I
Não esperava nenhum estrondo. Mas tão seco, dois crec e pronto, também não. Ficou um oco sem graça, parado no ar, na contramão do que deveria sentir numa hora dessas, se ao menos desconfiasse que viveria algo assim.
De qualquer forma, reconheço que o mérito da estranheza foi meu. Não deveria ter duvidado do magricela dar ou não conta do recado. Pior: imaginei o cara suando em bicas, a ponta da língua pra fora, fazendo um esforço danado de inútil. O tipo de cena ridícula, fora de esquadro e com um quê de escatológica que sempre fui mestre em criar, um daqueles hábitos que começam na infância e com o tempo somem, ou que então ganham vida própria. Só que desta vez não deu tempo de gozar dessas imagens grotescas, como se eu fosse um simples e privilegiado espectador. Os dois crec me trouxeram de volta ao chão.
Coisas da experiência, pensei. Esse varapau deve arrancar obturações no mínimo umas três vezes por dia, e o meu incômodo com essa idéia era tão grande que dava quase para ouvir. Deduzi dessas contas que o rapaz devia mesmo ser bom na coisa. E não deu outra: na palma da mão, seis molares dourados. Né ouro puro não, é só revestimento, uns vinte por cento é cobre, ou então prata, às vêis é pratina ou zinco, disse numa voz fanhosa, e arrematou não ver trabalho bom daqueles faz tempo. Seu jeito lesado me irritou, ainda mais e quando isso acontece, viro um sarcasmo só. Vai ver que estuda odonto, o que tem de aluno que diz a gente vamo, a gente fumo, pra mim fazer… Duvido que ele peça isso pra todo mundo, ainda mais assim, todo educadinho, até porque nessas horas ninguém chega perto, e se bobear ele nunca põe de volta o que sobra dos dentes, foram mais algumas das besteiras arrogantes que disse a mim mesmo, olhos cravados naqueles molares reluzentes de tanto o moleque esfregar na manga do uniforme.
Só conseguia vê-lo da cintura para cima. Quando reparei que a cova era meio rasa, tive que descartar o varapau. Magricela sim, só que um magricela baixinho. Fantasiei dois cotocos no lugar das pernas, mesmo que ele não balançasse o tronco para os lados como faria se fosse anão, ou então se tivesse tido uma pólio das brabas feito o Pereira, meu vizinho. (Outra caraminhola com vida própria.) Para minha sorte, o macilento não ouvia pensamento. Continuou andando de lá pra cá, dentro dos restos do caixão de compensado barato, tão bonito cinco anos atrás. Nem vi quando sumiu dentro da cova; só quando apareceu do nada, três segundos depois, com uma carrada de fêmures, costelas e omoplatas nos braços, que arrumou com um quê de carinho na caixa de poliestireno em que se reencontrariam com o crânio banguela, até então sozinho. Era ali, naquela caixa, que as sobras do meu pai ficariam pelo resto dos tempos. Antes disso, porém, uma breve escala de quinze horas na casa do meu tio Carlos, ao lado do sofá da sala, porque era domingo e o ossuário da Catedral Metropolitana só abria de segunda a sexta, e aos sábados até as quatorze.
*
Somos todos cadáveres ambulantes, dizia o meu pai em vida. E duvido que ele fizesse cara feia se soubesse que lhe arrancariam uma porção de dentes na hora da exumação. Sua mensagem sempre foi clara: não há valor em restos. Ou então, numa espécie de aviso, aproveite agora, porque eu só valho vivo, e o que importa vai embora na hora da nossa morte, amém. Ainda assim, pedi que a minha tia não visse a cena, nem ouvisse aqueles meus diálogos esdrúxulos com o coveiro. Deixe que eu cuido disso, aquele não é mais o seu irmão tem bem uns cinco anos — tudo depois de “irmão” dito baixinho, driblando a ironia, que a hora não era boa para provocação. Apesar dos meus cuidados, tenho certeza que ela considerou aquilo um abuso. Tem gente que não vale ser chamada de gente, tudo atrás de carniça, foi o que ouvi. Concordei com a cabeça, protocolar, e segui calado, a imaginação em vôo de cruzeiro, pensando no papel dos lixeiros, dos embalsamadores, dos agentes funerários, das hienas e dos vermes, e de como ninguém gostava muito de fazer o trabalho sujo. Por sorte ela não me viu sorrir quando percebi que, nessa visão, todos eram machos — agentes funerários, lixeiros, hienas e embalsamadores —, fora a lembrança de serem os vermes hermafroditas e, por associação livre, os deuses astronautas. Da primeira imagem nasceu a pergunta: afinal de contas, quem limpa mais dejetos nesta vida, machos ou fêmeas?, mas ficou sem resposta. E esse batalhão de imagens idiotas era, no fundo, um jeito, o meu próprio jeito de lidar com o imenso vazio de toda aquela situação. Sem contar a falta de pompa e circunstância que a ocasião merecia, e para piorar, nada de amigos dele, meus ou da minha tia para acompanhar-nos. Apenas nós dois naquele dia — um tio morrera antes de eu nascer, e o outro estava internado, por conta do surto psicótico que tinha uma vez por ano —, o dia da minha primeira exumação. E não bastando, de um pai. A da minha mãe sei que falta um bom par de anos, lembro dela ter trocado as antigas obturações de ouro por outras de resina. Vai me poupar do futuro blábláblá com o coveiro da ocasião.
