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Meus fenícios e seus ofícios

Deparei-me com algumas rugas que pensei serem de preocupação, mas tratava-se apenas de idéias, caraminholando por mais de doze horas, franzindo a minha testa. E para livrar-me desse processo de envelhecimento precoce, preciso tirá-las de lá.

Para ser sincero, nem idéias são. Trata-se de um tema, que perambula diuturnamente por aqui, monocórdio que ando: as medidas. Sei-as transitórias, imprecisas, servindo apenas pontualmente. Sei também que são necessárias, difíceis de afinar, para que alcancem um sonhado equilíbrio. Sei-me também, desde que me entendo por gente, avesso à métrica, ou melhor, sou-lhe incompetente. O que será isso? Talvez seja fruto da profissão escolhida ou, ao contrário, por ela ter sido a última que sobrou, dentre as opções que estavam à mão, e que prescindiam do rigor das tais medidas. E o resultado: desmedidas, não raro desmesuras, que circulam em minha cabeça e me obrigam a falar delas.

Pois desta conversa, meio sem pé nem cabeça, vieram-me algumas profissões, que talvez pudessem ter tornado o tema mais ameno para mim, simplório até, pela constante repetição que exigem — destreza e domínio também —, transformando-se em um automatismo que, aos poucos, deixa de fazer ruído e de criar textos. Um ofício veio primeiro: farmacêutico, desses que fazem manipulação de fórmulas, que curam erisipela, constipação e até mau olhado. Imagine o que é controlar substâncias, dosá-las. Um mínimo erro e se tornam venenos mortais! Outro: feirante, com aquelas balanças antigas, de dois pratos e vários pesos de metal, que rapidamente acertam a gramatura das coisas e transformam-na em preço… Magia pura! De alguns eu declino: matemático, astrofísico, economista; sequer me alongo em explicações. Mas um deles eu queria exercer, pois daria conta dos meus fenícios, e talvez até me abrisse os olhos para os celtas e os visigodos: marceneiro. É essa profissão que queria ter abraçado, no fim de semana que passou, depois que constatei, frustrado, o porquê da importância que atribuo às medidas.

Desmedido, meus erros de cálculo impediram-me, dias atrás, de montar a “mesa” — uma reles tábua, (mal) recortada e pintada, a ser presa na parede —, que trabalhosamente fiz para o computador.

Por quê, logo sábado, fui ser psicólogo?

___________
Há uma explicação para essa conversa maluca sobre fenícios, que alguns não devem conhecer. Está em Samba de uma nota só.

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0 Comments on “Meus fenícios e seus ofícios”

  1. #1 Amar Yasmine do AQUILIS
    on Mar 13th, 2008 at 10:59 pm

    Saudações, Senhor Ricardo!
    *sorrindo*

    É um belo blog, o teu. Fiquei aqui muito tempo lendo tudo, me divertindo, me informando, curtindo Brad Mehldau, que adoro… e Radiohead. Foi uma ótima surpresa te encontrar e, se tiver tua permissão, vou colocar um link lá no meu, que abri faz pouco tempo.

    Doces besos, Senhor!

    Amar Yasmine do AQUILIS

    [Responder]

  2. #2 confetti
    on Mar 14th, 2008 at 5:41 am

    seu rc, esqueceu a cozinheira…pesos e medidas é tbm a alma da gastronomia…imagine errar no sal ou no açucar…e a costureira…e os engenheiros…bem, acho que vc nao esqueceu nada, so deixou a gente completar !
    nao passa 1 dia sem vc me dar prazer e sorrisos com esse agua da porra ! benzadeus, je t’aime

    [Responder]

  3. #3 confetti
    on Mar 14th, 2008 at 5:44 am

    marceneiro nao é profissao, é arte…psicologo é sina…

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  4. #4 Ricardo C.
    on Mar 14th, 2008 at 8:56 am

    Amar Yasmine, divirta-se. Quanto a pôr um link para cá, não há problema. Só imagino que alguns dos que visitam o seu blog ficarão um pouco decepcionados com a temática totalmente distinta que encontrarão aqui…

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  5. #5 Ricardo C.
    on Mar 14th, 2008 at 8:59 am

    Confetti, teus sorrisos para mim não têm medida, viu? :-D

    E psicólogo é uma sina de que gosto muito!

    Beijo grande!

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  6. #6 Pax
    on Mar 14th, 2008 at 5:02 pm

    Bem, já eu gostaria de ser mecânico de carros. Entendo um bocado, estudei, mas na hora de mexer eu me enrolo todo, perco a paciência.

    Na cozinha também me entendo, adoro a alquimia do mundo gourmand. Mas acho que melhor seria dono de restaurante com um ótimo gerente executivo, pra ficar recebendo os amigos. Já fiz trabalhos pro restaurante de um amigo e sei que o dia-a-dia não é fácil, por isso ter um executivo para as chatices seria fundamental.

    Outra profissão boa é dono de pousada na frente do mar em praia de pescador. Essa quase aconteceu, mas me contento em ser amigo de um que é meu parceiro de pesca. Aliás, mal sabe escrever, viveu do mar muito tempo, mas é uma das pessoas mais inteligentes que conheço e, com certeza, o melhor relações públicas do mundo. E casou com uma gaúcha que toma conta do caixa muito bem. Hoje vivem muito bem. Mais que muito bem.

    Outra que poderia ser é dono de puteiro de luxo, mas com meninas legais, curso superior, coisa fina, tipo pra receber presidentes, no mínimo ministros. Mas, bem, esses aí são canalhas, então pra receber amigos ricos. Mas amigos ricos que precisam de puteiros talvez não me interessem. É, vamos pular essa do puteiro.

    Mas, pra não descontentar o dono do pedaço, marcenaria é muito legal. E também sou um zero à esquerda.

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