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Torre de Babel, uma entre tantas

Não tenho por hábito escrever sobre política partidária, do mesmo jeito que de futebol pouco falo. (Sobre religião até que já me arrisquei, não sobre instituições religiosas e sim sobre religiosidade.) De certa forma, prefiro refletir sobre o que move o homem, bem mais do que sobre as áreas por onde ele se move — o que é uma meia-verdade, já que eu tenho lá alguns assuntos que me agrada comentar, como cinema, afetividade, livros, memórias…

Apesar do que disse até aqui, hoje me flagrei falando sobre eleições e política, em particular as eleições para prefeito na cidade do Rio de Janeiro. (Nesta Ágora há um banner na coluna ao lado que fala por si, e que aponta para um post antigo, ultrapassado pela história, mas em linhas gerais ainda defensável.) Discuti em dois posts de blogueiros que respeito bastante, o Pedro Doria e o Idelber Avelar (clicando em seus nomes acabarão diretamente nos tais posts), e acredito ter defendido razoavelmente os meus pontos de vista por lá. (Ainda não tive os meus argumentos atacados, o que significa… bah!, pode não significar nada!)

Mas tenha calma, não pretendo me desdizer alongando-me aqui sobre o debate político-eleitoral em si. É que entre os meus argumentos, tentei (embora saiba que não consegui) levantar um aspecto que considero complicado em qualquer crítica, em especial na crítica ao comportamento de quem quer que seja: a tendência de concentrarmos quaisquer críticas nas figuras centrais, pouco levando em consideração o contexto, as circunstâncias e os demais personagens que a envolvem. (Não falo apenas dos argumentos ad hominem, vou um pouquinho além disso.)

(Certo, corro o risco de parecer um “relativista ortodoxo” — não resisti à piada —, daqueles onde tudo é particular, não há constantes. Não vou tão longe, creiam, ainda que admita que tendo a particularizar mais do que a generalizar.)

O que dizia? Ah, sobre a maneira como costumamos (sim, estou incluído!) criticar o que quer que o valha, a forma como raciocinamos na hora de tecer considerações sobre algo ou alguém, considerações essas que com o tempo viram “regra”, “verdade incontestável” para cada um de nós… E referia-me ao fato de que boa parte dessas considerações desconsidera (hehe!) o entorno (ou o fundo, o cenário), centrando-se na figura central, atribuindo-lhe todo o ônus (e às vezes os bônus) da crítica. Parece óbvio que seja assim, não? Pois aí está um dos pontos sobre os quais que quero refletir: a tendência de centrarmos nossas baterias sobre o que aparece sob a luz, mesmo quando aquilo que deveríamos investigar está sobretudo nas sombras…

Mas percebo que até aqui não fui muito claro — a dificuldade é minha, há certamente quem fale melhor sobre o assunto do que eu —, por isso usarei como exemplo as eleições para prefeito na cidade do Rio de Janeiro. (Péssimo isso, coisa feia, explicar por meio de exemplos em vez de usá-los somente para ilustrar a explicação…) É que li em vários blogs — e em particular nos dois que citei lá no início — críticas ao candidato Fernando Gabeira, dizendo que ele representaria “a elite reacionária e fascista”, que ele é o “candidato da direita” — e, portanto, ele é de direita —, que tem o apoio das Organizações Globo, do César Maia, do PSDB e do PPS (partidos de oposição ao Lula) etc, etc. Ou seja, essas características estariam “coladas” na pessoa do candidato — tanto quanto a imagem de “terrorista”, “maconheiro” e ainda por cima “viado”, imagem essa negativa para muitos, embora positiva para outros —, e seriam praticamente quem ele é de verdade, pois “diz-me com quem andas e te direi quem és” é o que se ouve. Nessas horas parece que o resto do mundo permanece imutável, não? Todas essas referências acima seriam perenes, constantes… Pena que para isso teríamos que desconsiderar (hehe! outra vez), nesse mesmo exemplo, que o tal do Cesar Maia, hoje visto como um horroroso conservador de direita depois de 16 anos à frente da prefeitura do Rio, foi “cria” do PDT, partido que hoje em dia é considerado como bem ruinzinho, mas que já foi um digno representante da esquerda; que o Jornal do Brasil, um belo representante dos ideais democráticos no período da ditadura militar, hoje em dia está mais à direita do que o jornal O Globo, outrora associado ao poder e à direita mais reacionária possível; que o PPS (ex PCB) e o PSDB (dissidência do PMDB) já foram considerados “de esquerda” e progressistas em outras épocas; e que o Lula, o presidente do Brasil e ex-presidente do PT, apoiou nestas eleições o Severino Cavalcanti, entre outros…

Trocando em miúdos: a vida dá voltas, voltas e mais voltas! E não só “voltas temporais”, mas “voltas geográficas” (expressões imbecis que inventei, a segunda delas para dizer que, dependendo da região, o que é conservador é progressista e o que é progressista, conservador, entre outras questões…). Mas ocorre que para não nos perdermos, nessas horas é mais fácil apontar para aquilo (ou aquele) que está sob os holofotes e ver-lhe “as marcas de espinha na face” do que olhar para as áreas sombreadas ou fora do foco. E dessa maneira, acreditamos seguir apontando as nossas bússolas para o norte, não? Mas cuidado, pode que estejamos no Triângulo das Bermudas, onde em outros tempos dizia-se que as bússolas não funcionavam a contento!

E por falar nisso, o que foi feito desse fenômeno? Ele era quase um fato incontestável e perene nos anos 70/80 do século passado. Por que será que hoje em dia quase não se ouve falar?

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