— Raílda?
O sorriso disse que era. E se poucos conhecem esse nome, ele não fazia parte do grupo. Aquela foi a sua primeira pronúncia, acento reforçado no i, no estacionamento do Pavilhão de São Cristóvão, ao lado do Adegão Português.
Chamavam-no Junior. Junior por conta do Neodímio, que detestava. Quem começou essa sina fora o seu avô, fã de química e de um certo barão Carl Auer von Welsbach, que com um nome daqueles devia mesmo ser químico. Ao que parece, fiel às suas paixões, o avô acabou estampando Neodímio na certidão de nascimento do filho. E este, além de viver contando a história ao seu próprio descendente, não só repassou-lhe a desgraça, como também obrigou-o a decorar o nome do tal barão austríaco. Mas teve troco. O filho sempre pronunciava o dáblio como se fosse u, só para marcar posição contrária.
Todo mundo esperava que Junior contasse detalhes da história por trás do seu nome, e o que a química, o barão e o seu avô teriam com isso. Mas ele não dava confiança a ninguém. A cada vez que o Neodímio pai resolvia narrar a origem daquela cretinice, o filho dava um jeito de desligar os ouvidos. Nessas horas só fazia ouvir cantoria de passarinho, era uma beleza. Com isso, conseguiu permanecer alheio aos detalhes da tal sina. Só que ninguém nem desconfiava de sua ignorância. Achavam que era mal-criação e teimosia, ou esquisitice, na melhor das hipóteses. Mas para Junior, seu nada a declarar era uma questão de honra. Apenas ele poderia explicar que honra era essa, mas nem isso fazia. E só quem tivesse o dom de ler pensamento perceberia que ele nunca esquecera de todas as piadas infernais nas aulas de ciências, nem dos atendentes imbecis sempre perguntando Né o quê?, fora os engraçadinhos, a toda hora comentando que raio de promessa a mãe dele teria feito para dar-lhe um castigo desses.
Mas tudo isso é perfumaria. O que importa são os vinte e oito anos depois do primeiro sorriso de Raílda, dizendo tratar-se dela mesma. Culpa da Remédios, ela é que armara tudo. Cansada de ver o seu irmão tão macambúzio, disse que ia dar um fim naquela solidão, que de tão preta parecia uma dessas noites de lua nova no meio do mato. Junior, você tá que é um breu só, ela vivia dizendo. Até que um dia mandou que ele tomasse aquele banho caprichado, fizesse a barba e não abusasse da loção Campos de Jordão, pois naquele dia daria um fim no seu muxoxo. E por trás da tromba, dava para ver que Junior torcia para que aquele fosse finalmente o seu dia.
Cheiroso e com roupa de festa, mãos nos bolsos, enxugando o suor dos nervos nos dois lenços que a mãe lhe dera, não precisou mais do que quinze minutos de agonia até aparecer uma morena jambo, cheinha, bem do jeito que ele gostava. Queria tanto que fosse ela, que quando viu o sorriso de vinte mil dentes branquinhos em resposta ao seu Raílda com acento reforçado no i, sentiu o calor de três sóis e uma ou duas ventanias mandando o eterno pretume de tristeza e azar para bem longe de sua cabeça.
