Assisti há pouco ao primeiro debate (do segundo turno) entre Fernando Gabeira e Eduardo Paes, candidatos ao cargo de prefeito do Rio de Janeiro. Ambos se mostraram bem mais cordiais — no sentido de “amistosos”, “afáveis” — do que esperava. Reputo parte do crédito ao próprio estilo com que o Gabeira se posiciona, mas acredito que boa parte se deva ao temperamento amistoso do carioca — que ainda resiste, apesar do embrutecimento cada vez maior das relações. E sobre o desempenho de ambos no debate, tive a impressão do Gabeira ter se saído um pouco melhor, embora muitas de suas respostas tenham sido genéricas demais, especialmente em relação à saúde e à cultura.
Já em relação à discussão sobre o que a esquerda deve fazer no Rio de Janeiro, creio que o apoio a Paes assumido pelo PT e pelo PSB — ainda faltam o PCdoB, de Jandira Feghali, e o PSOL, de Chico Alencar — não vai se refletir no voto do eleitor de esquerda. Acredito que este votará em peso no Gabeira (com uma parcela pequena votando nulo, e outra menor ainda votando no Paes), mantendo-se crítico em relação ao seu personalismo — que, caso eleito, ver-se-á se é mesmo do Gabeira ou se foi apenas de sua campanha —, ao vínculo de sua candidatura com o PSDB e PPS, à fragilidade do PV etc. Esse voto se dará, entre outras coisas, pela relação histórica que o candidato mostrou ter com o Rio, e talvez muito por contraste com tudo o que o outro candidato e o partido em que agora está (o PMDB de Sérgio Cabral… e Anthony Garotinho!!!) representam na história recente da cidade.
Li em algum blog que o que costuma ser dito pelas lideranças dos partidos de esquerda no Rio, pouco ou nada influi nas decisões dos seus eleitores. Serão todos estes “esquerda light”? Uns alienados? Ou será que essas perguntas é que são equivocadas? Se o lugar comum de que eleições municipais têm lógica própria, diferente das estaduais e federais, pode-se dizer que ele nunca foi tão verdadeiro quanto no caso do Rio de Janeiro. Pesco o trecho de um comentário do Pedro Doria, no mesmo post do Idelber Avelar que citei noutra ocasião:
(…) Benedita da Silva e Jorge Bittar vão lá anunciar apoio do PT ao Duda, mas o Molon desaparece. Bené e Bittar são o PT morto do Rio, Molon é o futuro do PT carioca. Fez exatamente o que tinha que fazer. Apoiar Eduardo Paes? Sumiu, cara. Carlos Lupi foi lá apoiar o Duda. Lupi, o velho e fiel jornaleiro do velho Brizola. Vc entra na sede do PDT no Rio, hoje, onde estava a foto do velho, hj está uma foto do Lupi. Quer virar o novo ícone. Vc acha que os brizolistas pensam o que disso? Perguntaram ao Chico Alencar o que ele faria. Resposta? Eduardo Paes, nunca. E mais não falou.
Penso que esse comentário é bastante preciso ao falar da posição das lideranças do PT (Bené, Bittar) em comparação com a do Molon. Ao mesmo tempo, tampouco me surpreendeu a atitude do Chico Alencar, análoga à do Molon. E seria interessante saber não propriamente o que a Jandira Feghali dirá, mas o que ela fará. Isso porque o PMDB no Rio é o próprio crime organizado, tão organizado que não sobrará espaço para o PT (do Bittar e da Bené), o PCdoB e o PSOL, caso o Paes ganhe.
Por último, entendo que há espaço para discutir um ponto importante levantado pelo próprio Idelber nesse mesmo post, que é o da “(…) despolitização e tecnificação do discurso sobre a política“. É um assunto que vem de longa data, e ocorre não apenas na esfera da política partidária, mas também na das relações de (e transformações sobre o) trabalho, da crise do sindicalismo, no suposto fim da “esquerda” e da “direita” etc. Nesse sentido, importa que se seja crítico, é claro, mas sem deixar de ser propositivo, algo que muitas vezes é deixado de lado em nome de um estilo de debate pautado por palavras de ordem e por queixas sobre o lugar da ideologia nesse imbróglio todo.
Ah, e que regra é essa que o título alude? Nenhuma escrita, mas sim algo que se pode ver nas páginas desta Ágora: a regra de não costumar tratar de política partidária.













on Oct 9th, 2008 at 7:55 pm
Cara, essa aliança do PT com Paes no Rio demonstra de forma tão escancarada que não existe mais ideologia nos partidos. Nenhuma.
Existe projetos de poder.
Ou de corrupção, talvez seja melhor dito.
[Responder]
on Oct 9th, 2008 at 7:56 pm
existem… desculpa aí.
[Responder]
on Oct 10th, 2008 at 5:52 am
Eu ia comentar o post, mas vou comentar o comentário. Pax, frase que eu ouvi de um petista orgânico (fundador e tal):
“O PT deixou de ser um partido para se tornar uma legenda”.
Triste ver a política nivelada tão por baixo assim.
Apesar do quê, a aliança do PV com o PSDB é, em termos “ideológicos”, equivalente à do PT com o PMDB.
[Responder]
on Oct 10th, 2008 at 8:56 am
Pois é, Pax e Sidney, acabou sendo muito grande o tombo nessa mudança de atitude do PT em relação ao seu histórico de paladino da moralidade. Muito maior do que a transformação do PMDB nesse polvo gigante e corrupto, ávido apenas por cargos, verbas e propina. Mas penso que a discussão sobre a conseqüente despolitização oriunda desse quadro se faz urgente, não pode simplesmente se consolidar um processo onde só o personalismo conta. É nesse tipo de vácuo que figuras como o Collor proliferam, uma espécie nefasta para a nossa imberbe democracia.
