” o que pareceria as paredes do elevador…

Na adolescência, a questão do que seria esse mundo que percebemos como sólido, estável, constante, enfim, real, costumava intrigar-me. Afinal de contas, qual seria a nossa participação pessoal na configuração do mundo? Isso porque recordo, por exemplo, de alguém ter dito que um touro não enxergaria a cor vermelha, e que, nas touradas, na verdade ele seria atraído pelo movimento da capa. (Ah, se alguém quiser corrigir a informação, sinta-se à vontade. Não creio que seja tão relevante para mim, por isso não vou conferir se é verdadeira…) Em todo caso, parece que o mundo visto por um touro seria mesmo outro. E no nosso próprio (e humano) caso, contamos com aquelas velhas leis de organização da Gestalt, entre elas o fechamento, que mostra como acrescentamos a uma figura partes que “faltam”, de maneira que ela faça sentido para nós. Não sei por que cargas d’água, mas naquela época eu fiquei com uma imagem na cabeça, provavelmente fruto de alguma aula de física na escola que se misturou com os meus devaneios. Nessa imagem, todos nós enxergamos o tal mundo estável, organizado, com objetos próximos e distantes, suas fronteiras bem demarcadas etc., como sói acontecer. Mas e se isso só acontecesse diante de nós? E se diferentemente do que ocorre, nós conseguíssemos virar de costas numa velocidade cem vezes maior do que o comum? Numa proporção bem mais complexa do que o que ocorreu com o personagem de Jim Carrey, será que não conseguiríamos ver, nem que fosse de relance, um universo de puro caos que num átimo se organizaria para mostrar-se do jeito que o vemos cotidianamente? Será que, no fundo, somos todos um bando de Trumans?

É, há tempos que não viajo.

O Caio através do Idelber, o Milton junto. (E eu lá atrás, tentando acompanhar.)

Atendendo ao chamado do Idelber para discutir o conto Aqueles dois, do Caio Fernando de Abreu, o Milton Ribeiro, meu vizinho de condomínio e craque nas letras e na música, não se fez de rogado: mandou ver nas suas impressões sobre a história de Saul e Raul.

Passo longe da falsa modéstia, e bem perto da autocrítica pertinente. Por isso digo que é lá no post do Idelber e também no do Milton que a conversa deve ter lugar, e que é também por lá que a minha atenção estará. Mas antes disso, deixo aqui os meus pitacos sobre o assunto, os mesmos que escrevi na caixa de comentários do Clube de Leituras do Idelber, e que de outra forma ficariam perdidos no meio de tanta coisa boa que já li por lá.

Sutil
llegaste a mi
como una tentación
llorando de inquietud
mi corazón.

["Tu me acostumbraste", de Frank Dominguez]

- Sutileza, sugestão, duas palavras que vêm à minha cabeça. Uma, combinando com a suavidade da narração, sem sobressaltos, e com o desvelamento de um amor, humano amor, fraterno, acima de tudo (falo mais sobre isso depois); e a segunda, que tanto anda em falta, e que é tão perigosa como o lusco-fusco do amanhecer e do pôr-do-sol, aquelas horas onde os fantasmas passeiam, as revoluções ameaçam explodir e o mundo é perigoso, de tão indefinido que é. (Curioso, vivemos tempos onde o explícito é não apenas possível, como até cultuado, associado à liberdade e que tais, e onde a sugestão anda em baixa. O chato é que a própria “habilidade de ser sugestivo” parece tb escassear…)

- Janaina Amado ( comentário #4) posicionou-se com clareza, trazendo para isso a estranha década de 80 à conversa, aquela mesma em que surge a AIDS — “câncer gay”, diziam tantos, entre assustados e enraivecidos — e onde “… um bocado de gays … fizeram deste conto um lugar de acolhimento, refúgio, amor, construção de auto-estima”. Some-se o fato, como bem disse a Lola (comentário #5), de que “saber que o conto é do Caio atrapalha um pouco. A gente mistura autor e obra, e isso gera a expectativa de um ‘conto gay’ (seja lá o que for isso)”. A culpa não deve ser do Caio e sim nossa, mas fingir que esses dados não passam na cabeça da gente é bem pior, não?

- Lembrei de um filme de Almodóvar, “Hable con ella“, e dos comentários da maioria das pessoas que saíam da sessão de cinema, no dia em que o assisti, a respeito de seus dois protagonistas masculinos: “é uma relação homossexual”, “são dois enrustidos”, e blá blá blá, enquanto eu via um senhor amor fraterno, com toda a potência que lhe cabia absolutamente explicitada e nem um grama enrustida. Ali não havia contenção de espécie alguma, não havia nada a ser desvelado entre eles. Se trepassem, estou certo que “desculpe, foi engano” seria a conclusão de ambos.