*
Continuei andando até o estacionamento, a caixa de poliestireno debaixo do braço, minha tia a uma distância de um metro e meio, condizente com a profundidade da cova onde o meu pai estivera nos últimos cinco anos, numa daquelas lógicas que só ele e eu entenderíamos. Tia Nitinha seguia à minha direita, a luz do sol primeiro passava por ela e só depois incidia sobre a caixa. Juro que vi desse jeito, a luz em câmera lenta. Pensei nisso quando já estávamos prestes a irmos embora, quando notei como aquela urna ossuária era translúcida. Daí que atrasei o passo e passei para a sua esquerda, satisfeito de saber que ela não veria a silhueta dos ossos do irmão. É fato que a minha imaginação gosta de descambar para a perversão, mas por alguma razão ela costuma poupar a tia Nitinha. Mas só minha tia.
Uma vez dentro do carro, ela desandou a falar comigo. (Faria o mesmo se estivesse com qualquer outra pessoa.) A urna ossuária seguia no porta-malas, fazendo um barulho parecido ao de uma caixa de lápis-de-cor tamanho gigante, os lápis batendo uns nos outros a cada quebra-molas que eu passava. E nesse contexto esquizofrênico, minha tia deu para contar histórias de infância. Uma delas eu já ouvira, e sincronizava-se com precisão aos eventos daquela tarde. Dizia que o meu avô, em tempos de médico pelo interior do país, guardava, numa espécie de cisterna cheia de formol e coberta com uma madeira velha, duas cabeças, a de um mulato de barba rala e a de uma velha nariguda. Nunca ninguém teve coragem de perguntar como ele as conseguiu, e não teria sido eu a fazê-lo. Eu só sabia aquilo que tia Nitinha também contava: que o meu avô as usava nos seus estudos, especialmente para treinar algumas suturas, e que quando ele saia para trabalhar, a minha tia, o meu pai, o meu tio internado e o que morreu corriam para os fundos da casa e se entretinham futucando as cabeças, cada um com a sua vara. Enquanto ouço o jeito dela lembrar, consigo imaginá-la, sacana como sempre foi, tentando furar os olhos da velha e se escangalhando de rir a cada vez que a vara entrava no tal nariz enorme, ao mesmo tempo em que evitava fitar o mulato de barba rala, de quem morria de medo, sabe-se lá por que.













on Feb 24th, 2008 at 10:06 am
Esse vai pro livro. Se não for brigo.
Aliás, vou brigar mesmo com você e seu Sancho. Prefiro o jeito antigo de comentar. Sou saudosista.
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on Feb 24th, 2008 at 10:57 am
Ricardo… Às vezes eu nem comento porque não sei o que dizer. Fica meio repetitivo dizer Lindo, lindo, lindo. E meu estoque de adjetivos não é muito variado, não quando eu quero realmente dizer Lindo, lindo, lindo.
Bem, eu poderia dizer Muito bom! Mas não é tão bem pronunciável quanto Lindo… Esse N aí dá um quê de arrastar a língua, saca? Linnnndo!
Enfim, você entendeu que eu achei divino, né? Parabéns!
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on Feb 24th, 2008 at 1:29 pm
Ricardo,
Qualquer dia desses é o ca-ráleo. Bote logo a mão na massa! Amanhã! Amanhã! hehehe
Ótimo texto, meu caro.
Pax, deixa de ser ciumento.
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on Feb 24th, 2008 at 2:00 pm
Nat, Pax e André, bom saber que agradou. Sim, tem mais, e é uma história que pretende crescer. É daquelas coisas que a gente guarda pra amadurecer a idéia, melhorar o texto, fazer a própria história pedir pra ser contada. enfim, não sei se colocarei mais dela aqui, mas pelo menos vcs deverão saber mais sobre ela assim que a história tiver mais substância!
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on Feb 26th, 2008 at 11:07 pm
Cabral, vou deixar um atalho pra você.
O Luiz Serafim Derenzi (já falecido) escreveu mais ou menos nessa linha, vai gostar:
http://www.estacaocapixaba.com.br/textos/memoria/derenzi/memorias/derenzi_1.html
proftel
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on Feb 27th, 2008 at 12:31 am
Ricardo
Sabe-se lá por que, pensei que estavas falando de tua vida, embora tivesse visto além do título, a identificação de primeiro capítulo. Mesmo assim, acreditei que fosse só a primeira parte do relato.
Imaginação ou verdade, é muito bom. Ficou o desejo de quero mais.
Um abraço.
Ana Pulg
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on Feb 27th, 2008 at 9:06 am
Alexandre, já copiei o link e dei uma passada rápida por lá. Deu pra perceber que vou gostar muito de ler!
Abração e obrigado pela dica!
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on Feb 27th, 2008 at 9:11 am
Ana, é ficção, mas se te deu a sensação de que era mesmo um relato pessoal, então vc acabou de me fazer um elogio danado!
Tem mais, mas quero adiantar essa história, preciso escrever muito e com tempo. Por enquanto não dá mais do que umas 10 páginas, quando chegar a 100 acho que as coisas estarão mais encaminhadas.
Obrigado pela visita, apareça!
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on Feb 27th, 2008 at 9:32 pm
Não há de quê Cabral, li tudo nas férias do ano passado, achei ótimo.
proftel
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on Sep 5th, 2008 at 2:26 pm
[...] [Para quem não leu, a primeira parte está aqui] [...]
on Sep 5th, 2008 at 2:32 pm
[...] quem não leu ou não lembra mais, a primeira parte está aqui, e a segunda [...]
on Nov 14th, 2008 at 12:57 am
[...] [Para quem não leu, a primeira parte está aqui] [...]
on Nov 14th, 2008 at 1:17 am
[...] [Parte 1, parte 2 e parte 3] [...]
on Nov 14th, 2008 at 11:01 am
[...] quem não conhece, aqui vão os links para a parte 1, parte 2 e parte [...]
on Nov 14th, 2008 at 11:01 am
[...] quem não leu ou não lembra mais, a primeira parte está aqui, e a segunda [...]