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Ágora com dazibao no meio Rotating Header Image

Una Giornata Particolare

Não era dado a oráculos. Contentava-se com o Pariscope, comprado religiosamente às quartas-feiras na estação Saint-Paul. Com ele previu que assistiria ao Réquiem de Mozart naquela noite, desta vez com o chœur et orchestre de Paul Kuentz, na Salle Gaveau. O número 45 da rue de la Boétie dava-lhe a opção do metrô, baldeação para a linha 13 na estação Champs-Elysées - Clemenceau, descendo na Miromesnil. Tudo bem planejado. Não queria mais surpresas, não àquela altura da vida.

Cético parecia, mas não de todo. Além de organizar-se pelo tal semanário, consultava regularmente o canal meteorológico, que por antever os amanhãs, cheirava-lhe a mediunidade. Deixava a cisma de lado só para dar vazão ao seu propósito, ou melhor, à sua obsessão: saber, com o máximo de precisão possível, se choveria do final da tarde ao avançado da noite. Aliás, em se tratando de clima, considerava-se um sujeito de sorte. Nascido fosse décadas antes, não teria ao alcance da mão tantos dados sobre Cumulus nimbus, anticiclones, frentes frias e massas de ar quente e seco, algo que reduziria em muito a sua margem de manobra. Precisava deles para driblar uma certa peça do destino, e de pencas de energia para lidar com o complexo nó que criara em torno daquele infortúnio.

Lembrava, nitidamente, do que apelidara de “o primeiro”. Um inverossímil brotar de lágrimas, sem tristeza, dor ou prévio aviso. Primeiro do olho esquerdo, menos de dois instantes para o direito igualar-lhe o fluxo crescente, córrego, rio, cachoeira, tromba d’água, maremoto, a busca desesperada por um lenço que estancasse aquela hemorragia salina lavando a calçada, esquina de Rivoli com Bourg Tibourg. Cabeça baixa, passo apressado, por fim a porta do prédio, a sorte da vizinha do número três abri-la, os três lances de escada vencidos, a porta do apartamento dizendo estou trancada, a mão violentando o bolso direito, na urgência de arrancar-lhe o chaveiro embolado em suas descosturas, as chaves caindo no chão, e o metal batendo no soalho empoçado grudando-se em sua memória, e a porta de casa finalmente aberta, e a sala, e o corredor, e o banheiro, e a banheira, refúgio, salvação, útero, onde tudo… por fim… aquietou.

Descentrado, sem oriente, mal deu conta de aprumar-se, o suficiente para iniciar um precário plano de defesa. Recordava-se em casa, recluso, evitando expor-se ao que supunha desonroso, os olhares de espanto que por ele passariam na rua, na padaria, no café, no metrô, no caixa do supermercado. Depois quis crer que tudo não passara de um susto, alguma espécie de ataque que não mais tornaria a ocorrer. A seqüência dos acontecimentos, porém, encarregou-se de desmantelar a sua crença, com vários desses surtos lacrimais voltando a transtorná-lo. Porém, o que lhe restara de razão permitiu que notasse, levemente intrigado, uma particularidade: as lágrimas só ocorriam em público. Não importava se a platéia fosse grande ou pequena, nobre, ignara ou douta. Em casa, a sós, nada ocorria. Não à toa, viu-se acometido de uma incômoda agorafobia, permanecendo dela prisioneiro por alguns dias – nada a ver com a sorte, acreditava. Considerando ser alguém mais de atos do que de pensamentos, exigiu-se retomar o próprio leme e descobrir como mudar substancialmente o curso daqueles eventos. Resoluto, depois do quinto dia enrolado numa toalha à espera do pior, deu-se o insight ao olhar para Jonás, o Hyphessobrycon bifasciatus amarelo que habitava o aquário ao lado de sua cama. Lucubrou a possibilidade de alguma razão esdrúxula fazer aquele peixe desandar a chorar, e anteviu que ninguém notaria. No máximo o nível da água subiria um pouco, nada que causasse desconfiança sobre a existência de qualquer tipo de “tristeza píscea”. Foi só aquela intuição incomum despontar em sua mente para que começasse a garoar. Amedrontado, mas certo de que não deveria recuar, resolveu sair para o meio da rua, sem guarda-chuvas, capa ou o que fosse necessário para manter-se seco. Sim, por estranho que parecesse, a idéia de ensopar-se na chuva deu-lhe a sensação de aplicar uma rasteira bem dada naquela esdrúxula moléstia, já que as lágrimas se misturariam à perfeição com a água que caia do céu. E para os que o vissem tão freqüentemente molhado e crendo-o azarado, de tanto ser colhido por tempestades, guardava na ponta da língua um singelo “essas malditas coincidências…”. Haveria também os que o vissem como um louco, andando tantas vezes debaixo de chuva, evitando estranhamente as calçadas com marquises e desviando-se dos toldos das lojas. Que pensassem qualquer coisa: tudo, tudo menos ser flagrado num sem razão de lágrimas.

