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Liberdade e destino

1) Num experimento em laboratório (é coisa antiga, para lá de 20 anos1), um rato é privado de líquido e posto numa caixa. Nela há uma pequena alavanca que, quando apertada, libera água por uma cânula. O rato descobre isso por acaso — esbarrando na alavanca —, mas aos poucos acaba aprendendo que saciará a sua sede apertando a tal alavanca. Esse processo é conhecido como “condicionamento operante”, onde a água é o prêmio que reforça o comportamento recém aprendido (apoiar-se sobre a alavanca).

Numa segunda versão, por meio de uma micro-cirurgia, são inseridos alguns eletrodos no cérebro do rato, alcançando o sistema límbico, uma área fortemente associada às emoções e ao prazer. O rato é novamente privado de líquidos e posto em uma nova caixa, com duas alavancas: uma libera água, enquanto a outra está ligada a um circuito que gera pequenas descargas elétricas, que seguem por delgados fios conectados aos eletrodos no cérebro do rato.

O que acontece? Lembrando que o rato já conhece o procedimento de apertar a alavanca e saciar a sua sede, é o que ele faz. Entretanto, se ele aperta a alavanca da descarga elétrica, um fato curioso se dá: mesmo que esteja com sede, ele vai continuar apertando quase que exclusivamente a alavanca que lhe ministra choques no sistema límbico, trazendo-lhe enorme prazer. E mais: fará isso até morrer. (De sede ou de prazer, difícil saber…)

2) Nos anos 50, nos primórdios da pesquisa genética, estudos com assassinos em série trataram de identificar a presença de genes que fossem associados ao comportamento violento — popularmente chamados de “genes da agressividade”. Segundo relatos sobre tais pesquisas, haveria conjuntos de genes relacionados ao comportamento agressivo, constituindo-se numa espécie de predisposição à violência e aos crimes hediondos, com requintes de crueldade. E o levantamento entre gêmeos univitelinos (idênticos), criados na mesma família ou em lares distantes, dariam a pista sobre o acerto ou o erro dessa linha de investigação. Pois nesse estudo, um caso chamou particularmente a atenção: dois irmãos gêmeos, onde um deles era um violento assassino, o que servia para ratificar o estudo, pois de fato tornara-se criminoso. Já o outro, em princípio, parecia também confirmar o estudo, pois mantivera-se próximo ao universo do crime. Mas só que com uma crucial diferença: em vez de criminoso, tornou-se criminólogo.

Ratos e homens, semelhantes e diferentes, mesmo que, às vezes, os homens sejam mais ratos do que os ratos…

(Dúvida 1: será que muitos de nós, em condições análogas, não ficaríamos apertando a alavanca até morrer?
Dúvida 1, ligeiramente modificada: muitos de nós, em condições análogas, já não ficamos apertando a alavanca?)

Por último, antes das notas de rodapé, uma distinção que muito me agrada, e que conheci lendo um autor hoje em dia esquecido, diria até que injustamente desprestigiado: Erich Fromm. Trata-se da diferença entre “liberdade de” e “liberdade para”2. Sabemos que não somos completamente livres de determinantes biológicos, condicionamentos sociais e culturais, ou mesmo de contingências político-econômicas. Seria ingênuo considerarmo-nos totalmente livres disso tudo. Entretanto — e, cabe dizer, este é um aspecto central da psicoterapia existencial —, somos livres para fazer frente a isso tudo, isto é, como diria Sartre, estamos condenados a escolher a maneira como lidaremos com todos esses aspectos. Mesmo diante de uma situação extrema, como por exemplo, estar preso em uma solitária lá em Guantánamo, só para dar um tom atual ao assunto. Você pode se revoltar, se conformar, se deprimir, manter-se altivo, ou até mesmo tirar a sua vida, se tiver os meios para fazê-lo — e há por lá vários casos de suicídio relatados…

A questão da liberdade para escolher tem alguns senões: 1) ninguém poderá fazer isso por nós — e se eu pedir a outro que escolha por mim, esse pedido será também uma escolha!; 2) não temos nenhuma garantia de que a maneira como escolhemos lidar com esses aspectos seja a mais “correta”; e ainda, 3) não há garantias de que, uma vez feita a escolha, suas conseqüências corresponderão àquilo que buscamos… Quem foi que disse que ser livre é fácil?

