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Eu opino, tu opinas, ele opina

Há (mais) uma polêmica acontecendo por aí. Trata-se de um texto (agora) ficcional do Henrique Goldman, colunista da Revista Trip, intitulado “Carta aberta para Luisa”. Diz a revista, logo abaixo desse título, que na carta

Nosso colunista pede desculpas públicas à empregada da família com quem transou, contra a vontade dela, quando tinha 14 anos.

Em outras palavras, autor e revista sugerem tratar-se de uma “experiência real”, e não de um exercício de ficção, como alegaram depois da publicação — e por “depois” leia-se: após uma enxurrada de reações iradas, vindas de todos os lados…

Bom, fui mais um a juntar-me ao coro dos descontentes. E não me espantará receber como crítica a pecha de ser mais um desses chatos defensores do “politicamente correto” que andam grassando por aí. (Espero que não, pois seria uma leitura muito estreita sobre tudo o que acredito a respeito da correção política.)

Mas não é sobre o meu descontentamento em relação ao conteúdo do texto — que aborda o tema da violência sexual — que quero tratar. Não que o tema seja menor, muito pelo contrário. Mas ele já é objeto de (bom) debate em outros cantos. A minha observação, mais uma vez, diz respeito ao hábito recorrente de se imputar ao outro tudo aquilo que desagrada (e não aceitamos) em nós mesmos — algo que a psicanálise aborda com propriedade, diga-se de passagem, com um dos termos para tal conhecido como projeção. Assim sendo, o que mais me chamou a atenção nesse imbróglio é que, no caso do “Carta aberta para Luisa”, ao tratarem o texto como “relato de algo que de fato aconteceu”, autor e revista só conseguiram encerrar a partida: eles, autor e revista, seriam, sem sombra de dúvida, os “maus”, os “abusadores”, os que merecem a execração; e todos os indignados com esses atos seriam, sem contestação, os “bons”, os “justos e puros”, os desprovidos de culpa, ainda mais pelo fato de denunciar e execrar os primeiros. Ou seja, foi uma pena que o autor tenha optado por uma “solução” literária visando o estardalhaço, mas que acabou virando-se contra ele (autor). Uma pena, sim, porque ao escolher eliminar qualquer dúvida do público leitor, fechou as portas para um tipo de desconforto capaz de corroer-lhe as entranhas: o da capacidade dos humanos sermos a espécie mais escrota e bárbara habitando este planeta. Escrota e bárbara mesmo, e não apenas mais uma espécie como as outas, isto é, composta por uns poucos que “saem da curva” e “padecem de algum distúrbio” — alguma sócio ou psicopatia, por exemplo, patologias que, paradoxalmente, geram grande alívio na gente, justamente por referirem-se ao outro, não a nós…

Para contrapor o texto da polêmica, cito o meu vizinho Biajoni, que publicou um post sobre um livro do Georges Bataille, “História do Olho”, onde indaga justamente sobre o que haveria de ficção e de real naquele romance, apontando para o desconforto que essa dúvida provoca no leitor. Trata-se, por certo, de uma pergunta recorrente diante de certos (ou talvez da maioria dos bons) livros, algo como um “não, não é possível que ele tenha inventado isso!” com que tratamos de algumas peças ficcionais. E penso que o espaço para essa pergunta é fundamental. Sabe por que? Porque não são propriamente as certezas que movem a humanidade — para onde?, sei lá! —, mas sim as suas dúvidas, muitas delas sobre si mesma.

É bom que olhemos de perto, sem fugir ou virar o rosto, para o horror que encontramos no outro. Ele é feito da mesma carne, sangue e ossos que a gente. E sem um bom banho, fedemos como ele.

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0 Comments on “Eu opino, tu opinas, ele opina”

  1. #1 Biajoni
    on Oct 15th, 2008 at 12:22 pm

    borges fazia isso com o ensaio.
    duro ter que explicar a piada, né?
    :>/

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  2. #2 Ricardo C.
    on Oct 15th, 2008 at 12:30 pm

    Também acho, Biajoni. Mas se a gente pode e deve cair de pau em “leituras ao pé da letra” facilitadas pela velocidade do meio (internet), por outro há de se avaliar a qualidade do texto, não?
    E bem-vindo a estas vizinhas bandas!