Roupas encolheram, resfriados estenderam-se mais do que deveriam, mas coube ao fim da estação das águas fazê-lo pensar noutras estratégias, enquanto percebia que a única regularidade em toda aquela estranheza era o período em que acontecia. Dias depois do ocorrido, lembrara da hora do “primeiro”: dezessete em ponto. E dos vários que lhe sucederam, nenhum passara das vinte e três e cinqüenta e cinco. Tal regularidade só não se aplicava à freqüência, já que os surtos ocorriam ora diariamente, ora em dias alternados, ou mesmo sumiam durante semanas, o que não lhe permitia baixar a guarda em qualquer hipótese. Assim sendo, montou uma série de estratagemas que levavam em conta apenas esse período de tempo, usando o que sobrava do dia para dedicar aos seus afazeres costumeiros e bem pouco interessantes, aos olhos dos seus colegas de trabalho e dos vizinhos do prédio, os únicos, além de Jonás, com quem costumava travar algum contato. E os novos ardis, dia-a-dia mais variados, permitiram-lhe ter uma vida próxima do normal, quase tão insípida quanto antes daquela data fatídica.

Dentre os mais recentes artifícios, dois se destacaram, um deles pelo quê de morbidez. Desesperado, passou a freqüentar o cemitério Père Lachaise, um clichê em forma de programa turístico, mas que a ele interessara sobretudo por seu possível efeito curativo. Por um lado, a companhia de Balzac, Chopin, Piaf e Sarah Bernhardt mostrou-se agradável, especialmente por parecerem não se importar com seu esdrúxulo padecimento — não que percebesse. Por outro, já que a ocorrência de velórios era quase certa, caso algum ataque sobreviesse, bastaria aproximar-se estrategicamente do defunto, justificando suas lágrimas a contento. Pena que a primeira estratégia caducasse tão depressa, bem mais do que a segunda. Esta última, motivo de certo orgulho, dizia respeito a gatos, a passear por lugares onde abundassem. (Montmartre, por exemplo.) Alérgico ao pêlo destes, assim que alguma lágrima começasse a escorrer, esfregava-se distraidamente nalgum bichano para que os espirros, a coriza, os olhos vermelhos e tantos outros sintomas de alergia fizessem par com o choro, produzindo o álibi perfeito para aquela cena que tanto pavor causava. E essa alergia, não sendo apenas a gatos, passou de fardo a bênção. No metrô, por exemplo, à falta de felinos, sentava-se ao lado de algum pulôver, cachecol ou sobretudo de lã e pronto: novos e providenciais espirros a desculpar-lhe o pranto. Se não houvesse lã por perto, a poeira levantada por um vento qualquer seria o suficiente para acobertar seu drama.

Cansara-se, porém, dos banhos de chuva, da companhia dos mortos e do repertório alérgico. Queria algo mais normal, menos incapacitante. Foi quando entrou em cena o velho Pariscope e sua vasta programação cultural. Essa idéia surgiu quando andava de ônibus, ao perceber os primeiros avisos de mais um surto – faltara dizer que catalogara alguns sinais destes – e aproximar suas narinas de um rapaz de gorro de lã que consultava o dito semanário. Pouco antes dos seus olhos se inundarem, viu anunciada a reapresentação de um filme dos anos setenta, “Una Giornata Particolare” de Ettore Scola, num pequeno cineclube da rue Nazarine, em Saint Germain-des-Prés. Aquela pequena nota impressa em papel-jornal trouxe-lhe de volta a lembrança do choro copioso, à época em que vira o filme, três dias depois de separar-se da única esposa que tivera (iniciativa dela; paixão fulminante por outro). Rememorou aquela que fora a sua última tristeza, colando-a ao drama de Marcello Mastroiani e Sofia Loren, ele Gabriele, radialista homossexual, ela Antonieta, dona de casa, dois à margem, e que no adiantado do filme, no improvável do encontro, na suave tensão amorosa instalada, precipitaram-se, arrojaram-se, Gabriele consumido por Antonieta, a fala dele fechando a cena, delicada, melancólica: “Foi belíssimo. Mas isso não muda nada”.

