[Para quem não leu, a primeira parte está aqui]
II
Pedro, ligaram da clínica. O seu tio Carlos recebeu alta, o psiquiatra pediu que você fosse buscá-lo. Disse que quer dar orientações sobre os remédios a algum dos familiares. O bilhete da Zezé, a empregada da vida toda, estava no aparador ao lado da porta, impossível que eu não visse. As palavras não eram bem essas, mas foi o que deduzi do seu português precário. Eram quatro da tarde, e se eu não chegasse na clínica até as cinco, teria que voltar no dia seguinte. Achei estranho darem alta num domingo, mas mesmo assim corri até lá, me armei de paciência e entrei no consultório do psiquiatra de plantão, mais um desses caras que só porque usam jaleco e recebem amostras grátis dos laboratórios pensam que vão descobrir a cura da esquizofrenia e do câncer ao mesmo tempo. Era apenas mais um que levaria um baile do meu tio, baixando a crista e tendo que dizer algo como “trata-se de um caso complexo, envolve atipias que obrigam a deixar o diagnóstico em aberto”, ou então que ele tem uma “psicose atípica”, outro rótulo estúpido de nome pomposo, daqueles que servem para esconder a completa ignorância da medicina sobre doenças mentais. Fingi ouvir com atenção o que ele tinha a dizer, chamei-o de “doutor” durante toda a conversa, e falei alguma coisa de que não lembro mais, um desses lugares-comuns para que ele se sentisse novamente acima dos mortais e me deixasse levar logo o Carlos para casa — sim, o meu tio Carlos, que detestava que o chamasse de tio —, o que de fato acabou ocorrendo. Despedi-me do psiquiatra com o meu sorriso mais falso e fui até o final do corredor, por onde o Carlos sairia. Quem o trazia era o Sousa, o enfermeiro de sempre, e ambos vinham estranhamente calados. Digo estranhamente, porque viviam discutindo sobre xadrez — se Alexander Alekhine tinha sido melhor ou não do que Capablanca — e também sobre rum e política — o Sousa sempre repetindo que o rum dominicano era melhor do que o cubano, o que comprovaria a superioridade do capitalismo sobre o comunismo. Vê-los daquele jeito, sem dar um pio e despedindo-se apenas com um discreto aceno, me deixou cismado. Só que a cisma durou pouco, substituída por um previsível mau humor, graças ao engarrafamento que pegamos no trajeto até a casa do meu tio. Devia tê-o buscado na segunda-feira.
*
Atipias. Atipias de uma internação diferente das outras. Não fora propriamente um surto, pelo menos não como das outras vezes. Foi o meu tio que quis se internar, como se precisasse de umas férias de si mesmo, ou como prenúncio de uma nova fase, desconhecida por mim (e por ele, talvez). De fato, parece que os novos medicamentos, associados ao seu próprio envelhecimento, tinham suavizado as crises. “Os surtos se cansaram de mim” foi a única frase que ele disse no caminho de casa, fora o boa-noite Zezé, ela que nos aguardava com um jantar dos deuses, uma de nossas últimas refeições familiares — embora Zezé ou qualquer um de nós sequer desconfiasse disso.
*
Visto por fora, o prédio onde tio Carlos morava não chamava muito a atenção. Só lá dentro, quando chegávamos à mesa do porteiro, é que se podia ver um imenso, largo e vazio corredor, à esquerda de quem entra. Dava uma espécie de tristeza quando tinha que atravessá-lo sozinho. Parecia uma daquelas construções da Itália de Mussolini, pelo menos era essa a impressão que eu tinha sobre a arquitetura de lá, na época do fascismo. Admito que entendia muito pouco de arquitetura, quase nada de Itália e menos ainda de fascismo. Mas da tristeza que era passar por aquele corredor, dessa eu era perito.
