Um arguto vizinho, dono do excelente blog Catatau, escreveu um post que vem bem a calhar nestes tempos de infindáveis discussões narcisistas na blogosfera. Da minha parte, comecei dialogando por lá, mas trago para este canto algumas idéias que reforçam o ponto central de sua discussão sobre cultos à autoria e à autoridade, cujo problema reside, nas palavras do próprio autor, em que
“(…) o interesse se desloca do QUÊ se diz, para QUEM diz. Resultado: as boas idéias começam a ficar na sombra, enquanto as autoridades se destacam - e isso, independente do que tenham a dizer.”
Creio que essa atitude há de ser tão antiga quanto a humanidade, só tendo mudado o grau e os personagens em foco nas discussões. E reconheço ser mesmo uma pena que quase sempre só se discuta o autor (e sua vida privada), e não as suas idéias. E essa conversa me fez lembrar de um texto do historiador Paul Veyne, intitulado “O indivíduo atingido no coração pelo poder público”. 1 Penso que ele levanta boas questões sobre o assunto, especialmente ao falar de como nós, sujeitos que somos, relacionamos nossa auto-imagem à dos representantes do Estado e da sociedade. Passo a palavra ao Paul Veyne:
“No sentido que aqui atribuímos à palavra, um sujeito não é um animal dum rebanho; é, pelo contrário, um ser que dá valor à imagem que tem de si mesmo. A preocupação com esta imagem pode levá-lo a desobedecer, a revoltar-se, mas pode também, e é o que sucede mais freqüentemente, levá-lo a obedecer ainda mais; entendida neste sentido, à noção do indivíduo não se opõe de modo algum à noção de sociedade ou de Estado. Pode então dizer-se que esse indivíduo é atingido no coração pelo poder público quando é atingido na sua imagem de si, na relação que tem consigo mesmo quando obedece ao Estado ou à sociedade. Gostaríamos de distinguir este ataque à imagem de si mesmo, que foi sempre um dos maiores mecanismos em jogo nos conflitos históricos, de outros mecanismos não menos importantes, por exemplo, os mecanismos econômicos ou os mecanismos de partilha do poder. Quando um indivíduo é atingido assim na própria idéia que faz de si próprio, pode dizer-se que a sua relação com o poder público é a mesma que estabeleceria com outro indivíduo que o tivesse humilhado ou, pelo contrário, que houvesse lisonjeado o seu orgulho.
(…) esta exposição surgiu de uma perplexidade, a de ouvir alguém dizer-me: ‘Voto em De Gaulle por causa da dignidade da sua vida privada‘ Constatamos que a imagem de si dos sujeitos do soberano 2 é provavelmente a chave daquilo que se designa por imagem de marca do próprio soberano, carisma, política-espetáculo, imagem do pai, ideologia ou legitimação. Na minha aldeia, que foi sensibilizada no princípio deste século pela luta contra o que se sentia como a autoridade clerical, os votos socialistas devem-se menos ao conteúdo da política socialista do que a uma hostilidade contra o estilo de autoridade gaullista. Numa sociedade como o Império romano, os conflitos que constituem a trama da história política raramente estão ligados à partilha do poder e ainda mais raramente às relações econômicas; a questão residia em saber se o imperador seria ‘bom’ ou ‘mau’; era bom se respeitava as suscetibilidades da casta senatorial (…). A subjetividade é simplesmente aquilo a que uma expressão da moda, mas muito exata, chama a ‘identidade de si’.” (Grifos meus)
Lendo isso dá para entender muito bem por que a maioria das pessoas não consegue avaliar os atos de alguém em função da coerência de tais atos com a atividade que esse alguém exerce, assim como em função do seu discurso e dos resultados que sua prática apresenta, entre outros aspectos. As pessoas costumam julgar esse alguém em função do quão próximo ele estaria do “modelo de sujeito” que cada um carrega dentro de si.
Por outro lado, há um aspecto na sociedade contemporânea que só faz reforçar essa maneira de julgar o outro. Trata-se do que o sociólogo Richard Sennett chamou de “tirania da intimidade”, 3 que já mencionei em outro post. Cito um trecho do que o psicanalista Jurandir Freire Costa fala sobre o livro do Sennett:
“Na modernidade ocidental, como fez ver Sennett, ocorreu uma radical alteração do ‘ethos’ antigo: o cuidado com o caráter deu lugar à preocupação com a ‘personalidade’. O outro deixou de ser o fiador da fidelidade do sujeito ao bem comum para se tornar o cúmplice ansioso ou ‘voyeurista’ de suas idiossincrasias psicológicas. A privacidade burguesa criou a ‘tirania da intimidade’ e nos levou a crer que a felicidade consiste, quase exclusivamente, em satisfazer as aspirações da vida afetiva. O bem-viver não era mais descrito como realização das virtudes públicas, mas como satisfação sentimental.”
