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A queda, a fratura e o gesso [1]

Jair, preciso te dizer algo.

— Célia, que bom. Faz tempo que eu esperava essa conversa, só que, para não variar, me faltava coragem. Ainda bem que você deu a partida! Há tantos silêncios entre nós, Célia, tantos emudecimentos gritando nesses quilométricos dez centímetros regulamentares que nos impusemos na hora de deitar… Eu sei que nestes últimos quinze anos as coisas mudaram muito, que depois que a Aninha nasceu, o nosso desejo… (você sabe que é “o nosso” e não só “o meu”)… esfriou. Reconheço, meu amor (e não perca de vista isso, que você é o meu amor!), reconheço que aquela paixão intensa se foi, até um cego percebe isso. E que me acomodei, que talvez até me acovardei diante de algumas de nossas crises… Você nem precisa dar exemplos, dou eu mesmo: da vez em que a sua irmã te maltratou com aquela história de você não cuidar da dona Nena, quando ela ficou com câncer… Sei bem que você deve morrer cada vez mais um pouco quando lembra disso, e que eu devia ter sido mais companheiro, ter defendido você, dito alguma coisa, e não silenciar como silenciei, de olhos baixos, enquanto ela posava de vítima… Ainda dói muito lembrar do seu olhar de incredulidade e depois do de súplica, daquelas miradas que se seguiram à primeira, de indignação, e à segunda, a da certeza de me ter como aliado… Ah!, e o golpe de misericórdia, o dia em que você se tremia toda na hora da sua histerectomia, enquanto eu só fazia repetir que a decisão de não querer mais filhos era sua, não minha… Não, nem precisa me perdoar, se é isso o que você está querendo dizer agora; não creio que sirva de coisa alguma, não depois de tanto tempo. Neste momento, acho que se apenas eu falar um pouco de nós, do que se passa pela minha cabeça desde que comecei a terapia, desde que resolvi parar de fingir que estava tudo bem comigo e que tudo ia se arrumar, aquele meu discurso de sempre, enquanto a minha melancolia te deprimia e te punha cada vez mais pra baixo… se eu reconhecer mais um dos meus cansativos fracassos diante de ti, talvez seja o derradeiro ato, por mais que isso soe clichê, o último movimento em prol de nosso casamento… Desculpe, já falei muito, palavras demais pra quem ficou calado tanto tempo. Agora é minha vez de te escutar.

Hmmm… Jair, bem que você podia lavar a louça hoje.

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5 Comments on “A queda, a fratura e o gesso [1]”

  1. #1 confetti
    on Nov 26th, 2007 at 9:14 am

    vida em comum desgasta o amor, desgasta o tesao, transforma qquer paixao em banalidade ! cada um na sua casa é melhor, ou no minimo, cada um em seu quarto ! pratico, sempre pratiquei : da certo !

    je lavou a louça do café da manha , ricardo ?

    [Responder]

  2. #2 Ricardo C.
    on Nov 26th, 2007 at 9:20 am

    Tô indo lavar agora, hehehe!

    [Responder]

  3. #3 pingwyn
    on Nov 26th, 2007 at 3:56 pm

    As vezes a Vida se encarrega disso Confetti, cada um na sua casa… Eu concordo plenamente sempre e um relacionamente muito saudavel.
    Mas, acho que mais do que a vida em comum, o que desgasta sao as pessoas que acreditem que a vida “em comum” nao tem mais nada a ser conquistada, ou mais nenhum desafio. Quando se acredita que “casou - acabou, afinal ja conquistou” ai nao tem mais jeito.
    um beijo para os dois..

    [Responder]

  4. #4 A queda, a fratura e o gesso [2] | Ágora com dazibao no meio
    on Oct 23rd, 2008 at 1:27 pm

    [...] 23 de outubro, por volta do meio-dia. Jair e Célia à mesa, onze meses depois. Dona Semírames na cozinha, passando um [...]

  5. #5 A queda, a fratura e o gesso [3] – Agora com dazibao no meio
    on Feb 11th, 2009 at 2:57 pm

    [...] “primeira queda” foi esta; e a segunda, esta daqui.] Share and [...]

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