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Crença, fé e experiência religiosa (2): a fé

Dando seqüência ao post anterior, sigamos no tema da religiosidade humana. E o mérito do raciocínio deste de agora continua sendo do Ken Wilber, um pensador para lá de interessante — embora um tanto pretensioso, penso eu. Mas essa suposta pretensão é cheia de insights poderosos, que renovam algumas discussões sobre as ciências e as religiões, saindo do lugar comum segundo o qual as últimas seriam tão somente

[...] uma relíquia do pensamento pré-científico, um remanescente infeliz de épocas menos sofisticadas. Deus, se não morto, pelo menos agoniza, sobrevivendo apenas através das carências dos psicologicamente imaturos.[...] Os sociólogos [...] [tendem] a relacionar a motivação religiosa com inadequações ao nível social e imaturidades ao psicológico. E freqüentemente têm razão, pois não faltam evidências de que a imaturidade e a patologia religiosas refletem seus correspondentes psicológicos.
A pergunta inquietante, porém, persiste.
[...] Será que isso é tudo o que realmente existe no tocante à religião? [...] Podemos, por conseguinte, perguntar: nossas principais suposições, teorias e metodologias sociológicas são adequadas para identificar não apenas a imaturidade e a patologia como também os ápices da experiência e do desenvolvimento humano que algumas das grandes religiões julgam possível e realizável através do treinamento?”(1) (grifo meu)

Bom, essa citação do Roger Walsh é tão somente para “criticar os críticos” — incluindo-me entre esses criticáveis — e para dar seqüência à categorização que comecei a apresentar, falando agora sobre a e a sua diferença básica em relação à crença religiosa.

A (2), diz Wilber, “supera a crença” (p. 99), sobretudo porque, ao contrário desta última, nutre-se da dúvida. E aqui vocês no mínimo dirão: como assim?!? Pois explico, retomando o que foi dito sobre a crença no post anterior, que esta última não tolera a dúvida, que precisa eliminá-la a qualquer custo, pois a dúvida (e/ou a descrença) ameaça(m) aquela espécie de “promessa de imortalidade” que costuma vir embutida no sistema de crenças que as pessoas abraçam. Só insisto que não falo de toda e qualquer crença, nem de todo e qualquer crente, mas sobretudo daqueles fundamentalismos e visões dogmáticas que não dão espaço para questionamentos ou reflexões.


Wilber vai mais longe, sugerindo que a verdadeira fonte do envolvimento religioso daqueles que têm fé antecederia a crença, em certa medida. Seria uma espécie de “intuição de Deus”, onde as crenças seriam secundárias, e não a própria origem da fé. De qualquer modo, essa intuição, vaga e preliminar, costuma ser “revestida” pelas crenças religiosas institucionalizadas, ancestrais, “disponíveis” e compartilhadas por muitos, o que em certa medida lhe dá forma e até diminui um pouco a angústia trazida pela dúvida. Mas esse seria um caminho posterior. Pensando ainda na fé como antecedendo a crença, Wilber insiste que,

“Paradoxalmente, a pessoa de fé encontra-se comumente em grande e angustiante dúvida religiosa, o que o verdadeiro crente raramente vivencia. O verdadeiro crente projetou suas dúvidas nos outros e está por demais ocupado tentando convertê-las a prestar atenção ao próprio estado interior.” (p. 100)

E mais adiante, apresenta um provérbio Zen, que diz assim:

“Grande dúvida, grande iluminação;
Pequena dúvida, pequena iluminação;
Nenhuma dúvida, nenhuma iluminação.”
(p. 101)

A minha experiência pessoal não serve como exemplo de nada. Entretanto, sou forçado a reconhecer que a análise racional (3) de todo e qualquer fenômeno “tende a perdê-lo”, isto é, por mais rica que seja, ainda assim trata-se de uma apreciação reducionista, em particular por desdenhar (ou tentar neutralizar) o intuitivo, atribuindo-lhe uma espécie de “imaturidade” — como disse o Walsh anteriormente —, algo que no final das contas pode ter como “efeito colateral” uma espécie de “miopia” diante de fenômenos bem mais complexos do que poderíamos supor. É por isso que, sendo rigoroso com tudo o que escrevi e citei a respeito da fé e da crença, vocês deverão concordar comigo que apenas “cerquei” o fenômeno da fé, mas passei longe de dar conta dele. E que fique claro, não sugiro que tenhamos alguma espécie de “humildade cristã” — ou aparentada a qualquer outra religião —, mas que reconheçamos os limites dos métodos que usamos para avaliar o que quer que seja em relação à vida, com a perspectiva de Deus aí incluída, simpatizemos com ela ou não.

P.S. Aquele meu grifo lá de cima, que fala [...] do desenvolvimento humano que algumas das grandes religiões julgam possível e realizável através do treinamento, fica reservado para a “experiência religiosa”, a coisa mais distante da minha própria experiência, mas de que trata o Wilber e sobre a qual prometi falar. Será o próximo post.

___________
(1) Roger Walsh apud Ken Wilber, Um Deus Social: Breve Introdução a uma Sociologia Transcendental, São Paulo, Cultrix 1987, p. 8-9.

(2) “Crença religiosa sem fundamento em argumentos racionais, embora eventualmente alcançando verdades compatíveis com aquelas obtidas por meio da razão” (Dicionário Houaiss)

(3) Algo já disseminado na contemporaneidade, a partir do “sucesso” da ciência e da filosofia em fornecer explicações sobre o que seja “a realidade”, o que antes era primazia da religião.

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33 Comments on “Crença, fé e experiência religiosa (2): a fé”

  1. #1 Pax
    on Jun 22nd, 2008 at 6:39 pm

    Você não se cansa de provocar a filosofia. Fé e crença. Boa discussão.

    Como se estabeleçem as crenças nas comunidades primitivas? Numa aldeia isolada na Amazônia? E, mais, é fé ou crença o que eles têm?

    [Responder]

  2. #2 Ricardo C.
    on Jun 22nd, 2008 at 8:36 pm

    A pergunta é boa, Pax, e diria que independente do quão dogmáticas possam ser as crenças, sua necessidade é inerente a nossa espécie. E ao falar de crenças religiosas, repetiria o que já disse, são mais interessantes se pensadas como tentativa de “dar forma” à fé, àquilo que chamei no texto de “intuição de Deus”, exista isso ou não.

    Muitas dessas comunidades ditas primitivas, como nós, têm as duas, e algumas tb experiências religiosas, que passam por rituais, alguns ligados a substâncias como a ayahuasca. Essas experiências de alguma forma vão além da mera crença, e até mesmo da fé.

    [Responder]

  3. #3 Anonymous
    on Jun 23rd, 2008 at 3:10 am

    Olá, Ricardo. Pronto, me transferi de armas (calma, são as da paz) e bagagens (os poucos babilaques conceituais que carrego) pra esse post de cá.

    Tá bom esse Wilber, e a sua condução também. Comentários:

    (…) relacionar a motivação religiosa com inadequações ao nível social e imaturidades ao psicológico

    É, nossa psique é mesmo frágil diante das forças tremendas que estão em jogo. Tenho aqui em casa um livro “Experiência Cósmica e Psicose”, que trata disso. Li faz tempo e não me lembro de ter aproveitado grande coisa, porém.