Junto aqui as duas perspectivas:
1) por uma lado a avaliação que um sujeito — qualquer um de nós — faz dos representantes do poder público em função de como a imagem de si mesmo é afetada quando obedece ao Estado ou à sociedade; e
2) a onipresente ênfase no psicológico, nessa espécie de íntimo-que-quase-todos-querem-tornar-público, a “regra” amplamente difundida onde a “satisfação sentimental” funcionaria como “a” medida do “correto”, do “saudável”, e mesmo do “normal”, mas com um grave defeito: excluindo o debate entre as partes, em nome de uma “norma” ancorada numa “concepção psico-biológica dos afetos” — ou num modelo bem classe-média-urbana-ocidental dessa dimensão psicológica. E sabem de um grave “efeito colateral” desse psicologismo? Contribuir ainda mais para a desresponsabilização dos sujeitos frente aos seus atos na esfera pública.
Bom, agora que as duas perspectivas estão lado a lado, escolho tomar esta última frase em negrito de um jeito diferente: em vez de falar da falta de responsabilidade do “sujeito acusado de algo”, ponho acento nos “acusadores”, que dizem ao primeiro:
“Você está errado porque vai contra a natureza. Não sou eu que te acuso, é a própria natureza (dos afetos)!”
É dessa desresponsabilização de que falo, dessa imputação onde quem acusa se exime do lugar de acusador, se coloca como “mero porta-voz” da verdade. E o pior é que não abre mão de lançar uma saraivada de balas para aniquilar o outro…
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1 In: Indivíduo e Poder. Lisboa: Edições 70, 1988.
2 “Sujet” em francês, idioma original do texto, tanto significa sujeito como súdito. (N. do T.)
3 In: A Corrosão do Caráter. Rio de Janeiro: Record, 2002.















on Mar 20th, 2008 at 11:53 pm
Jóia, Ricardo! Muito bom o jogo das citações.
Mas você chama a atenção a algo que fica faltando um pequeno pedaço: falta chamar a atenção ao caráter negativo que as citações evocam. Tanto na atitude de Sennet, quanto na de Veyne, está em jogo a crítica dessa generalização do privado e do egoísta na vida pública. Em suma, nos termos que estamos conversando, as citações mostram que “egolatria” é deplorável, e não é o fim da humanidade. E o centro disso está em
“Quando um indivíduo é atingido assim na própria idéia que faz de si próprio, pode dizer-se que a sua relação com o poder público é a mesma que estabeleceria com outro indivíduo que o tivesse humilhado ou, pelo contrário, que houvesse lisonjeado o seu orgulho.”
A resolução disso - o Costa aponta para o esquecimento da ética antiga - figura precisamente em considerar a divisão entre privado e público, entre a natureza dos afetos e o mundo público. O “burguês” privatiza o mundo público (enquanto o cidadão grego execrava quem se alienava no privado): nesse sentido o anula, e a presença do outro se torna mero meio para fins privados, biológicos, animais. É óbvio que nessa perspectiva nunca se anula o outro pelo bem da “verdade”, mas apenas pelo estômago. O que se desdobra em outras duas questões: uma, a de que tentar restituir o debate para o “bem da verdade”, apenas mostra que essa pretensa verdade não há, e que o acusador ocupa sim um lugar. Mas esse lugar que o acusador ocupa nem sempre é uma nova recolocação do privado.
Pode ser que a tentativa de renivelar o diálogo, destituindo a autoria para seduzir pela idéia, tenha algo bem semelhante à tentativa de reabilitar o Outro, e de reacender o debate público. Ora, isso nunca foi destituído de boas firulas sofísticas. Mas a questão é a da sedução pela idéia, não pela posição (no caso, de autoridade): muito mais um Aquiles, muito menos um afeminado como Páris.
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on Mar 20th, 2008 at 11:56 pm
Em outras palavras: viva os apreciadores do hipertexto em sentido pleno, que tudo fazem para que o hipertexto não deixe de ser hipertexto.
