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Reflexão de segunda*

No post retrasado, aquele onde falei dos motivos para não publicar um livro, encontra-se o liame para um (ótimo) texto onde o escritor Sérgio Sant’Anna discorre sobre o ofício de escrever. Ainda que ele se atenha aos candidatos a escritores, sua descrição vai muito além daqueles, fato que muito me chamou a atenção (e de que falarei daqui a pouco). Segue um trecho (e o que mais me interessa pus em negrito):

Começa (…) aí uma série de infortúnios para o sujeito. O primeiro deles seria uma perda imediata da capacidade de viver espontaneamente. Tomem-se alguns exemplos simples como os atos (ou não-atos) de assistir ao anoitecer ou ver e ouvir a chuva. Para qualquer ser humano dotado de sensibilidade, isso pode ser oportunidade para a contemplação, a meditação desinteressada e até a integração com algo mais vasto. Para o escritor, não; para ele, toda vivência, inclusive a convivência com o semelhante, é encarada de forma utilitária, material, passível de transformação, ainda que em frases do tipo: “ Os pneus chiavam no asfalto e as poças d’água refletiam os letreiros luminosos”. Quando se trata da convivência no amor, o risco de perda existencial é ainda maior. Norman Mailer escreveu um conto sobre isso: O caderno de notas. É sobre um jovem escritor e sua namorada. Vale a pena transcrever um pedaço.

“Há uma coisa que eu vou dizer a você”, ela continuou amargamente. “Você magoa os outros mais do que a pessoa mais cruel do mundo faria. E por quê? Vou lhe dizer por quê. É porque você nunca sente nada e faz os outros acreditarem que sente”.Ela percebeu que ele não estava escutando e perguntou, exasperada:

“Em que você está pensando agora?”“Em nada. Estou ouvindo você e gostaria que não estivesse tão zangada.”

Na verdade, ele estava bastante inquieto. Acabara de ter uma idéia para pôr no caderno de notas e isso o deixava ansioso, pensar que se não tirasse o caderno do bolso para anotar o pensamento, poderia esquecê-lo.

O escritor acaba conseguindo fazer a anotação, que é a seguinte:

Crise emocional agravada pelo caderno de notas. Jovem escritor, namorada. Escritor acusado de ser observador, não participante, da vida. Tem idéia que precisa anotar no caderno. Faz isso e a discussão piora. Garota rompe a relação por causa disso.

Certo, é mesmo arriscado grifar uma frase que contenha a expressão “viver espontaneamente”, justo por ser difícil definir que raio de espontaneidade é essa. Mas se a utilizarmos no sentido de alguém experimentar aquilo que está aí, da forma mais direta possível, e só depois derivar seja lá o que for dessa experiência, dá para entender a distinção que o Sérgio Sant’Anna fez, não? Aliás, o trecho do conto de Norman Mailer é uma ótima sacada, reforça bem o primeiro argumento.

Por outro lado, diria que a última frase que grifei — “Quando se trata da convivência no amor, o risco de perda existencial é ainda maior” — pode muito bem ser estendida às relações fraternas. Mas atenção, é preciso parcimônia a respeito do que acabei de dizer, e vou logo justificando. É que há aspectos utilitários em qualquer relação, sem que isso implique em algum crime. O problema não reside na existência dessa “dimensão instrumental” nas relações interpessoais, mas sim quando em toda e qualquer relação, com especial atenção àquelas ditas “amorosas”, o que prevalece é a face utilitária, com o outro a meu serviço. Aí está o nó górdio! Curioso é que enquanto alguns torcem o nariz para esse tipo de raciocínio — atribuindo-lhe um viés moralista —, não posso deixar de ressaltar a quantidade de gente recorrendo a livros de auto-ajuda, revistas onde abundam “receituários amorosos e sexuais”, programas de tevê com “debates” de gosto duvidoso e até a consultórios “psis”, com quase todos reclamando dos constantes desencontros, de que só tem “homem-galinha-que-foge-de-compromisso” ou “mulher-interesseira”…

Bem, confesso a preguiça de aprofundar esse raciocínio. Deveria recorrer a autores de peso, nacionais e estrangeiros, para sustentar o que digo. Em vez disso, escolho seguir nessa rala avaliação pessoal e informal do cenário, sem a menor pretensão de transformá-la em teoria de qualquer espécie, e recorro a velhos exemplos e posts para reforçar essas minhas observações. E como não me lembro se no passado escrevi sobre as perguntas que se seguem — procurei e não encontrei —, pergunto agora, a título de provocação:

Andando pela rua, uma pessoa interessante — isto é, que te atrai de alguma maneira (positiva) — vem vindo em sua direção. Assim que ela passa e (supondo que) viras a cabeça para trás, você:

1) olha para ela?; ou

2) quer ver se ela está olhando para você?

Não se finja de morto, dizendo que não é contigo, porque esse sorriso no canto da boca te entregou direitinho… Agora falando sério: cabe, vez ou outra, perguntar-nos: na maioria das vezes, qual o papel que o outro costuma representar para nós? Mais uma: cotidianamente, em que proporção permanecemos em torno do nosso próprio umbigo? (Já indaguei sobre algo parecido em outra ocasião, diga-se de passagem.)

