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Blá blá blá

Chove, há dias. E em Santa Catarina, de um jeito calamitoso. No meio disso, uma simplória divagação me assaltou, sem mais nem menos. Ocorreu-me o quanto seria difícil abraçar, por exemplo, as profissões de escritor, dramaturgo ou roteirista — de cinema e/ou TV, pouco importa para o raciocínio que me trouxe aqui —, caso me entediasse com o que faço e resolvesse dar uma guinada na vida, mudando de profissão. E a mudança seria penosa e com enorme risco de fracasso não apenas pelas dificuldades inerentes ao ofício. Refiro-me principalmente à bagagem que carrego nas costas e que tanto influencia o meu olhar em relação ao que leio e assisto. Explico. É que quando mergulho num romance ou num filme, tendo a sofrer um bocado com as tolices que os personagens fazem, suas escolhas fadadas ao fracasso, as armadilhas que suas próprias neuroses criam, a estupidez que os leva a afogar-se em reles poças… “Ué, Ricardo, mas não se trata justamente disso que pretendem a maioria das obras?”, dirão vocês, acrescentando: “Não é esse efeito que elas buscam e que as tornam tão boas, mesmo as mais bobas? Não é por servirem, entre outras coisas, de espelho para ressaltar o que temos de melhor e de pior, amotinar sentimentos esquecidos nos calabouços que trazemos em nós?” , e eu teria que responder que sim, vocês têm razão, e que esse é o nó górdio que me oprime.

Sem falar nas óbvias e centrais questões do talento e da dedicação necessários para tal, parece que o ofício que escolhi — psicologia clínica — por vezes se mostra como um dos maiores entraves em relação a possíveis interesses literários ou dramatúrgicos. Trabalhando cotidianamente com o sofrimento alheio, assistindo bem de perto as (e às) dores e os horrores de que somos investidos — quando não somos nós mesmos os principais investidores! —, tudo o que almejo sobre tais padecimentos é tão fortemente anti-dramatúrgico, anti-climático… Não importa que isso se alcance através do sofrimento, da descoberta de sentido para ele. No meu ramo, o resultado pretendido é a diminuição do sofrimento, a saída do círculo da neurose que o alimenta. E, como já deve ter ficado claro, histórias de gente saudável e bem resolvida não rende bons livros ou filmes, e parte do meu trabalho consiste, justamente, em tratar de “secar a fonte” dos roteiristas. O que acabei de dizer não passa de uma piada, claro, já que é evidente que se trata de enxugar gelo, uma tarefa impossível de realizar. Mas o que quero ressaltar aqui é esse “efeito colateral” do meu trabalho, e que afeta a mim, principalmente, já que contribui significativamente para me manter apenas na posição de espectador e de leitor. Que raio de escritor/dramaturgo/roteirista ou coisa parecida eu seria, se quando os dramas começassem a se desenhar em minha cabeça eu estivesse mais preocupado em desmantelá-los, em servir de catalizador para a resolução das questões dos meus personagens? Que resultado mais sem graça, não?

Claro, a “tese” que acabei de apresentar não passa de um ardil, e dos mais bestas. Serve tanto de tema para posts quanto de pretexto para seguir cometendo “literatices” descompromissadas apenas na internet, poder seguir animadamente no caminho dos não escritores, dos não cronistas e dos não ensaístas e permanecendo na categoria de blogueiro bisexto, (quase) “cometendo” “queridos diários” e evitando a todo custo vir a fazer parte da pilha de “inéditos” mandados pelo correio às editoras, aquela que fica duas semanas atravancando a passagem antes de ir para o lixo.

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0 Comments on “Blá blá blá”

  1. #1 flávia
    on Nov 28th, 2008 at 7:02 am

    bla blá, bla blá e bla blá

    (sem tempo. depois eu digo)

    [Responder]

  2. #2 gugala
    on Nov 28th, 2008 at 10:57 am

    esta “cometeção” acaba sendo muito válida exatamente por isso. Vc é o editor e só vc tem o botão da lata de lixo. The rest é blablabla. fck the rest

    [Responder]

  3. #3 Ricardo C.
    on Nov 28th, 2008 at 11:01 am

    Guga, o iconoclasta! ;-)

    [Responder]

  4. #4 aline
    on Nov 28th, 2008 at 12:17 pm

    hum. seu blog é tão bom. vc escreve tão bem. acho que qto ser um blogueiro, é uma coisa bem interessante, o que vc faz.
    quanto ao resto, a vontade de ser escritor… eu não vejo porque não. escrever. ou mandar pras editoras. mas é fácil pra mim achar fácil.
    sou sua leitora, de qq jeito.

    um abraço, ricardo.

    [Responder]

  5. #5 Ricardo C.
    on Nov 28th, 2008 at 1:49 pm

    Aline, posso te devolver boa parte das palavras, já que o teu blog é ótimo e sou seu leitor, de qq jeito! :-) No fundo o assunto é puro pretexto para um post, embora a “base” para a tal “tese” seja sincera, já que volta e meia sofro mesmo com as neuras bandeirosas dos personagens!

    Beijos!

    [Responder]

  6. #6 gugala
    on Nov 28th, 2008 at 2:00 pm

    OPS!Iconoclaustro ou iconocáustico eu ainda aceito, caro. ahahah

    [Responder]

  7. #7 flávia
    on Nov 28th, 2008 at 10:36 pm

    é uma “divagação” um tanto quanto vertiginosa, livre-associativa, não? Começamos com a chuva e terminamos no lixo…
    Fico pensando qual o “raciocínio que te trouxe aqui”? uma ficção pré-abortada sobre a chuva/enchente?
    é uma “divagação” tb um tanto diletante, não? E auto-fágica. Praticamente não concordo com nada, mas vc mesmo vai se desmontado! Ah, assim não dá para comentar!
    bj, f

    [Responder]

  8. #8 flávia
    on Nov 28th, 2008 at 10:41 pm

    Quando éramos pequenos, meu pai nos “xingava” de iconoclastas! “Flávia, tu és uma iconoclasta!”…
    Vai ver que foi por isso que fiquei assim…
    vou ensinar para ele esses neologismos do gugala!

    [Responder]

  9. #9 Ricardo C.
    on Nov 29th, 2008 at 4:08 pm

    Figuraça, você!
    Bjs

    [Responder]

  10. #10 Monsores
    on Nov 30th, 2008 at 2:43 pm

    Ricardo,

    Não sei se eu te superestimo ou se você se subestima. Acho que sua capacidade criativa, já demonstrada diversas vezes aqui no Ágora, pode deixar de lado os efeitos colaterais da sua profissão.

    Claro que eu não vejo problema algum de continuar “te lendo” somente por aqui. Mas esbanjaria orgulho em ter um livro seu autografado na minha estante para mostrar para os mais chegados e, com orgulho no peito dizer “é meu amigo, ó. É meu amigo.”

    E não venha com o papo de que “é assunto para post” porque é um assunto recorrente. Já te vi dizendo coisa parecida por aqui outras vezes.

    E sobre divagações, não é essa a especialidade do escritor?

    Keep walking.

    Grande abraço,
    André

    [Responder]

  11. #11 Ricardo C.
    on Nov 30th, 2008 at 6:43 pm

    André, só vc para levantar o astral de um blogueiro como eu!
    E já fui reler o teu Send in the clowns, que muito me agrada. O teu comentário estava preso no anti-spam por conta do link, mas já liberei.

    Grande abraço!

    [Responder]

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