Não, Gabriele se enganara. Tudo mudara, depois da lembrança daquele filme. Foi a última vez que lançou mão direta da alergia, deixando-a apenas como alternativa secundária. A partir dali, decidiu centrar-se no cultivo do espírito, na entrega ao refinamento cultural, e no resgate daquele sentimento que nunca mais experimentara. De agora em diante, Pariscope em punho, nunca mais perderia filme de arte algum, assistiria a todas as óperas, operetas, concertos, récitas, peças de teatro, tudo o que pudesse pulverizar o mais pétreo dos humores, que desintegrasse sorrisos ou carrancas, e que resultasse em tristeza. O que aprendesse disso tudo seria o menos importante. Bastava que auxiliasse em seus planos absolutamente umbilicais, semi-racionais e concretos, sem vislumbre de metáfora. Não se opunha às conseqüências positivas desses empreendimentos; tampouco as perseguia. Queria que tudo se dirigisse, pretexto que fosse, ao rumo escolhido, pois para lá levaria o seu destino, convencido de ter conseguido pôr-lhe arreios. Agora poderia chorar baldes, cubas, tinas, vasilhas, acompanhado da nata parisiense, da requintada intelectualidade, fazendo-os crer na legitimidade de sua tristeza, de que tomava parte daquela catarse refinada que tais eventos produziam, daquele pranto coletivo e congraçado. Farsante? “Sim, como todos”, pensou.

Salle Gaveau, sábado. Um Réquiem. Desalento institucionalizado, acordes dedicados aos mortos. Ingressos só aos vivos, como ele. Sobre a cama, o paletó preto, o sapato e as meias idem, a camisa branca e a gravata grafite, de listras claras. Não tinha tantas opções assim, daí o sorriso amarelo a cada vez que abria o armário e perguntava em voz alta: “com que roupa?” Meticuloso, seguiu o costumeiro ritual na hora de vestir-se. Pôs a camisa por dentro da cueca também branca; calçou as meias; vestiu a calça; polvilhou talco nos sapatos, antes de enfiar o pé direito primeiro; esperou baixar a nuvem provocada pelo talco, para então esfregar suavemente os sapatos numa das pontas do edredom, à falta de alguém para censurá-lo; dali para o espelho, um nó Small Knot na gravata (o único que conhecia) e o resmungo baixinho, algo sobre a estupidez que aquela peça do vestuário masculino representava para ele. Apenas um detalhe, só mais um, a destacar desse ritual. Ao vestir a calça, deixava para abotoá-la e afivelar o cinto depois de calçar os sapatos, nunca antes. Não conseguiria alcançá-los se assim não procedesse, culpa da combinação de lombalgia com abdome ligeiramente saliente. Mesmo reconhecendo detestar o primeiro dos componentes daquela dupla, não deixava de nutrir alguma simpatia pela barriga, carinhosamente alisada depois das refeições, por evocar algum sinal da prosperidade que deveria estar para chegar, nenhuma notícia ainda. Mas precisava aquietar a lombar, passaria horas sentado. Dois comprimidos bastariam, mais quinze minutos e só lembraria do prazer ao alisar a barriga.

Uma vez no metrô, lançou um rápido olhar para os passageiros do seu vagão. O espetáculo seria às nove, eram quinze para as oito e não queria ser pego desprevenido. O ligeiro frio do outono conferia-lhe a estratégica opção da lã, abundante nos muitos casacos que viu. Optou por sentar-se a segura distância de um agasalhado casal de angolanos, denunciado pelo sotaque. Poder falar em português com eles serviria de pretexto para a aproximação, caso a estratégia alérgica se impusesse. Mas não foi preciso recorrer à língua pátria, tão pouco usada nos últimos vinte anos. Seu rosto seguiu enxuto até a estação Miromesnil; do destino dos angolanos, nunca soube.

