Tempos atrás, encontrei numa passagem da mitologia grega sobre Tirésias, uma das explicações de sua cegueira e de seu dom divinatório, de que já soubera numa palestra do finado Junito de Souza Brandão.
Segundo uma tradição, certa feita, ao escalar o monte Citerão, viu duas serpentes copulando. Tirésias, que era jovem, na ocasião, além de separá-las, matou a fêmea. Imediatamente, o rapaz se transformou em mulher. Passados sete anos, quando Tirésias passou pelo mesmo local, viu novamente duas serpentes na mesma situação e procedeu da mesma forma, só que, ao invés de matar a fêmea, eliminou o macho. Em seguida, recuperou seu sexo masculino. Como possuía a experiência dos dois sexos, foi chamado a arbitrar no Olimpo uma grande controvérsia entre Zeus e Hera . A discussão versava sobre quem teria maior prazer durante o ato sexual. Tirésias, ao responder sem hesitar que era a mulher, despertou a ira de Hera. Esta, julgando ter ele denunciado a superioridade do homem, visto que seria ele o causador de tamanho prazer à mulher, implacavelmente o cegou. Zeus, porém, apiedou-se de Tirésias e lhe ofertou como compensação o dom da mantéia, ou seja, o tornou capaz do conhecimento do futuro, além do privilégio de sobreviver a sete gerações humanas. (1)
Ando pensando em nossa sociedade como “de meninos”, meninos que se pensam homens, com o poder de homens, armas de homens e o discernimento de meninos. Desconheço quando não foi assim, por mais que uma galera New Age fale de um tempo de matriarcados, de feiticeiras, de relação mais umbilical com a mãe Terra… Edulcoração tola, tentativa de encontrar um Éden que nunca existiu, e solução que, além de nada solucionar, pouco promove…
Cá entre nós, dos excessos de testosterona eu não gosto. Cegam-nos, sem que ganhemos o dom da mantéia. E não creio que precisemos, individualmente, sermos “totais”, para melhorar o atual estado das coisas. Entretanto, se defendermos a pluralidade, a diversidade, ajuda. E as ciladas, as cegueiras sem sabedoria, que sejam parte do processo, não o processo inteiro, como tem ocorrido. Aliás, até mesmo Hera foi tola: sequer percebeu que ganhou a aposta…
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(1) In: Adivinho
















on Dec 24th, 2007 at 1:57 pm
Confesso que já conhecia a história da cegueira de Tirésias, mas sua analogia foi perfeita.
Abraço,
André
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on Dec 24th, 2007 at 3:17 pm
Reconhecer o que o outro tem de bom, em vez de desmerecê-lo, como de hábito. E evitar edulcorações tolas, como escrevi, tb é necessário, pois como se diz por aí, de boas intenções, o inferno…
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on Dec 25th, 2007 at 12:23 pm
Ricardo,
Que edulcoração? O texto é ótimo, lembrando Tirésias de forma bem didática e, principalmente, a ambiguidade do personagem.
A ambiguidade, sendo pernóstica e avançando além da linha, talvez, que vive em todos nós.
E cegos, mais uma vez, somos todos. Você foi muito feliz na observação. E a cegueira conduz à tolice ou coisa muito, muito, pior. (estou com esse vício, ultimamente, de repetir palavras pra dar ênfase).
De toda forma, Feliz Natal! Mas ainda penso em Orson Welles, salvo engano, vivendo o Tirésias, num filme em que Christopher alguma coisa (desculpe, o meio neurônio não tá funcionando direito)vive Édipo. Poderoso!
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