Ágora com dazibao no meio Rotating Header Image

Foi quinta-feira passada

Uma quinta qualquer na rotina de um hospital público, meio pobre, meio descascado, meio velho, condição semelhante à de inúmeras instalações hospitalares do país.

Vamos?, disse o doutor P. E lá fui eu assistir à minha primeira intervenção cirúrgica, pela também primeira vez na condição de espectador e não mais na de paciente, coisa que experimentei umas quatro vezes na vida, pelas contas rápidas que fiz ainda agora. Mentiria descaradamente se dissesse que não estava nem um pouco apreensivo com o que me esperava. Mentiria também se contasse de algum tipo de excitação maior, dessas de tele-série ao estilo E.R., com direito ao coração do residente batendo, acelerando a cada minuto e abafando todos os sons ao redor até ser interrompido por um Clear! um pentelhésimo de segundo antes do desfibrilador desferir o primeiro choque, seguido por pelo menos mais dois, e, com tudo dando certo, sem escutarmos time of death, 22′45″, por sorte não desta vez.

O contexto é outro, nada de dramas televisivos no ar. E.R.? Passou longe, só lembrei dele agora. Era perto de onze da manhã quando entrei num cubículo cheio de cabides e com um enorme balde com algumas calças e jalecos usados ocupando um terço do espaço. (Eu não falei que era um cubículo?) Dr. P pegou dois pijamas cirúrgicos devidamente esterilizados e ensacados, cada um contendo também um par de propés, e me passou um. Para minha sorte o que recebi era do meu tamanho; para o meu azar, consegui estourar o elástico de um dos propés na hora de calçá-los, vergonha, vergonha, vergonha. Lá fui eu atrás do dr. P, já com a minha touca e máscara devidamente colocadas, tratando de enfiar as sobras de tecido do propé para dentro do tênis, enquanto chegávamos à sala onde se encontravam quatro pacientes esperando a hora de suas respectivas cirurgias, todos bem acordados e estranhamente tranquilos. Estranhamente para mim, é claro, pois lembro bem do meu nervosismo numa das minhas próprias cirurgias, especialmente por chegar ao centro cirúrgico sem nem sinal do efeito narcótico que a anestesista me prometera, ver toda a equipe ao meu redor se preparando e ter que perguntar, já quase desesperado, ei, não vou dormir não?, enquanto amarravam os meus braços nas tábuas almofadadas que me davam um aspecto nem um pouco agradável de Cristo na cruz… Mas já estou falando de mim e não dos outros, vergonha, vergonha, vergonha, então bora voltar à história.

A senhora E era a primeira das quatro que o dr. P operaria. Digo operaria, porque só tive tempo de assistir à da senhora E mesmo, e nem perguntei ao dr. P como correram as outras três quando me encontrei com ele hoje à tarde, no shopping, o pobre cheio de sono depois de uma jornada de compras com mulher e filha, atividade certamente muito mais exaustiva do que usar o bisturi, pensei cá com os meus botões. (Eu, num shopping, domingo? Mas isso é outra história.)

Saímos daquele espaço e fomos para a sala 2, onde o dr. P operaria. Ao que parece seriam intervenções relativamente simples para ele, durando em torno de uma hora cada uma, se tudo corresse sem nenhuma complicação. A primeira seria a retirada do cateter para diálise peritoneal da senhora E, que não lembro por que motivo parara de funcionar. De qualquer forma o novo acesso vascular estava funcionando bem, e ela já estava fazendo hemodiálise normalmente, três vezes por semana. Só que eu atentei para isso tudo bem depois. Naquela hora, meus olhos estavam passeando por todos os detalhes da sala 2.

As paredes eram enfeitadas por umas carinhas engraçadas, o que me fez supor que costumassem operar crianças nela — dúvida que guardei comigo, diga-se de passagem. O piso parecia bem gasto, mas estava limpo com deveria. Não fiz nenhuma análise bacteriana, então digo que estava limpo pelo menos para os meus olhos, que viram com detalhe as solas imaculadas dos propés na hora em que os joguei naquele balde enorme que ocupava um terço do cubículo do terceiro parágrafo. Os aparelhos também tinham ares cansados, mas pareciam funcionar direito. Desta vez trata-se mesmo de suposição, já que alguns deles nem foram usados. De qualquer forma o básico estava todo lá, como manda o figurino dos centros cirúrgicos.

A senhora E era veterana. Assim que entrou na sala e mudou da maca para a mesa cirúrgica, pude ver algumas de suas cicatrizes, aquelas que permaneceram aparentes ao longo do processo. Uma negra retinta, cabelos curtos puxados para trás, de quem não arrisco dizer a idade, se pouca ou muita. Vou chutar uns 45, imaginando-a minha coetânea. Mas pode que tivesse menos. Os renais crônicos costumam envelhecer mais rápido que a própria idade.

Dr. P estava em casa, nadando de braçada. Mesmo antes dele falar do assunto com todas as letras, deu para ver como ele gosta de operar. Mas é bom deixar logo claro uma coisa: ele opera pessoas, não doenças. A senhora E, chamada por ele a todo momento pelo nome, era avisada a todo instante sobre uma ardência ali, uma queimação acolá, uma sensação gelada, tudo para que não fosse pega de surpresa. Reclamou pouco, mais no finalzinho, mas saiu contente por livrar-se daquele tubo que saía do seu abdome. Afinal de contas, não já tinha posto um novo no pescoço?

E eu? Vi tudo, com detalhes. Vi a mim mesmo, ora olhando para os movimentos do dr. P, ora para o rosto da senhora E: quando fechava os olhos, quando olhava para a parede, para o teto ou para o nada. Vi o primeiro corte, depois das várias picadas da anestesia local. Vi a gordura, o sangue, a gordura, o músculo, o sangue de novo, e a fumaça do bisturi elétrico cauterizando os pequenos vasos, algumas fagulhas eventuais quando a corrente elétrica era passada através de uma das pinças, e o cheiro de carne queimada, por essa eu não esperava. Dr. P explicando tudo, conversando com a senhora E, elogiando a enfermeira que ficara para ajudar, mesmo não sendo a função dela naquele dia, e a parede do peritôneo logo ali, e o cateter finalmente solto, sem nenhuma das possíveis complicações em procedimentos como aquele, e a primeira sutura, pronto, não tem mais buraco no peritôneo, e mais uma cauterizada acolá, barulho de líquido borbulhando feito cafeteira de expresso na hora de ferver o leite para um macchiato, mas não se preocupe, senhora E, só me ocorreu isso agora e não na hora em que era o seu abdome sendo costurado mais uma vez, uma laço de um lado, um laço do outro, pontos invisíveis, daqueles de cirurgião plástico, a cicatriz não deve ficar muito aparente mesmo com a pele negra tendendo a cicatrizações bem altas, volta e meia queloides.

Olhei mais uma vez para a senhora E, arrisquei passar a mão sobre a sua cabeça. Não cheguei a me arrepender do gesto, mas vi que era por mim e não por ela, que nem pareceu dar bola. Talvez ela nem tivesse se importado caso eu tivesse pedido para fotografá-la “por dentro”; mas nem cogitei pedir-lhe. Também já fui paciente, e fiquei indignado, ainda adolescente, com uma equipe de residentes acompanhando o médico que me operara e que me pedia para andar de lá para cá, apontando para o meu joelho. Apontando não,  reduzindo-me a um joelho. Eu não faria isso com a senhora E, tomando a mim mesmo outra vez como referência… (droga.)

Despedi-me do Dr. P, da enfermeira elogiada por ele, e agradeci por aquela oportunidade, por poder assistir àquela intervenção aparentemente descomplicada, por estar ao lado de uma paciente que vi tão cuidada e respeitada naquele hospital meio pobre, meio descascado, meio velho e com menos um propé no estoque, avariado pela minha imperícia. E se eu levar um novo para lá, será que eles aceitam?

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“Causa Óbito”

Já soube até de gente morrendo de susto, mas de voyeurismo, unha encravada ou vulva** é a primeira vez.

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** Ouquei, justiça seja feita: o código D07.1 corresponde a “carcinoma in situ da vulva”, e dá para morrer disso se não for tratado corretamente. Mas unha encravada tenho certeza que não mata, e voyeurismo só se você não for muito discreto e o seu objeto de admiração for uma pessoa dada a reações violentas.

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Escatofilosopoesia

En este mundo calaca,
nadie de cagar escapa.
Caga el buey,
caga la vaca,
y hasta la chica más guapa
también hace su montón de caca.

[Desconheço a autoria]

Quando esbarro com alguém que não apenas se considera o rei da cocada preta, mas também quer porque quer que os demais reconheçam nele “um ser superior”, esse poeminha aí de cima se instala em meus pensamentos e faz com que eu sorria discretamente, o suficiente para o tal “acima dos mortais” acreditar que eu rezo pela sua cartilha.

Nessas horas me controlo para não gargalhar.

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Pensem no Haiti, mas não se esqueçam da Faixa de Gaza

Ainda bem que há gente em Gaza trabalhando, e muito, para tentar amenizar o sofrimento daquele campo de concentração que não ousa dizer o nome. Traduzo algumas histórias publicadas no jornal Página 12. Se não quiserem ler tudo, guardem para depois. Só não esqueçam de ler, pois já basta a indiferença frente ao sofrimento da população da Faixa de Gaza, algo que fala mal de toda espécie humana.

E por favor, nada de papo furado sobre antissemitismo, atitude que nenhum amigo judeu jamais viu em mim. Deplorar as consequências de uma perversa política de destruição impetrada pelo Estado de Israel não equivale a querer a destruição desse Estado, e muito menos de sua população.

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[Página|12, quinta-feira, 28 de janeiro de 2010]

“A vida merece ser vivida”

Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza*

Após um ano desde a intervenção que o governo de Israel batizou de Chumbo Fundido, o Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza apresenta resultados de seu trabalho com crianças e adolescentes que sofreram traumas físicos e psíquicos.

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Osama, nove anos, vive com a família em Beit Hanon, próximo da fronteira entre a Faixa de Gaza e Israel. A família possui um modesto armazém numa sala dentro da própria casa. Fadi, o irmão mais velho, era o responsável pelo negócio, mantido aberto mesmo durante a guerra. Certo dia Faid abriu o armazém, como de costume. Na mesma hora Osama, que estava na casa de sua tia, decidiu voltar para casa. No caminho, ouviu o som de um míssil lançado pelas forças israelenses. Parecia muito próximo. Todos nas ruas ficaram aterrorizados, inclusive Osama. Enquanto isso, Fadi resolveu sair do armazém para ver onde cairia o míssil, mas acabou mortalmente ferido. Osama, que já estava chegando, presenciou tudo, inclusive a morte do seu irmão.

Ele reagiu com um grave ataque de pânico, somado a um leve ferimento nas costas. Entrou em casa gritando e chorando, depois de ver seu irmão morrer diante dos seus olhos. Sua família ainda não sabia da morte do filho e Osama não conseguiu dizer nada, até que eles saíram e viram o cadáver.

Depois do fim da guerra em Gaza, Osama voltou à escola, como todos os outro alunos. Mas depois de um certo período começou a apresentar uma série de sintomas, exigindo uma intervenção de parte da assistente social da escola. Fizeram contato com a família decidiu-se que ele iria ao Centro Comunitário do Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza.

Depois de examinar o caso de Osama, forma diagnosticados sintomas que incluíam: ansiedade; excessiva violência com as outras crianças; enurese noturna; temor, desencadeado por motivos triviais; problemas com seus irmãos; choro contínuo; lembrança obsessiva da cena da morte do seu irmão.

A equipe do Centro Comunitário de Gaza preparou um programa terapêutico, depois de fazer exames médicos considerados necessários. O programa incluía abordagens terapêuticas expressivas, especialmente ludoterapia e desenho livre; procurou-se também facilitar a catarse. O programa terapêutico incluiu também o acompanhamento da família, especialmente a mãe, que bastante deprimida e sem condições de enfrentar o trauma da perda de Fadi, seu filho mais velho. Toda a família necessitava de um intervenção terapêutica e de apoio psicológico, depois dos graves acontecimentos vividos por eles; tratou-se de colocar em evidência e modificar os pensamentos negativos. Trabalhou-se também no fortalecimento de sua rede de apoio social.

A partir das sessões terapêuticas e do conjunto de intervenções, Osama começou a se mostrar mais aberto aos demais. A maioria dos sintomas que padecera desapareceram. Começou a brincar com seus amigos e com seus irmãos, e sua concentração nas tarefas escolares melhorou.

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Loai, dez anos

No dia 14 de janeiro de 2009 Loai,  dez anos, foi gravemente ferido num ataque aéreo israelense que atingiu sua família em Beit Lahia, Faixa de Gaza. Acabava de sair, junto com seu pai e um primo, da escola em que sua família vivia há 15 dias, depois de ter tido que abandonar sua casa. Eles tentavam voltar para lá em busca de comida, cobertores e outros pertences, já que a escola estava cheia de gente sem sequer o básico para viver; eram mais de sessenta pessoas numa sala de aula.

