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Antonio

Por que foi fazer isso, assim, de uma hora pra outra? Quando foi que você resolveu que se instalaria no sofá, ali ao meu lado, enquanto eu via aquele seriado dos médicos e o Dr. Pratt parava de fazer massagens cardíacas naquele rapaz, e a noiva e os pais e os irmãos dele choravam de soluçar, e alguém dizia “hora do óbito: 22:45”? Por que? Por que não me avisou que viria, que cutucaria minha memória quando eu olhasse aquelas fotos da minha amiga com o pai dela? E por que não falou nada, enquanto eu lia a crônica do jornal de ontem, aquela que falava de uma família húngara, aquela que fez meu amigo escrever um texto lindo, de chorar e soluçar também, e que eu não consegui comentar, já que você resolveu ficar mudo, na frente da tela do computador, e não me deixou escrever? Por quê? Por que não me disse que aquele outro conto que escrevi, aquele que pensei que não tinha nada a ver com você, de um jeito torto, lá no fundo, tinha te chamado? Não dava pra me avisar? E agora, faço o que com o seu corpo, sentado lá na sala, no escuro, sem dizer um ai? Acha que dá pra dormir assim, fácil, lembrando de mais um hospital, do seu hospital, aquele dos dois médicos novinhos, da moça e do rapaz maaagro, aaalto, que vieram dizer pra gente que não dava pra fazer mais nada por você? O que foi, hein? Veio se queixar com esse seu meio sorriso, só porque faz tempo que não penso em você? Ou veio debochar de mim, dizer que não adianta, que posso até não falar o seu nome, mas que você vai continuar no meio dos meus livros, das minhas frases, do oco dos meus dias? Por quê?

Me deixe, vai, me deixe quieto, apareça só no seu aniversário e na data em que morreu, e se quiser, até no dia de finados, e mais meia-horinha quando forem cantar parabéns pra mim e pra minha irmã. Mas por favor, só nesses quatro dias, tá?, senão eu murcho de vez e aí quem vai te atazanar sou eu, e vou puxar o seu pé sem dar um pio, que nem você.

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9 Comments on “Antonio”

  1. #1 Monsores
    on Dec 16th, 2007 at 4:35 pm

    Lamento, Ricardo.

    Abraço,
    André

    [Responder]

  2. #2 confetti
    on Dec 16th, 2007 at 5:01 pm

    andré, que lugubre ! é so literatura…:)

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  3. #3 Monsores
    on Dec 16th, 2007 at 5:26 pm

    Confetti, querida.

    Para o autor, talvez. Para mim, não.

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  4. #4 Ricardo C.
    on Dec 16th, 2007 at 6:37 pm

    Perdas. Perdas do outro, perdas de si. E se não fizer nada? Fica que nem aquele cara, o sujeito menor.

    São as minhas lembranças de Camus, da leitura de “A Queda”, e que de alguma forma se transformaram nesse texto tosco, que não chega nem na unha do daquele famoso, admirável e fantástico pied-noir, mas lhe é grato, muito grato…

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  5. #5 Nat
    on Dec 16th, 2007 at 7:56 pm

    Perdas, incontáveis perdas eu já tive. Dói mais as que ainda vou ter, com certeza.

    [Responder]

  6. #6 pingwyn
    on Dec 17th, 2007 at 9:51 am

    Ricardo mexendo com nossas recordacoes..

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  7. #7 Estultices, por culpa do calor | Ágora com dazibao no meio
    on Dec 19th, 2008 at 1:34 pm

    [...] colocado por aqui um texto sobre um morto atazanando a vida de alguém não sei se conta. Foi há quinze dias, acho que já [...]

  8. #8 Fal
    on Nov 28th, 2009 at 1:50 pm

    Que coisa mais linda. Doída. Linda.

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    Ricardo C. Reply:

    Se eu tivesse útero, era lá que doeria. Mesmo não tendo, é lá que dói.

    [Responder]

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