Vi lá na Fal e não resisti, tinha que pôr essa singeleza sonora por aqui. Parece uma brincadeira adolescente dessa banda chamada Hold Your Horses, além do passeio por todos esses quadros ser uma delícia. E se não se divertirem como eu é porque em algum momento da vida mataram a criança que havia em vocês, seus bobos.
P.S. Já juntaram fotos de alguns dos quadros do clipe. Vi aqui.
Umas conversas no falecido weblog me fizeram lembrar de algo que me aconteceu há 22, 23 25, 26 anos atrás. (Experiência importante para mim, e que, portanto, não ponho aqui como “verdade” ou “receita” para ninguém, vou logo avisando.)
Estudava eu psicologia, aquela maravilha de universo onde em minha sala éramos dois homens e 54 mulheres, uma realidade bem melhor do que a promessa de paraíso oferecida aos homens-bomba da atualidade. Era no México, e como desde a Copa de 1970 parece que eles desenvolveram uma enorme simpatia para com tudo o que seja brasileiro, posso dizer que eu era uma pessoa razoavelmente popular e muito benquista (putz, ô expressãozinha feia e “do baú” que eu fui arrumar!). Bom, mas como não dá mesmo para agradar a todos, tinha uma colega de sala que sempre dava umas bufadas a cada vez que eu abria a boca para perguntar ou comentar algo. Ela realmente não ia nem um pouco com a minha cara — ia dizer “com os meus cornos”, mas já chega de expressões feias por hoje, não é? —, mas para a minha surpresa, um belo dia aproximou-se de mim e disse:
— Ricardo, gostaria de levar um papo com você.
Achei estranhíssimo, mas a curiosidade sobre o que ela queria me convenceu a conversar com ela. Começamos a perambular pelos belos gramados da universidade e nos sentamos num banco, sob uma bela e frondosa árvore — calma, sei que esses lugares-comuns são para lá de chatos, mas a ideia é essa mesmo: o velho truque barato de piorar as coisas, para que o final, que virá com uma espécie de “moral da história”, não soe tão bestamente infantil quanto as irritantes “morais da história” de Esopo ou La Fontaine… — e uma vez instalados, começou a contar-me alguns dos problemas particulares pelos quais passava. E antes que ela fosse muito longe, eu disse:
— Péra aí, deixe eu entender uma coisa, que agora você está me confundindo todo. Até onde eu sei, eu não estou propriamente na sua lista dos “10 mais”, né?
— É verdade, tem toda razão.
— E apesar disso você insiste em querer conversar comigo sobre essas coisas particulares e super-delicadas?!?
— Bom, só espero não precisar desenhar. [Ela bem poderia ter dito isso.] Acontece, Ricardo, que apesar de ter todas aquelas amigas lá na sala, não acredito que dê para conversar sobre esses assuntos com elas. E tem razão, não dá para mentir e dizer que não te acho um porre. Mas vou te contar duas coisas. Primeiro, que tenho certeza de que o que você for dizer vai ser nem que seja um pouquinho mais proveitoso para mim do que o que minhas amigas diriam, ou pelo menos para o que preciso ouvir. E a segunda, a mais importante: que eu posso confiar em você.
Pois é, vinte e cinco ou vinte e seis anos atrás pude aprender, numa conversa inusitada, que gostar de uma pessoa não implica em confiar nela, e que confiar numa pessoa não implica em gostar dela.
É bem provável que isso tenha sido a coisa mais óbvia que vocês tenham lido ultimamente. Mas devo dizer que eu demorei os primeiros vinte anos da minha vida para aprender.
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[Mais uma ruminação velhinha, de janeiro de 2008. Uma eternidade, para os parâmetros virtuais.]
Sou onde não penso, penso onde não sou, retrucou outro.
Um terceiro veio com a conversa de que sou o que faço.
E veio mais um para embolar tudo, dizendo que aquilo que faço — isto é, a minha atividade — e que, por conseguinte, me faz, inclui também tudo o que não faço, o que me é impedido de fazer (pelo outro), e mesmo o que me é impossível (mas que ainda assim não deixa de me “povoar”)…
Preciso aumentar a medicação, depressa.
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[Post bem velhinho, de três anos atrás. Uma peça de museu, não?]
Este é o blog de um sujeito assumidamente desmemoriado. Consequentemente, é grande o esforço para, vez ou outra, diminuir o prejuízo dessa característica. Resolvi que hoje é um bom dia para isso.
As notícias se sucedem, são esvaziadas por outras mais novas, e ao final ninguém lembra sequer sobre como se posicionou em relação a este ou aquele evento. Basta ver que nem faz tanto tempo assim que o assunto na mídia e o acalorado debate na blogosfera giravam em torno do golpe em Honduras. Pena que pouquíssimos se lembrem disso. Na memória também vai longe o terremoto do Haiti, país que voltou ao limbo que o mundo costuma lhe reservar. Tomou-lhe o lugar o terremoto do Chile, aquela tripinha que foi capaz de produzir um Allende e ao mesmo tempo um Pinochet. E no meio do caminho houve uma visita de Lula a Cuba e a morte de um preso cubano em greve de fome, preso esse que foi chamado de dissidente pelos contrários ao regime e por outros de bandido comum que que teria pegado carona na história da dissidência. E assim a vida vai passando, um evento jogando o outro para escanteio em nossas mentes, as reações indignadas sendo rapidamente substituídas por outras condoídas, por mais algumas cheias de perplexidade et cetera et cetera et cetera…
Ainda bem que tem gente atenta, que se encarrega de enxergar aquilo que já não interessa tanto, mas que precisa ser resgatado e se bobear esfregado em nossa cara. Celebro esses caras, e o da vez é Santiago O’Donnell, que publicou um texto no Página/12. Aqui vai uma apressada tradução para os não hispanoparlantes.
Um pato é um pato
Santiago O’Donnell
Se caminha feito um pato e faz quac, deve ser um pato. Para além de algumas formalidades importantes, o governo de Porfirio Lobo em Honduras parece demais com uma ditadura. Ou pelo menos ao que muitos argentinos entendemos como ditadura.
Há duas semanas, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos publicou um relatório lapidar. “Deplora assassinatos, sequestros e agressões em Honduras” já no título e descreve situações que soam bastante conhecidas.
“A CIDH condena e lamenta o assassinato de três membros ativos da resistência ao golpe de Estado, registrados no último mês em Honduras. Da mesma forma, a CIDH deplora os sequestros, prisões arbitrárias, estupros e buscas ilegais de que foram vítimas pessoas que resistiram ao golpe de Estado e os seus familiares. A CIDH expressa também a sua profunda preocupação diante da informação de que filhos e filhas de ativistas estão sendo ameaçados e perseguidos, e que em dois casos foram assassinados.”
O relatório passou despercebido pela mídia que naquela ocasião divulgada notícias sobre Orlando Zapata Tamayo, que morrera em greve de fome na prisão em Cuba. Não se pode defender que um prisioneiro morra de fome em sua cela, seja ele um prisioneiro de consciência ou criminoso comum. Mas isso é outra história.
A questão é que na mesma ocasião, não muito longe de Cuba e quase em silêncio, um grupo de repressores, esquadrões da morte criados por um golpe de Estado, inventava um novo método para reprimir o protesto social: usar crianças.
“A Comissão observa com consternação que os filhos da Frente de Resistência estariam sendo assassinados, sequestrados, agredidos e ameaçados, na tentativa de silenciá-los. Neste sentido, no dia 17 de fevereiro de 2010, Dara Gudiel, de 17 anos de idade, apareceu enforcada na cidade de Danlí, estado de Paraíso. Dara Gudiel era filha do comunicador social Enrique Gudiel, que dirige um programa de rádio chamado Siempre al Frente con el Frente, onde transmitia informações sobre a resistência. Dias antes de aparecer enforcada, Dara Gudiel fora solta depois de permanecer sequestrada durante dois dias, ocasião em que foi maltratada fisicamente.
Por outro lado, no dia 9 de fevereiro de 2010, cinco membros de uma família que militava ativamente na resistência foram sequestrados por sete homens fortemente armados, trajando uniformes militares e com os rostos cobertos por gorros de alpinismo. Um dos sequestrados era uma jovem que denunciara, em agosto de 2009, ter sido violentada por quatro policiais que a prenderam durante uma manifestação contra o golpe de Estado de 29 de junho. No dia 9 de fevereiro os homens armados interceptaram o veículo em que estavam a jovem, o seu irmão, a sua irmã e outras duas pessoas. Tendo-lhes oferecido as chaves do carro, ouviram dos encapuzados que o que queriam era a jovem, ‘para ver se desta vez ela os denunciava’. Os cinco foram obrigados a caminhar montanha acima, onde duas das mulheres foram estupradas, a terceira foi roubada e ameaçada de morte e os dois homens foram submetidos a torturas físicas.”
Talvez a denúncia não tenha chamado a atenção por não ter ido na contramão dos últimos acontecimentos em nível regional. No mês passado, na Cúpula de Cancún, o Brasil deu sinal verde para a volta de Honduras à Organização dos Estados Americanos. Não é um fato irrelevante. Além de ser o país mais poderoso da América Latina, o Brasil foi quem mais se comprometera com a continuidade democrática em Honduras, a ponto de abrigar o presidente destituído em sua embaixada de Tegucigalpa, durante vários meses, com a esperança de que o golpe fosse revertido.
Na semana passada, sob o olhar atento da secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton, em viagem pela região, os países da América Central, incluída a Nicarágua sandinista, aceitaram o retorno de Honduras ao organismo regional, SICA, e prometeram apoiar sua volta à OEA. Horas mais tarde, o flamejante presidente salvadorenho e referência da frente Farabundo Martí, Mauricio Funes, foi recebido por Obama no Salão Oval, uma conquista que líderes de países mais importantes e governos mais alinhados ainda esperam alcançar. Ao sair da reunião, Funes defendeu a reinserção de Honduras na comunidade internacional.
O isolamento acabou. As eleições hondurenhas de 29 de novembro promovidas pelos Estados Unidos foram razoavelmente participativas, embora ainda hoje não se saiba muito bem quais os níveis de abstenção, já que não foi monitorada por nenhum órgão internacional de prestígio. O tempo passou, Brasília e Washington resolveram suas diferenças e Manuel Zelaya, o presidente deposto, caiu no esquecimento. Salvo honrosas exceções, é o que ficou claro.
Mas, como qualquer fruto de árvore envenenada, o governo eleito do Porfirio Lobo continuou certas práticas da ditadura que são mortais para a saúde de qualquer democracia digna desse nome.
A persistência do terrorismo de Estado em Honduras não é acidental. Neste governo o ditador Goriletti [o apelido de Micheletti] ocupa uma cadeira de deputado vitalício, e o líder do golpe, o general Romeo Vasquez Velasquez, foi premiado com um cargo gerencial na estatal de telefonia.
Para piorar, a área de segurança está nas mãos sobrinho e amigo íntimo do militar que levou a Honduras, em 1979, torturadores da ditadura argentina para que ensinassem seus métodos terroristas.
De fato, o secretário de Segurança de Lobo é Oscar Alvarez. Ele vem a ser sobrinho do general Gustavo Alvarez Martinez, que se formou na Academia Militar de El Palomar, na década de 70, foi chefe das forças armadas hondurenhas entre 1982 e 1984 e é o mais notório violador dos direitos humanos de seu país, confesso admirador do ditadura na Argentina, e hóspede, em Palmerola [base aérea norte-americana], do destacamento do Batalhão 601 enviado à América Central para dar aulas sobre torturas e desaparecimentos.
O atual secretário de segurança é também o arquiteto da política de mão de ferro contra as “maras” ou gangues enquanto ocupava o mesmo cargo no governo do presidente Ricardo Maduro (2002-2006). Em sua cruzada contra a “delinquência” de jovens sem futuro, acrescentou um novo inimigo, os “subversivos” que sobreviveram à campanha de aniquilação do seu tio Gustavo.
É no âmbito da sua política de segurança que surge uma nova forma de terrorismo de Estado. Já não se ataca diretamente os alvos escolhidos, mas sim o que essas pessoas mais amam: seus filhos. Para serem mais eficazes, o ataque é feito de maneira gradual, que vai das ameaças de morte à violência física e ao assassinato puro e simples, buscando atingir os pais de forma a fazê-los desistir de suas atividades políticas.
Como costuma ocorrer em casos como este, a repressão tem fins tanto políticos quanto econômicos, já que os líderes da resistência também são, em muitos casos, líderes comunitários e sindicais, especialmente do grupo dos professores, o mais ativo da resistência. E os mesmos empresários da mídia e grupos econômicos que apoiaram o golpe são os que agora se beneficiam do clima de terror semeado pelas gangues gestadas por Romeo e Goriletti, que hoje agem à sombra do manto de legalidade que Alvarez e Lobo receberam.
