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Chame o Foucault [2]

Ainda na entrevista a Foucault,

“No decorrer dos séculos que se seguiram à Antiguidade, a amizade se constituiu em uma relação social muito importante: uma relação social no interior da qual os indivíduos dispõem de uma certa liberdade, de uma certa forma de escolha (limitada, claramente), que lhes permitia também viver relações afetivas muito intensas. A amizade tinha também implicações econômicas e sociais – o indivíduo devia auxiliar seus amigos, etc. Eu penso que, no séc. XVI e no séc. XVII, viu-se desaparecer esse tipo de amizade, no meio da sociedade masculina. E a amizade começa a tornar-se outra coisa. A partir do séc. XVI, encontram-se textos que criticam explicitamente a amizade, que é considerada como algo perigoso. (…)
Enquanto a amizade representou algo importante, enquanto ela era socialmente aceita, não era observado que os homens mantivessem entre eles relações sexuais. Não se poderia simplesmente dizer que eles não as tinham, mas que elas não tinham importância. Isso não tinha nenhuma implicação social, as coisas eram culturalmente aceitas. Que eles fizessem amor ou que eles se abraçassem não tinha a menor importância. Absolutamente nenhuma. Uma vez desaparecida a amizade enquanto relação culturalmente aceita, a questão é colocada: ‘que fazem, então, dois homens juntos?’ E neste momento o problema apareceu. Em nossos dias, quando os homens fazem amor ou têm relações sexuais, isso é percebido como um problema. Estou seguro de ter razão: a desaparição da amizade enquanto relação social e o fato da homossexualidade ser declarada como problema social, político e médico fazem parte do mesmo processo.” (Grifos meus)

É uma tese ousada, penso eu. Mas, ao mesmo tempo, ela segue a “lógica das proibições”, onde aquilo que é interdito chama a atenção para algo que antes não tinha importância. E uma vez proibido… Claro, é preciso muito cuidado ao falar dessa lógica, pois nem de longe o comportamento humano, especialmente aquele em sociedade, é tão simples. Não se trata de permitir tudo, acreditando que as coisas “se acomodarão sozinhas”, e sempre da melhor maneira. Pelo contrário: é preciso discutir bastante, estabelecendo acordos sobre um conjunto considerável de formas de convívio e práticas sociais, revisando-as sempre que necessário. Ao mesmo tempo, é preciso cuidado ao usar como principal critério a simples manutenção daquilo que foi consagrado pela tradição. Ela nem sempre tem a melhor palavra, e basta para isso lembrar o caso da mutilação genital feminina (MGF), para darmos um doloroso e condenável exemplo.

Enfim, para além dessas observações que fiz sobre a entrevista do Foucault, o que penso ser mais importante é a valorização da amizade. E o sexo? Ah, sem regras definidas por lei, por favor. Cada amizade que estabeleça os seus critérios, ora bolas!

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