A tarde ensolarada rendeu, avançou para cima da noite e se estendeu por mais vinte e sete anos, onze meses, vinte e nove dias, vinte e três horas e cinquenta e nove minutos, três filhos criados e encaminhados, dois netinhos lindos, com o mesmo sorriso da avó; e nem mesmo uma discussãozinha nesse tempo todo, além de instalar em Junior uma paciência de Jó para explicar a quem quisesse tudo sobre o barão Carl Auer von Welsbach e seu Neodímio. Destoando, apenas o jeito da Remédios, que há vinte e sete anos, onze meses, vinte e nove dias, vinte e três horas, cinquenta e nove minutos e trinta e cinco segundos, só aparecia em datas de família reunida, trazia um prato ou uma sobremesa, ajudava a lavar a louça e limpava a cozinha em silêncio, depois dava um beijo na testa do irmão, dos sobrinhos e dos sobrinhos netos, terminando pelo invariável balançar de cabeça em direção à cunhada, dois metros de distância, e indo embora. Raílda sempre punha um dedo nos lábios do Junior cada vez que ele enrugava a testa e tentava puxar conversa sobre os porquês da atitude da Remédios, e ele acabava sentindo mais meio sol aquecendo-lhe o humor e deixando tudo para lá. Até que deu meia-noite. Do nada, Raílda abriu os olhos, desgrudou a bochecha do ombro de Junior, sentou na beirada da cama e ficou uma eternidade naquela posição. Levantou-se lá pelo meio da madrugada, abriu o armário e tirou quatro vestidos, abriu a gaveta das calcinhas e das catorze que tinha também tirou quatro, fazendo o mesmo com os sutiãs, sempre quatro, como quatro foram os sapatos. Pôs tudo numa mala pequena, arrumando com o cuidado que só ela sabia ter, e deixou-a ao lado da porta da frente, encostada no porta-guarda-chuva. Foi até o quarto da filha mais velha e pousou a mão direita sobre a porta fechada, como se quisesse sentir o coração bater, se portas tivessem um. Fez o mesmo no quarto do caçula, mudando de atitude diante da porta do quarto dos netos. Essa ela abriu. Chegou perto do primeiro, deu-lhe um beijo na testa e ficou um tantinho de tempo quieta, até que ele parasse de quase acordar. Foi até a neta e deu só um cheiro em seu cangote, de leve, guardando nas narinas aquela murrinha boa de criança que sumiria no ano que vem, assim que ela começasse a virar mocinha. Do jeito que entrou saiu, seguiu até a cozinha e deixou tudo arrumado para o café. Só então se sentou no sofá, ereta, pernas juntas, do jeito que a educação das visitas de antigamente mandava, até a hora em que o dono da casa dizia você deixe de bestagem que a casa é sua, faça o favor de se sentar direito ou vou achar que já quer ir embora. Mas não tinha nenhum dono da casa para dizer-lhe isso, e ela ficou daquele jeito até as seis e um quarto da manhã, hora em que o Junior desceu, banho tomado, loção Campos de Jordão ardendo para danar por conta do corte no queixo ao fazer a barba, a mesma roupa do primeiro encontro deles ao lado do Adegão Português, incrivelmente nova, caindo-lhe até um pouco melhor, pois naquela ocasião andava magro demais e a calça de linho parecia que tinha um coador de café nos fundilhos, de tão folgada. Os lenços é que já não estavam nos bolsos, parou de precisar deles desde que ela disse sim, aceito me casar com você. Raílda acompanhou Junior com os olhos até vê-lo sentar-se ao seu lado, passou o dedo de leve em seu queixo para limpar um pouco do sangue com loção que ficara meio escorrido, e voltou para a posição original, ereta, pernas juntas, olhando para a porta da frente, o marido ao lado. Aquele silêncio deu espaço a três ligeiros toques na porta. Os dois se levantaram, sem nem sinal de pressa, e ele, apenas meio passo à frente dela, tomou a iniciativa de abrir a porta, sequer perguntando quem é. E deram de cara com um casal, a idade regulando com a deles, ela branquinha, loura pintada, mas devia ter sido loura original também, e o senhor com uma mala pequena na mão direita, que logo esticou na direção do Junior, ainda que com os olhos pousados em Raílda. Vim te buscar, foi o que ele disse. Junior colocou a mala na sala e voltou com a outra, a que estava ao lado do porta-guarda-chuva, esticando o braço e entregando-a ao senhor, num gesto quase idêntico, exceto pelo olhar, que não se dirigiu à senhora loura pintada. Voltou-se para Raílda, encarou-a com a ternura de sempre, aquela dos últimos vinte e oito anos, deu-lhe um abraço tão terno quanto o olhar, como se dissesse obrigado, vai com cuidado e amo você, tudo junto, e recebeu de volta um sorriso só com dez dos vinte mil dentes branquinhos de antes, a outra metade guardada justo por amor e respeito, e não por falta de. Raílda deu um passo e saiu de casa, andando na direção do senhor, enquanto a senhora loura pintada fazia o mesmo, mas no sentido contrário. Quando se cruzaram, balançaram a cabeça uma para a outra, um aceno educado, e quem não conhecesse Raílda poderia pensar num aceno parecido ao da Remédios em datas de família reunida, mas não foi não.