[Responder]
on Oct 10th, 2008 at 10:27 am
Sim, RC, mas o projeto de poder (royalties pagos ao Pax) do PT passava por aí. Ao nome de uma “governabilidade”, aliou-se ao que existe de mais fisiológico no país. Ninguém dá conta de fazer isso e manter o cabaço. Resultado: tudo o que a direita queria, ou seja, acabou com a máscara de bom-moço que, desde 1994, já servia mal na cara do PT.
Se até 1992 a política de alianças do PT era de um sectarismo que beirava a caricatura, a partir de 1994 as pernas se abriram e virou oba-oba. É nessa época que a gente vê a mudança de direção da direção do PT. Resolveram ganhar o poder, custasse o que custasse.
Na minha humilde opinião, custou um retrocesso de vinte anos na construção de uma democracia efetiva no país. E só vai piorando, porque as alianças eleitorais são cada vez mais confusas.
[Responder]
on Oct 11th, 2008 at 7:42 pm
Pegando os ganchos todos a gente cai nos nossos partidos. É um ponto que venho comentando aqui e acolá.
Acabaram. O Pedro Doria falou disso num post antigo de 2 de agosto que vale a pena ser lido, apesar dele não ser um cara de Política Br.
http://pedrodoria.com.br/2008/08/02/o-brasil-que-existe-o-brasil-que-poderia-existir/
Outro ponto que tenho falado é que a falência do PSDB não é boa, independente de gostarmos ou não dele. Há que ter oposição. Faz o contraponto, aponta, reclama.
Lembram do PT nos bons tempos? Era uma oposição que mobilizava o país. Hoje não há.
Pra democracia isso é um perigo.
[Responder]
on Oct 13th, 2008 at 9:52 am
Sidney e Pax, desculpem a demora em responder. E junto-me aos comentários de ambos, nessa visão sobre o quanto de mero cinismo há no jeito de se fazer política partidária por estas bandas, ainda mais depois do desencanto que as atitudes do PT no poder geraram em todos os que se digam de esquerda neste país. É por isso que sustento ser um momento de debate e de realizações que lavem a roupa suja e não apenas a coloquem debaixo do tapete. E a discussão deve tentar neutralizar essa irresistível tendência de se orbitar em torno de pessoas — com seus projetos pessoais de poder — e não de princípios. Estes últimos precisam sair das mãos dos marqueteiros e voltar para as mãos da população, com os políticos e os intelectuais nela incluídos.
[Responder]
on Oct 13th, 2008 at 12:53 pm
Fala Cabra!
Embora eu esteja muito contente de ver as perspectivas reais de ter Gabeira na prefeitura (sempre fui com a cara dele, desde 88, não sei por quê), fico um pouco preocupado com o que vai acontecer com a coalizão PV X PSDB no poder. Será que os tucanos não vão minar o governo, deixando a cidade ingovernável? E seu parente, como vai ficar sua fúria nessa história?
[Responder]
on Oct 13th, 2008 at 8:31 pm
A preocupação é legítima, Diego, ainda que tanto o PV quanto o PSDB tenham, no Rio de Janeiro, características próprias, um pouco diferentes do que ocorre no resto do país — ou pelo menos de São Paulo. Quanto ao cretino que vc insiste em dizer que é meu parente — cuidado, daqui a pouco vc vira persona non grata por aqui, hehehe! —, é claro que ele prefere o Paes, no mínimo por diminuir (em tese) a influência dos Garotinho no PMDB e aumentar a sua própria — acho que ele sonha ter a imagem de um Aécio junto ao eleitorado e à mídia em geral. Mas se o Gabeira ganhar (tomara!), não haverá muita dificuldade na relação entre ambos. Acredito que no fundo o governador-que-não-é-meu-parente gosta do Gabeira, como boa parte da classe-média carioca.
[Responder]
on Oct 14th, 2008 at 7:03 pm
Como resultado das alianças outrora impensáveis que foram feitas (isso a partir da PSDB/PFL, em 1994), a campanha eleitoral desse ano é um verdadeiro vale-tudo. Faz lembrar a máxima malufista: “a única coisa que não se deve fazer numa eleição é perdê-la”. O que esperar do próximo pleito?
Nesse, Marta Suplicy anda perguntando ao paulistano se ele conhece a vida pessoal de Kassab, se ele é casado e/ou tem filhos. Aqui em Salvador, a equipe de Wálter Pinheiro, do PT, armou uma montagem de vídeo que faz Lula chamar o candidato de “meu filho”.
Quanto ao Gabeira, no Rio eu votaria nele, claro, com parcimônia nas exigências. Sei que antes de aplicar o “choque de gestão”, ele é que vai tomar um choque de realidade. Não vai ser brincadeira ter que negociar com gente ligada às milícias, ao tráfico de drogas, à polícia que mais mata no mundo, especulação imobiliária, ou seja, tanta coisa que ajudou a transformar nossas grandes capitais em algo que mete medo nos munícipes.
Um abraço.
[Responder]
on Oct 14th, 2008 at 7:32 pm
É, Anrafel, a máxima malufista anda mesmo fazendo escola, quem diria.
Quanto ao que vc falou sobre o Gabeira, subscrevo. Torço por ele, é mais do que sabido por quem me conhece. Mas já me preparo para uma prefeitura apenas regular no que diz respeito ao discurso do candidato, justamente por toda essa maranha que vc descreveu, meu caro…
[Responder]