Ora, no fim das contas são pessoas agindo, mas tem algo mais em jogo que seus estômagos…
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on Mar 20th, 2008 at 11:57 pm
… e cristalizar a autoria como autoridade, no sentido em que conversamos, é impor o estômago por cima das palavras
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on Mar 21st, 2008 at 6:31 am
ah que delicia esse debate ! morro de inveja de nao ter essa clareza de expressao de vcs…
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on Mar 21st, 2008 at 4:23 pm
Meu caro amigo Catatau, passo rapidinho só pra dizer que terei que ler com atenção os seus comentários antes de me aventurar na resposta, mas estou só de passagem, não sei se ainda hoje dará para responder. De qualquer modo, desenvolvamos mais esse papo, que dá pano pra manga!
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on Mar 21st, 2008 at 4:24 pm
Confetti, isso não é verdade. Não te falta clareza, nunca me pareceu!
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on Mar 21st, 2008 at 9:07 pm
Catatau, pelo fato de ter citado o Jurandir Freire, posso ter dado a entender que haveria um “certo”, localizado no passado, e que a retificação do que se encontra errado deveria ser buscada na Grécia de 2500 anos atrás. De fato, alguns comentadores consideram que a maneira como o Jurandir formula as coisas tem mesmo esse viés. Nesse sentido, o que vc apontou como caráter negativo até se aplica, mas creio sobretudo que à segunda citação, não tanto à primeira. Da minha parte, o que o Veyne disse serve mais como uma explicação das forças em jogo, apontando que não são só os mecanismos econômicos e os de partilha de poder que definem o jogo, mas tb a imagem que o sujeito faz de si na sua relação com o Estado e a sociedade, com tal relação interferindo diretamente no julgamento deste mesmo sujeito. Vandalizando um pouco as idéias expostas por Veyne, trata-se de um mecanismo fortemente especular, ou seja, é mesmo pelas identificações que funcionamos mais comumente, e a valorização do psicológico — tal como é dito pelo Sennett — não facilitou muito as coisas na hora de “ampliar o nosso olhar”…
Num outro post, Tempo, pressa ou a obesidade dos neurônios, mostro um pouco do meu lado retificador, quase nostálgico na minha crítica ao contexto atual. E tenho mesmo andado meio cansado, é fato. Mas se tomar as minhas críticas mais como diagnósticos do que como posições do gênero “ai que saudade da aurora da minha vida”, dá para avançar daí, sem necessariamente retroceder.
Bom, já falei muito, devolvo a bola para você.
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on Mar 21st, 2008 at 11:39 pm
Salve!
Opa, não mencionei um “retorno” à Grécia. Não sou leitor do Costa, mas penso que ele não recairia no erro de pregar algo como um retorno.
A antiguidade não serve como modelo a ser copiado, mas como uma espécie de contraponto em relação a pretensões que são bem nossas (como cidadania, e afins). Existe um caráter de ensinamento que não é bem o de retorno.
Mas não é esse o ponto; o ponto é precisamente que, do modo como vc orquestrou as coisas, o momento negativo da argumentação é a privatização do público. Nisso os 3 autores se encontram. E privatizar o público - ou alçar o privado como público, o contingente como necessário, o singular como universal - é simplesmente achatar o homem no nivel do egoísmo, e da animalidade.
É o nível ‘psicológico’, como vc expôs: o que comanda as coisas passam a ser os gostos, os caprichos, as necessidades e paixões, enfim as determinações ou contextos que circundam um indivíduo, tomado em nível biológico.
É aí que a escrita, como projeção do privado no público, deixa de ser troca para se tornar autoridade. Apenas querelas de gosto, e nada que se aproxime de um bom pluralismo.
Ora, o fundo do assunto é esse: transformar autoria em autoridade carrega os significados do egoísmo (enquanto projeção do privado no público); prezar pela sedução a partir da idéia é medir as idéias pelas idéias, expô-las em praça pública, e enfim se colocar no jogo com os outros.
Na projeção privada o jogo não existe; já está subsumido pela autoridade. Mas quando se passa à idéia, os diferentes autores jogam, sempre secundários em relação à idéia. Não é a boa idéia resultado de um autor, mas é o bom autor o resultado de uma boa idéia
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on Mar 22nd, 2008 at 9:27 am
Pois do que gosto dessa conversa com vc é não apenas da busca do entendimento, do exercício da compreensão, mas da ampliação do conhecimento através do diálogo, e não da mera concordância que encerra o papo com aqueles indefectíveis “é por aí”… E o prazer intelectual, neste caso, vem como brinde, não como foco, pois seria cair em mais uma versão da armadilha em que vemos cada sujeito nesta blogosfera tão narcisa.
Junto-me ao teu time na defesa do hipertexto, das “idéias fazendo os autores” — e pouco importando se são feios ou bonitos, de direita ou de esquerda. Importa mesmo é que sejam idéias que se deixem discutir, sem apelos à autoridade.
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