O senhor segurou a mão esquerda de Raílda e partiu, sem mais palavras, o sol já bem alto naquele mês de novembro. Junior fechou a porta e seguiu casa adentro em direção ao quarto, carregando a mala da branquinha e loura, ela um metro atrás dele.
— O banheiro é ali, e o armário da direita é inteirinho seu.
— Obrigado, mas só preciso de quatro cabides, duas gavetas e um sapateiro pequeno. É Neodímio, né?
— É, mas prefiro Junior.
— Prazer, Raílda. Ficou um pouco escuro aqui dentro. Se incomoda se eu acender a luz?













on May 9th, 2008 at 10:28 pm
Lindo. Mesmo. Fico impressionada com alguns detalhes das suas narrativas.
parecia que tinha um coador de café nos fundilhos - consigo visualizar e acho lindo….
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on May 10th, 2008 at 8:47 am
railda…ricardo…
“felicidade é coisa que nao da pra se premeditar” disse lobao no meu ouvido antes de que eu entre na àgua….))
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on May 11th, 2008 at 6:20 am
“Chegou perto do primeiro, deu-lhe um beijo na testa e ficou um tantinho de tempo quieta, até que ele parasse de quase acordar.”
é facil, mas que delicia ler isso assim tao bobo…
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on May 11th, 2008 at 6:22 am
ja li o ensaio umas 10 vezes…e vc dread ? eu acabo pedindo meu dinheiro de volta…))
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on May 11th, 2008 at 6:34 am
tem que avisar o staff que estamos tomando conta do agua na ausencia do dono…que é pra eles virem comentar, senao vao perder o capitulo e isso nao é possivel, rc vai abrir o sorriso quando for chegando e la de baixo ver janela iluminada, eu so tou é morta de preguiça de mandar os convites, ah é pq monsa insistiu tanto pra ler mas como ta metendo la com a moça nem visto deve ter, paxajax ocupadissimo esse outono pra pintar tao pouco nos spots, ele é tipo gruda na pele que pra tirar o cara da cabeça até demora…
do q q eu estava falando mesmo ?
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on May 11th, 2008 at 12:32 pm
É, confetti hehehehe Me perdi aí no seu comentário, mas acho que entendi.
Não se preocupa com os outros, vamos nós tomar conta daqui direitinho pra quando o Ricardo voltar.
Mas sobre o que você estava falando mesmo? ;- ) Continue…
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on May 11th, 2008 at 5:37 pm
Recebi uma tarefa, cumpri, e agora passei pra algumas pessoas. Vc é uma delas…entra no post e vê: http://repiza.blogspot.com/2008/05/jogo-das-8-coisas.html
Bjos!
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on May 12th, 2008 at 2:49 am
dona rê machin, desculpe mas acho a maior falta de delicadeza passar no ricardo, nao comentar o post e ainda linkar esse lance que ta todo mundo se lixando ! parece aqueles caras que ficam na rua segurando aqueles avisos “compro ouro”….nem percebeu que rc ta viajando, nem percebeu que dona railda ta pegando santo no blog…e ainda acha q rc vai se sentir “distinguido” pelo seu “vc é uma delas”….
sua chata ! kkk
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on May 12th, 2008 at 6:25 am
tentei ler esse paragrafo prendendo a respiraçao e quase morro sufocada ! é meu método pra colocar pontuaçao ja que vivo vandalizando a lingua portuguesa…eu terei colocado ao menos um ponto e virgula, ali depois “do sorriso da vo”….hein dread ?
hahahahah
“A tarde ensolarada rendeu, avançou para cima da noite e se estendeu por mais vinte e sete anos, onze meses, vinte e nove dias, vinte e três horas e cinqüenta e nove minutos, três filhos criados e encaminhados, dois netinhos lindos, com o mesmo sorriso da avó, e nem mesmo uma discussãozinha nesse tempo todo, além de instalar em Junior uma paciência de Jó para explicar a quem quisesse tudo sobre o barão Carl Auer von Welsbach e seu Neodímio.”