Certo. O que está feito está feito. Os hondurenhos escolheram, e é compreensível que não queiram voltar atrás. O tempo passou. Mas, na pressa de Washington e de Brasília para encerrar este desagradável capítulo, não faria mal exigir que, em vez de preparar uma festa de boas-vindas, eles cobrem de Honduras um mínimo de respeito pelos direitos humanos fundamentais.
Porque um pato é um pato, e já sabemos o que fazem os patos. Fazem o que fazem porque não sabem fazer oura coisa, e também porque não podem parar.
Eu sei, trabalho bem feito implica em pesquisa — e pesquisa que preste, diga-se de passagem. Mas eu também sei que não tenho tempo sobrando para tal. Então vou direto às (minhas) considerações finais, mesmo sem me deter nos objetivos geral e específicos, deixando o referencial teórico pra lá, sem dar um trato nos métodos e pouco me importando com os resultados; ou seja, tudo capenga.
Bom, o negócio é o seguinte. Passando os olhos por algumas publicações na área médica, acabei encontrando mais de uma pesquisa relacionando espiritualidade, religiosidade e saúde, o que me deixou um tanto quanto surpreso. O interessante foi notar que boa parte delas — as poucas que folheei — apontava para uma relação positiva entre essas variáveis. O resumo de uma, por exemplo, descrevia em seus métodos que usara os bancos do SciELO, LILACS, Medline e PsycINFO como base de sua revisão da literatura, para então afirmar em seus resultados que os
(…) estudos que abordam o tema demonstramuma relação entre maior espiritualidade e maior religiosidade com melhor qualidade de vida, menor prevalência de depressão, maior suporte social, mais satisfação com a vida e mais satisfação com o tratamento (…). Da mesma forma, verificou-se que pacientes (…) que possuíam menor espiritualidade solicitavam mais tratamentos para estímulo de vida (intubação orotraqueal, por exemplo) e que a espiritualidade foi fator de enfrentamento (coping) para os familiares dos pacientes (…).[Grifos meus]
Bacana, há tempos ouço falar disso, e mais bacana ainda ver artigos científicos debruçando-se sobre o tema. Tomado então de certa curiosidade, fui ao SciELO e ao PsycINFO — não deu tempo de ir aos demais — e procurei pelos termos espiritualidade + saúde, espiritualidade + religiosidade + saúde, espiritualidade + religião + saúde, sem falar em algumas especialidades médicas no lugar da palavra “saúde”, mas que agora não vem ao caso mencionar. O chato é que não encontrei exatamente o que eu queria: a clara definição do que seria “espiritualidade” e “religiosidade”. E aqui está a razão do meu preâmbulo: admito que o fato de não ter encontrado definições claras para essas variáveis não implica em que alguns não as tenham feito, e sim que eu é que não as encontrei…
Porém, isso não invalida a minha bronca blogueira. Como é que um estudo médico se arvora a usar esses termos sem defini-los adequadamente? Como é que resolve fazer uma pesquisa pecando por omissão, como se fingisse que se trata de termos claros, que não haveria dúvidas sobre o que significam? Quer saber, eu ficaria satisfeito si tivesse encontrado algo mais ou menos assim: a “religiosidade” de um sujeito refere-se a sua crença em uma entidade que considera superior, imaterial e sobrenatural, crença essa que se alicerça em uma doutrina específica e é compartilhada com outros sujeitos. A “espiritualidade” se diferenciaria da religiosidade apenas na questão doutrinária, isto é, o sujeito que afirma possuir “espiritualidade” não costuma se alinhar aos preceitos e dogmas de uma religião em particular, mas comunga com os religiosos da crença de que existe algum tipo de força sobrenatural que teria poder sobre a sua vida e a dos demais e em certo sentido justificaria a sua própria existência. Ficou comprido, é verdade, mas pelo menos “cerca” razoavelmente os termos, arrisco a dizer.
Trocando em miúdos, não dá para falar desses termos num estudo que se pretenda científico, pois agindo assim qualquer desavisado que lesse e desse crédito ao estudo acabaria entendendo que de fato existe algum ser ou força sobrenatural que dá as cartas no pedaço. E se você que chegou até aqui crê nisso, entenda que há um erro crasso nesse imbróglio. E não, não afirmo que o erro esteja na sua crença, fique sossegado. O erro está, sim, no estudo em questão: espiritualidade e religiosidade não podem ser definidas de maneira a afirmar que alguma entidade imaterial existe. Sua definição deve circunscrever-se ao fato dos sujeitos crerem, sem pretender adentrar na especulativa correspondência entre tais crenças e o mundo. Há sujeitos que creem numa força superior, amparados ou não em uma doutrina religiosa, e há sujeitos que não creem nisso. E segundo algumas pesquisas, crenças em alguma força superior teriam efeitos positivos sobre a saúde e o bem-estar de alguns sujeitos submetidos a tratamentos de doenças graves, crônicas ou não.
Feita a bronca, pesquisem à vontade, mas cuidem bem das suas crenças, pois volta e meia elas ficam soltas por aí e acabam atravessando o samba de seus estudos. Ah, não custa avisar que disfarçar tudo com o formato e a linguagem comuns às pesquisas científicas não resolve a questão, ouviu?
Se tiver medo de ver, no mínimo ouça até o final. Mas cuidado: se deixar tocar pela terceira vez, você será automaticamente cooptado pelo lado direito, digo, negro da força.
Devidamente avisado, vá e veja com seus próprios olhos:
– Alô, Fulano?
– Ué, Sicrano, o que houve? Anteontem a ligação caiu e você não ligou de volta e, pra piorar, na conversa da gente você nem chegou me dar o seu número de telefone…
– Foi mal, meu amigo, é que acabou a bateria do meu celular e depois disso não parei nem um minuto, os últimos dois dias foram de pura ralação. Tanto é que tô te ligando hoje, não só pra que você me conte o resto desse seu épico denettiano, mas porque é sábado e tem feijoada lá no Serafim, a segunda coisa que você mais gostava de comer por lá, acompanhada de umas doses daquela cachaça, como era mesmo o nome?, Calor de Virgem, lembra?, e rebatendo com umas Brahmas, só que da Antárctica, como o povão costumava dizer, ha-ha-ha!
– Lembro disso tudo, Sicrano, é lembrança pra lá de boa. E se você me visse agora ia dar de cara com uma pá de dentes, por conta do sorrisão estampado na minha cara. Mas não insista nisso, vai dar não, velho. Deixa eu continuar te contando do Dennett, acho que você vai acabar entendendo os meus motivos. Onde eu parei mesmo?
– Você falou da postura física e da postura de projeto. Ia falar de uma terceira, só não lembro do nome.
– Ah, a postura intencional.
– Porra, tô ficando velho, minha memória anda mesmo uma merda. Se é Teoria dos Sistemas Intencionais eu tinha que ter lembrado que era essa que faltava.
– Não esquenta, você mesmo disse que não estava familiarizado com ela, então queime a mufa com outras coisas mais importantes pra você. Melhor eu continuar logo. Vou começar lendo pra você como o Dennett define a postura intencional. Abre aspas: Primeiro decide-se tratar o objeto cujo comportamento se quer prever como um agente racional; depois, imaginam-se quais crenças esse agente deveria ter, dado o seu lugar no mundo e o seu objetivo. Imaginam-se também os desejos que deveriam motivá-lo, com base nas mesmas considerações, e, finalmente, prevê-se que este agente racional atuará buscando alcançar os seus propósitos, à luz das suas crenças. Um pouco de raciocínio prático a partir do conjunto escolhido de crenças e desejos fornecerá em muitas ocasiões uma decisão sobre o que o agente deveria fazer; é o que conseguimos prever que o agente fará, fecha aspas.
– Não sei se entendi muito bem…
– Ué, basta a gente voltar pro exemplo que te dei da primeira vez, a história do teu telefonema pra mim. Você me ligou e partiu de alguns pressupostos tão entranhados em você que nem precisou pensar na maioria deles. Primeiro, você me ligou do seu celular. E por mais que, se eu bem me lembro do que você pretendia estudar na faculdade, sua área não seja nenhum tipo de engenharia, nem tenha nada a ver com microeletrônica, com informática ou com qualquer ciência envolvida no projeto e fabricação de celulares, você nem piscou na hora de digitar o meu número naqueles botõezinhos, apertar send ou chamad. ou alguma tecla com algum símbolo verde indicando que é ali que é pra chamar, esperou tocar um determinado tipo de som que você aprendeu faz um tempão que corresponde a tá chamando, e aguardou que alguém atendesse do outro lado, né?
– Ufa, quanta coisa só prum telefonemazinho. Fiz isso tudo sim, mas, como você disse, realmente não pensei em nada dessas coisas. Eu apenas te liguei, você atendeu e tá que filosofa comigo, capítulo dois. E não me leve a mal, tô gostando da conversa toda, mas dá pra encurtar e chegar ao que interessa, que é o motivo da gente não poder se encontrar? Você tá doente ou o que? Porque eu tô é preocupado, quase ligando pra Beltrana pra saber melhor de você, que eu nunca te imaginei dispensando nem a rabada, nem a feijoada do Serafim, molhando o bico com umas branquinhas Calor de Virgem e enxaguando a garganta com umas louras suadas…
– Amigo, vou tentar acelerar, só não sei se vou conseguir te despreocupar. Bom, um dos seus pressupostos ao ligar pra mim tem a ver com a postura de projeto, porque diz respeito ao funcionamento do seu celular e do meu próprio telefone. Já o outro tem a ver com a postura intencional. Você deve estar pensando que outro é esse, e te digo logo: refere-se ao fato de eu atender ao seu telefonema, do mesmo jeito que fazia antigamente, e a que a gente acabasse conversando, coisa que a gente tá fazendo. Isso porque você pressupôs aquilo que eu li do Dennett pra você, ou seja, que eu fosse um agente racional, com as crenças e desejos que provavelmente um agente racional como eu deveria ter, tanto em função do que você conhecia de mim, como pelo fato de eu ser tão ser humano como você. E você já tem alguma experiência de vida no trato com todo tipo de gente, né? Então, se eu estivesse em casa, com o telefone funcionando e desocupado, o suficientemente disponível e desimpedido, próximo ao aparelho e seguindo com o velho costume de atender prontamente às ligações que me fazem, pra você seria líquido e certo que acabaríamos papeando, confere?
– Não posso discordar de você.
– Bem resumidinho, essa é a postura intencional. Mas vale dizer que a gente não funciona assim só com gente. Às vezes até com coisas a gente faz o mesmo.
– Rapaz, assim você me complica. Como assim tratar uma coisa como se ela tivesse crenças e desejos? Gente eu concordo; bicho vá lá; mas coisa? Eu não faço isso não, que não sou maluco nem nada.
– Aposto que faz. Vai dizer que quando seu computador dá pau você não xinga ele, se bobear até dá uns tapas no monitor, mas depois de um tempo sem conseguir que ele ligue você acaba pedindo desculpas por tratá-lo tão mal e promete que não vai mais fazer isso de novo e tal?
– He-he, o pior é que você adivinhou, faço assim mesmo. Mas é só um jeito de agir, não é sério de verdade.
– Tem razão. Tanto que o Dennett não fala dessas coisas tendo crenças e desejos de verdade, mas sim que se comportariam como se tivessem, e por conta disso conseguiríamos prever com razoável sucesso o seu comportamento. Afinal de contas, se você, sei lá, está sozinho em casa e resolve jogar uma partida de futebol no PlayStation 3 contra o console, tenho certeza que para você o videogame tem o propósito de ganhar o jogo, inclusive foi desenhado pra isso, e vai fazer de tudo pra você perder, até uma roubadinha aqui e outra ali pra ganhar de você. E tudo bem, eu sei que você sabe que ele não é gente, que é só um programa concebido por gente para funcionar desse jeito. Mas atribuindo a ele esses desejos, esses objetivos inclusive parecidos com os teus, fica bem mais fácil jogar e até mesmo ganhar dele. Claro que você mesmo disse que não é sério de verdade. Mas é uma baita de uma ficção útil, não é?
– Bola dentro, meu camarada, só pra seguir no papo de futebol. Aliás, nem uma ida ao velho Maraca com a turma de antigamente? O Mengano tá afinzão de ir no Fla-Flu amanhã e se você for ele vai ficar felizaço. Se anima, rapá.
– Cês são doidos, não vai dar não.
