O escritor mexicano David Toscana já teve três dos seus livros publicados por estas bandas. Não sei dizer se é um sujeito superavaliado, mas adianto que gostei deste primeiro livro, “O Último Leitor”, bem mais do que dos outros dois — “Santa Maria do Circo” e “O Exército Iluminado”.
Tampouco vou me alongar em resenhas, só quero destacar uma passagem (um pouco longa…) que me chamou a atenção — entre tantas! —, justo pela forma como um dos personagens questiona como os escritores descrevem (equivocadamente, aos seus olhos) a realidade. Trata-se, é claro, de uma provocação do autor através desse personagem, mas que não fica apenas nisso…
Melhor transcrevo o diálogo entre Lucio e seu filho Remigio, depois que este último mata um bode da forma como seu pai orienta — segurando-o pela nuca, de frente para ele (o bicho apoiado sobre as patas traseiras, de forma a olhá-lo “direto nos olhos”), enfiando o facão no seu esterno. Aí vai:
(…) Faça o facão girar, ordena Lucio; o animal deve estar consciente de que é você quem o está ferindo. Remigio não vê a ferida por estar com os olhos nos de sua vítima (…). Torce o facão um pouco mais e as pálpebras do bode se entrefecham, o rosto em conjunto começa a adquirir uma expressão que Remigio não consegue precisar, mas que o intriga. O bode acaba por fechar os olhos apesar de ainda lhe restar vida. Continuo? Dá na mesma, responde Lucio, você já viu o que devia ver.
(…) Você viu horror e olhos abertos como pratos? [Em alusão ao jeito que um escritor de nome Santín descreve a morte de alguém] Não, nada disso. E você sabe por que o bode é o animal ideal para sacrifícios? Diante do silêncio de Remigio, Lucio responde. Porque morre como o homem, só que mais dignamente, porque o bode não pensa nos seus planos de vida, projetos inconclusos nem na mãe nem nos filhos nem numa mulher chamada Evangelina; por isso é dócil, e se dá coices é por reflexo, não quer te machucar. Os padres não falam de galinhas expiatórias porque estas correm mesmo sem cabeça; nem de cachorros, porque eles dão mordidas. Claro, o homem tenta se defender, fica horrorizado e tudo isso que dizem os escritores, mas antes do final fica igual a um bode, já não sente terror mais outra coisa, você notou? Remigio tenta decifrar a expressão do bode, vira para ver o animal trêmulo, que, num ato de mansidão, caminhou até pousar sobre o recipiente para esvaziar ali seu sangue. Vergonha, diz, acho que sente vergonha. Lucio sorri com gosto. Exato (…). Eu lhe garanto que uma mulher moribunda, com um balaço no peito, certa de estar perdida, sente vergonha, do mesmo modo que se aparecesse nua numa praça pública ou se a espiassem no banheiro; e se lhe derem tempo pensará na roupa que lhe vão pôr para enterrá-la. Nos romances com assassinatos não tem nada disso, só violência, sangue e, principalmente, horror, com todos os sinônimos, que são muitos; às vezes há raiva, insultos ou lágrimas, mas nunca vergonha. A senhora Urdaneta é picada por uma cobra enquanto se alivia num descampado. O que vai fazer com suas últimas forças? Não sei, responde Remigio, suponho que vai esticar a anágua que estava enrolada na cintura. Correto, diz Lucio, e, se estiver com papel na mão, primeiro vai se limpar; o negócio não é tentar sobreviver, mas tornar decorosas as condições em que se morre; mas Santín a faria gritar não quero morrer e os olhos cheios de terror e caudais da matéria com a qual se constrói a falsa morte. (…) (Grifos meus).
Nunca tinha pensado nisso. Nunca, até ler esse trecho e lembrar de ter visto, há dezessete anos, alguém envergonhado, horas antes de morrer.
P.S. Para mais detalhes sobre o livro — que é bem mais rico do que apenas essa passagem —, encontrei uma resenha simpática, que saiu no Prosa & Verso (O Globo), em fevereiro de 2006:
Da Realidade não-toda ao Livro-Quase (Gustavo Bernardo).

June 16, 2008 at 9:52 am
Faz pensar. É um pouco triste. Ter vergonha na hora de morrer não deve dar barato.
O barato sai caro, viver feliz não é barato, custa. E se viver feliz, deve ser difícil ter vergonha de morrer.
Outro dia Chico, mateiro, me disse enquanto carregávamos barco, motor, mantimentos e outras coisas para pescar: “Cumpadi, dá um trabalho se divertir…”
June 16, 2008 at 10:01 am
Fico pensando em outra coisa, Pax, na idéia da retidão, dos princípios, da autenticidade, que seguem ativos até o último minuto de nossas vidas. Esse “decoro” de que fala o livro, não tomo como uma visão socialmente determinada, consensual. Tomo como algo singular, totalmente vinculado ao que você fez e foi em vida.