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on May 12th, 2008 at 9:20 am
Pegando santo não, confetti, é coisa de conjunção astral. Pense bem Raílda deu um passo e saiu de casa, andando na direção do senhor, enquanto a senhora loura pintada fazia o mesmo, mas no sentido contrário, nessa hora o mundo conspirou, as inclinações solares se desinverteram e as almas trocaram de corpos, foi assim que Raílda, travestida num novo corpo voltou para seu amor eterno, de mais de vinte e sete anos, onze meses, vinte e nove dias e etc…
Mas eu acho que poderiam ter sido 29 e não 28 aí eu poderia berrar aqui aquela música do Renato “E aos 29 com o retorno de Saturno, decidi começar a viver…”
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on May 12th, 2008 at 9:49 am
Confetti e Nat, vocês são ótimas administradoras de blogs de amigos em viagem, viu? Até bronca vc deu, Confetti! Eu até perdôo a Rê Piza, sei que ela tem andado pouco por estas bandas de tão ocupada que estava, tanto que me mandou o convite para falar das oito coisas de que já falei faz tempo, hehehe! Agora Confetti, esse seu carinho todo comigo vale um sorriso não de vinte, mas de 40 mil dentes, viu? Realmente fiquei feliz de ver esse movimento por aqui, enquanto eu estava ralando longe, hospedado numa casa cujo cablemodem estava queimado, com coceira nos dedos das mãos para poder saber como andavam as coisas não só aqui, mas lá no weblog e em alguns lugares de passagem obrigatória…
Nat, a história em si é bem simples, por isso os detalhes acabaram virando protagonistas. E que bom que vc gostou deles, ainda mais pq vc escreve bem à beça!
Confetti, coloquei um ponto e vírgula, que achei que cabia bem. Adoro essas frases intermináveis, cheias de vírgulas e que nos deixam sem ar, mas elas não devem ser gratuitas. O ponto e vírgula foi uma mini-pausa bacana, viu?
Beijos a vocês duas em especial, e abraços a todos os demais que andaram passando por aqui!
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on May 12th, 2008 at 9:53 am
Pois é Ricardo, as broncas eu deixei pra Confetti hahahaha
Comigo é só paz, amor e devaneios.
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on May 12th, 2008 at 9:55 am
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on May 12th, 2008 at 9:57 am
rc, esse ponto e virgula tou usando como brinquinho aqui….))
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on May 12th, 2008 at 10:00 am
Tempo real é mesmo com vocês, né? se eu não demorasse tanto tempo tentando me atualizar depois de 6 dias longe, conseguiria acompanhar essa velocidade toda, hehehe!
E a defesa das amizades é um dos valores que conseguiram sobreviver à pós-modernidade, à globalização e à própria virtualização de tudo. É o bem mais antigo, atual e futuro a ser preservado, até porque é bom demais!!
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on May 12th, 2008 at 10:02 am
O brinco é todo seu, Confetti!
E Nat, vai ver que o Renato é um dos filhos da Raílda morena jambo, hehehe!
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on May 12th, 2008 at 12:56 pm
“O sorriso disse que era”
meu sorriso tbm fala rc….)))
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on May 12th, 2008 at 3:09 pm
Duas coisas que me dão inveja no povo do weblog: o lugar onde mora o Brancaleone e a qualidade da escrita do Ricardo.
Tá louco, escreve tão bem que dá até réiva!
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on May 12th, 2008 at 3:22 pm
Darw, também invejo o lugar onde o Brancaleone mora. Quanto à escrita, se me visse sorrindo agora teria certeza de que não dispensei o elogio!
Abração
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on May 12th, 2008 at 8:40 pm
Acho que tenho mais inveja do lugar onde o Pax mora… Mas esse negócio de mais inveja de fulano do que de siclano parece papo ruim, mesmo sendo inveja boa hehehehe
Tb invejo o Ricardo, uma facilidade pra detalhes que é escandalosa…
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on May 12th, 2008 at 9:14 pm
Belíssimo texto, Ricardo. Desenvolva e vira “Cem anos de cumplicidade”, qual o quê…Baixou um Garcia Marques no homi, sô!
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on May 13th, 2008 at 3:50 pm
Gui, obrigado! Tem textos que tenho vontade de que sejam prazerosos de ler. A intenção com Raílda foi essa, e se vc gostou, dá impressão que ele foi nessa linha. Mas cá entre nós, ainda bem que o Gabo que não vai ler a sua comparação, pois vai se sentir ofendido, hehehe!
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