Os ferimentos causados pelo ataque aéreo deixaram Loai cego, com lesões na cabeça e numa das mãos. Seu primo acabou morto. Além do mais, em função do ininterrupto bombardeio israelense, Loai ficou na rua sangrando durante uma hora e meia, sem que ninguém pudesse se se aproximar; mesmo seu pai, que estava a poucos metros dele, não pôde dar sequer um passo para salvar seu filho. O próprio Loai tentou se arrastar para alcançar o pai, mas não conseguiu. Quando o bombardeio diminuiu, algumas vizinhas ajudaram Loai, levando-o para um lugar seguro onde seu pai pode resgatá-lo. Foi então levado de ambulância para o hospital Kamal Odwan, e posteriormente para a Arabia Saudita, acompanhado pelo pai, onde recebeu tratamento.

Loai era uma criança ativa e inteligente. Cedo tornou-se o braço direito do seu pai no modesto comércio que os ajudava a cobrir suas necessidades básicas. Pensava sempre em comprar uma bicicleta como a de outras crianças. Queria ser um homem de negócios. Loai era muito apegado à família, especialmente ao irmão mais velho, Rajab, que por sua vez tinha dois filhos, Raed e Rajab Junior. Rajab morreu pouco depois, no dia 16 de fevereiro, no último ataque israelense sobre Gaza, atingido por estilhaços enquanto trabalhava numa fazenda.

Em tratamento na Arabia Saudita, Loai não soube que seu irmão morreu. Ao voltar, trouxe presentes para ele, esperando que Rajab fosse o primeiro a abraçá-lo. Quando soube da morte do irmão, sofreu um choque. Loai ainda espera que seu irmão reapareça, continua com esperanças de vê-lo. Crê que se o seu irmão estivesse vivo ele se sentiria mais forte e poderia esquecer sua deficiência.

Porém, ao voltar da Arabia Saudita, seu sobrinho Rajab Junior aproximou-se muito dele e lhe deu apoio. De qualquer forma, Loai, transformado num ser desamparado que depende dos outros, tornou-se inseguro e receoso de dar qualquer passo adiante em sua vida. Passou a preocupar-se o tempo todo com seu futuro, temendo cair a cada instante. Tornou-se incapaz de alcançar seus sonhos mais simples. Conseguiu andar de bicicleta, mas só à noite, com ajuda de sua avó, que é quem se ocupa de acompanhá-lo durante essas horas.

Loai foi encaminhado pela Associação Majid, uma organização civil que trabalha com o Centro Comunitário do Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza. Quando o psicólogo Rawy a Hamam foi vê-lo em sua casa, Loai sofria de sintomas de estresse pós-traumático que incluíam insonia, ansiedade, sentimentos de culpa e raiva em relação a sua família, dor paralisante pela perda do irmão. Perturbava-se com facilidade por qualquer razão.

Providenciou-se um programa de intervenção familiar a Loai e sua família, onde o menino pudesse descarregar suas emoções, expressar seus sentimentos e encarar as circunstâncias que se lhe apresentavam, através de atividades diárias concentradas nos pontos fortes dele. O Centro continua acompanhando o caso de Loai y mantém contato com sua família e sua escola. Nesse acompanhamento verificou-se um notório progresso em Loai. Ele começou a expressar seus medos e suas preocupações. Conseguiu tirar um pouco o foco que colocava em sua deficiência, e começou a pensar em seus sonhos e em seu futuro.

Loai acredita ainda que a perda da visão não é definitiva, continua na expectativa de que um dia será capaz de enxergar outra vez. Mas também parece determinado a que sua cegueira não seja um obstáculo nem lhe impeça de viver como as outras crianças.

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Fathia, 18 anos

Fathia Iz Al Deen Mussa, 18 anos, do bairro Al Sabra da Cidade de Gaza, contou o seguinte em seu depoimento para o Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza, ao término da intervenção militar israelense. “Eu era a única que tinha ficado em casa. Não quis sair até que meus pais, meu irmão Waheed e Mohammed e minha irmã Noor fossem evacuados e levados para o hospital. Mas eu sabia que estava enganando a mim mesma com a esperança de que ainda estivessem vivos. Desejei ter morrido com eles. Esperei que levassem os corpos para casa, para prestar-lhes as últimas homenagens, mas nunca chegaram: os corpos ficaram tão destroçados que não havia possibilidade de serem reconhecidos. Era muito difícil identificá-los.”

“Dois meses y meio mais tarde — contou —, ainda tenho medo de ficar sozinha, às vezes até mesmo de ficar sozinha no banheiro. Tenho dificuldade para dormir, lembro de tudo o que aconteceu. Nunca esquecerei do sangue e dos pedaços dos corpos da minha família espalhados ao redor da nossa casa. Aquela noite fiquei na casa do meu avô Abu Sameer Al Jarah, junto com minhas irmãs Hannen e Sabreen. Não conseguia entender o que estava acontecendo comigo. Minha perna estava ferida, mas só percebi quando à noite ela começou a doer. No dia seguinte tiraram estilhaços e cacos de vidro da minha perna.”

O atendimento clínico e a avaliação do caso de Fathia foram efetuados pelos psicólogos Rawya Hamam e Insherah Zakout. Com o fim da intervenção das forças armadas israelenses, uma equipe de assistentes sociais e profissionais do Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza visitou os sobreviventes da família Mussa. A família sofria de severos sintomas de estresse pós-traumático, incluindo insonia, pesadelos e perda de apetite. Também sofriam de apatia, desânimo e depressão.

A equipe preparou uma intervenção terapêutica para a família descarregar suas emoções, expressar seus dolorosos e descrever com detalhes cada evento por que passaram.as circunstâncias que se lhe apresentavam, A equipe também conversou com eles sobre as experiências que tiveram, explicando-lhes sobre os sintomas e reações considerados normais em casos como aqueles, utilizando uma abordagem psicoeducativa. A equipe ressaltou a importância de fortalecer a rede de apoio social e de trabalhar para corrigir os sentimentos e pensamentos negativos. Durante o trabalho com a família, a equipe se concentrou nos pontos positivos dos indivíduos, ajudando-os a formular planos para o futuro. Uma das meninas resolveu unir-se ao Projeto de Empoderamento das Mulheres do Programa de Saúde Mental, sendo treinada no uso de técnicas que podem ajudar a aliviar os sintomas do transtorno por estresse pós-traumático, como a respiração profunda e o relaxamento. A família recebe tratamento por meio de visitas semanais em sus casa. O acompanhamento do caso de Fathia registrou sua grande melhora; ela começou a conversar com outras pessoas, e começou também a pensar em trabalhar e em depender de si mesma.

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* Organização não governamental fundada em 1990. Seu diretor é Riyad Al Zanoun. Entre os membros do seu Conselho Assessor estão: Inge Genefke, do Conselho Internacional de Reabilitação para Vítimas de Tortura, da Dinamarca; Henrik Pelling, especialista en psiquiatria infantil, da Suécia; Helen Bamber, da Fundação médica da Grã Bretanha; Ruchama Marton, de Médicos pelos Direitos Humanos, de Israel. Texto extractado do informe A vida merece ser vivida, publicado no primeiro aniversário da intervenção militar israelense em Gaza.

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“A justiça é curativa”

PSMCG

Há um ano, durante o ataque israelense sobre Gaza, mais de 1400 palestinos morreram e 5000 ficaram feridas, na maioria civis. Centenas de pais e filhos foram atingidos por disparos ou explosões, ou queimados até a morte com fósforo branco. Milhares de crianças ficaram sem lar e foram levadas a refúgios temporários e barracas, lá permanecendo por longos períodos. Suas feridas psicológicas permanecem escassamente suturadas e ainda abertas. O fim da guerra não equivale ao fim da dor e do sofrimento. No Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza, diariamente presenciamos o impacto catastrófico dessa violência. Sem que se deixe de atender aos danos e à agonia causados pela ocupação, uma questão permanece: como terá sido moldada, a partir destas experiências de vida, a geração emergente? Vemos como uma população desconsolada e com raiva luta para lidar com perdas angustiantes que ameaçam todos os aspectos do seu crescimento, desenvolvimento e bem-estar psicológico.

O Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza procura desenvolver a resiliência da comunidade, especialmente nas crianças. Nosso trabalho é crítico, mas sabemos que a terapia não é suficiente para lidar com a quantidade e a intensidade do sofrimento que enfrentamos. Para as feridas de Gaza, a justiça é a única modalidade de tratamento efetiva a longo prazo. Para las vítimas, a justiça é curativa. Acreditamos que um mundo sem justiça é um lugar perigoso, um campo de cultivo para o desamparo e o desânimo, um criatório de pessoas desesperadas sem nada a perder. Nossa responsabilidade é a de ajudar a prevenir esta situação e criar um ambiente de esperança, onde a paz e a justiça possam prevalecer.

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Um extrato as quintas

O sujeito, nós dizíamos, começa a análise falando de si sem falar a você, ou falando a você sem falar de si. Quando ele conseguir falar de si a você, a análise estará terminada.

(Jacques Lacan, Escritos, p. 373)

1. Vale para inúmeros processos psicoterapêuticos, não apenas para a psicanálise.

2. Você conhece alguém que consegue verdadeiramente falar de si ao outro? Me apresenta?

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Comida, mas o prisma é outro

Décadas atrás — na internet, passadas algumas semanas de qualquer notícia/post/mimimi, essa é a medida temporal que fica —, olhando os feeds de alguns blogs, vi que dois deles tratavam do mesmo assunto, embora por perspectivas diferentes: a comida. Achei até que fosse um sinal, a senha para desencavar um post inacabado e quase mofado dos meus rascunhos, mas que merecia melhor destino. Mas se não sabe, digo a você como são as coisas na cabeça deste blogueiro agnóstico: o costume de delongar e de não dar trela a supostos “sinais do além” é regra corrente.

Mas o assunto não tem culpa de nada, e os tais dois posts de tempos atrás já constavam deste rascunho. Por que então não retomá-lo no almoço de uma terça-feira?

O primeiro blog citava a interessante matéria do Times sobre o lançamento do livro “Como cozinhar nos tornou humanos”, do antropólogo Richard Wrangham. O livro em questão destaca a primazia não do sexo, mas da cocção dos alimentos como base dos relacionamentos humanos e da evolução da espécie. E como a matéria está em inglês, nada melhor do que um ótimo atalho feito por terceiros, que ainda por cima tripudia dessa hipótese:

A mais nova tese levantada sobre a evolução humana é que, por sermos os únicos animais que cozinham, o tempo poupado na mastigação e uma maior absorção de nutrientes, fez com que nos tornássemos os únicos seres com cérebros grandes, capazes de saber que ao final dessa festa toda morreremos. E a cocção também nos fez sociáveis, casamenteiros, urdidores de prole. Mas aí tem sempre um idiotazinho enxerido que vem com os urubus. Urubus? [...] Os urubus vivem em sociedade, e são tão rigorosos com esse negócio de culinária que desde tempos imemoriais só comem a carcaça cozida pela natureza: desidratada e já parcialmente digerida para um maior aproveitamento. E, por mais que os efeitos do aquecimento global estejam danosos, nunca vi uma ave destas com dúvidas existenciais suficientes para um suicídio de não-bater de asas dramático; e nas fotos, o cara por detrás da mesa de autógrafos assinando um exemplar d “O Alquimista”, não tem penugens marciais de urubu-rei em torno do pescoço, mas a santimônia de uma rabicho de cabelo atrás da nuca. [Parte de um comentário de Charlles Campos feito num (como sempre ótimo) post do Milton Ribeiro]

A menção ao escritor (sic) Paulo Coelho foi só “a cereja do bolo”, claro, daí a minha sorridente gratidão e o pedido de licença para republicação com o devido crédito, como é de praxe. Mas já que fiquei satisfeito apenas com esse comentário a respeito da referida tese do Richard Wrangham — e quem quiser mais pegue um taxi e siga aquele link! do Times lá em cima —, faltou citar o outro post, que falava do filme Julie & Julia, dirigido por Nora Ephron, que narra a história da tal Julie reproduzindo durante um ano as receitas de cozinha do livro Mastering the Art of French Cooking, de Julia Child. (Até alguns meses atrás, mesmo com a Meryl Streep no filme, achava pouco provável assistir. Ter visto A Festa de Babette, Como Água para Chocolate, O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e o Amante e A Comilança, entre outros, bastava. Mas aí comecei a papear com a minha mais nova amiga de infância, que andou falando bastante desse filme, e resolvi vê-lo, na base da pipoca e do namoro no sofá. Foi bom, sobretudo pelo namoro.) Como vedes, não se trata de mero acaso, mas de antropologia e cinema, duas áreas que, apesar de distintas, me interessam bastante e que são a base desses posts que abordaram um tema só: a comida. E este último, assim como o sexo, a religião e as guerras, é mesmo um dos temas que movem a humanidade, para o bem e para o mal.