(Seria aquele o momento ideal para refletir, ponderar, lembrar, enxergar de outra forma, lançar pontes, avaliar-se, traçar paralelos, tudo o que as pessoas fazem a certa altura de suas vidas, especialmente quando diante do absurdo, desse insólito embebido em solidão, desse isolamento que aponta para a impossibilidade de outros entenderem o seu sentir, seu querer, seu medrar, mas que alguém com a inteligência dele, sua idade e seu histórico afetivo poderia contornar, inventando algum sentido para tudo isso. Mas não, deixou a oportunidade escapar. Pior: nem notou a sua presença.)

Entrou na sala de espetáculos, seguiu pelo corredor esquerdo e avistou a cadeira “C 15” – o seu lugar de sempre – por primeira vez ocupada. Nem se deu ao trabalho de aborrecer-se, sabia que acabaria sentado lá, bastando uma rápida conferida na numeração dos ingressos para que tudo se esclarecesse bem antes do espetáculo começar. E foi o que de fato ocorreu. O assento daquela moça era o da esquerda, “excusez-moi, monsieur”, “pas grave, acontece a qualquer um, não precisa se preocupar”, respondeu gentil. Depois da cadeira ocupada, aquele fora o segundo estranhamento da noite. Não lembrava de quando havia sido tão sincero numa frase assim protocolar. Soou autêntica, de uma franqueza renovada, a ponto de distraí-lo das estratégias habituais, da razão de tantas ardilezas, dos rituais que há muito o afastaram do verdadeiro contato com as pessoas. Não percebera que, na obcecada missão de burlar um destino que só fizera distanciá-lo do resto da humanidade, as tais pessoas acabaram tornando-se massa de manobra, pretexto, objeto, coisa, ou mesmo cenário para o embate entre aquele seu karma e as defesas que construira, todas reconhecidamente paliativas. Não vira nada disso, até reouvir aquela frase, com uma voz que não sabia sua. “Por quê?” —, há anos que não dizia um desses. — “Será ela?” —, e com essa foram duas interrogações. — “O que terá de especial?” —, o complemento da segunda. — “Estaria nela a cura?” —, seria a mais importante das três, se fosse dado a reflexões. Mas não formulou essa última questão, optando por sossegar, acomodar-se em sua “C 15” e silenciar as indagações. Não podia desperdiçar o conhecimento adquirido comparecendo às tradicionais apresentações do Réquiem de Mozart do dia de finados, nos últimos quatro anos. Em todas elas, sem exceção, foi acometido dos indefectíveis jorros lacrimais. E mais: só ocorreram passados vinte e quatro minutos e trinta e três segundos do início da função, na conhecida Lacrimosa, pura zombaria do destino. Para ele, porém, saber que o pranto se daria num período tão curto e específico de tempo era um bônus. Por isso não daria ouvidos a indagações inapropriadas, nem mesmo às suas. Era o Réquiem que absorveria sua atenção, era ele o propósito, as horas de planejamento, mesmo sabendo tratar-se de um grande pretexto, metido a raffinée.

Introitus. Cinco minutos e vinte e oito segundos até os movimentos que realmente contavam. Porém, o azar veio na forma do perfume avizinhado, desviando-lhe a atenção que se pretendia no palco. A fragrância sóbria, saída de previsíveis pescoço e colo, capturou seus olhos, pousando-os sobre o par de joelhos envoltos em seda, discretos, aromáticos, acomodados à sua esquerda. (Joelhos perfumados, nunca vira.)

Desfocado, abstraiu o segundo movimento, não só por conta dos joelhos aromáticos. Uma respiração de ritmo quase budista ressoava daquele discreto decote que não ousara fitar (mas que sua memória, de um jeito mágico, parecia ter guardado), como parte do que parecia uma conspiração para perturbá-lo. Um decote guarnecendo o vestido preto, de crepe (do tipo mais leve), cheio de flores miúdas, de cor carmim (talvez japonesas), velando a brancura da moça, vinte e muitos anos, penúltimo mês de um curso qualquer de história da arte que a trouxe à cidade, vinda de Chicago. “Uma americana incomum”, pensaria minutos depois, não agora.