- Volto a “Aqueles Dois”. Reconheço: não posso fazer da relação entre Raul e Saul uma leitura idêntica à que fiz de “Fale com Ela”. São tempos e contextos diferentes. No filme, as bandeiras de Almodóvar contra a repressão (homos)sexual já tremulavam faz tempo, desfraldadas em filmes anteriores, e já incorporadas ao cotidiano espanhol. Por isso não me pareceu nem um pouco estranho entender aqueles dois amigos como os primeiros protagonistas masculinos heterossexuais e interessantes da filmografia do diretor, que até então colocava os homens em papéis secundários, como machistas caricatos, bananas ou então simplesmente perversos.

- Sim, “Aqueles Dois” exala a homoerotismo, além de condenar a repressão já no subtítulo; mas uma repressão marcadamente “de fora”, “da repartição”, institucionalizada, tanto sexual como política, com quase nada das repressões que construímos silenciosamente e que aos poucos tornam-se tão somente nossas. Mas reconheço que o amor de Raul e Saul, visto pelos da repartição como expressão de uma “relação anormal e ostensiva”, “desavergonhada aberração”, um “comportamento doentio”, talvez não seja apenas fraterno — e desculpe pelo “apenas”, a palavra aqui empobrece as coisas —, embora não esteja tão certo de que isso importe tanto assim. (Hoje em dia, pelo menos, acredito que não.)

Bom, falei muito e pouco disse, além de quase nada concluir. Então melhor paro por aqui.

É, está de bom tamanho. Agora volto para as caixas de comentários desses dois blogueiros que tanto admiro.

Você não perde por esperar

Antes de seguir pelejando (ô coisa boa usar essa palavra!) com minhas últimas tentativas de escrever um conto, faço uma pausa para constatar o óbvio.

Você ainda não fez, talvez esteja fazendo agora ou, na última das hipóteses, vai fazer um (ou mais de um) post sobre os motivos pelos quais:

1) não pretende entrar no twitter tão cedo;

2) tem dúvidas sobre entrar ou não; ou

3) enfim abraçou 1 a causa twitteriana. 2

Pode que você tenha escrito (esteja escrevendo ou venha a escrever) mais de um (ou mesmo um único) post sobre os três motivos. Não se envergonhe, não se preocupe e muito menos se angustie. Muita gente boa já passou por isso.

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1 Neste link, vá direto ao P.S. no final do post. É lá que está a sua ligação com o item 3.

2 Há variações sobre o tema, como os posts que explicam os motivos de alguém aderir ao twitter, apesar de ter passado uma vida falando mal dele; ou então aqueles que analisam as vantagens e desvantagens da ferramenta; terceiros que tecem loas a ela; uns tantos que a demonizam, e blábláblá.

Amigo [3]

[A primeira parte é esta daqui e esta é a segunda.]

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Botou as mãos na altura dos rins e levantou a cabeça, olhos fechados, alongando o máximo que podia. Não demorou a perceber o sadismo do gesto, o outro lá, horas na mesma posição.

— Vou afrouxar um pouco as tuas mãos, mas não tenta fazer nada não, tá? Entenda, não tô aqui de brincadeira, esse trabalho todo não foi à toa. Agora estique e encolha os dedos. Vai formigar um pouco, já já passa. … Bom, de volta ao assunto. Depois de uns meses vocês começaram a namorar, a Sílvia me contou. Foi ali que a ficha caiu. Aquilo que eu senti não foi ciúme não, cara. Foi inveja, inveja e raiva. Raiva porque me faltou culhão pra tentar alguma coisa com a Leila na época em que a gente se conheceu; e inveja de saber que você tinha esse culhão. … E torci, meu irmão, torci pra cacete pra que vocês fossem logo morar juntos, casassem, tivessem uma penca de filhos, tudo pra tirar o peso da minha covardia, acreditar que os dois teriam juntado os trapos mesmo, e que nada que eu fizesse mudaria o rumo das coisas. A distância ajudou, não nego, foi bem mais fácil com esse tempão sem nenhum de nós três se falar. Mas calhou d’eu saber, sei lá por quem, que você tinha ido embora. Tem ideia do que isso queria dizer pra mim, hein?, hein?! Puta que pariu, cara, sem a Leila?!

Respirou fundo, três vezes, três também os círculos que deu ao redor da cadeira, fazendo hora para que as veias do pescoço parassem de corcovear. Foi até o banheiro e pegou os dois copos em cima da pia, dividindo por igual o que sobrara de uma das garrafas de água mineral. Enquanto abaixava a mordaça, perguntou ao amigo se queria.

