Segunda-feira, 27 de outubro de 2008. Aconteceu o que previa, mas não o que desejava. No Rio de Janeiro, Eduardo Paes elegeu-se prefeito, vencendo o candidato Fernado Gabeira por uma diferença de 55.225 votos — num universo de 4.579.365 eleitores. Houve 927.250 abstenções, 222.796 votos nulos e 92.154 votos em branco. Ou seja, somados, esses três tipos de eleitor alcançaram 1.242.200. Se pensarmos que o candidato eleito somou 1.696.195 votos, dá para ver que nem tudo são flores na percepção do eleitorado carioca.
Não vou fazer nenhuma análise aprofundada sobre esses dados. Há gente competente para fazê-lo, e no que se refere a reflexões políticas, não passo de um simples eleitor. Porém, como cidadão que habita o Rio de Janeiro há vinte e um anos, dou-me ao direito de fazer uma ou outra observação, ainda que a ressaca me obrigue a ser conservador em relação às mesmas.
Já li por aí que depois de um resultado tão apertado, a cidade estaria politicamente partida, e que isso traria alguma conseqüência para os rumos de sua administração. Digo eu: cidade partida por conta do resultado das eleições? Ontem, talvez. Hoje, apesar da ressaca, já não muito. Semana que vem? Nada. Partida sim, mas nos termos do jornalista Zuenir Ventura, não nos de uma suposta polarização político-ideológica a partir dos candidatos a prefeito. A mobilização de todos os que votamos no Gabeira, acima de tudo espontânea, refletindo o “não” a essa forma abjeta de se fazer política e gerenciar uma cidade como o Rio, de pouco adiantará. Por quê digo isso? Porque entendo que tratou-se de uma mobilização pontual, episódica, por mais que o sentimento de desagrado em relação ao horror que a cidade vem vivendo nas últimas décadas siga intenso.
E agora? Pois digo que seguiremos queixando-nos cá na esfera virtual, e cada um continuará no caminho que já trilhava — engajado ou não em práticas em prol da sociedade —, mas lamento dizer que não creio que ficará qualquer tipo de lição, qualquer nova mobilização… Desde o início do processo de redemocratização do país, aqui no Rio de Janeiro já abraçamos a Lagoa, nos vestimos de preto num domingo de sol como reação espontânea ao chamamento do Collor para que vestíssemos verde e amarelo — algo que depois virou o movimento organizado que pôs o próprio Collor para fora —, já fizemos panelaços, buzinaços… mas a cidade, maltratada, não melhorou. A câmara dos vereadores segue sendo em grande parte a mesma pocilga, a dos deputados estaduais idem, e os partidos de esquerda, no Rio, mesmo dizendo-se “progressistas”, seguem sem entender nada da cidade, continuando pequenos, mesquinhos, clientelistas e defensores de práticas corporativas. A máquina governamental seguirá ocupada com a prática de alimentar a si mesma, de sugar verbas bilionárias para a interminável despoluição da baía de Guanabara, de continuar sua relação subserviente com às empresas de ônibus, o carioca seguirá jogando lixo nas ruas, estacionando em fila dupla, tripla, simpático porém cínico.
A ressaca, nesta segunda-feira abafada e nublada, me fez soar desencantado. Mas, de fato, reconheço é estar cansado de tanto enxugar gelo.
Atualização:
1) Sempre votei em partidos de esquerda.
2) Mesmo acusando-os de não entender o Rio, não os responsabilizo pela derrota do Gabeira. Foi uma soma de fatores, e a esquerda teve participação minoritária — embora não inexpressiva — no resultado das eleições.
3) Se o Eduardo Paes vendeu uma imagem de conhecedor da cidade e dos aspectos técnicos que envolvem sua administração, temo que o político Eduardo Paes não esteja tão bem na foto e seja facilmente engolido pelos inúmeros apoios que recebeu.













on Oct 28th, 2008 at 12:03 pm
Ricardo,
Concordo com suas palavras que, aliás, têm a mesma tonalidade das minhas nos comentários que escrevi, ontem e hoje, no blog do PD.
Você, como sempre, está muito acima da vulgaridade que teima em se reproduzir em outros blogs e análises.
Saudações.
[Responder]
on Oct 29th, 2008 at 10:55 am
NSCA, palavras como as tuas têm peso, muito peso. Você é ótimo para debater, porque costuma fazer pensar. Além do mais, há várias áreas comuns por onde passeamos, e mesmo quando não concordamos — caso do aquecimento global, por exemplo — é difícil não ponderar sobre os teus argumentos!
Apareça e deixe algumas palavras sempre que puder!
[Responder]
on Oct 29th, 2008 at 11:53 am
Cidade Ida, pois part já passaram a mão
Ótimo texto!
abç
[Responder]
on Oct 30th, 2008 at 8:19 am
Obrigado pela deferência, Guga!
[Responder]