De sexo, religião e guerras é do que mais ouço falar, mais ainda nesta esfera virtual. Mas de comida não tanto, exceto receitas de. Não posso passar batido pelo fato de que a comparação de comportamentos em relação à comida é tema de interesse e pesquisa há mais de 100 anos, com muita documentação sobre eles.1 Só não vejo com tanta frequência abordagens mais cotidianas e menos acadêmicas sobre o assunto, ao menos não além das ditas receitas ou do exotismo de culinárias de países “distantes”. (Parêntese. Não custa lembrar que não sou antropólogo, sociólogo ou especialista no assunto, o que significa que o fato de não encontrar algo por aí não é parâmetro para dizer se isso é comum ou não: é apenas o parâmetro para dimensionar a minha ignorância. Quero apenas escrever um post, nada além disso. Fecha parêntese) Não à toa lembrei de um vídeo que recebi por e-mail tempos atrás, e que suponho que muitos já conheçam. Aliás, vale o aviso de que não é para estômagos sensíveis, justamente por tratar do assunto em pauta. O vídeo mostra um concurso realizado na China, do “chef mais eficiente”, e foi gravado ao ar livre. A medida da eficiência dos chefs vem da combinação entre o tempo dispendido na preparação dos pratos — quanto menor, melhor — e a garantia de que seus ingredientes principais permaneçam, er… Bom, tome as devidas cautelas e assista, depois conversamos:

Se te faltou coragem, vou contar o que o vídeo mostra e que deixei de fora no primeiro parágrafo. Ganha o concurso não só quem preparar o prato no menor tempo possível, mas também quem conseguir que os ingredientes principais — neste caso, uma cobra e um peixe — sigam “vivos”, isto é, ainda se mexam depois que o prato estiver pronto.

Mas antes de partir para o que me interessa a respeito do vídeo, quero contar sobre ter assistido, no ano retrasado, à palestra de um antropólogo japonês sobre a história e as características da culinária do seu país.

[Por favor, não é hora de perguntar sobre que diabo eu fazia numa palestra dessas. Digo apenas que me diverti, e que tampouco é hora de perguntar que raio de concepção de diversão é essa que eu tenho.]

O palestrante, ao falar das influências religiosas e do intercâmbio com outros países sobre a comida japonesa, acabou contando uma anedota a respeito do que os chineses podem ou não comer — não custando lembrar o quão complicadas são as relações sino-japonesas, marcadas também (e muito) pelo preconceito. Segundo informações colhidas junto aos meus neurônios, a anedota sobre a culinária chinesa diz o seguinte:

Tem duas pernas, não é pai ou mãe, então pode comer.
Tem quatro pernas, não é mesa, então pode comer.
Tem asas, não é avião, então pode comer.
Vai dentro d’água, não é submarino, então pode comer.

Tem lá o seu interesse saber como os japoneses fazem troça dos chineses, e creio que o vídeo lá de cima é um exemplo que não deixa de corresponder ao que a anedota diz. Mas esse tipo de piada não é o que pretendo discutir, foi só uma lembrança pitoresca. Enfoco o que o vídeo mostra, para além dos possíveis engulhos que seja capaz de provocar. Sendo assim, se transpusermos o que ocorre nas imagens para um contexto mais próximo da gente, culturalmente falando — supondo que você e eu compartilhemos um —, dá para discutir questões como o nojo, o sagrado/profano, entre outras. Só evito tecer considerações ou avaliar/julgar o que os chefs chineses e os organizadores do concurso pensam, pois não sei “ser” um chinês, ao menos não de maneira suficientemente próxima para arriscar-me a tal. Interesso-me mesmo é como o que eles fazem nos afeta. E começo pela questão da crueldade com os animais, que suponho seja um ponto assaz incômodo para grande parte de nós, arrisco a dizer. Vale comentar que cá pras nossas bandas é mesmo diferente, sobretudo porque os abatedouros costumam ficar longe da vista da gente, e assim ninguém acompanha o processo que leva bois, porcos, galinhas, simpáticos patos, coelhos fofinhos etc. até aqueles pratos de isopor envoltos em filme de pvc transparente, dessas que “me enganam que eu gosto“, já que por conta disso o bicho nem parece tão bicho assim, o que dilui esse mistura de desconforto, nojo e culpa que costuma acometer a tanta gente. E o que os olhos não veem…

Esse desagrado com comidas onde “o bicho tem cara de bicho” não é uma regra para todo o mundo, nem tampouco em relação a todo tipo de animal, é claro. Peixes e frutos do mar parecem não incomodar tanto quanto um coelho, um leitão ou uma rã inteiros sobre a mesa — a depender do país e da região, vale dizer —, e o desconforto aumenta diante de alguns animais que também servem de companhia em casa ou são parte da atividade laboral — caso dos mencionados coelhos, consumidos “lá e cá”, e de cães e gatos, por um lado; e de cavalos, burros e camelos, por outro, e que também fazem parte da culinária de vários países.

Agora voltemos ao vídeo. Há algo de errado nele? Bom, se a gente puser aspas na palavra “errado”, talvez a conversa melhore. Porque o certo e o errado, a esta altura do campeonato, você já sabe que são de uma relatividade que vai até o tutano dos ossos. Então que “errado” você percebe nele? Que sentimentos ele te provoca? Nojo? Indignação? Um misto de incômodo e de curiosidade? Estranhamento? Fome? Indiferença? (Desconforto por conta de sua indiferença?)

Eu só posso falar por mim, não por você. E o que vem a minha mente diz respeito sobretudo a parâmetros, parâmetros estabelecidos na esfera de qualquer cultura, sobre tudo aquilo que pode (ou até deve) ser mostrado ou encoberto, glorificado ou mantido envergonhadamente secreto, longe da vista dos demais. Nesse sentido, no que se refere à comida, haveria uma espécie de código relativamente recente entre predador (nós, humanos) e presa (os bichos que morrerão para nos alimentar), “aplicado” especialmente aos que vivem em aglomerados urbanos razoavelmente longe de onde se criam ou capturam as ditas presas.

Desse código faria parte excluir, na maioria das vezes, o consumidor do processo de transformação desse ser vivo, muitas vezes considerado simpático ou até mesmo fofinho,

em alimento enlatado ou posto em qualquer outro tipo de embalagem sem “cara de bicho”, sem que nele haja cheiro de abate, de morte, e, por extensão, sem que se suponha sofrimento atroz à presa, com requintes de crueldade, com o predador deliciando-se com isso. (O cartunista Quino tem um ótimo livro chamado A La Buena Mesa, de onde tirei a charge ao lado. Recomendo.)

Aliás, por mais que hoje em dia muito do que envolve o processamento dos alimentos tenha saído da cozinha, “isto é dos fundos da casa, de sua parte menos nobre”, 2 vale dizer que o referido processamento não costuma ser completo, já que quase sempre o alimento chega pré-processado. É possível que alguns de vocês tenham tido a oportunidade de ver uma galinha ciscando no quintal horas antes de ser servida no almoço, ou que outros tantos a escolheram ainda viva num pequeno abatedouro perto de casa, com o vendedor levando-a para os fundos do estabelecimento e trazendo-a de volta embalada em plástico depois recoberto em jornal ou em papel pardo, com o sangue num saquinho à parte. Mas hoje em dia já não são muitos os que vivem em cidades grandes e têm esse tipo de experiência em seus cotidianos. No máximo assistem com um quê de prazer sádico alguns vídeos no youtube — que é só procurar, há muitos por lá —, mas provavelmente não o fazem perto das refeições.

Enfim, o vídeo parece quebrar um pouco o tal código a que me referi dois parágrafos acima. No afã de mostrar a habilidade de um chef de cozinha no preparo de um prato, ele fez uso de critérios que esbarrariam naquilo que para muitos tem o status de tabu: a proximidade entre a comida e a morte. É verdade que essa proximidade não é estranha aos que caçam o próprio alimento, algo que grande parte da humanidade ainda faz. Mas para aqueles “distantes da natureza”, desfrutando de um modo de vida em que a tarefa de conseguir alimento está cheia de intermediários e de métodos de transformar um bicho em prato, a morte não faz mais parte da fórmula. E parte dos engulhos de muitos passa por aí.

_______________

1 MINTZ, Sidney W. Comida e antropologia: uma breve revisão, Revista Brasileira de Ciências Sociais - Vol. 16 n. 47 outubro 2001, pp. 32-41.
2 ROMANELLI, Geraldo. O significado da alimentação na família: uma visão antropológica. Medicina, Ribeirão Preto, 39 (3): 333-9, jul./set. 2006.

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Zum de besouro um ímã

Domingo, 24 de janeiro de 2010, 22:51.

Quarto e último dia do Pré-Caju.
Se o destino, esse em que não acredito, permitir, o último da minha vida.
Ainda há pouco, entrava por tudo que é janela “Simbora ê, Simbora ô… lelelele ôo”, entoado por ela mesma, em carne e osso: dona Ivete.

[De digitar, a azia piora. E não tenho nem um salzinho de frutas por perto.]

Na sexta-feira, segundo dia do evento, imbuí-me do meu melhor olhar antropológico e resolvi assistir algumas horas — que pareceram dias — deste pré-Caju. Confesso que sou um péssimo antropólogo, pois mal começou a festa e capitulei, tratando de escafeder-me do apartamento em que me encontrava, com receio de não conseguir mais sair de lá rumo à casa. Mas não ajudou muito. A localização do prédio onde passo a temporada é privilegiada, e descobri que não apenas para o bem.

[A Ivete já foi embora, mas o massacre segue impiedoso. Creio que não tenho mais azia. Virou úlcera.]

Ontem a atração-mor foi Chiclete com Banana, que deixou grudado em meu cerebelo
Chicleteiro eu
Chicleteira ela
Chicleteiro eu
Chicleteira ela
Chicleteiro eu
Chicleteira ela
Libera, libera
Libera, libera…
(2x)

[Esse 2x é mentira. Foram dezenas, dezenas, dezenas...]

Já na quinta e sexta tocaram (sic) Timbalada, Claudia Leitte e outros tantos, tão violentos quanto. E no sábado, depois do Chiclete e de sei lá mais quantos trios elétricos, alguém descobriu onde me hospedo e só por isso estacionou um carro de som ao lado da minha janela, no décimo-sexto andar, com alto-falantes que mais pareciam saídos do baile do alto da Ladeira dos Tabajaras em dia de festa do chefe do tráfico da vez, tocando funks de alto teor ginecológico. Pararam quando o sol ia alto, lá pelas seis da manhã. Vai ver acharam que os raios solares estragariam o equipamento, ou então se recolheram porque eram vampiros, o assunto da moda. É só o que consigo imaginar.

[A Convenção da ONU para Armas Convencionais deveria ser revista e passar a tratar também de algumas não-convencionais. É sério.]

Por conta de uma espécie de descompensação — que espero termine no máximo à meia-noite —, acabei saindo do prumo e cometi algumas tuitadas. Autoanálise é coisa boa, e o registro se faz necessário para melhor elaborar o que experimentamos. Sendo assim, reproduzo:

“Pré-Caju me matou. Se fui atrás do Chiclete c/ Banana? Pirou? Tô morto por noite em claro: aqui é a sucursal do inferno (a sede é Salvador)”

“Daqui a pouco chega a Ivete Sangalo. Vou fechar as janelas. Não, não é p/ abafar o som: é puro receio da vontade de pular.”

“Começo a achar que Deus existe, e é o do Velho Testamento: o pré-Caju só pode ser um dos seus mais cruéis castigos.”

“Se o mundo termina em 2012 eu não sei, mas se eu presenciar o pré-Caju de 2011, o MEU mundo certamente vai acabar.”

“‘Aquele é o cara q criou o pré-Caju’, me disseram no restaurante. Sorte dele o meu primo segurar meu braço e tirar a faca da minha mão.”

“Concordo q é preciso discutir e combater todo esse ódio q viceja na internet, mas por favor, deixem o pré-Caju de fora dessa campanha.”

“Taquicardia, falta de ar, dor no peito, formigamento, visão embaçada, boca seca, sensação de iminência da morte: Síndrome de pré-Caju”

E para terminar, ponho em anexo um fragmento que mal reflete o massacre a que meus ouvidos tem sido submetidos desde quinta-feira à noite. Não estranhe o som inicial de Franz Ferdinand nesse meu arremedo de plano-sequência. É só para temperar o caos, enquanto as ânsias de vômito começam a refluir com
Eu quero mais é beijar na boca
Eu quero mais é beijar na boca (eu quero mais)
Eu quero mais é beijar na boca
E ser feliz daqui pra frente… pra sempre
(2x) [Esse 2x é mentira. Foram...]

Ivete foi mesmo embora, mas Claudia Leitte voltou, e agora tem alguém cantando essa aí de cima, que é da Claudia Leitte. Meia-noite e trinta e cinco, nem sinal de que o pesadelo vai acabar. Dá licença mas eu vou ali, certificar-me que as janelas seguem bem fechadas.