— Me solta, preciso mijar.

— Agora não.

— Me solta, caralho, não tô mais aguentando!

— Então mije nas calças.

— Por quê? Por que você está fazendo isso?!

— Mije.

Aos poucos a calça mudou de cor, e uma poça se formou embaixo da cadeira. Não muito grande, por certo; a maior parte o veludo segurou.

— Vambora, tome logo a água. Tá quente aqui, não quero que você desidrate.

Abriu a boca, mas não disse nada. Deixou que a água oferecida escorresse garganta adentro, cara de derrota. (Cuidadoso, o Nestor. Não deixou derramar uma só gota no amigo.) Seu captor bebeu do outro copo, em pé, diante dele. Depois virou-se, apontando para a parede às suas costas: — Pode marcar naquele relógio. Mais dez, no máximo quinze minutos, termino — disse, a perna direita da calça escurecida, como que restabelecendo um equilíbrio perdido, e a poça no carpete três vezes maior.

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(Continua — e termina — aqui)

Amigo [2]

[A primeira parte é esta daqui.]

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— Calma, não se assuste — frase idiota, porém eficaz, pelo menos por encerrar os gemidos e diminuir os inúteis esforços do preso para soltar-se daquela cadeira; e, por outro lado, para que começasse logo a entender que merda era aquela. — Não fique tentando sair, você só vai é se machucar. Guenta aí que eu já volto, vou pegar um café pra gente. Fiz bem forte, mas se quiser eu ponho um pouco d’água no seu.

Os olhos do preso desesbugalharam um pouco, meio por conta de perceber, no absurdo da cena, tratar-se do Nestor, nove anos depois de tê-lo visto pela última vez; e que provavelmente dali a algumas horas, assim que o filho da puta terminasse de se explicar, daria uma porrada bem dada nele. Uns três socos, no mínimo, o terceiro só por conta do guenta aí que eu já volto.

— Vou te dar um copo d’água primeiro, faz um tempão que você não bebe nada. E vê se não perde tempo tentando gritar. A gente tá longe de tudo, não tem ninguém aqui pra ouvir. Vai o café? Mais tarde eu faço outro, não aguento ficar muito tempo sem tomar uma xícara. É, imaginei que você não falaria nada, nisso não mudou tanto assim. Melhor pra mim, não tô muito contente de tapar a sua boca só pra garantir que vai ouvir até o fim o que eu vou dizer. Mesmo assim vou pôr a mordaça mais um pouco, pelo menos no começo. Posso? … Bom, pra início de conversa, desculpe. E não pense que vou ficar pedindo o tempo todo não, é só por conta desse jeito que arrumei de você me ouvir. Foi meio radical, concordo, ou radical e meio, tá escrito isso na sua testa. Tudo bem, fique puto à vontade, direito seu. Mas entender eu sei que vai. … Anos, cara, anos que você sumiu. Éramos irmãos, porra, você não tinha esse direito. E nem dá pra comparar, o meu caso era diferente. Eu não podia mais ficar por lá, você sabe, eles não iam renovar mais o meu visto, era mais do que certo. E você e a Leila organizaram aquela puta festa de despedida, lembra?, me pegaram de surpresa, eu não esperava de jeito nenhum. … Acho que demorei uns dois ou três meses até me aprumar e a gente voltar a ter notícias um do outro, não foi? A merda é que ligação internacional era caro pra burro, além de nenhum de nós ter lá muito saco pra escrever. Pré-internet era foda, difícil de lembrar como era a vida da gente sem ela… exceto pra você, claro, que nem a porra de um e-mail quer ter, vá ser tecnofóbico assim na casa do caralho! Mas até que a gente se falou algumas vezes, e quando não era por você, dava pra acompanhar um pouco pelo resto do povo: a Silvia, o Chico, o Luis e a Leila; aliás, principalmente a Leila. Turma boa, a nossa, só quando consegui passar de novo uns dias por lá é que vi a falta danada que eu sentia de todos. … Você sabe que eu vou falar da Leila, né? Não, não ficou tudo cem por cento resolvido. Naquela viagem só nos encontramos dois dias depois que cheguei, e eu tava tão eufórico que nem te ouvi direito quando contou que tinha trepado com ela. Tá certo, eu também não ia saber o que dizer se estivesse no teu lugar, mas agora isso não importa. Tenho certeza que, enquanto me contava suas putarias, você viu bem que aquilo tava incomodando, por mais que eu tentasse disfarçar por trás daqueles “e aí, como foi, conta, ela é tudo aquilo que a gente imaginava?, onde vocês treparam?, cacete!, em cima da mesa da sala dos professores?!, vocês são foda!, a sacana me viu e nem disse nada”… E do meu jeito Polyanna, ainda pensei “tudo bem, eu fui embora mesmo”, e que pelo menos ela deu foi pra você. Nas duas semanas que passei na tua terra a Leila tava tão, mas tão radiante, que toda aquela felicidade acabou baixando um pouco o meu ciúme. Eu nem sabia muito bem o que estava sentindo, essa é a verdade. Só conseguia ver vocês fodendo em cima da mesa da sala dos professores, ela com a saia levantada e o clichê da calcinha no calcanhar, sua mão tapando a boca da Leila, ela gemia pra cacete e o pessoal da limpeza tava pra chegar, eu também ficaria nervoso. Imaginação é um troço escroto mesmo, não para na hora que a gente quer… e as pernas dela enroscadas na tua cintura, uma sandália caída no chão depois da quarta ou quinta enfiada, e o gosto, ah!, e o cheiro!, foi foda, cara, foi foda ouvir que você só lavou os dedos no dia seguinte, só pra continuar sentindo, e ainda fez o gesto. Mas eu disfarcei; mal, mas disfarcei.

