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De um pato e meio a quase três — ou o contexto e a perfeição

“O pato [da família Anseridae, e das sub-famílias Dendrocygninae, Anatinae, Merginae ou Oxyurinae] é um dos poucos animais da natureza que anda, nada e voa com razoável competência (grifo meu), segundo conta a Wikipédia. Enquanto isso, uma porção de blogs, além de sítios que tratam de recursos humanos e outros que arrotam marketing, adoram dizer que esse bicho que faz tudo (nada, anda e voa), faz tudo mal (grifo deles). Coisa tacanha, maldosa e se bobear invejosa frente a um bicho tão equilibrado e contemporaneamente “multitarefa”, digo aos meus botões, enquanto imagino que os meus amigos já estejam bocejando com mais essa conversa sem pé nem cabeça, e ainda por cima com um título críptico e para lá de esquisito…

Mas o meu raciocínio é mais simples do que as frases que escreverei, juro a vocês, e deixará minha irritação com os profissionais de RH e Marketing de lado, prometo. Diz respeito a ontem, domingo, e à programação a que me dediquei junto com minha companheira. Então começo falando da temperatura, talvez um pouquinho acima do que eu gostaria, embora nada que atrapalhasse os planos de um bom passeio de bicicleta, de Copacabana ao Leblon. Falei em bicicleta, não? Pois é, como aqui em casa não temos nenhuma, escolhemos as que andaram instalando ao longo da avenida Atlântica (e as duas da foto foram as nossas). É um serviço novo, ainda em fase de adaptação, que tenta imitar o charmoso sistema Vélib de Paris. Claro que as bicicletas de lá são de melhor qualidade e bem mais bonitas… mas lembro-me logo do pato, e só posso pensar em como foi bom passear sem preocupações com trancas, roubos e que tais, já que elas não são propriamente o objeto de desejo dos “meliantes-ciclistas” da cidade.

[E já que o pato é o mote, as fotos, de todo regulares, forma tiradas por mim, fotógrafo um pouco abaixo do regular — um terço de pato, pois —, e da câmera de um celular sem maiores atributos. Dois terços de um pato para o aparelho, portanto.]

Voltando ao passeio, o dia estava realmente bonito. Daí que a nota dele vale mais que um pato, pensando cá nos critérios do meu raciocínio. Até aquele momento, dois patos e meio pro dia de ontem estava de bom tamanho, diria. Isso depois da parada no Jobi, perto das 11 da manhã, pois a sede era muita e o lugar se prestava muito bem a dois ciclistas em trajes de banho. Pois é, falei em Jobi, e me lembrei de um fato infeliz ocorrido ali, uma briga onde uma mulher perdeu parte de um dedo por conta de uma mordida, fato ocorrido em plena campanha para as últimas eleições presidenciais… Feio, muito feio, água no chope desse simpático bar de garçons boa-praça, que perdeu muitos pontos por conta desse acontecimento (donde recebe apenas 20% de um pato). Água no chope? Foi sim, mas são, desculpem o péssimo trocadilho, águas passadas. Isso porque foram cinco deles, acompanhados de um singelo bolinho de aipim com carne seca — já que havia planos para um almoço ao sair dali —, que nocauteariam quaisquer mágoas acumuladas contra os reaças que frequentam esse bar, fazendo pensar em como a vida é boa, e reabilitando sua pontuação: um pato inteiro, ora pois.

[Ah, faltou dizer que o chope do Jobi é honesto, embora saiba que há melhores e mais bem servidos na cidade. Não importa, continua recebendo um pato inteiro.]

Mas o dia ainda estava pela metade, e os chopes e o bolinho só fizeram despertar a fome. E com um calor daqueles, não era bem feijoada a preferência, daí que não longe dalí, escondido nos fundos de uma rua, fomos ao simpatico Deusimar — nome do dono —, um pequeno restaurante japonês(?!) de cardápio simples e preços adequados (1,25 pato), com três ou quatro mesas postas na calçada, o ideal para o casal ainda ciclista. A pedida? O combinado aí ao lado, de apenas 50 peças — porém suficientes, devo acrescentar. Claro que não é como comer no Azumi. Em compensação, o Deusimar abre para o almoço…

Depois desse agradabilíssimo repasto, já pedalando de volta para Copacabana, vimos que uma certa loja de móveis e badulaques para casa estava aberta, em liquidação, e resolvemos dar uma passadinha por lá. As bicicletas, claro, não foram problema, já que havia uma estação para devolvê-las a 15 metros da entrada — sei lá se eram 15, foi só para dizer o quanto era perto —, e ficamos perambulando pela loja. Aliás, não é uma loja das mais in, nem seus móveis e objetos são os de maior durabilidade. Mas com 70% de de desconto, foi ótimo renovar o estoque de copos e comprar uma que outra singeleza, antes de pedalar de volta para casa.