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Você sabe?

Hoje é sábado, dia de dolce far niente e de passar no blog do Milton para ver mais um post da série PQHS. Feito isso — e meio que por puro acaso — sobrevém uma pergunta que fiz tempos atrás e resolvi repetir hoje:

Você tem ideia da quantidade de vezes que, com um ou mais dedos, toca a si mesmo, se acarinha, se alisa, se coça, se aperta e mesmo ajeita partes do seu corpo em um único dia?

Alguns adendos à pergunta:

1) Refiro-me apenas aos toques que não tenham conotação direta e objetivamente sexual; e
2) Que não tenham a participação de qualquer outra pessoa.

Você já parou para pensar o quanto do seu tempo diário é gasto com atividades auto-estésicas**?

__________
** De “estesia”, que é a capacidade de perceber sensações.

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Lendo só a manchete, soa esquisito

1) Notícia pra quem (não) precisa de notícia

Um grupo ecologista pede que se investigue a qualidade do sêmen de los tarragoneses

O grupo ecologista L’Escurçó apresentou uma denúncia no juizado da guarda de Tarragona para que se investigue por que a qualidade do esperma dos tarragoneses é a pior de toda a Espanha. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Marqués de Ginecologia y Obstetrícia concluiu que 53% dos homens residentes em Tarragona apresentam sêmen que não cumpre com os parâmetros estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS). [Grifo meu]

[O resto da matéria não tem o mesmo humor involuntário, pois explica que os motivos podem estar relacionados à poluição por parte da indústria petroquímica da região.]

2) Mais uma notícia, entre exótica e simpática:

Ioga reduz sentença de prisioneiros

Prisioneiros no Estado indiano de Madhya Pradesh estão sendo libertados mais cedo se completarem cursos de ioga.

Para cada cem dias praticando a técnica - que envolve exercícios de postura, equilíbrio e respiração – os detentos recebem uma redução de 36 dias na sentença.

As autoridades dizem que as aulas ajudam a melhorar o autocontrole e reduzir a agressividade dos prisioneiros.

Cerca de quatro mil detentos do Estado estão participando do projeto, e muitos deles acabam virando professores de ioga. [BBC Brasil - veja o vídeo]

[Se juntassem a ioga à figura brasileira da "prisão especial para portadores de diploma de curso superior" o nosso sistema seria uma beleza, não? Ué, você discorda? Ah, é porque você não se formou? Então corra, antes que acabe!]

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Adivinhou? Então compare com o texto original

Nem sei quais as respostas do post anterior, sequer se houve alguma. Acontece que os dois foram escritos um imediatamente após o outro, só que este foi programado para ser publicado 48 horas depois do primeiro — eu sei, eu disse no primeiro que este viria depois 24 horas, mas depois risquei. Mudei de ideia, não posso?

Mas é provável que você queira saber de uma vez, em vez de ficar nesse ramerrame. Então tá: o trecho do post anterior eu tirei daqui.

Em todo caso, se você ficou com preguiça de ir até lá, te dou uma colher de chá:

La mexicana es una sociedad de dos caras.

Mas eu disse no outro post que você havia acertado, e sustento. E vou mais longe: penso que o que Raymundo Riva Palacio escreveu sobre os mexicanos realmente se aplica à maior parte da nossa espécie.

Se bem que eu queria era saber primeiro que povo em especial veio a sua mente quando leu o texto. De minha parte, te digo que de fato reconheço os próprios mexicanos, com quem convivi durante alguns anos e por quem tenho uma enorme estima — de uma cara só, pois gosto dos defeitos deles também. Mas incluo no pacote os brasileiros, os peruanos, os italianos… Aqui no Brasil, se regionalizarmos a conversa, aponto de cara o carioca. “Me liga”, ele diz, mas não te dá o telefone; “Aparece lá em casa”, mas não te dá o endereço; “A gente se esbarra por aí”, e só se for por aí mesmo, por obra e graça do fato do mundo ser um ovo e você acabar inadvertidamente esbarrando com gente que não pretendia rever jamais.

Mas penso um pouquinho, e logo me vem à cabeça o mineiro. Não um mineiro feito o Idelber, que é de um carinho imenso com aqueles por quem simpatiza, e a quem sequer imagino ver dizendo algo em que não acredita ou agir de um jeito dissimulado. Penso mesmo é no mineiro mais estereotipado, aquele da política, ou o que só é solidário no câncer, como diria Otto Lara Resende. Mas no sul da Bahia também já vi disso, sabia? E no Paraná, particularmente em Curitiba — não conheci outra cidade —, alguns aspectos do texto se encaixariam como uma luva. Se bem que em São Paulo não creio que seja tão diferente, e algo me diz que os de lá não vão reclamar da minha crença. Diria que o que essencialmente muda em todos os lugares que mencionei é o grau de extroversão e informalidade, assim como a proximidade e o contato físico quando as pessoas se falam. (O carioca, por exemplo, é um extrovertido ululante.) De resto, reitero: algo me diz que boa parte da humanidade age de maneira parecida.

Qual a sua opinião sobre o assunto?

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“Strindbergman”, no teatro Sérgio Porto (RJ). Não viu ainda? Tá esperando o que?

Pena que não estou no Rio, queria muito assistir. E se você mora ou está passando as férias na cidade, já deveria ter ido!

Produção francesa, a peça “Strindbergman” estréia no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto no dia 06 de janeiro de 2010

Interpretada por duas atrizes brasileiras, a produção francesa propõe o diálogo entre as obras de August Strindberg e Ingmar Bergman. Uma estranha relação de simbiose e manipulação toma forma entre duas mulheres. O espetáculo integra o Ano da França no Brasil

Estabelecer um diálogo entre a palavra e o silêncio. Uma personagem que não fala manipula outra que não consegue se calar. Esse é o mote da peça Strindbergman, que estréia no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto no dia 06 de janeiro de 2010.

A produção francesa propõe o encontro entre a peça e o filme dos artistas suecos August Strindberg e Ingmar Bergman, respectivamente, A Mais Forte (1888) e Persona (1966). No palco estão a brasileira Nicole Cordery e a franco-brasileira Janaína Suaudeau, sob a direção da francesa Marie Dupleix. A atriz Clara Carvalho, integrante do Grupo Tapa, faz participação especial. O espetáculo integra o Ano da França no Brasil e fez parte do Festival Strindberg, realizado no VIGA Espaço Cênico (SP) em novembro e dezembro de 2009. (…)

[Leia o resto do texto aqui, e aproveite para passar também no site da peça.]

[Clique na foto para ampliar]

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Adivinha de quem estou falando?

Nós os ______________ somos uma sociedade de duas caras. Muito receptivos da boca para fora, mas inacessíveis na esfera privada. Sibilinos, adoramos contar mentiras sorrindo ou responder na mesma toada, com todos sabendo que o que dizemos passa bem longe da verdade. Se cruzamos com alguém de que há muito nem lembrança tínhamos, a gente o cumprimenta com enorme entusiasmo, dizendo o quanto ultimamente temos pensado nele e de como há tempos queríamos falar com ele para “marcar de se encontrar”. A resposta costuma se dar exatamente nos mesmos termos, e nos despedimos na base do “a gente se vê” e do “nos falamos”. Sem diminuir nem por um momento a intensidade da conversa, ficamos de reencontrar-nos em breve, coisa que nunca vai acontecer.

(…)

Na verdade, somos egoístas. A solidariedade, a fraternidade e a calidez humana só vão até a porta de casa. Para que algum estranho cruze a nossa soleira, precisa atravessar numerosas fronteiras sociais. Nossa sociedade opera em círculos, em geral (embora não exclusivamente) socioeconômicos, que costumam ser intransponíveis. Penetrá-los requer uma espécie de patrocínio de alguém que já pertença a essa “seita social” e possa nos dar o seu aval. Não se entra espontânea ou acidentalmente, ainda que na superfície pareça camaradagem, na base do “olá, meu irmão”, “oi, minha amiga”.

Algo me diz que você reconheceu de quem o texto fala, e tenho certeza que você acertou.

E a resposta, assim como o texto original completo, eu dou daqui a 24 48 horas.

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Enlevo, arroubo, deleite, êxtase

Resumindo: uau!!

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O ser humano, esse insatisfeito

León, Espanha, foto tirada ontem de manhã (e recebida por e-mail)

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(Centro da cidade do) Rio de Janeiro, Brasil, estou certo de que é destes dias recentes de verão (e a fonte é o JB Online)

Quem está num, quer estar no outro, é (quase) sempre assim.

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O resgate da brigada de Yuri [El País]

ATUALIZAÇÃO: o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (ICRC, sigla em inglês) pôs no Family Links Website uma seção exclusiva para o Haiti, que atende tanto aos que buscam parentes quanto aos que estão por lá e querem comunicar que estão vivos. Clique no linque: Locate your relatives

Embora não tenha parentes ou conhecidos por lá, repasso a informação.

*  *  *  *  *

São histórias que se repetem com incrível frequência. (São histórias que seguirão se repetindo.)

Alguns resgatam anônimos dos escombros; outros cuidam da própria sobrevivência; terceiros saqueiam. O futuro não existe, só o presente.

Segue abaixo uma reportagem que lembra um pouco do que presenciei no México, em 1985. Traduzo, embora acredite que a maioria entenda o espanhol sem maiores dificuldades.€$$$.

Antonio Jiménez Barca (enviado especial) — Porto Príncipe — 17/01/2010 [El País]

Em meio ao caos das ruas bloqueadas por saqueadores, dos prédios que viraram purê e de milhares de pessoas caminhando para lá e para cá feito formigas buscando água e comida, um velho caminhão russo avança com uma brigada de homens vestidos com macacões de soldador: pertencem a um grupo de resgate anárquico e eficaz, proveniente de Moscou, especializado em tirar pessoas vivas sob os escombros. Sábado à tarde foram vistos circulando por uma avenida de Porto Príncipe e alguém lhes mostrou uma casa partida em dois:

Ei, tem gente viva ali!

São os próprios haitianos que muitas vezes alertam as equipes de salvamento sobre haver gente viva embaixo das casas. Em tese, todas as manhãs ocorre uma reunião no centro de controle de resgate, localizado no aeroporto, em que um determinado bairro é designado a cada equipe de socorro. O grupo russo vai a essas reuniões, mas depois escolhe o seu caminho de um jeito próprio, deixando-se guiar pelos alucinados habitantes da cidade.

- Tem gente viva ali!

A rua é estreita, pequena, um tapete de escombros, prateleiras destroçadas e tijolos. De um lado, uma casa partida em dois, inacreditavelmente inclinada. As pessoas apontam para um buraco estreito que exala um cheiro adocicado de cadáver. Os membros da equipe russa começam a abrir caminho. São quatro horas da tarde. Uma multidão se forma ao redor. Numa casa próxima, achatada como se fosse de papel e alguém tivesse esmagado com uma marreta gigante, três jovens haitianos subiram no telhado inclinado e partido. Carregam um serrote, uma picareta e uma corda. Gritam que ali tem gente viva, mas o fazem rindo.

Enquanto isso, os russos se arrastam feito cobras pelo buraco e entram na casa. O pouco que sobrou virou um labirinto de quase dois andares de escombros, paredes e móveis, que parece sustentar-se no ar por uma linha invisível. A impressão que dá é que qualquer lufada de vento acabará derrubando a estrutura improvisada que mantém aberto o buraco por onde os russos continuam se metendo.

- São duas pessoas: uma moça e um menino, diz um dos salvadores.

- 15 pessoas viviam aí, replica um vizinho.

Na casa próxima, os três jovens sobre o telhado tiram lá de dentro um frasco de xampu e uma panela vazia e mostram a todos os que olham para eles, rindo sem parar.

Com seus macacões de outra época, seus capacetes de operário, seus tênis esportivos ou suas antigas botas de milico, os russos não parecem a equipe de resgate mais moderna ou mais bem vestida do mundo. Não usam distintivos brilhantes, nem logotipos de grife, nem casacos de cores berrantes ao extremo feito muitos dos grupos que vieram ao Haiti de todos os cantos do planeta. Yuri é alto, forte, louro, com um bigode de Asterix e uma ânsia compulsiva de fumar. Tem 45 anos e é de Moscou. Observa seus companheiros esgueirando-se pela caverna em que se transformou essa casa e confirma que dentro dela há duas pessoas vivas. No sábado completaram-se cinco dias desde o terremoto. Em tese, não era para mais ninguém continuar vivo, levando em conta o calor que tem feito em Porto Príncipe nos últimos dias, além do fato de não ter chovido, impedindo que os soterrados tivessem acesso a água.

- São duas pessoas: uma moça e um menino, diz Yuri, jogando o cigarro contra o que sobrou de uma pilastra.

