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Um começo (Javier Marías, “Amanhã, na Batalha, Pensa em Mim”)

‘Ninguém nunca imagina que possa vir a se encontrar com uma morta nos braços e que não verá mais seu rosto, cujo nome recorda. Ninguém nunca imagina que alguém vá morrer no momento mais inadequado, apesar de isso acontecer o tempo todo, e achamos que ninguém que não esteja previsto haverá de morrer junto a nós. Muitas vezes ocultam-se os fatos ou as circunstâncias: para os vivos e para o que morre — se tem tempo de perceber — com freqüência é vergonhosa a forma da morte possível e suas aparências, a causa também. Uma indigestão de frutos do mar, um cigarro aceso ao cair no sono que toca fogo nos lençóis ou, pior ainda, na lã de um cobertor; um escorregão no chuveiro — a nuca — e a porta do banheiro trancada, um raio que parte uma árvore numa grande avenida e essa árvore que ao cair esmaga ou decepa a cabeça de um transeunte, talvez um estrangeiro; morrer de meias ou no barbeiro com a toalha no pescoço, num prostíbulo ou no dentista; ou comendo peixe e entalado com uma espinha, morrer engasgado como as crianças cuja mãe não está presente para enfiar um dedo e salvá-las; morrer barbeando-se, com uma bochecha cheia de espuma e a barba já desigual até o fim dos tempos se ninguém reparar e por piedade estética terminar o trabalho; para não falar nos momentos mais ignóbeis da existência, os mais escondidos, dos que nunca se fala fora da adolescência, porque fora dela não há pretexto, embora também haja quem os ventile para fazer uma graça que jamais tem graça. Mas esta é uma morte horrível, diz-se de algumas mortes; mas esta é uma morte ridícula, diz-se também entre gargalhadas. As gargalhadas vêm porque se fala de um inimigo por fim extinto ou de alguém distante, alguém que nos fez afronta ou que habita no passado desde há muito, um imperador romano, um tataravô, ou alguém poderoso em cuja morte grotesca se vê somente a justiça ainda vital, ainda humana, que no fundo desejaríamos para todo o mundo, inclusive nós. Como me alegro com essa morte, como a lamento, como a comemoro. Às vezes basta para a hilaridade que o morto seja alguém desconhecido, sobre cuja desgraça inevitavelmente risível lemos no jornal, coitadinho, diz-se entre risos, a morte como representação ou como espetáculo de que se dá notícia, as histórias todas que se contam, ou se lêem, ou se escutam percebidas como teatro, há sempre um grau de irrealidade naquilo de que nos inteiram, como se nada nunca acontecesse totalmente, nem mesmo o que nos sucede e que não esquecemos. Nem mesmo o que não esquecemos.
Há, um grau de irrealidade no sucedido comigo, e além do mais ainda não terminou, ou talvez devesse empregar outra forma verbal, a forma clássica em nossa língua quando contamos, e dizer
no que aconteceu comigo, embora ainda não tenha terminado. Talvez agora, ao contá-lo, eu ache graça. Mas não creio, porque ainda não está distante e minha morta não habita no passado desde há muito, nem foi poderosa, nem inimiga, e sem dúvida tampouco posso dizer que foi uma desconhecida, embora pouco soubesse dela quando morreu em meus braços – agora, em compensação, sei melhor. Foi uma sorte que ainda não estivesse nua, ou não totalmente, estávamos justamente no processo de nos despir, um ao outro, como costuma acontecer na primeira vez em que isso acontece, isto é, nas noites inaugurais que adquirem a aparência do imprevisto, ou que se fingem impremeditadas para deixar o pudor a salvo e poder se produzir uma sensação de inevitabilidade e, assim, descartar a culpa possível, as pessoas crêem na predestinação e na intervenção do acaso quando convém. Como se todo o mundo tivesse interesse em dizer, sendo o caso: “Não procurei, não quis”, quando as coisas saem mal ou deprimem, ou quando a pessoa se arrepende, ou acaba se machucando. Não procurei nem quis, deveria dizer agora que sei que ela está morta; e que morreu inoportunamente em meus braços sem sequer me conhecer direito – imerecidamente, não me cabia estar a seu lado.’

[Javier Marías, "Amanhã, na Batalha, Pensa em Mim", tradução de Eduardo Brandão, páginas 1, 2 e um terço da 3. Uma resenha aqui.]

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0 Comments on “Um começo (Javier Marías, “Amanhã, na Batalha, Pensa em Mim”)”

  1. #1 Monsores, André
    on Jun 19th, 2008 at 5:27 pm

    Ricardo,

    Eu quero parar de trabalhar aos 33, 34 anos para aprender a escrever assim. Se conseguir ser metade do que o Javier Marias é, já estarei satisfeito.

    Apenas uma correção: esse é o início de “Amanhã, na Batalha, Pensa em Mim” não de “Coração Tão Branco”, como na legenda.

    Abração! Saudade de conversar com você. To precisando te escrever.

    [Responder]

  2. #2 Ricardo C.
    on Jun 19th, 2008 at 6:04 pm

    Obrigado pela correção, me distraí!
    Saudades de vc também, meu caro.

    [Responder]

  3. #3 Pax
    on Jun 19th, 2008 at 6:10 pm

    Lindo o texto, mas muito triste.

    Outro dia vi um texto de um concurso de literatura. Alguém trouxe aqui pra casa o trabalho de ler centenas de textos desse concurso e me mostrou esse e mais alguns.

    Era de um velho que, ao morrer lembrava da morte de um cão, seu dono o leva velho e no fim para a clínica veterinária, deixa-o numa sala e vai procurar alguma ajuda. E o cão não queria ajuda, somente seu dono ao lado para morrer em paz.

    Bá, vou mudar de assunto.

    [Responder]

  4. #4 Ricardo C.
    on Jun 19th, 2008 at 6:28 pm

    Pax, fica mais interessante, não apenas triste, como foi a sua leitura. O protagonista descreve mais detalhes da cena, do jantar no apartamento dela enquanto o marido está viajando, do filho dela, finalmente dormindo em seu berço no quarto ao lado, da ida para a cama, dela ficar de costas, não se sentindo muito bem, da nuca que ele nunca vira, dos cabelos grudados na nuca por conta do suor… Melhor paro por aqui, não quero tirar o suspense e a graça para os que forem ler o livro.
    Abração!

    [Responder]

  5. #5 Monsores, André
    on Jun 19th, 2008 at 7:47 pm

    Eu vou ler, certamente.

    Triste é também o Vita Brevis do Onetti. Muito triste, mas bonito.

    [Responder]

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