[Olhando a foto tirada enquanto pedalava pela ciclovia — e agradecendo por não haver teste do bafômetro para ciclistas —, lembrei de ter comprado um exemplar de conhecido jornal carioca, jornal esse que até anda bem melhor do que décadas atrás, mas que ainda não se pode comparar com uma Folha de São Paulo dos anos 80 — o período áureo do jornalão paulista —, mas que ao menos distrai os olhos e oferece um razoável apanhado das notícias da cidade. Dois terços de um pato para o jornal, sim?]

No caminho para casa, um pequeno desfile pré-carnavalesco. Não era propriamente a bateria nota dez da Mocidade Independente de Padre Miguel, mas agitou boa parte dos banhistas, fossem turistas ou locais. Divertido, pois, mesmo que o tempo para não zerar-lhe o “índice anatídeo” fosse de no máximo dez minutos.

[A madrinha da bateria até que valia uns 2,5 patos, segundo avaliação da minha mulher. Eu dei 1,75 patos, já que não convinha mostrar-me por demais empolgado. 11 anos de casamento só se dão se prestarmos um pouquinho de atenção aos sinais.]

E para terminar, o que ainda não havia ocorrido: um mergulho no mar, ali na altura do Posto 6. Certo, há águas mais belas do que aquelas, seja no Caribe, no Nordeste brasileiro ou na Polinésia francesa. Mas ontem, com o mar sem uma onda sequer, e com a superlotação localizada mais ao lado, no vizinho Arpoador [da foto], foi na frente da barraca da dona Lêda (com circunflexo mesmo) que o contexto se mostrou mais propício, fazendo com que o meu domingo, com todas as escalas possíveis ao redor de um pato, tenha beirado a perfeição.

[E assim fica inaugurada a minha campanha pela reabilitação dos patos.]

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11 Comments on “De um pato e meio a quase três — ou o contexto e a perfeição”

  1. #1 gugala
    on Feb 2nd, 2009 at 2:51 pm

    ótimo!
    “De pato em pato , a galinha abre o bico(ou a cloaca)”
    Post 10 patos!

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    :-)

    [Responder]

  2. #2 Gwyn
    on Feb 2nd, 2009 at 5:26 pm

    Ricardo,

    Seu passeio nao beirou a perfeicao… ele foi perfeito!!!
    Duro e ler esse dia delicioso quando la fora a neve nao para de cair, fazendo esse pais parar.
    Hoje foi um dia de folga para escolas e muitos trabalhadores (eu, inclusive)

    Enquanto ai voce pedalava em trajes de banho, aqui nos deslizamos morro abaixo de treno…

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Mas em compensação, se vc soubesse como calor em dia útil anda matando… Insuportável!

    [Responder]

  3. #3 Pax
    on Feb 2nd, 2009 at 8:08 pm

    Já falei que tua vocação é mais pra Garcia Marques que outra coisa?

    O gugala disse tudo: 10 patos.

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Coisa boa é ter amigos generosamente cegos… :-P

    [Responder]

  4. #4 Sidney Mirandão
    on Feb 3rd, 2009 at 7:40 am

    Que se reabilitem os patos, mas sem o radicalismo do Feltrin, que é contra o consumo dos mesmos.

    Numa terra sem picanha, o Magret de Canard é o que chega mais perto de um repasto carnívoro valendo 10 patos…

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Tô nessa, Sidney, gosto muitíssimo!

    [Responder]

  5. #5 Monsores
    on Feb 3rd, 2009 at 10:22 am

    Ricardo, eu voltei. Saudade de você, meu caro.

    Preciso me atualizar daqui, mas estou sem tempo. Fiquei mais tempo fora do que devia e agora tenho que organizar as coisas.

    Fim de semana apareço.

    Grande abraço!

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Bom te ver por aqui, André! Tome o tempo necessário para se arrumar e venha prosear com o povo que anda visitando a Ágora, tudo boa gente!
    Abração

    [Responder]

  6. #6 Cristiano
    on Mar 31st, 2009 at 10:29 am

    Ricardo,

    Posso dizer que é deverás interessante o seu sistema de pontuação para um domingo que beira a perfeição. Já ouvi falar em pontos, estrelas, asteriscos, mas patos foi a primeira vez… não importa a forma, podemos dizer que o conceito de perfeição é muito pessoal, por ser subjetivo aos olhos de quem analisa… nesta lógica, creio que se beirou a perfeição, satisfez além das espectativas o que poderia ser um simples passeio de bicicleta pelas praias da cidade maravilhosa… variáveis diversas influenciaram neste número sem limites de “patos” no texto… temos que ser mais atentos as variáveis que cruzam nossos caminhos, para que tenhamos mais “patos” para quardar na memória… abs

    [Responder]

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