Notou o choro ao cruzar por Ela, e mesmo sem atinar o porquê do nariz vermelho e daquelas bochechas ensopadas, ficou triste. Triste, de rumo descalibrado e um desgosto cada vez mais seu, salvo o fio que brotou do meio de sua coluna, que contorcionismo algum daria conta de alcançar, desnovelando-se até aquelas costas alvas, passos atrás, unindo duas tristuras numa maranha só. Donde o seu céu acinzentou-se, no tom dos desalentos, pesando-lhe as pernas e empenando-lhe os passos, até sentá-lo na varanda dum café, metros adiante, a tempo e a hora de pegar um guardanapo e assoar o quebranto. Diligência inútil. Porejou vinte e dois decilitros de melancolia, lavando a calçada.
Distraída, a Outra nem se apercebeu da poça. Freou, cambaleou, e acabou com o pé esquerdo no charco. Sair de casa tão solar não evitou que a modorra daquele líquido lhe escurecesse a alma e refreasse o passo, o prumo para as calendas. Rareado, o fôlego pediu um cigarro. Precisava queimar o cheiro de inverno que estreitava o laço em torno do seu pescoço, mas… cadê o fogo? Seu olhar vagueou para os lados, para trás, e cruzou desavisado por um rosto combalido na varanda do café por onde acabara de passar, mas nem sinal de lume. Num bar, metros à frente, uma brasa redentora acenou-lhe, e mal conseguiu arrastar-se até a mão que brandia um cigarro de marca incerta, cancerígeno como todos, salvador como nenhum. Seu suplicante “tem fogo?”, foi atendido com o grisalho enfado de uma barba, resultando num leve roçar de dedos, tão sem importância que os donos das mãos sequer notaram. Nenhum dos dois chegou a entender que, além do tabaco, tecera-se agora um novo fio ligando-os às costas de dois outros estranhos, num vai e vem de lástimas sem por quê.
E agora?, disse aos seus botões, o enfado estranhamente opacado, a língua não mais ferina e o peito apertado, recusando ar. E por não saber nada sobre agoras, ocupou-se com a cisma de que aquela moça, que prendia um choro de séculos, era mesmo estranha. Mas uma ligeira nebulosidade desocupou a estranheza, parindo uma espécie de identificação, dessas de filme, onde tudo o que se quer é que a pessoa sentada ao lado chore tanto quanto, por saber que tristeza e solidão, juntas, doem mais do que trinta e quatro pedras na vesícula, e separadas, valem uma dor de dente ou duas, se tanto. E a recém-nascida cumplicidade fez a cabeça também grisalha descair, pender ainda mais, e o cofiar da barba, no afã de enxotar o banzo, só fez espessar os outros fios, embolando-o ainda mais àquela moça e aos outros dois desconhecidos, roubando de suas vidas o sentido, como um vírus a contaminar quantos lhe cruzassem o caminho, atacando suas gargantas, criando nós que só um choro torrencial desataria, num roteiro em completo desalinho com o cenário. É quando o mar de Copacabana, até aqui um simples espectador, farta-se de dar corda a tanto caos e resolve que aquilo está de bom termo, encrespa e avança e ensopa a areia e a calçada e os pés d’Ele, d’Ela, da Outra e do grisalho, lavando maranhas e tristuras e sem-sentidos, acabando com aquela vexação toda, e retomando, numa onda só, o seu lugar de protagonista, fazendo aqueles quatro rirem em coro, enquanto corriam das águas que já alcançavam o asfalto e lavavam o que quer que estivesse em seu caminho, de gente a coisa, de coisa a melancolia.













on Feb 8th, 2008 at 2:06 pm
Ele olhava para Ela, pensava na Outra, comparava as sombras vistas pela luz da vela que percorria seu corpo deitado de bruços, lembrava que já tinha amado a Outra tanto quanto desejava Ela nesse momento, os cabelos grisalhos lhe diziam que aquele paixão era mais um rompante de desejo que propriamente de amor.
Foi quando parou para pensar em Amor. Que diabo de palavra mais sem sentido nesse momento de desejo.
E os espermas escorreram pelas tais coxas. Ela e a Outra se olharam e riram. Estavam felizes com aquilo tudo.
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on Feb 8th, 2008 at 2:53 pm
E o blog? E o livro? Quando saem?
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on Feb 8th, 2008 at 5:02 pm
Você que tem as respostas, caro mestre.
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on Feb 8th, 2008 at 7:56 pm
Falo do seu blog e do seu livro, ora!
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on Feb 8th, 2008 at 8:57 pm
Ora, eu você me reputa tamanha falta de inteligência ilustre.
Ok, a saída foi vulgar.
Aceito.
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on Feb 8th, 2008 at 10:29 pm
A falta de inteligência foi minha, esteja certo. A minha lentidão neuronal anda imensa, meu amigo!
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on Feb 12th, 2008 at 8:24 pm
Ricardo,
Em dias como esse precisei ler três vezes o seu post para entendê-lo completamente - e isso é ótimo.
Pax, e o blog, e o livro? Quando saem?
Se você topar abrir um blog, eu até faço um layout bonito pra você.
Se topar escrever um livro, eu faço a capa!
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