Às sete já é noite. Os caras do xampu e da panela já levaram tudo o que podiam. Os russos continuam lá embaixo. A equipe se agita. Se ouvem gritos em russo, gemidos. Um especialista entra com uma maca.

Subitamente, iluminada por um facho de luz alimentado por um gerador, surge do buraco, estendida numa maca de metal, uma garota de uns 15 anos, olhos revirados, semi-inconsciente, a boca retorcida, o cabelo branco de poeira, a camiseta amarela manchada de barro. Tiram-na daquele beco a gritos empurrões, deitando-a na avenida. A garota se sacode numa convulsión. Yuri grita en inglês “Água!, água!, alguém traga água!”, e milagrosamente aparece una bolsinha de água que alguém rasga, abre y derrama sobre a boca da enferma. Esta se sacode de novo, se contorce, tosse, vomita, se queixa, revive, nasce outra vez: chora e diz num fio de voz, “Graças a Deus, graças a Deus”. Alguém lhe pergunta si há mais pessoas de sua família ainda vivas embaixo da casa e ela responde: “Não, sou só eu”.

Não é verdade. A alguns metros dali, Yuri, exausto, con el macacão de soldador coberto de poeira, diz para seus companheiros, tão cansados como ele:

- Vou fumar um cigarro e a gente tira o outro, tá legal?

Numa cidade normal, a história acabaria aqui. Em Porto Príncipe não; en Puerto Príncipe, estas histórias não terminam nunca. Hoje, um dia depois do resgate, a garota se encontrava deitada sobre um cobertor sujo, num hospital improvisado, sem médicos nem remédios, localizado num lodaçal, cercada de lixo. Uma galinha marrom asquerosa ciscava perto de sua cabeça.

Outra sobrevivente do terremoto definha ao seu lado, cabelos desgrenhados e olhar de louca, e perderá seu pé direito porque o ferimento gangrenou por falta de um antibiótico que na Espanha se consegue quase de graça. A garota resgatada por Yuri mostra aos que a visitam a barriga vermelha de sangue e logo se cobre com um lençol sujo, contorcendo-se de dor. Não há calmantes disponíveis. Ninguém disse a ela que talvez seu irmão esteja em outro hospital, que talvez esteja vivo. Não espera nada. Não sabe nada. Apenas repete una coisa, e desta vez diz a verdade:

- Não lembro de nada. Não tenho nada. Dói muito.

Como esses russos, há também mexicanos, belgas, chineses, canadenses, israelenses e de outras tantas nacionalidades que sempre se lançam assim que surgem notícias de tragédias de grandes proporções como essa do Haiti. Alguns têm apoio explícito dos governos de seus respectivos países, enquanto outros vão por sua conta e risco. Saúdo a todos, respeitosamente.

[Tradução: Ricardo Cabral. Erros grosseiros na tradução (apressada e sem revisar), no português ou, na melhor das hipóteses, na digitação, também são de minha lavra.]

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Que nem

Acrofóbico, igual ao pai.

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A firma subiu pro vigésimo terceiro.

Pediu as contas.

Em casa, Luciana explodiu. Foi pra Queimados, casa da irmã, Zequinha esgoelando no ombro, bracinhos esticados, pai!, pai!, paaaai!

Dois dias de cachaça, tristeza e pão.

Ligaram da firma. É pra passar lá e assinar a papelada, essas coisas.

Tomou banho.

Pegou a van.

“O RH foi pro vigésimo quarto”, disseram na portaria.

“Pra que andar?”, no elevador.

“Vinte e cinco”, suando feito um porco.

“Plin!”, a porta abriu. Desatou a correr, correr, no final do corredor o vidro da janela quebrou fácil, todo o prédio ouviu a pancada no teto da banca de jornal, esmigalhou a cabeça e arrancou um braço, sangue pra tudo que é lado, a Luciana se acabou de gritar e depois desmaiou quando leu no Meia Hora, e o ascensorista, “só vi o cara dizeno ‘no vinte e quatro não!, no vinte e quatro não!’”, contado à polícia, aos colegas da firma, ao dono da banca, três mil reais de prejuízo.

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Homofóbico, que nem o pai.

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Os Viralata fechou, péssima notícia

Avisa o Albano:

Este site fechou. Depois de cinco anos de atividade, vender quatro livros no mês do Natal foi um sinal de que eu devia me ocupar de alguma coisa mais produtiva. Tenho mais o que fazer do que ficar tomando conta deste pedaço de deserto.

Se você não conhecia o site, não vai lhe fazer falta. Siga seu caminho e seja feliz.

Se você o conhecia e não gostava dele, é hora de ficar contente como eu estou.

Se você o conhecia e gostava dele, por que nunca comprou um livro? Você acha mesmo que tudo o que importa deve ser feito pelos outros?

Mas se você conhecia este site, gostava dele e comprava um livro de vez em quando, peço-lhe desculpas. Aliás, farei isso pessoalmente, quando encontrar vocês três.

Se você é autor, entre em contato, vamos resolver o que ficou pendente.

E se você quer dizer alguma coisa, diga nos comentários. Mas diga logo, porque isto tudo vai desaparecer de vez no dia 30 de janeiro.

Quanto a mim, vou-me embora pra Tativille. Lá, sou amigo do Rei.

Uma pena, Branco, dá uma enorme tristeza quando algo assim acontece.

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La terra trema

É um belo título, o desse filme do Visconti. Mas não é bem sobre cinema que quero falar, e sim de um sentimento: quando a terra treme e gente morre aos milhares, parte de mim vai junto. Não torça o nariz, garanto que é sério.

A experiência de um terremoto não se esgota depois daqueles segundos em que tudo balança e nada de mais sério te acontece. Ela muda nos minutos seguintes, quando depois de confirmar que parentes e amigos mais próximos nada sofreram além de perdas materiais, você descobre que ganhou na loteria pelo simples fato de não ter ido morar no quarteirão ao lado, onde três prédios e oito casas caíram e ainda não se sabe quanta gente morreu nem dos que ainda continuam vivos, presos no meio dos destroços. E muda de novo, feito gangorra. (Não, gangorra é pouco. Muda feito montanha-russa.) Porque o seu alívio por ter saído ileso tem consistência de nuvem. O teu vizinho perdeu alguém, amigos teus idem. Sua escola, faculdade, seu trabalho, o boteco que frequenta depois do expediente, nenhum deles segue igual. O celular que não funciona; a luz que toda hora cai, se é que já voltou; a falta de gás. Gás? Como vou preparar o almoço-jantar-café da manhã seguinte? A padaria!… fechou, morreu o padeiro, os outros dois atendentes faltaram, não se tem notícia deles. Ou pior ainda, o prédio onde ficava a padaria veio abaixo. E a história se repete no restaurante da esquina, na birosca, e comprar mantimentos para estocar — água mineral, muita, das primeiras coisas que desaparecem de qualquer prateleira que siga em pé — é trabalho de Hércules. E mesmo que você quisesse fazer de conta que está tudo bem — como mecanismo de defesa, ou por puro individualismo escroto, tanto faz —, não vai dar. Por onde quer que você ande o lugar em que mora vai te gritar o tempo todo que tudo mudou, deixou de ser o que era. Virar pro lado? Fechar os olhos? Tem o cheiro, não adianta. Cheiro de carne podre, de esgoto, de vazamento de gás, cheiro de morte. E você aprendeu ainda criança que não dá para ficar muito tempo sem respirar.

Numa situação dessas, não sei em que momento você vai começar a se mexer. Minutos? Horas? Não sei, já disse. Sei apenas que aquele que passou (ou está passando) por semelhante experiência sabe que mexer(-se) é o verbo-chave depois de um terremoto. Há os soterrados, que querem e não podem, sem falar nos tão graves que, se tentarem se mexer, aumentarão o estrago e morrerão mais depressa. (E não me venha com conversinha idiota de que é melhor para eles, diminuirá o seu sofrimento. Não seja imbecil, não é a sua vida.) Há os paralisados, ao lado dos prédios caídos, sem saber o que fazer, para onde ir ou por onde começar. Há os que não querem mover uma vírgula de suas rotinas e que, a depender da magnitude do sismo, até conseguem. (Desses eu não tenho pena, nem mesmo se o fazem por aferrar-se neuroticamente ao que entendem ser suas vidas. Não há tempo para gastar sentido o que quer que seja por eles. Em terremotos há muito o que fazer.) Há também os que estão longe, geograficamente falando. Alguns se mexem para ajudar; outros só assistem; terceiros mal ficam sabendo, envolvidos com suas próprias agruras cotidianas. (As variações são tantas que nem dá para fazer qualquer juízo sobre eles. Melhor deixá-los de fora da história.) E há, ainda bem, os que podem se mexer e o fazem — alguns bem depressa, outros um pouquinho mais tarde —, como que munidos de um espécie de espírito de bombeiro,  saindo em disparada rumo ao epicentro das tragédias. (São os imprescindíveis, como diria Brecht.) Não tenho ideia de onde você se encaixa, só você mesmo para dizer.

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Disse que parte de mim vai junto, e afirmei que é sério. De experiência pessoal, já contei por aqui que levo uns três terremotos nas costas — ainda criança nos dois primeiros, já adulto no último, e os simples tremores de terra ninguém leva em conta —, e que aí está o tipo de vivência que não tenho a menor vontade de repetir. Este que acabou de acontecer no Haiti vai  juntar-se ao da Itália, aos do Irã e tantos outros pelos quais não me mexi. Direi que é porque estou longe, geograficamente falando, envolvido em minhas próprias agruras cotidianas, e tendo que empenhar quase todo o meu esforço em ações por aqui por perto — embora costume mexer-me com doações, trabalhos voluntários ocasionais… é pouco, tem razão. A meu favor, algum crédito pelo que fiz no passado deve ter sobrado, assim espero. Mas o cheiro quase sempre volta. E não é cheiro de brioche, nem de madeleine. É cheiro de morto, e não é bom não.

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Atualização: meu vizinho Daniel colocou informações preciosas no seu blog, no post Terremoto no Haiti: Como ajudar os afetados. Passe lá.

Além disso, seguem outras contas para fazer doações:

Embaixada do Haiti no Brasil
Banco do Brasil
Agência 1606-3
Conta corrente 91.000-7
CNPJ 04170237/0001-71

Cruz Vermelha
HSBC
Agência 1276
Conta corrente 14526-84
CNPJ é 04359688/0001-51

Viva Rio
Banco do Brasil
Agência 1769-8
Conta corrente 5113-6
CNPJ 00343941/0001-28

Care Internacional Brasil
Banco Real-Santander
Agência 0373
Conta corrente 5756365-0
CNPJ 04180646/0001-59

Pastoral da Criança
HSBC
Agência 0058
Conta Corrente 12.345-53
CNPJ 00.975.471/0001-15

[Fonte: O Hermenauta e UOL Notícias]

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Joga pedra na Geni… Êpa, mas a Geni somos nós!!

Gaivotas atacam baleias na Patagônia,

… e parece que a nossa espécie tem culpa no cartório, mais uma vez.

Se bem que isso está acontecendo na Argentina, então… deixa pra lá, a piada é ruim.

(Mudando de assunto, tamanho não é documento mesmo, não?)

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Uma pequena observação

Acabei de ler mais um post do divertido blog Classe Média Way of Life. A dica que ele oferece hoje [ontem] a quem deseja comportar-se como um legítimo representante da classe média brasileira é das mais provocadoras:

Ficar chocado quando um rico morre tal qual um pobre

Tá bom, o humor ácido do post diverte, como de costume. Só que o raciocínio desta vez me pareceu um pouco chocho, preguiçoso mesmo, pois a maneira de lidar com a morte expressa nesse post está longe de ser prerrogativa da classe média, o que, aos meus olhos, diminuiu a força da crítica que o blog se esmera em fazer.

Deixe eu explicar melhor. O título fala sobre um sujeito classe média dever chocar-se com a morte de alguém — no caso, um rico — por conta das condições incomuns dessa morte em relação aos de sua [do morto] classe — isto é, tal qual um pobre. A graça (ácida) estaria na constatação de que este seria um comportamento (proto)típico, caracterizado pela empatia em relação ao outro, só que não qualquer outro: um rico ou, quando muito, um reconhecido expoente da classe média. Os demais? Ora, a ralé que se lixe.

O problema é que, como já sugeri dois parágrafos acima, a estrutura desse comportamento é algo comum não apenas à classe média, mas a todos os seres humanos, que basicamente se veem fortemente abalados por dois tipos de mortes:

1) de pessoas que lhe são próximas (parentes, amigos e pessoas semelhantes a elas, com quem obviamente se identificam em algum nível não muito distante), essas que o post disse que não levaria em consideração em seu raciocínio; e
2) de pessoas que elas admiram por uma razão qualquer (e, no que se refere ao impacto da morte, tanto faz se o “abalado” queria ou não “chegar no patamar em que o seu objeto de admiração chegou” em termos de “escala social” ou coisa parecida. Importa é que o outro estivesse “acima” dele).

