Ela sumiu.
Ela escreveu.
Ele leu. E respondeu.
… A interlocução com alguém que não seja eu sempre foi o meu forte. Mas não uma interlocução com fantasmas que pertencem a esse alguém. Se só me cabe seus fantasmas, com o passar do tempo eles fazem estrago…
… Sim, tenho que reconhecer, já esperava que você falasse em “ternura”, não mais do que ela. E você sabe que ela é pouco, mesmo sendo muito. Mas não perco isso de vista, o fato dela ser muito. Mas com um quê de migalhas…
… Dou enorme importância à palavra, que por mais que se abra a múltiplos significados, decerto define nortes, orienta, agrupa, categoriza. O silêncio é bem mais complicado, porque faz com que outras palavras entrem no circuito, palavras de épocas diferentes brigando pelo primeiro lugar, fazendo barulho e embaralhando o presente…
… Paro aqui com os “amo você”. Foi difícil começar a dizê-los, não é do meu feitio falá-los a qualquer momento, para qualquer pessoa. Por isso levei tão a sério quando você os disse pra mim, tantas vezes. Isso é que é bem difícil: a velocidade da mudança, do esvaziamento, da transformação, que fez com que só restasse o meu por você. Dizer “amo você” só faz sentido na reciprocidade. Fora do “dois”, do “entre”, perde o sentido anunciá-lo…
… Fico com a ternura, a que também sinto por você. Fico não: resigno-me. Ainda temos algo a dois.
Seguiram-se dois dias de um choro convulsivo que ninguém viu, mais quatro anos e dez meses sem saber dela.
No décimo primeiro mês do quinto ano ela ligou.
Casaram-se no ano seguinte, o sexto.
Antes disso ele comprou um termômetro novo e largou a razão na estante, junto aos livros de filosofia.
Não tiveram filhos.















on Feb 3rd, 2009 at 9:38 am
Ótimo, Ricardo.
E, pra mim, com um significado especial e particular.
Valeu.
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Ricardo C. Reply:
February 3rd, 2009 at 12:09 pm
Bom, agora me deixou curioso, hehehe!
Abs
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Darwinista Reply:
February 3rd, 2009 at 2:28 pm
Ricardo,
Não por isso. Mas saciarei a curiosidade por e-mail. ´
Abraço.
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on Feb 3rd, 2009 at 5:35 pm
O post do Ricardo me deixou intrigado, não sabia o que dizer.
Vai ter boas idéias sobre escritos assim lá na minha futura editora de romances, pô.
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Ricardo C. Reply:
February 3rd, 2009 at 5:41 pm
É meio estranho mesmo, Pax, mas resolvi deixar assim. Li uma carta num tom mais ou menos parecido, cheio de intelectualizações sobre o fim de uma história, algo no fundo meio “as uvas estavam verdes”, e achei que valia brincar um pouco com isso.
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