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Sintática, semântica e pragmática

Dispensem a década; já faz tempo. O ocorrido deu-se na Colônia Juliano Moreira, Jacarepaguá, um dos três grandes depósitos humanos por lá construídos para afastar dos olhos aqueles que incomodavam, por “diferentes”, no tempo em que Jacarepaguá era longe.

Havia então vários internos que, estando lá há tanto tempo que não se concebia o lugar sem eles, acabavam vivendo em casas dentro da Colônia, como se um bairro qualquer fosse. E entre eles, uma negra calipígia, de poucos (mas alvíssimos) dentes, conhecida por Babalú, idade incerta, simpatia a toda prova. É dela a passagem aqui narrada.

Deu-se em certa ocasião a visita de um grupo de assistentes sociais — mas poderiam ser médicos, psicólogos ou quaisquer “especialistas garantidos” — que, transbordando boa vontade e convicção política, resolveu instruir a caterva ignara sobre os benefícios da contracepção, e distribuíndo à rodo preservativos aos ímpios (tirei a palavra do baú). E o discurso marxista-leninista, com arroubos da escola de Frankfurt, dava ao grupo a convicção do trabalho bem feito e necessário que faziam.

A Babalú, que por ser destra de esquerdas nada entendia, naquele então vivia amasiada (ou em concubinato, como preferirem) com um vigilante cearense, brabo como poucos, e sempre às turras os dois. Pois entrou na lista dos contemplados — a Babalú, não o amásio turrão —, recebendo sua provisão de cartelas com 21 comprimidos, além das instruções necessárias.

Passam-se dois meses e a turma de bons samaritanos retorna, para verificar o bom termo de sua iniciativa. E Babalú, nossa heroína, que trazia esquizofrenia como rótulo, foi das primeiras a participar das “entrevistas de devolução”, um mal-aplicado jargão dos pesquisadores.

- E então, Babalú, como foi?
- O que?
- Aquilo, aquilo que a gente deu pra você dois meses atrás…
- Ah, já sei!, os anti-sensacionais? Foi muito bom, bom demais!
- Como assim?
- É, eu e o Jônatas tamu até mió, só cês venu… A gente nem briga mais ni nada. Depois que nóis cumeçô a tomá, tá tudo tranqiiilo, tranqiiiiilo.
- Mas… como assim?!?!
- Simpres assim: num dia eu tomo um, tru dia ele toma outro; num dia tomo um, tru dia ele toma outro…

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