_____________

1 Apesar da preguiça, encontrei algumas referências sobre estudos mais contemporâneos — anos 90 —, e deixo abaixo um deles:

“[...] Na Holanda, há um caso clássico, relatado em 1993, de uma família cujos membros do sexo masculino haviam se engajado em crimes de morte, estupros, roubos e incêndios criminosos. A análise genética mostrou que esses homens tinham um defeito muito raro num gene que codifica a produção de uma enzima chamada MAOA, que age quebrando as moléculas de diversos neurotransmissores.
Em 1999, S. Manuck e colaboradores publicaram um estudo realizado com 251 voluntários testados para a presença de mutações num gene responsável por uma enzima que limita a produção de serotonina. Os autores foram capazes de identificar mutações nesse gene associadas a diversas manifestações de agressividade, incluindo a tendência de experimentar sensação de raiva sem motivo aparente.
Em ratos, já foram identificados 15 genes que interferem com a agressividade, entre eles o da MAOA. A identificação de alguns desses genes, às vezes, aparece nas manchetes da imprensa leiga, como representando o descobrimento do “gene da agressividade”.
Conhecimentos elementares de genética, entretanto, demonstram que comportamentos complexos como a violência nunca são regulados por um gene único; estão sob o comando de uma constelação de genes que interagem através de mecanismos de extrema complexidade. Muitos biólogos moleculares estão convencidos de que essas interações são tão complexas, que dificilmente serão entendidas a ponto de podermos manipulá-las com segurança para modificar um comportamento de forma previsível, por mais elementar que seja ele.” (In: VARELA, Drauzio. Raízes orgânicas e sociais da violência urbana. Disponível em: http://drauziovarella.ig.com.br/artigos/violencia_raizes1.asp. Consultado em 04/01/2008.)

2 FROMM, Erich (1984). El Miedo a la Libertad. México: Paidós.

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11 Comments on “Liberdade e destino”

  1. #1 Nat
    on Jan 4th, 2008 at 10:55 am

    Me parece tão estranho que a agressividade e o comportamento violento sejam determinados por alterações genéticas. Mas, enfim, o que não é hoje em dia…
    Me perdoe se estou viajando, mas a violência então seria igual ao alcoolismo. Você só sabe que não consegue parar depois que experimenta. A agressividade certamente atua no prazer também, e aí haja força de vontade para parar.

    [Responder]

  2. #2 Ricardo C.
    on Jan 4th, 2008 at 11:12 am

    Mas mesmo se a agressividade e o comportamento violento forem mesmo sobredeterminados por isso, o que eu fiz questão de apontar é que ainda assim há margem para escolhas, e que isso faz toda a diferença!

    [Responder]

  3. #3 Pax
    on Jan 4th, 2008 at 12:18 pm

    Custo a acreditar na variável genética da violência.

    Agora, se me arrumarem um botão de gozo, sei não, pode ser que o mundo bloguístico perca um péssimo comentarista.

    [Responder]

  4. #4 Ricardo C.
    on Jan 4th, 2008 at 12:31 pm

    Disso eu não duvido, Pax. E quem vai se queixar mesmo será a dona Pax…

    [Responder]

  5. #5 Nat
    on Jan 4th, 2008 at 3:08 pm

    Se a dona Pax se queixar demais, estamos aí…

    [Responder]

  6. #6 Pax
    on Jan 4th, 2008 at 4:01 pm

    Uai Nat, você tem um botãozinho desses à disposição? Hum…

    [Responder]

  7. #7 Pax
    on Jan 4th, 2008 at 4:22 pm
  8. #8 Nat
    on Jan 4th, 2008 at 10:07 pm

    Belíssima foto!

    [Responder]

  9. #9 Papo-cabeça | Ágora com dazibao no meio
    on Sep 7th, 2008 at 10:59 am

    [...] 4 Tratei um pouco disso em um post chamado Liberdade e Destino. [...]

  10. #10 Inato ou aprendido? Mais um exemplo do debate de sempre | Agora com dazibao no meio
    on Dec 23rd, 2008 at 6:38 pm

    [...] minha parte, a minha única e singela contribuição ao debate já fiz em outra ocasião, e diz respeito à liberdade que temos frente ao destino, por mais que este se apresente como pura [...]

  11. #11 Papo-cabeça | Agora com dazibao no meio
    on Dec 23rd, 2008 at 6:41 pm

    [...] Tratei um pouco disso em um post chamado Liberdade e Destino. Share and [...]

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