Submarino.com.br
Ágora com dazibao no meio Rotating Header Image

Filosofia de botequim

Alguém sabe dizer se existe algum estudo sobre “a história universal do” elogio ou da crítica elogiosa? Porque só hoje, depois de semanas desatualizado sobre o que anda sendo noticiado, comentado, criticado, elogiado e sei lá o que mais, acabei lendo em blogs, Facebook e twitter umas quatro ou cinco críticas elogiosas sobre os temas mais díspares, mas todas com uma característica comum: seus autores acrescentaram às tais críticas elogiosas que fizeram o fato delas coincidirem com aquilo que eles mesmos pensavam.

Mesmo sem ter saído do país nos últimos oito anos e circulando relativamente pouco pelos diferentes estados da nação nesse mesmo período, tenho a nítida impressão de que a gente — você, eu, o Eike Batista, o Mr. Catra e boa parte das torcidas dos times mais populares do país — anda mais umbiguista do que antes. Se de fato a diferença não for estatisticamente significativa, parece que as manifestações do gênero têm sido mais visíveis. Claro, é preciso levar em consideração que estamos muito mais conectados do que antes, acessando informações e manifestando nossas opiniões em fóruns diversos com muito mais facilidade do que na era pré-internet. Ou seja, o que antes dizíamos apenas a um círculo restrito de pessoas, hoje pode se tornar um viral e chegar ao outro lado do planeta em poucas horas, com gente respondendo, concordando, discordando e tudo mais. Mas insisto no ponto: é possível avaliar se com a consolidação de uma cultura do narcisismo e do individualismo — ao menos em boa parte do Ocidente — a autorreferência do nosso olhar para o mundo aumentou nas últimas décadas?

Em outras palavras, espero não estar confundindo duas coisas:

1) que, de forma explícita ou não, nós realmente andamos mais autorreferentes do que em outros tempos; e
2) o fato de hoje em dia explicitarmos com maior frequência aquilo que pensamos (e sermos incentivados a fazer isso), ou seja, que isso é apenas mais visível do que antes, mas que sempre funcionamos mais ou menos do mesmo jeito, que é algo relativamente atemporal e universal, mudando um pouco a forma como isso é manifesto, levando em consideração diferenças culturais, de gênero, de geração, de classe social e de crença religiosa, entre outras.

Por último, tenho para mim que quanto mais conseguirmos enxergar aspectos positivos em notícias, modos de viver, pensar e agir que sejam francamente distintos das nossos (e mesmo opostos), o nosso mundinho pessoal se verá amplamente enriquecido, a despeito da angústia que esse tipo de atitude possa gerar em nós. Só espero conseguir agir de acordo e ainda por cima manter-me firme nessa trilha.

Já disseram tudo sobre Belo Monte? Posso mostrar só uma coisinha que vi por aí?

XINGÚ (sic) VIVO.
ACORDE O ÍNDIO DENTRO DE VOCÊ
RESPEITE NOSSA  CULTURA
BELO MONTE NEVER

O bom destes tempos globalizados é o cada vez mais frequente congraçamento dos povos, inclusive povos indígenas. Por isso mesmo, sejam bem-vindos ao calçadão de Copacabana, irmãos Sioux, Comanches, Apaches, Cherokees e demais povos do hemisfério norte. Então gritemos em uníssono: Belo Monte NEVER!

[P.S. Belo Monte e sua justificativa mal-ajambrada em torno de um modelo desenvolvimentista não me agradam em nada, que fique bem claro. Mas no bom espírito carioca, não resisto: perco o amigo, mas não a piada.]

E também não somos classistas

Não apoie as mãos nas portas.
Não sente no chão.
Não use viaje com mochila nas costas.
Evite acidentes, a sua segurança também depende de você.

O texto com a frase em negrito aí de cima corresponde a uma das mensagens sonoras do metrô carioca, na voz que responde pela nova identidade sonora da concessionária MetrôRio. Gostaria de dizer que simpatizo bastante com o jeito cotidiano da nova narradora, bem diferente da voz grave, pausada e atuada de antes, naquele estilo Iris Lettieri de locução que já não anda muito valorizado. Só que tenho uma dificuldade danada em dissociar a voz do conteúdo — ou em termos chicobuarqueanos, a voz do dono e o dono da voz —, fazendo com que a simpatia dê lugar a um incômodo de que quero falar há tempos.

Mas antes de entrar propriamente no assunto, convém apresentar aos que não são do Rio uns poucos dados sobre o metrô daqui. Primeiro, que ele só tem duas linhas, a 1 (General Osório-Saens Peña) e a 2 (Botafogo-Pavuna) — quadro bem distante do projeto original, que previa seis (e que parece que ficará só com quatro). A linha 1 percorre bairros da Zona Sul carioca, a parte com maior visibilidade e onde ficam as praias mais famosas, vai até o centro da cidade e termina na Tijuca, tradicional bairro de classe média. Já a linha 2 atende sobretudo ao subúrbio da cidade, área historicamente “tão” privilegiada pelo poder público quanto a periferia de São Paulo. (Adendo: não é só o poder público que pouco olha para o subúrbio. Há inúmeros cariocas que desconhecem qualquer coisa que se passe fora da já falada Zonas Sul e de parte da Zona Oeste — leia-se Barra da Tijuca —, dando a entender que esta seria uma cidade partida, felizmente um entendimento equivocado).  E para arrematar, com as últimas mudanças no traçado da linha 4 — objeto de forte manifestação contrária, incluindo ação civil pública —, a ideia de “malha” que norteia qualquer projeto metroviário parece ter ido mesmo para o brejo.

Questões “técnicas” apresentadas, deixe eu contar algumas das minhas próprias impressões sobre o metrô carioca, especialmente sobre a linha 2. Sei que é do jogo que a maioria das ações urbanísticas de monta ocorram a partir dos interesses dos grupos e áreas mais ricos. Gostaria muito que fosse diferente, mas não há sinais no horizonte de que essa dinâmica vá mudar. Só que às vezes o resultado desses interesses é tão absurdamente grotesco que não dá para fingir que se trata de algo normal e/ou aceitável. Nesse sentido, apreciem as duas imagens abaixo:

A foto da esquerda corresponde ao interior dos antigos vagões da linha 2 e a da direita aos da linha 1 (que ainda estão em uso, agora também na linha 2). Os antigos vagões que circulavam pela linha 2 correspondiam ao que se conhecia como “pré-metrô”, expressão que só posso considerar como uma piada de

péssimo gosto que os moradores da Zona Norte começaram a ouvir em 1981 e da qual só se livraram em 2002. Porque as fotos talvez não deixem claro, mas as diferenças eram gritantes: a linha 2 não passava de alguns bondes, inicialmente importados da Bélgica, que foram adaptados para rodar sobre os trilhos do metrô. Eram composições de quatro vagões, mais estreitos que os da linha 1 e de interior bem modesto, grande intervalo entre as composições e o fato de que os vagões do famigerado pré-metrô simplesmente não tinham ar-condicionado, o que em se tratando da canícula do Rio de Janeiro só pode ser encarado como um detalhe praticamente insignificante…

Mas os tempos são outros, as diferenças entre as composições das duas linhas já não existe mais e a cidade parece querer fazer valer a fama de democrática e horizontal que suas praias lhe deram… Democrática? Horizontal? Falamos da cidade que precisou sancionar uma lei vedando “… qualquer forma de discriminação em virtude de raça, sexo, cor, origem, condição social, idade, porte ou presença de deficiência e doença não contagiosa por contato social no acesso aos elevadores existentes no Município do Rio de Janeiro? Ou que outro dia mesmo andou protestando contra uma estação do metrô em Ipanema, entre outros argumentos porque “… vai aumentar o trânsito de pessoas estranhas ao bairro? Melhor paro nesses dois exemplos, caso contrário não termino este post hoje. Até porque falei, falei e aquele parágrafo lá do começo acabou abandonado, sem justificativa nenhuma. Então trato de consertar as coisas contando a vocês uma particularidade sobre essas frases. É que cinco dias na semana ouço a nova narradora de fala cotidiana pedir a mim e aos demais passageiros que não nos sentemos no chão dos vagões. Só que não falo de todos os passageiros do metrô, mas apenas os que andam na linha 2, justo aquela que circula no subúrbio do Rio. Sim, tanto texto só para dizer que os passageiros da linha 1 parecem não precisar ouvir certas mensagens “pedagógicas”, ao contrário dos que andam pelos trilhos por onde circulou o antigo pré-metrô estreito e sem ar-condicionado. É como se ao passar do um ao dois se saísse da civilização e caísse na barbárie, faltando apenas alguns feitores nas estações distribuindo chibatadas sobre a turba.

Não sei como é para você, mas para mim as palavras não são simplesmente levadas pelo vento, coisas inocentes ou mera brincadeira. E nas minhas diárias idas e vindas pelas duas linhas do metrô carioca, o que vejo ferir surda e cotidianamente não são essas palavras ditas na linha 2, mas o fato de nunca ouvi-las na linha 1.

Adendo: nos comentários, Débora Leão fez um importante comentário:

Essas mensagens tocam na Linha 1, sim. Pego o metrô todos os dias, saindo da Saens Peña, e escuto a cantilena (aliás, é “não viaje com mochila nas costas”). [Frase já devidamente corrigida]

Só fiquei com uma pulga atrás da orelha: só costumo ouvir essas mensagens na ida, ou seja, saindo da Tijuca pra Zona Sul. Na volta, saindo da civilizada Zona Sul, não lembro de ouvir nada.

Se por um lado o primeiro parágrafo bate de frente com o que escrevi, o segundo, a “pulga atrás da orelha”, o ratifica. A minha resposta foi:

Especificamente em relação à frase “não sente no chão”, entre Ipanema e Botafogo, onde salto para pegar a linha 2, nunca ouvi essa mensagem. E digamos que ela passe e eu não tive a sorte de ouvi-la em nenhum dia ao longo dos últimos dois meses. Mesmo que ela passe, suspeito que na linha 1 a frequência seja mínima… Enfim, tendo a acreditar em dois pesos e duas medidas, até por conta da histórica cisão que os da parte rica operam sobre a parte mais pobre.

Demorei muito tempo para escrever este post, por uma razão: achei por bem acumular um número suficiente de viagens no metrô para sustentar que a frase se ouvia na linha 2, mas não na linha 1. Mas devo ser preciso, especialmente depois do comentário da Débora. Embora ande de segunda a sexta-feira nas duas linhas, não o faço em toda a extensão da linha 1, só entre cinco de suas dezoito estações, e todas na Zona Sul (que por sua vez soma nove). Acrescento que ouvi a famigerada frase pela primeira vez no dia 16 de novembro, na linha 2, e ela tanto me chamou tanto a atenção que vivia esperando ouvi-la novamente. Até que, para meu espanto, percebi que ao longo destas oito semanas nunca, repito, nunca a ouvira na linha 1.

Na aldeia Tel Ilan, assim como em Nova York, Budapeste, Curitiba, Nairóbi…

Entre ele e Rachel reinava na maior parte do tempo aquele armistício tão comum entre casais depois de longos anos de casamento, depois que a briga e a ofensa e as separações temporárias já ensinaram os dois a medir com cuidado cada pisada e a contornar o campo cheio de minas sinalizadas. A rotina desse cuidado era, vista de fora, quase igual a uma mútua transigência e até deixava espaço para uma espécie de tranquila amizade, do tipo daquelas amizades que se desenvolvem às vezes entre soldados de dois exércitos inimigos que ficam frente a frente à distância de poucos metros numa longa guerra de trincheiras.

Dani Franco, aquele que no dia do seu quinquagésimo aniversário deixou Rachel Franco viúva e If’ at e Osnat órfãs. É personagem secundário da história Os que cavam (pp. 43-87), do livro Cenas da vida na aldeia, de Amós Oz.

Sabedoria impopular

Na mesa ao lado, quatro moças e um rapaz num animado burburinho pós-natalino, até que do zum-zum despontou uma fala inteligível para no mínimo quatro mesas ao redor.

“Porque se meu marido me trair, que seja por uma que ele se apaixone e que eu diga: bom, pelo menos ela é bonitona, gostosona, inteligente, bem sucedida. Já que o feladaputa resolveu esmerdalhar tudo, fez por uma melhorzinha que eu!” e as outras três “é isso mesmo!”, “tem razão, amiga!”, “também acho, mas antes ele tinha apanhar!” e hahaha e hehehe, até que o rapaz meio que atravessou o samba: “quero te enganar não, mas teu marido não vai te trair por uma melhor” e pausa, não se sabe se para que as moças aquietassem e ele virasse o centro das atenções ou se por ter percebido a trilha perigosa em que se meteu e que vai dar em beco sem saída, banco de areia movediça, precipício ou a uma combinação dos três. Fosse a razão que fosse, prosseguiu:

“Acho até que o teu marido ainda não sabe, mas ele vai querer é uma pior, menos inteligente, mais nova e imatura, que se encante por ele ou que pelo menos finja bem, que lhe babe o ovo, primeiro sem trocadilhos e depois com, e que quando o ego dele ficar satisfeito ou que ele começar a enjoar ou que a menina passe a dar trabalho, que ela acredite ou finja acreditar no tal não é com você, é comigo que ele disser pra ela. É uma dessas que ele vai querer.”

Rapaz corajoso, aquele. Ou burro. Ou com incontinência verbal e falta de superego. Ou que não gosta de hahahas e hehehes, que por sinal sumiram, ficando só um silêncio inteligível para no mínimo quatro mesas ao redor.

.

[Suspeito que seja meu último post do ano. Em 2012, roubo outras conversas e ponho por aqui.]

Adeus! Adeus! Adeus! Palavra que faz chorar, cantou Noel

A terceira pessoa da foto à esquerda chama-se dona Zilda, fundadora e coordenadora da Cooperativa dos Catadores do Complexo do Alemão (Coopcal), figura mais conhecida do que muitos possam imaginar. Fotografei na sexta-feira passada, antevéspera de Natal, e vale dizer que ninguém imaginaria dona Zilda aparecendo nela, por um motivo nada prosaico: ela recebera um telefonema no dia anterior marcando encontro em Brasília com a presidenta Dilma, era pegar a passagem e viajar. Mas dona Zilda declinou da honraria e sua razão tampouco foi prosaica: para ela era prioritário que naquela sexta estivesse presente no morro do Adeus participando de um evento com uma dezena de grupos ligados a projetos sociais no Complexo do Alemão. E como sua cooperativa fazia parte da lista…

Difícil não admirar uma atitude dessas, tenho certeza que a Dilma entenderá seus motivos e vai tornar a convidá-la para um cafezinho.

A foto que segue, onde aparece uma parte das mais de duzentas pessoas que se refestelaram com o almoço capitaneado por Júlia, fundadora do FhIO, comandando as participantes do Horizonte Gastronômico — um belíssimo projeto que me deixa com água na boca só de falar nele —, mostra em primeiro plano uma mesa com seis mulheres. Foi na cabeceira à direita que acabei almoçando, ouvindo com atenção algumas histórias contadas por aquelas senhoras, a maioria mais velha do que eu. Foram relatos comoventes, mas que naquele dia tiveram outra característica em comum: eram percebidos como passado, um passado recente, mas que mudou de maneira radical. “Quem diria que um dia eu ia almoçar aqui no Adeus, nesse clima de paz, com as minhas amigas e minha família. Nem em sonho eu imaginei isso!”, foi uma das falas de olhos úmidos que ouvi, seguida de um forte porquê: naquela área, não faz nem cinco anos, funcionavam com perversa regularidade as práticas do microondas e da desova. [Desculpem os que não sabem do que se trata, mas não vou entrar em detalhes. Deem uma "googlada" e inteirem-se, por favor.] Tão (tragicamente) perto e agora tão (esperançosamente) longe, pensei com meus botões, entre os risos francos daquelas mulheres.

E a tarde foi mesmo de alegria, cuja trabalheira de moer os ossos que só fez aumentar a satisfação de todos. Ali estavam as artesãs
do Instituto Musiva,  com seu trabalho utilizando materiais recicláveis, levando também alguns dos seus conhecidos mosaicos — há painéis em todas as estações, cada um mais bonito do que o outro, e o do Adeus é o do Noel Rosa, cujas palavras escolhi para intitular este post —; os jovens do grupo Descolando Ideias marcaram presença por lá, levando alunos de seus cursos — na foto à esquerda, alguns dos meninos da oficina de teatro —; tinha também o pessoal do CEDAPS — voltado para a promoção da saúde e envolvido também na organização de uma rede de coleta de material reciclável envolvendo todo o Complexo do Alemão — e a turma da Cooperativa Eu quero Liberdade, um grupo que admiro absurdamente pelo trabalho que realiza com egressos do sistema penal — um dos seus projetos envolve  ex-detentos (e seus familiares) oriundos do Complexo do Alemão, capacitando-os para atividades ligadas ao beneficiamento do óleo vegetal coletado nas unidades habitacionais construídas pelo PAC, vendendo-o para a refinaria de Manguinhos (produção de biodiesel) e fabricando produtos de limpeza com ele —; não posso esquecer dos meninos do projeto Bom Fruto, futuros agentes de turismo do Complexo capacitados pelo Centro Social Ceinha Rocha — figura singular na comunidade, de fala mansa e doutorado nas manhas de quem sabe fazer deliciosas limonadas com os limões mais azedos de que tenho notícia —, nem tampouco da galera do Verdejar, uma ONG tremendamente combativa e atuante na área do meio-ambiente e que capacita jovens do Complexo para ações nessa esfera.

Bom, se deixei de citar alguém creditem ao cansaço e à memória meio ruim que eu carrego, não à falta de mérito dos envolvidos. É gente que trabalha muito, com pouca visibilidade e muitas dificuldades, mas que como em toda atividade voltada para o social traz consigo toneladas de vitalidade e disposição para mudar certo tipo de realidade que sequer deveria ter existido, menos ainda se tornado tão ampla no nosso país.

Fato é que a tarde foi avançando, as atividades idem, inclusive o trabalho diário de um sol que também merece descanso, sim senhor, deitando atrás da serra e dando a senha de que é hora do povo acender suas próprias luzes. E como o que é bom dura pouco — para os que estão lendo e os que foram só assistir, porque para os que trabalharam no evento parecia nunca ter fim —, a noite na Estação do Adeus terminou com uma bela apresentação da orquestra sinfônica de Barra Mansa, tendo ao fundo as luzes de uma parte da cidade que nunca esteve muito em evidência, ao menos não nos termos de um Corcovado, do Pão de Açúcar ou das praias da Zona Sul do Rio de Janeiro.