Termino dizendo que todas estas perguntas dirigem-se não só aos que chegaram a este ponto do post, mas também a mim mesmo. Ou pensavam que me considero acima de qualquer suspeita e imune a essas questões? Ora, e eu sou lá doido de achar algo assim?!?

P.S. Lembrei de outro post que esbarra nessas questões: Somos todos japoneses. O título é esquisito, o texto não muito.

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0 Comments on “Reflexão de segunda*”

  1. #1 Darwinista
    on Sep 29th, 2008 at 6:03 pm

    Respondo sem titubear: olho para ela. Se ela se virar também, ganho o dia. Se não, ganho um belo retroflashback.

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  2. #2 Gwyn
    on Sep 30th, 2008 at 12:01 am

    Posso colocar uma outra opcao?

    3)No momento que vejo essa pessoa interessante olho diretamente no olho, abro um sorriso com os olhos, boca e dentes…. continuo olhando nos olhos mas devagazinho os olhos comecam a envergonhar-se…e sorrindo mantenho o olhar. Nao e preciso esperar ele passar….

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  3. #3 Darwinista
    on Sep 30th, 2008 at 7:32 am

    Gwyn, opção de arrasar corações, essa sua!

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  4. #4 Ricardo C.
    on Sep 30th, 2008 at 10:35 am

    Gwyn e Darwinista, por mais diferentes que pareçam as suas respostas, elas vão um pouco mais no sentido do “olhar para ver o outro”, do que do “olhar para ver se o outro me olha”. Este último é o que considero excessivo nos dias de hoje!

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  5. #5 Guilevy
    on Oct 1st, 2008 at 12:39 pm

    Supondo que não seja aquela pessoa que cruza com você todo santo dia por motivos vários, ou seja, partindo do pressuposto que é um encontro fortuito, aqui vai sem titubear também:
    homens opção 1, mulheres opção 2.

    Quanto à reflexão do post em si, acredito que são duas coisas diferentes aqui- uma o ente profissional, outra o ente ontológico.
    No texto do Sant’Anna, concordo que as vezes nos surpreendemos, fora do ambiente de trabalho, com insigths sobre o ofício que estamos realizando, mas apenas as vezes. Mais que isso loucura. Pode ser loucura da boa se for por curto tempo, num mergulho produtivo, mas que é loucura é.
    O utilitarismo das relações é outra coisa, e nisto eu não vou dar pitaco não, Ricardo. Fica procê.

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  6. #6 Ricardo C.
    on Oct 1st, 2008 at 1:24 pm

    Guilevy, acredito que muitos homens e mulheres se comportarão desse jeito, mas cada vez mais vejo gente se comportando da 2a. forma, onde “só me interesso pelo outro na medida em que ele me serve, me atende em algo, independente de já conhecê-lo há tempos”. Isso é complicado, meu caro, porque no fim quase todos perdem…
    Sobre o profissional de que vc fala, me lembrei de uma entrevista no Jô, anos atrás. Era um casal que fazia shows de sexo explícito em boates do Rio de Janeiro. Lá pelas tantas, o Jô pergunta como andava a vida sexual do casal em casa, longe do trabalho. O sujeito respondeu que se tocou do quanto era complicado ao flagrar-se transando com a mulher apenas em posições que favorecessem “o olhar da platéia”. Ou seja, seguiam trabalhando…

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  7. #7 Guilevy
    on Oct 1st, 2008 at 2:17 pm

    Bem, Ricardo, quando o casal trabalha junto, seja lá no que for, acho que as coisas se confundem sim, mas é uma pequena parcela da população.
    Agora, homens e mulheres se comportam de maneiras diferentes sim, e para o bem da humanidade, viva as diferenças!
    Aqui não vai maxismo, nem antifeminismo, nem coisa que o valha, mas é sempre ela quem se aninha em meus braços e não o contrário, e qual o problema em ser assim?
    Se homens e mulheres se comportassem da mesma maneira, falassem via de regra sobre os mesmos assuntos, olhassem-se e vissem-se da mesma forma, nosso mundo seria um pé no saco, né não?

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  8. #8 Ricardo C.
    on Oct 1st, 2008 at 2:32 pm

    Guilherme, claro que aprecio as diferenças, mas o ponto que discuto é sobretudo o que tentei apresentar com o exemplo metido a engraçadinho. É a auto-referência excessiva, o umbiguismo sem fim. É o encontro onde o outro serve sobretudo para que eu brilhe, para enaltecer o meu ego. E como o outro quer algo parecido, o resultado é um “não-encontro”… O caso apresentado pelo Sergio Sant’Anna — o conto do Norman Mailer — não diz respeito apenas ao escritor-personagem, esse é o meu ponto. Nesse sentido, as diferenças entre homens e mulheres não são a tônica, já que ambos andam demais em torno dos próprios umbigos, embora cada um a seu modo.

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