– Pera lá, assim também não dá. Você já me explicou essa história toda do Dennett, entendi até o fato da gente usar ficções úteis como a de atribuir racionalidade, crenças e desejos, enfim, essa tal de intencionalidade às pessoas, aos bichos e a coisas como o PlayStation que eu nem tenho, ou até ao seu vizinho lutador de jiu-jítsu, e não vem falar de novo da minha sogra que eu vou ficar chateado. Mas ainda não entendi o motivo de você não sair de casa de jeito nenhum, esse teu papo sobre sistemas intencionais não deu conta de explicar teu próprio comportamento.
– Você já foi mais esperto do que isso, Sicrano, e não se ofenda com a minha observação. Achei que fosse ver nas entrelinhas, especialmente quando eu falei de ficções úteis.
– Por que haveria de?
– Ora, pense bem. A humanidade vem avançando a passos largos para entender, prever e controlar cada vez mais nem que seja uma parte do universo em que vive, e já inventou uma cacetada de coisas a partir de suas observações, além de se basear em algumas ficções úteis, certo?
– Hmm.
– E algumas dessas observações, dessas ficções úteis, com o tempo foram se mostrando menos úteis, limitadas ou até erradas, não é? Primeiro, que a terra era plana; depois que era o centro do universo; depois disso, que o movimento dela ao redor do sol era um círculo perfeito e não uma elipse; que o átomo era a menor partícula. Sem falar nas ficções que são úteis só porque têm utilidade instrumental, que nem os centros de gravidade na física, ou os meridianos e a linha do Equador, por exemplo. Aliás, até o Eu não passaria disso, uma ficção útil…
– Pó pará!
– Tá, deixo essa pra outra hora. Mas indo logo aos finalmentes, pense numa coisa: úteis ou não, não passam de ficções. E eu não consigo mais viver assim, cara, ignorante da minha própria ignorância, satisfeito com o eu só sei que nada sei. Meu chapa, como é que você pode imaginar que dá pra gente se encontrar amanhã pra assistir o Fla-Flu? Isso é delírio, a mais pura pretensão!
– Ahn?!?
– Você tem ideia da quantidade de variáveis que a gente precisaria conhecer e ainda por cima controlar para garantir que nós dois e o Mengano estivéssemos juntos na torcida do Mengão amanhã às cinco da tarde? Tem? Te digo, nem com todos os supercomputadores do mundo inteiro funcionando em rede você daria conta disso.
– Como assim?
– Pra começar, onde está o Mengano agora, na rua ou no apê dele? E se estiver fora, chegando em casa, passando por aquela rua de sempre cujas estatísticas de violência apontam para uns trinta por cento de chances dele ser assaltado à mão armada a esta hora da noite, e que se estiver à pé essa estatística sobe pra quarenta e cinco por cento? Isso imaginando que as estatísticas sobre a violência no Rio de Janeiro fossem confiáveis, e você e eu estamos carecas de saber que não são… Mas vou dar uma chance maior a ele imaginando que tá em casa, sozinho como de costume. Lembre que o Mengano já tá na faixa dos quarenta, tem histórico de pressão alta e de infarto na família, comia e ainda come muito pior que a gente, só tranqueira, continua sem ter feito nem um check-up na vida, aliás pra ele check-up parece ketchup e vai bem com pizza, e os únicos exercícios que faz são apertar os botões do controle remoto, acender um cigarro depois do outro e amassar as latas das seis cervejas que costuma traçar sozinho diante da tevê? Ou seja, será que o Mengano passa desta noite e consegue chegar à porta do estádio amanhã? E eu só falei do mais genérico, nem entrei em questões como a idade da tubulação de gás do velho prédio dele, o fogão tão velho quanto e que eu sei que ele nunca mandou nem limpar, o aquecedor que fica dentro do banheiro e a janela que ele teima em deixar fechada porque é friorento pra caramba e só gosta de entrar no banho depois de meia-hora de água pelando e o banheiro com cara de fog londrino… Sabe a quantas andam as estatísticas de mortes por gás?
– Cara, você tá me assustando!
– Você queria saber, agora aguente. E se com sorte, mas com muita sorte e providência divina, duas coisas em que eu não posso me dar ao luxo de acreditar, inclusive porque crença não é palavra que caiba no meu vocabulário, pois então dizia eu da sorte de que nada aconteça nem comigo, nem contigo e nem com o Mengano esta noite, e que os três estejamos vivos amanhã de manhã, que a gente acorde sem nenhum problema de saúde prestes a explodir no nosso peito, nem coma qualquer iogurte vencido ou alguma coisa que nos dê no mínimo uma diarreia e no máximo um choque anafilático, que não morra ninguém da nossa família, nem mesmo o vizinho mala do meu prédio que costuma fazer umas festinhas regadas a pó, funk e travecos que ele pega lá na Praça Onze, já vai tarde, meu camarada, só leve embora logo esses policiais que agora vão querer tomar depoimento de todo o mundo do prédio e deve demorar bem umas seis horas e meia no mínimo, e isso porque seriam dez da manhã, daria tempo de sair de casa antes do jogo. Mas não acaba aí não, eu só iria ao Maracanã de ônibus, tô numa dureza só e não dá nem pra pegar um taxi. Você sabe a idade média da frota de ônibus do Rio? Sabe a durabilidade dos pneus recauchutados que a maioria usa? Sabe quantas revisões de verdade eles fazem na parte mecânica, quanto canibalismo com outros ônibus, e a velocidade de fórmula um com que eles circulam, a qualidade irregular do asfalto e o atrito em relação aos tais pneus provavelmente recauchutados? E a temperatura desse verão senegalense que andou na cidade, piorando todo o conjunto da obra e ainda por cima fodendo com o humor dos motoristas, estressados de tanta hora extra e medo de serem demitidos? E a Raça Rubro-negra, uma cacetada deles entrando no ônibus até chegar no estádio? E se algum mané tricolor passar pelo trajeto e o povo resolver enfiar a porrada?…
– Chega, Fulano, por favor, chega!
– Desculpe, Sicrano, mas isso tudo o que eu falei é só a pontinha do iceberg de possibilidades que ficam rondando na minha cabeça, só a pontinha. E o pior, boa parte delas é composta de ficções úteis que se baseiam em outras ficções úteis. Minha vida virou isso, é uma miséria só. E a culpa não é só do Dennett não. Você já leu Borges? Sabe aquele conto, Funes, o Memorioso? Tum tum tum.
– Alô? Alô? Não, Sicrano, a história da bateria do celular de novo não. E se for mesmo? E se não for, e se naquele dia você só usou como desculpa pra desligar?
E se…
E se…
E se…
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__________
Estava ficando longo demais e acabei terminando às pressas, sem nem revisar. Desculpem. Um dia eu retomo, enxugo e ponho um final melhorzinho. Um dia.
– Alô, gostaria de falar com Fulano.
– Quem deseja?
– É Sicrano.
– Sicrano? Nossa, há quanto tempo.
– Uns bons vinte anos, né? Mas tô de volta, o bom filho à casa torna.
– Então seja bem-vindo.
– Bom de ouvir, meu camarada. Aliás, a primeira coisa que fiz questão de arranjar foi o teu telefone. O Mengano me deu.
– Mengano, só podia.
– E ele me contou que faz um tempão que não te vê, que você sumiu do mundo e quase não sai de casa. Que história é essa?
– É conversa longa, por telefone é complicado.
– Então tá aí o pretexto pra gente se encontrar. Pode ser amanhã, meio-dia e meia, lá no Serafim? Você gostava muito da rabada de lá. Bóra, aí você me conta essa história. Ah, o Mengano também me falou que nos últimos anos você andou estudando filosofia da mente. Cabeçudo você, hein? Desse assunto eu não sei quase nada, só li uma ou outra coisinha. Conhece um tal de Daniel Dennett? Dizem os entendidos que o cara manda bem.
– Conheço, meu mestrado foi sobre ele. Falei justamente sobre sua teoria dos sistemas intencionais. Por sinal, foi ali que começou o meu bode. Lembra da Beltrana? Aquela que morava no teu prédio e de vez em quando o pai dela dava carona pra gente ir pra escola? Pois a gente casou pouco depois daquela época, pra minha sorte. Eu só consegui defender a dissertação porque ela me enfiou dentro do carro e me levou até a universidade.
– Que doideira, meu amigo. Me conte isso tudo com detalhes lá no Serafim, traçando aquela rabada.
– Rapaz, não vai dar não.
– Ué, se não pode amanhã, então depois de amanhã.
– Tá difícil. E a culpa é do Dennett.
– Como assim?
– Você tá familiarizado com a teoria dos sistemas intencionais?
– Não exatamente. Dá uma palinha?
– Pera aí que eu vou pegar uns fichamentos da época da tese… Pronto. Xô ver… seguinte: tem uma coisa que a gente faz o tempo todo na vida, que é tentar predizer o comportamento dos outros, né?
– Não sei disso não.
– Claro que sabe. Por exemplo, você ligou pro meu telefone na expectativa de falar comigo, provavelmente com a ideia implícita de que se eu estivesse em casa e continuasse sendo o sujeito que você conheceu vinte anos atrás e que por sinal sempre atendeu ao telefone, nós acabaríamos conversando, não?
– Bom, não tinha pensado em nada do gênero, mas seguindo o teu raciocínio, devo reconhecer que isso tudo devia estar mesmo implícito na hora em que liguei, e que de fato esperava conseguir conversar com você.
– E a menos que algo muito esquisito, improvável ou doido tivesse acontecido, você não tinha motivos para pensar diferente do que supunha que iria acontecer, né? Pois é aí que entra o Dennett. Ele diz que pra fazer o que a gente faz implícita ou explicitamente, ou seja, pra tentar entender, explicar e predizer o comportamento de qualquer pessoa, assim como também o de qualquer bicho, estrutura, enfim, qualquer coisa, nós costumamos usar três posturas: a primeira é a postura física, a segunda é a postura de planejamento ou projeto e a terceira é a postura intencional.
– Ahn?!?
– Calma, vou explicar, é só ouvir tudo e você vai entender.
– Tá bom, continue.
– A tal da postura física é quando a gente tenta prever o comportamento de uma coisa em função do nosso próprio conhecimento das leis físicas e das propriedades da própria coisa. E vou logo te dar um exemplo porque aposto que você tá com cara de ponto de interrogação.
– Tô mesmo.
– Hehe. É o seguinte. Imagine que você tá num parque de diversões e quer ganhar um daqueles bonecos de pelúcia pra dar pra sua namorada, e pra isso precisa derrubar uma pirâmide de latas com uma bola de pano. Imaginou? Bom, pra derrubar tudo, você ou qualquer um acaba fazendo uma espécie de cálculo que leva em consideração, além da própria pontaria, o peso da bola, a distância das latas e a força do braço, né?
– Mais uma coisa que eu não tinha pensado… É, acho que você tem razão.
– E o curioso é que serve pra qualquer coisa que você jogue na direção das latas, seja a bola de pano, um gato preto ou a sua sogra, que deve ser igual à maioria.
– Pô, não sacaneia a minha sogra, ela é do bem.
– Tá, que seja, mas você entendeu, né?
– Entendi. Mas continue, que ainda não sei onde é que você quer chegar.
– Bom, a postura física é assim, ou seja, usamos suposições que têm a ver com certos conhecimentos da física, que por sinal a gente nem precisa ter ido à escola para saber sobre, e com esses conhecimentos tentamos predizer o comportamento da maioria das coisas. Só que, por outro lado, pra saber o funcionamento do relógio pra onde você deve estar olhando agora e pensando a que horas eu vou acabar essa explicação toda, provavelmente a postura física não seja a melhor, e valha a pena recorrer à postura de projeto.
– Vou fazer de conta que não ouvi essa gracinha, tá? Vá, explica isso da postura de projeto, eu deixo você usar esse relógio imaginário daí.
– Bom, seguindo com o relógio e supondo que você não queira jogá-lo em alguém, especialmente em mim, imagine que ele seja um desses digitais cheios de frescuras, botões e marcadores de tudo que é jeito e que você nunca viu igual. Talvez você nunca chegue a conhecer todas as funções dele sem ler o manual, mas o grosso do que ele faz garanto que sim. Porque uma coisa é certa: ele é um relógio, então serve pra informar as horas, e por ser digital deve a usar eletricidade de baterias, pilhas ou ser ligado na tomada. Ou seja, ele foi projetado para algo que você conhece, e por isso mesmo espera que ele funcione de acordo com esse projeto, concorda?
– Apesar dos relógios com mil e uma utilidades, ainda não conheci um que tenha se esquecido de informar as horas. Pronto, concordo.