E para terminar, vão desculpando a falta de capricho nas fotos. É que o foco estava no trabalho, não nas paisagens. Mas pelo menos agora dá para ter uma pequena ideia do que ando vivendo lá pelas bandas do Alemão. É pequena mrsmo, não contei da missa um décimo. E como não quero gastar a paciência de vocês e acabar esvaziando um assunto, um lugar e um povo que merecem a mais detida atenção de todos, melhor paro por aqui e mudo um pouco o rumo da prosa nos próximos posts.

Tomara que eu consiga.

A função psicológica do trabalho

“A história não diz respeito ao passado. A história é precisamente a transformação do passado em futuro ou o fracasso dessa transformação” 

Lev Vygotski

Ontem lembrei da minha velha dissertação de mestrado. E só compartilho essa lembrança por conta da forte inflexão que o que escrevi à época vem sofrendo, especialmente nas últimas semanas. Não vem ao caso me alongar muito em questões acadêmicas, já que (pelo menos) este blog não é o melhor lugar para isso. Basta dizer que o que desenvolvi girava em torno da noção de trabalho, em particular da categoria “sofrimento no trabalho”, sobretudo no que se refere às transformações que vêm ocorrendo nas últimas décadas, no contexto da globalização.

[Espere, não desista de ler. Talvez piore um pouquinho antes de melhorar, mas quero crer — e que você creia — que o saldo será positivo.]

Anos atrás falei um pouco sobre esse tema aqui no blog, numa série (inacabada, eu sei) que, não por acaso, intitulei Tripalium (1 e 2) — nome de um instrumento de tortura que os romanos usavam para supliciar os escravos e que se acredita ter dado origem, na língua portuguesa, à palavra “trabalho”. Foi no clima de desencanto que essa etimologia carrega, assim como de derrota diante das transformações que prometiam a diminuição do trabalho (mas resultaram em sua intensificação e precarização) que escrevi aqueles posts. E, sendo justo, ainda considero que tudo o que está ali continua válido, embora não creia mais que dê conta do que seja a atividade laboral, menos ainda quando comparado ao que ultimamente tenho visto, acompanhado e, reconheço, vivido.

Antes de dizer o que mudou, deixe eu situar algumas diferenças. Naquele tempo a principal referência que usei foram os trabalhos do psiquiatra e psicanalista Christophe Dejours, um ícone da psicodinâmica do trabalho. E foi a partir de textos como O fator humano, Psicodinâmica do trabalho e, sobretudo, do polêmico A banalização da injustiça social que analisei a questão do sofrimento psíquico no trabalho, das estratégias coletivas de defesa para lidar com a banalização do mal e da injustiça social, assim como também subscrevi a visão dejouriana de que essa banalização se sustenta muito menos na violência do que na colaboração (ou no “colaboracionismo”) e no zelo com que a maioria dos trabalhadores age ao lidar com as novas formas de organização do trabalho. (Ou seja, os trabalhadores seriam co-autores da injustiça e do verdadeiro “trabalho do mal” sofrido por eles mesmos e que regeria o cotidiano das organizações.)

Mas sempre tem um mas, e ele tem alguns nomes: Yves Clot (e sua Clínica da Atividade) e o Complexo do Alemão. Do primeiro vem o nome do post, justamente o título de um de seus livros. E o “mas” que ele representa é que para ele, diferente de Dejours, a subjetividade no trabalho não se une automaticamente ao sofrimento a respeito do qual os sujeitos podem no máximo defender-se. Para Clot, o sofrimento no trabalho deve ser considerado

como atividade contrariada e até reprimida, [...] como um desenvolvimento impedido. Trata-se então de uma amputação do poder de agir que proíbe os sujeitos de dispor de suas ações, que não os deixa transformar seu vivido em recurso de vivência de uma nova experiência. (2006, p. 9-10)

É verdade que no trabalho há conflitos insolúveis e de caráter perverso, mórbido mesmo. Mas isso não quer dizer que a única saída seja compensar as dificuldades sofridas por meio de defesas. Isso porque estas, “[...] ao fixar as proteções sobre objetivos fictícios, diminuem aqueles que trabalham”. Existe a perspectiva de reagir. E no sentido inverso das estratégias defensivas, “as reações autorizando um real desprendimento subjetivo dos conflitos do real, coloca os trabalhadores ‘uma cabeça acima deles mesmos’, segundo a expressão de Vygotski” (Clot, 2001, p.7).

Falta falar do outro “mas”, o Complexo do Alemão, mesmo que eu tenha dito no post anterior que ainda é cedo para entrar em detalhes. Reitero apenas que de segunda a sexta-feira tenho estado por lá a trabalho, e que este não é voluntário. Afirmo também que aquele conjunto de comunidades somando mais de duzentas mil pessoas tem sido um manancial de reações nos termos postos acima pelo próprio Clot. Além disso, as condições de trabalho estão longe do ideal e as relações com (e entre) os atores (governos estadual e municipal, ONGs, empresas privadas e estatais, e sobretudo moradores) são complexas, permeadas de tensões, expectativas, conflitos e frustrações, mas também de esperança, aprendizado e transformações, muitas transformações.

Costuma-se dizer que tudo falta no Alemão. O que tenho visto e vivido desmente com sobras essa afirmação. Digo isso porque por lá sobra aquilo que falta em boa parte das atividades laborais contemporâneas: sentido. Ele está presente no trabalho, nas relações entre as pessoas dentro e fora dele, no que lhe falta e nas suas possibilidades insuspeitas. E graças a ele a história tem se configurado em efetiva transformação do passado em futuro, como disse Vygotski. Mas que fique bem claro: não falo (apenas) do meu passado.

.

Referências

CLOT, Yves. Clínica do trabalho, clínica do real. Le journal des Psychologues, nº 185, março 2001.

_______ (2006). A função Psicológica do Trabalho. Petrópolis: Vozes.

.

[A foto que ilustra o post é minha, a primeira de uma série que comecei e que intitulei "O último (vagão do) metrô", brincadeira com o filme do Truffaut e alusão ao fato de todos os dias pegar o metrô em Copacabana e saltar em Del Castilho, sempre no último vagão. Uma parte dessa série está aqui, disponível para contatos no facebook.]

Os ares do Alemão

O blog tem andado às moscas, no twitter quase não pio e daqui a pouco o facebook inaugurará comigo a ferramenta dislike, é quase certo. Mas tudo por uma boa causa, da qual aos poucos darei ciência. Enquanto não adianto nada, vão aqui algumas fotos e um pequeno sobrevoo pelo Complexo do Alemão, de dentro de uma das gôndolas do teleférico, que começou a funcionar todos os dias da semana desde sábado último. Esses vídeos são de  ontem, domingo, depois de um evento ocorrido na estação Palmeiras, a última do teleférico. Mas antes, duas fotos tiradas de lá.

Pus o foco no alambrado da futura quadra poliesportiva — que como está, de terra batida, só dá para chamar mesmo de futura, embora a molecada das redondezas já esteja usando —, mas o que me interessa está no fundo, naquela estradinha subindo o morro, que dá pra ver melhor abaixo:

Não sei se você ainda não lembra que lugar é esse, então vou refrescar a sua memória:

Sim, foi essa imagem que correu o mundo no ano passado, agora você certamente lembrou. Mas te garanto uma coisa: de maneira nenhuma ela reflete o que é o Complexo do Alemão.

E não digo o Alemão do ano passado, quando a imagem passou em todo canto, mas o Alemão de sempre.

Já dei a entender que ainda não é hora de dar muitos detalhes sobre o que ando fazendo nessa área. São apenas vinte dias desde que pus os pés por lá pela primeira vez, então não passo de um gringo no samba daquelas paragens — gringo do funk nem se fala. Mas prometo, depois que cumprir alguns critérios mínimos, que vou contar mais detalhes. Os mínimos são os seguintes: assim que eu puder ciceronear razoavelmente algum dos meus amigos, que fizermos o circuito gastronômico em busca dos melhores quitutes locais — certeza que em 2012 ele sai —, que passearmos pelas áreas de mata reflorestada guiados pelas educadoras ambientais Cátia e Kelly ou pelos jovens capacitados pelo Verdejar, que apreciarmos os mosaicos das estações feitos pelas artesãs do Musiva (e os da numeração de várias casas, que vão ficar bem bonitos), que formos a uma roda de samba — desculpem, mas os bailes funk eu passo —, que assistirmos a uma sessão no CineCarioca da Nova Brasília e que eu possa apresentar os meus mais recentes amigos de infância, alguns deles parceiros de labuta com quem tenho aprendido muito mais do que ensinado. Enquanto sigo longe de alcançá-los, no máximo mostro algo como este post.

E sobre os videozins cá de baixo — por problemas técnicos seguem os links, assim que as coisas se ajeitarem nos blogs do OPS! eu ponho os próprios —, não se iludam, o que verão é apenas um trecho entre duas das cinco estações construídas dentro do Complexo — fora a primeira, que fica na estação Bonsucesso do trem. E o que mais quero agora é poder filmar e fotografar à noite. Assim que o fizer, repito a dose por aqui.
.

[Saída da estação Palmeiras]

[Quando fiquei sozinho na gôndola, deu para registrar em 360º]

Pensata de segunda

Que fique claro: não se trata de nada novo ou original. Quero apenas reiterar o que penso sobre um dos nossos modos de funcionar socialmente. Sim, falo de religião, do fato de que as promessas de redenção e de felicidade e vida eternas após a morte de boa parte das tradições religiosas sirvam acima de tudo para aplacar a angústia inerente à condição humana. E as religiões não são nada bobas: o discurso moral de que se servem é acessível a todos, justamente por operar sobre o cotidiano do homem comum, mostrando-se facilmente assimilável. Ferramentas como discursos habitualmente maniqueístas, uso de bodes expiatórios e a suposta remissão dos pecados “intermediada” por representantes de uma instância pretensamente divina também ajudam, além do fato de que boa parte dessa instrumentalização afetivo-cognitiva ocorre em grupo, em celebrações com cantos e sons que induzem ao transe, o que contribui para reforçar ainda mais as convicções religiosas individuais (tanto as que o sujeito já possuía quanto as que recém-adquiriu no próprio contexto religioso).

Dito isso, tudo o que diz respeito à religiosidade fica esclarecido? Não, não fica. Tenho para mim que de fato há mistério na dimensão religiosa, um mistério tão válido quanto aquele que move a ciência. Claro que é necessário distinguir essas duas áreas e a forma como religião e ciência lidam com elas. Enquanto a ciência reconhece que há uma imensa área escura atestando a ignorância humana sobre o universo, que o saber alcançado até o presente momento é precário e provisório, passível de reformulação à medida em que novas formulações deem conta de explicar melhor o funcionamento/sentido das coisas, boa parte das religiões sobrevive graças à  sacralização do mistério, isto é, à noção de que sobre certas coisas não se deve sequer perguntar, basta aceitá-las da forma como se apresentam e, sobretudo, aceitar o papel de intermediador das instituições religiosas. A elas não parece realmente interessar que se amplie a “área iluminada”: o terreno das sombras deve seguir como está, ameaçador, especialmente para quem estiver fora do círculo das religiões.

Eu disse que esta singela pensata era mesmo de segunda categoria, bem aquém do que certa vez consegui expressar sobre o assunto anos atrás neste mesmo blog. Falo especialmente sobre três posts:

Crença, fé e experiência religiosa (1): a psicodinâmica da crença;

Crença, fé e experiência religiosa (2): a fé; e

Crença, fé e experiência religiosa (3): o que dizer desta última?

As ideias contidas neles não são minhas e sim de Ken Wilber — em seu livro Um Deus Social: Breve Introdução a uma Sociologia Transcendental (Cultrix, 1987) —, com meu papel tendo sido apenas o de sintetizá-las. E aquela caixa com excelentes missivistas e seus comentários foi uma das que mais alegria me deu nestes anos todos de blogagem.

Perversão

Um pacto bem simples: entre os dois só a verdade, sempre, não importasse qual.

Ligou pra Lúcia, amiga de infância de Sílvia. Preciso conversar com você, pode ser às sete?, te apanho no trabalho. O primeiro chope nem pela metade e ele atacou sem dó, até ouvir aqueles Sérgio, não, para com isso largados no chão, ao lado do sutiã, meu Deus, o que foi que a gente fez!, a Sílvia não pode saber, ela nunca vai me perdoar… Ele ouviu, com ar de tudo bem, você tem razão, nem esperando ela entrar no prédio para engrenar a primeira e sumir dali, a Lúcia que se foda.

Já em casa, encostado no batente da porta do quarto: Sílvia, combinamos a verdade, pausa, sempre, pausa, foi com a Lúcia, pausa, caprichando nos detalhes sem disfarçar o gozo de vê-la murchar.

“E você, como se chama?” [Juan Eduardo Tesone - Página/12]

Ninguém escapa do nome próprio. O nome é ao mesmo tempo um direito da criança e uma instituição, a única instituição que individualiza num ato de reconhecimento, relacionada com as funções simbólicas da maternidade e da paternidade. Nomear é fazer a criança entrar na ordem das relações humanas. Escolher, dar um nome a uma criança, é doar-lhe uma história imaginária e simbólica familiar. Essa doação insere-o na continuidade de uma filiação, inscreve-o nas linhagens materna e paterna, o fio de Ariadne trans-geracional que indica a ele um caminho, mas sem traçá-lo de antemão, já que o nome faz desse sujeito um ser insubstituível que não se confunde com nenhum outro membro da linhagem.

Essa doação inclui algo de sagrado; é um bem que não pode ser dado nem vendido, é outorgado para ser guardado. Na escolha do nome da criança, primeira inscrição simbólica do ser humano, o desejo dos pais aparece em filigrana. A criança quando nasce não é tábula rasa, virgem de qualquer inscrição. Precede-o uma ante-texto que também é um inter-texto parental. O nome torna-se o traço escrito da encruzilhada do desejo dos pais. Sobre esse pré-texto, a criança inscreverá o seu próprio texto, apropriar-se-á de seu próprio nome. Então convém percorrer esse livro familiar, reconhecer esse manuscrito de letras cursivas unidas por laços que atravessam várias gerações, para permitir que o filho tome posse do seu nome próprio. Revitalizar o nosso nome é sempre uma tarefa inacabada.

No pensamento grego o destino é uma figura composta, destacando-se três aspectos: a) Moira, inflexível predeterminação de uma existência, palavras ditas de antemão sobre as quais toda a história deverá se curvar; b) Tukhé, o encontro (bom ou ruim), o acaso; c) Daimon, o personagem no interior do sujeito, ignorado por ele, que guia seus passos independente de sua vontade. O nome reúne os três aspectos; condensa a necessidade e o acaso, permite que o sujeito possa reapropriar-se do seu prenome, enriquecido pelas incertezas do acaso.

Na escolha do prenome há sempre um ato de criação, constantemente recriado na medida em que a criança toma posse do seu nome. Somente no curso desse processo o nome realmente se tornará nome próprio. Se em algum momento a criança desenvolvesse um sintoma, o prenome poderia ser tomado como um criptograma cuja decifração poderia ser útil para liberar a criança desse ponto de ancoragem necessário, sem dúvida, para a sua filiação, mas que às vezes pode amarrá-lo a uma patologia. Atribui-se um nome a uma criança, mas às vezes atribui-se uma criança a um nome.

Os elementos do sistema onomástico moderno comum no Ocidente são o sobrenome e o prenome. Não devemos esquecer que é recente o fato do sobrenome ter adquirido maior importância em nosso atual sistema. A utilização do nome começa a aparecer por volta do ano mil, sendo que apenas durante o Renascimento o seu uso estendeu-se por toda a Europa. Só então passou a prevalecer a fórmula: prenome mais sobrenome. Sem estender-nos sobre a evolução do uso do sobrenome na antroponímia moderna, convém destacar que na época (exceto no sistema romano de nominação) só havia um nome. Esse nome único correspondia, em linhas gerais, ao atual prenome, não sendo transmissível de geração a geração. Atribuía-se um nome diferente a cada criança, criado livremente por seus genitores. As motivações poderiam ser influenciadas por algum acontecimento histórico dentro da comunidade, pelas características do parto ou pelos traços da criança, pela relação com os ancestrais ou, provavelmente, pela expressão dos desejos concernentes à criança. Os nomes eram frequentemente inéditos (os homônimos eram incomuns), de forma que a criação simbólica desse nome dotava a criança de uma originalidade comparável ao patrimônio genético.

Nas sociedades ocidentais os prenomes tem tido o seu significado esmaecido, na medida em que vem sendo escolhidos a partir de uma lista pré-existente. Esse não é o caso da maioria dos povos da antiguidade ou da África tribal, onde o sentido dos nomes é relativamente transparente, pois eles são uma criação livre daqueles que o aplicam, geralmente os pais, às vezes com a contribuição do meio familiar e social.

Entretanto, penso que em nossas sociedades o sentido não desapareceu. Não falo do sentido literal dos prenomes que aparece nos dicionários. Falo das motivações pessoais dos pais e das condições mitopoéticas da escolha do prenome, que a meu ver passaram para o registro inconsciente. Antes da nossa chegada ao mundo somos precedidos e determinados por uma complexa rede de relações familiares, já que várias gerações confluem, inconscientemente, na escolha do prenome da criança.

Depois que a criança nasce, a função primordial da família é fornecer-lhe um lugar gerador de alteridade. E ao ser interpelado por  seu prenome, a criança vai se reconhecendo como ser-separado-de seus pais. Responde ao seu prenome antes de conseguir dizer “eu”.

Se desdobramos o ato de nomear em transmissão do sobrenome e escolha do prenome, não seria fundamentalmente este último que expressaria o desejo parental? Se existe uma força determinante — significante —, ela não se expressaria nas razões inconscientes de tal escolha? Um nome nunca é indiferente, implica uma série de relações entre aquele que o carrega e a fonte de onde procede. Nesse sentido, o prenome só é um nome “próprio” se estiver inserido numa história simbólica familiar e social. Na escolha do prenome há uma inscrição e uma transcrição do desejo parental. O nome é o sedimento móvel de um mito familiar em suspensão que compromete a criança. É a moldura, a fundação, a base de sua futura identidade.

No prenome, sobre-determinado, condensam-se e entrecruzam-se as cadeias associativas dos sonhos dos pais a respeito da criança que gostariam de ter. O significante do nosso nome contém, numa alquimia fundadora, o desejo de nossos pais. Sobre o ante-texto, que é também inter-texto, com sua cunha a criança imprimirá o seu próprio texto, tornando seu o seu nome próprio. J. Derrida (“Freud e a cena da escritura”) sugere pensar a vida como uma pegada com força determinante, que opera antes do ser existir como presença. Se aceitarmos essa proposta é possível conceber o prenome, que vem a ser o ante-texto, não mais como uma estátua imóvel, entalhada em pedra de forma única e definitiva, mas como uma escultura cinética cujo movimento admitirá novas orientações, assumindo diferentes formas em incessantes reformulações.