    (…) ápices da experiência e do desenvolvimento humano que algumas das grandes religiões julgam possível e realizável através do treinamento?

    Está certo, mas o Walsh talvez tenha esquecido, ou negligenciado, o solitary realizer, de que fala o budismo (Buda, como você, era agnóstico), e que é representado pela imagem de um unicórnio. É um Arhant – um santo, para os nossos códigos, alguém que atingiu os limites do caminho de no more learning, através da destruição das aflições da mente e do apego ao ego dualístico. Caricaturando, é uma espécie de Zorro da espiritualidade, suas conquistas não se devem ao treinamento, ele chegou lá (ou foi chegado, vá você saber) sem o apoio de um mestre. Se bem que um flash, um satori, um glimpse da realidade de que tratam as religiões possa acontecer com frequência (e acontece) sem prévio treinamento, essa categoria fala de alguém que alcançou o Nirvana, uma conquista sólida, não um flash. Agora, é interessante notar a categoria dos que nalgum momento da vida, ou em mais de um, têm um flash. Porque estes, embora tenham provado o nectar da sabedoria dita mística, cairam de volta na realidade mundana, dual. Alguém com esse perfil pode passar diretamente da indiferença frente à religião para uma situação além da fé, eu diria. Ele sabe. Por mais que seu ego o tenha privado de ulteriores conquistas, ele provou. Será, possivelmente, marcado para sempre por uma certa melancolia: é um looser com uma grandeza.

    No nível mundano o ego é valioso, você certamente o sabe melhor do que nós, deve te dar muito trabalho a reconstituição de egos indigentes. Egos inflados, se bem possam trazer problemas para o seu “portador”, fazem parte do perfil de gente notável. Mas para o “buscador” é seu pior veneno.

    (…) ameaça(m) aquela espécie de “promessa de imortalidade” (…)

    Outra observação aqui: não é só a questão da finitude, da mortalidade, que move a crença, não é? Tem aí todo um naipe de esperanças de venturas, que desde a descoberta da agricultura, quando os paleocultivadores encaminhavam aos seus Deuses suas expectativas de fartura, são importantes vetores para as crenças. Hoje em dia o Banco do Brasil abre linhas de crédito em épocas de sêca, mas nas nossas origens era a fome, mesmo. Recomendo o livro do Mircea Eliade “O Sagrado e o Profano”, Ed. Martins Fontes. Um clássico. Esclarece muita coisa sobre a origem das religiões.

    Uff! Desculpem o tijolo. É que pra mim esse assunto é O assunto. Saudações fraternas.

    Roberto

    [Responder]

  4. #4 Ricardo C.
    on Jun 23rd, 2008 at 9:17 am

    Bom, Roberto, primeiro uma palinha sobre a questão existencial: diz respeito ao que se denomina “preocupações básicas da existência”, dentre as quais encontram-se a “finitude”, a “liberdade”, o “isolamento” (prefiro essa do que falar em “solidão”) e o “sentido da vida” (inventado, descoberto ou encontrado, há várias possibilidades em relação a ele). (O fenomenológico deixo para outra ocasião, para não complicar mais as coisas).

    Quanto aos seus recortes, começo pelo que o Walsh diz. Trata-se de parte do prefácio do livro do Wilber, e ele está justamente questionando a maneira habitual com que a sociologia e a psicologia trataram o fenômeno religioso, enxergando nele sobretudo esses aspectos psicopatológicos, por um lado, e “imaturos” ou “primitivos”, por outro. Mas o cara é crítico, e pretende ser elogioso à formulação do Wilber, que seria bem diferente do convencional.

    Quem destacou a questão do “treinamento” fui eu, justamente porque quero falar disso no próximo post, quando tratarei da experiência religiosa, ainda seguindo a formulação do Wilber. Mas isso não exclui as experiências espontâneas, há relatos sobre elas ao longo da história da humanidade.

    Por último, claro que a crença religiosa não se resume a um engano, um mero apaziguador do temor da morte. Só que esse aspecto raramente é contemplado, e é mais comum do que os muito religiosos estão dispostos a admitir. Se reler o post da crença, verá que apenas acentuo esse aspecto, dando crédito à interpretação do Wilber sobre como as crenças mais “fechadas sobre si mesmas” podem atender a outro propósito que não o do “contato com Deus” ou coisa parecida. Juntando dois posts, aquele onde vc começou escrevendo — “Agnosticismo, ateísmo e um gosto pela religião” — e o da psicodinâmica da crença, verá que não “fecho as portas” para uma “religiosidade legítima”, apenas denuncio “aquilo que não é religioso”, mas que “faz uso do discurso religioso”. O sujeito pode até não estar totalmente consciente disso, mas continua sendo “má-fé”, palavra que uso no sentido comum e também no literal…
    Abs

    [Responder]

  5. #5 Anonymous
    on Jun 23rd, 2008 at 5:34 pm

    Então (como dizem os nossos queridos paulistanos) Ricardo, sobre o seu olhar fenomenológico/existencial que, dada a breve menção, deixou uma certa expectativa no ar: confio que mais adiante você achará um gancho propício para uma elaboração. Uma dúvida, no entanto: “isolamento” faz par com “finitude” ou com “liberdade”, nesse esquema do seu comentário de 23/6? Noutras palavras: é aspiração ou contingência indesejável?

    No mais, entendi de prima a oportunidade da abordagem do Walsh à inadequação do approach materialista da sociologia a essa questão, assim como da ressalva que ele faz, e foi esta que motivou minha observação: algumas personalidades, até então equilibradas, podem mesmo não conseguir lidar com esses conteúdos surpreendentes, que viram toda a experiência sedimentada do indivíduo de cabeça para baixo. Também, no redemoinho maelstrômico de um processo psicótico préviamente instalado, uma porta pode se abrir, erraticamente talvez, e propiciar àquele sofredor um flash místico que, muito provavelmente, ele não será capaz de processar minimamente. “O Hospício é Deus” é o título de um livro da Maura Lopes Cançado, uma mulher da classe média carioca que viveu, às voltas com a psicose, isso tudo por dentro. É depoimento de uma sofredora, pelo que me lembro. Deve ter no Estante Virtual. Parece que a grande Clarice Lispector, tida como personalidade fronteiriça, tinha muita afeição por ela.

    Sobre a coisa do “treinamento” e do “solitary realizer”, eu atropelei a pauta dos seus posts! Droga, sou meio desengonçado, mesmo. Sinto muito.

    Por fim, ué, em nenhum momento te senti fechando “as portas para uma religiosidade legítima”, pelo contrário: abrindo, por mais que com cautela. Coisa, aliás, que dá grande originalidade a estes posts. É fácil topar com sites “pretos” ou “brancos”, na abordagem dessas questões, mas o seu tem essa nuance, de uma curiosa e respeitosa aproximação. Mas entendi o seu ponto.

