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De idades, gêneros, filmes e livros (sem falar em blogueiros)

Acabei de assistir Elegy (Fatal), de Isabel Coixet (1962), versão cinematográfica do livro “O Animal Agonizante” (“The Dying Animal”), de Philip Roth. Queria fala um pouco sobre ele, mas a garrafa de um simpático Côtes du Rhone, neste primeiro dia de 2009, cismou de embaralhar não só as minhas idéias, mas também o teclado deste notebook de onde me esforço para escrever.

[Sorvo um penúltimo gole. Queria que fosse o antepenúltimo.]

Gente mais habilidosa já escreveu sobre o filme, inclusive comparando-o ao livvro [desculpem-me pelos erros de digitaç!ao. Se eu for corrigir tudo, não termino de escrever.] Gente que, assim como eu, por sorte viu o filme antes de ler o livro; e suspeito que, graças à proximidade das nossas gerações, ele tenha sido mais benevolente com as escolhas que a diretora do filme fez em relação à obra.

[E lá se foi o último gole, droga!]

Por outro lado, li semanas atrás um post de quem fez o caminho inverso: primeiro leu o livro, para depois decepcionar-se com o filme. Uma dúvida, porém, me assalta: embora seja lugar-comum que as adaptações de livros deixem sempre a desejar, será que a questão geracional não faz diferença na hora de avaliar essa obra em particular? Indo mais longe: não apenas a idade, mas também o gênero não deveria ser levado em consideração na hora de fazer a avaliação de um livro e do filme nele inspirado?

A dúvida não é gratuita. E por dúvida, leia-se: minha dúvida. Sendo mais claro: estou na faixa dos 40, beirando a metade dela; assisti ao filme junto com a minha mulher, um ano mais nova do que eu; e, por sua vez, o autor do livro, Philip Roth, tem 75 anos, e publicou esse livro quando tinha 68. Além disso, dos livros que li dele (“A marca humana” — que também foi adaptado ao cinema, embora de forma bem precária, diga-se de passagem —, e “Fantasma sai de cena”), as agruras do envelhecimento e as relações afetivo-sexuais entre homens mais velhos e mulheres mais novas foram a tônica — algo que, não duvido, deve atravessar boa parte da obra do escritor. E na escolha dos resenhistas, um deles está na faixa dos 50, enquanto a outra (que diz ter lido o livro antes de ver o filme) tem 21. Vá, dê uma colher de chá: a lógica dos meus argumentos até que é razoável, não?

[Aliás, um adendo, na forma de uma pergunta feita ao protagonista por Consuela, interpretada por Penélope Cruz: "O livro será diferente se o lemos 10 anos depois?"]

O envelhecimento, a proximidade da morte; o sexo, que serve justamente pra driblar essa tal morte, através de suas petites morts; a masculinidade, associada à potência (sexual, inclusive), ao controle… Tudo tão Philip Roth, tão heterossexual, ocidental, urbano, entre-guerras (e pós-guerra, particularmente a 2a. Guerra mundial, mas a do Vietnã também serve), pré e pós revolução sexual (e pré AIDS e obrigatoriedade da camisinha, importante dizer)…

Para complicar, falta falar da filmografia da Isabel Coixet; de como ela, nascida em 1962 — 46 anos, portanto —, dos conhecidos “Minha vida sem mim” e “A vida secreta das palavras”, é mulher; de que há indícios de que seja heterossexual, o que faz suspeitar que tenha se envolvido afetivamente com homens; e, por último, de que nesses três filmes, a proximidade da morte é aspecto central…

Será que bebi muito?…

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14 Comments on “De idades, gêneros, filmes e livros (sem falar em blogueiros)”

  1. #1 flavia
    on Jan 4th, 2009 at 2:35 pm

    Não sei, mas quem me falou apaixonadamente deste filme (louco para ler o livro) foi um cavalheiro de 64 anos…
    Feliz ano novo (nveja desse seu vinhozinho aí)! bj, f

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Flavia,
    Não chego a dizer que o filme seja apaixonante, embora tenha simpatizado muito com ele. O que quero mesmo é ler o livro, depois que tomar uma distância considerável de quando assisti a versão em DVD.
    Beijo grande e um feliz 2009 pra vc também!

    [Responder]

  2. #2 Dirceu Barquette
    on Jan 5th, 2009 at 1:08 pm

    Nem quero saber o quanto vc bebeu, mas o que vc bebeu!!! :D

    Minha mulher, por sua natureza, critica muito. Lê e depois vê o filme; odiou o filme… Vê o filme e depois tenta ler o livro; ah! O filme foi bem melhor…

    Penso muito nas propostas envolvidas, mesmo que subtendidas. Se o vetor da história a conduz com maestria, que diferença faz a “mídia”?

