Submarino.com.br
Ágora com dazibao no meio Rotating Header Image

Entre um estudo e outro, me distraio um pouco

“Steinbeck disse, Acredito que existam monstros neste mundo, que nasceram de pais humanos, e essa passagem permaneceu comigo todos esses anos. Agora ela parece definir a minha velha vida. Eu era o sujeito que perseguia os monstros. Especialistas, sábios, cientistas sociais — seja lá como são chamados hoje, essas pessoas nunca vão admitir que existe algo como o mal em estado puro, mas eu acredito nele, eu vi sua obra horrível. De fato, existem monstros. Às vezes eles podem nos enganar e fascinar, e isso os torna ainda mais monstruosos. Como policial, era meu dever enfrentá-los no tribunal com nada além dos fatos de um processo. Sem opiniões acadêmicas elaboradas em uma torre de marfim, sem pose, sem baboseiras psicológicas incompreensíveis; não era eu quem estava vestindo o terno de oitocentos dólares e que tinha um doutorado em Tudo: eu não podia analisar friamente de longe e então cair de pára-quedas na situação, um mercenário pago por hora, e atirar de tocaia na verdade. Meu próprio testemunho tem que se limitar às evidências físicas — o que eu tinha visto, o que eu tinha descoberto, o que eu sabia e o que tinha registrado com detalhes; e o que eu pudesse provar. Provavelmente eu sou um caso perdido, preso no meu ‘modo policial’ até morrer, mas eu nunca vou entender como podemos perdoar um animal que estupra e depois corta a mão da vítima e se senta calmamente fumando e observando-a sangrar até morrer. Como é que podemos dizer que ele estava louco na ocasião, mas que agora está bem, que tipo de doutorado abrange esse tipo de saber, e quem se importa se ele está bem agora? Quem se importa se a mãe dele o surrava todos os dias com o fio do ferro elétrico quando ele tinha cinco anos? Eu sofro pela criança que ele foi e tranco para sempre o monstro em que ele se tornou. Tudo o que sei é que nunca vou confiar em tê-lo de volta às ruas.
Esses foram os alegres pensamentos que me perseguiram colina acima.” (Grifos meus)

Esse é Cliff Janeway pensando, enquanto se dirige rumo a casa de Bobby Marshall, assassinado já (quase) sei por quem — estou na página 357 de um total de 377, e esse trecho aparece na 352 —, mas é claro que não direi nada a respeito.

O que me chamou a atenção foi essa história de existir “o mal em estado puro“. A cada notícia bárbara que ouço, a cada selvageria cometida por motivos torpes ou sem qualquer razão aparente, me vejo tentado a pensar assim. Mas algo que me antecede — ou que talvez me transcenda — me diz que não, que se há algo de errado nessa sentença ele está em suas últimas três palavras: “em estado puro”. Desconheço, ou melhor, duvido que haja algum “estado puro” do que quer que seja. Há certamente aquilo que somos incapazes de suportar, seja no outro, seja em nós. Há aquilo que merece o nosso total repúdio, e o seu inverso, o que admiramos, aplaudimos, louvamos. Mas no que se refere a nós, seres humanos, “puro”, “imiscível”, parecem palavras mais próximas da ficção.

No trecho que citei, os da minha profissão não aparecem bem na foto, digo na fala do ex-detetive. Seriam eles os autores das “baboseiras psicológicas incompreensíveis”, aqueles que analisariam à distância, friamente, e vaticinariam (sem garantias, mas provavelmente cheios de convicção) que o assassino estaria “fora de si”, ou que “portaria uma personalidade psicopática”, ou outro rótulo qualquer. Ao mesmo tempo, são aqueles que encarnam a ciência, ou tudo o que ela precariamente sabe até aqui. E trata-se de uma distância que se faz necessária, é “metodológica”, por assim dizer, evitando as armadilhas do julgamento moral a priori. Porém, se ela se afasta demais do fenômeno que pretende descrever, corre o risco de falar de tudo, menos dele.

Hoje, 12 de julho de 2008, sigo não compartilhando com o Cliff Janeway essa idéia do “mal em estado puro”, enquanto ao mesmo tempo subscrevo a fala de Steinbeck, a da existência de monstros que que nasceram de pais humanos. Digo mais: reconheço que, como homem, devo mesmo ser potencialmente capaz de cometer atrocidades que ainda não foram descritas pela literatura ou pelo cinema, e que decerto escaparão à compreensão dos que se crêem minimamente civilizados. Mas espero que esse homem-monstro receba uma pena que não se lhe equipare em barbárie. Caso contrário, isso sim será uma imperdoável monstruosidade.

* * *


Assinaturas e Assassinatos
(John Dunning)

“Nesta quarta aventura da série, Cliff Janeway, antigo policial que se tornou livreiro e detetive particular, é enviado por sua sócia e namorada, a advogada criminalista Erin D´Angelo, a uma pequena e sombria cidadezinha encravada nas montanhas do Colorado. O objetivo é investigar a morte de Robert Marshall, misterioso colecionador de primeiras edições de livros, assinadas pelos respectivos autores ou por gente famosa.

O caso, no entanto, é mais complicado do que parece. Na verdade, Marshall havia sido, na juventude, o grande amor de Erin, e a pessoa acusada de matá-lo é nada menos que sua mulher, Laura Marshall. A suposta assassina, que, aliás, confessou a autoria dos disparos ao ser pilhada na cena do crime, fora grande amiga de Erin, até usurpar-lhe o noivo num passado ainda insepulto.
Mais uma vez, o estranho mundo dos aficcionados por livros raros serve de ambiente e fornece os motivos básicos para a trama.Combinando sua experiência de livreiro e de ex-tira a uma tenacidade a toda prova, Cliff Janeway vai deslindando os nós aparentes de um imbroglio fortemente marcado por um caldeirão fumegante de ciúmes e ressentimentos. “

Share and Enjoy:
  • Digg
  • Sphinn
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Mixx
  • Google
  • E-mail this story to a friend!
  • LinkedIn
  • Technorati
  • Tumblr
  • TwitThis
  • YahooMyWeb

0 Comments on “Entre um estudo e outro, me distraio um pouco”

  1. #1 Monsores, André
    on Jul 13th, 2008 at 12:25 pm

    Mais uma ótima análise, Ricardo.

    Aqui do outro lado, eu já espero que monstros como esse descrito no livro, tenham o dobro de dor e sofrimento que causaram a suas vítimas. Cada uma. Em uma escala exponencial.

    Penso que se um “ser humano” é capaz de fazer uma coisa dessas a um inocente, este mesmo “ser humano” deve sofrer tudo isso por ser culpado.

    [Responder]

  2. #2 Ricardo C.
    on Jul 14th, 2008 at 1:16 pm

    André, inspirado no teu comentário, acabei de publicar um post. É esse último chamado “Contra-intuição”.
    Abs

    [Responder]

Leave a Comment