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Um apanhado sobre o amor (livre da necessidade), bem difícil de dar conta

Depois de ter posto aqui o centenário Por favor, aconteceu de sair e conversar bastante com alguns amigos. Ouvi muito, falei um pouco, e dormi pensando sobre o amor e a vontade de viver, o amor e o companheirismo, o amor e a paixão, o amor e as armadilhas que o cercam, o amor… e o amor.

Não sou muito de falar ou escrever diretamente sobre o amor. Um dos motivos é por não gostar quando me deixo seduzir pelas palavras que com freqüência usamos — sim, primeira pessoa do plural, não se trata de uma prerrogativa exclusivamente minha — ao referir-nos a ele, e que com mais freqüência ainda nos fazem acreditar que é o que de fato sentimos. É como se eu quisesse ter a certeza de que só falo de amor quando é amor, e não apenas digo ou escrevo frases de efeito, que de tanto serem repetidas me dão a sensação que de fato descrevem esse amor, mas na verdade o inventam…

Se já caí nessa armadilha? Sim. Se já dei conta de falar de verdade sobre ele? Também sim. Se reconheci a diferença? Várias vezes, por sorte. Mas a vida é estranha, e as fronteiras entre o autêntico e o aparente não apenas são móveis, como também possuem as sementes um do outro: o verdadeiro pode tornar-se falso, o falso pode pregar-nos uma peça e tornar-se verdadeiro. Além disso, há o tempo: ser verdadeiro (ou falso) não é garantia de perenidade.

Foi pensando nessas coisas que lembrei do trecho de um livro, que agora reproduzo, trecho esse que não relia faz tempo. É um “livro de trabalho”, não um livro de auto-ajuda ou de frases de efeito, daqueles que abomino. Mesmo assim, tomado isoladamente, esse trecho pode dar a impressão que o autor pertence a essas categorias. Se essa for a impressão, a culpa foi minha, não dele. Se alguém deve ser condenado, esse sou eu. Apesar de tudo, segue abaixo o tal apanhado sobre o amor, essa tarefa hercúlea, que mesmo se parecer impossível de alcançar, talvez possa servir como bússola, norte, farol. Ou mesmo como utopia, o que para muitos é algo tolo, mas que tem seu lugar, por mais contraditório que possa soar.

Ah, já sei de antemão que, para uns tantos, só a publicação de um texto sobre o assunto é piegas. Paciência, uma hora acabaria acontecendo…

Amar o outro significa relacionar-nos com ele de uma maneira generosa e desapegada, desprendidos da auto-referência. É libertar-nos de preocupações como “o que pensará de mim?” ou “o que estou ganhando com isso?”. Não é buscar o elogio, a adoração ou a mera satisfação sexual; tampouco diz respeito a poder ou dinheiro. No amor, relacionamo-nos tão somente com a outra pessoa: não há terceiros, nem reais nem imaginários, que presenciem esse encontro. Em outras palavras, devemos relacionar-nos com todo o nosso ser: se uma parte de nós mesmos encontra-se em outra situação — observando os efeitos dessa relação sobre uma terceira pessoa, por exemplo —, teremos falhado na relação.

Amar o outro significa interessar-nos pelo ser e pelo desenvolvimento do outro. Com o auxílio de tudo o que sabemos e do que aprendemos escutando o outro, nós o ajudamos a manter-se plenamente vivo no momento do encontro.

O amor é ativo. O amor maduro é amar, não que nos amem. A pessoa dá amor ao outro, não desaba aos seus pés.

Amar o outro é a forma de estar-no-mundo; não é uma ligação mágica e exclusiva com alguém em particular.

O amor maduro brota da própria riqueza, não da própria pobreza; do desenvolvimento, não da necessidade. Não amamos por precisar que o outro exista para servir-nos de complemento e assim escaparmos da solidão esmagadora. Aquele que ama com maturidade já resolveu estes problemas em outro momento, de outra forma: através do amor materno, recebido nas primeiras etapas da vida, por exemplo. Por conseguinte, o amor passado é uma fonte de força, e o amor presente desfruta dessa força.

O amor é recíproco. Na medida em que nos aproximamos realmente do outro, nós nos modificamos. Na medida em que fazemos com que o outro renasça, nós também adquirimos uma vida mais intensa.

O amor maduro tem suas recompensas. Mudamos, enriquecemos, nos realizamos e atenuamos a nossa solidão existencial. Amando, recebemos amor. Mas estas recompensas surgem do amor verdadeiro; não ocorrem para que surja o amor. Em palavras de Viktor Frankl, as recompensas dão-se, não são perseguidas.

[In: YALOM, Irvin D. (1984). Psicoterapia Existencial. Barcelona: Herder.]

Genericamente falando, não sei qual desses tópicos é o mais difícil. Mas cada um saberá o que lhe parece mais árduo, tenho certeza. Eu enxergo vários em mim, mas não conto para ninguém, nem sob tortura.

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0 Comments on “Um apanhado sobre o amor (livre da necessidade), bem difícil de dar conta”

  1. #1 Monsores
    on Jan 8th, 2008 at 5:02 pm

    Belo post, Ricardo.

    Reparei no autor. Leste “A cura de Schopenhauer”? Tá, sei que é batido, mas como gostei desse livro.

    Abraço

    [Responder]

  2. #2 Ricardo C.
    on Jan 8th, 2008 at 5:13 pm

    Li sim, André, e li mais 3, dois romances (”Quando Nietszche chorou” e “O Carrasco do amor e outras histórias de psicoterapia”), além de um sobre psicoterapia de grupos. Gosto do cara, por mais que esteja escrevendo demais para o meu gosto!

    [Responder]

  3. #3 André Monsores
    on Jan 9th, 2008 at 1:37 pm

    Ricardo,

    Resolvi, finalmente, ativar meu blog.
    O endereço tá no link. Hoje a noite começo a postar.

    Abraço

    [Responder]

  4. #4 Ricardo C.
    on Jan 9th, 2008 at 1:47 pm

    Aparecerei lá, esteja certo disso!

    [Responder]

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