Sequentia. Excitavam-lhe as duas primeiras partes, o prenúncio ao dramático Rex Tremendae, seus dedos indicadores regendo o coro, secretamente; pausa e tosses antes do suave Recordade, o tom subindo no Confutatis (quase um clamor), e finalmente a tão esperada Lacrimosa, a ânsia do jorro, da irrupção, “desta vez com tristeza, por favor”, e que seja autêntica.

Mas nada disso ocorreu. Suas narinas estavam noutro canto, seus olhos desobedeceram ao comando previamente programado, neurotransmissores e hormônios inundaram áreas vitais do seu corpo, provocando sudorese, taquicardia, ligeiros espasmos nos músculos dos braços, das pernas, da face, acelerando a sua respiração, descontrolando-o de tal forma que precisou levantar-se e sair correndo até o foyer, buscando atalhos, rotas de fuga, o sangue concentrado nas extremidades do seu corpo começando a rarear nas pernas e obrigando-o a recostar-se na parede perto da saída, escorregando até que o chão lhe aparasse a queda diante do olhar pasmado do único funcionário ali presente, o coro ao fundo clamando Rex tremendae majestatis – Ó Rei, de tremenda majestade –, Qui salvandos salvas gratis –, Que ao salvar, salva gratuitamente – Salva me, fons pietatis – Salva a mim, ó fonte de piedade. Brado sem eco, súplica de um homem tão longe da salvação, frágil, prostrado, só.

“Respire fundo”, disse a moça agachada ao seu lado, o par de joelhos perfumados envoltos em seda bem unidos, vestindo o preto com flores carmins talvez japonesas, que tanto estrago haviam causado, agora neutralizados por aquelas duas palavras em francês com sotaque norte-americano (qual Nina Simone, pedindo Ne me Quitte Pas). Seguindo a orientação dada, ele inspirou, prendeu, expirou, parou, inspirou novamente, e o sangue voltou às pernas, a revolução hormonal foi debelada, os neurotransmissores retornaram à sincronia habitual. “Está melhor? Talvez se bebesse algo… tem um café aqui perto”.

“Uma americana incomum”, pôde pensar agora, “atitude rara, importar-se com um completo estranho”, já de pé, ela ao seu lado, segurando-lhe o braço, o constrangimento todo dele, sentia-se um ancião conduzido até o banho pela enfermeira que o filho mais velho contratou, ele que sequer chegara aos cinqüenta e nem filhos tivera.

S’il vous plais, um chá para o monsieur. Para mim, um petit blanc”, já no café, cabendo àquele par de olhos profundamente escuros acalmá-lo mais um pouco. Fato curioso aquele (estranhamento de número três). Há tempos ele próprio não dirigia o seu olhar a ninguém, não um olhar como o de agora, nu de crítica. E no que seria o início de uma conversa, um fio de histórias contado por ela, qualquer espectador veria a cena de um filme, dois estranhos como protagonistas, dois forasteiros, replantados em terra estrangeira. E na seqüência, o olhar mais atento veria um terceiro personagem desdobrando-se do ator, um “outro” que ele insiste em desconhecer, que não vê como si-mesmo, tudo por culpa de sua obstinação, de sua teima em navegar apenas pela superfície de si. Mas dessa turra viu-se forçado a capitular, dobrada diante de um corpo, de um amontoado de ossos, nervos e tripas que decidira por conta própria o rumo a tomar, à revelia daquele que se pretendia seu dono.

De volta à conversa anestésica, ao rumo inesperado daquela noite de outono, ele começa a atinar o novo, o recém-inaugurado segundos atrás, no instante em que ela disse “Acho que já falei muito…”, sorrindo, “é minha vez de ouvi-lo”, o queixo apoiado sobre as mãos entrelaçadas, cotovelos à mesa, e o negrume dos olhos à espera das frases dele, que demoraram a sair. Não ousou dizer que perdera a metade do que ela contara, que quando o seu corpo desobediente resolveu dar-lhe uma trégua, o primeiro que lhe ocorreu foi que tinha à sua frente não uma moça, não uma estudante de história da arte, não uma americana de vinte e muitos anos, mas sim um arcanjo demoníaco, um câncer salvador, daqueles que realinham a coluna da alma, que restabelecem a ordem das coisas, que trazem o valor da vida de volta, justo por anunciarem-lhe o fim. Foi desse jeito que ela invadira o seu mundo, planeta de um único habitante e muitos perigos, ainda que todos já conhecidos e mais ou menos domados. Ela trouxera a desordem, o caos, enquanto lhe estendia a mão como se dissesse “chega de você não ser você”. A cabeça, que funcionava a pleno vapor, tentava resgatar a autoridade perdida, combater aquela invasão de sentimentos que fundaram um império de desrazão. Inútil empreendimento; reconhecia a derrota. Restou-lhe sorrir.

