[Para quem não leu ou não lembra mais, a primeira parte está aqui, e a segunda aqui]
III
Acontecimentos demais em tão pouco tempo, numa velocidade ainda maior do que a da taquicardia que volta e meia dava em mim. Taquicardia e pressa, envelopando o sujeito essencialmente urbano que sou, alimentado à base de leite, vitaminas, cerveja e tevê, um pouco de cinema e uma coleção de livros de terror bem fuleiros. No escaninho ao lado das cervejas, os quatro baseados semanais, apertados com muito carinho, eram o único freio que eu me permitia. Dessa combinação vinha o antídoto, sempre que o ar sumia dos pulmões. Ambos domavam a minha ansiedade como ninguém, e eu lhes era tremendamente grato.
Quando coloquei na mochila os baseados e o punhado de maconha que me sobrava, nem pensei que isso poderia virar um problema. O meu foco estava no Carlos, e não fosse pelo telefonema que ele dera à Zezé, não teria como saber que ele seguira à pé pela beira da estrada. O fragmento de consideração que teve serviu para tranqüilizá-la, e ela só parou de chorar quando jurei que o traria de volta. Ele ligara de um posto de gasolina, ainda na serra, a uns quarenta quilômetros de casa, e acabou dizendo que pretendia seguir caminhando a maior parte do trajeto, prometendo que se o joelho inchasse, pediria carona e poria uma bolsa de gelo em cima. Nem perdi tempo com esses detalhes, tão caros à Zezé. Preferi imaginar de que jeito ele chegara até ali, se levava dinheiro, cartão de crédito ou cheque, e se as pessoas com quem cruzara pelo caminho não o teriam achado estranho a ponto de criar algum caso; só não deixei que essas preocupações chegassem a me incomodar muito. O Carlos não era nenhum idiota, e a sua expressão também não correspondia à de um louco recém saído do hospício, no máximo um hippie tardio. Além disso, sempre soube se virar, e o seu forte era mesmo circular pelo meio do povão — sem falar no arsenal de histórias que carregava na ponta da língua, que trocaria fácil fácil por cama, comida e cigarros. Nada disso realmente me inquietava, por mais que devesse. O que verdadeiramente retorcia as minhas tripas era a certeza de que o plano de chegar a Barra dos Coqueiros e enterrar os restos do irmão dele não passava de um ponto e vírgula; e que naquela absurda caminhada, sem prazo e sem dúvidas, havia um profundo ar de epílogo. Fui invadido por imagens de salmões e elefantes, que em certo momento de suas vidas voltam ao lugar de origem: os primeiros para trepar, procriar e morrer; os segundos, só para morrer. Era por conta desse tipo de ruminações que eu precisava da maconha, antes que elas me consumissem e me deixassem sem forças, algo nada alentador frente à certeza de que aquela jornada não terminaria no dia de hoje. Pensando nisso, tranquei a porta de casa, acendi a ponta que encontrara no cinzeiro e entrei no elevador, sem me importar com a câmera do teto de olho em mim. Do pedido formal de desculpas ao síndico eu me encarregaria na volta, pensei, enquanto tirava o carro da garagem e pegava a Lagoa em direção ao túnel Rebouças. Queria achar o Carlos antes que escurecesse, a tempo de argumentar com ele e tentar demovê-lo daquela maluquice, embora eu não lembrasse da última vez em que ele dera bola para o que eu dissera.