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(Continua aqui.)

Amigo [1]

Além de laço de cadarço, só conhecia nó cego. Foram quatro, um para cada mão e pé, todos bem firmes na cadeira. Deu tremedeira, puro cagaço de algo sair errado, e resolveu checar. Todos corados, ufa!, bom não ter que afrouxar. E a mordaça?, a respiração vai bem? Parece que sim. Pingou uma gota de descongestionante em cada narina, só para garantir.

Matutou tudo durante três meses, o monólogo inclusive. E o danado até ritmo tinha (na cabeça dele, pelo menos). Quebrá-lo por questões que ele chamaria de técnicas seria uma frustração do cão, imagine só aquela trabalheira inteira no lixo. (A tripa enrolou só de pensar.) Aliás, daquilo tudo, só descobrir o endereço do amigo é que foi fácil. A grana da viagem não, essa veio suada. Empréstimo a pagar em doze parcelas, a gerente do banco jogo duríssimo. (Quase boa, essa gerente; boa, só se negasse.) A passagem, também à prestação. Parte do dinheiro, que nem era tanto, virou um mapa detalhado do Eixample, três diárias no hostal mais fuleiro que pôde achar, sete metros de corda, comida em lata, uma cafeteira elétrica e vários litros de água mineral (com gás).

Tentou cochilar algumas vezes. Mas e o medo do amigo acordar de repente naquele quarto estranho, preso numa cadeira dessas bem pesadas e metidas à besta, veludo e taxinhas douradas nos braços, e ainda por cima descobrindo no susto que era ele o seu captor? Queria estar inteiro, receava não dar conta de fazer tudo funcionar de acordo. Mas o café estava ali para isso mesmo, meio litro bem forte e ele estaria tinindo.

Esperou clarear.

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(Continua aqui.)

Fora da nova ordem mundial**

Há mais de uma eternidade aguardava essa foto. Chegou ontem, e só agora comecei a processar parte do que pensei quando soube da história em torno dela.

Fiquei na dúvida se é um ponto ou um acento agudo o que aparece em cima do “i” de Francis, o único que assinou sua carteira de identidade. E confesso que tive um certo pudor ao ver sua assinatura, o éfe com jeito de tê, a ligeira inclinação das letras para a esquerda. (Será que ele é destro?) Pode que não se importasse de ver sua letra exposta por aqui; mas em seu lugar, garanto que eu me importaria, então melhor não deixá-la à mostra. Por outro lado, me chateia não saber como se chama o senhor que aparenta ser mais velho. Tem algo de descortês falar de alguém sem sequer poder chamá-lo pelo nome. O que sinto, porém, é totalmente irrelevante. O que vale é a história deles.

Antes de mais nada, a foto dessas duas cédulas de identidade circula mundo afora creio que desde 2005, se não me falha a memória. Conheci quem as retratou e sou muito amigo daquele que as mostrou pela primeira vez em público, num congresso internacional de medicina. (E bato demoradas palmas para ambos.) Porque mesmo eu não tendo dito nada ainda, a esta altura do campeonato todos já notaram que o Francis com ou sem acento no “i” e o senhor que aparenta ser mais velho têm algo em comum, e fica no pescoço, do lado direito. Trata-se de um catéter venoso central, um acesso temporário para a hemodiálise que em algum momento de suas vidas ambos descobriram precisar. (Tentei dar mais destaque nos 3X4 aí à direita.)