Segundo Ouaknin y Rotnemer (Le grand livre des prénoms bibliques et hébraïques, Paris, Albin Michel, 1993), o nome tem essencialmente três funções: de identificação, de filiação e de projeto. J. Clerget (Le nom et la nomination, Toulouse, ed. Erès) assinala que o ato de nomear cria um furo no Uno do narcisismo onipotente: diante do chamado da ninfa Eco, apaixonada, Narciso permanece indiferente, sem dar atenção aos seus gemidos; ser chamado não cria um furo em Narciso, que prefere morrer afogado do que responder ao chamado do seu nome.

.

* Juan Eduardo Tesone, autor de En las huellas del nombre propio (Ed. Letra Viva), que recebeu o segundo Prêmio Nacional 2011 da Secretaría de Cultura de Nación na categoria “Ensaio psicológico”. Texto extraído do trabalho “El nombre propio en la encrucijada transgeneracional”, a ser publicado no próximo número da revista Imago-Agenda.

[Y vos, ¿cómo te llamás? Página/12, 03 de novembro de 2011. Tradução: Ricardo D. Cabral]

O Lula, o SUS, a barafunda da internet e a minha promessa de parar por aqui com esse assunto

Sobre o assunto deste fim da semana:

A todos os que desejam a morte de Lula ou repetem a ladainha de que ele deve se tratar pelo SUS, meus sentimentos. É mesmo trágico ver tantos padecendo dessa metástase de preconceito e rancor que lhes privou do mínimo traço de humanidade, um mal que não há SUS nem plano de saúde que cure.

Deixei esse recado ontem no facebook, já no início da noite. Digo “já” porque o auge da “discussão” se dera bem antes, enquanto eu andava ocupado, dividido entre a leitura, os chopes e a hipnótica observação da fauna que costuma circular aos domingos na orla de Copacabana (além das compras de supermercado, meu castigo de Sísifo quase sempre dominical).

Quando escrevi isso tinha em mente o que haveria de humor (de mau gosto, mas humor) e/ou de mau-humor nos comentários a respeito do câncer do Lula, atitudes que supostamente refletiriam algum tipo de revolta contra o “político em evidência” da vez, ao mesmo tempo tratando de distingui-los das manifestações do mais puro e genuíno preconceito (especialmente de classe social). Um colega aqui do OPS, o Serbão, chegou a comentar:

Quando vejo essa reação, dá impressão que o Lula foi um ditador cruel de uma república de bananas, que quebrou o país, que rasgou a constituição…

Eu complementei:

Pois é, Serbão, também me espanto com isso. Claro que cabe fazer críticas ao político Lula e ao seu governo, do mesmo jeito que fizemos com os governos anteriores, fazemos com o atual e faremos com os próximos. Mas o ódio, o rancor desse tipo de comentário a que me referi refletem outra coisa e não pertencem à esfera da crítica política.

Algumas vozes alegam que não haveria realmente esse desejo de que o Lula morresse, e que querer que ele fosse se tratar pelo SUS era acima de tudo uma crítica ao que o ex-presidente disse em certa ocasião sobre o SUS, somada à já comentada grita costumeira contra toda sorte de político. Mas não custa lembrar, por exemplo, o fato de que não se falou nada parecido por ocasião da doença da Ruth Cardoso, mulher do FHC, nem tampouco quando o vice do Lula, José Alencar, se viu lutando contra o câncer. Por quê? Ambos não eram figuras públicas associadas a partidos, governos? Sim, mas curiosamente não carregavam a pobreza na origem. (O José Alencar enriqueceu como empresário, então parece ter “escapado”.) Há nessas manifestações o recorrente quê de “Lula, você devia era voltar ao seu lugar, que ousadia foi essa de ascender socialmente?” embolado em argumentações ditas políticas. (Políticas também são, mas na pior expressão do termo.) Em outras palavras, muito classismo, ranço e rancor, ou seja, fartas doses de preconceito travestidas de opinião política.

A propósito do assunto, o jornalista Alon Feuerwerker publicou hoje em seu blog:

A política brasileira vem perdendo certo traço característico dos tempos em que se lutava contra a ditadura. (…)

As pessoas tinham mais pudor, vergonha do que lhes ia na alma. Cuidavam de manter a boçalidade algo recolhida, para não passar vexame. Não era bonito exibir publicamente a própria estupidez.

Não chego a concordar com o post inteiro dele, mas vejo nesse trecho aí de cima o jornalista atirar no que vê e acertar no que não vê. Isso porque as reações ao meu recado no facebook — a quase totalidade concordando com ele, umas duas vozes criticando-o no conteúdo, outras poucas achando um certo exagero nele, um erro no foco —, martelaram em meus miolos um assunto nada original: a maneira como nos comportamos na internet, onde tudo é sempre muitos tons acima do que ocorre no mundo offline. (Se não tudo, quase.)

Mas por que agiríamos assim?

Bom, não sei você, mas acredito que andamos olhando demais para os efeitos e menos para o contexto em que as coisas se dão. Estou certo de que parte do problema não está propriamente no aumento do calibre dos petardos disparados, no grau zero de tolerância (ou cem de intolerância) em relação ao que quer que seja, nem na aparente incapacidade contemporânea de refletir minimamente sobre os acontecimentos antes de sair sapecando “verdades definitivas” pelas redes sociais afora, independente da faixa etária dos envolvidos.

Pensemos juntos: o preconceito que cada um traz dentro de si realmente aumentou? Ou será que o que percebemos como ampliado resulta de um momento histórico onde tudo de fato é mais explícito, manifesto — inclusive muito do que antes era entendido como íntimo e mantido na esfera privada —, mas que se combina com algumas mudanças no próprio jogo — não tanto nas “regras”, mas nos “jogadores” —, onde “times” até pouco tempo na quarta divisão subiram à primeira, e atores sociais que antes só jogavam entre si vêm-se agora forçados a conviver com outros não tão do seu agrado?

Pois agora some a esse quadro o próprio ambiente virtual. Dizer que ele é um reflexo daquilo que somos é bobo de tão óbvio. Só que esse ambiente é bastante diferente do mundo (cada vez  menos) offline. Mais digitamos do que falamos; “entramos” e “saímos” dos “lugares” se e quando quisermos; podemos recorrer ao anonimato com incomum facilidade; temos ferramentas ao alcance dos dedos (o Google, por exemplo) que potencializam as nossas ações (falas), mas que nem sempre estão disponíveis “em campo aberto”; geralmente nos sentimos fisicamente protegidos (em casa, no trabalho, na Lan House mais próxima, atrás de um smartphone ou de um tablet), distantes do ambiente onde eventuais embates se dão (aos palavrões e em caixa alta); a sensação de impunidade, essa mesma a que se atribui a existência de tanto crime — seja os no trânsito ou os de colarinho branco, só para falar de alguns —, na internet se vê elevada à enésima potência. E sem me alongar em outras tantas particularidades do mundo virtual, toda essa facilidade para transitar por qualquer lado descalibra bastante a nossa adequação aos códigos de conduta, de linguagem, às permissões habitualmente requeridas de acordo com o lugar em que se anda. Não vemos guardas de trânsito nem seguranças pedindo documentos, tíquetes ou ingressos; podemos permanecer invisíveis, apenas observando, sem prestar contas a ninguém ou pedir autorização para isso; e sequer precisamos cuidar da aparência, da adequação da vestimenta — ficando inclusive nus se for do nosso desejo. Em quantos contextos cotidianos podemos funcionar assim, tão livres de convenções sociais e sem grandes sanções caso sejamos inconvenientes? Porque até para ir a um estádio de futebol é preciso adequar-se: não é com qualquer roupa, companhia, quantidade de dinheiro ou badulaque eletrônico que se pode ir. (Corrijo: poder, pode; só não convém.) E quem fizer pouco caso dessas regras não necessariamente escritas vai descobrir de forma rápida (e quando não dolorosa) o custo de descumpri-las. Do mesmo jeito, capaz daquilo que vez ou outra dizemos numa roda de amigos regada a álcool possa ser considerado fascista, racista, classista, misógino, homofóbico e sei lá quantas outras condutas reprováveis e mesmo criminosas, mas que no contexto mais restrito em que foram ditos seu tom de piada funcione exatamente como tal, seguido de vaias e reprovações aos ofensores e de gargalhadas por parte dos ofendidos. Um último exemplo: discussões políticas, especialmente em época de eleições, onde a maneira mais carinhosa de tratar os próprios políticos é chamá-los de crápulas ou dizer “já foi tarde” e “bem feito” quando morrem ou caso adoeçam. Mas, novamente, faz toda a diferença do mundo quem diz, quando, como e em que contexto. O bate boca ao vivo entre conhecidos de hoje pode facilmente ser esquecido no próprio dia das eleições, com as partes se abraçando e dizendo “mal aê, aquele dia eu peguei pesado” ou coisa parecida. Mas na internet é diferente, nosso blog não é tão nossa casa quanto a gente gostaria, e mesmo se o que a gente escreveu certo dia foi uma infelicidade fruto de mau-humor matutino, não se sabe quantos nesse mundo poderão lê-la, e a depender do teor, acionar-nos na justiça, sim senhor. Aqui tudo está à vista de todos, amigos, inimigos ou desconhecidos, fica registrado, nem que seja em cache, e pode constituir prova contra quem escreveu. E por mais que todos saibamos disso, nos descuidamos com mais facilidade do que gostaríamos. Por isso reitero que o contexto (inclusive histórico) e as pessoas envolvidas fazem toda a diferença no significado, na dimensão e no alcance do que é dito, e a internet não é o mais amigável deles, mesmo que em tese só digamos nossas besteiras para quem faz parte da nossa lista de amigos virtuais.

E por falar em dizer, já comentei em várias ocasiões não gostar de certo tipo de selvageria que às vezes encontro na internet, menos ainda da perspectiva de me ver, inadvertidamente, funcionando (ou sendo visto funcionar) de forma parecida. Ao mesmo tempo, a barafunda do título do post também tem a sua graça e traz consigo um vigor transformador de valor incalculável, tanto que deploro a ideia de algum tipo de regulação da internet que acabe por tirar-lhe sua horizontalidade e essa frágil neutralidade que ainda conserva. Mas cá entre nós, até que seria bom se as maneiras que a gente usa em casa alheia, especialmente na de pessoas que a gente aprecia muito, daquelas casas com família grande, avós, netos e agregados incluídos, pautassem um pouco mais o nosso comportamento na internet. De minha parte estou certo de que apreciaria muito o resultado e mudaria finalmente de assunto, já que nem eu me aguento mais.

Enquanto os candidatos ao prêmio se esmeram, alguns incautos preocupam

Quem lê blog faz tempo certamente conhece a impagável série As alegrias que o Google me dá, do blogueiro iconoclasta (aposentado) Rafael Galvão. E eu mesmo homenageei esse fio do cabrunco do tanto de buscas esquisitas que uma pá de gente fez no google e que foram encaminhadas a este blog, embora saiba que o resultado nunca chegaria perto do dele. Quem sabe não vale a pena instituir um prêmio “alegrias do Rafael Galvão”?

Mas enquanto alguém não cria esse prêmio e eu nem faço uma nova lista com as bizarrices que o google traz para cá, reitero que a googlada campeã continua levando ao post que descreve a Profissão 5198-05, Profissional do sexo. (Por alguma razão que me escapa, os dados que retirei do sítio do Ministério do Trabalho e Emprego não estão mais lá, constando apenas uma versão sumária. Vá entender!) O interessante é a forma como a busca é feita. Alguns digitam o código da profissão, enquanto outros pedem a CBO de: garota de programa, garoto de programa, acompanhante, prostituta, puta, meretriz, quenga, messalina, michê e hoje, pela primeira vez, rapariga. Há também os que querem saber se a profissão é regulamentada, se assina carteira de trabalho e quais os seus direitos, mas batem com a cara na porta porque o post não trata do assunto. Enfim, a curiosidade é vasta em torno da difícil vida fácil.

Mas se de vez em quando dá para rir, em outras ocasiões aparecem algumas visitas realmente preocupantes. Hoje, por exemplo, alguém digitou: bati em minha mulher

[clique na imagem para aumentar]

Com uma pesquisa dessas não me interessa fazer piada. Começo perguntando-me o que alguém que afirma ter feito isso espera que o google lhe diga. E torço muito para que a motivação dessa busca seja um imenso sentimento de culpa, que ele siga ativo e que sirva de motivação para procurar ajuda realmente efetiva: um psicólogo, o CAPS de sua cidade (sim, a busca foi em português e veio daqui do Brasil) e afins. Aqui neste blog só encontrará mesmo a reportagem que traduzi sobre uma experiência com homens agressores na França, que foi justamente o que chamou a atenção desse que digitou dizendo-se agressor de sua mulher. Pois agora sou eu a responder: releia aquele post, inspire-se e peça ajuda efetiva e não mais ao google, antes que repita o que fez. E se for o caso, só volte aqui depois disso.

É uma ordem.

Eu era nené-em, não tinha talco…

Deu nisso zapear num sábado à noite, que por chuvoso pediu casa e preguiça. Parei num programa sobre “malditos” da MPB e do pop: Jards Macalé, Luis Melodia, Jorge Mautner, Itamar Assumpção e (o escroto, mais do que maldito) Carlos Imperial. O programa é do Nelson Motta, figura que anda em baixa para importante parte da blogosfera. (Não é para menos, seus recentes textos no Estadão, especialmente os que se aventuram pela análise da conjuntura política, são tão primários, tão do gênero neoudenista suavizado por um ar blasé Zona Sul carioca, que chegam a dar vergonha.) Convenhamos, com suas raivinhas e análises rasas ele facilita bastante a vida da blogosfera à esquerda, até mesmo aquela mais chapa branca (para a qual os problemas da gestão do MinC são irrisórios, não há nada de errado com Belo Monte e os índios que moram por aquelas bandas não passam de uns vendidos, e para quem não se pode criticar o governo porque é dar munição ao inimigo etc..). Ou seja, que vontade de tratá-lo como um Jabor ou um R. Azevedo e não dar a menor pelota para o que ele diz. (Você nunca fez isso? Bom, eu admitido que fiz, apesar de não haver nenhuma vantagem ou superioridade moral/intelectual nisso.)

O problema de darmos corda a esse tipo de vontade, a essa surdez e desdém por quaisquer opiniões emitidas por aqueles com quem não temos afinidade, é que nem sempre se trata de atitude sábia. Aos poucos nos acostumamos a dar ouvidos apenas àqueles com quem temos o hábito de concordar com frequência — e de tanto fazê-lo nem nos damos conta quando eles dizem coisas de que nem concordamos tanto assim —, sobretudo às opiniões que ratifiquem aquilo que pensamos. (Cá entre nós, fazemos isso boa parte do tempo e desde a mais tenra infância, algo que decerto só deixará de ocorrer quando decretarem a hora do nosso óbito.) Isso sem contar com o auxílio luxuoso dos filtros-bolha que cada vez restringem mais a diversidade ao nosso redor. E sem o contraditório, sem a diferença, acabamos reforçando uma versão diametralmente oposta à daquele pensamento único que tanto criticamos no passado, que justo por ser diametralmente oposta acaba sendo tão pensamento único quanto. Sério, se soubéssemos o quanto perdemos com isso veríamos como valeria a pena dedicarmos um pouquinho do nosso tempo para explorar falas, ideias e ações produzidas por pessoas de praias que não costumamos frequentar.

Todo este conversê só para dizer que foi bom, muito bom assistir ao programa do Nelson Motta, que valeu a pena desentortar o nariz para ele por conta de suas colunas reaças no Estadão e, por que não, aprender e me deliciar com algumas de suas informações sobre figuras tão importantes do nosso cenário musical. Não foi um programa erudito ou sofisticado (nem precisava), mas um bom passeio pela trajetória desses multi-artistas. Do Jorge Mautner, hoje setentão, aprendi que aos vinte e um anos ganhou um prêmio Jabuti por seu primeiro livro, Deus da Chuva e da Morte (1962). (Se já gostava da figura, passei a gostar mais.) Do Jards, do Luis e do Itamar não vi nada de que já não tivesse notícia, enquanto do Imperial valeu a pena descobrir algo além do seu propalado mau-caratismo, das pornochanchadas que dirigiu e em que atuou, e do bordão Dez! Nota dez! surgido na apuração do desfile das escolas de samba do Rio, em 1984. As imagens e a costura do texto de Nelson Motta foram redondas e belas o suficiente para me fazer esquecer dos gritos da vizinha e de sua filha, das contas a pagar na segunda-feira e dos trabalhos de alunos que ainda falta corrigir. E esqueci também da passagem do tempo, trinta, quarenta anos atrás eram hoje, a ditadura em que nasci estava de volta, gritando malditos comunistas, malditos subversivos, e estes respondiam com sambas, tropicalismo, contracultura e vanguardas que hoje tanto nos orgulham, ao menos a mim sim. Essa é a graça da história. O eterno “jovem” Nelson Motta, que hoje em dia dedica tempo demais a cometer suas conservadoras desinteligências políticas em colunas de jornal e televisão, seus revisionismos de fazer o cadáver de Bob Fields sorrir, esse moço bem mais velho do que eu produziu um programa, a partir de sua própria experiência na cena cultural das últimas décadas, e resgatou impressões, memórias e sentimentos com os quais me identifico tanto e que, ao que parece, sobrepuseram-se ao seu próprio crivo reacionário. Resumindo, vale a pena pôr nossos a priori de lado e desfrutar com gente de quem provavelmente não temos a melhor impressão. Afinal de contas, mesmo que você e eu não tenhamos nenhuma expressividade pública, é bem provável que também sejamos mal-vistos por uma pá de gente, não é?

Só um porém: no que me diz respeito, deixo claro que do Nelson Motta eu dou conta, mas do Reinaldão e do Jabor não. Falta-me desprendimento e/ou maturidade necessários para a insalubre empreitada de esmiuçar as entrelinhas dos escritos de figuras como esses dois em busca de saberes que não possuo. Como eles são um limite que não me convém cruzar, melhor buscar saberes nos escritos de outros tratantes sujeitos cuja proximidade provoque em mim menos engulho e outros tantos efeitos colaterais.

P.S. Para quem não conhece, o título do post é parte da música “Mamãe passou açúcar em mim” interpretada por Wilson Simonal e composta pelo Carlos Imperial.

