[Para quem não conhece, aqui vão os links para a parte 1, parte 2 e parte 3]
IV
Chega, Pedro, chega. Cansei. Não quero mais os teus silêncios, nem os meus. Fique com eles, fique com a sua autopiedade, trepe à vontade com ela, só não peça que eu assista. E ficar me olhando assim, com esse ar perdido, não vai mais fazer diferença. Criei casca, e aqui dentro você já não cabe, deixou de fazer estrago. Ah, o meu irmão vem amanhã apanhar as minhas coisas. Acho melhor você não estar em casa, porque ele anda com uma vontade louca de te dar uma surra daquelas.
Foi a última coisa que ouvi a Clara dizer, daqui a pouco faz aniversário. Nem sei se ela bateu a porta ou se quem fechou fui eu, mas as três voltas no ferrolho tenho certeza que dei. Ela disse mais, acho até que despejou tudo o que pensava de mim. Disso eu lembro bem, e olha que é raro eu lembrar desse tipo de conversa. Mas agora, começando a me adaptar ao cansaço das pernas e sabendo que não há nada a fazer a não ser andar, era hora do clichê “filminho da sua vida passando numa fração de segundo” dar o ar da graça, sorte minha que sem sinal de morte por perto. Ou seja, tudo a ver que as palavras dela anunciando o fim da festa viessem dar um alô.
Sou um típico homem. Avisei logo, antes mesmo do primeiro beijo. Ela riu. Minto, foi um sorriso, daqueles de quem entende tudo errado. Adoro esse teu jeito metido a modesto, respondeu, no intervalo entre o segundo e o terceiro beijo. Não sou modesto, Clara, vai por mim, e agora sei que ela ouviu, mas não escutou. Aliás, durante um bom tempo, coisa de um ano e pouco, ela continuou sem acreditar naquilo que eu falei. Não sei por que, as mulheres entendem tudo tão depressa, pescam as nossas rateadas sem nem precisar apelar para o olho no olho, e a Clara era das mais espertas que já conheci. Ou vai ver que sei, na verdade elas entendem direitinho e por isso mesmo guardam naquela gaveta dos projetos, ali junto dos planos de fazer com que a gente diga eu te amo mais vezes, que tope usar camisa listrada e pare de partir o cabelo de lado, do jeito que o nosso pai fazia.
Sou uma típica mulher. Ela nunca disse isso, mas devia. Transparente se necessário, dissimulada de vez em quando. E agressiva, de um jeito que só começou na geração dela, embora na cama fosse um doce. Pena que lembro pouco da nossa cama. Mentira, lembro bem, mas prefiro não tocar no assunto. Dói, quase dor de corno. E se desse para tirar esse quase, eu seria o certo da história.
A conversa começou às quatro e meia, logo que eu cheguei do trabalho. Não sei bem se foi conversa, até porque ela tinha razão naquela história dos silêncios. Pelo menos dessa vez não pareceu disposta a me ouvir, e o fiozinho de esperança, se é que ela ainda tinha algum, ficou guardado para o próximo. Pedro, você é uma farsa, foi o pontapé inicial da partida. Eu não gosto de futebol, falei para dentro. Parece que ela ouviu, ficou mordida e ganhou de lavada.
* * *
[Ainda falta muita coisa para dizer sobre a Clara e sobre essa conversa dos dois. O quê, ainda não sei direito. De cara, devo ampliar esse parágrafo da Clara "típica mulher".
E continua, hora dessas.]













on Nov 14th, 2008 at 12:31 pm
Reparei que o estilo da fala da Clara é muito parecido ao jeito do Pedro articular as palavras. Sei não, o conteúdo pode continuar, mas talvez mexa no estilo. Ou então mudo a narração, tiro da primeira pessoa e deixo como lembrança descrita pelos olhos do Pedro.
Por outro lado, os parágrafos precisam “engordar” um pouco. (Isso já está na minha cabeça.)
Confetti, Camila, Nat, Monsores, Pax, alguma sugestão?
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on Nov 14th, 2008 at 2:26 pm
Mexe não! É a sugestão que posso lhe dar.
Sério - as palavras da Clara são improváveis, mas têm tudo a ver com ela. Gostei muito. Eu empatizo com muita facilidade com alguns personagens seus - no caso, o Pedro, esse cafajeste-coitado. Beijos e, por favor, continue escrevendo! Depois conversamos mais por e-mail.