    Me parece que a angústia da mortalidade é a que fica, depois de todas as outras terem sido aplacadas, será? Porque, veja, ou melhor, ouça o programa do mais famoso bispo evangélico – não sei em qual estação de rádio – exclusivamente dedicado às angústias financeiras (as mesmas dos nossos ancestrais paleocultivadores) de seus ouvintes. Não se percebe qualquer sinal de outras angústias ali. Bem, são crentes e confiarão nas promessas bíblicas para o além. Aquela gente tem outras prioridades, não é? Mas, ao homem e à mulher contemporâneos, no geral sofisticados em sua independência frente às questões metafísicas, resta mesmo o medo da morte.

    Ainda sobre ela, a angústia da morte: isso de Near Death Experiences, você veria positivamente uma abordagem desses fatos (relatos são fatos) nos comentários? Formulando melhor a pergunta: você concordaria em discutir sobre dados vindos desses relatos?
    Abraço

    Roberto

    [Responder]

  6. #6 Monsores, André
    on Jun 23rd, 2008 at 6:10 pm

    ô Ricardo, a discussão tá com o nível muito elevado para o meu bronco humor de hoje.

    Volto amanhã.

    Grande abraço

    [Responder]

  7. #7 guilevy
    on Jun 23rd, 2008 at 6:17 pm

    Engraçado…não sei como uma pessoa de fé possa ter dúvidas. Aliás, não faço distinção entre fé e crença, ou melhor, entre ter fé e crer. Faço sim distinção entre crer e acreditar (creditar, dar crédito).
    Duvidar é o primeiro passo para chegar ao agnosticismo ou ao ateísmo.
    O apriorismo da fé determinado por Wilber (falo sempre baseado no conteúdono do post) é um postulado que se sustenta somente na história. Querer sustentá-lo na psique é desdenhar do intelecto, da capacidade de duvidar, do ceticismo. É fé, e assim o cachorro morde o rabo.
    Mas critica-lo sem ter lido o livro é desonesto, então vou ver se acho o dito cujo para ler…

    [Responder]

  8. #8 Ricardo C.
    on Jun 23rd, 2008 at 6:33 pm

    Roberto, vc é um comentarista exigente! (Elogio, que fique claro!)

    Tentando seguir os passos do seu comentário:

    1) Aquelas são questões inerentes aos seres humanos, que geram uma angústia danada e com as quais devemos lidar, gostemos ou não. O isolamento, por exemplo, vem a ser um abismo intransponível entre os seres com o qual nos deparamos em algumas ocasiões, e que relacionamento algum é capaz de eliminar (nem tampouco qualquer conhecimento sobre a física quântica… :-D ). Podemos vivenciar esse isolamento existencial através do conhecimento de nossa morte, no sentido de que ninguém morrerá conosco e nem por nós. Não há escapatória: a travessia final – ou se preferir, o final – é um empreendimento absolutamente solitário. Por outro lado, temos consciência do nosso isolamento na medida em que crescemos e nos percebemos responsáveis por nossas próprias escolhas – portanto, por nossa própria vida –, o que significa perceber-nos verdadeiramente órfãos, sermos condenados a assumir a nossa própria paternidade. Isso é inerente à existência, que em sua etimologia aponta para o diferenciar-se, o destacar-se, o tornar-se um ser separado. Desta forma, o isolamento existencial vem a ser o preço pago pelo nosso próprio desenvolvimento pessoal.

    2) Sobre as experiências singulares que muitos têm, catalogáveis como místicas por alguns, e psicóticas por outros, é pena que na contemporaneidade haja pouco espaço para a integração desse tipo de experiências na sociedade, exceto se ocorrerem durante rituais que façam parte de algum sistema filosófico-religioso, e mesmo assim, desde que essas experiências “fiquem por ali” e não venham “perturbar” o cotidiano onde se deve trabalhar, estudar, pagar impostos etc., e nada disso pode ser “posto de lado” — a menos que o sujeito tenha muita grana, nenhum herdeiro e viva essa experiência em algum lugar da Índia, por exemplo…

    3)A angústia frente à morte é mesmo a mais complicada. Afinal de contas, a vida é a possibilidade de novas possibilidades, enquanto a morte é a impossibilidade de novas possibilidades! E de tão avassaladora que pode ser essa constatação, com freqüência nos defendemos dela negando-a, crendo-nos “especiais”, abraçando as tais crenças dogmáticas de que falei antes… para muitas vezes acabar “morrendo duas vezes”, a última sendo o evento físico da morte, e a primeira ainda em vida, deixando de viver o que nos cabe (seja lá o que for) por temor a morrer.

    4) Não tenho opinião formada sobre isso. As experiências de quase morte, com luzes, túneis, a vida que se teve passando como um filme, já caíram por demais na cultura popular. Mas eu jamais me furtaria a levá-los em consideração, pois se o fizesse, estaria partindo da premissa de que não há nada além, e como já sugeri antes, não tenho as ferramentas nem a vivência necessárias para afirmar isso. Depois desenvolvo um pouco mais este aspecto, não se esqueça de cobrar de mim.

    [Responder]

  9. #9 Ricardo C.
    on Jun 23rd, 2008 at 6:36 pm

    André, vc tem todas as ferramentas intelectuais e vivenciais para participar da conversa, inclusive o humor. Claro, não sei se ele te deixou bronco como vc diz…
    Abs

    [Responder]

  10. #10 Guilevy
    on Jun 23rd, 2008 at 7:02 pm

    Quanto à “questão existencial” e o medo da morte, não acho que a tenhamos, ou melhor, não é bem essa a resposta. Penso que o que tememos é a nós mesmos, e que nossa vida acabe na mesma mediocridade que vivemos e da qual todos temos consciência. Daí uma outra vida, sempre idílica, onde seremos o que não somos nesta.
    A iluminação é o insight ontológico do seu ser, dos seus limites, do seu lugar no Cosmo, da sua não-mediocridade.
    E pela quantidade de afirmações (não-dúvidas)num mesmo comentário, estou num breu que só…

    [Responder]

  11. #11 Ricardo C.
    on Jun 23rd, 2008 at 9:27 pm

    Guilherme, tive que sair, por isso não te respondi antes.

    1) Se fé e crença não são diferentes lingüisticamente, a perspectiva de que o sejam vivencialmente muito me agrada. A fé institucionalizada não passaria de crença nos moldes que apresentei no primeiro post. Nesse sentido, poderia ser questionada do mesmo modo que a crença. Quem tem essa fé de o Wilber fala, uma espécie de intuição, com um quê de inefável, pode até ouvir questionamentos, angustiar-se com o desmonte dos argumentos (as formulações das crenças) e até concordar com esse desmonte… E a fé? seria algo que sobreviveria ao desmonte! Nesse sentido, a dúvida “depuraria” a fé de suas “gorduras” (mais afeitas às crenças).