Premonição

“Êi! Êi! Tem gente atravessando!”, o berro reforçado por três tapas na lataria do táxi que parou um metro à frente do sinal de pedestres e não satisfeito deu marcha-ré e por pouco não atropelou os que ainda tentavam chegar à calçada, o indignado entre eles, que à moda dos comentaristas de blog que largam palavrões e lições de moral em caixa alta e somem levando embora seu interesse nenhum em debater, já dera as costas ao veículo infrator e seguia a passos largos rumo ao corredor do shopping que o levaria à lotérica em que jogaria os números sonhados duas noites antes, certeza que agora sim o prêmio de nãoseiquantoscentos milhões seria só dele, empreitada adiada pelo giro de cento e oitenta graus sobre os próprios cascos assim que ouviu a réplica sair pela fresta do vidro do passageiro do veículo de película escura claramente em desacordo com a lei, “que é que é, aqui não tem nada dizendo que eu não posso parar!” dirigida a ele mesmo, o quase atropelado esbofeteador de táxis que agora andava a passos curtos e lentos, porque não mudara de direção e andar a passos largos de costas sem tropeçar e se esborrachar só mesmo para especialistas em moonwalk, e que a três, três e vinte, três e quarenta, agora quatro metros de distância respondeu no mesmo tom e volume do primeiro petardo, “você parou embaixo do sinal de pedestres!”, e o outro “mas não tem faixa nenhuma, cadê, cadê?!” porque a rua acabava de ser recapeada e sabe como são esses serviços da prefeitura, é uma firma para fresar o asfalto, outra para recapear, mais uma para pintar as faixas e vêm as empresas de saneamento, luz e gás para esburacar a rua horas depois do serviço pronto e ainda tapam tudo com aquele asfalto bem vagabundo que logo logo vira farelo, o que explica mas não justifica o fato da faixa de pedestres ainda não ter sido pintada, só não servia como argumento porque o sinal seguia lá, uma hora verde, outra amarelo e no momento vermelho para os carros, inclusive o táxi de vidros com película mais escura do que a lei permite e que atravessou e parou um metro à frente do sinal de pedestres e não satisfeito deu marcha-ré e levou três tapas na lataria e um esporro de um quase atropelado e indignado pedestre que agora andava de costas com passos que não eram moonwalk, um cidadão que estava com sua costumeira paciência para discutir o assunto que fosse com quem fosse meio estropeada por conta de uma infecção intestinal que o obrigara a passar a noite anterior em claro, sentado ao lado do vaso sanitário, pondo as desgraças do mundo para fora qual bebedor de ayahuasca em sua primeira vez no Santo Daime, o que explica, mas não justifica, por que em vez de insistir argumentando com o motorista de táxi sobre o quanto ele estava errado só disse “mas tem um sinal aí!” e arrematou, “e quer saber, vá, se, fo, der!” de um jeito tão alto e claro que as pessoas ao redor simplesmente congelaram diante da cena e puderam ouvir o contragolpe do taxista, “belo exemplo de educação, senhor”, tão alto e claro quanto, atingindo o atrabiliário cidadão pelas costas, levando em consideração os novos cento e oitenta graus girados e mais passos largos não mais na direção da lotérica e sim na de qualquer lugar longe daquela plateia petrificada por um “vá, se, fo, der!” que ele nunca empregara em local público e nem dirigira a taxista nenhum, mesmo aqueles que merecessem, e o contragolpe pareceu ter causado estrago, reverberando nas cócleas do iracundo somado à imagem do povo imóvel ao seu redor julgando que seu “vá, se, fo, der!” tirara-lhe a razão e entregara de bandeja ao infringente, e aquele misto de injustiça e vergonha e vontade de que a última palavra que reverberasse nas suas cócleas e nas do mundo fosse a sua e não a do transgressor fez com que desse mais meia volta, num total de quinhentos e quarenta graus em menos de sete minutos, e enquanto seguia em direção ao táxi com a intenção de bater na janela do lado do passageiro, que por conta da película em desacordo com a lei não deixava ver o motorista, esperando que ele abrisse e que pudesse surpreendê-lo, mas surpreendê-lo de verdade, com seu “voltei porque lhe devo desculpas, por mais que o senhor estivesse errado eu não tinha o direito de dirigir-lhe nenhum palavrão”, o “dirigir-lhe” mais formal e com ar entre contrito e humilde que alguém poderia dizer, mesmo que só escondesse a necessidade de restabelecer a superioridade que estava certo de ter e que o “vá, se, fo, der!” turbinado pela noite insone vomitando os males do mundo teria posto a perder, e quando o vidro escurecido finalmente começou a abrir, e ele, formal e com ar entre contrito e humilde, começou seu “voltei porque lhe…” só se ouviu pôu pôu pôu, três pipocos bem dados na boca do ex-raivoso-arrependido-em-vias-de-dizer-alguma-coisa que agora ninguém vai saber o que era, o táxi em disparada aproveitando a combinação entre sinal verde, potência do motor, pneus recauchutados dias antes e asfalto novo em folha, sem os remendos que logo viriam, ah se viriam, e as pessoas descongeladas correndo para bem longe do que sobrara do sonhador dos seis números vencedores do sorteio de hoje à noite, ou seja, o prêmio vai mesmo acumular.

Uma andorinha não faz verão, mas é mais do que uma gota no oceano

.

.

Essa obra aí de cima é a famosa O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli, que faz parte do acervo da espetacular Galleria Uffizi. Se eu já gostava desse museu e tinha uma grata lembrança do impacto que esse quadro causou em mim, em minha mulher e nos quinze japoneses, doze chineses e nove coreanos que me rodeavam, imagine agora ao saber que a Galleria acabou de inaugurar uma versão em baixo-relevo de 60 cm de altura por 93 cm de largura — o quadro original tem 172,5 cm de altura por 278,5 cm de largura —, feita em resina branca (como se pode ver nas imagens abaixo) e que permitirá a um sem-número de pessoas desfrutar obras de arte de uma maneira quase direta, com menos intermediação:


Durante a cerimônia inaugural, Antonio Quatraro, da União Italiana Cegos de Florença, Prato e Ledo, passou suas mãos pela obra por vários minutos e mostrou-se bastante emocionado:

Tudo isto parece um sonho. Para além da altíssima qualidade do produto, apreciamos este gesto, que no fundo é uma maneira de criar uma sociedade mais inclusiva.

As notícias sobre a inauguração contam que ainda falta colocar uma placa com texto em Braille para aprofundar a “leitura tátil” do trabalho, que existem outras obras em baixo-relevo no mesmo museu e que a iniciativa tende a se repetir em outros acervos espalhados pelo país.

Alguém perguntou ao senhor Antonio Quatraro se no futuro o baixo-relevo d’O Nascimento de Vênus traria as belas cores do original de Botticelli. “Trabalhar com cores não é fácil, requer encontrar o profissional adequado”, respondeu de maneira cortês. Ao que parece, quem fez a pergunta não insistiu no assunto, talvez por ter se dado conta de sua miopia na hora de formulá-la, ou por perceber que a discussão sobre a relação entre cegos e cores era assunto vasto, complexo e rico, exigindo conversa mais demorada do que a ocasião permitia.

Educação inclusiva é sobretudo para ensinar os que já estão dentro a não atrapalhar a entrada dos deixados de fora, pensei eu, incluindo-me nessa imensa maioria que enxerga, mas nem sempre vê.

Projeto de lei

A partir do meio-dia de 03-10-2011, aquele que em alguma queixa, comentário, crítica, desabafo e afins lançar mão das expressões “politicamente correto” e/ou “politicamente incorreto” terá o seu acesso à internet bloqueado por seis meses e deverá ficar no canto da sala, ajoelhado no milho, durante duas horas seguidas. (Maiores de 65 anos sofrerão penas alternativas.)

Ficam excluídos destas medidas apenas aqueles que fizerem análises mais aprofundadas sobre o uso dessas expressões.

Memória e decisões

Memória e decisões. As duas têm pelo menos uma coisa em comum, que chamarei de “graus de importância”, enquanto não me ocorre expressão melhor. E ainda bem (pelos graus de importância, não pela falta de expressão melhor). Explico. Já pensou se todos fôssemos como  Funes, o memorioso, o famoso personagem de Borges, e que, além de lembrar de tudo, nossa memória desse a mesma importância a qualquer evento, qualquer experiência que tivemos? Estou certo de que morreríamos nas primeiras horas de vida, soterrados pela profusão de informações irrelevantes, todas gritando eu, eu primeiro! E se às memórias somássemos as decisões, pior ainda. Imagine só se cada um dos nossos atos, especialmente aqueles mais banais e insignificantes, fosse, digo, tivesse que ser precedido por uma avaliação exaustiva sobre qual a melhor alternativa a seguir? (Acordei; e agora? Abro os dois olhos ao mesmo tempo ou um depois do outro? E começo por qual?) É mesmo uma dádiva darwiniana que boa parte do que fazemos sequer passe pelo crivo de nossa consciência, que muito se dê de forma quase automática. Do mesmo modo, dá para dizer que a felicidade só existe (quando existe) por conta da nossa capacidade de esquecer (e para facilitar, ponha repressão, recalque, negação e que tais no mesmo escaninho e deixe as psicologices para lá). Porque, convenhamos, acumular na cachola o que quer que seja acontece inclusive à nossa revelia, feito a poeira que segue caindo sobre as pás daquele ventilador de teto medonho que o inquilino anterior fez questão de não levar. Já esquecer é bem mais complicado, sobretudo quando se trata de eventos ruins, aqueles que funcionam como gasolina aditivada para o ressentimento. Só que esse tipo de esquecimento ainda tem sua graça, pois move boa parte da humanidade e pode até servir de mote para livros, filmes, tangos e blogs, além de engordar uma  conta bancária aqui e outra acolá (psicoterapeutas e psicanalistas inclusos). Porque o esquecimento que ocorre no dia a dia, o esquecimento das coisas miúdas, das bordas da gente, esse sim merece toda a nossa gratidão. Imagine se você lembrasse, deixe-me ver, já sei: imagine se mantivesse vivas na sua memória todas as vezes que coçou o nariz desde o primeiro dia em que coçou o nariz na vida, às três horas, vinte e um minutos e quarenta e quatro segundos daquela quarta-feira de cinzas de mil novecentos e dezoito, nos braços da parteira, porque em dezoito aposto que a maioria nascia pelas mãos de parteiras e não teria sido diferente contigo, e falo do teu hipotético nascimento em mil novecentos e dezoito, o dia em que você começou a ser você, só para  não complicar ainda mais a conversa discutindo qual seria o momento em que a gente começa a ser gente, se na concepção, se só depois da décima segunda semana de gestação ou se na hora em que damos conta de coçar o nariz no meio daquele mar de líquido amniótico, sem nem saber se aquilo foi coceira mesmo e que diabos essa palavra (e qualquer outra, inclusive palavra) quer dizer. Imagine então se cada uma dessas coçadas de nariz tivesse o mesmo peso, a mesma relevância do primeiro beijo de língua, aquele depois dos quatrocentos e noventa e sete treinos diante do espelho, das incontáveis tentativas de pegar pedras de gelo dentro de um copo, da acidez estomacal por conta das tantas laranjas chupadas. Você seria como Irineu Funes, que “sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer do trinta de abril de mil oitocentos e oitenta e dois e podia compará-las na lembrança aos veios de um livro encadernado em couro que vira somente uma vez e às linhas da espuma que um remo levantou no Rio Negro na véspera da batalha do Quebracho”. Imaginou?

Não sei dizer de você, mas eu nunca tive ou terei nem a sombra da imaginação do autor de Funes. Por outro lado, você e eu temos a sorte de igualar-nos a ele na capacidade de hierarquizar nossas memórias e decisões. (Pronto, você já pode dizer que tem algo em comum com Borges. Maravilha, não?) Essa é a razão de você não lembrar da sua mentira número setecentos e quarenta e quatro, uma das tantas que você elaborou e lançou ao vento sem maiores consequências, e de também ter esquecido o sentimento de culpa gerado por ela, que pelo visto  foi quase nenhum. É também a razão de você ainda estar aqui e não ter pulado para outro blog, outra notícia, outro vídeo e/ou outro tuite, e quando fizer nem parará para pensar que se tratou de mais uma decisão, a escolha por uma ou mais alternativas entre as tantas disponíveis. (Há também as indisponíveis, a que muitas vezes damos uma importância danada, mas falar delas agora só embolará mais a conversa, então deixemos para outra ocasião.) Por isso digo que você e eu temos sorte de hierarquizarmos lembranças e decisões, ainda mais se considerarmos que cada uma delas tem sua própria teia, entrelaça-se com outras lembranças, decisões e sentimentos de maior ou menor importância e alcance. Pois se todas tivessem o mesmo peso e ainda por cima não tivéssemos a possibilidade de esquecê-las, o inferno seria aqui, agora e na hora da nossa morte, sem amém. Acrescente só mais um dado que até agora não mencionei, o fato dessa hierarquia mudar com o passar dos anos, seja por conta do impacto de novas experiências, seja porque a gente simplesmente muda, ponto.

Mas por que mesmo me ocorreu falar de tudo isto? Ah, lembrei. A razão teve início hoje de manhã, mas vou começar a história pelo fim. Sendo assim, a menos que você já me conheça, não teria como saber que minha mulher e eu não tivemos filhos e que isso se deu por escolha nossa, há mais de uma década atrás, uma decisão em sintonia com quem somos e como pensamos. Agora pule para poucos meses atrás, quando uma amiga encontrou um gato vira-lata, filhote ainda, pediu nossa ajuda e nós, meio que no susto, resolvemos adotá-lo. Pule de novo para esta manhã, bem cedo, quando o Zé tirou a tampa do ralo do banheiro e começou a mexer com a água do fundo, do mesmo jeito que fizera ontem, e que na terceira vez que ele fez isso acabei falando de bate pronto, bastante chateado: Zé, faça o favor de colocar  essa tampa de volta!

O que o artista plástico Wim Delvoye anda fazendo da vida?

Desde que vi uma exposição do belga Wim Delvoye em Prato (Itália), em 2004, não pude deixar de associá-lo à ideia de que somos seres cada vez mais híbridos — mas um hibridismo fertilíssimo, diga-se de passagem…

Hmm, vejo que comecei meio hermético, então deixe eu tentar explicar o que quis dizer com esse tal hibridismo. É que a gente costuma aprender ainda na escola sobre hibridismo biológico, inclusive que seres híbridos, frutos do cruzamento entre raças, linhagens, variedades, espécies ou gêneros diferentes, são frequentemente estéreis. Há uma curiosidade nessa esterilidade, e é de ordem etimológica: segundo o dicionário Houaiss, embora venha do latim “ibrida“, “hibrida” ou hybrìda“, o termo provavelmente sofreu influência, por falsa aproximação literária, do grego “húbris“, que significa “excesso”, e “húbrisma“, que vem a ser “ultraje, violência”. Ou seja, a esterilidade dos híbridos decorreria uma espécie de “punição” pelo “ultraje” na “violação das leis naturais”. (E vá desculpando tantas aspas, mas seguro morreu de velho e não quero dar margem a leituras equivocadas sobre o que penso a respeito de leis naturais sendo supostamente violadas.) Pois quando digo que somos seres cada vez mais híbridos, penso nas transformações que a técnica tem produzido em nossos corpos, nas relações com o tempo, a distância, dor e prazer, entre outros. E essas transformações que listei são tributárias de engenharias mil, inclusive genética, além de robótica, microeletrônica, computação, sem falar na medicina e na farmacologia. Híbridos sim, há tempos. Mas nos dias de hoje, cada vez mais e de forma tremendamente acelerada.

A ponte do hibridismo com a obra do Delvoye me parece óbvia. Começa pelo entrelaçamento entre artes plásticas e tecnologia (de materiais, de processos fabris, de monitoramento eletrônico à distância, entre outras) numa versão que vai muito além da anódina denominação “técnica mista”. Por outro lado, o aparato tecnológico de que o artista faz uso serve para criar obras “ultrajantes”: seja pela presença frequente de elementos escatológicos nelas, seja pela “subversão” da natureza, com o artificial resultando no natural — tenham em mente a série “Cloaca” (Original, Quattro, Nº 5, Turbo, Mini Cloaca, Personal Cloaca), assim como a “Toilet” —, seja pelo teor provocador frente ao corpo — as séries “SexRays”, “Anal Kisses” e “Tim” são bons exemplos.

Reconheçamos, às vezes Delvoye parece uma dessas crianças quando tira meleca,  mostra para os pais e fica esperando a reação de nojo deles, ou então aqueles adolescentes fazendo concursos de flatos e arrotos e caindo na gargalhada. Mas uma leitura que pare por aí, reduzindo o belga a uma espécie de Jackass das artes seria muito pobre, por mais que em alguns momentos dê vontade de fazê-la. Inclusive porque, no caso de elementos religiosos, por exemplo, de clara presença em algumas de suas obras — tais como vitrais e catedrais — nem sempre são usados por ele para chocar e/ou indignar — ainda que certamente para espantar.

Mas é melhor ilustrar logo com exemplos. Como sua obra é enorme, vou escolher algumas séries. (Quem quiser ver mais é só ir ao sítio do moço e passear por todas as edificações da Sim City pessoal que ele criou para mostrar seus trabalhos.) A elas, pois.

Entre as fotografias escolho esta, da série Marble Floors:

São composições feitas de… frios. Presunto, salame, está tudo lá. Claro que a obra é exposta em fotos, mas certo é que houve um bom pepperone no meio dessa geometria aí de cima.

Da série Gothic Works escolho duas:

Trata-se de “Cupo”, uma torre feita em aço inoxidável cortado a laser, com esse retorcimento dando-lhe um quê de Escher (que o Delvoye não me escute).

.

.

A outra peça chama-se “Torre”, feita em aço também cortado a laser. A foto da esquerda mostra sua instalação no museu Peggy Guggenheim em Veneza, um lugar a meu ver perfeito para ela. (Na outra foto dá para ver seus incríveis detalhes por dentro.) Uma observação: parece até que a banalidade de alguns títulos que ele escolhe é mesmo para contrastar com a complexidade e o impacto de suas obras… “Torre”? Sério mesmo?!

A série Chantier (Canteiro de Obras) tem os mesmos elementos góticos, mas usados tanto em aço quanto em madeira. São caminhões, betoneiras, misturadores de cimento, escavadeiras, todos impressionantes e curiosos por esse jeito de peças saídas do universo Steampunk.

Ao vivo elas impactam, sem dúvida. Pena que só vi algumas de madeira. (Essa betoneira da foto.) Recomendo que cliquem no link que dá nome à série e vejam todas as peças. Algumas estão em um cenário totalmente coberto de neve. Ficou muito bonito.

Ah, faltou avisar que se clicarem nas fotos poderão vê-las em tamanho maior...

Bom, entrando de uma vez no terreno das provocações, são várias as séries. Nas primeiras linhas mencionei algumas, mas fico um pouco constrangido de colocar fotos sobre o que seja, por exemplo, a série “Anal Kisses”, embora ela seja  mais singela do que chocante, mais ainda se eu disser que a técnica envolve batom e papel (o link é este, se interessar). Outra série que comentei foi SexRays, nada menos que chapas de Raios X, algumas com “cenas de ação”. Também não tem nada de mais, embora prefira que vocês mesmos escolham as fotos que considerarem mais representativas para a série, enquanto eu ponho duas simpáticas por aqui:

.