    [Responder]

  3. #3 Patrícia
    on Oct 15th, 2008 at 1:27 pm

    Nossa, adorei o que escreveu! Primeira vez que entro aqui e com certeza voltarei outras mais.
    Já ficou na minha lista de favoritos.

    [Responder]

  4. #4 Ricardo C.
    on Oct 15th, 2008 at 6:17 pm

    É bom ler isso, Patrícia. Apareça, talvez encontre algumas coisas do gênero desse texto aí de cima que possam te interessar…
    Abs

    [Responder]

  5. #5 Olga
    on Oct 19th, 2008 at 1:40 pm

    Ricardo, acho o texto excelente. Ficcional ou não, é uma facada. E também a cara de uma realidade recente, que orgulhave muitos rapazes que hoje têm 45, 50 anos, que se intitulavam de TEDs - Terror das Empregadas Domésticas.
    É domínio, é machismo, é poder, é horrível. Mas antes de protestarmos, vamos botar a mão na memória e perguntar quantos TEDs conhecemos, quantos patrões continuam assediando seus subalternos. E nos indignarmos para educarmos homens de outra forma, algo que poucas pessoas fazem ainda hoje.

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  6. #6 Ricardo C.
    on Oct 20th, 2008 at 9:45 am

    Bingo!, Olga, especialmente sobre o fato ser uma realidade bastante recente. Discutia um dia desses o fato com a Sonia, nossa amiga comum, sobre “ainda outro dia” ter sido banal, cotidiano e de certa forma “aceitável” ver filhos de patrões deitando-se com empregadas. [Adendo: acho extranho o costume de se chamar estas últimas de "secretárias", sobretudo cá no Rio] Por outro lado, se esses mesmos rapazes se deitassem com a irmã de um de seus amigos era um ultraje total! Como mudam as perspectivas, não? Por outro lado, a relação “público vs. privado” não mudou muito, o que é um problema, já que quase tudo hoje em dia se torna público com uma facilidade inaudita. Isso porque sabemos muito bem que o que se costuma dizer (e/ou fazer) à boca pequena muda totalmente de figura quando exposto ao público, não é?

    Mas em relação ao texto, sigo achando que essa forma meio “revista Caras” de vendê-lo foi infeliz, essa perspectiva “mamãe, quero provocar polêmica” que depois foi modificada pelo autor e pela revista. Enfraqueceu o texto, penso eu.

    [Responder]

  7. #7 Zé Pinto
    on Oct 23rd, 2008 at 1:00 am

    Pois olha que eu também já comi uma empregada - só que a minha tinha 16 anos - e eu acho que não tenho que pedir nenhuma desculpa pra ela, pois pelo que sei, eu não forcei a barra e ela apreciou muito o trato que lhe dei. Aliás, apreciou tanto que ainda iria me dar mais uma 20 vezes antes de minha mãe descobrir e mandá-la embora do emprego! Lamento a atitude radical da minha mãe reacionária e castradora… Ainda hoje, em tempos de seca sinto muita saudade da Airiovalda, minha comidinha de adolescente…
    Zé Pinto

    [Responder]

  8. #8 Ricardo C.
    on Oct 23rd, 2008 at 8:24 am

    Zé Pinto, se vc tem entre 45 e 55 anos, beleza, dá para se enquadrar na velha categoria dos TED, “terror das empregadas domésticas”. E se quando transou com a empregada de sua casa tinha idade semelhante à dela, compreensível — embora reprovável, especialmente nos dias de hoje. E se o que escreveu é pura provocação politicamente incorreta, vá à merda. Mas não deixe de voltar — livre-se da merda antes, por favor —, porque até que um pouco do humor dito incorreto é bem-vindo por estas bandas.
    Cordiais saudações

    [Responder]

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