    2) Quanto à morte, comece trocando medo por angústia. E como a finitude é o nosso destino, e por mais que vc não pense nela, a sua perspectiva está sempre lá, não se pode escapar. É como o ar que vc respira, só presta a atenção quando ele te falta… Além do mais, desde muito cedo aprendemos a nos defender dela, e boa parte do tempo o fazemos da forma mais primitiva e potente que conhecemos: negando-a. Há outras formas, seja racionalizando-a, crendo-nos especiais, buscando um salvador (pode ser uma pessoa ou um Salvador de outra ordem) etc.
    Se fôssemos imortais, não haveria isso que vc chamou de “temer a nós mesmos”.
    Gosto da seguinte frase: “ainda que o evento físico da morte destrua o homem, a idéia da morte serve para salvá-lo”. Seu sentido aponta para o fato de que a idéia da morte, ou melhor, a “experiência limite” da morte nos ajuda a sair do nosso estado de existência cotidiano, caracterizado por um “descuido de si”, pautado na preocupação pela forma como as coisas são, por “perder-se nos demais”, o que é qualificado por Heidegger como um modo de existência “inautêntico”, onde a pessoa não percebe sua responsabilidade em relação à sua vida e ao mundo, tratando de não escolher e “deixando-se levar por qualquer um”. Já no “cuidado de si” não nos preocupamos pela forma de ser das coisas, mas apenas pelo fato delas existirem, sendo, portanto, a contínua consciência do ser, traduzida pela responsabilidade que se tem consigo mesmo. Mas não costumamos permanecer por muito tempo no estado de “cuidado de si”. Seria parecido a olhar diretamente para o sol: depois de algum tempo, queima nossas retinas! Mas o problema está em deixarmos de olhar para ele, quando passamos mesmo a esquecermos que ele existe…
    O preço que pagamos para livrarmo-nos da angústia, que neste caso se refere ao confronto com a morte, é a volta à mundanalidade das coisas, à distração com sua forma, o perdermo-nos nos demais, por meio daquelas defesas de que falei antes – que certamente nos proporcionam segurança, porém restringem nossa experiência e desenvolvimento.

    [Responder]

  12. #12 Anonymous
    on Jun 23rd, 2008 at 10:29 pm

    Psst… quiproquó, quiproquó.

    Juro a você que imaginei dois cenários para suas preocupações com o isolamento: um apartamento cheio de filhos, crianças, adolescentes, aventais sujos de ovo, uma enorme zoeira e você, ali, aspirando à solidão dos monjes – será que vem daí :-) o interesse do Ricardo por religião? Ou, o outro cenário: um apartamento vazio. Não pensei que você pudesse estar se referindo a becos sem saída existenciais. Eu devia ser mais atento!

    Você diz que as relações não são pontes sobre o abismo do indivíduo e que a mecânica quântica também não dá conta. Me desculpe, Ricardo, mas estou muito longe dessa perspectiva, desacostumado a outras, daí o mal-entendido daí de cima. E, cá pra nós, a minha perspectiva é muito mais on topic do que a sua (de novo:-). A “casa” desse indivíduo condenado a essa noção de individualidade não resiste ao primeiro lampejo da gnose; quando esta virar um clarão, aquela já terá virado cinzas (vide Kabir). E não sei se resistirá à mecânica quântica não, meu caro. Me permita abrir, neste comentário, espaço para o ponto de vista do físico David Bohm, professor da matéria na Universidade de Londres, aluno de Einstein, autor do projeto do protocolo que permitiu testar em laboratório o paradoxo da indeterminação, coisa decisiva para a mecânica quântica (tem tudo na web, com certeza). Pois ele, que, ao que eu saiba, nunca se manifestou sobre matéria mística, disse o seguinte ao jornalista francês Patrice van Eersel (vou transcrever um trecho do texto do jornalista, para contextualizar – e que os Deuses me protejam dos anjos vingadores do copyright):

    Quando nos despedimos de David Bohm, sua expressão tornou-se grave, quase dolorosa. Ele estava sentado atrás de sua mesa e não dizia mais nada. Tal como patos diante de uma chave inglesa, contemplávamos no quadro negro, Manuel Simões e eu, fragmentos de fórmulas matemáticas da última aula do semestre, quase totalmente apagados por um apagador preguiçoso. ‘Aonde essas pesquisas vão nos levar?’ meu companheiro acabou tendo a ousadia de perguntar. O físico, então, rompeu o silêncio com uma voz subitamente fatigada: ‘A resposta é terrivelmente preocupante, embora sabida desde a noite dos tempos. Porém cada época deve reformulá-la a seu modo. De minha parte, eu diria que é uma ilusão demasiado grosseira ver-se em cada ser humano uma realidade independente. Num certo nível, todos nós dependemos de uma única entidade, e só dela. Esquecê-lo é expor-se a uma séria confusão de todos os sentidos, e assim a graves perigos.’
    (Patrice van Eersel/La Source Noire/ed. Livre de Poche)

    É, ao que parece a casa pega fogo, companheiro, mas vamos deixar isso para depois.

    Salut

    Roberto

    [Responder]

  13. #13 Guilevy
    on Jun 24th, 2008 at 12:32 am

    Ricardo,
    ok, angústia, não medo.
    E olha só o que encontrei no Houaiss:
    “Rubrica: filosofia.
    em Kierkegaard (1813-1855), sentimento de ameaça impreciso e indeterminado inerente à condição humana, pelo fato de que a existência de um ser que projeta incessantemente o futuro se defronta de maneira inexorável com possibilidade de fracasso, sofrimento e, no limite, a morte
    4 Derivação: por extensão de sentido. Rubrica: filosofia.
    em Heidegger (1889-1976), situação afetiva fundamental despertada pela consciência da inevitabilidade da morte, que coloca o homem em presença do Nada absoluto e incontornável
    5 Derivação: por extensão de sentido. Rubrica: filosofia.
    em Sartre (1905-1980), consciência da responsabilidade decorrente da infinita liberdade humana e do vazio ontológico que possibilita a liberdade “

    Roberto,
    a qual “entidade” achas que Bohm se refere? Deus? Não acredito (que tenha pensado nele. Mas vale também o sentido literal, hehe). A de cada um? Vai de encontro ao que ele disse. O Cosmo? Talvez. Outra?

    [Responder]

  14. #14 Anonymous
    on Jun 24th, 2008 at 8:32 am

    Olá, Guilevy

    Bem, Deus é apenas um nome, não é? Apesar de ser um nome que goza desse status especial, para os católicos pelo menos, que estabelece que, por referir-se a algo tão grande, tão impenetrável aos nossos sentidos (embora não, talvez, de todo, aos nossos corações), não deve ser mencionado em vão… Eu disse “apenas”, como se palavras fossem troco miúdo, mas é preciso não se esquecer que a tradição judaico-cristã dá como certo que “no princípio era o verbo”, não é? Enfim, os taoistas chineses referem-se à mesma entidade como o Tao, significando “o caminho” (e aqui nos aproximamos de um terreno mais afim ao pensamento científico – um caminho pode ser um “campo”, no sentido de campo gravitacional, ou magnético). Já os budistas, acho que não se referem a nada, dizer “caminho”, para eles, já será personificar demais, ou, ao menos, apontar, e apontar como, se se trata de algo que compreende o próprio dedo que aponta? Buda disse apenas que o sofrimento é inerente à existência e que há um modo de superá-lo – e a doutrina é este modo: toques práticos, objetivos na medida do possível. Alguns budistas mais contemporâneos dizem que o budismo não é religião, é, de fato, uma tecnologia!