.

.

.

.

A de cima chama-se “Lick” e a da direita chama-se “Fuck”. Como já disse, nomes banais de tão óbvios.

Mais provocações, estas por tabela dirigidas às associações de defesa dos animais, suspeito. Refiro-me à série Art Farm, em que porcos tiveram suas costas tatuadas, algumas inclusive com motivos religiosos (vejam as costas da Sylvie e do Rex, os porcos da quarta e da quinta fotos abaixo). Ao que parece houve cuidados no processo e nenhum sofrimento para os bichos, como sugere uma das fotos abaixo:

Mas não só porcos. Há uma série chamada “Tim”:

Trata-se do nome do rapaz sendo tatuado junto com um porco, o mesmo que  aparece mais tarde brincando com outros tatuados como ele.

A penúltima série que aparecerá aqui (prometo) é “Movies”. Só vi um vídeo por lá, esse que vai abaixo. Deixo para vocês verem e entenderem por si sós em que consiste. O título, “Sybille II”, não conta muita coisa. Vale dizer que a mim a melodia pareceu um pouco piegas, embora concorde que combinou com a plasticidade das cenas. (Recomendo que assistam em tela cheia.)

[Diz o artista sobre seu vídeo: "I want to portray human beings as a kind of organic living being, that's what they are actually, an organism." O que vocês dizem?]

Para terminar, um pouco da (verdadeira) escatologia do artista. Trata-se de uma de suas obras mais conhecidas, a Cloaca. Como disse no início do post, vi uma exposição bastante completa dos trabalhos de Wim Delvoye no museu de arte moderna de Prato, cidade perto de Florença. E nela havia uma sala reservada para o que era a última versão da “Cloaca”, a “Cloaca Turbo”.

E o que vem a ser esse enorme e barulhento aparelho, em parte controlado à distância pelo artista, independente do lugar em que esteja sendo exibido, e que pode ser chamado de qualquer coisa, menos de belo? Trata-se apenas de uma emulação do aparelho digestivo. Em outras palavras, essa máquina é alimentada, de preferência com vegetais (mas também com massas, pelo menos na Itália assim fizeram), e que depois de algumas horas expele matéria fecal sólida. Isso mesmo, é uma máquina que faz cocô.

Bom, tudo na obra do Wim Delvoye parece ter traços de humor e provocação. Além disso, o hibridismo entre arte e tecnologias de toda sorte também diz respeito a outros entrelaçamentos, dos quais destaco o fato de que o artista brinca constantemente com a questão do valor da arte, em termos econômicos. Sendo assim, há inúmeras peças especialmente produzidas para serem postas à venda, mas não como mera “lojinha de museu”. (A provocação está no folder abaixo, com o selo “As seen on TV”.) Encontramos desde um boneco do artista com uma miniatura da Cloaca e alguns porcos tatuados, até camisetas, livros, quebra-cabeças, óculos 3D (para fotos 3D de alguns de seus trabalhos),  incluindo rolos de papel higiênico:

Ah, claro, ele também vende, embalado a vácuo, o que a Cloaca produz. Com vocês, as “Cloaca Faeces”:

Um sujeito do século XXI, esse Delvoye. Seguirei acompanhando a sua obra, digo, o seu trabalho artístico. Ele ainda vai aprontar muito, aposto.

“O escritor isolado”, por Javier Marías (Babelia, El País)

Acredito que a maioria dos escritores tendemos a sentir-nos isolados e desejamos esse isolamento, sobretudo a partir de certa idade.  Talvez no começo não seja assim — especialmente para os que começam mais jovens. Na juventude cria-se a ilusão de pertencer a um novo grupo ou geração supostamente renovadores. Frequentemente despreza-se os escritores da geração anterior, principalmente os do próprio país ou os da própria língua. São julgados equivocados, defasados, antigos, não há nenhuma compaixão por eles e há pressa em aposentá-los. Às vezes seu valor é negado de forma injusta, sendo considerados como um tropeço na história da literatura destinado a cair logo no esquecimento. Esses jovens passam por cima de seus pais literários e frequentemente “recuperam” seus avós, a quem veem frágeis, pouco ameaçadores e a caminho da aposentadoria. Mas esta sensação de companhia e combate, de formar parte de um grupo “inovador”, não dura muito. Na hora em que um escritor deixa de olhar ao seu redor, deixa de se preocupar pelo “estado” ou pelo “futuro da literatura” em seu país ou em sua língua — descobrindo ser o que menos interessa e que além disso não é sua responsabilidade —, dedicando-se ao que lhe cabe dedicar-se, isto é, a escrever sua obra como se não houvesse nenhuma outra no mundo, nesse instante ele começa a se sentir isolado. Em parte por sua própria vontade, em parte porque não lhe resta outra opção se quiser seguir adiante com seus escritos.

Claro que não se trata apenas da famosa — e certa — solidão necessária para realizar seu ofício, de que muito se escreveu e que já não tem maior transcendência: é a forma como o romancista escolhe passar seus dias — o romancista mais do que o poeta, o dramaturgo ou mesmo o ensaísta —, da mesma maneira como outros indivíduos escolhem ou se sentem obrigados a passá-los num escritório ou numa fábrica, permanentemente acompanhados. Antes de mais nada, trata-se da necessidade que ele sente de ser quase único, de nunca mais se ver como mero membro intercambiável de uma geração ou grupo, sequer como “filho do seu tempo”. Nada incomoda mais o verdadeiro escritor do que os críticos, os professores e os jornalistas culturais empenhados em etiquetá-lo e enquadrá-lo, em estabelecer relações entre sua obra e a dos seus contemporâneos, em associá-lo a tendências a que supostamente pertenceria, ou a movimentos, a modas, a qualificá-lo como “romancista realista” ou “histórico” ou “autor literário” — essa enorme estupidez e redundância que ganhou certificado de naturalização em nossa estúpida época —, ou que cultiva a “autoficção” — mais um absurdo que prevalece hoje em dia —, ou “escritor pós-moderno” — nunca soube o que significava esse adjetivo, por sorte anda caindo em desuso. O verdadeiro escritor também fica furibundo quando buscam ou lhe atribuem um “lugar” na tradição do seu país ou de sua língua, associando-o a essa tradição ou aos velhos mestres. O escritor sabe que o país onde nasceu e a língua em que se expressa são importantes, mas secundários, algo até certo ponto acidental, casual e reversível. Sabe que Proust poderia ter existido em italiano ou em inglês, Lampedusa em espanhol ou em alemão, Thomas Mann em tcheco ou em sueco, até mesmo Cervantes em francês ou em português: sabe que a língua é só um veículo, uma ferramenta, nunca um fim em si mesmo e nem algo sagrado, de nenhuma maneira superior àqueles que a usam. Não determina nada; talvez só para os autores “ornamentais”, aqueles que em espanhol, por exemplo, parecem querer ouvir “Olé!” a cada frase castiça, primorosa e garbosa. Serve para muito pouco que o escritor compartilhe o idioma com Shakespeare ou Dante, Montaigne ou Hölderlin, Conrad ou Nabokov ou Wittgenstein. Ainda menos quando lembra que os três últimos mudaram de língua em algum momento de suas vidas e escolheram aquela em que desejavam expressar-se.

Tudo isso aborrece o escritor, e convém que o aborreça. Porque somente se trabalhar com a falsa crença de que seu livro é o único livro que existe no mundo conseguirá seguir em frente e terminá-lo. Se levanta a cabeça da máquina de escrever ou do computador  — eu ainda escrevo à máquina —, se olha para o passado ou para o futuro e ver seu trabalho reduzido a mais um nome numa interminável lista; ou se olha para o presente e se distrai preguntando a si mesmo como andarão seus colegas, o que estarão fazendo e o que terão conseguido e quanta originalidade ou profundidade há neles; ou se pensa em seus predecessores e se deixa esmagar por tudo de maravilhoso que já foi escrito e ainda se escreverá ao término de sua vacilante passagem sobre a terra, então estará perdido. Por isso o escritor precisa isolar-se enquanto escreve. Não é preciso dizer “só enquanto”. Na verdade, sabe bem que sua crença, como acabei de dizer, além de passageira é falsa. Sabe que sua obra, assim que sair de sua habitação, exposta a outros olhos e publicada, se confundirá com centenas de milhares de outras obras, uma gota no oceano que, como todas as outras, pedirá para ser atendida. Terá a sensação de, em sendo algo, ser supérflua.

Além do mais, já não cabe ao escritor a possibilidade ou o consolo de pensar na posteridade, de se refugiar num distante porvir, de confiar que o tempo faça seu misterioso trabalho de seleção e lhe avise no dia em que ele estiver presente. Pensar na posteridade sempre foi meio ridículo e bastante patético. Hoje em dia é grotesco, num tempo em que a duração das coisas vem sendo cada vez mais reduzida — e numa velocidade vertiginosa —; quando o aparecimento de um filme, uma música, um livro, transforma-os logo em “algo passado”; quando se tem a impressão de que só existe o que ainda não existe e apenas se anuncia, e que a mera existência de algo — o filme que já pode ser visto, a música que já pode ser ouvida, o livro que já pode ser lido — determina a sua obsolescência, faz dela “pretérito”. Isto já está visto, ouvido, lido; que venha agora algo novo, isto é, que ainda tenhamos que esperar. É como se a ideia de perduração pertencesse apenas a outras épocas, e essa perduração, portanto, só estivesse ao alcance daqueles que já a conseguiram — Shakespeare, Montaigne, Cervantes, inclusive Conrad e Nabokov —, no tempo em que essa ideia cabia ou era possível. Como se não fosse alcançável por nós que estamos vivos. Pensar, hoje, que seremos lembrados, disputa com esse hoje que vemos, onde tudo se torna “velho” pelo simples fato de ter sido. É incompatível com tudo o que nos cerca; é de fato grotesco, daí que o escritor de hoje em dia se sinta ainda mais isolado e fugitivo. “Na verdade, só existo enquanto escrevo”, pensa. “Isto é, enquanto ninguém me vê nem sabe o que estou fazendo. Paradoxalmente, existo somente enquanto minha tarefa e eu estamos ocultos, quando ainda não somos para o mundo. Porém, assim que aparecermos deixaremos de existir, confundindo-nos com a multidão impaciente e veloz que tudo engole, digere e excreta”.  “Publication is the auction of the mind of man”, escreveu Emily Dickinson, uma citação a que recorro com frequência: “A publicação é o leilão da mente do homem” — ou “da mente humana”, como preferirem. É o infame contato com o mundo exterior, com a multidão, com milhões de páginas parecidas com as nossas, animadas por semelhante impulso. É a obrigação de ver-nos enquadrados na tradição, seja do nosso país, da nossa língua ou de toda a história da literatura (provavelmente como nota de rodapé). É a evidência de que, longe de sermos únicos, temos muito a ver com nossos antecessores e com nossos contemporâneos: o fato de que os primeiros, a quem talvez sequer lemos,  fizeram a mesma coisa que a gente, bem antes de nós; e de que os segundos, sem nos conhecer nem saber da nossa existência, escrevem coisas incomodamente conectadas com as nossas. É o doloroso momento de aceitar que existe um Zeitgeist e que estamos involuntária e inconscientemente a seu serviço.

De vez em quando nos deparamos com um enorme lembrete sobre sermos apenas um nome somado a tantos outros formando parte de uma lista. Esta ocasião é um destes lembretes, mesmo revestida da maneira mais agradável possível. Acredito que dos prêmios que recebi (a maioria estrangeiros, raras vezes espanhóis), nunca me honraram com nenhum tão antigo como este Prêmio de Literatura Europeia do Estado Austríaco, outorgado pela primeira vez, pelo que vi em sua lista, em 1965. Nela encontro nomes que admiro não apenas desde a minha juventude — quando era só um leitor, sequer um escritor oculto —, mas que parece que tiveram tempo para alcançar a posteridade, já que em sua época ainda se admitia esse conceito: nomes como o do grande poeta Auden e o do dramaturgo Ionesco, o magnífico Italo Calvino e Simone de Beauvoir, Dürrenmatt e Manganelli. Figuras tidas como extraterrestres, em alguns casos desde a minha infância, com as que estava certo de não ter nada a ver, inalcançáveis, seja pela distância na idade, seja pela distância artística. A seguir vi outros nomes admiráveis, mas de escritores ainda vivos ou recém falecidos, que consequentemente pertencem a estes tempos confusos, desmemoriados e velozes em que nos movemos: Kundera e Rushdie, Esterházy e Lobo Antunes, Eco e Semprún, Barnes e Enquist e Magris. Alguns inclusive conheci brevemente, mas, como posso dizer, para mim foram sempre “eles”, “os outros”, aqueles a quem eu lia e de quem me sentia separado. De forma que ao receber este Prêmio de Literatura Europeia do Estado Austríaco não posso evitar sentir uma grande perplexidade (e ao mesmo tempo gratidão) ao ver o meu nome numa lista que me faz ser menos eu e existir menos. Ou talvez me faça existir um pouco mais, quem sabe como agora, quando não estou enclausurado em minha habitação, ou escondido, teclando na minha anacrônica máquina de escrever (ou “brincando em casa, feito criança, com papel”, como disse Stevenson) e onde de forma alguma posso crer que meus livros estejam isolados; quando me mostram, com benevolência e claridade que, ao contrário, goste disso ou não, eles formam parte de uma extensa e nobre corrente chamada literatura europeia.

Muito obrigado.

Javier Marías recebeu em Salzburgo, no último mês de julho, o Prêmio de Literatura Europeia do Estado Austríaco. Este foi o discurso que pronunciou durante a homenagem.

[Tradução: Ricardo Cabral. Erros de tradução, gramaticais e ortográficos: Ricardo Cabral. Original disponível aqui]

Seleção de pessoal

Escândalo: dos que ninguém nota.
Mundaréu de lágrimas para dentro: pés inchados aos domingos.
Diálogos: mudos, três vezes ao dia, até desaparecerem os sintomas.
Inveja 1: de si aos seis anos.
Inveja 2: do que aos seis anos queria de si.
Talento: moer mentiras.
Ficou: de morrer em janeiro.
Projeto: pegar a mão esquerda com a mão esquerda.
Vício: lamber envelope e não fechar.
Perdas: em caixas de sapatos, uma debaixo da cama, outra no poço do elevador.
Crença: no céu da boca.
Verdade: verdade.

“A web reconfigura nossa forma de ser em sociedade” (Antonio A. Casilli, entrevista para Le Monde)

[Entrevista com o pesquisador em sociologia Antonio Casilli (blog) — autor de Conexões digitais, rumo a uma nova sociabilidade? pela Editions du Seuil — concedida a Hubert Guillaud em 3 de setembro de 2010 e publicada em 28 de agosto de 2011. Original em francês disponível aqui]

*  *  *  *  *

InternetActu.net: Por que os computadores alcançaram um lugar tão íntimo em nossas vidas?

Antonio A. Casilli: A miniaturização dos computadores (analisada de forma notável por Daniel Bell ​​em Teletext and Technology) gerou uma reterritorialização dos mesmos, permitindo-lhes integrar gradualmente o espaço doméstico. A primeira mudança resultante dessa miniaturização diz respeito ao espaço físico. O arranjo dos imóveis, do mobiliário e dos quartos muda com a chegada deste novo aparelho que precisamos instalar, da mesma forma como antes instalamos o rádio ou a televisão. Mas não é só o espaço doméstico que é perturbado pela chegada deste equipamento: o espaço tecnológico da casa também é afetado pela chegada de um equipamento cujo conteúdo tecnológico é, por definição, mais importante que o dos outros, pois permite fazer de tudo (ouvir música, assistir filmes, jogar, comunicar-se…). Além disso eles também reconfiguraram o espaço social. Muitos pais consideraram, a partir da introdução dos primeiros computadores domésticos, ter dado um passo adiante no que se refere ao seu capital social e cultural.

Para os “filhos do computador” dos 80 anos, o computador foi a oportunidade para tornarem-se autônomos ou para ressituar seu papel na família.

O celular prolonga esse mesmo processo de miniaturização e reterritorialização. Agora o computador está um pouco mais grudado em nosso corpo, tal como os celulares esfregando-se em nossas coxas ou nos quadris perto dos bolsos onde os guardamos. Eles se tornaram um atributo da corporeidade dos usuários. Hoje em dia essa análise é banal, mas nos anos 80, em uma introdução à antologia cyberpunk  — Mozart in Mirrorshades —, Bruce Sterling antecipou isso observando os primeiros walkmans, as  primeiras lentes de contato… Nossas máquinas já estão quase em nossa pele.

InternetActu.net: Em seu livro o senhor explica que as novas tecnologias da informação e da comunicação tornaram-se uma forma de sociabilidade “suplementar”, que soma, ao invés de substituir, a sociabilidade face a face e a participação social. Porém essa afirmação ainda está longe de convencer todo mundo. Muitos acreditam que ficar pendurado ao telefone enquanto se faz compras ou usando o transporte público extinguiu as trocas que antes ocorriam nesses espaços.

Antonio A. Casilli: não escrevi este livro para convencer, mas para recentrar o debate que no momento está congelado na polarização  tecnofilia-tecnofobia. Para entender se as novas formas substituem as formas de trocas comunicativas “autênticas”, é preciso entender o que se entende por autêntico.

Vivemos em um ambiente mediado por máquinas de comunicação que alteram a forma da relação social. Agora, em seminários científicos, informações são trocadas não apenas por meio de comunicações “oficiais”, mas também através da Internet (aquilo que chamamos de backchanneling, como explica Danah Boyd – NDE), permitindo recriar formas de autenticidade comunicacional capazes de cruzar por túneis sob a nossa realidade. Trocamos e-mails, mensagens de texto, mensagens instantâneas ou tweets com impacto emocional, em tempo real, que podem ser mais importantes do que as formas mais civilizadas de comunicação real.

Essas tecnologias nos ajudam a gerenciar melhor nosso “posicionamento social”. Existe um desejo no uso dessas tecnologias que vai nessa direção, a de fazer com que nosso posicionamento primário se beneficie de uma posição de escolha.

O que está em jogo é a questão da homofilia [amizade]. Em sociologia, homofilia refere-se a um discurso determinista que diz que tendemos a associar-nos a pessoas com quem partilhamos formas de complementaridade relacionadas à linguagem, ao gênero, ao nível cultural ou à etnia… No estudo da amizade como processo social, durante muito tempo pensou-se que a amizade entre as pessoas se dava em função do gênero, de compartilhar o mesmo ambiente geográfico, social etc. Mas com a Internet conseguimos criar áreas de maior controle a respeito desse posicionamento.

