CENA 1
Jantar “multinacional”, ocorrido no Rio de Janeiro. Digamos que fossem quatro casais: um de brasileiros, um de noruegueses, um de ingleses e um casal “binacional” — ele da Noruega, ela dos EUA. A conversa passeia por vários temas, concentrando-se agora nos acidentes de trânsito, especificamente sobre o inexistente respeito a quem atravessa na faixa de pedestres no Rio de Janeiro (e em tantas outras cidades brasileiras). Um dos convivas pergunta:
— Alguém tem notícias sobre pedestres atropelados ao cruzar na faixa… na Noruega?
Um dos noruegueses responde:
— Parece que há dois anos atrás, deu nos principais jornais do país. Nevava, um pedestre saiu bruscamente da calçada e começou a atravessar a rua. O carro freou, mas acabou batendo na perna do pedestre. Ele foi levado ao hospital e liberado em seguida, com a recomendação de repouso e analgésicos.
Um brasileiro comenta:
— Bom, é preciso levar em consideração que nevava…
— Mas se ele seguisse as regras de direção — interrompeu firme e educadamente uma norueguesa —, estaria transitando em velocidade adequada, suficiente para frear antes da faixa.
Todos concordam — os brasileiros algo espantados —, considerando o argumento inatacável.
Segue a conversa, o tema agora versa sobre a expansividade, o calor humano e a afetividade dos cariocas, sobretudo se comparados aos dos noruegueses. Usando novamente o trânsito para falar da frieza dos segundos, a americana**, esposa do norueguês, comenta sobre a falta de alguns gestos de cortesia ou expressões de gratidão naquele país. Exemplificou dizendo como em certa ocasião, em Oslo, parou normalmente para que alguém atravessasse na faixa de pedestres, e, ao avistar outra pedestre ainda distante da dita faixa, indicou-lhe, gentil e sorridentemente, que aguardaria que ela também atravessasse. A pedestre em questão atravessou, lentamente, e sequer esboçou um simples sorriso de agradecimento.
A norueguesa, a mesma do inatacável argumento anterior, comenta:
— De fato, os noruegueses costumamos ser tímidos e introspectivos, bem diferentes dos brasileiros, a quem muitos de nós invejamos. Já em relação a esse caso que você deu de exemplo, desculpe, mas imagine se tivéssemos que agradecer por cada comportamento condizente com as regras básicas de cidadania, especialmente aquelas definidas por lei: não faríamos outra coisa além de dizer “muito obrigado”, não?
Mesmo a contragosto, todos concordaram com a lógica do argumento, alguns invejando a existência de um país onde o habitual é que se respeite o conjunto de regras de convivência pactuado pela sociedade, e onde o desrespeito é a exceção.
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** “Americanos” é o uso corrente, na língua portuguesa, para os que nasceram nos EUA. No que me diz respeito, no máximo topo acrescentar um “norte-” antes desse “americana”, sabendo que os meus amigos mexicanos e canadenses não vão dar a menor bola para isso. Chamá-los de “estadunidenses” me parece defender uma “bandeira” com cheiro de patchouli, “odara” demais para o meu gosto. Lamento, já estou um pouco velho para recuar aos anos 60 do século passado.
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CENA 2
Ao longo da recente tragédia das chuvas em Santa Catarina, alguns canais de televisão fizeram o que sabem: noticiaram. A forma como trataram a notícia variou um pouco, mas com algo em comum: a veiculação de “dramas pessoais”, onde a cada entrevistado indagava-se sobre o que sentia, como faria dali em diante, como lidava, sobretudo afetivamente, com toda aquela tragédia. Os entrevistadores, por mais que estivessem in loco, mostravam que seu objetivo era o de aproximar da tragédia um público que, obviamente, não estava ali. A notícia é para o público, claro, é ele o destinatário, e os sofridos entrevistados são apenas o ingrediente da notícia, ponto.
“Nada de novo sob o front”, poderia ser a frase-símbolo dessa cena. Mas neste caso há uma variante. Um desses canais de televisão inicia uma campanha visando a reconstrução de moradias para os desabrigados de Santa Catarina, campanha essa que começaria por doações do próprio canal — não se sabe o montante — e prosseguiria com pedidos de doações aos telespectadores. (Mais uma vez, nada de novo.) Seus dirigentes foram “televisionados” visitando alguns locais da tragédia; entraram, de paletó (e alguns com gravata), em albergues improvisados, conversaram com gente que só não perdera a própria vida, mas em muitos casos perderam toda a família. E esses mesmos dirigentes, depois de alguns apertos de mão, alguns abraços e palavras de conforto (ditas com constrangido desconforto, por certo), afirmaram, com pompa e circunstância, que iniciavam ali um tipo de ajuda diferente, não tão pontual e episódica quanto as habituais campanhas em situações catastróficas como aquela. As lágrimas agradecidas dos entrevistados, e a emoção (contida a duras penas) de repórteres e diretores do referido canal se fizeram notar. Dali a comitiva parte para outro local e a cena se repete, com os fragilizados desabrigados narrando as suas tragédias pessoais em troca de uma suposta promessa de ajuda — embora sem indícios de qualquer espécie de “cessão de direitos de imagem” em nome dessa ajuda.
A variante em questão não muda tanto assim o resultado do espetáculo. Outros canais exploraram a seu jeito a tragédia, em nome da infirmação, é claro. Mas a tal variante explicitou que, em tempos de uma já velha e consolidada “sociedade do espetáculo”, nada “melhor” do que agradecer pelo “magnânimo favor” que alguns segmentos da sociedade fazem aos despossuídos, esses que agora também entregam a posse de suas imagens em troca de um horizonte menos tormentoso, em todos os sentidos do termo.