    Para meu próprio uso, não consigo fazer mais essas distinções. Apesar de até agora ser agnóstico, quando um cristão, judeu, muçulmano ou polinésio falam em Deus, ou quando um babalorixá fala nos seus Deuses, sei perfeitamente a que realidade eles estão se referindo, e pra mim está ok. Vamos em frente.

    O Bohm era um cientista peso-pesado, seu currículo passou pela colaboração com o projeto Manhattan, é… o baixo astral da física contemporânea, mas enfim… Norte-americano, foi perseguido pelo macartismo e pulou fora, veio pra São Paulo e depois fixou-se na Inglaterra. O Patrice van Eersel, autor desse livro que citei, recomenda respeito às palavras dessa gente. Afinal, são capazes de explodir, diz ele, uma bomba nuclear debaixo dos nossos narizes :-(

    O verbete do Bohm na Wikipedia tá bom, recomendo, Guilevy. Na mecânica quântica ele foi um dos protagonistas, mas o campo já estava mapeado. Agora, a teoria da “ordem implicada” é só dele, e é muitíssimo interessante, caramba! Ricardo, se puder dê uma espiada, lá, nos capítulos da colaboração dele com o Karl Pribram na tese incrível sobre o modelo holonômico do cérebro, assim como no produto da relação dele com o pensador indiano Krishnamurti sobre a doença do pensamento no mundo moderno. Essa relação com o Krishnamurti seria o que poderia tornar o Bohm “suspeito” de tendências místicas. Na verdade, esse incrível indiano era tudo, menos um contemplativo, estava muito mais para samurai, um espadachim voador. Um azougue, o cara era o fogo.

    Bom dia, companheiros, vou à luta.

    Roberto

    [Responder]

  15. #15 Anonymous
    on Jun 24th, 2008 at 9:10 am

    Só um pequeno complemento. Falei que Deus é apenas uma palavra. Acho que me fiz compreender, tinha na cabeça a tela do René Magritte representando um cachimbo (pipe, em francês), com a legenda embaixo: “Ceci n’est pas une pipe” – sim, claro, aquilo é de fato uma pintura! Acho que o artista acaba apontando ali para o cansaço dos signos, a repulsa que podemos sentir diante de um signo de um repertório que não é o nosso, mas que aponta para um significante pelo qual, afinal de contas, não sentimos nenhuma repulsa!

    Na verdade, acho que esses conceitos não importam tanto assim, se alguém vê essa entidade com características antropomórficas, como um processo (caminho), ou como um padrão, como talvez seja para o Bohm. Importa mais a emoção que acompanha o reconhecimento de que, como dizem os indianos, Ta-Ta-Ta, em inglês: This is it, ou, já complicando: This is my Lord.

    Bom, de qualquer modo, não confundir o uso que o Bohm faz da palavra “entidade”, com o que, no Brasil, serve para significar Preto-Velho, por aí (com todo o respeito, claro, claríssimo). Fui!

    Roberto

    [Responder]

  16. #16 Ricardo C.
    on Jun 24th, 2008 at 9:52 am

    Roberto e Guilherme, acho que me meti numa encrenca danada, vocês estão me obrigando a rever antigos livros e até um velho artigo que escrevi sobre psicoterapia existencial (do qual tirei alguns dados para responder ao Guilherme, aviso logo).

    Por partes. Guilherme, você procurou no lugar certo. Como pode ver, não são idéias originariamente minhas, mas eu as assumo como minhas, no sentido de também comungar com elas.

    Roberto, tenho há anos cá comigo “A Totalidade e a Ordem Implicada”, do Bohm, além de um livrinho fantástico da filósofa Renée Weber, “Diálogos com Cientistas e Sábios” com uma bela entrevista com ele (sem contar as entrevistas com o Ilya Prigogine, o Lama Anagarika Govinda, o biólogo Rupert Sheldrake, o Dalai-Lama, um padre interessantíssimo chamado Bede Griffths, falando desde um ashram na Índia, o Stephen Hawking e o Krishnamurti). E se não domino os seus conhecimentos (do Bohm e seus mesmo, Roberto), sei que o que ele diz é muito caro aos interessados na perspectiva transpessoal (de que ando afastado há mais de 10 anos, mas sem perder o interesse de todo). Nesse sentido, entendo razoavelmente a questão de não haver indivíduos (no sentido de “indivisos”). Além disso, acrescente o meu interesse por Heidegger e o seu Dasein (”ser-no-mundo”, “ser-aí”, “ser-o-aí” são algumas das suas traduções), noção que já elimina a possibilidade de um sujeito separado do mundo. A experiência singular (digamos que “psicológica”), porém, é atravessada por todas aquelas questões de que falei antes, talvez de forma diferente para um ou outro iluminado. No fundo, Roberto, creio que as questões existenciais que descrevi, incluindo aí a angústia, se levadas em consideração — no sentido de não fugirmos delas e escolhermos mergulhar na mundanalidade das coisas, “perdendo-nos nos demais”, optando por uma existência inautêntica, fechando-nos para o devir —, são um bom pré-requisito para o entendimento do que vc sugere. Sendo um pouco herético, creio que pode ser a base para o percurso zen-budista, por exemplo, mesmo não sendo nenhum grande conhecedor do assunto.

    P.S. O livro “O Paradigma Holográfico e Outros Paradoxos” (Cultrix, 1995), que trata das idéias do Karl Pribram (citado por você), tem capítulos do Stanley Krippner (o psicólogo de que te falei), da Renée Weber (a filósofa que entrevistou aquele mundão de gente bacana) e do Ken Wilber, esse cara de quem tirei boa parte do material que alimenta este post e o anterior. Creio que vc vai gostar dele.

    [Responder]

  17. #17 Pax
    on Jun 24th, 2008 at 11:26 am

    Posso pedir um favor?

    Alguém aí coloca essa discussão tão boa num word, edita, coloca o diálogo todo e me manda?

    Aqui nessa caixa deus fica tão apertado pra mim que me sufoco.

    Mas, pra tentar contribuir, lanço algo que acabei do George Carlin, comediante americano que acaba demorrer (um colega chamado Silvio postou no último Open Thread do Weblog do Pedro Doria, fui até a Wikinote para saber quem era e achei isso na resenha).

    “Religião chegou a convencer as pessoas de que existe um homem-invisível morando no céu, que vê tudo que você faz, todo dia, a todo instante. E esse homem-invisível criou uma lista de 10 coisas que ele não quer que você faça.Se você fizer uma dessas 10 coisas, ele tem um lugar especial cheio de fogo, fumaça, ardor, tortura e angústia, para onde ele te envia para sofrer e se queimar e se sufocar e gritar e chorar para todo o sempre até o fim dos tempos…mas ele te ama! Ele te ama e precisa de dinheiro!”

    “Já tentei acreditar que existe um Deus que criou cada um de nós a sua imagem e semelhança, que nos ama muito e observa tudo. Eu realmente tentei acreditar. Mas tenho que lhes dizer a verdade: quanto mais você vive, quanto mais você olha ao seu redor, mais você percebe: alguma coisa esta errada.(…) Isso não é um trabalho bem feito, se isso é o melhor que Deus pode fazer não me impressiona.”