– Então é isso, o relógio vai marcar as horas, o congelador vai gelar as suas cervejas, a campainha vai tocar quando você apertar o botão, tudo de acordo com o que está previsto nos seus respectivos projetos. Você pode não conhecer esses projetos em detalhe, porque provavelmente não vai ler os manuais como a maioria das pessoas. Mas isso não importa, já que pra você todas essas coisas vão se comportar como está previsto para cada uma delas.
– Verdade, nunca liguei o aspirador de pó esperando ouvir um samba do Cartola. Mas continue.
– Falta só a postura intencional, que a gente usa pra entender e predizer o comportamento de seres mais complexos do que a minha torradeira e o seu relógio. Seres humanos, por exemplo, desde que nenhum deles seja o meu vizinho lutador de jiu-jitsu, é claro.
De volta ao batente, depois de passar o feriado carnavalesco no Rio. E de lá trouxe saudades da Rê, um mundaréu delas, sem falar num resfriado dos bem chatinhos, querendo chá, colo e cobertas mesmo nas atuais temperaturas jacobabadianas. (É só para aliviar a barra do Senegal, sempre citado quando o calor alcança índices banguenses.) Ah, trouxe uma penca de livros técnicos mais o Caim do Saramago, que até a página 48 muito me divertiu, espero que siga assim. Fora isso, na bagagem trouxe também a lembrança de algo que ainda preciso processar melhor, mas que como o blog anda à míngua, vai do jeito que veio.
Acho que foi na segunda-feira passada, quando fomos almoçar lá no velho Botequim, no finalzinho da Visconde de Caravelas, em Botafogo, naquele trecho onde a rua vira beco sem saída. As amigas da Rê já estavam lá, e nós atrasados; uma culpa que foi dividida entre os dois ao encontrar-nos com elas, como bom casal que somos. Acenei para um taxi que trafegava pelo meio da Figueiredo de Magalhães, e assim que o motorista nos viu, deu umas guinadas algo estranhas até parar diante da gente. Digo estranhas agora, porque foi uma daquelas imagens que só dão as caras na nossa memória momentos depois, assim que as encaixamos num conjunto razoavelmente coerente, um roteirozinho com o qual fixamos no cocuruto aqueles dados desordenados que o mundo nos oferece a cada instante.
Mas volto ao antes, ao momento em que entramos no taxi esperando um oásis de clima aprazível, temperado por um potente ar-condicionado. Só que virou um anticlímax nem bem sentamos, já que no habitáculo encontramos um leve cheiro de gás que só depois de um tempo entendi tratar-se de GNV e não de GNH**. O motorista, um senhor avançado na idade e com os cabelos brancos em comum acordo, carregava um forte sotaque lusitano e um palito de dentes no canto direito da boca. Aliás, uma figura quase arquetípica do universo taxístico no Rio de Janeiro, vale dizer. Já conformados com aquele anti-oásis, seguimos caminho rumo ao restaurante, ele sugerindo um caminho e eu pedindo que fôssemos por outro, pedido aceito sem queixas, embora o pequeno engarrafamento que encontramos à frente tenha deixado no ar, somado ao cheiro de GNV, um clima de eu bem que falei que o outro caminho era melhor.
[Tá bom, eu sei que gasto um tempo danado nesses detalhes. É vício, e como todo bom viciado, vivo dizendo que vou parar, mas não consigo. E como o estrago já está feito, melhor seguir em frente.]
Lembram das guinadas algo estranhas que não registrei na hora que vi? Aconteceram de novo, só que com a gente dentro do taxi. E não foram poucas. Era como se os braços do motorista puxassem o volante para impedir que o carro caísse em buracos recém-materializados na pista — êpa, fiquei encucado com a contradição: se um buraco é justamente um espaço vazio, como poderia se materializar? —, mas sem que houvesse buraco algum. O desconforto passou a incomodar, pois virara receio de algum acidente. O jeito de acelerar e frear o carro também eram, deixe-me ver, espasmódicos, isso, a palavra que mais se parece com o que acontecia é espasmódicos mesmo. Cutuquei a Rê. Não quis que os olhos do motorista me flagrassem pelo espelho, sobretudo porque queria que ele não os desgrudasse da pista. Comecei a escrever com tinta invisível nas costas do banco da frente, letra por letra; P-A-R-K-I-N-S-O-N . O braço esquerdo dele, apoiado na porta, deixava-lhe a mão solta, e esta tremia, não o tempo todo, mas quase. A Rê entendeu e seguiu silenciosa ao meu lado, só não sei se carregando consigo as inúmeras e inquietantes implicações geradas pela minha hipótese.
Chegamos ao destino com o atraso só nosso, o taxista sem nada a ver com isso. E chegamos ilesos. Mas o sentimento que aquele tremor me causou ainda repercute: qual o momento certo de parar? Ele existe? E quando não se tem alternativa, quando só se pode esperar que a vida, o destino, os outros ou seja lá quem for nos parem? E quando o quadro se agrava de tal forma que somos destituídos até do poder de “encerrar os trabalhos” e darmos fim à nossa própria vida, aprisionados num corpo que se divorciou da gente e não mais nos ouve, e do qual ainda por cima não podemos nos descolar? Perguntas que geram mais dúvidas do que respostas, perguntas que deveriam transformar-se numa reflexão mais consistente, num texto com a densidade adequada ao tema, mas que não estou dando conta de desenvolver. O responsável é o resfriado do primeiro parágrafo, é claro.
Se bem que, quer saber, torço mesmo é para que a culpa de tudo seja do gás, que o português conserte logo esse vazamento e pare de se desviar de buracos invisíveis. Desse jeito, poderei me dedicar a falar mal daquele palito nojento que ele trazia no canto direito da boca, mundanidade bem mais adequada para a história de uma corrida de taxi em plena segunda-feira de carnaval.
Graças às últimas anotações de viagens virtuais da megablogueira Lucia Malla, conheci o (e passeei pelo) excelente blog de ciência do Gabriel Cunha e do Rafael Soares, o RNAm. E foi lá que encontrei um interessante post sobre esse ser simpático do vídeo abaixo, o camaleão:
Ah, de fato muitos camaleões mudam de cor, só não desse jeito. Isso porque o vídeo é um viral que circula há quase um ano, diz o blog e-farsas. Mesmo assim, a explicação do post do RNAm é bem legal, e acredito que muita gente bem que gostaria de não mais enrubescer, mas sim de arcoirisar. Daria para sair em mil blocos de carnaval sem precisar repetir o modelito, supremo desejo de dez entre dez foliões mais fashion.
Gripe infernal e eu querendo escrever algo para este abandonado blog. Mas os meus neurônios não me dão bola, envolvidos que estão em nadar no mar de catarro que o meu cérebro deve ter virado. (Agora que reli, a imagem ficou nojenta. Culpa da gripe, não minha.) Então tá, qualquer assunto com cara de post que preste fica no mínimo para amanhã, combinado? Enquanto isso, segue a tal “piada” lá do título.
Como naquela história do sujeito que flagrou a parceira com outro no sofá da sala e resolveu a questão vendendo o sofá, convenhamos: tem certas coisas que a gente já sabe muito bem, mas não quer que nos esfreguem na cara com requintes de crueldade.
Estava eu fuçando um pouquinho esse novo Buzz, que apareceu recentemente no Gmail, e resolvi entrar no painel onde aparece tudo o que eu tenho cadastrado no Google — o que me deu um susto pelo tanto de coisas em que fui automaticamente vinculado. E lá estava o Buzz, novinho em folha:
[Para ver melhor, clique na imagem]. Vale o mesmo para a próxima]
Na imagem acima, se olharem com um mínimo de atenção verão que na coluna da direita há um link para a “Política de Privacidade do Google Buzz”, que por sinal está em outra cor justamente porque cliquei nele. E sabem para onde ele me levou?
Ele quer que eu ponha esse código daí só para ter certeza de que eu sou o autor do blog.
Ah, este post daqui também não é um verdadeiro post, daqueles que dá gosto de escrever mesmo que pouca gente vá ler. Trata-se aqui apenas de um aviso aos incautos que desconfiarem sobre a existência de alguma provocação embutida no post anterior.
Tem não.
E agora com licença, tenho que trabalhar neste terça-feira gorda, e não se trata de cair na folia.
Uma quinta qualquer na rotina de um hospital público, meio pobre, meio descascado, meio velho, condição semelhante à de inúmeras instalações hospitalares do país.
Vamos?, disse o doutor P. E lá fui eu assistir à minha primeira intervenção cirúrgica, pela também primeira vez na condição de espectador e não mais na de paciente, coisa que experimentei umas quatro vezes na vida, pelas contas rápidas que fiz ainda agora. Mentiria descaradamente se dissesse que não estava nem um pouco apreensivo com o que me esperava. Mentiria também se contasse de algum tipo de excitação maior, dessas de tele-série ao estilo E.R., com direito ao coração do residente batendo, acelerando a cada minuto e abafando todos os sons ao redor até ser interrompido por um Clear! um pentelhésimo de segundo antes do desfibrilador desferir o primeiro choque, seguido por pelo menos mais dois, e, com tudo dando certo, sem escutarmos time of death, 22′45″, por sorte não desta vez.
O contexto é outro, nada de dramas televisivos no ar. E.R.? Passou longe, só lembrei dele agora. Era perto de onze da manhã quando entrei num cubículo cheio de cabides e com um enorme balde com algumas calças e jalecos usados ocupando um terço do espaço. (Eu não falei que era um cubículo?) Dr. P pegou dois pijamas cirúrgicos devidamente esterilizados e ensacados, cada um contendo também um par de propés, e me passou um. Para minha sorte o que recebi era do meu tamanho; para o meu azar, consegui estourar o elástico de um dos propés na hora de calçá-los, vergonha, vergonha, vergonha. Lá fui eu atrás do dr. P, já com a minha touca e máscara devidamente colocadas, tratando de enfiar as sobras de tecido do propé para dentro do tênis, enquanto chegávamos à sala onde se encontravam quatro pacientes esperando a hora de suas respectivas cirurgias, todos bem acordados e estranhamente tranquilos. Estranhamente para mim, é claro, pois lembro bem do meu nervosismo numa das minhas próprias cirurgias, especialmente por chegar ao centro cirúrgico sem nem sinal do efeito narcótico que a anestesista me prometera, ver toda a equipe ao meu redor se preparando e ter que perguntar, já quase desesperado, ei, não vou dormir não?, enquanto amarravam os meus braços nas tábuas almofadadas que me davam um aspecto nem um pouco agradável de Cristo na cruz… Mas já estou falando de mim e não dos outros, vergonha, vergonha, vergonha, então bora voltar à história.
A senhora E era a primeira das quatro que o dr. P operaria. Digo operaria, porque só tive tempo de assistir à da senhora E mesmo, e nem perguntei ao dr. P como correram as outras três quando me encontrei com ele hoje à tarde, no shopping, o pobre cheio de sono depois de uma jornada de compras com mulher e filha, atividade certamente muito mais exaustiva do que usar o bisturi, pensei cá com os meus botões. (Eu, num shopping, domingo? Mas isso é outra história.)
Saímos daquele espaço e fomos para a sala 2, onde o dr. P operaria. Ao que parece seriam intervenções relativamente simples para ele, durando em torno de uma hora cada uma, se tudo corresse sem nenhuma complicação. A primeira seria a retirada do cateter para diálise peritoneal da senhora E, que não lembro por que motivo parara de funcionar. De qualquer forma o novo acesso vascular estava funcionando bem, e ela já estava fazendo hemodiálise normalmente, três vezes por semana. Só que eu atentei para isso tudo bem depois. Naquela hora, meus olhos estavam passeando por todos os detalhes da sala 2.
As paredes eram enfeitadas por umas carinhas engraçadas, o que me fez supor que costumassem operar crianças nela — dúvida que guardei comigo, diga-se de passagem. O piso parecia bem gasto, mas estava limpo com deveria. Não fiz nenhuma análise bacteriana, então digo que estava limpo pelo menos para os meus olhos, que viram com detalhe as solas imaculadas dos propés na hora em que os joguei naquele balde enorme que ocupava um terço do cubículo do terceiro parágrafo. Os aparelhos também tinham ares cansados, mas pareciam funcionar direito. Desta vez trata-se mesmo de suposição, já que alguns deles nem foram usados. De qualquer forma o básico estava todo lá, como manda o figurino dos centros cirúrgicos.
A senhora E era veterana. Assim que entrou na sala e mudou da maca para a mesa cirúrgica, pude ver algumas de suas cicatrizes, aquelas que permaneceram aparentes ao longo do processo. Uma negra retinta, cabelos curtos puxados para trás, de quem não arrisco dizer a idade, se pouca ou muita. Vou chutar uns 45, imaginando-a coetânea minha. Mas pode que tivesse menos; os renais crônicos costumam envelhecer mais rápido que a própria idade.