Meus estudos em sociologia informática baseiam-se fortemente na análise da homofilia, visando compreender se estas características comuns influenciam na criação de laços em redes sociais como o Facebook, com o objetivo de compreender o que ocorre quando falamos de posicionamento social, de estrutura social. Inclusive criei um modelo multiagente capaz de agrupar redes de laços de amizade. O que importa observar é como se chega, independente do parâmetro usado, sempre ao mesmo resultado: o modelo mostra que a homofilia não faz parte do jogo. Ou em todo caso, seu papel é bem menor do que o das características culturais, das experiências ou dos gostos exibidos publicamente, como expliquei em uma pesquisa recente que fiz com Paola Tubaro (.pdf).

O estudo que realizei, por exemplo, com jovens blogueiros democratas durante uma cookie-party em Pasadena, mostrou inicialmente uma homofilia muito forte entre os participantes: eles tinham a mesma idade, vieram do mesmo estrato social, tinham o mesmo interesse político… No entanto, alcançavam com seus blogs um espaço público muito mais amplo. Seus posts lhes permitiam atingir segmentos da população que jamais teriam conseguido reunir em se tratando de uma sociedade tão compartimentalizada como a do sul da Califórnia.

InternetActu.net: Segundo o senhor, a criação de espaços íntimos comuns mediados por computadores é capaz de transformar as relações humanas. O senhor explica em seu livro que as novas tecnologias criam “um engajamento íntimo difuso, talvez mais subversivo e profundo do que os engajamentos militantes de outrora”. Em que medida a intimidade é mais “profunda” do que o engajamento militante de outrora?

Antonio A. Casilli: Essas tecnologias são pré-textos culturais, já que, afinal de contas, estamos falando de processos sociais e de interações sociais assistidos por computadores.

A questão do engajamento íntimo e difuso remonta aos anos 60, no momento em que começamos a misturar engajamento político e engajamento pessoal. É o nascimento do feminismo, de maio de 68 ou ainda do movimento pela autonomia operária, que retomava esses elementos concentrando-os numa militância revolucionária de esquerda que não buscava apenas fazer manifestações, mas perturbar a vida cotidiana. Não é por acaso que nesse meio de feministas, hippies, anarco-marxistas… apareceram os primeiros usos de tecnologias aplicadas à atividade militante, como na Comunity Memory, na Califórnia, entre as cyberfeministas (especialmente Donna Harraway) e junto com certos teóricos desse marxismo autônomo como Franco Berardi.

Estas novas formas de engajamento político moldaram as formas de engajamento político que conhecemos hoje, introduzindo a atenção à dimensão midiática e à projeção de desejos, expectativas e sensações… afastando-nos do engajamento clássico que consiste em sair às ruas para manifestar-se, gritar palavras de ordem e voltar para casa. Na militância clássica a vida era compartimentalizada tal como um ovo onde branco e amarelo não se misturam. O dia tinha oito horas de trabalho, oito horas de descanso e oito horas de atividade política. Hoje em dia tudo se sobrepõe.

InternetActu.net: As relações sociais mediadas pelo computador são simples? O computador filtra e modera as relações humanas, mas muitas vezes pensamos que basta desconectar-nos para recuperar o controle. O senhor diz que “As soluções tecnológicas tornam-se soluções sociais”. Tem-se a impressão de que a sociedade se dissolve por trás da tecnologia…

Antonio A. Casilli: Digo isso sobretudo para descrever o discurso de certas pessoas que nem sempre conseguem controlar sua relação com a tecnologia. A cada vez que precisam dar uma solução social para seus problemas acabam optando por uma solução tecnológica: desconectam o telefone em vez de atender.

Na verdade as coisas são mais complexas. A solução tecnológica e a solução social se sobrepõem e resultam em  confusão, como no caso da excluir alguém da lista de amigos do Facebook. Toda vez que se é deletado de uma lista de amigos, o gesto soa a ofensa pessoal, mesmo que isso possa estar relacionado a um bug ou ao redesenho de um perfil. Mas isso nos afeta, porque projetamos no dispositivo tecnológico um conjunto de desejos da ordem do social. Buscamos proximidade com o Sr. ou Sra. X, projetando-a nesse link digital.

InternetActu.net: uma relação frequentemente assimétrica…

Antonio A. Casilli: Sim, em muitas redes sociais ela pode ser assimétrica. E é uma variável a levar em consideração neste tipo de interação. Eu chamaria a atenção para esse desequilíbrio da relação de admiração ou da “microcelebridade”. Graças a este tipo de mídia, assim como na “telerrealidade” de antigamente, as pessoas estão criando nichos de celebridades, gerando uma cauda longa de relações humanas. Hoje em dia podemos ser fãs de um colega de trabalho assim como na década de 90 éramos fãs de alguma celebridade.

“A sociologia consiste em traçar
linhas imaginárias… e chamá-las de ‘estruturas’”

.

A conexão digital também levanta a questão do controle da identidade. Em que medida esse colega de quem vemos as fotos que publica no Flickr, as músicas que escuta no Deezer, os comentários que escreve no Facebook, é o colega tal como ele se mostra? Há toda uma semiótica da identidade online, como nos explica Fanny George (.pdf), que exige o domínio da encenação em si, através do jogo entre a identidade apresentada e a identidade calculada. Mas é na dialética entre identidade apresentada e a identidade calculada que se dá a questão da privacidade online. A privacidade não é um todo onde hora eu sou transparente, hora sou opaco para o outro: há camadas de transparência, algumas facetas que gosto de mostrar para algumas pessoas e facetas diferentes que gosto de mostrar a outras. É nessas relações que se dá a questão da vida privada. Conforme explicado pelo sociólogo norte-americano Irwin Altman, um pioneiro da teoria da regulação da vida privada, a clivagem vida privada/vida pública não é unívoca e definitiva, mas se dá nos pequenos detalhes entre cada relação. As crises de privacidade explodem quando aquilo que compartilhamos com X é revelado a Y.

InternetActu.net: Comparando, por exemplo, a comunidade de anoréxicas offline e online, você diz “que o grupo online é mais extremo, mais organizado, socialmente mais sólido.” Quais são os elementos que distinguem uma comunidade real de uma comunidade virtual?

Antonio A. Casilli: A diferença nas comunidades pró-ana (pró-anorexia) on-line e off-line baseia-se principalmente no fato de que esses assuntos eram comunicacionalmente inexistentes no mundo offline. Antes da Internet as relações da anoréxica com outros pacientes eram institucionalizadas, seja por estarem todos hospitalizados ou por apresentarem sintomas que os enquadravam entre aqueles com dificuldades de relacionar-se com outros. Com a web eles conseguem encontrar pessoas em situações semelhantes e são capazes de compartilhar fragmentos de experiências com elas. Estas trocas acabam criando toda uma subcultura radical em suas manifestações: troca de playlists pró-ana, produtos de consumo corrente como pastas dentais  mais eficazes para esconder os danos causados aos dentes devido aos  vômitos frequentes. A troca de informações ocorre em fóruns que servem para criar uma base de conhecimento online fundada no intercâmbio de práticas. Podemos aprender a ser bons anoréxicos ou bons bulímicos na web, inclusive com classificações e graus…

A web não dessocializa mais do que hipersocializa: ela reconfigura nossa sociedade. Para a anoréxica, durante muito tempo seu grupo, sua família e a clínica foram suas únicas referências em relação à doença. Agora, a anoréxica está em contato com outras anoréxicas. As comunidades tornam-se multidimensionais, isto é, elas têm ao mesmo tempo uma existência real e digital.

[Tradução: Ricardo Cabral. Erros na tradução: Ricardo Cabral]

Marchas contra a corrupção: sendo um pouco contra (as marchas, as críticas às marchas e as minhas próprias críticas)

Não vou fazer um apanhado do que foi escrito sobre essas marchas contra a corrupção que aconteceram no domingo passado. Há análises interessantes, críticas muito bem elaboradas e tudo o mais, só que algo me incomoda no tom um tanto quanto maniqueísta impresso nelas, como se concluíssem que quem participou delas é, forçosamente, alienado, ingênuo e/ou de direita, cínico e falso moralista pequeno burguês, entre outras possíveis belezuras.

Sei não.

Vou colar abaixo uma breve análise que prezo muito, do meu vizinho de condomínio Rodrigo Cássio, do Vistos e Escritos, cujas credenciais como professor universitário, crítico de cinema de mão cheia e doutorando em filosofia só aumentam a admiração que tenho pelo que ele costuma dizer. Ela foi posta no facebook, na página do Fabiano Camilo, também vizinho (dispersões, delírios e divagações):

A política só ocorre, de fato, em torno de um particular que visa o universal, e não em torno de um universal que submeta os particulares. Marchar ‘contra a corrupção’ tem o mesmo peso que marchar ‘pela paz’. Quem aprova os corruptos? Quem não quer a paz? É dar voltas em torno de si mesmo. Não há crítica alguma se você não particulariza o discurso e evidencia o que se dá no tecido social. Que tal uma marcha pelo BEM? Alguém estará contra nós? Se não há conflito, não há política.

Esse argumento me parece tocar na ferida, é uma crítica consistente e não vejo como desconsiderá-la. E foi seguido por uma série de comentários feitos por outras pessoas, sendo que algumas delas também costumo ler com atenção independente do tema que tratarem. Vários do Bruno Cava, outro ótimo blogueiro (Quadrado dos Loucos) de falas duras e bastante críticas de que às vezes discordo, mas que não deixo de ler. Copio dois dos seus comentários:

Existe diferença entre criticar a corrupção moralmente — algumas pessoas estão agindo errado, estão abusando, estão roubando, estão desviando — e criticar a corrupção materialmente — o sistema político-econômico está construído de modo a reproduzir e perpetuar a corrupção das instituições. A força da grande imprensa denuncista não nasce de sua moralidade superior, mas da capacidade de personificar essa corrupção estrutural, e assim escolher “alvos da vez” a seu talante, e assim usar dessa prerrogativa para se capitalizar politicamente e permanecer no poder.

E mais abaixo:

…eu só considero essa forma de mobilização, que nada tem de novo no Brasil e no mundo, não só superficial e ingênua, mas legitimadora da corrupção, que é nosso regime nada democrático, desigual e injusto, e que desvia o foco nas “sensações” fabricadas pela grande imprensa. Como no filme Tropa de Elite 2, o inimigo é outro.

Aí foi a minha vez:

Bruno, embora considere a sua análise e a do Rodrigo filosófica e politicamente consistentes e me identifique com elas, há particularidades nessas marchas contra a corrupção sobre as quais valeria a pena refletir. 1) A de Brasília, pelo que vi a com maior público, pareceu mais próxima de certos fatos políticos recentes e de seus protagonistas, o que me fez avaliá-la como menos genérica ou sem foco do que as demais. Sendo assim, colocá-la no mesmo escaninho da de SP, esse estado há décadas nas mãos de um PSDB pouco atacado pela imprensa tradicional, não me parece nem certo, nem justo; 2) há um cenário internacional onde as mobilizações têm sido a tônica, boa parte delas protagonizada por jovens (Chile, Espanha, Grécia, França, além da “primavera árabe” e da mais recente em Angola), que mesmo acontecendo por questões diversas potencialmente geram um clima contagiante por si só. Não levar esse clima em consideração e pôr tudo na conta dos movimentos de cunho moralista burguês orquestrados pela mídia tradicional tampouco me parece acertado. Nesse sentido, as palavras do @Tiago Figueiredo [um comentarista que esteve na marcha em Brasília e fez uma avaliação arguta sobre ela, além de não ter nada de ingênuo, alienado ou desconhecedor do contexto em torno dela] soam como um testemunho nem um pouco alinhado às Senhoras de Santana ou à Marcha pela Família, pecha que tem sido colada, não sem certo ar de superioridade intelectual, a todos os que participaram dessas marchas, tratados como 100% alienados, ingênuos, hipócritas e falsos moralistas legitimadores da corrupção. Como atitude política, vá lá. Mas se tratada como análise político-filosófica, peca pelo simplismo e perde pela falta de meios tons.

P.S. Não participei dessa marcha, justo porque não encontrei o foco que para mim seria necessário, mas mesmo assim vejo um traço de inquietação política em alguns dos jovens que por lá estiveram que considero válido, a despeito dos malfadados apoios que andaram recebendo.

E eu crente que este post terminaria aqui, já que fiz as considerações que julguei ausentes nas falas deles… Só que a conversa ainda não terminou, pois tanto o Bruno quanto o Rodrigo também tinham argumentos a brandir. Primeiro o Bruno:

…meu ponto é que essas últimas marchas das senhoras do turfe e de jovens descolados da classe-média não tem absolutamente nada a ver com a juventude despossuída dos países árabes, os precários e imigrantes e sem-futuro espanhóis, os subproletarizados gregos, e muito menos com a juventude altamente mobilizada há anos do movimento estudantil chileno, e que, de fato, misturam um discurso muito afinado com o efeito performativo dos enunciados de combate à corrupção, bem como gente-que-vai-na-onda-voto-na-Marina e cuja falsa apoliticidade se reflete em associações imediatas com movimentos contra tudo-o-que-está-aí, mas que, no fundo, tem horror de qualquer organização ou pauta de esquerda, no seu sentido anti-racjsta, anticapitalista, pró-reformas estruturais. A carona da grande mídia na verdade é o inverso, porque há uma afinidade enorme do discurso, do diagnóstico, e eu diria até dos investimentos e agenciamentos libidinais. Marchas bem mais promissoras, e estive em várias no primeiro semestre, foram as marchas da liberdade em 40 cidades, da maconha (as duas), contra o código florestal do transgênico Rebelo, muito impressionantemente a das vadias (!) e sobretudo, pra mim o fenômeno político mais fecundo do ano, a marcha dos bombeiros (!!).

Logo depois o Rodrigo também me respondeu:

Ricardo, concordo com você na medida em que também sinto um certo exagero na comparação do que se dá hoje com movimentos como o TFP, cuja autoconsciência conservadora não está diretamente refletida no proclamado suprapartidarismo dos jovens atuais. Mas é aí, nesse mesmo suprapartidarismo (ou no “apartidário” puro e simples, outra palavra corrente), que uma ligação indireta com o conservadorismo se impõe e me incomoda. Essa nova onda se mostraria mais ideológica do que, por exemplo, o próprio TFP, justamente porque “universaliza” o seu gesto de protesto e o transforma em uma aporia. (Ninguém poderia dizer que os que marcham contra a corrupção estão equivocados. Afinal, quem seria a favor da corrupção?) Indo um pouco além, isto me parece um grande exemplo de compreensão da política que oculta os conflitos entre as partes que efetivamente compõem a ordem social (e suas possibilidades de reordenamento), aderindo a uma visão de mundo caracterizada pelas “funcionalidades em rede”. É como se bastasse um grupo certo de bons jogadores (políticos impolutos) para ganharmos o jogo (a democracia). Estaríamos, enfim, vivendo dentro de um vídeo-game? Estaríamos na era dos administradores de um mundo-empresa? Este conservadorismo com a cara da classe média tecnologizada pode ser pior do que aquele da TFP, pois, em vez de uma autoconsciência a respeito do lugar de onde se fala, fica o auto-engano de se julgar independente de partidos políticos e ideologias. Julga-se superado também o debate que historicamente deu origem ao partidarismo (e de certo modo eles têm razão, mas o passo que dão é para trás, não para frente). Se as regras estão dadas, basta jogar. Mas política, mesmo, seria um “pensar as regras”. Modificar as regras. Propor novas regras. Bem, isso tudo para dizer que, claro, a inquietação é sempre boa e nos traz esperança. Mas estarão eles realmente inquietos, ou apenas excitados pelo “jogo”?

Claro que eu não teria como rebater todos esses argumentos, até por concordar com a maioria deles. Mas podia insistir na semente de inquietação, dirigindo-me primeiro ao Bruno:

Caríssimo Bruno, como falei no início do meu comentário, as análises que você e o Rodrigo fizeram me parecem extremamente pertinentes e inclusive me afino com elas, mas quando todas as marchas contra a corrupção ocorridas no domingo são tratadas da mesma forma e todos os seus participantes são definidos de uma maneira homogênea, penso na velha máxima do “jogar fora a água da bacia e o bebê junto”. Em linhas gerais, concordo com as análises de ambos. Como posicionamento político, idem. Mas dá para aprofundar mais esse negócio sem glorificar todas as outras marchas pelo seu apelo menos establishment e com cara de anti-mainstream e satanizar ou desqualificar integralmente a iniciativa que também deu a cara pra bater no caso dos anticorrupção. E volto a dizer, não participei e nem participaria dessas últimas marchas justo pelos motivos que você e o Rodrigo elencaram.

Depois respondi ao Rodrigo:

Rodrigo, sobre o teu último comentário, de fato amplias os questionamentos anteriores levantando questões importantes. Não tenho respostas para elas, mas se certamente há essa “excitação pelo jogo”, não dá para dizer que não haja nada de inquietação, mesmo que esta não esteja livre desse pragmatismo que se julga apolítico, metido a a-histórico, pretensamente anti-ideológico, e de reivindicações com enormes ganas de consumo puro e simples. Enfim, reitero que o fato dessas marchas terem se dado num momento histórico onde muitos tem reivindicado de maneira análoga aos belíssimos movimentos de 68, um pouquinho dessa semente de inquietação revolucionária há de haver. Embora a economia, a inclusão social e o aumento da classe C formem um cenário bem diferente daquele visto na Europa, na África e no Oriente Médio, as reações a Belo Monte, várias das marchas que o Bruno citou e organizações sociais de todo tipo dão mostras de alguma efervescência relativamente nova.
Aguardo os próximos anos.
Houve mais conversa, outros interlocutores com intervenções que valeria a pena citar, mas fico com estas para terminar logo este post e dizer que papos como estes, que me obrigam a organizar melhor meus pensamentos, rever opiniões e reformular raciocínios, sempre será um exercício dos que mais terei prazer em fazer. E sendo bem franco, tanto melhor que os interlocutores saibam mais e se exprimam melhor do que eu.

Obrigado, René Clair

Como qualquer gato, aquele não valia nem a unha da pata traseira esquerda, a mesma que o dono desistira de aparar na semana anterior por conta da trabalheira que deram as outras três. Dos quatro meses desde a chegada do bichano, três meses e três quartos resumiram-se a espirros e coceira nos olhos aliviada com litros do velho e bom colírio Moura Brasil, alternados ao soro fisiológico que a mulher usava em suas lentes de contato. É, ele sempre fora alérgico a gatos. Não, nunca tivera ideações suicidas, não que fosse de conhecimento público. Nem masoquista, que essas parafilias pedem a cafonice dos chicotes de couro, os ares de Santa Inquisição de instrumentos de tortura, umas pitadas de branding e coisas do gênero. Ou seja, nenhuma dominatrix daria bola para olhos vermelhos com coceira, espirros e catarro.