    “Se existe um Deus, acho que a maioria das pessoas devem concordar que Ele é, no mínimo, incompetente e talvez, simplesmente não está nem aí.”

    “Deus criou o Plano Divino, colocou-o em pratica e, por bilhões e bilhões de anos o Plano Divino estava indo muito bem. Agora você vem e reza por algo. Suponhamos que o que você quer não está no Plano? O que quer que Deus faça? Mude o Plano? Só por sua causa? Não acha que é meio arrogante de sua parte?(…)Suponhamos que suas preces não sejam atendidas, o que você diz? Oh, é desejo de Deus. Assim seja. Tá bom, mais se é desejo de Deus e se ele vai fazer o que quer de qualquer modo, pra quê diabos serve rezar?”

    Fala um pouco como penso, um tanto agressivo, mas gostaria de ler tudo isso aqui editado, com calma. Há muita inteligência escrita aí pra cima, mas volto a insistir, num espaço muito apertado para eu me aprofundar na leitura, com o raso da minha competência.

    [Responder]

  18. #18 Ricardo C.
    on Jun 24th, 2008 at 12:02 pm

    Pax, vou te mandar o que escrevemos até aqui. Só mudei um comentário do Guilherme de lugar — o da questão existencial, que pus junto ao primeiro dele, quando fala de não ver distinção entre fé e crença —, porque a minha resposta a ele engloba esses dois comentários.
    Mando agora por e-mail.
    Abs.

    [Responder]

  19. #19 Roberto
    on Jun 24th, 2008 at 9:41 pm

    Pax, até agora o Ricardo não comentou, vou na frente, depois de confessar: Ricardo, Heidegger pra mim é, também, apenas um nome, ou era até agora. Você esclarecer o dasein quintuplicou meu conhecimento deste que eu apenas sabia ser um luminar da filosofia do XX. Sou analfa em filosofia (casei com uma filósofa, ela podia ter me aplicado, a sacana… shame on me, talvez que eu não tenha dado tempo a ela:-). Sempre me interessei muito mais pela morfologia, como o Sheldrake, de quem assisti uma palestra na Praia Vermelha – outro pensador sensacional, bravo, talvez quem mais assuma riscos, nessa turma toda. Bom, e morfologia já era muito além do meu campo imediato de interesse, o profissional, que já me dava muito pano pra manga e matéria de entusiasmo. Hã! Que legal, Dasein. Vou começar a usar o termo adoidado! Chique, alemão: weltanschauung!!! zeitgeist!!! :-) Hoje, no ônibus, fui escrevendo um texto sobre essa questão mesmo, da dependência, da interconexão geral, e vocês sabem que o happy end dessa novela só poderá ser mesmo a… unidade, o UM, né. Os incontáveis grãos de areia serem um só, e a criança a olhá-los, ali, vendo-se ali, ela também. Não haver 2 na realidade implicada desse metacosmo. Então, esse texto, primário, elementar, seria algo como uma conversinha ao pé do ouvido, talvez até uma idéia que eu tenho de fazer uma introdução dessa história para crianças. Vou arriscar postar um texto ingênuo aqui, hein! Só um texto fôfo, como diz minha filha. Depois. Não vale golpe abaixo da cintura.

    Então, Pax, vamos ao jogo já-já:

    [Responder]

  20. #20 Anonymous
    on Jun 24th, 2008 at 9:56 pm

    Ei, Ricardo, a caixinha de comentário não está abrindo como devia, abre numa pág inteira, substituindo a do blog inteiramente. E não está me dando feedback, daí a postagem dupla. Chame o síndico!

    R

    [Responder]

  21. #21 Roberto
    on Jun 24th, 2008 at 10:20 pm

    Ou será que é por aqui? Meu gmail está lentíssimo. Estou num mac, não deve ser virus.

    Hoje dei upgrade na minha conexão que é via celular da Tim. De 1 gig, uma miséria de tráfego por 70R$, pulei pra ilimitado por 100 e estou Uau! Todos os filmes! Todas as músicas! Os livros que der pra encontrar!

    Off só pra testar esse motor do blogger.

    Pô, Ricardo, o Wordpress, rapaz.

    [Responder]

  22. #22 Anonymous
    on Jun 24th, 2008 at 11:43 pm

    Pax

    O motor do Blogger tá bixado, mas vou tentar mandar mesmo assim.

    1) Teu primeiro parágrafo aspeado é a típica e inevitável queixa de um humorista diante da imposição sobre ele da lenga da crença miúda, né? Só que, companheiro, vamos encontrar toques sobre os conteúdos das ações, e dos pensamentos, em todas as tradições! O que pode significar que, se um humorista quiser se aproximar do território do sagrado, e eu te peço que, estrategicamente, não torça o nariz pra palavra, ele tem que se observar… o que não implica numa postura fria de figura de santo em vitral de igreja, existem mestres al-di-lá de bizarros, mas… pense que a questão pode envolver minúcias que a gente não tem mesmo, num ponto inicial de desenvolvimento, como compreender. Aqui a fé pode ser indispensável, mas é uma fezinha operacional: o mestre (ou os textos) diz: – Olha, querido, se toque nesse ponto ou não vc não sai do lugar. Cumpre a vc acreditar naquilo, se quiser seguir em frente.

    Dinheiro? Claro, onde é que o humorista foi se meter? Passei uns dois anos recebendo instruções de um Lama, um Geshe, na verdade, enfim, um monje tibetano, servido por um tradutor nativo, e como eu não podia contribuir muito com dinheiro, fiz pizzas pro Geshe, levei o tradutor em passeios pela cidade, festas. Mas me sinto muito em dívida com eles. Enquanto o monje esteve aqui, uma parte dos discípulos contribuia regularmente, mas ninguém, jamais me pôs contra a parede por conta dos meus percalços. Além disso, imagine a força do dólar, ou do real, diante da rupia indiana: aqueles dois recebiam muito pouco, para os nossos padrões - o monje mandava para a família, se bem me lembro

    2 e 3) Teu segundo e terceiro parágrafos, quá! Eu posso ver a platéia gargalhando. A posição dos deístas, fora engano, passa um pouco por aí, queixas de uma humanidade abandonada por Deus. Vindo dos deístas, nada tenho a comentar, a não ser que a experiência religiosa, o que os cristãos chamam de Deus Vivo, não deve ter passado por ali: serão crentes, no sentido que o Ken Wilber dá ao termo. Quanto ao humorista, quá!

    4) Não, amigo, aí pra mim já é demais, só um teólogo pra responder ao humorista, essa. Acho que poderia pensar em algumas funções para a prece num contexto religioso menos simplório que o do sujeito lá, que morreu. Mas não vou me estender. Vou sugerir apenas que, falar sozinho, ou falar para uma entidade invisível, possa servir para baixar a crista da fé racionalista dele, que pode ser muito útil noutros terreiros, não no de Mãe Menininha!

    [Responder]

  23. #23 Anonymous
    on Jun 25th, 2008 at 10:33 pm

    Bem, alô…? Alô…? Acabou a festa? Foram todos pra casa? Podiam ter dado um tchau, apagado a luz…

    Realmente, há algo de errado com as vísceras da janela deste thread. O que houve? Não estou acostumado com o brogspot.