Sim, os dois padecem de insuficiência renal crônica. E não, este não é um post sobre a doença, pelo menos não especificamente sobre ela. Estatísticas sobre sua incidência, diagnóstico, tratamento, taxas de mortalidade e aspectos correlatos  ficam de fora, lamento avisar. Em compensação, ainda há o que dizer sobre os dois cidadãos dessas fotos. E cortando o clima, digo logo: cidadania é a pista.

As cédulas de identidade são de Sergipe. É mais um dado que os dois têm em comum, mas não o último. Baixa renda e analfabetismo — funcional, no caso do Francis com ou sem acento no “i” — é outro. Mas em meio a tanta restrição, o que haveria de positivo a destacar?

Cidadãos, eu disse. Pode que muitos não os vejam assim, mas esses que se danem. A cidadania de ambos é reconhecida como tal pelo Estado: eles passaram a ter identidade, CPF, e o Sistema Único de Saúde sabe bem quem são. Seu tratamento é custeado por todos nós, inclusive pelos que olham para eles com desdém. E não, nenhum dos dois recebe esmolas, favores ou coisa que o valha. Foi pelo avesso, fruto de uma doença crônica, que saíram da margem, e enfim recebem o que sempre lhes foi de direito.

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Imagino a cena. Ela se dá num congresso de medicina, mais especificamente sobre nefrologia. Médicos, representantes da indústria farmacêutica e fabricantes de equipamentos hospitalares reunidos em uma ampla sala de conferências, discutindo em torno a números sobre pacientes, formas de tratamento, políticas locais e globais de saúde e também sobre os valores astronômicos envolvidos, em dólar, euros e reais. E entre tantas palestras cheias de estatísticas, nomes de novos equipamentos e técnicas para doenças renais, uma simples foto, no meio de uma apresentação em Power Point de um médico de país emergente, silencia a plateia. Os milhões de dólares em contratos para novos medicamentos e máquinas de última geração ficam inadvertidamente em segundo plano. E todos, eu disse todos, dão-se conta daqueles dois senhores, com seus catéteres à mostra, como dizendo “dá licença, eu estou aqui, sim, e agora vocês nos respeitam”. E todos, ou quase todos, ainda que por um instante, re-humanizam-se.

A minha imaginação tem algo de piegas, concordo. Mas desentorte a boca, vá, que esse sarcasmo no rosto te envelhece (e envilece) um pouco, além de não assentar contigo — se for essa a tua expressão. Pois o Francis com ou sem acento no “i” e o senhor que aparenta ser mais velho, que nunca ouvirão falar deste post, até onde sei estão muito bem, obrigado, tocando suas vidas cidadãs. E a minha pieguice, o sarcasmo e o desdém de alguns, e mesmo a caridade de outros não têm qualquer coisa a ver com isso.

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Atualização. Um bom amigo me diz: “Sinceramente, não entendi onde esse post quis chegar…”. Assumo como minha a dificuldade de me fazer entender, e respondo de maneira resumida: que no meio de um tratamento médico, sem que ninguém tivesse pensado a respeito, houve inclusão social, resgate de cidadania; que o fato ocorreu sem que fosse um favor, uma esmola ou qualquer tipo de caridade por parte dos bem-nascidos; e que isso é muito, muito bom!

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** Do refrão da música “Fora de Ordem”, de Caetano Veloso.

El cuento es muy sencillo

A história é muito simples. Eu sei, mas nem por isso deixa de complicar a vida da gente, Mario.

Desculpe a tristeza. Bem que você e o teu amigo Serrat me avisaram que “quando nada falta, então a gente morre”, mas ainda assim não dá para fazer de conta que você não fará falta. (Da minha parte creio ainda faltar alguma coisa, meu velho, nem que seja um pouco de velhice.)

É claro que não sabias disso, mas nesta Ágora já falei de ti algumas vezes, embora não tão bem como o Milton ou a Meg. E como eles já te mandaram flores, falta eu fazer o mesmo. Só que ando meio sem imaginação, poeta — quem dirá uma aos pés da tua —, por isso vá desculpando mais um abuso de quem já roubou uma frase que só você poderia ter inventado. É, prometo que não pego mais nada de ti — ao menos hoje não —, fora esses poemas que te ouvi declamar.