O apartamento era enorme e mal distribuído. Tinha uma sala quilométrica, onde ficava o tal sofá ao lado do qual eu deixara a urna ossuária do meu pai. Esquecera desse fato, devia tê-la tirado dali antes de sair para buscar o Carlos na clínica — um dos meus piores esquecimentos, coisa que lamentaria durante um bom tempo. Assim que chegamos, segundos depois de cumprimentar a Zezé, o Carlos deu de cara com a caixa. Não fez comentário algum, mas era óbvio que sabia muito bem do que se tratava. E o seu mutismo, o mesmo que tanto me intrigara horas antes, tornou-se insuportável, hipertrofiado pela culpa que me cabia, toda minha. Não importava que aqueles ossos já não representassem o meu pai. Meu irmão… aquele é o meu irmão. Aqui não é o lugar dele, a última frase da noite, algo monocórdia, diga-se de passagem. Depois dela, a minha fome foi embora, e a Zezé só não ficou mais chateada porque o Carlos comeu por nós dois.
Resolvi dormir por lá. Forma de dizer, já que a culpa, fermento da insônia, fez o dia raiar na hora em que finalmente caí no sono. Confirmei o óbvio: o que é bom, dura pouco. Pedro, acorda; Pedro, Pedro, por favor, acorda! Foi preciso mais uns cinco Pedros gritados pela Zezé até eu notar que não sonhava. A voz dela, sempre tranqüila, estrilava nervosismo. Enfiei um indicador na orelha esquerda e cocei com força, como se isso fosse me fazer escutar melhor, mas o resultado foi nulo. Resolvi esfregar bem os olhos, ainda em dúvida se não se tratava de uma dublagem mal feita, onde parece óbvio que da boca daquela atriz servo-croata nunca teria saído uma única palavra em português, coisa que logo se esquece com a seqüência de “dizêindos”, “fazêindos” e “einteindêindos”, totalmente hipnóticos e em perfeito sotaque paulistano. Não, a dúvida sumiu: era mesmo a Zezé. Depois que os olhos conseguiram manter o foco por mais de cinco segundos e enxergaram sua boca, vi que era de lá que o nervosismo saía. Pedro, Pedro, aconteceu alguma coisa. Seu tio pegou umas muda de roupa e sumiu nesse mundão de Deus. Agora escutei, mas demorei a entender. Dormir só duas horas me fez um estrago dos diabos, e ser acordado daquela forma definitivamente não melhorava as coisas. A agonia da Zezé era novidade para mim, e o carinho que sempre tive por ela me deu a energia necessária para pular da cama e segui-la até o quarto do Carlos. Ela ainda bateu duas vezes, Carlos? Ô Caaarlos!, num escrúpulo fora de hora, pois sabia que ele não estava lá. A mesma cerimônia impedia que tocasse na maçaneta, cabendo a mim girá-la e empurrar a porta, dando de cara com a cama mal-arrumada, o armário aberto e um terço dos cabides vazios. Na escrivaninha, embaixo do cinzeiro coalhado de cigarros fumados pela metade, aquela folha de caderno cheia de garranchos chamou a minha atenção. Afastei o cinzeiro com um pouco de nojo e tentei decifrar o que ele escrevera. Não foi difícil de entender; reconheci logo o “Pedro”, e o resto das frases foi ficando rápida e desagradavelmente inteligível. Sim, apesar do estilo telegráfico, algo que eu nunca vira nos escritos dele, aquelas doze frases curtas, quase todas objetivas, me deram a justa medida do quanto eu tinha ainda por fazer. Oito da manhã, segunda-feira, e mais uma obviedade, ao menos para mim: as segundas podem ser bem piores que os domingos.
Enquanto voltava para o quarto de hóspedes para me vestir e correr atrás do Carlos, fui traduzindo pausadamente os garranchos do bilhete, pois a Zezé tinha o direito de entender. “Tio Carlos foi embora; foi levar os restos do meu pai de volta para Sergipe, enterrá-lo lá; não pretende voltar; deixou um beijo para você”. Ao que parece, foi o beijo que a deixou mais perturbada.













on Mar 1st, 2008 at 8:50 pm
Muito bonito Ricardo. Parabéns! Apareça mais, tá muito sumido! Bjs
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on Mar 2nd, 2008 at 10:12 am
Muito bom. Já vejo uns três livros saindo no prelo.