Começou a contar. Contou-lhe tudo, até o que não sabia. Falou das lágrimas, da corrida ao apartamento, de como quase enlouqueceu. Descreveu os cantos de sua casa, a banheira-útero onde se refugiou nos dias de reclusão, a lembrança do som das chaves no soalho empoçado do corredor. Franziu o cenho ao expor suas conclusões sobre os surtos em intervalos regulares, frente a platéias doutas e ignaras. “A conta, por favor”, fez questão de pagar antes de continuar falando, enquanto seguiam para a estação Miromesnil, quase um casal de namorados a julgar pelos braços dados (desvelo, no caso dela). Sentados no terceiro vagão, vencida a baldeação na Champs-Elysées - Clemenceau e já na linha 1 rumo à estação Saint-Paul, recobrou o sorriso ao narrar o célebre insight, o aquário e seu Jonás amarelo de tristeza píscea, sem alongar-se no fato de não mais lembrar o que era um choro verdadeiramente triste, à exceção daquele último, na sala escura de um cinema, lembrança por conta da reapresentação de um filme particular até no título.

Atada delicadamente ao braço dele, fechou os olhos negros para melhor absorver cada sílaba daquela história. Nem seria preciso, parte dela já antevira o seu papel junto à tristeza extraviada daquele homem, sem dar brecha ao acaso. Até então, pouco sabia dos porquês daquilo tudo, de quando foi que resolveu confortar aquele desconhecido de meia-idade. Melhor dizer, pouco sabia explicar sobre a trajetória dele, apenas fazia o que deveria fazer, seguia a sua própria natureza, daí a razão de dispensar razões. Dava como certo, porém, que na torrente de lágrimas dele não se encontrava o problema, talvez a salvação. E que esse encontro duraria algumas horas, ela como parte central daquela estranha urdidura. Disso tudo sabia, e um pouco mais. Ele? Sequer pressentia.

Estação Saint-Paul. Dali à Bourg Tibourg, sua morada desde que chegara à cidade, vinte anos, dois meses e três dias atrás. Dezenas de passos até o seu prédio, falas cedendo aos silêncios, olhares e afagos adensados, o imponderável que lhes atravessara o caminho desviando-lhes o rumo, coro e orquestra de Paul Kuentz ao fundo, mais uma vez.

A tranca da porta capitula. Dois passos e ele acanha, culpa do olhar pousado naquelas ancas cobertas de crepe. Um sorriso desculpa-lhe o atrevimento; ela também fizera o mesmo, olhando com delicadeza o seu desalinho, fitando-lhe as dobras do pescoço, os cabelos recém grisalhos, a espalda larga e o tamanho das mãos, enquanto ele enfrentava a fechadura. E depois de percorrerem todos os cômodos, ele abriu os braços, como quem diz “é só isto que eu sou”. E antes que os fechasse, ela se aproximou, aninhou-se nele, colou o rosto em seu peito e fechou os olhos, como quem diz “você é muito mais do que crê”. Ficaram assim, uma eternidade ou duas, ele inimaginavelmente sereno, esquecido de si e de seu drama, em paz com o próprio corpo, irmanado ao dela.

(Não sei que lado meu é esse que quer que eu saia daqui, gritar que é tudo absurdo, desabraçar-me dela, enxotá-la, um lado que me prefere sozinho, com lágrimas e sem tristeza, que me quer de volta ao nada, que não quer que eu esqueça como sufoquei com aquele perfume e revirei os olhos fugindo de um decote, como tampei os ouvidos para não ouvir certa respiração budista… Que diabo de lado meu é esse que quer que eu desdiga, desfale, desdesabafe, que eu me destranqüilize e me desdesarme, que eu me desencontre, que eu a desconheça e a desdeseje… Que lado besta, tolo, idiota que quer que eu desviva, que lado é esse que agora se distancia, que ouço cada vez menos, menos ainda… Não, já não sei de lado algum.)