As estatísticas sobre como se morre também influenciam, algo que o post detectou muito bem. Nesse sentido, não creio que os médio-classistas fiquem muito abalados, por exemplo, quando na época das festas de fim de ano algum vizinho morre de ataque cardíaco depois de se entupir de peru, chester, panetone, rabanada e espumante. Tampouco deve durar muitos dias o choque pela morte daquelas 57 famílias (também de classe média, como eles) nos inúmeros acidentes de carro espalhados pelo país, sobretudo se já se voltou da sua própria viagem de carro e (”ainda bem!” que) nada aconteceu.

Mas o blog, que se pretende um crítico mordaz de um certo tipo de classe média, dedica-se por isso mesmo a cutucá-la com varas de todos os comprimentos. Assim sendo, “descreve” o que seria a distinção que a classe média faria entre “a desgraça” — um evento com o qual o médio-classista lida muito bem” e que é reservado sobre tudo aos pobres, que “morrem o tempo todo, das mais variadas formas. Isso é normal. Está tudo bem, desde que não seja durante o expediente ou na véspera da faxina” — e “a tragédia que abalou a família brasileira” — representada pela “(…) morte de um rico (ou mesmo um médio-classista respeitado em seu meio) em circunstâncias em que normalmente só morreriam pobres”, como o próprio título do post fala.

E aqui retomo o meu próprio raciocínio, dizendo que essa distinção pode muito bem variar de conteúdo, mas tem uma dinâmica comum a todos os seres humanos: o impacto de qualquer evento — e neste caso em particular, a morte de alguém — se vê elevado à enésima potência sempre que foge do habitual, daquilo que costuma acontecer no entorno da vida de cada um.

Reitero então o óbvio: aquilo (e/ou aquele) que é próximo nos afeta com muito mais intensidade (e por mais tempo) do que aquilo que é distante — entendendo essa proximidade em termos de identificação, semelhança, ideal, por exemplo, e não propriamente de proximidade física/geográfica. E, de novo, tanto faz que seja rico, pobre ou classe média.

Ou seja, a questão extrapola os limites da classe que o blog quer satirizar, daí o resultado ser menos crítico do que de costume.

Bom, mas e o resto? Tragédia, como diz o post.

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Três dias

Segunda-feira, 04 de janeiro de 2010

O Google vai iniciar, esta semana, o trabalho fotográfico para registrar imagens das ruas de São Paulo e Rio de Janeiro. [INFO Online]

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Rio de Janeiro, terça-feira, 05 de janeiro de 2010

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Quarta-feira, 06 de janeiro de 2010

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Das alegrias que o Google (também) me dá (d’après Rafael Galvão)

Se nada mudar pelo caminho, hoje finalmente terei o prazer de jogar conversa fora com o Rafael Galvão. Por conta disso, acabei lembrando da impagável e inimitável série do seu blog, As alegrias que o Google me dá, e de como grandes blogueiros até se arriscam em coisa parecida, só não creio que de maneira tão brilhante como da série do Rafael, um verdadeiro clássico da blogosfera brasileira. (Talvez o Nelson Moraes seja tão bom quanto o Galvão, mas o páreo é duro.)

Tentando de maneira sem-vergonha homenagear um dos meus blogs preferidos — e o pior é que já fiz isso antes —, deixe eu também tentar me livrar da quantidade de perguntas impressionantes que o povo faz no Google e por alguma obscura razão acabam caindo aqui na Ágora. E cá entre nós, nem deem bola para os meus comentários, pois o verdadeiro teatro do absurdo está nas frases em negrito. Vamos a elas:

o q significa rep auer - Significa que quem perguntou escuta muito bem, mas não sabe nada de inglês.

alegoria da caverna maya - É a confraternização dos povos: o grego Platão; os Maias, das Américas Central e do Norte; e a Maya, da novela metida a indiana. Verdadeiro carnaval, nota 10 na categoria “alegoria e adereços”.

bernardo cabral e zelia cardoso fizeram amor? - Não sei dizer se aquilo entre eles foi amor, só sei que no meio do caminho a gulosa pegou na poupança de todo mundo.

mae do bambi - Morreu.

fotos de traficantes mortos no tabajaras - É no Rio, perto lá de casa, mas parece que não tem, acabou. Espere pelo tiroteio das segundas ou o dos sábados, deve sair uma nova leva.

li de leroulê - Lamento, não tenho ideia do que está falando. Só conheço a dos três tristes tigres e a do ninho de mafagafos, onde três mafagafinhos há.

algunha coisa sobre insalubridade - Está no português de quem escreveu.

Nosso cocô é parte de nós mesmos, é a fraternidade que não podemos construir com nossos cú - Em nós não, em nós não. Aliás, sugiro livrar-se das ideias malcheirosas que habitam nessa cabeça. E aproveite também pra tirar o acento do cu.

qual a diferença entre siririca e punheta - Começa com a história da cegonha, que traz as criancinhas de Paris de uma em uma, as meninas enroladas num cobertorzinho rosa, os meninos enrolados num cobertorzinho azul. Como a viagem é longa e o tédio é grande, tome-lhe siririca nas meninas e punheta nos meninos.

como evitar o homossexualismo de uma criança - Tirando as palavras “homossexualismo”, “evitar”, “como”, “de”, “uma” e “criança”, a pergunta parece boa. Melhor ainda se for “como evitar a homofobia em um adulto“.

posso ter a carteira de trabalho assinada como profissional do sexo? - Até onde sei a profissão ainda não foi regulamentada, então provavelmente não. Culpa da bancada evangélica, bando de deputados e senadores filhos da… êpa, desculpe!

efêmera buceta - Foi embora e nem se despediu? Que chato.

sexo com porco - Só quando a internet tiver cheiro. Enquanto isso não acontece, siga trancado(a) sozinho(a) no quarto vendo vídeos pornô pela internet, e esqueça de tomar banho. Com sorte o resultado dará naquilo que procura.

seksso com animal - Tem dois: o insalubre lá de cima e o porco do item anterior. Voto pelo insalubre, acho que ambos se entenderão muito bem.

ele me deixa toda assada - Primeiro use lenços umedecidos, seguido de Hipoglós. E troque as fraldas.

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Sei não…

Numa caixa de comentários, o Rodrigo Cássio comentou:

A análise da “sensorialidade” que orienta a experiência social neste momento do capitalismo é de grande importância, a meu ver. O cinema hollywoodiano depois dos anos 1970 é altamente sensorial, basta observar a importância dos efeitos especiais ou do impacto sonoro para que os filmes “funcionem”.

Com a recente retomada do 3D no cinema — de que Avatar extraiu o máximo possível até o momento —, os sentidos cinestésico e vestibular somaram-se aos visual e auditivo na experiência de ver um filme. (O paladar já estava fortemente envolvido com a pipoca, o refrigerante e os doces.) Falta só acrescentar o olfato1 para ajudar a achatar de vez a perspectiva do devaneio e da reflexão que muitos filmes ainda provocam em nós, não é?

O que quero dizer com isso? Ora, que o olfato é mesmo o nosso sentido mais primitivo — não é juízo de valor… bom, faça de conta que não é —, mais ligado às nossas emoções básicas, aquele que menos damos conta de controlar, e que também é inebriante, hipnótico. Não é à toa que desde pelo menos a década de 50 do século passado milhões vem sendo aplicados numa área conhecida como marketing sensorial, da qual faz parte o marketing olfativo, e há gente que não acaba mais ganhando com isso, ou melhor, lucrando ou querendo lucrar com os nossos narizes.

“Os cheiros ficam gravados no cérebro humano de um jeito extremamente durável”, explica Aurélie Duclos, pesquisadora em marketing olfativo. “Eles são estocados no nível do sistema límbico, sob a forma de emoções ligadas ao contexto no qual marcaram o sujeito. Se a pessoa sente outra vez um desses odores, ela volta a mergulhar na experiência vivida antes.”2

Bom, e o que o cinema teria a ver com isso? Até onde tenho notícias, não muito ainda — ao menos nada que se pareça com o que a indústria dos jogos eletrônicos parece a caminho de fazer3, essa sim a cada dia mais sedutoramente sensorial e hiper-realista. Mas do jeito que acordei pessimista em relação à espécie humana, algo me diz que essa onda de supervalorização corporal deixará ainda menos espaço para um cinema mais autoral, (eventualmente) intimista, (relativamente) independente, que inquiete, perturbe, sobretudo por não oferecer apenas sensações primárias, soluções fáceis ou “finais fechados”. Salvo honrosas exceções, não duvido que o lucrativo filão do estímulo sensorial mais básico vire regra, com o auxílio luxuoso das TVs logo logo também em 3D. O que não me deixa mergulhar completamente no pessimismo é saber da criatividade humana, essa mesma que surpreende qualquer pretenso futurólogo que tente vaticinar o fim disto ou a morte daquilo.

Ah, ainda no tema dos sentidos, não pensem que esqueci de falar do tato. É que ele já faz parte da sala escura do cinema desde sempre, especialmente quando se vai assistir a um filme bem acompanhado, e nem é preciso que o espetáculo seja bom ou ruim para que ele entre em ação.

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1 Falta não, e não apenas pela sua conexão direta com o próprio paladar. Há em parques de diversões mundo afora salas de cinema onde se sente cheiro de pólvora após explosões, de borracha queimada quando surge a imagem da arrancada de algum carro, por exemplo. Mas isso tudo é restrito, até o presente momento ainda não foi incorporado de forma maciça ao cinema.

2 MAZOYER, Franck. A fábrica do desejo. Le Monde Diplomatique, abril 2008.

3 Idem.

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Os críticos também amam

Estava eu tentando responder ao comentário que o Theo Dreamer deixou no post sobre Avatar, quando vi que o troço foi ficando tão comprido que resolvi transformá-lo no meu segundo post de 2010.

A conversa em torno do papel da crítica, em particular da crítica de cinema, começou com o Theo falando da ojeriza que esta lhe causa:

Geralmente odeio críticas. Não sei, tenho sério preconceito com essas pessoas que citam Godart e Fassbinder como se fossem filósofos e citam Adorno, Nietzsche e Platão, como se eles tivessem feito uma teoria do cinema. (ok, o Adorno faz um pouco disso) Essa mania pseudo-cult de relacionar isso a aquilo (ex: Essa cena tal faz uma referência clara ao que Nietzsche chamou de “eterno retorno”) contribui para que eu mantenha meu eterno ar blasé. Críticos me dão nos nervos, porque geralmente idolatram um cineasta e odeiam todos os outros, além de falar as mesmas coisas de sempre, contra a indústria cultural, contra isso, contra aquilo… E sempre procurando um defeito.

Antes de me alongar, deixe eu começar explicando uma coisa. A avaliação que farei é ingênua, primitiva mesmo, porque 1) é a primeira vez que a ponho no papel; e 2) não tem base teórica, é mera experiência pessoal, associada a uma preguiça atroz de pesquisar e aprofundar-me sobre o assunto, sobretudo pela quantidade de interesses e obrigações prioritários para mim e que nada têm a ver com o tema. Outra coisa: se achar que há muita bobagem no que segue, as críticas seguem obviamente franqueadas. Essas explicações e o meu amadorismo não servem como desculpa para desviar-me das críticas, estamos conversados? (Cesar Kiraly e Rodrigo Cássio, dois dos meus vizinhos de condomínio e excelentes críticos de arte, por favor, pelo menos vocês não me trucidem, tá?)

Dito isto e voltando ao comentário do Theo, eu também me aborreço com críticas que mais parecem exibição de pretensa erudição — ou erudição exibicionista, o que não é muito melhor — do que análise criteriosa de um determinado objeto. Mas quero deixar claro que não compactuo com uma espécie de anti-intelectualismo que anda imperando por aí — que não vejo no comentário do Theo, ok? —, onde qualquer texto/crônica/ensaio/post que apresente referências distantes daquelas consumidas no presente instante ou que não seja escrito de maneira totalmente coloquial, pimba!, seu autor automaticamente vira pseudo-intelectual, pseudo-erudito, enfim, um rematado mala pseudo-filosófico. Só uma coisa me intriga nesses rótulos. Com que base intelectual/filosófica as pessoas avaliam os demais para julgá-los falsos? Como diferenciam um intelectual de um pseudo-intelectual? Juro que gostaria de saber.

Volto-me agora aos próprios críticos, passando pela avaliação que o Theo fez deles, que admitiu ser atravessada pelo preconceito — um clube de que também sou sócio, é claro (carteirinha número 1964). De minha parte, ao refletir sobre um objeto cultural qualquer — filme, peça de teatro, livro, obra de arte etc. —, volta e meia me flagro pensando no papel de cada um nessa engrenagem. E por cada um, leia-se: a obra, o autor, o público, os críticos e o contexto cultural onde tudo isso se insere. Pressuponho que o senso-comum (que, obviamente, também me inclui e em parte é base disto que escrevo agora) entenda que a relação mais importante entre todos os citados seria a da obra com o público, vindo o autor logo atrás, colado neles, e cabendo ao crítico um papel secundário, satélite mesmo, uma espécie de molho (às vezes de pimenta) que não seria fundamental para o prato, mas proporcionaria novas “sensações” sobre ele. (Ah, pressuponho também que vocês e eu compartilhemos dessa visão. Não? Então façam-no nem que seja de forma provisória, suficiente para completar o meu raciocínio.)

