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Senso algum

Chove a cântaros, potes, baldes, tonéis e barricas. E eu aqui, prisioneiro, ao lado de Schopenhauer. Não podia ser a Fanny Ardant?

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0 Comments on “Senso algum”

  1. #1 Nat
    on Mar 11th, 2008 at 11:53 pm

    CASO PLUVIOSO
    Carlos Drummond de Andrade

    A chuva me irritava. Até que um dia
    descobri que maria é que chovia.

    A chuva era maria. E cada pingo
    de maria ensopava o meu domingo.

    E meus ossos molhando, me deixava
    como terra que a chuva lavra e lava.

    Eu era todo barro, sem verdura…
    maria, chuvosíssima criatura!

    Ela chovia em mim, em cada gesto,
    pensamento, desejo, sono, e o resto.

    Era chuva fininha e chuva grossa,
    matinal e noturna, ativa…Nossa!

    Não me chovas, maria, mais que o justo
    chuvisco de um momento, apenas susto.

    Não me inundes de teu líquido plasma,
    não sejas tão aquático fantasma!

    Eu lhe dizia em vão - pois que maria
    quanto mais eu rogava, mais chovia.

    E chuveirando atroz em meu caminho,
    o deixava banhado em triste vinho,

    que não aquece, pois água de chuva
    mosto é de cinza, não de boa uva.

    Chuvadeira maria, chuvadonha,
    chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!

    Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo,
    poças dágua gelada ia tecendo.

    Choveu tanto maria em minha casa
    que a correnteza forte criou asa

    e um rio se formou, ou mar, não sei,
    sei apenas que nele me afundei.

    E quanto mais as ondas me levavam,
    as fontes de maria mais chuvavam,

    de sorte que com pouco, e sem recurso,
    as coisas se lançaram no seu curso,

    e eis o mundo molhado e sovertido
    sob aquele sinistro e atro chuvido.

    Os seres mais estranhos se juntando
    na mesma aquosa pasta iam clamando

    contra essa chuva estúpida e mortal
    catarata (jamais houve outra igual).

    Anti-petendam cânticos se ouviram.
    Que nada! As cordas d’água mais deliram,

    e maria, torneira desatada,
    mais se dilata em sua chuvarada.

    Os navios soçobram. Continentes
    já submergem com todos os viventes,

    e maria chovendo. Eis que a essa altura,
    delida e fluida a humana enfibratura,

    e a terra não sofrendo tal chuvência,
    comoveu-se a Divina Providência,

    e Deus, piedoso e enérgico, bradou:
    Não chove mais, maria! - e ela parou.

    [Responder]

  2. #2 confetti
    on Mar 12th, 2008 at 7:50 am

    fany ardant e schopenhauer nao sao incompativeis…la femme d’à coté….)

    [Responder]

  3. #3 Ricardo C.
    on Mar 12th, 2008 at 8:57 am

    Nat,
    ontem chovia,
    mas o poema
    eu desconhecia!

    Adorei!
    Bjs

    P.S. Já em Fortaleza?

    [Responder]

  4. #4 Ricardo C.
    on Mar 12th, 2008 at 8:59 am

    Confetti, claro que não são incompatíveis, vc está coberta de razão. Mas ontem eram Schopenhauer e a chuva. Preferia que fossem Fanny Ardant e a chuva! ;-)
    Bjs

    [Responder]

  5. #5 Nat
    on Mar 12th, 2008 at 6:08 pm

    Oi, Ricardão (!?!). Belo poema né? Sou tarada no Drummond.

    A partir de hoje em definitivo de volta ao Rio. Deu tudo errado, mas eu tou tentando achar que foi bom ;- )

    Bjs

    [Responder]

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