    Enquanto não tenho retorno, divago:

    O comentário do Pax trazendo à cena a questão da Grana a princípio me deixou um pouco irritado. Como se, numa conversa sobre os bordeaux que liquefizeram um determinado e mítico verão, ele tivesse nos acudido com questões relativas ao interessante clone do suco de uva da vinícola Aurora que está nos supermercados. Mas, depois, fui à cidade, coisa cada x+ rara, e vi nas vitrines o lançamento do livro do Fernando Morais, a biografia do mago. Um tijolão de 60 pratas. Li as curtas frases, teasers de capa, prometendo peeps nas orgias do biografado, entre outras inconveniências de interesse indiscutível para o público da Caras. Fui invadido por enorme melancolia, que só foi refluir com a compra da Folha trazendo a matéria do show do Mago João Gilberto Prado Pereira de Oliveira no Carnegie Hall.

    Saquei ali, nas vitrines, o total senso de oportunidade do comentário do Pax.

    Cutuquei o Ricardo sobre a receptividade dele a uma abordagem de material provindo das near death experiences num destes threads no tópico Crença, fé etc. Embora concordando, ele acusou sensibilidade ao fato de que esse tema já caiu “por demais na cultura popular”. Então é assim, me perguntei? Essa questão, que pode significar a ressurgência triunfal do Mito no mundo contemporaneo, ela já foi consumida, digerida e expelida pelos canais competentes? É de se crer, quem o afirma é um sujeito culto, sofisticado, nem um pouco trendy, pelo que percebi, não é um estagiário de jornalismo na Superinteressante.

    Na cultura de massas, sociedade de consumo ou que nome lá tenha este cambalache, tudo será transformado em produto, consumido de algum jeito. A lógica é essa. Por que a espiritualidade estaria a salvo desse triturador de conteúdos? O mago aposta todas as fichas na lógica do consumo, claro. Idem os poderosos bispos eletrônicos. Idem os sacanas da política como espetáculo, e mesmo os não tão sacanas (espertos) que no entanto também se beneficiam da “consciência de mídia”.

    E aqui me baixa um Jabor, e eu deixo, porque o próprio Jabor é também, por sua vez, cavalo de outras entidades.

    – Não, Roberto, o comércio espiritual vem de longe, negociam-se facilidades naquele serviço de imigração dirigido por São Pedro, posto avançado, mera colônia do Vaticano, há muitos séculos.

    Sim, é verdade. Apenas, tenho a sensação de que somos outros, depois dessas décadas cínicas, que já estamos resignados à vertigem voraz desse processo louco. O tema do seu post, no frigir dos ovos, é algo que também já caiu “por demais na cultura popular”, Ricardo. É o fucking ópio do povo!

    Consta que depois de sua iluminação, antes de decidir tornar-se um professor (let’s give it a shot, Siddartha), o Buda Sidarta Gautama teria vacilado. Será que alguém vai aproveitar minhas instruções?

    Se antes do cambalache já era complicado falar da possibilidade real de uma pessoa qualquer achar, no monte de lixo de sua vila, uma raríssima gema de valor incalculável, o seu aleph… imaginem em nossos dias – todos nós meio ébrios dessa moderna e perversa droga, quando teremos a energia capaz de mover as toneladas de despojos do lixão de nossa megalópolis em busca de uma quimera, provavelmente uma falácia que deve estar engordando a conta bancária de algum malandrão espiritual, desses que fazem oco em Bíblia pra contrabandear fundos amealhados nas periferias brasileiras para abrir um franchising da igreja do tio dele na Flórida?

    Portanto, Pax, seu comentário foi, de fato, oportuníssimo. Vocês não concordam comigo, companheiros?

    [Responder]

  24. #24 Pax
    on Jun 25th, 2008 at 10:49 pm

    Roberto,

    Caro, sinceramente não estou conseguindo pensar apertado aqui. Quero ler tudo, de novo, encadeado, aumentado.

    Medo da morte, angustia da vida, mistérios da fé, grana fácil, religião prostituta. Talvez haja realmente um encadeamento que quero pensar com mais calma. Mas essa caixa não é de Pandora, é de pindura. Tô mais apertado aqui que saco de velho em lingerie de puta.

    E o dono da casa nos deixa falando ao vento. Aperece aí e traz mais uma pinga. Ou respinga tudo isso escrito em lugar de arejo, com traquejo.

    [Responder]

  25. #25 Anonymous
    on Jun 25th, 2008 at 11:41 pm

    Um poeta, o Pax.

    Ora viva! Tem gente! Como na piada, me pareceu que ao ir ao banheiro, todos os 35 convivas da mesa tinham se pirulitado, dizendo ao garçon que a conta era comigo.

    Tô mais tranquilo. O recesso do Ricardo e as panes de janela me fizeram pensar num grave problema no bucho deste blog host peba.

    Valeu, Pax.

    R

    [Responder]

  26. #26 Anonymous
    on Jun 26th, 2008 at 12:20 am

    Ricardo

    Imagino que você deva estar às voltas com algum problema, por isso nos deixou pendurados na broxa.
    A janelinha do blogger voltou a funcionar direito, há uma aparência de normalidade na cidade, de modo que, ao voltar do seu possível retiro espiritual, queira, por favor, passar a vassoura no que for offtopic da minha pena. E no ontopic também, evidente, se te aprouver, exercendo os privilégios de emérito editor deste Dazibao.

    Curioso, o blogger não aceita minha identidade do gmail, daí eu ter que postar como anônimo. No Google, normal.

    Até algum dia, espero! Folgue!

    Roberto

    [Responder]

  27. #27 Ricardo C.
    on Jun 26th, 2008 at 8:37 am

    Roberto, desculpe pela falta de resposta, que seguirá pelo menos até o meio da tarde. Estou atolado de trabalho, fim de semestre na universidade e ainda corrigindo monografias que serão defendidas no sábado. Tenha só mais um pouco de paciência antes de desistir de dialogar por aqui, pois os seus insights são de qualidade, fazem pensar.
    Abraços!

    [Responder]

  28. #28 Pax
    on Jun 26th, 2008 at 9:35 am

    OK, o meu comentário acima, jocoso, também não faz parte da coletânea, e desculpem-me pela ironia grossa.

    Aguardemos o mestre Ricardo, mestre Roberto.

    [Responder]

  29. #29 Anonymous
    on Jun 26th, 2008 at 1:17 pm

    Bão, já que nosso publisher e editor precisou entrar em recesso, vou usar o ócio a que você nos relegou, Ricardo, pra dar conta de seu comentário de 24/6/08/9:52, que não foi devidamente levado em conta nos meus.