Do pressuposto acima, ocorre-me uma série de variações:

1) o autor ser uma reconhecida estrela (até mesmo pela sua história, mas não necessariamente por causa ela, já que ele pode ser uma estrela circunstancial, uma instant celebrity qualquer) e brilhar mais do que a obra, ou influir, para o bem ou para o mal, na percepção do valor que todos dão a uma obra em particular (um valor não apenas estético, mas também econômico);

2) Os interesses mercadológicos, com grana a rodo para campanhas de marketing a favor da (e às vezes contra a) obra e/ou o seu autor, às vezes chegando ao cúmulo de pouco importar se a obra e/ou o autor tem um mínimo de consistência*;

3) O lugar da(s) crítica(s) nessa engrenagem, que muitas vezes está(ão) 100% à serviço do item 2 (e, por extensão, atuando de maneira favorável ou desfavorável à obra e/ou ao autor), algumas vezes em menor porcentagem, mas sempre cumprindo um papel qualquer, que em certos casos chega a ser o de protagonista, recebendo mais crédito do que a própria obra avaliada;

4) o tal contexto cultural, que engloba os valores comuns e a posição que cada um desses valores ocupa num dado momento, fazendo com que uma obra, digamos, tecnicamente muito apurada (um livro, uma música, um filme), possa passar totalmente despercebida em função de não versar sobre aquilo que esteja em evidência — como é o caso, hoje, de tudo o que gira em torno de vampiros… haja saco!;

5) a obra ser mesmo fantástica (por motivos para além dos até aqui expostos) ou inapelavelmente uma merda (por n outros motivos também).

5.1) O fato da obra ser uma merda** com frequência leva-a ao estrelato, movimentando fortunas. E refiro-me a esse “uma merda” não apenas como avaliação dos que torcem o nariz para ela e sim da grande maioria, independente de classe social, gênero, geração ou credo. Nos dia de hoje não dá para negar o lugar privilegiado alcançado por tudo o que é considerado trash pela maioria, e a indústria cultural há tempos tem feito uso (e abuso) disso.

Ou seja, são inúmeras as combinações possíveis, e muitas vezes só a distância nos permitirá avaliar de maneira mais justa o valor de um produto cultural qualquer.

Quanto ao papel crítico em particular, de minha parte reconheço o valor do seu ofício. E digo mais: considero que ficar falando que se trata de “artistas medíocres e frustrados” que por isso mesmo destilariam veneno e fel contra aqueles que, no fundo, apenas invejam, é uma apreciação rasa e mesquinha. (Não que alguns deles não sejam assim, até porque maus profissionais existem em todo ofício e não poderia ser diferente com os críticos.) Quando penso no papel de um Cahiers du Cinéma, por exemplo, com seu caráter inclusive pedagógico, não posso querer que os críticos desapareçam. Quantas vezes um filme recém visto e quase esquecido não se transforma completamente depois da leitura de uma crítica bem escrita, dessas que iluminam partes da obra que sequer tínhamos percebido, que fazem pontes com outras obras para ilustrar, contrapor, enfim, para fazer-nos refletir sobre aquilo de que muitas vezes não tínhamos nem mesmo noção? Uma boa crítica dialoga com a obra, com o autor e com o público, é com entendo. E inclusive pode ser capaz de tirar leite de pedra, fazendo com que obras medianas ou medíocres gerem discussões fertilíssimas, ou que outras que caíram no esquecimento possam ressurgir do limbo não merecido em que foram postas.

Claro que nem tudo são flores. Há críticos que viram estrelas e invertem a ordem dos fatores, tornando-se o foco principal e levando as obras a um lugar secundário. E o pior é quando desse lugar eles são capazes de orientar o olhar de boa parte do público — claro que com os meios de comunicação e as demais engrenagens da indústria cultural ao seu lado —, de tal forma que muitas vezes as pessoas acabam por não ver e já gostar (ou detestar), o que em tempos de eu tenho pressa e tanta coisa me interessa pode matar muitas obras que mereceriam ser apreciadas, enquanto algumas verdadeiras excrescências acabam levadas às alturas.

Apesar de tudo, peço a vocês: deem uma chance aos críticos. De vez em quando eles têm dias ruins, acordam de mau humor, e concordo que alguns ainda em começo de carreira abusam do latim para mostrar serviço (e outros em fim de carreira idem). Mas um pouco de boa vontade com eles pode retornar para o público — vocês, eu — em forma de informação, de orientação, e sobretudo reflexão, palavrinha que vale muito, muito mesmo, e vocês sabem disso.

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______
* Supondo que dê para retirar toda a roupagem midiática e mercadológica e que ainda sobre alguma coisa que chame a atenção de maneira positiva para algum inadvertido espectador. Se isso não é possível na prática, tome ao menos como teoria, feito aquelas descrições das fórmulas de física que sempre descontam o atrito, por exemplo.

** Aqui o que vale é a consideração da grande maioria, a aceitação de que ela é de fato ruim e que é isso que se quer dela, de modo a poder sobretudo rir, debochar dela, achincalhá-la, feito um palhaço no circo ou um Judas a ser malhado no sábado de Aleluia.

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De olhos fechados

[Atualizando]

Em quase treze anos, nunca vi cair.
Devo ter sorte.

P.S. Faz um mês que não vejo não ver cair. Ô falta!

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Links para o que li sobre Avatar na blogosfera brasuca

Assisti na semana passada, e passei os olhos por vários posts que trataram do “filme do ano”, na opinião de trocentos entusiastas. (Só pelo trocentos você já sabe que não estou entre esses entusiastas. Mas se você viu e gostou, não se preocupe, também não me enquadro na turma que detestou e nem estou aqui para ser estraga-prazeres… acho.) Entre os posts, destaco os de alguns blogueiros que aprecio e leio regularmente, enquanto os de outros eu tive acesso graças a links de terceiros. Seguem abaixo os que li, sem ordem predefinida:

A Revista Fórum publicou uma crítica do André Lux intitulada Crítico-Spam: “Avatar”, que cai de pau no filme, só que na base do

[...] o que está por trás desse tipo de mensagem aparentemente edificante em nível subliminar? Algo que ninguém parece perceber (ou prefere fingir não perceber): a necessidade de nublar a mente das pessoas e deixá-las acomodadas aos valores morais mais torpes e hipócritas que existem, já que podem ver realizados na tela do cinema todos os sonhos e desejos de redenção e vitória que nunca se realizariam no mundo real, deixando-as assim alienadas e entorpecidas. Ainda mais quando tudo vem reforçado com louvor a crendices sobrenaturais (que alguns chamam de “religião”), do tipo “reze bastante que um dia você será atendido”!

Ou seja, “contra burguês, vote 16“. Meus amigos simpáticos ao PSTU que me perdoem, mas a esta altura do campeonato achar que um filme do James Cameron vai fazer papinha das nossas mentes é ser pré-punk demais, para dizer o mínimo. (O autor que também me perdoe, mas não vou me alongar na análise de sua crítica. E se quiser ver na recusa deste pouco expressivo blogueiro a simples confirmação de suas teses, fique à vontade.) Uma pena, porque há sem dúvida muitos pontos a criticar no filme, inclusive seu suposto apolitismo e suas pretensas críticas (curiosamente políticas) ao modelo intervencionista norte-americano, à sociedade de consumo e à desatenção com a ecologia, que certamente pecam pela superficialidade e primarismo, marcas constantes do diretor. Mas daí a acreditar num projeto de “[...] ludibriar e entorpecer mentes a fim de deixá-las conformadas e amorfas frente à dura realidade que as cerca” , é chão que não acaba mais. Aliás, é ser tão clichê quanto o próprio diretor do filme. Só para contrabalançar, lanço mão de um trecho da crítica de Ana Al Izdihar (colunista d’O Pensador selvagem) que saiu publicada no Amálgama (e também foi reproduzida na própria Revista Fórum):

O estilo de Cameron é sempre eloqüente, um tanto exagerado e segue a narrativa clássica hollywoodiana: mocinhos e bandidos bem definidos, com discursos cujas mensagens denotam ideias que resvalam no clichê (vide David Bordwell). Muitos outros diretores fazem o mesmo, como Steven Spielberg ou Mel Gibson, e ainda assim os filmes, pelo menos em minha opinião, não deixam de ser bons. Sejamos francos, hoje em dia não há mais espectadores bobinhos que acreditam em tudo o que o cinema diz, e conseguem curtir um filme, mesmo que o enredo soe como uma tremenda marmelada. Também espectadores já não mais saem correndo do cinema quando vêm um trem vindo em direção à câmera, pensando que o mesmo vai passar por cima deles (como aconteceu nos primeiros dias do cinematógrafo)! Se bem que com a geração 3D até temos essa sensação. Na sala de cinema eu ouvi muito mais “ohs!” e risinhos do que manifestações de medo. (Grifo meu)

Aliás, a Ana Al Izdihar é certamente muito mais generosa com Avatar do que eu fui. O seu post vale uma leitura, sobretudo por conta dos extras que ela juntou: informações sobre o diretor — sua relação com os animes e também com Star Wars, o fato dele ter criado a stereo imaging camera etc. —; referências a Jung, Campbell e até aos irmãos Vilas-Boas, e à origem da palavra Avatar, entre outros. Mas se por um lado falei antes das sérias reticências ao maniqueismo do texto do André Lux, devo dizer que também torci um pouquinho o nariz para o que a Ana diz no final de sua resenha: Avatar é um filme lindo tecnicamente falando e simpático tematicamente. Não se impressione com pessoas auto-intituladas ‘cult’ que exigem que toda narrativa seja contada de modo obscuro, inescrutável e entediante” (grifo meu). Sei não, Ana, juro que não conheço alguém que se auto-intitule cult. E no que me diz respeito, gosto muito de filmes que, a levar em consideração o seu comentário, você acharia entediantes. Será que não tem outras opções não?

O texto do crítico Fabrício C. Santos, publicado no blog do Lisandro Nogueira, é tão favorável ao filme quanto o da Ana Al Izdihar, mas vai um pouco mais longe nas associações com outros filmes e referências culturais, ainda por cima as recheia de humor, como quando diz que

[...] o planeta Pandora tem em seu tropicalismo neônico algo de capas de discos do Santana, e uma árvore sagrada parece tirada do show do Radiohead. É tudo lindo, lindão, lindonérrimo nas lentes abertas e escancaradas, mas algo parece dizer que em 20 anos ou menos vamos olhar pra trás e achar tudo uma breguice exagerada. Até lá, essa papagaiada carnavalesca e despirocada de ácido e algum misticismo diverte, de verdade.

Ou ao falar que “os Na’Vi são um povo maculelê hipponga natureba, mas com cabelos-USB”. (Achei essa de “cabelos-USB” ótima.) Mas o Fabrício não deixa de dizer que de fato a história é batida, simples e carrega demais nos clichês. Se bem que ele vê vantagens nessa simplicidade, imaginando a confusão que não seria se o roteiro fosse escrito pelo Charlie Kaufman, por exemplo. É um argumento bacana, mas no caso específico de Avatar não assino embaixo não. Poderia até ter sido uma história simples, mas essa daí foi mesmo simplória. (Preciso ser justo, o Fabrício também usou essa palavra.) A impressão que me deu é que depois de 15 anos envolvido nas questões técnicas do filme, o Cameron lembrou, provavelmente enquanto tomava uma chuveirada, que precisava de um roteiro. Saiu do banho, olhou pro rolo de papel higiênico e disse não, assim também já é demais, então pegou a caixa de lenços de papel junto à pia e rascunhou o roteiro inteiro em 12 minutos e 33 segundos, cronometrados. Deve ter dado tempo de um(a) estagiário(a) digitar, só não sei se sobrou algum para fazer outras versões do roteiro.

Bom, o texto do Fabrício C. Santos é bastante completo, além de extremamente bem-humorado e também elogioso ao filme, sobretudo ao que ele considera “a experiência” de vê-lo no cinema. Falta então mencionar mais três posts: um d’O Hermenauta, outro do Mauricio Santoro e um terceiro, do Rodrigo Cássio. (Pera aí, vou correndo ali almoçar e já volto, que o tempo para escrever um post e ainda comer antes de voltar ao trabalho é curto.)

(Voltei do almoço e já tomei um copo de café. Deixe eu correr antes de enfiar a cara nas obrigações.)