[Apenas apontem o mouse para a "caixa de som" no canto esquerdo de cada link e esperem que apareça o aplicativo para poder ouvi-los. Se elas não estiverem aparecendo, experimente clicar no título do post e entrar nele. Acredito (ou torço para) que com isso as tais caixinhas apareçam.]

benedetti-credo

benedetti-tactica-y-estrategia

benedetti-ella-que-pasa

Pode que seja uma certa lassidão de caráter da minha parte pôr a sua própria voz para te homenagear, Mario, mas é prosa mais do que sabida que eu sou uma negação poética. E como você era mesmo único, colocar-te declamando esses poemas para que outros se enlutem como se deve me pareceu mais honesto, com o perdão da boutade.

Um grande e agradecido abraço pelos serviços em poesia e prosa que prestaste a todos nós, Mario Benedetti.

[Mario Benedetti, 14/09/1920 - 17/05/2009]

Fazendo tudo direitinho

Projeto Rondon, acredito que no final dos anos setenta do século passado. Contou-me um grande amigo meu que liderara um grupo de estudantes universitários pelos confins da Amazônia. Ao chegarem a um vilarejo no meio do nada, viram que seus habitantes padeciam de algumas doenças ligadas à falta de cuidados de higiene. Por conta disso, depois de medicarem os doentes e ensinarem soluções para alguns de seus problemas, recomendaram-lhes que a partir daquele momento todos passassem a tomar apenas água fervida, o que ajudaria a evitar mais casos de amebíase, esquistossomose, hepatite etc.

Satisfeitos com a acolhida e o sucesso de seu trabalho, os estudantes seguiram rio acima, buscando outras comunidades a quem ajudar. Eis que na volta, uns quinze dias depois, passaram novamente no tal vilarejo, no intuito de avaliar se as mudanças propostas estavam sendo cumpridas e a saúde das pessoas melhorara. Qual não foi a surpresa ao ver que um surto de diarreia havia se disseminado, e quase todos jaziam prostrados em suas redes, sem energia para nada. À turma de estudantes só restou arregaçar as mangas e pôr-se a trabalhar para descobrir as causas daquele surto, coletando amostras de sangue e fezes, enquanto hidratavam os mais debilitados com soro. O resultado dos exames, porém, foi nulo: não havia qualquer sinal de bactéria ou vírus responsável por aquele quadro. Até que um dos estudantes pediu a uma senhora que lhe desse um copo d’água, obviamente fervida, como haviam ensinado. Veio então aquele clássico copo de geleia de mocotó sobre um pires, assustando a todos os presentes ao verem que a água ainda borbulhava, fumegante, recém-saída do fogo.

— perguntou a senhora —, num foi ocês que disse que era pra tomar só água frevida? Nós tudo freveu e tomô, direitinho!

Quereres

Uma conhecida, que há anos não vejo, certa vez me contou uma história. Dando aulas para adolescentes, resolveu levar uma trans para conversar com eles. A meninada ficou ouriçada, e alguns risinhos e piadas soaram aqui e ali. Nada que a moça não tirasse de letra, enquanto respondia pacientemente a todo tipo de dúvida. Até que, por último, um rapazote perguntou-lhe, seriamente:

— Mas Jéssica, fala aí, cê só gosta mesmo é de homem? Quer dizer, quando cê olha pruma mulher, não sente nenhum desejo por ela?

— Seu nome é…

— Vitor.

— Vitinho, meu amor, mas é claro que sinto! É só bater o olho numa dessas cachorras bem gostosonas que eu digo pro meu cirurgião plástico: “eu quero aqueeele peito, quero aqueeela bunda”…

Que ele é um pote até aqui de mágoa

Intimidação virtual é mais que uma simples “brincadeira”

NOVA YORK (Reuters - segunda-feira, 11 de maio de 2009, 12:06) — Mais de metade dos adolescentes dos Estados Unidos podem estar sofrendo com o problema da intimidação virtual, que talvez seja tão grave ou até pior do que sofrer agressões físicas na escola. A persistência dos ataques e a devastação emocional que causam podem resultar até mesmo em suicídio.

Quer seja por meio de emails, serviços de mensagens instantâneas, celulares, mensagens de texto ou em sites, a intimidação virtual está se tornando um problema sério.

Nos últimos 10 anos, 37 dos Estados norte-americanos adotaram leis que impõem às escolas criar normas contra essa questão.

“A questão está se tornando algo que as pessoas veem como significativo, à medida que mais e mais estudantes falam a respeito e que, infelizmente, se tornam mais comuns casos de suicídio ou de estudantes que causam ferimentos a eles mesmos por conta disso”, disse Dan Tarplin, diretor educativo em Nova York da Anti-Defamation League (ADL), que combate o anti-semitismo e todas as formas de intolerância.