Dr. P estava em casa, nadando de braçada. Mesmo antes dele falar do assunto com todas as letras, deu para ver como ele gosta de operar. Mas é bom deixar logo claro uma coisa: ele opera pessoas, não doenças. A senhora E, chamada por ele pelo nome, era avisada a todo instante sobre uma ardência ali, uma queimação acolá, uma sensação gelada, tudo para que não fosse pega de surpresa. Reclamou pouco, mais no finalzinho, mas saiu contente por livrar-se daquele tubo que saía do seu abdome. Afinal de contas, não já tinha posto um novo no pescoço?
E eu? Vi tudo, com detalhes. Vi a mim mesmo, ora olhando para os movimentos do dr. P, ora para o rosto da senhora E: quando fechava os olhos, quando olhava para a parede, para o teto ou para o nada. Vi o primeiro corte, depois das várias picadas da anestesia local. Vi a gordura, o sangue, a gordura, o músculo, o sangue de novo, e a fumaça do bisturi elétrico cauterizando os pequenos vasos, algumas fagulhas eventuais quando a corrente elétrica era passada através de uma das pinças, e o cheiro de carne queimada, por essa eu não esperava. Dr. P explicando tudo, conversando com a senhora E, elogiando a enfermeira que ficara para ajudar, mesmo não sendo a função dela naquele dia, e a parede do peritôneo logo ali, e o cateter finalmente solto, sem nenhuma das possíveis complicações em procedimentos como aquele, e a primeira sutura, pronto, não tem mais buraco no peritôneo, e mais uma cauterizada acolá, barulho de líquido borbulhando feito cafeteira de expresso na hora de ferver o leite para um macchiato, mas não se preocupe, senhora E, só me ocorreu isso agora e não na hora em que era o seu abdome sendo costurado mais uma vez, uma laço de um lado, um laço do outro, pontos invisíveis, daqueles de cirurgião plástico, a cicatriz não deve ficar muito aparente mesmo com a pele negra tendendo a cicatrizações bem altas, volta e meia queloides.
Olhei mais uma vez para a senhora E, arrisquei passar a mão sobre a sua cabeça. Não cheguei a me arrepender do gesto, mas vi que era por mim e não por ela, que nem pareceu dar bola. Talvez ela nem tivesse se importado caso eu tivesse pedido para fotografá-la “por dentro”; mas nem cogitei fazê-lo. Também já fui paciente, e fiquei indignado, ainda adolescente, com uma equipe de residentes acompanhando o médico que me operara e que me pedia para andar de lá para cá, apontando para o meu joelho. Apontando não, reduzindo-me a um joelho. Eu não faria isso com a senhora E, tomando a mim mesmo outra vez como referência… (droga.)
Despedi-me do Dr. P, da enfermeira elogiada por ele, e agradeci por aquela oportunidade, por poder assistir àquela intervenção aparentemente descomplicada, por estar ao lado de uma paciente que vi tão cuidada e respeitada naquele hospital meio pobre, meio descascado, meio velho e com menos um propé no estoque, avariado pela minha imperícia. E se eu levar um novo para lá, será que eles aceitam?
Já soube até de gente morrendo de susto, mas de voyeurismo, unha encravada ou vulva** é a primeira vez.
______ ** Ouquei, justiça seja feita: o código D07.1 corresponde a “carcinoma in situ da vulva”, e dá para morrer disso se não for tratado corretamente. Mas unha encravada tenho certeza que não mata, e voyeurismo só se você não for muito discreto e o seu objeto de admiração for uma pessoa dada a reações violentas.
En este mundo calaca,
nadie de cagar escapa.
Caga el buey,
caga la vaca,
y hasta la chica más guapa
también hace su montón de caca.
[Desconheço a autoria]
Quando esbarro com alguém que não apenas se considera o rei da cocada preta, mas também quer porque quer que os demais reconheçam nele “um ser superior”, esse poeminha aí de cima se instala em meus pensamentos e faz com que eu sorria discretamente, o suficiente para o tal “acima dos mortais” acreditar que eu rezo pela sua cartilha.
Ainda bem que há gente em Gaza trabalhando, e muito, para tentar amenizar o sofrimento daquele campo de concentração que não ousa dizer o nome. Traduzo algumas histórias publicadas no jornal Página 12. Se não quiserem ler tudo, guardem para depois. Só não esqueçam de ler, pois já basta a indiferença frente ao sofrimento da população da Faixa de Gaza, algo que fala mal de toda espécie humana.
E por favor, nada de papo furado sobre antissemitismo, atitude que nenhum amigo judeu jamais viu em mim. Deplorar as consequências de uma perversa política de destruição impetrada pelo Estado de Israel não equivale a querer a destruição desse Estado, e muito menos de sua população.
Após um ano desde a intervenção que o governo de Israel batizou de Chumbo Fundido, o Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza apresenta resultados de seu trabalho com crianças e adolescentes que sofreram traumas físicos e psíquicos.
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Osama, nove anos, vive com a família em Beit Hanon, próximo da fronteira entre a Faixa de Gaza e Israel. A família possui um modesto armazém numa sala dentro da própria casa. Fadi, o irmão mais velho, era o responsável pelo negócio, mantido aberto mesmo durante a guerra. Certo dia Faid abriu o armazém, como de costume. Na mesma hora Osama, que estava na casa de sua tia, decidiu voltar para casa. No caminho, ouviu o som de um míssil lançado pelas forças israelenses. Parecia muito próximo. Todos nas ruas ficaram aterrorizados, inclusive Osama. Enquanto isso, Fadi resolveu sair do armazém para ver onde cairia o míssil, mas acabou mortalmente ferido. Osama, que já estava chegando, presenciou tudo, inclusive a morte do seu irmão.
Ele reagiu com um grave ataque de pânico, somado a um leve ferimento nas costas. Entrou em casa gritando e chorando, depois de ver seu irmão morrer diante dos seus olhos. Sua família ainda não sabia da morte do filho e Osama não conseguiu dizer nada, até que eles saíram e viram o cadáver.
Depois do fim da guerra em Gaza, Osama voltou à escola, como todos os outro alunos. Mas depois de um certo período começou a apresentar uma série de sintomas, exigindo uma intervenção de parte da assistente social da escola. Fizeram contato com a família decidiu-se que ele iria ao Centro Comunitário do Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza.
Depois de examinar o caso de Osama, forma diagnosticados sintomas que incluíam: ansiedade; excessiva violência com as outras crianças; enurese noturna; temor, desencadeado por motivos triviais; problemas com seus irmãos; choro contínuo; lembrança obsessiva da cena da morte do seu irmão.
A equipe do Centro Comunitário de Gaza preparou um programa terapêutico, depois de fazer exames médicos considerados necessários. O programa incluía abordagens terapêuticas expressivas, especialmente ludoterapia e desenho livre; procurou-se também facilitar a catarse. O programa terapêutico incluiu também o acompanhamento da família, especialmente a mãe, que bastante deprimida e sem condições de enfrentar o trauma da perda de Fadi, seu filho mais velho. Toda a família necessitava de um intervenção terapêutica e de apoio psicológico, depois dos graves acontecimentos vividos por eles; tratou-se de colocar em evidência e modificar os pensamentos negativos. Trabalhou-se também no fortalecimento de sua rede de apoio social.
A partir das sessões terapêuticas e do conjunto de intervenções, Osama começou a se mostrar mais aberto aos demais. A maioria dos sintomas que padecera desapareceram. Começou a brincar com seus amigos e com seus irmãos, e sua concentração nas tarefas escolares melhorou.
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Loai, dez anos
No dia 14 de janeiro de 2009 Loai, dez anos, foi gravemente ferido num ataque aéreo israelense que atingiu sua família em Beit Lahia, Faixa de Gaza. Acabava de sair, junto com seu pai e um primo, da escola em que sua família vivia há 15 dias, depois de ter tido que abandonar sua casa. Eles tentavam voltar para lá em busca de comida, cobertores e outros pertences, já que a escola estava cheia de gente sem sequer o básico para viver; eram mais de sessenta pessoas numa sala de aula.
Os ferimentos causados pelo ataque aéreo deixaram Loai cego, com lesões na cabeça e numa das mãos. Seu primo acabou morto. Além do mais, em função do ininterrupto bombardeio israelense, Loai ficou na rua sangrando durante uma hora e meia, sem que ninguém pudesse se se aproximar; mesmo seu pai, que estava a poucos metros dele, não pôde dar sequer um passo para salvar seu filho. O próprio Loai tentou se arrastar para alcançar o pai, mas não conseguiu. Quando o bombardeio diminuiu, algumas vizinhas ajudaram Loai, levando-o para um lugar seguro onde seu pai pode resgatá-lo. Foi então levado de ambulância para o hospital Kamal Odwan, e posteriormente para a Arabia Saudita, acompanhado pelo pai, onde recebeu tratamento.
Loai era uma criança ativa e inteligente. Cedo tornou-se o braço direito do seu pai no modesto comércio que os ajudava a cobrir suas necessidades básicas. Pensava sempre em comprar uma bicicleta como a de outras crianças. Queria ser um homem de negócios. Loai era muito apegado à família, especialmente ao irmão mais velho, Rajab, que por sua vez tinha dois filhos, Raed e Rajab Junior. Rajab morreu pouco depois, no dia 16 de fevereiro, no último ataque israelense sobre Gaza, atingido por estilhaços enquanto trabalhava numa fazenda.
Em tratamento na Arabia Saudita, Loai não soube que seu irmão morreu. Ao voltar, trouxe presentes para ele, esperando que Rajab fosse o primeiro a abraçá-lo. Quando soube da morte do irmão, sofreu um choque. Loai ainda espera que seu irmão reapareça, continua com esperanças de vê-lo. Crê que se o seu irmão estivesse vivo ele se sentiria mais forte e poderia esquecer sua deficiência.
Porém, ao voltar da Arabia Saudita, seu sobrinho Rajab Junior aproximou-se muito dele e lhe deu apoio. De qualquer forma, Loai, transformado num ser desamparado que depende dos outros, tornou-se inseguro e receoso de dar qualquer passo adiante em sua vida. Passou a preocupar-se o tempo todo com seu futuro, temendo cair a cada instante. Tornou-se incapaz de alcançar seus sonhos mais simples. Conseguiu andar de bicicleta, mas só à noite, com ajuda de sua avó, que é quem se ocupa de acompanhá-lo durante essas horas.
Loai foi encaminhado pela Associação Majid, uma organização civil que trabalha com o Centro Comunitário do Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza. Quando o psicólogo Rawy a Hamam foi vê-lo em sua casa, Loai sofria de sintomas de estresse pós-traumático que incluíam insonia, ansiedade, sentimentos de culpa e raiva em relação a sua família, dor paralisante pela perda do irmão. Perturbava-se com facilidade por qualquer razão.
Providenciou-se um programa de intervenção familiar a Loai e sua família, onde o menino pudesse descarregar suas emoções, expressar seus sentimentos e encarar as circunstâncias que se lhe apresentavam, através de atividades diárias concentradas nos pontos fortes dele. O Centro continua acompanhando o caso de Loai y mantém contato com sua família e sua escola. Nesse acompanhamento verificou-se um notório progresso em Loai. Ele começou a expressar seus medos e suas preocupações. Conseguiu tirar um pouco o foco que colocava em sua deficiência, e começou a pensar em seus sonhos e em seu futuro.
Loai acredita ainda que a perda da visão não é definitiva, continua na expectativa de que um dia será capaz de enxergar outra vez. Mas também parece determinado a que sua cegueira não seja um obstáculo nem lhe impeça de viver como as outras crianças.
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Fathia, 18 anos
Fathia Iz Al Deen Mussa, 18 anos, do bairro Al Sabra da Cidade de Gaza, contou o seguinte em seu depoimento para o Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza, ao término da intervenção militar israelense. “Eu era a única que tinha ficado em casa. Não quis sair até que meus pais, meu irmão Waheed e Mohammed e minha irmã Noor fossem evacuados e levados para o hospital. Mas eu sabia que estava enganando a mim mesma com a esperança de que ainda estivessem vivos. Desejei ter morrido com eles. Esperei que levassem os corpos para casa, para prestar-lhes as últimas homenagens, mas nunca chegaram: os corpos ficaram tão destroçados que não havia possibilidade de serem reconhecidos. Era muito difícil identificá-los.”