Ela se afasta. Não muito, um braço de distância apenas, o necessário para ajustar o foco e vê-lo nítido, acarinhar-lhe o rosto, passar o dedo em suas sobrancelhas revoltas, roçar-lhe o queixo com o dorso da mão para sentir o arranhar da barba mal-feita, prenunciando as brasas em sua pele, rosto, pescoço e coxas (trêmulas agora, quietas mais tarde).

Dele, quase nada. Nem o afrouxar da gravata, o desabotoar da camisa, o desafivelar do cinto. Nem os dedos, muitos, tirando sapatos, meias, camisa e calça, eriçando pêlos, percorrendo braços, esquadrinhando veias das mãos e linhas da vida. Dedos, todos dela, despojando o crepe e as sobras de pudor, deixando que lábios e língua mapeiem segredos, impregnem-se de sabores, texturas, aromas, crispem músculos, transfigurem a paisagem, salgando-a, umedecendo-a, sondando-lhe abismos e erguendo-lhe montanhas, todos dele.

Seios lanhados por um queixo mal-barbeado procuram a boca, imploram dentes, dor, descem por seu ventre, esmagam-lhe o sexo. E um corpo esguio escala seu torso, e pernas flexionadas montam-no, e uma mão mergulha no estreito espaço entre os dois, e alcança, preme, conduz, lubrifica, e adentra, estreita e enrija seu membro, mais ainda. E nuvens imensas coalham o céu, e trovões estardalham sua inveja daqueles dois seres entranhados, e a chuva despenca, metralha o telhado, e o corpo dele treme violentamente, arqueia embaixo dela e enlaça sua esguiez, e ambos giram, invertem-se, e ele passa a comandar os movimentos, o ritmo, aumentando a tensão, fitando a negrura de seus olhos, segurando-lhe os pulsos com força, e um deles se liberta e com duas unhas sangra-lhe a face, e enquanto a ira multiplica o desejo, o mesmo pulso tateia o chão, encontra a meia de seda, envolve o próprio pescoço, e ele, tomado de fúria, agarra as extremidades do laço, e aperta mais, mais, e ela fecha os olhos, crispa o cenho e crava-lhe oito unhas nas costas, e ele grita, e aperta mais, mais, e mais trovões, e mais tormenta, e o ar em falta, e o gozo irrompe, o dela, o dele, e ele urra, e ela sufoca, e se vai, e se esvai.

Amainam trovões, espasmos, chuva. Cessa a respiração sôfrega, o coração desacelera. E ao fim da terceira eternidade, ele se volta para ela, extasiado: “Nunca morri assim”. (Silêncio.) Vê o laço de seda ainda teso, afrouxa-o com cuidado, estranhando a languidez daquele corpo, a quietude de suas pernas. (Silêncio.) E o estranhamento vira inquietação, e a inquietação senta-o à beira da cama, faz com que sussurre seu nome, uma, duas vezes, toque seu rosto com suavidade, pouse as mãos em seus ombros, mexa, mais forte, sacudindo, alçando a voz, encostando o rosto entre seus seios e ouvindo o nada, o oco, um silêncio ensurdecedor tornado angústia, desespero, “Como se atreve?!”, “O que me forçou a fazer?!”, “Quem é você?!”, e no último “Por quê?!”, perguntas órfãs, e mesmo se ele se antevisse eleito, se soubesse que o lugar de carrasco sempre lhe pertencera, se percebesse que o Réquiem daquela noite nunca fora dele, não teria sido distinto, e Gabriele acertara: nada mudaria.

Um quarto. Uma cama. Jonás. Deitada, abraçando a morte, a desrazão de viver. Duas lágrimas, uma tristeza abissal e um aquário a transbordar.

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0 Comentários on “Una Giornata Particolare”

  1. #1 confetti
    on Jan 1st, 2008 at 2:47 pm

    intense déjà vu….

    [Responder]

  2. #2 Ricardo C.
    on Jan 2nd, 2008 at 11:51 am

    Toda história amorosa tem muito de déjà vu…

    [Responder]

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