No primeiro mês a alergia se embolou com o que parecia uma gripe, que virou uma espécie de bronquite de tosse tão forte que a médica que o atendeu arqueou as sobrancelhas por cima dos óculos, tomou uns quatro metros de distância e perguntou “certeza que não é tuberculose?”, avisando que a danada virara moda de novo. Não era. Pulmões limpos, ela só mandou que se livrasse do gato. Por conta disso, assim que chegou em casa foi falando para a mulher: prepare-se, a médica falou que vão ser uns 15, 16 anos de tosse e noites mal-dormidas. (Parece que ela não achou graça.)

Tudo calmo entre meia-noite e uma e meia da madrugada, até a hora em que a maldita tosse explodiu. A musculatura ao redor dos pulmões, farta de tanto esforço, há dias vinha dando sinais de que faltava um nada para transformar aquele incômodo considerável em urros de inequívoca dor. Melhor não, pensou, vai dar ainda mais vontade de tossir, então é tratar de ser estoico e choramingar bem baixinho. Mas a tosse não entrava nesse raciocínio, daí que todos, até o gato, seguiram acordados torcendo para que seus pulmões desistissem de sair pela boca.

Com a batalha longe de acabar, tratou de poupar sua mulher e arrastou a tosse até o quarto ao lado, ajeitou três travesseiros na poltrona e ligou a tevê para fazer hora, para fazer de conta, para fazer o que fosse por não saber mais o que fazer. Inclinado para frente, a perna esquerda servindo de base para o braço que segurava sua testa enquanto a mão direita tentava sem sucesso impedir que voasse catarro para todos os lados, aos  poucos o som de balão festa esvaziando que saia de sua boca entre uma tosse e outra foi diminuindo, o suficiente para que seus olhos começassem a perceber, entre as gotículas espalhadas pela tela 32 polegadas e três das vinte e quatro prestações do carnê Casas Bahia por pagar, que era mesmo a Jeanne Moreau à sua frente, linda, rosto cem por cento uva passa e a voz tão hipnótica quanto da primeira vez que a vira, certeza que em Jules et Jim. Jeanne falando a um Mastroianni descalço, sentado de costas para a tela de uma sala de cinema vazia, sem dizer nada, como se ouvisse com atenção, e quem não ouviria Jeanne Moreau com atenção, dizendo frases que não lhe eram estranhas, a câmera voltando para Jeanne, plano americano, … Au-delà de ton visage, j’ai vu quelque chose de plus pur, de plus profond, où je me reflétais. C’est-ait moi que je voyais, dans une dimension qui comportait tout le temps qui nous reste à vivre, toutes ces années étaient là, et aussi celles que j’ai vécu sans te connaître, pour te connaître. A ce moment j’ai compris combien je t’aimais. L’émotion était si intense que mes yeux se remplirent de larmes… e Stop, diz uma outra voz, direção de Théo Angelopoulos e Cada um com seu cinema o nome do filme, os créditos dizendo que a fala de Madame Moreau saiu inteira de La Notte, do Antonioni, sabia ter ouvido aquilo antes, e a tosse senão figurante, e quem viria agora?, outra vez Mastroianni, cartaz de 8 e 1/2 em cirílico?, do Kontchalovsky, nem suspeitei, e o próximo?, o Nani Moretti, comédia, a cara dele, desse Hou Hsiao-Hsien nunca vi nada, e outros tantos episódios, seguidos de outros e de outros e de outros, salas e mais salas de cinema, vazias, cheias, desbotadas, monumentais, enfumaçadas, melancólicas, sacras, são todas sacras, e no quarto ao lado do seu, naquele quarto feito da mesma matéria escura dos cinemas, uma poltrona, três travesseiros, o corpo de um homem, um homem de respiração ampla, serena e silenciosa, no colo um gato, um gato de nome Zé, e os olhos, os quatro, fixos nos últimos créditos: merci à René Clair.

Conversas (eletrônicas) roubadas

Ele: Eu gosto de você ser completa. Explico, antes que vc pense que falo de garotas de programa que engolem e tb fazem anal. Vc sabe ser doce, divertida, ingênua, delicada, bem-humorada, criança, mas sabe dizer o que é preciso (e o que nem é tanto assim) na lata, sem mimimi ou rodeios, sem choro exagerado nem economia de palavras. Não é qualquer um.

Ela: Ô querido, que coisa bonita

Ele: a parte do anal?

Homofobia e universo “psi”: algumas considerações

O texto abaixo foi a minha contribuição para a série “Especial Homofobia” publicada pelo Coletivo Amálgama ao longo do mês de agosto. Dela faz parte o artigo que deu início à série, As entranhas da homofobia”, de Bianca Cardoso, do blog Groselha News, que foi seguido do “Casamento e homofobia: as torções do direito e os mastros da democracia”, de Pádua Fernandes, do blog O Palco e o Mundo. O terceiro, “Homofobia e transexualidade”, é da autoria de Marcelo Caetano e Xênia Mello.Se ainda não leram, leiam.

Outros dois autores que participaram do especial são blogueiros do coletivo “O Pensador Selvagem” de que tenho o privilégio de fazer parte. Trata-se de André Egg, do Um Drible nas Certezas, cujo texto anda fazendo um barulho danado, justamente por tocar num “nervo sensível” da homofobia. O título não nega: “Por que os cristãos devem defender os direitos dos homossexuais”. O outro é Fabiano Camilo, do dispersões, delírios e divagações, responsável pela série junto com Daniel Lopes (editor do Amálgama e que também tem um blog pessoal no OPS). Coube ao belíssimo artigo do Fabiano — “Dominação masculina, homofobia e afetos mutilados” — encerrar a série, um texto tão intenso e bem escrito que tratei de ler mais de uma vez do tanto que gostei.

Recomendo todos.

*  *  *

Nos idos de 1972, um psicólogo chamado George Weinberg resolveu criar um neologismo juntando dois radicais gregos– όμός (semelhante) e φόβος (medo) — para dar conta de uma determinada questão clínica. Era a estreia da palavra homofobia, entendida por Weinberg como o “medo expresso por heterossexuais de estarem em presença de homossexuais”. Embora ainda seja uma definição usual do termo, há tempos deixou de dar conta da questão. O motivo? Simples, ao alcance de quem estiver disposto a vê-lo: trata-se de uma apreciação estritamente individual e psicológica. Sendo assim, desconsidera o caráter social, cultural, pedagógico, científico, jurídico e institucional da homofobia, entre outras tantas dimensões que vão muito além do medo, da fobia, da repulsa e mesmo do ódio a homossexuais experimentado individualmente por diversos heterossexuais. (Se bem que o problema não se restringe às definições de homofobia. Há discussões sobre as limitações do próprio termo, se ele precisaria de novas ressignificações ou se valeria substituí-lo por outro que expressasse melhor a complexidade do fenômeno. Vale conferir artigo do sociólogo Rogério Junqueira que problematiza bem essa questão.)

O momento em que o termo surgiu também é significativo, especialmente em relação ao universo “psi”. Foi por essa época, mais precisamente em 1973, que a American Psychiatric Association (APA) retirou a homossexualidade de seu DSM, sigla em inglês para Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Embora esse fato tenha sido um marco de repercussão mundial, a mudança na forma como o universo “psi” passou a olhar a homossexualidade não ocorreu instantaneamente. Afinal de contas, foram catorze anos para que o diagnóstico de “homossexualidade egodistônica” também saísse do mesmo DSM. Além disso, foi só em 1990 a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade de sua Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), outra publicação de referência que também engloba transtornos mentais. (No Brasil ela deixou de ser considerada doença, distúrbio ou perversão em 1985, primeiro pelo Conselho Federal de Medicina, e apenas em 1999 pelo Conselho Federal de Psicologia). Em função desses eventos, o atual discurso da psiquiatria, da psicologia e da psicanálise até que anda afinado, embora infelizmente ainda seja comum encontrar profissionais dessas áreas com posturas patologizantes, o que só confirma o longo caminho a percorrer até o universo “psi” se tornar um bom representante da sociedade mais equânime e justa que precisamos.

E sobre o “discurso afinado” do parágrafo anterior, vale um esclarecimento. É que os dados históricos mencionados levaram a uma importante virada epistemológica (ainda em curso): o fato das homossexualidades terem deixado de ser objeto preferencial de estudo, com o foco dirigindo-se para as razões que levaram essas formas de sexualidade a serem objeto de rejeição, aversão e ódio. O jurista Daniel Borrillo tem mais a dizer:

Esse deslocamento do objeto de análise sobre a homofobia produz uma mudança tanto epistemológica quanto política. Epistemológica porque não se trata exatamente de conhecer ou compreender a origem e o funcionamento da homossexualidade, mas sim de analisar a hostilidade provocada por essa forma específica de orientação sexual. Política porque não é mais a questão homossexual, mas a homofobia que merece, a partir de agora, uma problematização particular.
Quer se trate de uma escolha de vida sexual, quer se trate de uma característica estrutural do desejo erótico por pessoas do mesmo sexo, a homossexualidade deve ser considerada tão legítima quanto a heterossexualidade. [...]
Como um atributo da personalidade, a homossexualidade deve permanecer fora do interesse interventor das instituições. Tal como a cor da pele, a opção religiosa ou a origem étnica, ela deve ser considerada um dado não pertinente na construção política do cidadão e na qualificação do sujeito de direitos. (2009, p. 16) [Grifos meus]

Essa mudança epistemológica e política surgiu a reboque dos movimentos reivindicatórios cujas lutas geraram, em boa parte dos países ocidentais, normas contra a discriminação explícita a minorias, especialmente em relação ao preconceito racial, aos direitos das mulheres e dos portadores de necessidades especiais, entre tantos. Porém, se por conta dessas normas a discriminação explícita de fato vem diminuindo — com discursos contra todo tipo de preconceito na ponta da língua da maioria —, o que se observa é que esse mesmo preconceito assumiu outras formas, tornou-se mais sutil e, consequentemente, mais difícil de combater. E no que diz respeito às minorias sexuais ainda sem leis anti-preconceito, os avanços têm sido bem mais lentos. Pior: no Brasil, cada passo na direção de uma sociedade mais tolerante e inclusiva — caso do judiciário, com o reconhecimento pelo STF da união homoafetiva como entidade familiar, e do legislativo, com a discussão da criminalização da homofobia (a passos lentos, é verdade) — parece gerar reações contrárias bastante duras. As recentes manifestações públicas do deputado Jair Bolsonaro e do pastor Silas Malafaia são um claro exemplo disso.

Manifestações desse quilate, somadas às agressões físicas e às cifras alarmantes de assassinatos de membros da comunidade LGBTT sugeririam que a homofobia aumentou nos últimos tempos. Porém, o que de fato se observa é uma maior visibilidade de crimes de ódio que existem há tempos. A grande diferença é que há cada vez mais informações, mais notícias são veiculadas sobre um tema antes tratado como inexistente. Um indicador interessante sobre esse tipo de preconceito é a pesquisa recém-publicada (julho de 2011) sobre a união estável entre homossexuais e outros temas correlatos (adoção de crianças por casais homossexuais; homossexuais ocupando cargos como médicos, policiais e professores; descobrir que um amigo é homossexual etc.). Uma primeira leitura mostra o Brasil como um país majoritariamente conservador, já que 55% dos entrevistados se mostraram contrários a união estável. Mas quando esses dados são avaliados em suas especificidades, encontramos que em diversas faixas etárias a maioria é favorável à união estável e aos demais temas envolvendo homossexuais — 51% na faixa de 30 a 39 anos; 55% na de 25 a 29 anos; e 60% na de 16 a 24 anos —, indicando que as novas gerações seriam mais tolerantes; que quanto maior escolaridade, maior aprovação; e que a maioria das mulheres também é favorável à união estável. Traçando paralelos entre alguns dados dessa pesquisa e os encontrados em outra, Juventudes e Sexualidade – UNESCO, realizada em 2001, é razoável inferir que nos últimos dez anos houve por parte dos jovens uma sensível diminuição de atitudes preconceituosas contra homossexuais.

(Pequena digressão. Em relação ao próprio sujeito, a palavra “visibilidade” reflete anseios, especialmente o de não mais precisar negar quem se é nem tampouco ser negado, anulado pelos demais por ser quem se é. Ao mesmo tempo reflete temores como o de ser posto em evidência e tornado alvo não apenas de manifestações sutis de discriminação, mas de ações inferiorizantes, desumanas, violentas, de atentados com requintes de crueldade às suas próprias vidas… Termino a digressão.)

Retornando ao universo “psi”, observamos que a despatologização das homossexualidades tem sofrido resistências, sendo que entre alguns profissionais há quem tenha manifestado as suas de maneira mais explícita. Um dos exemplos recentes e de maior repercussão foi o da psicóloga Rozângela Alves Justino, que em 24 de agosto de 2009 recebeu censura pública do Conselho Regional de Psicologia (RJ) — posteriormente ratificada pelo CFP — por infringir o código de ética da profissão ao oferecer “tratamento” para a homossexualidade, indicando com isso que a orientação sexual de caráter homoafetivo seria uma doença. Outro, anterior a ele, foi o Projeto de Lei 717/2003 apresentado à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro pelo deputado estadual Édino Fonseca, do PSC (também pastor da Assembleia de Deus), que propunha um programa estadual de “tratamento e cura” da homossexualidade a ser financiado pelo estado. O referido projeto contou com apoio tanto de grupos religiosos quanto de certo Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC). Para desagrado de ambos e em consonância com as diretrizes dos Conselhos Federais de Medicina e de Psicologia, o referido PL acabou rejeitado por trinta votos contra seis no dia 8 de dezembro de 2004.

Por mais que seja desconfortável admiti-lo, esse tipo de ação por parte de alguns profissionais do campo “psi” não deveria surpreender. Embora se espere que constituam uma categoria esclarecida em torno do assunto, trata-se de um grupo composto por pessoas do seu tempo, com suas concepções de mundo, suas ideologias, tendo suas identidades pessoais e profissionais atravessadas pela educação, pela classe social, pela origem (social, geográfica etc.) pelo gênero, pela geração, pela eventual formação religiosa, pelas relações de poder e por tantas outras instâncias e dimensões que nos fazem os humanos que somos. Consequentemente, é justo pensar que parte do grupo se sinta ameaçada pela desestabilização que as lutas em torno das políticas sexuais provocam no sistema sócio-sexual (cf. Welzer-Lang, 2009), isto é, que temam o que para eles se configura como ameaça à dominação masculina e à heteronormatividade. Talvez não houvesse gravidade se apenas sentissem e guardassem esses sentimentos para si — num equivalente da “aceitação” do homoerotismo, desde que discreto e de preferência “dentro do armário”. O nó da questão está em como tais representantes desse campo de saber-poder lidam com isso, ou seja, que discursos, práticas e “verdades” são ditas e postas em prática por eles em nome da medicina e da clínica e que só se prestam à defesa e manutenção da naturalização da heterossexualidade.

Em torno da heteronormatividade, Daniel Borrillo tem também algo a dizer:

A lembrança constante da superioridade biológica e moral dos comportamentos heterossexuais faz parte de uma estratégia política de construção da normalidade sexual. A heterossexualidade aparece, assim, como o padrão com o qual todas as outras sexualidades devem ser comparadas e medidas. É essa qualidade normativa — e o ideal que ela encarna — que constitui uma forma específica de dominação chamada heterossexismo. Este pode ser definido como a crença na existência de uma hierarquia das sexualidades, em que a heterossexualidade assume posição superior. Todas as outras formas são qualificadas, na melhor das hipóteses, como incompletas, acidentais e perversas, e na pior, como patológicas, criminosas, imorais e destruidoras da civilização. (op. cit., p. 25)

É a serviço dessa qualificação das sexualidades que boa parte dos saberes “psi” se prestou ao longo da história. E não apenas em suas práticas, mas também na produção de um saber permeado de preconceitos entranhados. Nesse sentido, coube à psicanálise um importante papel, seja como crítica ao discurso da psiquiatria, da sexologia e do aparato jurídico do século XIX acerca da sexualidade — onde a homossexualidade era marcadamente patológica, aberrante e merecedora de sanções jurídicas —, seja como ratificadora de uma heteronormatividade. Para começar, em seu artigo “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905) Freud tratou da homossexualidade como uma orientação sexual tão legítima quanto a heterossexualidade, acrescentando que

[...] a psicanálise considera [...] que a independência da escolha objetal em relação ao sexo do objeto, a liberdade de dispor igualmente de objetos masculinos e femininos, tal como observada na infância, nas condições primitivas e nas épocas pré-históricas, é a base originária da qual mediante a restrição num sentido ou noutro, desenvolvem-se tanto o tipo normal como o invertido. No sentido psicanalítico, o interesse sexual exclusivo do homem pela mulher também é também um problema que exige esclarecimento, e não uma evidência indiscutível que se possa atribuir a uma atração de base química. (Freud, 1905, s. p.). [Grifos meus]

Foi um posicionamento ousado para a época. Além disso, não perdeu sua atualidade, inscrevendo-se claramente na mudança epistemológica de que tratei em parágrafos anteriores. Para a psicanálise, ao contrário dos instintos nos animais, no ser humano a pulsão sexual não tem objeto fixo. Neste,

[...] o objeto da pulsão é diversificado, anárquico, plural e parcial; exprime-se de várias formas: oral, anal, escopofílica, vocal, sádica, masoquista, dentre outras. Com isso, Freud divorcia a sexualidade de uma estreita relação com os órgãos sexuais, passando a considerá-la como uma função abrangente em que o prazer é sua finalidade principal, sendo a reprodução uma meta secundária. Além disso, ao postular que a sexualidade vai além dos órgãos genitais, o autor leva ‘as atividades sexuais das crianças e dos pervertidos para o mesmo âmbito que o dos adultos normais’ (Ceccarelli, 2008, p. 74)

Haveria, portanto, uma disposição bissexual original em todo ser humano e só a partir do complexo de Édipo é que se constituiria a “escolha do objeto” (hétero, homo etc.). Há, porém, um ponto limitador: o fato da psicanálise restringir a noção de diferença sexual a uma única matriz binária, as oposições entre feminino/masculino, sexo/gênero, natureza/cultura e heterossexualidade/homossexualidade. Ela não comportaria, por exemplo, a experiência da transexualidade, que só poderia ser vista por um viés patológico já que nela não haveria conformidade entre sexo biológico e gênero. Esse entendimento de parte da psicanálise também é compartilhado pela sexologia e pela psiquiatria, tratando-se de “[...] uma concepção normativa seja dos sistemas de sexo-gênero, seja do dispositivo ‘diferença sexual’. Ambas estão fundadas numa matriz binária heterossexual que se converte em sistema regulador da sexualidade e da subjetividade” (Arán, 2006, p. 50) [grifos meus].

