Chove a cântaros, potes, baldes, tonéis e barricas. E eu aqui, prisioneiro, ao lado de Schopenhauer. Não podia ser a Fanny Ardant?
Prolegômenos, (re)flexões e nadas, de todo tipo.
Chove a cântaros, potes, baldes, tonéis e barricas. E eu aqui, prisioneiro, ao lado de Schopenhauer. Não podia ser a Fanny Ardant?
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Um tema de Ravi Varma adaptado por Rafael Reinehr
on Mar 11th, 2008 at 11:53 pm
CASO PLUVIOSO
Carlos Drummond de Andrade
A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que maria é que chovia.
A chuva era maria. E cada pingo
de maria ensopava o meu domingo.
E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.
Eu era todo barro, sem verdura…
maria, chuvosíssima criatura!
Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.
Era chuva fininha e chuva grossa,
matinal e noturna, ativa…Nossa!
Não me chovas, maria, mais que o justo
chuvisco de um momento, apenas susto.
Não me inundes de teu líquido plasma,
não sejas tão aquático fantasma!
Eu lhe dizia em vão - pois que maria
quanto mais eu rogava, mais chovia.
E chuveirando atroz em meu caminho,
o deixava banhado em triste vinho,
que não aquece, pois água de chuva
mosto é de cinza, não de boa uva.
Chuvadeira maria, chuvadonha,
chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!
Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo,
poças dágua gelada ia tecendo.
Choveu tanto maria em minha casa
que a correnteza forte criou asa
e um rio se formou, ou mar, não sei,
sei apenas que nele me afundei.
E quanto mais as ondas me levavam,
as fontes de maria mais chuvavam,
de sorte que com pouco, e sem recurso,
as coisas se lançaram no seu curso,
e eis o mundo molhado e sovertido
sob aquele sinistro e atro chuvido.
Os seres mais estranhos se juntando
na mesma aquosa pasta iam clamando
contra essa chuva estúpida e mortal
catarata (jamais houve outra igual).
Anti-petendam cânticos se ouviram.
Que nada! As cordas d’água mais deliram,
e maria, torneira desatada,
mais se dilata em sua chuvarada.
Os navios soçobram. Continentes
já submergem com todos os viventes,
e maria chovendo. Eis que a essa altura,
delida e fluida a humana enfibratura,
e a terra não sofrendo tal chuvência,
comoveu-se a Divina Providência,
e Deus, piedoso e enérgico, bradou:
Não chove mais, maria! - e ela parou.
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on Mar 12th, 2008 at 7:50 am
fany ardant e schopenhauer nao sao incompativeis…la femme d’à coté….)
[Responder]
on Mar 12th, 2008 at 8:57 am
Nat,
ontem chovia,
mas o poema
eu desconhecia!
Adorei!
Bjs
P.S. Já em Fortaleza?
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on Mar 12th, 2008 at 8:59 am
Confetti, claro que não são incompatíveis, vc está coberta de razão. Mas ontem eram Schopenhauer e a chuva. Preferia que fossem Fanny Ardant e a chuva!
Bjs
[Responder]
on Mar 12th, 2008 at 6:08 pm
Oi, Ricardão (!?!). Belo poema né? Sou tarada no Drummond.
A partir de hoje em definitivo de volta ao Rio. Deu tudo errado, mas eu tou tentando achar que foi bom ;- )
Bjs
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