    Por outro lado se avalio a “mídia” a história diminui sua importância.

    Por fim, parece ser muito importante avaliar o conjunto!!! Então vou lhe acompanhar numa taça de vinho para ver se melhoram as coisas…

    Aliás, o que é mais importante? A uva, o acondicionamento, o produtor…?

    saúde!

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Penso que a mídia faz diferença, especialmente se a perspectiva de comparação de versões de uma mesma obra estiver em jogo. Gosto mesmo é quando uma e outra versão alcançam uma certa “autonomia”, e sempre tenho na ponta da língua o caso de “A Insustentável Leveza do Ser”, onde livro e filme são bons, sendo ao mesmo tempo iguais e absolutamente diferentes… Vai mais uma taça de vinho aí? :-P

    [Responder]

  3. #3 Anrafel
    on Jan 5th, 2009 at 11:33 pm

    Parece haver algo do tipo: se o livro é de um autor de pouco (ou nenhum) prestígio literário, será sempre um ponto de partida para uma história que não lhe será muito fiel.

    Se o autor é um cracaço (tipo Philip Roth), aí a coisa já impõe uma certa intimidação, uma fidelidade ao texto literário.

    O que é uma esparrela a ser equacionada - romance e cinema, quanta diferença na formulação da mensagem!

    E agora, duas observações um tanto idiossincráticas: Coppola pegou um ‘mero’ best-seller e fez aquela maravilha que é “O Poderoso Chefão”.

    “Blade Runner” é melhor que a novela “Sonham os andróides com carneiros eletrônicos?”, que o inspirou.

    Aliás, a minha tese aí em cima ficou completamente furada: Phillip K.Dick era super-respeitado´, mas mesmo assim Ridley Scott fez das suas no filme.

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Anrafel, embora concorde com parte da tua tese — a idéia da intimidação que os medalhões da literatura exerceriam sobre possíveis adaptações de suas obras para o cinema —, não sei se o resultado seria uma maior fidelidade ao texto literário. Um exemplo é o que mencionei no comentário acima, o de “A Insustentável Leveza do Ser”…

    [Responder]

  4. #4 Pax
    on Jan 6th, 2009 at 1:19 pm

    Vi esses dias o filme Valente. Aconselho.

    Não vi esse aí, verei.

    Boa essa tese do bom Anrafel.

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Valente? Vou procurar!

    [Responder]

  5. #5 Alexandre Kovacs
    on Jan 6th, 2009 at 5:34 pm

    A questão principal é se a obra literária pode ter a sua qualidade preservada no cinema ou não. Na minha opinião esta é uma impossibilidade completa, como podemos bem constatar pelas duas adaptações recentes: “Reparação” e “Ensaio sobre a Cegueira” que, apesar de excelentes filmes, não conseguem atingir o nível de expressão literária de Ian McEwan e a prosa caudalosa de Saramago.

    Concordo também com o comentário do Anrafel acima: “Se o autor é um cracaço (tipo Philip Roth), aí a coisa já impõe uma certa intimidação” só esta condição já é um impeditivo para a produção e avaliação independente do filme.

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Pois é, Alexandre, também acredito que seja impossível, ao menos com obras literárias de peso. Só acrescentaria outro aspecto, um que talvez amenize essa distância. Penso que muitos autores contemporâneos, especialmente aqueles que pertencem às “gerações audiovisuais”— onde o cinema e a televisão fizeram parte de sua formação cultural —, tem** livros que parecem escritos para serem adaptados ao cinema, não? Nesses casos, é possível que o texto se mostre mais “amigo” do filme, e a maior ou menor fidelidade deste último diga respeito mais à competência do diretor e sua equipe, à escolha do elenco e até mesmo às exigências dos produtores, do que propriamente às dificuldades de adaptação da obra.

    ** Não sei se o circunflexo para a 3a pessoa do plural caiu…

    [Responder]

  6. #6 Pax
    on Jan 7th, 2009 at 8:28 pm

    Vai passar Valente hoje de novo, canal 70 e alguma coisa da Sky, as 21h:00.

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Pax, infelizmente não tenho Sky. Tentarei baixá-lo, depois te conto o que achei dele.

    [Responder]

  7. #7 Alexandre Kovacs
    on Jan 7th, 2009 at 9:32 pm

    Ricardo, concordo que alguns autores contemporâneos são bastante cinematográficos. Afinal, por que ainda não filmaram um romance do Orhan Pamuk?

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Alexandre, sabe que ainda não me aventurei pelos romances do Pamuk? E olha que vi uma entrevista dele na Globonews que muito me agradou! Só por conta da sua menção vou colocá-lo na minha lista de leituras do ano.

    [Responder]

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