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“Quando eu morrer quero ir de fralda de camisa, defunto pobre de luxo não precisa”

“… A ‘humanização’ da morte – a idéia de que o doente vai morrer em casa, cercado da família e dos amigos – depende de uma mudança cultural profunda, que ainda não aconteceu. A morte como mais uma etapa da vida, como é tratada pelas equipes de cuidados paliativos, está longe de ser aceita culturalmente por gente que foi criada com medo da morte, tentando manter uma distância segura em relação aos mortos, como se a proximidade fosse uma ameaça, uma constatação inevitável da nossa finitude.”

(Carla Rodrigues, “Sobre as mudanças na morte contemporânea”, texto publicado no falecido NoMínimo)

O que me atrevo a dizer sobre o assunto é que os próprios avanços tecnológicos, em particular na área da saúde, aumentaram tremendamente a expectativa de vida do homem, o que em princípio é bom. Porém, um dos “efeitos colaterais” de tanta tecnologia é, por incrível que pareça, o paulatino “desconhecimento de si”, algo de que não me canso de reclamar. Temos “especialistas garantidos” para nos falar sobre absolutamente tudo a nosso respeito, seja na figura dos médicos, dos counselors de áreas diversas ou dos “personal sei-lá-o-que”. E mais do que aprender sobre nós mesmos, em muitos momentos acabamos reféns, fragilizados pelo que seria “a imensidão da nossa ignorância”, que só com o “auxílio luxuoso” (e de preço nem sempre módico) dos tais “especialistas garantidos” conseguiríamos aplacar. Por outro lado, com a idéia de uma família há tempos entendida como “família nuclear”, com poucos membros, muitas das tarefas que antes podiam ser distribuídas entre mais gente, agora precisam ficar a cargo de uns poucos: o cuidado com as crianças, o acompanhamento de incapacitados (físicos e/ou mentais), e também dos moribundos, foco de um antigo texto da jornalista Carla Rodrigues do qual destaquei o trecho aí de cima. Quero dizer com isso que “antes era bom e hoje não é”? Claro que não! Seria leviano fazer uma simplificação dessas. (Jamais trocaria os procedimentos médicos contemporâneos por “sangrias”, “emplastros” e “orações”, enquanto urro de dor por conta de algum tipo de câncer, por exemplo.) Só penso no tempo empregado nos cuidados com pessoas totalmente dependentes, inclusive no “tempo afetivo“, isto é, o quanto cada pessoa consegue dedicar ao adoecer, às vezes até à morte, de um ente querido. E nesse sentido, o peso sobre a tal família nuclear tornou-se imenso, família essa que também precisa manter-se trabalhando, até mesmo para cobrir os gastos que as situações anteriormente descritas exigem. Por último, na toada das transformações sociais, a própria morte vem sendo tratada por muitos como uma doença e não como algo inerente à vida. Sendo assim, cada vez sabemos menos sobre os processos que envolvem a morte — no sentido de “termos contato, proximidade, experiência, convívio”, e não no de “termos informações sobre” —, já que ela é encarada (também) cada vez menos como um processo inerente à vida, fazendo com que permaneçamos sempre distantes dela — exceto em situações consideradas excepcionais e “não naturais”, tais como acidentes, assassinatos etc. —, e, com isso, nos tornemos mais e mais incompetentes para lidar com a elaboração do luto, a assimilação das perdas e a superação das dores, processos fundamentais para seguir adiante com a vida.

P.S. Sobre o título do post, trata-se das primeiras linhas do samba “Nego Véio Quando Morre“, do grupo Os Originais do Samba, do qual o saudoso Mussum, do finado Os Trapalhões, fazia parte.

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0 Comments on ““Quando eu morrer quero ir de fralda de camisa, defunto pobre de luxo não precisa””

  1. #1 Monsores, André
    on Sep 1st, 2008 at 5:34 pm

    Só você pra arrancar alguma coisa que presta saída dos dedos da Carla Rodrigues.

    Um abraço e volto a escrever em breve! Obrigado por cobrar :)

    E depois venho comentar melhor seu post.

    [Responder]

  2. #2 Ricardo C.
    on Sep 2nd, 2008 at 9:23 am

    Que maldade, André! Eu gosto da Carla, tem um lado acadêmico e uma série de opiniões sobre aspectos culturais com as quais concordo. Talvez às vezes seja séria demais para um blog, não sei, mas mesmo assim eu gosto. E acho que o Josef Mario pega demais no pé dela!

    [Responder]

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