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Dúvidas

Meu vizinho Catatau publicou ontem uma resenha sobre o novo livro de Maurizio Lazzarato intitulado Intermittents et precaires (Temporários e precários), livro esse que trata de um tema que me é caro: o trabalho. O que me interessa aqui, porém, é pegar a rebarba da conversa iniciada por lá. Explico: na resenha do tal livro fala-se de uma pesquisa sobre o trabalho temporário (e precário) da classe artística e dos demais profissionais do espetáculo na França, destacando

(…) como a produção dos espetáculos, de documentários, etc., obedece cada vez mais a uma lógica de rentabilidade (…).
Alguns – diretores, mas também companhias de teatro que trabalham em coletividades locais – reconhecem trabalhar ’sob encomenda’. Como se eles respondessem à demanda de um cliente, o que obriga a revisar a noção de criação. A redução dos orçamentos e dos tempos de produção impõe às companhias a reorganização do trabalho em torno dos postos julgados indispensáveis. O artístico perde terreno diante da comunicação, em que a difusão dos espetáculos se torna crucial, num contexto muito competitivo… (Grifos meus)

Aliás, antes mesmo de apresentar a resenha, Catatau comenta algo que me chamou a atenção: que no contexto da precarização do trabalho, o discurso e o ato criativo não seriam mais (…) discurso por excelência, nem ato criativo por excelência. Apenas afloram enquanto tais por certos jogos de conveniências, exteriores à criação e ao discurso.” E aqui encontrei o meu gancho para fazer uma digressão sobre a própria noção de criação.

Tenho uma forte inquietação sobre o que hoje em dia poderíamos de fato chamar de “criação”. Seja por conta das exigências produzidas pela tal “lógica da rentabilidade” — onde o conteúdo, a obra e assemelhados se mostram quase secundários em relação às estratégias de marketing para melhor vendê-los —, seja pela precariedade do trabalho — obrigando(…) a revisar organizar a noção de criação” como grifei anteriormente —, seja por outros aspectos que estão fora da referida resenha. Um deles se veria pelo seu negativo, isto é, pela evidência de que há muito não encontramos movimentos realmente novos nas artes, ou mesmo o surgimento de grandes sistemas teóricos nas ciências. Pergunto a vocês, sem receio de cometer injustiças: quem foi o último grande filósofo, psicólogo, cientista ou artista criador de algo deveras revolucionário? Acrescento: será possível que algo assim volte a acontecer? Ah, e um adendo: não tenho a ingênua crença de que algo original prescinda dos conhecimentos anteriores, das teorias, sistemas e obras dos que nos antecederam, ouquêi? Dito isto, e para tornar o cerne da minha inquietação um pouco mais claro, afirmo que o que vejo hoje em dia são constantes variações, porém ínfimas, sobre os mesmos temas, embora divulgadas por um forte aparato midiático-mercadológico como se originais e revolucionárias fossem…

[O que me faz lembrar de algumas falas esparsas ouvidas com enfadonha freqüência, seja o discurso do atual governo cheio de "nunca antes neste país", ou os comentaristas esportivos com seus "nunca se viu na história do futebol (ou da fórmula 1, do ping-pong, da peteca etc.)", tão desconectados da história, diga-se de passagem...]

Reconheço: sei que há muita gente escrevendo e pensando sobre o que acabei de dizer, não sou mesmo nem um pouco original em relação ao tema. Mas isso não me importa muito, já que o meu objetivo aqui não é mesmo inovar, apenas compartilhar com os que passam por aqui essas minhas inquietações e observações. E na mesma linha, sobreveio a lembrança o título de um livro do Harold Bloom, “A Angústia da Influência” — e que por sinal não li, aviso logo —, mostrando

(…) os poetas modernos como personagens retardatárias de uma história cuja riqueza está em suas origens. Eles viveriam uma eterna, trágica e inútil luta para se situarem em relação a Shakespeare, Dante, John Milton e outros gênios do passado. Essa tese impressionou até mesmo muitos dos que se preocupam com a ciência, como o americano John Horgan, que no controverso livro “O Fim da Ciência” (1996) mostra os cientistas atuais sob a angústia da pesadíssima influência das leis de Newton, da Teoria da Evolução de Darwin e da Relatividade de Einstein. (…) (resenha de Maurício Tuffani)

Sabem o que considero curioso? Essa espécie de cinismo coletivo, quiçá amoralidade, caracterizados por uma pseudo-originalidade — visto que estaria apenas na roupagem, na forma como é apresentada. Um “copiar e colar” descarado, sem citar as fontes, assim como as “repaginações”, “releituras”, “remix” e “re-sei-lá-mais-o-que” que parecem ser a regra, mas quase sempre apresentados como algo essencialmente novo, que é o que entendo como pura má-fé. E o que dizer da popularização e do acesso às ferramentas tecnológicas que auxiliam tudo isso? Nem estranho o fato de que na música, por exemplo, as estrelas da vez sejam os DJ’s… (Vida longa aos DJ’s, que tanto têm divertido a galera, combinado? Mas que tal uma valorização maior daqueles que produzem o conteúdo remixado pelos DJ’s?).

Tudo isso para falar sobre como considero difícil falarmos em criação na atualidade. Não por falta de gente criativa, que é claro que segue existindo, mas pela combinação entre a universalização de informações (ou influências), a disponibilidade de ferramentas para a manipulação dessas mesmas informações, uma certa lógica instrumental (cf. Jürgen Habermas) e a tal lógica da rentabilidade, entre outras variáveis.

São novos tempos, sei disso, mas gostaria de pelo menos ter notícias da tal angústia da influência de que o Bloom falou em 1973. Na atualidade, ouço pouco sobre angústias do gênero, mas vejo como muitos apelam para discursos sobre a “criação coletiva” a pretexto da simples apropriação do suor alheio, e ainda por cima auferindo lucros… Não que eu desacredite da honesta prática da criação coletiva, do conhecimento em rede e quetais. Pelo contrário, sou um entusiasta do assunto, que vejo como um diferencial da contemporaneidade. Não fosse assim, sequer colaria um selo Creative Commons neste meu tosco blog, que em relação ao tema não pretende mais do que lançar pontes na direção de outros blogueiros, e com o propósito central de dialogar, sempre. Ao mesmo tempo, sei que o meu discurso
corre o risco de ser interpretado como tendo algum traço da velha discussão sobre a prevalência da arte erudita sobre a arte popular, por exemplo, por mais que eu passe bem longe desse assunto. Mas não nego, por outro lado, o meu repúdio ao anti-intelectualismo vigente, que ainda por cima vejo aparentado ao (e bem nutrido pelo) cenário que descrevi no parágrafo anterior.

Enfim, um longo e pouco original rascunho sobre as minhas dúvidas a respeito da possibilidade de efetiva criação nos tempos atuais.

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