Na subida da serra, o carro começou a ferver. Ainda deu tempo de chegar a um posto de gasolina abandonado, abrir o capô e perceber que a água do radiador sumira, que alguma coisa dentro do motor arrebentara e que dali ele só sairia rebocado. De nada adiantou maldizer a minha total ignorância sobre mecânica de automóveis, nem a minha crença — que eu chamava “filosofia” — de que bastava pôr gasolina, virar a chave, acelerar e pronto. Tinha sido assim nos últimos dez anos, e aquele traste sobre rodas agüentara o meu descaso muito mais tempo do que deveria. Era justo que um dia desistisse de mim, só preferia que não tivesse sido logo hoje. Aquele era um dos inúmeros contratempos que teria pela frente, tinha certeza disso, mas gostaria tanto de não saber… Comecei a assoviar uma melodia qualquer, clássica forma de livrar-me de pensamentos incômodos, enquanto pegava o celular e tentava ligar para a seguradora, na expectativa de um mecânico, um reboque ou as duas coisas, sei lá. Mas para combinar com o cenário, a bateria do celular estava descarregada. Agora éramos três os inúteis: o carro, o celular e eu. Foi quando resolvi que estava mais do que na hora de surpreender a mim mesmo. Olhei para o celular e arremessei-o o mais longe que pude, imaginando tratar-se de uma granada, dessas de filmes sobre a 2ª Guerra Mundial. Só senti a falta da explosão, mas o barulho que fez quando se espatifou me deixou razoavelmente satisfeito. Voltei até o carro, tirei os documentos do porta-luvas; fui até o porta-malas, peguei a mochila e pus nas costas. Aproveitei para arrancar as placas, jogando-as na mesma direção dos restos do celular. Não chegaram a ser “placas-granada”, estavam mais para aqueles discos de plástico… frisbees, isso!, meu pai e eu brincávamos muito na praia, pensei, enquanto as placas descreviam uma parábola, antes de cair no mato. Foi nessa hora que percebi um rapaz, encostado numa das velhas bombas de gasolina, assistindo àquela cena toda, o assovio inclusive. Andei na direção dele e entreguei em suas mãos as chaves do carro. É seu!, disse, virando as costas e seguindo pelo acostamento, sem sequer olhar uma última vez para o carro ou para a cara de espanto que o seu novo dono devia estar fazendo. Agora precisava urgentemente de uma carona, calculava que ainda faltavam uns quinze quilômetros até encontrar o lugar de onde o Carlos telefonara. Enquanto isso, as palavras “desapego” e “infantil” ressoavam dentro de mim feito mantra, sem nenhuma relação aparente entre si, e uma estranha felicidade começava a me inundar…
Não deu vinte minutos de caminhada e um caminhoneiro que seguia para o Espírito Santo resolveu me ajudar. Ao que parece, aquilo que começara com jeito de odisséia, tinha grandes chances de terminar antes mesmo das sete da noite. Cardoso, o meu providencial carona, garantiu que o Carlos só podia ter ligado do próximo posto, dali a duas curvas. Foi ele entrar no estacionamento e começar a manobrar junto a outros três caminhões parados, para eu abrir a porta e andar, a passos largos, até o que parecia um misto de botequim e oficina mecânica, onde todos naquele posto deviam estar, tal o barulho de risadas, cantoria e outros sons que não soube definir. Antes de chegar à entrada, ouvi a inconfundível voz do Carlos, mesmo sem conseguir entender o que ele falava. Pedi licença aos dois homenzarrões plantados na porta, e assim que consegui vê-lo, tive a nítida impressão de que estava feliz por ser o centro das atenções do lugar, contando várias de suas velhas peripécias, mas com o cuidado de usar ingredientes adequados ao paladar circundante, e invejei essa sua habilidade. Ele me viu. Retribuí o oi sem nenhum entusiasmo, cético em relação a minhas previsões anteriores. Ele parecia fazer sucesso com a audiência local, sequer consegui chegar perto, e muito menos convencê-lo a sair de lá comigo. Encostei o ombro num lugar inesperadamente limpo, o calendário com a foto de uma mulata, cujo nome me foge, exibindo seus irretocáveis dotes calipígios, em palavras do próprio Carlos. Eram quase onze da noite, as minhas pálpebras pesavam toneladas, e foram essas as últimas palavras que consegui guardar, enquanto ele me puxava pelo braço até os fundos do bar, rumo ao galpão onde nos aguardavam duas camas dobráveis. Suponho que eu tenha torcido bastante para que a minha mochila estivesse ao meu lado, na hora em que desabei na cama; e suponho ter ficado feliz pelo Carlos retomar o seu posto, cuidando um pouco de mim, para não variar. Conjecturas que faria amanhã de manhã, boas de analisar com café.
*
Vambora, Pedro, que o café vai esfriar. E essas palavras me fizeram pensar nos dois grupos de gente que existem na face da terra: os que gostam de acordar cedo e os que detestam. Pertenço ao último. Pior ainda se for acordado a pulso. A posição em que deitei deixou o meu braço esquerdo mais dormente do que eu, e o formigamento na tentativa de mexê-lo fez o meu mal-humor atingir níveis absurdos. Mesmo assim, com um esforço sem tamanho, tateei ao redor até encontrar as minhas coisas, passando a mão pelo cadeado da mochila e vendo com alívio que tudo seguia intacto. Impossível não fuzilar o meu tio com os olhos, mas a perspectiva de tomar um café bem quente fez de mim um homem quase afável, como se tivesse acordado na minha própria cama, bem tarde, e não num catre velho no alto da serra, tiritando de frio às cinco e meia da manhã, sem ter idéia da jornada que viria a seguir. Por conta disso, a minha cara permanecia bem pouco amistosa, e foi com ela que percebi as coisas do Carlos arrumadas. Aliás, tão bem arrumadas que só me restou perguntar-me como ele distribuíra os ossos do meu pai dentro de sua própria mochila, se os teria lavado ou não, se estavam todos juntos, numa mesma embalagem, ou se os arrumara em grupos, os ossos das mãos num canto, dos pés no outro, e elucubrando se as costelas, por serem arqueadas, estariam na parte de trás da mochila, dando-lhe aquele ar estruturado das mochilas profissionais, enquanto eu pegava as minhas coisas e seguia atrás dele rumo à lanchonete do posto, reconhecendo, pela dinâmica daquelas imagens, que o meu cérebro estava quase desperto. E foi com ele já meio aceso que pude ver a moça atrás do balcão abrir um enorme sorriso enquanto nos servia o café. Chato era constatar que todo aquele bem querer só se dirigira a mim por tabela, pois era o Carlos o verdadeiro objeto de desejo, o mesmo Carlos, puro silêncio e antipatia menos de vinte e quatro horas atrás, agora tão afetuoso com aquela atendente, que até pensei em paixão. Estranho, era tudo tão estranho, e a falta de parâmetros sobre esse tudo começava a me angustiar. Que bom que eu trouxera maconha, porque me entupir de cerveja àquela hora da manhã não parecia uma boa alternativa.