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on Nov 15th, 2008 at 12:12 pm
Ricardo,
Eu gosto do estilo. Há uma mistura de emoções muito boa. Gostaria de ouvir mais a Clara.
Estilo? Bem, meu amigo, aí é uma questão interessante e que qualquer opinião pode ser boa ou má. Quer um exemplo? Gabriel Garcia faz textos longos, parágrafos de páginas inteiras. E é ótimo. Por outro lado diálogos sempre me agradam, pontuam, como Guimarães Rosa ou Jorge Amado. Um bom meio termo é o moçambicano Mia Couto.
Como disse, todos são bons. Você tá no teu caminho. E acho bom. Bom mesmo. Haja vista a frequência que apareço. Juro que não é pelos belos brancos dos seus olhos, apesar de achá-los belos, sim.
Siga! É a melhor sugestão que posso dar.
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on Nov 15th, 2008 at 12:15 pm
Ôpa, misturei as bolas… o primeiro estilo é mais tema, mote, encaminhamento… o segundo é estilo mesmo.
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on Nov 15th, 2008 at 12:48 pm
Camila, gostei da observação sobre as “palavras improváveis” da Clara. Tb penso em manter. E aguardo o seu e-mail, viu? Beijão!
Pax, você é um leitor generoso das coisas que escrevo. Isso significa que sabe criticar com elegância, algo que aprecio deveras. E de fato pretendo escrever mais sobre a Clara. Ela merece, embora terá algo do filtro do Pedro, que entende algumas coisas sobre ela, mas em outras ele bóia completamente.
Grande abraço e ótimo fim de semana!
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on Nov 16th, 2008 at 12:40 am
Pax,
O exemplo do García Márquez é oportuno. O “O Outono do Patriarca” é todo escrito com frases quilométricas, uma delas ocupa 19 páginas, os assuntos se sucedem separados apenas por vírgulas, se bobear perde o fio da meada e tem que voltar lááááá atrás, é uma loucura total, e um estilo inconfundível…
Ricardo,
A tua narrativa deu um salto, e acho que caí do bonde: e o tio Carlos com os ossos do irmão, volta a aparecer?
Teus textos têm um bom andamento, prendem a atenção. Muito bons. Tô acompanhando…
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on Nov 16th, 2008 at 7:25 am
Fine Tail, não li Outono. Em compensação, lembrei de Um Copo de Cólera, do Raduan Nassar, que é do jeito que vc descreveu o do Gabo.
E sobre o salto: sim, o tio Carlos vai voltar. Na verdade são reminiscências do Pedro, que surgem justamente em função da caminhada doida que ele está fazendo ao lado do tio. Mas as coisas voltarão à caminhada, depois destas questões do Pedro com a Carla.
Obrigado pelos comentários.
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on Nov 16th, 2008 at 4:24 pm
Ricardo, você já visitou o FineTail? Aconselho!
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on Nov 17th, 2008 at 9:26 am
Passei lá sim, Pax, só não deixei comentários por lá. E o conselho foi super válido!
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on Nov 19th, 2008 at 10:27 am
Ricardo, demorei mas apareci.
Eu gostei da narrativa da Clara, embora o jeitão seja parecido com o do Pedro, sim.
Mas pra mim isso é óbvio porque as relações baseadas em sarcasmo, inteligência e implicâncias costumam ser explosivas. Talvez seja interessante deixar o Pedro um cínico condoído, talvez um pouco amargurado por saber que embora a atração seja gigante, é impossível que dois egos tão grandes possam co-habitar o mesmo espaço.
O Raduan coloca o homem dele como um louco, num nível tão louco, que a mulher, sóbria e responsável comete loucuras tão grandes quanto as do “seu” homem. E, claro, tudo se entende na cama, porque a cama é feita de silêncio pra esses casais, válvula de escape.
Eu não vejo o Pedro com tamanha loucura, então eu acho que não dá pra colocá-lo completamente alheio ao caos trazido pela Clara. E Clara só realmente pensou em abandoná-lo porque o Pedro, afligido por uma fragilidade qualquer, começou a ter pena de si mesmo. A Clara não é uma mulher que consiga ter um homem com pena de si mesmo, porque no fundo ela precisa que tenham pena dela, que achem que sua exuberância venha do desconforto da sua existência como uma mulher submissa…
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