    Sua biblioteca parece, assim de longe e a julgar por uma ou outra ficha que você nos apresenta, bem legal. O livro da Renée Weber eu dei uma zapeada, alguma vez, mas não li. Bede Griffiths não conheço. Mas tenho a maior admiração e gratidão de leitor por outro padre, padre não, monge, monge trapista norte-americano – o Thomas Merton. Esse era a mais fina flor, ou a única, saída da santa madre, com quem eu já, literária e espiritualmente, tive contato. Fera. Contemplativo: meditação e oração com porto seguro no claustro de Getsemani, nos EEUU. Ele foi um dos grandes responsáveis pela ponte com as tradições orientais, junto com o Suzuki, na contra-mão, o Allan Watts e alguns poucos mais. Acho que os padres da igreja não aproveitaram tanto essa ponte quanto a garotada da Califórnia, nos transtornos mirabolantes dos ‘70. Os intelectuais católicos brasileiros gostavam dele, mas não tanto, desconfio eu, pelo total encanto que ele tinha pelos orientais, coisa que só foi informar a geração que viria em seguida. Poeta, tem material dele no site do Ivan Granger, poetry-chaikhana.com, onde está a casa incendiada do Mestre Kabir. Morreu num ashram na Índia, num acidente, eletrocutado por um ventilador ao sair do banho, veja só. Tenho, nalgum livro, os diálogos dele com outro monge, dessa vez um oriental, budista, se não me engano; e você sente na transcrição a eletricidade que perpassava o encontro, o mútuo reconhecimento de dois homens despertos, é arrepiante.

    Para comentar o que você fala sobre o seu existencialismo, me falta, sinceramente, competência. Mas é claro que imagino o empenho e a seriedade, a dor envolvida no foco cruel (que só não é masoquista por ser fruto de obstinação intelectual na busca da verdade) nessa solitude radical. E entendo muito bem, concordo que um tal background seja um alicerce qualificado para um buscador Zen. Há um sentido meio estóico, de resistência psicológica extrema, na meditação continuada sobre o nó que é o imaginar-se um ser absolutamente responsável por si mesmo. Posso conceber a riqueza que seja a lida de alguém assim com um koan exasperante, proposto por um mestre rabugento. Acho que, até esta linha, você deve estar achando que eu, talvez, afinal, possa ter uma idéia do que seja a sua perspectiva. Então, vou terminar de um modo que vai te deixar achando que eu não entendi nada: não poderá essa dinâmica escolha, também, ser vista como um cilício, que o Aurélio define como “pequena túnica ou cinto ou cordão, de crina, de lã áspera, às vezes com farpas de madeira, que, por penitência, se trazia vestido diretamente sobre a pele”? Exercícios espirituais extremos, de iogues hardcore ou mesmo de cristãos sedentos, impacientes pelos sinais do Deus Vivo? Tá certo, eu me arrisco a você me tomar por um sacana, mas uma bengalada de um mestre Zen pode também ser um suplício – caso não seja, imediatamente, reconhecida como o gesto responsável por aquele súbito clarão que está te mostrando o real, que você nunca havia imaginado ser assim, que é tão novo, tão fresco (daí o conceito popular de born again), tão inadaptável às palavras, e que no entanto, estava aí, óbvio, óbvio, o tempo todo na frente do seu nariz. Se o aluno, nessa hora, correr pro abraço no mestre, em lágrimas, mas der ao mesmo tempo um violento bico em suas santas canelas, acho que o mestre vai sentir (que valeu a pena :)

    Parágrafo de elefante. É o seguinte: este exercício aqui em sua Ágora num certo sentido me faz muito bem. Eu mesmo estou vivendo atualmente, e já há alguns anos, uma experiência de isolamento de fato. Não me queixo, ela tem seus prós e seus contras. Depois de uma boa temporada editando um blog – minha pauta era o crime dos helipontos e heliportos sobre as cabeças dos cariocas – saí de cena. Zero de internet por uns bons anos. Estou conectado novamente há dois meses. Então, a vida que eu encontro na web está me recarregando diáriamente as baterias, que eu só enchia a cada 10, 15 dias, visitando os amigos. Isto está ótimo.

    Mas há um outro sentido em que não sei se isso me faz bem. Há uma tensão relacionada a tratar do tema espiritualidade no campo aberto de um meio de comunicação. É muito forte a tentação de fazer má literatura, por exemplo, de perfumar a flor e poetizar o poema, como nos advertiu o Mago João Cabral de Mello Neto (caí nessa tentação logo aí em cima). E não estamos aqui pra fazer poesia, estamos, no nosso exercício editorial amador, tratando da flor por excelência. E essa será uma responsabilidade maior que a do poeta, ou não? Por outro lado, eu não tenho nenhum compromisso, não quero “fazer a cabeça” de ninguém pras minhas opções, e aí está outra corda-bamba. Mas sei o que seja a eficiência, e se topo com alguém com uma afinidade com o cristianismo, p.ex., com um desejo corajoso de buscar seu Deus Vivo, eu não teria como deixar de sugerir os passos do Thomas Merton, que o levarão certamente a buscar a companhia de um mestre qualificado de uma das diversas tradições orientais (muitas tradições aceitam dar esse tipo de treinamento, que respeita a orientação doutrinária, de origem, do aluno). Quer dizer, é tudo muito matizado, e tudo isso que eu venho dizendo vai com um sentido de muita informalidade: evidentemente eu não estou autorizado (sentido do étimo) a falar em nome de nenhuma tradição religiosa, de modo que tem que haver grande disciplina no falar por mim mesmo, sem dourar a pílula nem me pôr a corrompê-la. Sentiste a barra? Cansado das teclas e dos infernais pixels, te deixo um abraço.

    Roberto

    P.S.: Obrigado pelo cumprimento do seu último comentário, embora seja um exagero gentil seu dizer que estou trazendo insights ao nosso diálogo. São vivências.

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  30. #30 Ricardo C.
    on Jun 26th, 2008 at 2:57 pm

    Pax e Roberto, convido vocês para continuarmos a conversa lá no último post da série, mas desde já me desculpando e dizendo que o mais provável é que volte amanhã pela manhã, sem poder responder a contento caso comentem algo hoje. E Roberto, você está me dando muito trabalho, há anos que não parava para refletir sobre todas as coisas que andamos conversando. Creio que um ou mais chopes com essa conversa, num boteco qualquer da Zona Sul do Rio (por onde moro) viria a calhar, convite extensível a quem andar por aqui, e com toda a pena do mundo em relação aos que estão longe. (Qualquer coisa, mandem um e-mail para combinarmos: rcgenerico@gmail.com)

    Abraços a todos, volto outra hora.

    [Responder]

  31. #31 Pax
    on Jun 26th, 2008 at 5:48 pm

    A esse chope irei religiosamente.

    [Responder]

  32. #32 Crença, fé e experiência religiosa (3): o que dizer desta última? | Ágora com dazibao no meio
    on Oct 13th, 2008 at 1:48 pm

    [...] o último post de uma série que começou falando da psicodinâmica da crença e a seguir tratou do tema da fé. Dito isto, agora, para falar em “experiência religiosa”, começo trocando-a por [...]

  33. #33 Sorte e privilégio | Agora com dazibao no meio
    on Jan 21st, 2009 at 4:27 pm

    [...] no último. Vale a pena ver o Pax e o Roberto conversando, papo esse que já ocorreu em outras ocasiões e que sem dúvida deu mais graça à minha atividade [...]

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