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on Mar 2nd, 2008 at 2:58 pm
Ótimo, Ricardo.
Continue, continue!
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on Mar 2nd, 2008 at 5:53 pm
Bom, vejo que gostaram. Mas do que? E que tipo de críticas poderiam fazer tb? (Quem mandou vcs serem meus amigos? Pensaram que era só diversão?)
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on Mar 2nd, 2008 at 6:22 pm
Ricardo,
Então vamos lá:
Gostei do Pedro. É um personagem que pode ser muito bem elaborado com o tempo.
Achei a empregada meio clichê, mas gostei do link que pode ser criado com o “se espantou mais com o beijo”.
Gostei do Sr. Carlos porque ele tinha tudo para virar o clichê do velho doente e rabugento, mas não. É um sujeito bacana a ponto de sumir para realizar um ato nobre, mas deixar uma carta. Pontos por originalidade.
———
Para explicar porque gosto do Pedro, é que me identifico com sua praticidade, e alguns de seus sentimentos. A coisa de esquecer uma coisa tão importante e sentir-se culpado por isso.
Por fim acho que a história tem boas chances de se desenvolver, principalmente se forem sendo criados personagens tão originais quanto esses.
Ah, uma observação, você me parece estar com sinais de vício de linguagem. Leia seu texto de novo (eu li três vezes) e veja quantas frazes começam com um “Sim, …” ou um “Não, …” Você escreve bem e não fica mal no texto, mas acho bom que repares. Poderá ser sua assinatura no futuro.
Um abraço e espero ter contribuido.
André
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on Mar 2nd, 2008 at 6:38 pm
André, utilíssimo! Gostei muito da sua observação sobre frases começando com sim ou não, vou dar uma revisada. Quanto à empregada ser clichê, defendo-a assim mesmo. O Carlos é mais velho, e uma empregada dessas mais “da família” faria sentido. Além disso, lembre-se de que o Carlos, com todo o seu histórico de internações — não se sabe desde quando — mora naquele apartamentão enorme e dificilmente daria conta de fazê-lo sozinho… Ela acaba sendo algum tipo de ligação com uma concepção de família, de algo tradicional. Mas mesmo assim não sei se a personagem dela vai ter muita presença na história. Sem dúvida o Carlos se importa com ela em alguma medida, e isso deverá aparecer mais algumas vezes no futuro, acredito.
Muito bom, muito bom mesmo, André. Obrigado!
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on Mar 2nd, 2008 at 7:36 pm
Ricardo, penso que deves manter a empregada sim. Toda história necessita de clichês. E ela é um bom clichê.
Lendo o que eu escrevi, não sei como cometi o absurdo de escrever “frazes”. Muita heineken e whisky na cabeça.
Eu fico aqui imaginando varias continuações pra história, tal como se faz quando começa a ler um livro, mas é interrompido pela rotina. Você criou em dois textos curtos, ótimos elementos de continuidade.
Fico no aguardo!
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on Mar 3rd, 2008 at 1:55 am
Ricardo, que delícia sua história…você escreve muito bem, tô absolutamente fascinada, curiosa, quero mais!! Posta logo?

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on Mar 3rd, 2008 at 12:02 pm
Ricaaardo, indiquei o Ágora pra um ’selo’. Depois vai lá no blog ver.
Continue o texto logo, to curiosa.
beejo
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on Sep 5th, 2008 at 2:46 pm
[...] [Para quem não leu ou não lembra mais, a primeira parte está aqui, e a segunda aqui] [...]
on Nov 14th, 2008 at 1:18 am
[...] 1, parte 2 e parte [...]
on Nov 14th, 2008 at 11:01 am
[...] quem não conhece, aqui vão os links para a parte 1, parte 2 e parte [...]
on Nov 14th, 2008 at 8:54 pm
[...] Sem título (3a. parte) abr.17, 2008 em literatices e escrivinhações [Para quem não leu ou não lembra mais, a primeira parte está aqui, e a segunda aqui] [...]
on Jan 19th, 2009 at 3:41 pm
[...] [Para quem não leu ou não lembra mais, a primeira parte está aqui, e a segunda aqui] [...]