*
Frustração. Tédio. Dores em lugares que eu nem sabia que existiam. Não há nada de muito interessante a dizer sobre isso, então faço só um resumo, começando pela partida, a pé, logo depois do café com sorrisos. Precisei de um quilômetro de caminhada até parar de tremer de frio. A distância pareceu bem maior, já que o silêncio voltou a grudar feito sarna na pele do Carlos. Eu só ouvia duas coisas: sua respiração e um estalo que o pé direito dele dava a cada passada. Pouco a pouco esses sons foram sumindo, como some tudo o que é ritmado e monotonamente repetido. Foi quando resolvi que precisava me aprumar, pensando na forma de convencê-lo de que aquele não era o melhor jeito de fazer as coisas. Mas as horas seguintes, ou melhor, os dois dias de caminhada e de poucas palavras que se passaram, foram mais do que suficientes para tirar essa pretensão da cabeça.
As minhas tentativas de conversar com o Carlos só começaram depois do tal quilômetro, assim que os meus pés e as minhas mãos alcançaram uma temperatura minimamente humana. Não consegui evitar a idéia de haver um canal direto entre os meus pés e o meu cérebro, algo esquisita até mesmo para mim, mas que por sorte sumiu diante do propósito de fazer o Carlos falar alguma coisa, tarefa repetida a cada meia-hora ao longo da manhã. O objetivo principal, óbvio, era abrir um canal que me ajudasse a fisgar o fígado dele e o convencesse a dar meia-volta. Só que ele tinha doutorado em teimosia, e eu mal tinha terminado a graduação. Depois de várias estratégias mal-sucedidas, passei a puxar conversa só para fugir dos meus próprios diálogos internos, cada vez mais barulhentos por conta daquele buraco entre nós. Essa era a seqüência. Primeiro procurava fazer o Carlos falar, dando com os burros n’água. Ficava uns bons minutos calado, os pensamentos indo e vindo, indo e vindo, até que deixavam de ir e ficavam todos juntos num fuzuê danado, feito uma feira-livre ou um pregão da bolsa de valores. Por sorte os ruídos ao meu redor eram incomuns, diminuindo a gritaria em forma de pensamento que já virara um terror. Na estrada, que passava por uma mata, era um tal de passarinho cantando e macaco guinchando, bem bonitinho no começo, que deu para acalmar o berreiro dentro da minha cabeça. Mas o encanto não durou muito. O que começou como sinfonia virou logo uma insuportável e esporrenta torcida de futebol, levando-se em conta que detesto futebol. Para meu alívio, outros sons da própria estrada acabaram servindo de antídoto. Foi assim que passei a tentar identificar, apenas pelo barulho do escapamento, os carros e os caminhões que passavam por nós. Queria primeiro garantir que não fôssemos atropelados, enquanto me distraia reconhecendo a marcha com que os motoristas subiam a serra, e depois adivinhando de que cores eram os veículos. Criei até uma espécie de tabela de pontos: carro branco ou prata, valia quinze; carro vermelho, vinte; se fosse do tipo vermelho-merthiolate, o bônus era de dez pontos. Só aí ganhei umas três vezes, sabe-se lá por que cargas d’água as pessoas gostavam dessa cor. Mas depois de um certo tempo, aquilo também perdia o efeito. Tentar falar com o Carlos voltava a fazer sentido, por mais absurdo que pudesse parecer, enquanto aquela confusão toda ao menos funcionava como analgésico, e a frustração, o tédio e as dores em lugares que eu nem sabia que existiam viravam toleráveis companheiras de viagem.













on Nov 14th, 2008 at 11:02 am
[...] [Para quem não conhece, aqui vão os links para a parte 1, parte 2 e parte 3] [...]