Percebe-se então que nem tudo são flores na teorização psicanalítica em torno das homossexualidades. Nos mesmos “Três ensaios…”, o pai da psicanálise discorre em uma nota de rodapé sobre a constituição da homossexualidade (masculina), dizendo que “Nos tipos invertidos pode-se quase sempre confirmar o predomínio de constituições arcaicas e mecanismos psíquicos primitivos. A vigência da escolha narcísica de objeto e a retenção da importância erótica da zona anal figuram como suas características mais essenciais” (id.) [Grifos do autor]. Estas características indicariam uma espécie de “retardamento do desenvolvimento psíquico” do sujeito homossexual, subentendendo-se que a heterossexualidade seria matriz e referência de normalidade. Embora se afirme que Freud deixou a questão da homossexualidade em aberto, durante boa parte da história desse saber ela foi “[...] mantida no quadro clínico das perversões, fixada às fases pré-genitais, pré-edípicas, pré-simbólicas ou pré-qualquer-coisa que definiriam o sujeito homossexual como alguém que carece de algo — no mínimo normalidade e moralidade” (Vale, 2008, p. 119).

Na medicina brasileira, por sua vez, temos um exemplo representativo de medicalização da sexualidade: os “experimentos com homossexuais efeminados” realizados pelo Dr. Leonídio Ribeiro, na década de 1930. Ele montou o Laboratório de Antropologia Criminal, realizando experimentos sobre identificação civil e criminal. “Em pauta [...] estavam ‘a patologia da impressão digital, os tipos sanguíneos dos índios guaranis, os biótipos criminais afro-brasileiros e as relações entre a homossexualidade masculina e o mal-funcionamento endócrino’” (ibid., p. 121) [Grifos meus]. Com auxílio da polícia, Ribeiro reuniu 195 “homossexuais profissionais” e levou-os ao seu laboratório para então fotografá-los e medi-los. Buscava encontrar alguma relação entre sua aparência física e sua sexualidade. “O alvo [...] eram os efeminados que se prostituíam. Além dos ossos, a distribuição capilar pelo corpo, púbis e cabeça constituía-se ‘num meio excelente de identificar disfunções hormonais e, assim, a homossexualidade’ ” (id.).

Há inúmeros exemplos da medicina, da sexologia, da psicologia e da psicanálise a respeito das homossexualidades, mas creio que para as pretensões deste texto estes sejam suficientes. O que verdadeiramente interessa aqui é a questão da homofobia e o lugar dos atores do campo “psi”, de seus saberes e de suas práticas. Nesse sentido, descrevi como num primeiro momento a homofobia circunscreveu-se ao sujeito psicológico e que hoje em dia essa apreciação foi (e ainda precisa ser) estendida para outros campos. Isso porque a homofobia é um fenômeno socialmente partilhado, tributário de uma cultura falocêntrica onde a o apelo à virilidade é a norma — e a violência é a maneira usual de atender a esse apelo —, fazendo com que as referidas abordagens médicas e clínicas sejam insuficientes para dar conta dela. Ao mesmo tempo essas abordagens se prestaram (e eventualmente ainda se prestam) para normatizar a sexualidade, reiterando a matriz heterossexual e reprodutiva e, consequentemente, “psiquiatrizando” o prazer dito perverso, do qual a homossexualidade seria “o centro organizador do discurso sobre o desvio sexual” (Lanteri-Laura apud Arán, op. cit. p. 52).

Dentro desse quadro, como os integrantes do universo “psi” deveriam agir em relação à homofobia? Pelo apresentado até o momento fica evidente não haver somente uma resposta, seja pela própria diversidade do universo “psi”, seja pelo caráter plural e polissêmico do termo. Mas algumas questões podem ser levantadas, começando por uma reiteração incessante e inequívoca da despatologização das homossexualidades inaugurada a partir de sua retirada do DSM e do CID. Outro ponto seria evitar patologização da própria homofobia, ou ao menos evitar lidar com ela exclusivamente nesses termos. Não que os comportamentos homofóbicos estejam totalmente livres de dimensões patológicas, mas objetivar a homofobia meramente como doença é insistir num embate estéril onde um lado trata de atribuir ao outro o rótulo de doente por meio de discursos medicalizados. Espera-se também que os profissionais “psi” mantenham-se sempre críticos em relação as suas próprias práticas e a sua produção teórica. Quanto às práticas, convém esvaziar o lugar parametrizador que sempre lhes coube a respeito do tema, um papel que se presta tanto à re-patologização das homossexualidades quanto à (hetero)normatização. (Por isso atenção, profissionais “psi”, pensem quinze vezes antes de aceitar o papel de especialistas em programas de televisão, combinado?)

Sobre as formulações teóricas, tenho um claro porém. Ele diz respeito às pesquisas que ainda insistem em encontrar as “causas naturais” das homossexualidades, num claro retrocesso em relação à mudança epistemológica de que falei anteriormente. Ocorre que tentar legitimar as identidades homossexuais, bissexuais e transgêneros por meio de pesquisas que busquem diferenças genéticas, hormonais, na morfologia do cérebro e que tais, não garante a diminuição da discriminação nem o fim das fronteiras jurídicas que hoje existem entre as sexualidades. Arrisco a dizer que o contrário é mais provável. Insistir no caminho do essencialismo biológico é desconsiderar que há razões éticas suficientemente sólidas para se exigir o devido reconhecimento da diversidade sexual e de gênero. Além disso, se o histórico sobre a discriminação das homossexualidades se caracterizou pela hierarquia – com a masculinidade hegemônica no topo – e pela normatividade, atualmente há outro mais “moderno”: por mais surpreendente que pareça, trata-se justamente daquele que afirma a diversidade das sexualidades. Não se trata mais de afirmar a superioridade heterossexual, mas de defender e “proteger” a diversidade. Graças a esse mecanismo político, ao mesmo tempo em que as manifestações homofóbicas mais explícitas e violentas passam a ser coibidas, a afirmação da diversidade “[...] torna possível retirar gays e lésbicas do direito comum (universal) e inscrevê-los em um regime de exceção (particular)” (Borrillo, op. cit., p. 32). Essa lógica diferencialista já serviu para impedir que as mulheres votassem e que negros tivessem os mesmos direitos que brancos. É a mesma lógica que concede alguns direitos aos não heterossexuais, mas nunca a igualdade de direitos, já que as diferenças exigiriam um regime jurídico igualmente diferenciado.

A criminalização da homofobia será um importante passo para coibir os alarmantes índices de violência que mancham a imagem de um país como o Brasil, dito tolerante. Mas a repressão não basta. É preciso prevenção, o que implica em ações pedagógicas. Se a invisibilidade resulta em desconhecimento ou indiferença diante do tema, é preciso torná-lo visível, começando pelo questionamento da ordem heterossexista, essa mesma que se reafirma a cada atitude preconceituosa que infra-humaniza quem não corresponda a certas expectativas quanto ao gênero. Em outras palavras, são necessárias ações pedagógicas envolvendo famílias, escola, instituições e, porque não, toda sorte de profissionais que detêm algum poder de influência sobre a questão, caso de representantes dos poderes legislativo, executivo e judiciário, assim como também os profissionais da saúde, verdadeiras autoridades aos olhos do público leigo. Nesse sentido, ao menos em relação aos psicólogos há muito sendo feito a favor do combate à homofobia e contra a (re-)patologização das homossexualidades. A Resolução 001/99 do Conselho Federal de Psicologia, de 22 de março de 1999, por exemplo, foi a primeira regulamentação em defesa da livre orientação sexual a ser publicada entre todos os conselhos profissionais do país, estabelecendo normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual, determinando em quatro dos seus seis artigos que:

1) “os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão notadamente aqueles que disciplinam a não discriminação e a promoção e bem-estar das pessoas e da humanidade”; 2) “[...] deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas”; 3) “[...] não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados”; 4) “[...] não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica”, além de um parágrafo único que veta a colaboração dos psicólogos “[...] com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”.

Além dessa resolução, o Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP SP) lançou em maio deste ano um manifesto em apoio à Campanha Internacional Stop Trans Pathologization-2012, pela despatologização das identidades trans (travestis, transexuais e transgêneros) e a sua retirada dos catálogos de doenças (o DSM e a CID). Trata-se de uma ampliação do debate em torno das homossexualidades, já que travestis, transexuais e transgêneros seguem enquadrados na categoria psicopatológica “transtornos da identidade sexual”, além de serem as vítimas preferenciais das formas mais violentas de discriminação homofóbica, ao mesmo tempo em que são as mais invisíveis aos olhos do restante da sociedade. Esse tipo de manifesto se dirige não apenas ao público em geral, mas aos próprios psicólogos. Como profissionais do campo “psi”, precisam submeter-se a ações pedagógicas para que deixem de ratificar a heteronormatividade e repremir os que se desviam dela. Que venham mais iniciativas como essa. Nós, psicólogos, agradecemos.

___________

Referências

ARÁN, Márcia. A transexualidade e a gramática normativa do sistema sexo-gênero. Ágora (Rio de Janeiro) v. IX n. 1 jan/jun 2006 49-63.
BEZERRA JÚNIOR, Benilton. O desgaste de um conceito. Jornal Folha de SP, Caderno MAIS!, 3 de Dezembro de 1995.
BORRILLO, Daniel. A homofobia. In: LIONÇO, Tatiana e DINIZ, Debora (orgs). Homofobia & Educação: um desafio ao silêncio. Brasília: LetrasLivres : EdUnB, 2009.
CARRARA, Sérgio; VIANNA, Adriana R. B. “Tá lá o corpo estendido no chão…”: a violência letal contra travestis no município do Rio de Janeiro. Physis: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 16(2):233-249, 2006.
CECCARELLI, Paulo Roberto. A invenção da homossexualidade. Revista Bagoas, n° 2, 2008, p. 71-93.
FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
LACERDA, Marcos, PEREIRA, Cícero; CAMINO, Leoncio. Um Estudo sobre as Formas de Preconceito contra Homossexuais na Perspectiva das Representações Sociais. Psicologia: Reflexão e Crítica, 2002, 15(1), p. 165-178.
LIONÇO, Tatiana e DINIZ, Debora (orgs). Homofobia & Educação: um desafio ao silêncio. Brasília: LetrasLivres : EdUnB, 2009.
MARQUES, Luciana Pereira. As homossexualidades na psicanálise. Trivium – Estudos Interdisciplinares, ano II, edição II, 2010, p. 467-84.
PEREIRA, Cícero .R. et al. Preconceito contra homossexuais e representações sociais da homossexualidade em seminaristas católicos e evangélicos. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Jan-Mar 2011, Vol. 27 n. 1, pp. 73-82.
VALE, Alexandre F. C. Antropologia e sexualidade: por um descentramento da enunciação científica. Revista Bagoas, n° 2, 2008, p. 115-132.
VIEIRA, Luciana Leila Fontes. As múltiplas faces da homossexualidade na obra freudiana. Revista Mal-estar e Subjetividade, Fortaleza, Vol. IX, Nº 2, p. 487-525 – jun/2009
WELZER-LANG, DANIEL. A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia. Estudos Feministas, v. 9, nº 2(2001), p. 460-82.

Sugestões de leitura

Antes dos livros referenciados abaixo, recomendo um post do blog InQuIeTuDiNe, de Érika Pretes (advogada, militante do movimento LGBT e pesquisadora de direitos humanos) intitulado “Gay? Eu?”.

BORRILLO, Daniel. Homofobia: história e crítica de um preconceito. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.
COSTA, Jurandir Freire. A Inocência e o Vício: Ensaios Sobre o Homoerotismo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1992.
_______. A Face e o Verso: Estudos Sobre o Homoerotismo II. São Paulo: Escuta, 1995.
LIONÇO, Tatiana e DINIZ, Debora (orgs). Homofobia & Educação: um desafio ao silêncio. Brasília: LetrasLivres : EdUnB, 2009.

Texto para o “Especial sobre Homofobia” do Coletivo Amálgama

Homofobia e universo “psi”: algumas considerações é um daqueles textos longos e cheios de referências bibliográficas que de vez em quando eu teimo em colocar online. Por isso vá lá ver o produto da minha teimosia, finja que leu tudo e diga no twitter, no facebook, no google+, no buzz e no google reader que gostou mais ou menos, mas gostou.

Uma desilusão às segundas

Durante anos te convenceram deles serem apenas razão, que sua perspectiva era a de uma lógica pura, desprendida de emoções.

Te enganaram.

Desprendidos de emoções uma ova. De uma vez por todas: o que todo e qualquer sujeito nascido no planeta Vulcano tem é, sobretudo, um inequívoco, imensurável e interminável tédio.

Sabe aqueles chaveiros vendidos em postos de gasolina de beira de estrada, aqueles com uma mancha preta com os dizeres “se você me enxergar nunca mais deixará de me ver” ou coisa parecida? É a mesma coisa. Por isso não insista, não adianta mais. A partir de agora é tédio, e dos grandes.

Pronto, agora pode voltar para sua programação normal.

Gigante vermelha

Abriu os olhos devagar, recolhendo as pálpebras numa delicadeza só. Quase um gato angorá, só faltava ronronar. E o jeito de se espreguiçar? Pareceu coisa de método Stanislavski ou exercício de terapia corporal, primeira vez daquele jeito. A vida toda pulara da cama de supetão na pressa de pagar alguma dívida com o mundo, como se não existisse o lusco-fusco do amanhecer e a noite virasse dia feito aqueles desenhos animados onde o sol acende do nada, que nem lâmpada de duzentos watts daquelas difíceis de achar nas elétricas do bairro de Benfica. E que banho, que banho! Um tal de cantar alto, rir sozinho, fez questão de usar uma das buchas que a mulher costumava comprar na feira e ele sempre deixara mofar no chuveiro. Lavou atrás das orelhas, quase sempre um sebo só; e deixou o creme rinse no cabelo o tempo recomendado no rótulo, ele que nem de usar paciência tinha — deixa pra lá, vai cair mesmo, achava. Foi de cotonete até no umbigo enxugando-se com um capricho danado, admitindo estar mais do que na hora das costas e dos dedos dos pés verem toalha, nem que fosse pela última vez.

Pequenas mudanças, na hora ninguém estranhou. Ao calçar os sapatos amarrou o cadarço do pé esquerdo antes do habitual direito. Disse à mãe que a amava e apertou-lhe carinhosamente as bochechas, moleque que só, seguido de um selinho em Valdomira, a esposa, beliscando-lhe a bunda e ouvindo um para com isso! dengoso. Comentaram dele ter cumprimentado a vizinha do cento e dois (a jararaca) de quem sempre se queixara, e de dar os parabéns ao porteiro pela vitória do seu desafeto Vasco da Gama. Também de estranhar foi não ter ligado da dona Ermínia boliná-lo na van, coisa que sempre o deixara consideravelmente puto, ou do motorista passar de novo do seu ponto e parar dois adiante, ali na Candelária, bem em frente ao Centro Cultural. Mas não foi tudo, nem de longe. Vê-lo entrar na antiga Catedral, fazer o sinal da cruz e rezar contrito, ele que jurara não querer papo com religião depois da morte da irmã caçula, leucemia aos nove, sofreu muito a pobre, isso sim foi de assustar. Ao sair foi num pulo à Rua da Alfândega bater o ponto do meio-expediente que dava no escritório de contabilidade. Passou antes numa loja de roupas e saiu de lá com uma sunga nova, devidamente guardada na pasta a tiracolo. E o que dizer do tamanho prazer de trabalhar, afinco incomum que contaminou seus pares com uma joie de vivre jamais vista nos anais daquela firma onde funcionário algum aguentava trabalhar mais do que nove meses sem parir uma úlcera? Qualquer observador marejaria ao perceber aquelas paredes branco-gelo, camadas sobre camadas engordando rodapés, depressões, rancores e indiferença obrigadas a capitular de uma hora para a outra diante de tantos assovios, sorrisos e tapinhas nas costas dele, sem quê nem para quê. Aliás, de um desses quês os colegas de escritório sabiam sim. É que dele viera o antídoto, a anti-cizânia, daí as palmas merecidas. Mas não parou por ali. Ao sair do já saudoso ambiente-família que se instalara na firma, seguiu para o consultório do doutor Ivo apanhar o resultado do check-up anual. E no meio do caminho deu de olhar para o céu e sorrir-lhe, algo que só lembrava ter feito ainda criança, ensopado de chuva vendo o seu primeiro arco-íris, um dos poucos banhos que tomou sem a censura da mãe com medo dele gripar. O sorriso radiante em pleno Largo da Carioca contagiou a todos os que por ele passaram em seu caminho rumo ao número treze da Praça Tiradentes.

Pronto, chegou ao consultório. O doutor Ivo não estava, mas a secretária resolveu entregar-lhe os resultados do check-up assim mesmo. Abriu o envelope e leu bem devagar, quase uma palavra por degrau dos três lances de escada que faltavam até a portaria do prédio. Dobrou o laudo, pôs no envelope e guardou na pasta a tiracolo. Sorriu de novo. Não mais para o céu, aos pedestres ou a Valdomira. Sorriu para si, da lembrança dos seus seis, sete anos, o pai contando-lhe que um dia o sol vai crescer tanto, mas tanto, que acabará engolindo a Terra e todos os planetas vizinhos e que nesse dia, que durará bem mais que um dia, ele brilhará como nunca, num tom vermelho, lindíssimo, pena que não sobrará viva alma para ver aquela maravilha. Pensou nisso a caminho de casa e de novo enquanto escrevia as duas cartas que deixou na cozinha, embaixo da garrafa térmica. “O que deu em você pra escrever tanto?”. “Nada não, benzinho, bora dormir que amanhã vou madrugar”, seguido de mais uma lembrança, a última antes de cair no sono,  do que disse ao pai depois daquela história: “Então sol tem epílogo?”

[Publicado pela primeira vez neste blog em 20/09/08]

Uma citação aos domingos

A era da individualidade substituiu a da subjetividade: dando a si mesmo a ilusão de uma liberdade sem coerção, de uma independência sem desejo e de uma historicidade sem história, o homem de hoje tornou-se o contrário de um sujeito. Longe de construir seu ser a partir da consciência das determinações inconscientes que o atravessam, desconhecidas para ele; longe de ser uma individualidade biológica; longe de querer ser um sujeito livre, desprendido de suas raízes e de sua coletividade, imagina a si mesmo como o amo de um destino cuja significação ele reduz a uma reivindicação normativa. Por isso liga-se a redes, a grupos, a coletivos, a comunidades sem conseguir afirmar sua verdadeira diferença.

Elizabeth Roudinesco, La sociedad depresiva (I):La derrota del sujeto