Na verdade, o Hermê escreveu dois posts. O primeiro não aprofunda tanto quanto o segundo, mas, como de costume, oferece links para os assuntos mais diversos, desde o quanto o filme não seria uma drug trip, até as aparentes pretensões econômicas do diretor na área de jogos. É mesmo no segundo, A ciência de Avatar, que aborda questões super-interessantes (ao menos para mim) sobre o viável e o criticável no filme, em termos de ciência e tecnologia. Só pelo exemplo da Máquina de Anticitera, de que nunca tinha ouvido falar, já valeu o post. (Se ele resolver parar de blogar como tanta gente fez ao longo do ano, isto daqui ficará mais sem graça ainda. Quem vai me divertir desmontando as bobagens do RA?, quem??)

O Maurício Santoro, em seu ótimo Todos os Fogos o Fogo, pareceu ser o mais entusiasmado entre todos os blogueiros que li falando sobre Avatar. Ele toca em alguns dos temas que o primeiro post do Hermenauta aborda — o “going native“, por exemplo — e ainda extrai de alguns dados do filme (o que seriam) indicadores de aspectos hoje críticos e que seguiriam sem solução nos próximos 150 anos, quando se passa o filme — violência urbana, fracasso na reforma Obama da saúde, crise de energia. Enfim, um bom post que toca numa série de questões levantadas diretamente pelo filme, mesmo que este não pretenda aprofundá-las e sim entreter o espectador num festival sensorial sem precedentes.

Por último, o Rodrigo Cássio, com seu blog Vistos e Escritos agora no condomínio d’O Pensador Selvagem!, diz em seu post (A imagem que deslumbra) como o cinema de Avatar, embora embasbaque visualmente e ajude a rejuvenescer “a eficácia hollywoodiana [...] segue um itinerário bem calculado desde que surgiu, nas primeiras décadas do século XX, e o filme de Cameron nada mais é do que o momento atual dessa única narrativa”. Rodrigo Cássio vai mais longe nessa crítica ao mais-do-mesmo-com-magnífica-roupagem-3D que Avatar representa. Passo-lhe a palavra:

faz sentido esperar que essa técnica ajude a camuflar o cinema, o outro cinema, o que não responde ao ímpeto dos estímulos realistas, e sim ao ímpeto da fantasia permitida, do encantamento, da mentira que pode se reconhecer como tal, como sempre nos melhores filmes, menos em função do aparato das salas exibidoras que da criatividade dos diretores-artistas. E essa técnica fará isso na mesma medida em que alicerçar um novo padrão de consumo para o espectador médio: o filme 3D tende a se consolidar como a maior novidade deste padrão, talvez não em curto nem em médio prazo, mas esse é o destino natural de um empreendimento que começou com imagens mudas em preto e branco, e hoje já nos alimenta com perspectivas mostradas ao gosto do olho humano.

Não preciso comentar mais nada, uma vez que ele disse o suficiente, e ainda arrematou com uma expressão que sintetiza os tempos atuais, “um tempo de tão poucas suspeitas como o nosso”.

Mas não me aguento, tenho que falar nem que seja um pouquinho, pelo menos comentar que evitei ler muita coisa sobre o filme antes de ir vê-lo. Não que isso seja uma prática costumeira, como quem quisesse evitar ser contaminado pelo olhar alheio em relação a o que quer que seja. Foi em parte por acaso, em parte por um reconhecido preconceito: não apenas já vi boa parte dos filmes do James Cameron, como também imaginei que todos fossem exaltar o aparato tecnológico e a grandiosidade e o estilo vambora-moçada-quero-todo-mundo-babando das cenas. Afora isso, sei que evitar essa tal contaminação é um jogo inútil: não há possibilidade de enxergar o que quer que seja sem as lentes da cultura, do gênero e da geração a que pertenço, incluindo aí as milhares de horas vendo filmes de todo tipo, mas com grande acento nas produções off-Hollywood — e off-Bollywood também, vale acrescentar.

Pronto, agora é hora daquele ar blasé antes de falar mal do filme… Êpa, será que ter senões a ele é ser metido a intelectual, cult ou coisa parecida? Pera lá, também não é assim! Não tenho nada a dizer que já não tenha deixado entrever em meus comentários aos posts sobre o filme. Só acrescento que também consegui enxergar nos Na’vi uma tribo de índios norte-americanos, uma mistura de Sioux com Moicanos, e que essa visão me deixava na expectativa do momento em que o Kevin Dança-com-Lobos Costner e o Daniel O-Último-dos-Moicanos Day-Lewis fossem aparecer; ou como aqueles rituaizinhos bestas desse povo ao redor da tal árvore sagrada, tudo super super odara, tinha um quê das dancinhas da cidade de Zion,  no último Matrix, misturado com ritual do Santo Daime; ou que eu tenho certeza que já vi aquele coronel mauzão em algum outro filme, acho que no de uns soldadinhos de brinquedo que na verdade eram parte de um projeto militar ou coisa parecida, depois formavam um exército e começavam a destruir tudo o que viam pela frente… Ih, acho que voltei a falar de Avatar!

Pronto, já disse as minhas piadinhas sobre o filme do James Cameron. Mas gostei dele, sério, e sigo recomendando que vá vê-lo e divirta-se. Só peço que se resolver conversar comigo sobre ele, primeiro me conte do que o filme trata, pois confesso que ele começou a sumir da minha memória. Ah, e não é por conta de algum tipo de Alzheimer. Não ainda.

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Dez na fila

Na pasta “Meus vídeos”, esperando para serem vistos no início de 2010 (e se você está lendo no blog e não no Google Reader ou via feed, basta apontar o mouse para a pequena câmera à esquerda dos links para ver os cartazes, não precisa nem clicar):

1. Alga Doce (Tatarak), de Andrzej Wajda (Polônia, 2009). (Wajda é Wajda, com sua câmera conservadora, sem muitas firulas. Dou-lhe crédito pelo prazer que me deu na década de 80 do século passado.)

2. Rusalka (Русалка), de Anna Melikyan (Rússia, 2007). (Não tenho a menor ideia sobre ele, mas está aqui no HD, na segunda partição. Tomara que eu goste.)

3. Desejo e Perigo (Se, jie), de Ang Lee (China, 2007). (Li resenhas elogiosas a essa produção do Ang Lee, inclusive sobre a plasticidade das cenas de sexo entre os protagonistas. A ver.)

4. Vencer (Vincere), de Marco Bellocchio (Itália, 2009). (Vou dar uma chance ao Belocchio, por quem nutro uma velha antipatia.)

5. Deixe Ela Entrar (Låt den Rätte Komma In), de Tomas Alfredson (Suécia, 2008). (Na onda da praga de filmes sobre vampiros, parece que este se destaca. Certamente não será pior do que o último do diretor coreano Chan-wook Park, Thirst)

6. Tetro (Tetro), de Francis Ford Coppola (EUA/Argentina/Espanha, 2009). (Será que a volta de Coppola nessa produção fora dos seus padrões valeu a pena? Torço para que sim.)

7. A Vida é um Milagre (Život je čudo), de Emir Kusturica (Sérvia/França, 2004). (Dica do Milton Ribeiro).

8. Alexandra (Aleksandra), de Aleksandr Sokurov (Rússia/França, 2007). (Sokurov é um cineasta bastante elogiado, e não vi Arca Russa nem qualquer outro dos seus filmes. Tentarei recuperar o tempo perdido.)

9. Num Ano de 13 Luas (In einem Jahr mit 13 Monden), do Reiner Werner Fassbinder (Alemanha, 1978). (Dos poucos filmes do Fassbinder que não vi. Tomara que volte a ter o estômago que perdi em relação a boa parte dos filmes do diretor.)

10. Meu Nome é Joe (My name Is Joe), de  Ken Loach (Reino Unido, 1998). (Vi recentemente À Procura de Eric, divertido filme do mesmo diretor, mais afeito a filmes explicitamente políticos. Quero ver esse, que perdi na época.)

E tem ainda Uma Relação Pornográfica (Une Liaison Pornographique), de Frédéric Fonteyne (França, 1999), que não conta porque já assisti há muito tempo, mas deu vontade de rever.

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Deixando as rusgas para trás

Para os que não gostam de discutir a relação, sugiro que passem o Réveillon em Cuzco, Peru, participando do festival Takanakuy. Depois disso, de duas, uma: viram praticantes de Vale-Tudo, ou então fazem as pazes com a instituição DI.

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Variáveis

Começo pedindo desculpas aos economistas, sociólogos, cientistas políticos, filósofos e sei lá quem mais for preciso, em função da incomensurável ignorância que carrego sobre a seguinte discussão: o tamanho ideal e a importância que deve caber ao Estado, e sobretudo a interferência e/ou intromissão na vida dos cidadãos.

Beleza, o rapapé das desculpas eu já fiz, então vou à besteira que me interessa. Sabe o que a minha ignorância me disse que falta falar? Que a avaliação do quão grande e intrometido deve ou não deve ser o Estado depende também de uma dimensão fundamental: a afetividade.1 Então, sem delongas vos digo: se vocês estão bem, se tudo está tranquilo e sem maiores flutuações, caberá ao viés ideológico, à formação acadêmica e ao background cultural  que cada um de vocês possui (não me ocorre nada mais por enquanto) determinar a concepção do papel do Estado — Estado forte, Estado mínimo etc — que defendem. Agora, se por um lado vocês estiverem em “estado de graça”, eufóricos ou em êxtase — seja apaixonados, alforriados, mega-senapremiados, tendo acabado de gozar ou qualquer outro motivo —, sua avaliação sobre o tema em questão corre sérios riscos de não ser a mesma — provavelmente porque não darão muita bola pro assunto —; e, por outro lado, se vocês estão angustiados, deprimidos e/ou fragilizados por circunstâncias da vida — sei lá, morreu alguém muito próximo e importante para vocês, seus maridos/as, namorados/as ou casos lhes deram um pé na bunda e trocaram vocês por outro(s)/a(s), vocês perderam o emprego, descobriram ter uma doença incurável e lhes resta pouco tempo de vida etc. —, é quase certo que o que vocês pensam sobre o Estado também seja afetado por isso. E se por acaso acontecer de estarem passando um razoável período numa cidade nova, num projeto de trabalho igualmente novo, sem nenhum amigo/a ainda, longe da mulher (ou do homem) com quem passaram os últimos treze Réveillons (e sabendo que o de 2010 não será o décimo-quarto), morando a uma distância considerável do lugar onde trabalham — isto é, difícil de transpor à pé, ainda por cima sob o sol escaldante do verão na região tropical em que se encontra —, sem carro, moto ou bicicleta, exemplos de meio de transporte individual que compensariam o péssimo transporte público local — que implica em tomar dois ônibus, cada um demorando mais ou menos meia-hora para chegar, tudo isso para percorrer um trajeto que leva no máximo 10 minutos de carro ou moto, e entre 25 e 40 minutos de bicicleta, calculo —, garanto-lhes que a única coisa que viria à mente de vocês, independente da coloração da pele, classe social, idade ou gênero, seria o desejo sincero de viver sob o manto protetor de um belo Estado, de preferência um Estado de bem-estar social, que entre outras coisas invista num transporte coletivo de qualidade, daqueles em que a população não apenas se desloca de forma rápida e sem dificuldades por toda a cidade onde mora, mas também consegue acertar os seus relógios em função da pontualidade dos serviços de ônibus/trens/metrô e que tais.

Está certo, admito que o raciocínio seja subjetivamente torto, autocentrado e, se bobear, de um medioclassismo marotamente disfarçado. Mas vai dizer que não faz sentido?

P.S. A foto eu tirei daqui.

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1 Sei bem que há estudos sobre teoria econômica e emoções, assim como também sobre psicologia econômica. Admito que sou ignorante, pero no tanto. Mas o post não passa de um pretexto para os meus reclamos, ora bolas.

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Nomes

Se não deu para entender, digito, retificando o que suspeito estar errado:

- Rilck Ridscliffe, mas provavelmente o certo é Rilke Heathcliff (ouvi pronunciado como “Ridisclifi”).

- Rainer Rembrant, mas suspeito que seja Rembrandt (parece que se fala “Ráiner Rêmbrant”, mas não estou seguro disso).

- Roger Railin, mas imagino que o certo é Heylin, só não sei se em alusão a este Heylin.

- Glenn Hiley. (Qual Glenn e que Hiley eu não sei. Vale dizer que também pode ser Hilley ou Riley.)

- Ron Yusef, que talvez seja Yussef ou Youssef, não tenho ideia.

- Glenna Rayanna, mas não sei se os enes são duplos nem no nome, nem no sobrenome.

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São alguns dos nomes próprios de que tive notícias ultimamente. Como não consegui entender direito, pedi a quem me contou que escrevesse num papel. Há mais alguns, mas preferi não colocar aqui. Esses daí de cima ficaram pelo inusitado (para mim), já que apesar de não ser incomum que pais batizem seus filhos com nomes de atores, escritores, filósofos, cientistas, personagens de filmes, novelas e romances, entre outros, as homenagens da lista eu nunca tinha visto. Por sinal, fiquei curioso pelas referências histórico-culturais dos quatro últimos.

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