“Dois meses y meio mais tarde — contou —, ainda tenho medo de ficar sozinha, às vezes até mesmo de ficar sozinha no banheiro. Tenho dificuldade para dormir, lembro de tudo o que aconteceu. Nunca esquecerei do sangue e dos pedaços dos corpos da minha família espalhados ao redor da nossa casa. Aquela noite fiquei na casa do meu avô Abu Sameer Al Jarah, junto com minhas irmãs Hannen e Sabreen. Não conseguia entender o que estava acontecendo comigo. Minha perna estava ferida, mas só percebi quando à noite ela começou a doer. No dia seguinte tiraram estilhaços e cacos de vidro da minha perna.”
O atendimento clínico e a avaliação do caso de Fathia foram efetuados pelos psicólogos Rawya Hamam e Insherah Zakout. Com o fim da intervenção das forças armadas israelenses, uma equipe de assistentes sociais e profissionais do Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza visitou os sobreviventes da família Mussa. A família sofria de severos sintomas de estresse pós-traumático, incluindo insonia, pesadelos e perda de apetite. Também sofriam de apatia, desânimo e depressão.
A equipe preparou uma intervenção terapêutica para a família descarregar suas emoções, expressar seus dolorosos e descrever com detalhes cada evento por que passaram.as circunstâncias que se lhe apresentavam, A equipe também conversou com eles sobre as experiências que tiveram, explicando-lhes sobre os sintomas e reações considerados normais em casos como aqueles, utilizando uma abordagem psicoeducativa. A equipe ressaltou a importância de fortalecer a rede de apoio social e de trabalhar para corrigir os sentimentos e pensamentos negativos. Durante o trabalho com a família, a equipe se concentrou nos pontos positivos dos indivíduos, ajudando-os a formular planos para o futuro. Uma das meninas resolveu unir-se ao Projeto de Empoderamento das Mulheres do Programa de Saúde Mental, sendo treinada no uso de técnicasque podem ajudar a aliviar os sintomas do transtorno por estresse pós-traumático, como a respiração profunda e o relaxamento. A família recebe tratamento por meio de visitas semanais em sus casa. O acompanhamento do caso de Fathia registrou sua grande melhora; ela começou a conversar com outras pessoas, e começou também a pensar em trabalhar e em depender de si mesma.
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*Organização não governamental fundada em 1990. Seu diretor é Riyad Al Zanoun. Entre os membros do seu Conselho Assessor estão: Inge Genefke, do Conselho Internacional de Reabilitação para Vítimas de Tortura, da Dinamarca; Henrik Pelling, especialista en psiquiatria infantil, da Suécia; Helen Bamber, da Fundação médica da Grã Bretanha; Ruchama Marton, de Médicos pelos Direitos Humanos, de Israel. Texto extractado do informe A vida merece ser vivida, publicado no primeiro aniversário da intervenção militar israelense em Gaza.
Há um ano, durante o ataque israelense sobre Gaza, mais de 1400 palestinos morreram e 5000 ficaram feridas, na maioria civis. Centenas de pais e filhos foram atingidos por disparos ou explosões, ou queimados até a morte com fósforo branco. Milhares de crianças ficaram sem lar e foram levadas a refúgios temporários e barracas, lá permanecendo por longos períodos. Suas feridas psicológicas permanecem escassamente suturadas e ainda abertas. O fim da guerra não equivale ao fim da dor e do sofrimento. No Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza, diariamente presenciamos o impacto catastrófico dessa violência. Sem que se deixe de atender aos danos e à agonia causados pela ocupação, uma questão permanece: como terá sido moldada, a partir destas experiências de vida, a geração emergente? Vemos como uma população desconsolada e com raiva luta para lidar com perdas angustiantes que ameaçam todos os aspectos do seu crescimento, desenvolvimento e bem-estar psicológico.
O Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza procura desenvolver a resiliência da comunidade, especialmente nas crianças. Nosso trabalho é crítico, mas sabemos que a terapia não é suficiente para lidar com a quantidade e a intensidade do sofrimento que enfrentamos. Para as feridas de Gaza, a justiça é a única modalidade de tratamento efetiva a longo prazo. Para las vítimas, a justiça é curativa. Acreditamos que um mundo sem justiça é um lugar perigoso, um campo de cultivo para o desamparo e o desânimo, um criatório de pessoas desesperadas sem nada a perder. Nossa responsabilidade é a de ajudar a prevenir esta situação e criar um ambiente de esperança, onde a paz e a justiça possam prevalecer.
O sujeito, nós dizíamos, começa a análise falando de si sem falar a você, ou falando a você sem falar de si. Quando ele conseguir falar de si a você, a análise estará terminada.
(Jacques Lacan, Escritos, p. 373)
1. Vale para inúmeros processos psicoterapêuticos, não apenas para a psicanálise.
2. Você conhece alguém que consegue verdadeiramente falar de si ao outro? Me apresenta?
Décadas atrás — na internet, passadas algumas semanas de qualquer notícia/post/mimimi, essa é a medida temporal que fica —, olhando os feeds de alguns blogs, vi que dois deles tratavam do mesmo assunto, embora por perspectivas diferentes: a comida. Achei até que fosse um sinal, a senha para desencavar um post inacabado e quase mofado dos meus rascunhos, mas que merecia melhor destino. Mas se não sabe, digo a você como são as coisas na cabeça deste blogueiro agnóstico: o costume de delongar e de não dar trela a supostos “sinais do além” é regra corrente.
Mas o assunto não tem culpa de nada, e os tais dois posts de tempos atrás já constavam deste rascunho. Por que então não retomá-lo no almoço de uma terça-feira?
O primeiro blog citava a interessante matéria do Times sobre o lançamento do livro “Como cozinhar nos tornou humanos”, do antropólogo Richard Wrangham. O livro em questão destaca a primazia não do sexo, mas da cocção dos alimentos como base dos relacionamentos humanos e da evolução da espécie. E como a matéria está em inglês, nada melhor do que um ótimo atalho feito por terceiros, que ainda por cima tripudia dessa hipótese:
A mais nova tese levantada sobre a evolução humana é que, por sermos os únicos animais que cozinham, o tempo poupado na mastigação e uma maior absorção de nutrientes, fez com que nos tornássemos os únicos seres com cérebros grandes, capazes de saber que ao final dessa festa toda morreremos. E a cocção também nos fez sociáveis, casamenteiros, urdidores de prole. Mas aí tem sempre um idiotazinho enxerido que vem com os urubus. Urubus? [...] Os urubus vivem em sociedade, e são tão rigorosos com esse negócio de culinária que desde tempos imemoriais só comem a carcaça cozida pela natureza: desidratada e já parcialmente digerida para um maior aproveitamento. E, por mais que os efeitos do aquecimento global estejam danosos, nunca vi uma ave destas com dúvidas existenciais suficientes para um suicídio de não-bater de asas dramático; e nas fotos, o cara por detrás da mesa de autógrafos assinando um exemplar d “O Alquimista”, não tem penugens marciais de urubu-rei em torno do pescoço, mas a santimônia de uma rabicho de cabelo atrás da nuca. [Parte de um comentário de Charlles Campos feito num (como sempre ótimo) post do Milton Ribeiro]
A menção ao escritor (sic) Paulo Coelho foi só “a cereja do bolo”, claro, daí a minha sorridente gratidão e o pedido de licença para republicação com o devido crédito, como é de praxe. Mas já que fiquei satisfeito apenas com esse comentário a respeito da referida tese do Richard Wrangham — e quem quiser mais pegue um taxi e siga aquele link! do Times lá em cima —, faltou citar o outro post, que falava do filme Julie & Julia, dirigido por Nora Ephron, que narra a história da tal Julie reproduzindo durante um ano as receitas de cozinha do livro Mastering the Art of French Cooking, de Julia Child. (Até alguns meses atrás, mesmo com a Meryl Streep no filme, achava pouco provável assistir. Ter visto A Festa de Babette, Como Água para Chocolate, O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e o Amante e A Comilança, entre outros, bastava. Mas aí comecei a papear com a minha mais nova amiga de infância, que andou falando bastante desse filme, e resolvi vê-lo, na base da pipoca e do namoro no sofá. Foi bom, sobretudo pelo namoro.) Como vedes, não se trata de mero acaso, mas de antropologia e cinema, duas áreas que, apesar de distintas, me interessam bastante e que são a base desses posts que abordaram um tema só: a comida. E este último, assim como o sexo, a religião e as guerras, é mesmo um dos temas que movem a humanidade, para o bem e para o mal.
De sexo, religião e guerras é do que mais ouço falar, mais ainda nesta esfera virtual. Mas de comida não tanto, exceto receitas de. Não posso passar batido pelo fato de que a comparação de comportamentos em relação à comida é tema de interesse e pesquisa há mais de 100 anos, com muita documentação sobre eles.1 Só não vejo com tanta frequência abordagens mais cotidianas e menos acadêmicas sobre o assunto, ao menos não além das ditas receitas ou do exotismo de culinárias de países “distantes”. (Parêntese. Não custa lembrar que não sou antropólogo, sociólogo ou especialista no assunto, o que significa que o fato de não encontrar algo por aí não é parâmetro para dizer se isso é comum ou não: é apenas o parâmetro para dimensionar a minha ignorância. Quero apenas escrever um post, nada além disso. Fecha parêntese) Não à toa lembrei de um vídeo que recebi por e-mail tempos atrás, e que suponho que muitos já conheçam. Aliás, vale o aviso de que não é para estômagos sensíveis, justamente por tratar do assunto em pauta. O vídeo mostra um concurso realizado na China, do “chef mais eficiente”, e foi gravado ao ar livre. A medida da eficiência dos chefs vem da combinação entre o tempo dispendido na preparação dos pratos — quanto menor, melhor — e a garantia de que seus ingredientes principais permaneçam, er… Bom, tome as devidas cautelas e assista, depois conversamos:
Se te faltou coragem, vou contar o que o vídeo mostra e que deixei de fora no primeiro parágrafo. Ganha o concurso não só quem preparar o prato no menor tempo possível, mas também quem conseguir que os ingredientes principais — neste caso, uma cobra e um peixe — sigam “vivos”, isto é, ainda se mexam depois que o prato estiver pronto.
Mas antes de partir para o que me interessa a respeito do vídeo, quero contar sobre ter assistido, no ano retrasado, à palestra de um antropólogo japonês sobre a história e as características da culinária do seu país.
[Por favor, não é hora de perguntar sobre que diabo eu fazia numa palestra dessas. Digo apenas que me diverti, e que tampouco é hora de perguntar que raio de concepção de diversão é essa que eu tenho.]
O palestrante, ao falar das influências religiosas e do intercâmbio com outros países sobre a comida japonesa, acabou contando uma anedota a respeito do que os chineses podem ou não comer — não custando lembrar o quão complicadas são as relações sino-japonesas, marcadas também (e muito) pelo preconceito. Segundo informações colhidas junto aos meus neurônios, a anedota sobre a culinária chinesa diz o seguinte:
Tem duas pernas, não é pai ou mãe, então pode comer.
Tem quatro pernas, não é mesa, então pode comer.
Tem asas, não é avião, então pode comer.
Vai dentro d’água, não é submarino, então pode comer.
Tem lá o seu interesse saber como os japoneses fazem troça dos chineses, e creio que o vídeo lá de cima é um exemplo que não deixa de corresponder ao que a anedota diz. Mas esse tipo de piada não é o que pretendo discutir, foi só uma lembrança pitoresca. Enfoco o que o vídeo mostra, para além dos possíveis engulhos que seja capaz de provocar. Sendo assim, se transpusermos o que ocorre nas imagens para um contexto mais próximo da gente, culturalmente falando — supondo que você e eu compartilhemos um —, dá para discutir questões como o nojo, o sagrado/profano, entre outras. Só evito tecer considerações ou avaliar/julgar o que os chefs chineses e os organizadores do concurso pensam, pois não sei “ser” um chinês, ao menos não de maneira suficientemente próxima para arriscar-me a tal. Interesso-me mesmo é como o que eles fazem nos afeta. E começo pela questão da crueldade com os animais, que suponho seja um ponto assaz incômodo para grande parte de nós, arrisco a dizer. Vale comentar que cá pras nossas bandas é mesmo diferente, sobretudo porque os abatedouros costumam ficar longe da vista da gente, e assim ninguém acompanha o processo que leva bois, porcos, galinhas, simpáticos patos, coelhos fofinhos etc. até aqueles pratos de isopor envoltos em filme de pvc transparente, dessas que “me enganam que eu gosto“, já que por conta disso o bicho nem parece tão bicho assim, o que dilui esse mistura de desconforto, nojo e culpa que costuma acometer a tanta gente. E o que os olhos não veem…
Esse desagrado com comidas onde “o bicho tem cara de bicho” não é uma regra para todo o mundo, nem tampouco em relação a todo tipo de animal, é claro. Peixes e frutos do mar parecem não incomodar tanto quanto um coelho, um leitão ou uma rã inteiros sobre a mesa — a depender do país e da região, vale dizer —, e o desconforto aumenta diante de alguns animais que também servem de companhia em casa ou são parte da atividade laboral — caso dos mencionados coelhos, consumidos “lá e cá”, e de cães e gatos, por um lado; e de cavalos, burros e camelos, por outro, e que também fazem parte da culinária de vários países.
