Em função de um vídeo com o interrogatório em Guantánamo de um rapaz de 16 anos — vi primeiro no Pedro Doria, mas já há versões e notícias sobre ele em vários portais por aí —, acabei me lembrando de um livro bastante interessante que tenho cá comigo. Chama-se Psicoterapia y Represión Política (Lira, E.; Weinstein, E. et alii. México: Siglo XXI Editores, 1984), e tem artigos e apresentações de casos ocorridos durante a ditadura do general Pinochet. Quando comprei esse livro, o título de um dos seus capítulos me chamou especial atenção:
(Psicoterapia de um preso político apolítico)
Fala sobre um sujeito comum, um rapaz desses que não se metem em confusão, que se dedicam a estudar com afinco e a trabalhar muito, que nunca participaram de qualquer movimento pacifista, religioso ou político-partidário. Era um daqueles cidadãos pagadores de impostos, que deviam confiar na idéia de que toda e qualquer pessoa presa durante o regime de Pinochet provavelmente devesse ter mesmo alguma culpa no cartório. Isso se pensassem no assunto. No caso do rapaz, o relato indica que não, que ele se mantinha alheio a essa realidade, por não participar diretamente dela.
Pena que todo esse bom-mocismo, que provavelmente teria a aprovação de muitos, não tenha impedido que o prendessem e torturassem sem motivo, e que depois o soltassem sem sequer explicar-lhe o porquê. Vale notar que ele só conseguiu voltar minimamente a sua vida anterior depois de compreender — não sem uma dolorosa elaboração a respeito do que sofrera — todo o absurdo e toda a perversidade perpetrada por aquela ditadura. Espero que muitos dos prisioneiros em Guantánamo tenham a sorte de obter um atendimento psicoterápico semelhante ao do Arturo, o cidadão apolítico de que acabei de falar, torturado como se subversivo fosse. Isso quando (ou se) saírem de lá.















on Jul 15th, 2008 at 4:48 pm
Ricardo,
Tá com muito trabalho ou tá com medo do Azeredo? Traduza o capitulo e transcreva aqui, oras
Obrigado,
Comentarista Folgado
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on Jul 15th, 2008 at 7:26 pm
Ricardo,
Quando li seu post, extremamente bem escrito, como sempre, imediatamente me lembrei de um livro sobre as ditaduras do Brasil e Uruguai, escrito por um jornalista americano - Lawrence Weschler, se não me falha a memória, chamado ” Um Milagre, um universo”. (Fazer aniversário só deixa a nu que estamos mais velhos e que a máquina começa a falhar, arggh!).
Mas voltando ao post, no livro, que achei um tanto baboso na parte dedicada ao Brasil, pela visão de um estrangeiro, claro, não pude deixar de ficar impressionada com os relatos sobre o Uruguai. Lá, segundo ele, foram presas milhares de pessoas, para compensar o pequeno número de mortos, como aqui.
Só que, diferente do que acontecia aqui, foram recrutados psicólogos e psiquiatras para ajudar nos interrogatórios e, mais tarde, quebrar o moral dos presos. Raramente se usou violência física e nem precisava.
Lembro, entre vários casos que me impressionaram, qundo prenderam um pianista de fama internacional. A rainha da Inglaterra mandou a ele um piano de cauda.
Sabe o que fizeram os torturadores? Deixaram chegar o teclado - só o teclado.
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on Jul 15th, 2008 at 8:39 pm
Aliás, esse livro eu imagino que você gostaria de ler. Comprei, anos atrás, numa espécie de “ponta de estoque de livros”, na Augusta, onde se podia conseguir preciosidades, entre uma ou outra curiosidade,por 8, 10 reais. Uma dilíça!
Infelizmente, ontem, descobri que a loja que havia lá fechou. Antigamente havia outras. Só espero que não tenham desaparecido, pô! :((
E pra terminar, fui ver um filme turco, dos mais sensíveis, chamado “O Outro Lado”. Pena ver que a Hannah Schigulla, que me acostumei a pensar como “Lili Marlene”, tenha envelhecido tão mal.
E pano rápido!
P.S. Também AMO Ne me quitte pas. Pô!
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on Jul 15th, 2008 at 11:04 pm
Alba, sempre carinhosa em seus comentários! E desconheço o livro, mas descobri outro, quando buscava a imagem da capa deste livro do post (não encontrei, tive que escanear o meu). Chama-se “Efectos Psicológicos y Psicosociales de la Represión Política y la Impunidad: De la dictadura a la actualidad”, da Ediciones Madres de Plaza de Mayo. Aliás, tem uma seleção pra lá de interessante por lá, talvez te interesse. O link:
http://www.madres.org/editorial/colecciones/archi/archi.asp
Beijos
P.S. Estou curioso em relação a esse filme com a Hannah Schigulla, que seguirá minha musa, mas só em filmes dos anos 70!
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on Jul 15th, 2008 at 11:05 pm
André, um dia faço a tradução. Mas te adianto que colocar aqui no blog será enfadonho.
Abraços, esperando a sua resposta ao meu e-mail.
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