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Um nada de sábado

Certo é que alegrias, prazeres e felicidade, embora não dêem em árvore, os há dos mais diversos tipos. Não por acaso, ontem conversei com uma amiga sobre o tema, papo esse sucedido pela leitura de um post com visões próprias do assunto — e bem próximas das minhas, vale dizer. (Abro parêntese para comentar que, quanto à felicidade, lembro de em certa ocasião ter dito tratar-se de mero epifenômeno — não só por achar que é, mas também pelo gosto bom que a palavra tem quando sai da boca.)

[Curioso como alguns dos meus pensamentos volta e meia vêm acompanhados por títulos de livros que não li. Esse assunto da felicidade cotidiana, por exemplo, trouxe consigo O deus das pequenas coisas, da Arundhati Roy; e meio que por contraste, vai ver até por implicância, fez emergir outro título: A mágoa mata mais, do Saul Bellow — que em inglês talvez soe a puro ressentimento, mas em português só me leva a imaginar um menino de 12 anos que ficou "de mal" com seu amiguinho da escola, e fica repetindo para si essas palavras, dando ênfase a cada um de seus "emes"... (Desculpe qualquer coisa, Saul!).]

Mas já estou danando de pular para associações cada vez mais distantes do assunto que me trouxe hoje aqui, e sequer deixei qualquer pista sobre o que faz a foto de um chuveiro estampando este post. Sendo assim, vou logo avisando: ela não foi tirada por mim, e muito menos pertence a alguma ducha onde eu já tenha me banhado. Está aí só para facilitar a minha vida, já que hoje ando com a imaginação meio rala e bem pouco comprometida com a perspectiva de transformar-se em palavras… (Entendeu alguma coisa deste último trecho? Então me ajude, pois o máximo que consegui extrair dessas palavras é que, no que me diz respeito, tentar explicar o que quer que seja no dia de hoje parece tarefa fadada ao fracasso.) Assim sendo, sigamos à foto do chuveiro e às reflexões correlatas.

Pois bem, não tenho dúvidas de que calor escaldante e banho frio formam um par dos bons na categoria “quantidade de prazer proporcionado”. (E não me venha com insinuações de que a idade há de estar pesando, ou que a minha concepção de prazer anda para lá de anêmica, exigindo urgentemente o olhar atento dalgum especialista em sei lá que ofício. Deixe de bestagem, vá, e assuma logo que a canícula também tem alongado os teus banhos…) E levanto essa questão porque aqui em casa já faz tempo que a lida com o asseio corporal resultava em alegria mirrada, espécie de “felicidade em sépia”, feito um desses prazeres protocolares e desbotados de que todo ser humano no mínimo já ouviu dizer, leu a respeito nalgum estudo ou conhece em função de qualquer outra comparação que a sua imaginação possa conceber… Mas prossigo, dizendo logo o porquê dessa mornidão no prazer. Só peço para isso que preste bem atenção na foto. Se você clicar nela, verá melhor que, como qualquer outro chuveiro, o da imagem é composto por uma série de orifícios — que neste caso particular formam círculos concêntricos. (Isso porque há chuveiros quadrados e de sei lá quantos tipos; mas como não vim aqui para elaborar teses sobre gêneros de chuveiros…) Como avisei antes, trata-se de imagem meramente ilustrativa, posto que o meu é maior (duplo sentido agora não, por favor!), com os orifícios formando cinco círculos, dois a mais do que os do chuveiro acima à esquerda. E ao longo do ano que passou, pouco a pouco estes dois últimos “círculos perfurados”  deixaram de saber a que vieram, distanciando-se léguas do propósito de suas, er, existências (a falta de termo melhor, pois lembre-se, ando desentendendo-me com as palavras). Questões filosófico-hidráulicas logo sobrevieram: por quê a água, antes tão assídua, deixara de passar por esses furos? O que eles teriam feito de errado para ficarem assim, secos, com sua natureza oca mais do que exposta? Aliás, me ocorre que se humanos fossem, daria para suspeitar deles estarem em crise de identidade… Mas se dizem que as identidades têm furos, nunca ouvi falar de furos com identidade. Sei é que os do meu chuveiro, os tais dos últimos dois círculos, simplesmente pararam de jorrar água, deixando-me à deriva, indiferentes às minhas necessidades e às minhas reflexões patafísicas, e empalidecendo o até então delicioso empreendimento de banhar-me, o mesmo que apraz a qualquer bom filho dos trópicos.

Mas o conversê já se alongou demais, então apresso o passo. E menciono rapidamente que ao longo da semana o banheiro principal de minha residência teve suas paredes rasgadas a golpes de martelo e ponteiras, com toda a sua tubulação trocada; e que depois de pagar uma soma considerável (mas justa) aos profissionais responsáveis, e após livrar-me de toda a poeira resultante, reinaugurei o meu chuveiro de círculos concêntricos. E os tais furos dos dois últimos círculos, aqueles que se fossem gente andariam em crise, finalmente exerceram à perfeição a função que lhes foi ontologicamente confiada. E por último, que a felicidade, como bom epifenômeno que é, apareceu de brinde, em simétricos jorros d’água, que, como há muito não ocorria, ultrapassaram em muito a largura dos meus ombros.

O cume do Everest? Prêmio Nobel? Milhares de orgasmos múltiplos e simultâneos? Sentimento oceânico? O Nirvana? Nada disso. A felicidade, desde terça-feira passada, tem a cara do chuveiro aqui de casa. Sim, esse mesmo sob o qual permaneço imóvel, exultante, vendo a água cair sobre e para além de mim.

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10 Comentários on “Um nada de sábado”

  1. #1 Gwyn
    on Mar 14th, 2009 at 8:36 pm

    Ricardo,

    Sensaciona esse seu nada de sabadol !!!!

    “Essas” felicidades que nao se conhecia, ou que fazia muito tempo que nao as “sentiamos” nao so da MUITA felicidade como vem recheada de prazer, satisfacao, alegria, contentamento….

    = ))

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Que bom que gostou, Gwyn, ainda mais porque faz tempo que não te via por aqui!
    Bjs

    [Responder]

  2. #2 Marcelo Larrosa
    on Mar 14th, 2009 at 8:48 pm

    Bem, moramos no mesmo bairro…qualquer coisa grita.

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Hahaha!, já está tudo resolvido, meu amigo, mas gostei da oferta!
    Abração

    [Responder]

  3. #3 Colafina
    on Mar 14th, 2009 at 11:50 pm

    Viu só? E ainda tem gente que não dá valor a um cano entupido…

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    E não é? Uma amiga minha costuma dizer que se aprende sobre a vida até em livros de receita, Alexandro!

    [Responder]

  4. #4 Nhé!
    on Mar 17th, 2009 at 5:04 pm

    Bão… eu não ficaria sentada pensando nos furos entupidos, ia lá e limpava o bocal, oras!!
    =-)

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Ô Nhé!, estava tudo limpo. Não era sujeira, simplesmente faltava pressão na água do encanamento…

    [Responder]

  5. #5 Pax
    on Mar 17th, 2009 at 10:42 pm

    Ôpa

    Veja lá o que vai fazer debaixo dessa água toda agora, seu Ricardo.

    Há tantas coisas que pensamos e fazemos num “quarto de banho” que funcione.

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    @Pax, nem me conte, hehehe!

    [Responder]

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