Agora voltemos ao vídeo. Há algo de errado nele? Bom, se a gente puser aspas na palavra “errado”, talvez a conversa melhore. Porque o certo e o errado, a esta altura do campeonato, você já sabe que são de uma relatividade que vai até o tutano dos ossos. Então que “errado” você percebe nele? Que sentimentos ele te provoca? Nojo? Indignação? Um misto de incômodo e de curiosidade? Estranhamento? Fome? Indiferença? (Desconforto por conta de sua indiferença?)
Eu só posso falar por mim, não por você. E o que vem a minha mente diz respeito sobretudo a parâmetros, parâmetros estabelecidos na esfera de qualquer cultura, sobre tudo aquilo que pode (ou até deve) ser mostrado ou encoberto, glorificado ou mantido envergonhadamente secreto, longe da vista dos demais. Nesse sentido, no que se refere à comida, haveria uma espécie de código relativamente recente entre predador (nós, humanos) e presa (os bichos que morrerão para nos alimentar), “aplicado” especialmente aos que vivem em aglomerados urbanos razoavelmente longe de onde se criam ou capturam as ditas presas.
Desse código faria parte excluir, na maioria das vezes, o consumidor do processo de transformação desse ser vivo, muitas vezes considerado simpático ou até mesmo fofinho,
em alimento enlatado ou posto em qualquer outro tipo de embalagem sem “cara de bicho”, sem que nele haja cheiro de abate, de morte, e, por extensão, sem que se suponha sofrimento atroz à presa, com requintes de crueldade, com o predador deliciando-se com isso. (O cartunista Quino tem um ótimo livro chamado A La Buena Mesa, de onde tirei a charge ao lado. Recomendo.)
Aliás, por mais que hoje em dia muito do que envolve o processamento dos alimentos tenha saído da cozinha, “isto é dos fundos da casa, de sua parte menos nobre”,2 vale dizer que o referido processamento não costuma ser completo, já que quase sempre o alimento chega pré-processado. É possível que alguns de vocês tenham tido a oportunidade de ver uma galinha ciscando no quintal horas antes de ser servida no almoço, ou que outros tantos a escolheram ainda viva num pequeno abatedouro perto de casa, com o vendedor levando-a para os fundos do estabelecimento e trazendo-a de volta embalada em plástico depois recoberto em jornal ou em papel pardo, com o sangue num saquinho à parte. Mas hoje em dia já não são muitos os que vivem em cidades grandes e têm esse tipo de experiência em seus cotidianos. No máximo assistem com um quê de prazer sádico alguns vídeos no youtube — que é só procurar, há muitos por lá —, mas provavelmente não o fazem perto das refeições.
Enfim, o vídeo parece quebrar um pouco o tal código a que me referi dois parágrafos acima. No afã de mostrar a habilidade de um chef de cozinha no preparo de um prato, ele fez uso de critérios que esbarrariam naquilo que para muitos tem o status de tabu: a proximidade entre a comida e a morte. É verdade que essa proximidade não é estranha aos que caçam o próprio alimento, algo que grande parte da humanidade ainda faz. Mas para aqueles “distantes da natureza”, desfrutando de um modo de vida em que a tarefa de conseguir alimento está cheia de intermediários e de métodos de transformar um bicho em prato, a morte não faz mais parte da fórmula. E parte dos engulhos de muitos passa por aí.
_______________
1MINTZ, Sidney W. Comida e antropologia: uma breve revisão, Revista Brasileira de Ciências Sociais - Vol. 16 n. 47 outubro 2001, pp. 32-41. 2 ROMANELLI, Geraldo. O significado da alimentação na família: uma visão antropológica. Medicina, Ribeirão Preto, 39 (3): 333-9, jul./set. 2006.
Quarto e último dia do Pré-Caju.
Se o destino, esse em que não acredito, permitir, o último da minha vida.
Ainda há pouco, entrava por tudo que é janela “Simbora ê, Simbora ô… lelelele ôo”, entoado por ela mesma, em carne e osso: dona Ivete.
[De digitar, a azia piora. E não tenho nem um salzinho de frutas por perto.]
Na sexta-feira, segundo dia do evento, imbuí-me do meu melhor olhar antropológico e resolvi assistir algumas horas — que pareceram dias — deste pré-Caju. Confesso que sou um péssimo antropólogo, pois mal começou a festa e capitulei, tratando de escafeder-me do apartamento em que me encontrava, com receio de não conseguir mais sair de lá rumo à casa. Mas não ajudou muito. A localização do prédio onde passo a temporada é privilegiada, e descobri que não apenas para o bem.
[A Ivete já foi embora, mas o massacre segue impiedoso. Creio que não tenho mais azia. Virou úlcera.]
Ontem a atração-mor foi Chiclete com Banana, que deixou grudado em meu cerebelo Chicleteiro eu
Chicleteira ela
Chicleteiro eu
Chicleteira ela
Chicleteiro eu
Chicleteira ela
Libera, libera
Libera, libera… (2x)
[Esse 2x é mentira. Foram dezenas, dezenas, dezenas...]
Já na quinta e sexta tocaram (sic) Timbalada, Claudia Leitte e outros tantos, tão violentos quanto. E no sábado, depois do Chiclete e de sei lá mais quantos trios elétricos, alguém descobriu onde me hospedo e só por isso estacionou um carro de som ao lado da minha janela, no décimo-sexto andar, com alto-falantes que mais pareciam saídos do baile do alto da Ladeira dos Tabajaras em dia de festa do chefe do tráfico da vez, tocando funks de alto teor ginecológico. Pararam quando o sol ia alto, lá pelas seis da manhã. Vai ver acharam que os raios solares estragariam o equipamento, ou então se recolheram porque eram vampiros, o assunto da moda. É só o que consigo imaginar.
Por conta de uma espécie de descompensação — que espero termine no máximo à meia-noite —, acabei saindo do prumo e cometi algumas tuitadas. Autoanálise é coisa boa, e o registro se faz necessário para melhor elaborar o que experimentamos. Sendo assim, reproduzo:
“Pré-Caju me matou. Se fui atrás do Chiclete c/ Banana? Pirou? Tô morto por noite em claro: aqui é a sucursal do inferno (a sede é Salvador)”
“Daqui a pouco chega a Ivete Sangalo. Vou fechar as janelas. Não, não é p/ abafar o som: é puro receio da vontade de pular.”
“Começo a achar que Deus existe, e é o do Velho Testamento: o pré-Caju só pode ser um dos seus mais cruéis castigos.”
“Se o mundo termina em 2012 eu não sei, mas se eu presenciar o pré-Caju de 2011, o MEU mundo certamente vai acabar.”
“‘Aquele é o cara q criou o pré-Caju’, me disseram no restaurante. Sorte dele o meu primo segurar meu braço e tirar a faca da minha mão.”
“Concordo q é preciso discutir e combater todo esse ódio q viceja na internet, mas por favor, deixem o pré-Caju de fora dessa campanha.”
“Taquicardia, falta de ar, dor no peito, formigamento, visão embaçada, boca seca, sensação de iminência da morte: Síndrome de pré-Caju”
E para terminar, ponho em anexo um fragmento que mal reflete o massacre a que meus ouvidos tem sido submetidos desde quinta-feira à noite. Não estranhe o som inicial de Franz Ferdinand nesse meu arremedo de plano-sequência. É só para temperar o caos, enquanto as ânsias de vômito começam a refluir com Eu quero mais é beijar na boca
Eu quero mais é beijar na boca (eu quero mais)
Eu quero mais é beijar na boca
E ser feliz daqui pra frente… pra sempre (2x) [Esse 2x é mentira. Foram...]
Ivete foi mesmo embora, mas Claudia Leitte voltou, e agora tem alguém cantando essa aí de cima, que é da Claudia Leitte. Meia-noite e trinta e cinco, nem sinal de que o pesadelo vai acabar. Dá licença mas eu vou ali, certificar-me que as janelas seguem bem fechadas.
Hoje é sábado, dia de dolce far niente e de passar no blog do Milton para ver mais um post da série PQHS. Feito isso — e meio que por puro acaso — sobrevém uma pergunta que fiz tempos atrás e resolvi repetir hoje:
Você tem ideia da quantidade de vezes que, com um ou mais dedos, toca a si mesmo, se acarinha, se alisa, se coça, se aperta e mesmo ajeita partes do seu corpo em um único dia?
Alguns adendos à pergunta:
1) Refiro-me apenas aos toques que não tenham conotação direta e objetivamente sexual; e
2) Que não tenham a participação de qualquer outra pessoa.
Você já parou para pensar o quanto do seu tempo diário é gasto com atividades auto-estésicas**?
__________
** De “estesia”, que é a capacidade de perceber sensações.
Um grupo ecologista pede que se investigue a qualidade do sêmen de los tarragoneses
O grupo ecologista L’Escurçó apresentou uma denúncia no juizado da guarda de Tarragona para que se investigue por que a qualidade do esperma dos tarragoneses é a pior de toda a Espanha. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Marqués de Ginecologia y Obstetrícia concluiu que 53% dos homens residentes em Tarragona apresentam sêmen que não cumpre com os parâmetros estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS). [Grifo meu]
[O resto da matéria não tem o mesmo humor involuntário, pois explica que os motivos podem estar relacionados à poluição por parte da indústria petroquímica da região.]
2) Mais uma notícia, entre exótica e simpática:
Ioga reduz sentença de prisioneiros
Prisioneiros no Estado indiano de Madhya Pradesh estão sendo libertados mais cedo se completarem cursos de ioga.
Para cada cem dias praticando a técnica - que envolve exercícios de postura, equilíbrio e respiração – os detentos recebem uma redução de 36 dias na sentença.
As autoridades dizem que as aulas ajudam a melhorar o autocontrole e reduzir a agressividade dos prisioneiros.
Cerca de quatro mil detentos do Estado estão participando do projeto, e muitos deles acabam virando professores de ioga. [BBC Brasil - veja o vídeo]
[Se juntassem a ioga à figura brasileira da "prisão especial para portadores de diploma de curso superior" o nosso sistema seria uma beleza, não? Ué, você discorda? Ah, é porque você não se formou? Então corra, antes que acabe!]
Nem sei quais as respostas do post anterior, sequer se houve alguma. Acontece que os dois foram escritos um imediatamente após o outro, só que este foi programado para ser publicado 48 horas depois do primeiro — eu sei, eu disse no primeiro que este viria depois 24 horas, mas depois risquei. Mudei de ideia, não posso?
Mas é provável que você queira saber de uma vez, em vez de ficar nesse ramerrame. Então tá: o trecho do post anterior eu tirei daqui.
Em todo caso, se você ficou com preguiça de ir até lá, te dou uma colher de chá:
La mexicana es una sociedad de dos caras.
Mas eu disse no outro post que você havia acertado, e sustento. E vou mais longe: penso que o que Raymundo Riva Palacio escreveu sobre os mexicanos realmente se aplica à maior parte da nossa espécie.
Se bem que eu queria era saber primeiro que povo em especial veio a sua mente quando leu o texto. De minha parte, te digo que de fato reconheço os próprios mexicanos, com quem convivi durante alguns anos e por quem tenho uma enorme estima — de uma cara só, pois gosto dos defeitos deles também. Mas incluo no pacote os brasileiros, os peruanos, os italianos… Aqui no Brasil, se regionalizarmos a conversa, aponto de cara o carioca. “Me liga”, ele diz, mas não te dá o telefone; “Aparece lá em casa”, mas não te dá o endereço; “A gente se esbarra por aí”, e só se for por aí mesmo, por obra e graça do fato do mundo ser um ovo e você acabar inadvertidamente esbarrando com gente que não pretendia rever jamais.