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EPÍLOGO
Essa segunda cena me ajudou a entender, cada vez mais, a lógica norueguesa, uma lógica que provavelmente veria algo de grotesco nesses “favores”, nessa “ajuda desinteressada” de “setores da sociedade” “comovidos” com o sofrimento de seus concidadãos.
Diante de uma situação dramática como esta, o que deveria ser entendido como uma atitude óbvia, corriqueira e obrigatória no juízo de todos, adquire status de bondade divina. Premiada com alguns pontos de audiência, faltou dizer.
P.S.1. Camila, foi só o que consegui escrever depois da nossa conversa.
P.S.2. Juliana Cunha, do ótimo blog “Já matei por menos“, escreveu um post bastante provocador sobre o tema. O título é Bondade sectária. Vale (muito) conferir.















on Dec 10th, 2008 at 3:56 pm
o blog da juliana é ótimo mesmo!
Sobre a cena um:
Se o atropelamento fosse no rio, o atropelante(bêbado) ia culpar a nevasca tb e a polícia prenderia o atropelado (de sunga) alegando trajes impróprios e incompatíveis para com a meteorologia.
abç
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on Dec 10th, 2008 at 3:59 pm
Excelente, Ricardo. Mas confesso: prefiro o termo estadounidense, e nem sei o que é patchouli.
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on Dec 10th, 2008 at 4:07 pm
Guga, como bom tricolor-recém-campeão, você não vale nada!
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on Dec 10th, 2008 at 4:14 pm
Já tinha visto o seu uso do termo, Camila, e pensando nisso, resolvi não pegar pesado…

Quanto ao patchouli, trata-se de uma fragrância bastante associada a incensos, batas indianas, comida macrobiótica, Era de Aquário e sovacos e virilhas femininos avessos a tesoura, lâminas de barbear, produtos de depilação e congêneres. Consegues ouvir ao fundo o bumbo de Mercedes Sosa?
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on Dec 10th, 2008 at 5:37 pm
Ricardo,
Concordo com a reflexão e é claro que nada vende mais do que uma tragédia num país como o Brasil. Em compensação, eu te garanto, meu caro, que se essas pessoas de fato receberem a tão esperada ajuda, não se importarão com o direito de imagem.
Deveria haver um acompanhamento jurídico, isso sim. A quem for prometido, deverá ser cumprido. Senão, com as garras da Lei.
Ainda no tema, mas num outro ângulo. Como você sabe, moro em Santa Catarina e está me dando tristeza ver a quantidade de pessoas que está lucrando com a tragédia. Gente que não perdeu nada recebendo doações. Gente faltando o trabalho. Gente inadimplente. Gente. Todos com a justificativa da desgraça para qualquer ato. Todos já absolvidos de qualquer erro porque talvez estejam dizendo a verdade.
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on Dec 10th, 2008 at 5:54 pm
Sei disso, André, o que importa é que de fato recebam ajuda. Só que não posso deixar de notar, para além desses aspectos indignos que nos entristecem, como seria bom que as coisas fossem feitas porque é o pactuado socialmente (e por extensão legalmente), em vez de serem tratadas como “gestos de bondade” de pessoas magnânimas…
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on Dec 10th, 2008 at 9:58 pm
Ano passado, durante um festival de teatro (o mais antigo do país!) que recebe grupos de todo o Brasil,
os atores de um grupo carioca e alguns dos organizadores conversavam, num final de tarde, na escadaria
de entrada do prédio que abriga o Museu e a Fundação Cultural, situado num esquina movimentada, sem
semáforo, do centro da cidade.
Em dado momento, um dos atores, que olhava calado o movimento e alheio à animada conversa, comentou:
- Impressionante!
Ao que todos olharam em volta buscando o motivo do comentário, e perguntaram:
- O que é impressionante?
- Estou há vários minutos olhando o movimento, e nunca vi nada igual nas cidades por onde andei!
- E o que você viu de diferente nesta esquina?
- Um absurdo! Os pedestres chegam na faixa, e os carros param para eles atravessarem…
Apesar de ser um procedimento comum em nossa cidade, infelizmente não é regra geral, e muitos abusos ainda são cometidos. Mas sou um otimista de carteirinha, e vejo que as coisas aos poucos estão mudando, e para melhor. Um dia, quem sabe, não sentiremos mais vergonha de nossa conduta perante cidadãos que habitualmente respeitam suas normas de convivência em sociedade… como os noruegueses, por exemplo!
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on Dec 11th, 2008 at 9:08 am
FineTail, reconheço publicamente a minha inveja — coisa feia, Ricardo! — em relação a tua cidade.
Sabe qual o meu grande receio? Que essa “defesa do que deveria ser óbvio, quase trivial” seja tomada como caretice e por isso mesmo não receber atenção…
Abraço
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on Dec 11th, 2008 at 10:05 am
Quem não leu ainda o melhor relato sobre isso, aconselho…
“O motorista brasileiro ou é um alegre louco ou um frio sádico.” (Albert Camus)
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on Dec 11th, 2008 at 10:47 am
De qual dos livros do Camus, Pax?
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on Dec 11th, 2008 at 12:15 pm
Diário de Viagem
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on Dec 12th, 2008 at 12:52 am
Ricardo,
“…atitude óbvia, corriqueira e obrigatória no juízo de todos” inexiste numa sociedade paternalista como a nossa…afinal, os “pais” perderiam seus poderes.
e atitudes de “bondade”, divina ou nao, é o que temos em excesso.
Pax, isso ele escreveu a 60 anos atras, imagina o que ele falaria se visitasse o Brasil hoje…
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