Ao contrário das brigas e da intimidação física que podem ocorrer em uma escola, Tarplin diz que o anonimato da mídia eletrônica pode tornar os agressores mais ousados, e sua onipresença permite que um comentário desagradável, uma declaração áspera, uma foto ou vídeo pouco lisonjeiros sejam exibidos a grande número de pessoas instantaneamente.

“Com as formas eletrônicas de intimidação, não existe refúgio”, disse Scott Hirschfeld, diretor de currículo e treinamento na divisão de educação da ADL, que criou seu programa a fim de conscientizar as pessoas sobre formas de combater a intimidação virtual.

“A agressão acontece 24 horas por dia. Está sempre online. Mesmo que a vítima desligue o computador, sabe que a página de Web está lá, ou que há pessoas espalhando boatos sobre ela. O fato de que a pressão é ininterrupta se prova devastador em termos psicológicos”, acrescentou.

Adolescentes que participaram de uma conferência da ADL disseram que acreditavam que a intimidação fosse só “brincadeira”, até que ouviram o depoimento de John Halligan sobre Ryan, seu filho de 13 anos que se suicidou em 2003, depois de anos de intimidação, online e fora da rede.

“Ele era intimidado constantemente pela possibilidade de que fosse gay”, disse em entrevista Halligan, ex-executivo da IBM que agora conta a história de Ryan em escolas de todo o país.

Várias palavras digitadas, algumas delas impublicáveis… e um clique, um mísero clique.  Um texto sem formatação. Outro, recheado de fotos. Um vídeo, curto ou longo, editado ou não (tanto faz). Alguns deles feitos “no calor da hora”; outros, preparados com o cuidado de quem monta um coquetel molotov ou qualquer outro explosivo mais contemporâneo, por assim dizer. A decisão na hora de usá-lo, porém, não costuma primar pela reflexão, nem pela percepção do seu alcance: é mais rápida do que ler a palavra “imediato”.

E como é fácil fazê-lo. [Nem me dou ao trabalho de sondar, pois é certo que haja "receitas" espalhadas por todo canto, além de maneiras viróticas de multiplicá-las, sem chance para a reação dos anti-corpos, especialmente os dos adolescentes.]

Um detalhe, a meu ver importante. Ao final de qualquer discussão face a face, daquelas onde as mães dos protagonistas costumam receber boa parte dos petardos, a memória entra em campo, tal e qual a entourage dos boxeadores, jogando-lhes água na cabeça, incentivando-os mesmo quando estão apanhando feito cães sem dono, passando gelo ou algo que alivie um pouco a dor. A diferença, no caso das discussões, é que ao final delas a memória segue trabalhando, e como muitas vezes atua sozinha, por falta de “ajuda” acaba atenuando um pouco a virulência com que foi percebido o embate, como se o ocorrido não fosse lá tão grave assim.** Mas com a internet, da forma como a reportagem descreve, a perspectiva do (quase em) tempo real não só congela o instante, mas o mantém vivo, e ainda por cima eleva-o à enésima potência, fazendo com que a experiência seja revivida diariamente, ininterruptamente, com o sujeito dessa experiência transformado em verdadeiro Prometeu, acorrentado no alto do Cáucaso, com o seu fígado dilacerado por uma águia durante o dia e regenerando-se à noite, só para tudo recomeçar na manhã seguinte…

Resumindo: imagine um castigo, um castigo injusto. Agora imagine que ele não tem data para acabar. E mais: você não sabe quantos estão envolvidos na tarefa de seguir te castigando, e muitas vezes nem mesmo quem são eles. Consegue imaginar?

Um clique, um mísero clique.

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** Claro que há aqueles que tratam de manter vivo o que lhes ocorreu, e não só não esquecem, como também cultuam o ressentimento e/ou cultivam a perspectiva de revanche/vingança. Mas eles não servem para a minha metáfora, fazer o que.

Joia

Já comentei em outro post a respeito do livro “Tabu do Corpo“, do José Carlos Rodrigues, e devo reconhecer que ele é um manancial de explicações para o que às vezes é (ou às vezes eu) deveras estranho. Então começo pelo fim, isto é, por citações do Tabu:

