Quinta-feira, 23 de outubro, por volta do meio-dia. Jair e Célia à mesa, onze meses depois. Dona Semírames na cozinha, passando um café.
— Célia, precisamos conversar.
— Que foi, Jair?
— Primeiro, quero te dizer que é sério. Muito. Segundo, que você vai ter que ser forte. Muito. Terceiro, que com os oito telefonemas que dei agora de manhã, acho que deixei tudo ajeitado.
— Ajeitado pra quê, criatura, fala logo, que eu tô começando a ficar agoniada.
……..— Aconteceu, Célia, o destino bateu na minha porta, e na sua, por tabela. Foi de manhã, você ainda não tinha acordado quando vi o vaso tingido de vermelho. Sou mesmo filho do meu pai, venho dessa linhagem maldita que nunca vai chegar aos sessenta. Intestino, é sina. Do meu avô eu só soube, mas papai eu vi. Ele se esvaiu em sangue, Célia, três dias antes de fazer cinqüenta e dois. Vi tudo mesmo, meu amor, eu tava junto, ele gemendo baixinho, se contorcendo de dor, meu pai que nunca reclamou de nada, nem quando perdeu a loja no Plano Collor, nem quando pôs pra fora aquelas pedras dos rins, três, bem grandes. E nunca esqueci, Célia, a cara transtornada que ele fez pra mim, dizia que eu queria matá-lo, me chamando de assassino, culpa da carga de morfina no organismo que eu mesmo injetava nele, o médico me ensinou. Horrível, meu amor, horrível. Foi ali mesmo, do lado da cama do meu pai, ele encharcado de sangue e me acusando de querer sua morte, foi nesse lugar e nessa hora que mandei Deus à merda, só um Escroto podia inventar um sofrimento medonho daqueles, e ainda me fazer assistir… Sei que te contei isso tudo antes, mas a história da morfina tenho certeza que não. Mas comigo vai ser diferente, meu amor, não vou deixar você sofrer por mim, de jeito nenhum. E não ponha na cabeça que o câncer te persegue, não tem nada a ver com você, sério. Já te falei que é coisa bem mais antiga do que o que aconteceu com a sua mãe, e que o problema tá na minha família, não na sua. Falei primeiro com doutor Taub, amanhã à tarde eu me interno, aquela batelada de exames pra confirmar o caminho do fim para o qual todo Pereira Neves do sexo masculino deve marchar, de cabeça erguida. O resto também já resolvi, faz tempo que pus tudo no teu nome com usufruto pra mim, nosso advogado está pronto, só esperando o andar da carruagem. E desculpe, meu amor, desculpe te dizer isso tudo de uma vez, mas entenda que estou um pouco ansioso com a situação, além disso a gente sempre foi sincero um com o outro. Só uma coisa, uminha, que tô remoendo desde o ano passado. Aquela minha história com Carla, de que a gente foi pra cama uma vez, foi mentira. Desculpe, eu andava na merda, sei lá o que deu na minha cabeça pra inventar aquilo, mas o jeito como você reagiu, aquela raiva toda que depois virou perdão, me fez voltar a sentir um tesão danado por você. Não negue, voltar a trepar como antes nos dois meses seguintes foi a glória, vá. Mas era mentira, de verdade. Pode voltar a falar com a Carla, ela não teve culpa de nada. E pronto, falei tudo de importante, o resto é perfumaria. Fale você, meu amor, que agora é minha vez de te escutar.
……..— Dona Semírames, o café tá pronto? Ah, e a partir de amanhã de manhã, não ponha mais beterraba no suco do doutor Jair, tá?













on Oct 23rd, 2008 at 4:45 pm
Ótimo!
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on Oct 23rd, 2008 at 5:30 pm
Escrevê-lo é que foi divertido, Darw!
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on Oct 23rd, 2008 at 5:49 pm
Gostei muito também.
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on Oct 23rd, 2008 at 5:54 pm
Uma certa acidez nesse humor, reconheço…
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on Oct 23rd, 2008 at 10:28 pm
Humor ácido é o melhor.
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on Oct 24th, 2008 at 1:10 pm
ahahaha. Sensacional, cara!
Pegou o Jair pelos intestinos e deu um nó.
Ótimo final.
abç
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Ricardo C. Reply:
January 8th, 2009 at 11:03 am
Leu o anterior, Guga? Tô pensando em fazer mais um, quem sabe no ano que vem…
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on Oct 24th, 2008 at 2:35 pm
…e então Jair enfia a colherinha de café no olho esquerdo de Célia aos berros “quer me deixar louco?!?! quer me deixar louco?!?!”
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on Oct 24th, 2008 at 2:36 pm
? caí na moderação!
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Ricardo C. Reply:
January 8th, 2009 at 11:02 am
Ele é muito viadinho pra isso, Nhé, é o tipo de violência que não combina com essa histeria do personagem. Mas que a colherinha de café no olho esquerdo foi um achado, isso foi!
Quanto à moderação, só acontece na primeira vez que comenta, e se colocar 2 links no mesmo comentário. A partir de agora, escreva quando quiser que está liberado!
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on Oct 24th, 2008 at 3:53 pm
Sensacional, Ricardo.
Vejo que tem assistido a House, inclusive. (O Taub Foi uma homenagem?)
Saudade de conversar com você. Como você está?
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Ricardo C. Reply:
January 8th, 2009 at 11:05 am
House? Não perco! E o Taub não foi de caso pensado, é nome de médico mesmo, já conheci um. Mas provavelmente foi mesmo influência do House, vi o último episódio ontem.
Precisamos mesmo pôr as conversa em dia, meu caro. Por aqui tudo bem, ainda no Rio, sem previsão de sair — o que é ruim e é muito bom ao mesmo tempo!
Abração
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on Feb 11th, 2009 at 4:57 pm
[...] “primeira queda” foi esta; e a segunda, esta daqui.] Share and [...]