Mas penso um pouquinho, e logo me vem à cabeça o mineiro. Não um mineiro feito o Idelber, que é de um carinho imenso com aqueles por quem simpatiza, e a quem sequer imagino ver dizendo algo em que não acredita ou agir de um jeito dissimulado. Penso mesmo é no mineiro mais estereotipado, aquele da política, ou o que só é solidário no câncer, como diria Otto Lara Resende. Mas no sul da Bahia também já vi disso, sabia? E no Paraná, particularmente em Curitiba — não conheci outra cidade —, alguns aspectos do texto se encaixariam como uma luva. Se bem que em São Paulo não creio que seja tão diferente, e algo me diz que os de lá não vão reclamar da minha crença. Diria que o que essencialmente muda em todos os lugares que mencionei é o grau de extroversão e informalidade, assim como a proximidade e o contato físico quando as pessoas se falam. (O carioca, por exemplo, é um extrovertido ululante.) De resto, reitero: algo me diz que boa parte da humanidade age de maneira parecida.
Pena que não estou no Rio, queria muito assistir. E se você mora ou está passando as férias na cidade, já deveria ter ido!
Produção francesa, a peça “Strindbergman” estréia no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto no dia 06 de janeiro de 2010
Interpretada por duas atrizes brasileiras, a produção francesa propõe o diálogo entre as obras de August Strindberg e Ingmar Bergman. Uma estranha relação de simbiose e manipulação toma forma entre duas mulheres. O espetáculo integra o Ano da França no Brasil
Estabelecer um diálogo entre a palavra e o silêncio. Uma personagem que não fala manipula outra que não consegue se calar. Esse é o mote da peça Strindbergman, que estréia no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto no dia 06 de janeiro de 2010.
A produção francesa propõe o encontro entre a peça e o filme dos artistas suecos August Strindberg e Ingmar Bergman, respectivamente, A Mais Forte (1888) e Persona (1966). No palco estão a brasileira Nicole Cordery e a franco-brasileira Janaína Suaudeau, sob a direção da francesa Marie Dupleix. A atriz Clara Carvalho, integrante do Grupo Tapa, faz participação especial. O espetáculo integra o Ano da França no Brasil e fez parte do Festival Strindberg, realizado no VIGA Espaço Cênico (SP) em novembro e dezembro de 2009. (…)
Nós os ______________ somos uma sociedade de duas caras. Muito receptivos da boca para fora, mas inacessíveis na esfera privada. Sibilinos, adoramos contar mentiras sorrindo ou responder na mesma toada, com todos sabendo que o que dizemos passa bem longe da verdade. Se cruzamos com alguém de que há muito nem lembrança tínhamos, a gente o cumprimenta com enorme entusiasmo, dizendo o quanto ultimamente temos pensado nele e de como há tempos queríamos falar com ele para “marcar de se encontrar”. A resposta costuma se dar exatamente nos mesmos termos, e nos despedimos na base do “a gente se vê” e do “nos falamos”. Sem diminuir nem por um momento a intensidade da conversa, ficamos de reencontrar-nos em breve, coisa que nunca vai acontecer.
(…)
Na verdade, somos egoístas. A solidariedade, a fraternidade e a calidez humana só vão até a porta de casa. Para que algum estranho cruze a nossa soleira, precisa atravessar numerosas fronteiras sociais. Nossa sociedade opera em círculos, em geral (embora não exclusivamente) socioeconômicos, que costumam ser intransponíveis. Penetrá-los requer uma espécie de patrocínio de alguém que já pertença a essa “seita social” e possa nos dar o seu aval. Não se entra espontânea ou acidentalmente, ainda que na superfície pareça camaradagem, na base do “olá, meu irmão”, “oi, minha amiga”.
Algo me diz que você reconheceu de quem o texto fala, e tenho certeza que você acertou.
E a resposta, assim como o texto original completo, eu dou daqui a 24 48 horas.
ATUALIZAÇÃO: o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (ICRC, sigla em inglês) pôs no Family Links Website uma seção exclusiva para o Haiti, que atende tanto aos que buscam parentes quanto aos que estão por lá e querem comunicar que estão vivos. Clique no linque: Locate your relatives
Embora não tenha parentes ou conhecidos por lá, repasso a informação.
* * * * *
São histórias que se repetem com incrível frequência. (São histórias que seguirão se repetindo.)
Alguns resgatam anônimos dos escombros; outros cuidam da própria sobrevivência; terceiros saqueiam. O futuro não existe, só o presente.
Segue abaixo uma reportagem que lembra um pouco do que presenciei no México, em 1985. Traduzo, embora acredite que a maioria entenda o espanhol sem maiores dificuldades.€$$$.
Antonio Jiménez Barca (enviado especial) — Porto Príncipe — 17/01/2010 [El País]
Em meio ao caos das ruas bloqueadas por saqueadores, dos prédios que viraram purê e de milhares de pessoas caminhando para lá e para cá feito formigas buscando água e comida, um velho caminhão russo avança com uma brigada de homens vestidos com macacões de soldador: pertencem a um grupo de resgate anárquico e eficaz, proveniente de Moscou, especializado em tirar pessoas vivas sob os escombros. Sábado à tarde foram vistos circulando por uma avenida de Porto Príncipe e alguém lhes mostrou uma casa partida em dois:
Ei, tem gente viva ali!
São os próprios haitianos que muitas vezes alertam as equipes de salvamento sobre haver gente viva embaixo das casas. Em tese, todas as manhãs ocorre uma reunião no centro de controle de resgate, localizado no aeroporto, em que um determinado bairro é designado a cada equipe de socorro. O grupo russo vai a essas reuniões, mas depois escolhe o seu caminho de um jeito próprio, deixando-se guiar pelos alucinados habitantes da cidade.
- Tem gente viva ali!
A rua é estreita, pequena, um tapete de escombros, prateleiras destroçadas e tijolos. De um lado, uma casa partida em dois, inacreditavelmente inclinada. As pessoas apontam para um buraco estreito que exala um cheiro adocicado de cadáver. Os membros da equipe russa começam a abrir caminho. São quatro horas da tarde. Uma multidão se forma ao redor. Numa casa próxima, achatada como se fosse de papel e alguém tivesse esmagado com uma marreta gigante, três jovens haitianos subiram no telhado inclinado e partido. Carregam um serrote, uma picareta e uma corda. Gritam que ali tem gente viva, mas o fazem rindo.
Enquanto isso, os russos se arrastam feito cobras pelo buraco e entram na casa. O pouco que sobrou virou um labirinto de quase dois andares de escombros, paredes e móveis, que parece sustentar-se no ar por uma linha invisível. A impressão que dá é que qualquer lufada de vento acabará derrubando a estrutura improvisada que mantém aberto o buraco por onde os russos continuam se metendo.
- São duas pessoas: uma moça e um menino, diz um dos salvadores.
- 15 pessoas viviam aí, replica um vizinho.
Na casa próxima, os três jovens sobre o telhado tiram lá de dentro um frasco de xampu e uma panela vazia e mostram a todos os que olham para eles, rindo sem parar.
Com seus macacões de outra época, seus capacetes de operário, seus tênis esportivos ou suas antigas botas de milico, os russos não parecem a equipe de resgate mais moderna ou mais bem vestida do mundo. Não usam distintivos brilhantes, nem logotipos de grife, nem casacos de cores berrantes ao extremo feito muitos dos grupos que vieram ao Haiti de todos os cantos do planeta. Yuri é alto, forte, louro, com um bigode de Asterix e uma ânsia compulsiva de fumar. Tem 45 anos e é de Moscou. Observa seus companheiros esgueirando-se pela caverna em que se transformou essa casa e confirma que dentro dela há duas pessoas vivas. No sábado completaram-se cinco dias desde o terremoto. Em tese, não era para mais ninguém continuar vivo, levando em conta o calor que tem feito em Porto Príncipe nos últimos dias, além do fato de não ter chovido, impedindo que os soterrados tivessem acesso a água.
- São duas pessoas: uma moça e um menino, diz Yuri, jogando o cigarro contra o que sobrou de uma pilastra.
Às sete já é noite. Os caras do xampu e da panela já levaram tudo o que podiam. Os russos continuam lá embaixo. A equipe se agita. Se ouvem gritos em russo, gemidos. Um especialista entra com uma maca.
Subitamente, iluminada por um facho de luz alimentado por um gerador, surge do buraco, estendida numa maca de metal, uma garota de uns15 anos, olhos revirados, semi-inconsciente, a boca retorcida, o cabelo branco de poeira, a camiseta amarela manchada de barro. Tiram-na daquele beco a gritos empurrões, deitando-a na avenida. A garota se sacode numa convulsión. Yuri grita en inglês “Água!, água!, alguém traga água!”, e milagrosamente aparece una bolsinha de água que alguém rasga, abre y derrama sobre a boca da enferma. Esta se sacode de novo, se contorce, tosse, vomita, se queixa, revive, nasce outra vez: chora e diz num fio de voz, “Graças a Deus, graças a Deus”. Alguém lhe pergunta si há mais pessoas de sua família ainda vivas embaixo da casa e ela responde: “Não, sou só eu”.
Não é verdade. A alguns metros dali, Yuri, exausto, con el macacão de soldador coberto de poeira, diz para seus companheiros, tão cansados como ele:
- Vou fumar um cigarro e a gente tira o outro, tá legal?
Numa cidade normal, a história acabaria aqui. Em Porto Príncipe não; en Puerto Príncipe, estas histórias não terminam nunca. Hoje, um dia depois do resgate, a garota se encontrava deitada sobre um cobertor sujo, num hospital improvisado, sem médicos nem remédios, localizado num lodaçal, cercada de lixo. Uma galinha marrom asquerosa ciscava perto de sua cabeça.
Outra sobrevivente do terremoto definha ao seu lado, cabelos desgrenhados e olhar de louca, e perderá seu pé direito porque o ferimento gangrenou por falta de um antibiótico que na Espanha se consegue quase de graça. A garota resgatada por Yuri mostra aos que a visitam a barriga vermelha de sangue e logo se cobre com um lençol sujo, contorcendo-se de dor. Não há calmantes disponíveis. Ninguém disse a ela que talvez seu irmão esteja em outro hospital, que talvez esteja vivo. Não espera nada. Não sabe nada. Apenas repete una coisa, e desta vez diz a verdade:
- Não lembro de nada. Não tenho nada. Dói muito.
Como esses russos, há também mexicanos, belgas, chineses, canadenses, israelenses e de outras tantas nacionalidades que sempre se lançam assim que surgem notícias de tragédias de grandes proporções como essa do Haiti. Alguns têm apoio explícito dos governos de seus respectivos países, enquanto outros vão por sua conta e risco. Saúdo a todos, respeitosamente.
[Tradução: Ricardo Cabral. Erros grosseiros na tradução (apressada e sem revisar), no português ou, na melhor das hipóteses, na digitação, também são de minha lavra.]
Em casa, Luciana explodiu. Foi pra Queimados, casa da irmã, Zequinha esgoelando no ombro, bracinhos esticados, pai!, pai!, paaaai!
Dois dias de cachaça, tristeza e pão.
Ligaram da firma. É pra passar lá e assinar a papelada, essas coisas.
Tomou banho.
Pegou a van.
“O RH foi pro vigésimo quarto”, disseram na portaria.
“Pra que andar?”, no elevador.
“Vinte e cinco”, suando feito um porco.
“Plin!”, a porta abriu. Desatou a correr, correr, no final do corredor o vidro da janela quebrou fácil, todo o prédio ouviu a pancada no teto da banca de jornal, esmigalhou a cabeça e arrancou um braço, sangue pra tudo que é lado, a Luciana se acabou de gritar e depois desmaiou quando leu no Meia Hora, e o ascensorista, “só vi o cara dizeno ‘no vinte e quatro não!, no vinte e quatro não!’”, contado à polícia, aos colegas da firma, ao dono da banca, três mil reais de prejuízo.
Este site fechou. Depois de cinco anos de atividade, vender quatro livros no mês do Natal foi um sinal de que eu devia me ocupar de alguma coisa mais produtiva. Tenho mais o que fazer do que ficar tomando conta deste pedaço de deserto.
Se você não conhecia o site, não vai lhe fazer falta. Siga seu caminho e seja feliz.
Se você o conhecia e não gostava dele, é hora de ficar contente como eu estou.
Se você o conhecia e gostava dele, por que nunca comprou um livro? Você acha mesmo que tudo o que importa deve ser feito pelos outros?
Mas se você conhecia este site, gostava dele e comprava um livro de vez em quando, peço-lhe desculpas. Aliás, farei isso pessoalmente, quando encontrar vocês três.
Se você é autor, entre em contato, vamos resolver o que ficou pendente.
E se você quer dizer alguma coisa, diga nos comentários. Mas diga logo, porque isto tudo vai desaparecer de vez no dia 30 de janeiro.
Quanto a mim, vou-me embora pra Tativille. Lá, sou amigo do Rei.
Uma pena, Branco, dá uma enorme tristeza quando algo assim acontece.