Não há, praticamente, sociedade que não fira de alguma forma o corpo de seus membros, havendo inclusive preferências que podem ser estranhas à primeira vista. Por que a coincidência largamente difundida no espaço e no tempo, da preferência pelas partes genitais? — perfurando ritualmente a uretra, na base do pênis, para controlar a fecundação (discisão da uretra); furando o prepúcio e introduzindo algum objeto que impossibilite as relações sexuais; ou costurando as paredes da vulva de forma a reduzir o orifício vaginal (infibulação); praticando a excisão do clitóris, ou procedendo à labiotomia; abrindo parcial ou totalmente a parte inferior da uretra peniana, de forma a fazer com que homens e mulheres assumam a mesma posição ao urinar;1 distendendo os lábios por meio de manipulação e outros métodos; escarificando-os de modo a colarem-se durante a cicatrização; praticando a circuncisão; a castração total ou unilateral; ou o desvirginamento ritual…Todas essas intervenções da comunidade sobre o sexo são maneiras de ela tentar controlar — agindo sobre o órgão — uma função cujo exercício deve responder pela própria continuidade da existência do grupo humano. Não têm, portanto, importância maior que a sociológica. Nesse ponto, a reprodução da espécie e a persistência das tradições sociais se encontram, e o sexo se transforma em um bom objeto para materializar os sentimentos da comunidade acerca de sua sobrevivência.

Portanto, nenhuma prática se realiza sobre o corpo, sem que tenha, a suportá-la, um sentido genérico ou específico. Não há razões para supor que as pessoas a elas se submetam a contragosto ou sem conformidade intelectual: aqui todos concordaram que o ladrão devesse ter a mão amputada; ali, que as mulheres que ultrajaram o marido devessem ter o nariz cortado; acolá, que os homens, diferentemente dos animais ou dos seres impuros, deveriam ser circuncidados, ou que as mulheres deveriam ter os lábios vulvares distendidos, para poderem ser consideradas belas e desejadas sexualmente como boas parceiras. Pelo contrário, essas ocasiões são normalmente aguardadas pela comunidade com uma certa ansiedade e recebidas, mesmo pelos seus pacientes, com alegria, já que significam a possibilidade de uma situação de dignidade maior, o ingresso em uma classe privilegiada, ou o restabelecimento da ordem das coisas.

[...]

É claro que as explicações utilitárias e instrumentais não bastam para nos fazer compreender a permanência e a difusão dessas práticas. Explicar, por exemplo, a circuncisão, por razões higiênicas, pela aversão ao cheiro do esmegma, pela necessidade de combater a inflamação prepucial, a fimose, o desenvolvimento da resistência da mucosa da glande, é produzir racionalizações que se destinam a legitimar uma prática sem dúvida muito anterior ao argumento. A origem dessas práticas é social, não havendo outro fundamento: são signos de pertinência ao grupo e de concordância com os seus princípios. (pp. 63-5)

Que os eventuais leitores deste post não pensem, a partir deste trecho, que o livro José Carlos Rodrigues relativiza a questão da MGF/E (Mutilação Genital Feminina/Excisão). Sua obra é um estudo antropológico, não um libelo a favor ou contra as práticas sobre o corpo perpetradas pelas diferentes culturas, não cabendo esse tipo de acusação. E de minha parte, vou logo avisando que sou totalmente a favor das campanhas contra a MGF/E. Dito isso, posso voltar ao meu estranhamento sobre certas práticas corporais, que com as facilidades da internet passaram a ser de domínio público. Refiro-me a um tipo de adorno de que só há poucos dias tive notícia: Joias Anais.2

É fato que a citação do livro trata de diferentes intervenções sobre o corpo, boa parte delas ligada à genitália, e todas com um forte apelo à questão da própria continuidade/existência/identidade das comunidades onde elas são praticadas. É fato, também, que a inventividade humana quanto à busca de novas formas de prazer com/para o corpo é inesgotável — e cada um que gerencie as suas preferências. Mas não sei bem em que dimensão comunitária essas peças se inserem — desculpem o involuntário trocadilho — e confesso que me é difícil reconhecer-lhes qualidades estéticas, ou mesmo a efetiva praticidade no uso de uma ou outra.3

Sim, considero-as de gosto duvidoso, admito. E talvez parte do “defeito” da minha visão sobre elas esteja na frase que aparece no último parágrafo da citação do Tabu do Corpo: “[...] as explicações utilitárias e instrumentais não bastam para nos fazer compreender a permanência e a difusão dessas práticas.” Mas sei também que reconhecer alguns dos próprios limites é parte do amadurecimento de cada um.

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1. Há boatos de que alguns vereadores e deputados estaduais do Rio de Janeiro andam pensando em legislar sobre a matéria, na tentativa de lidar com o hábito de muitos cidadãos cariocas, especialmente durante o reinado momesco. Mas por enquanto seguem assim, boatos.
2. Não sei se o “mitológico e maldito livro do Luiz Biajoni” alude ao tema. Quem tiver lido sinta-se à vontade para comentar.
3. As três últimas fotos são de peças do joalheiro Julian Snelling. Creio, porém, que nome do seu sítio ofenderá um ou outro cinéfilo mais conservador: Rosebuds.

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