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O Caio através do Idelber, o Milton junto. (E eu lá atrás, tentando acompanhar.)

Atendendo ao chamado do Idelber para discutir o conto Aqueles dois, do Caio Fernando de Abreu, o Milton Ribeiro, meu vizinho de condomínio e craque nas letras e na música, não se fez de rogado: mandou ver nas suas impressões sobre a história de Saul e Raul.

Passo longe da falsa modéstia, e bem perto da autocrítica pertinente. Por isso digo que é lá no post do Idelber e também no do Milton que a conversa deve ter lugar, e que é também por lá que a minha atenção estará. Mas antes disso, deixo aqui os meus pitacos sobre o assunto, os mesmos que escrevi na caixa de comentários do Clube de Leituras do Idelber, e que de outra forma ficariam perdidos no meio de tanta coisa boa que já li por lá.

Sutil
llegaste a mi
como una tentación
llorando de inquietud
mi corazón.

["Tu me acostumbraste", de Frank Dominguez]

- Sutileza, sugestão, duas palavras que vêm à minha cabeça. Uma, combinando com a suavidade da narração, sem sobressaltos, e com o desvelamento de um amor, humano amor, fraterno, acima de tudo (falo mais sobre isso depois); e a segunda, que tanto anda em falta, e que é tão perigosa como o lusco-fusco do amanhecer e do pôr-do-sol, aquelas horas onde os fantasmas passeiam, as revoluções ameaçam explodir e o mundo é perigoso, de tão indefinido que é. (Curioso, vivemos tempos onde o explícito é não apenas possível, como até cultuado, associado à liberdade e que tais, e onde a sugestão anda em baixa. O chato é que a própria “habilidade de ser sugestivo” parece tb escassear…)

- Janaina Amado ( comentário #4) posicionou-se com clareza, trazendo para isso a estranha década de 80 à conversa, aquela mesma em que surge a AIDS — “câncer gay”, diziam tantos, entre assustados e enraivecidos — e onde “… um bocado de gays … fizeram deste conto um lugar de acolhimento, refúgio, amor, construção de auto-estima”. Some-se o fato, como bem disse a Lola (comentário #5), de que “saber que o conto é do Caio atrapalha um pouco. A gente mistura autor e obra, e isso gera a expectativa de um ‘conto gay’ (seja lá o que for isso)”. A culpa não deve ser do Caio e sim nossa, mas fingir que esses dados não passam na cabeça da gente é bem pior, não?

- Lembrei de um filme de Almodóvar, “Hable con ella“, e dos comentários da maioria das pessoas que saíam da sessão de cinema, no dia em que o assisti, a respeito de seus dois protagonistas masculinos: “é uma relação homossexual”, “são dois enrustidos”, e blá blá blá, enquanto eu via um senhor amor fraterno, com toda a potência que lhe cabia absolutamente explicitada e nem um grama enrustida. Ali não havia contenção de espécie alguma, não havia nada a ser desvelado entre eles. Se trepassem, estou certo que “desculpe, foi engano” seria a conclusão de ambos.

- Volto a “Aqueles Dois”. Reconheço: não posso fazer da relação entre Raul e Saul uma leitura idêntica à que fiz de “Fale com Ela”. São tempos e contextos diferentes. No filme, as bandeiras de Almodóvar contra a repressão (homos)sexual já tremulavam faz tempo, desfraldadas em filmes anteriores, e já incorporadas ao cotidiano espanhol. Por isso não me pareceu nem um pouco estranho entender aqueles dois amigos como os primeiros protagonistas masculinos heterossexuais e interessantes da filmografia do diretor, que até então colocava os homens em papéis secundários, como machistas caricatos, bananas ou então simplesmente perversos.

- Sim, “Aqueles Dois” exala a homoerotismo, além de condenar a repressão já no subtítulo; mas uma repressão marcadamente “de fora”, “da repartição”, institucionalizada, tanto sexual como política, com quase nada das repressões que construímos silenciosamente e que aos poucos tornam-se tão somente nossas. Mas reconheço que o amor de Raul e Saul, visto pelos da repartição como expressão de uma “relação anormal e ostensiva”, “desavergonhada aberração”, um “comportamento doentio”, talvez não seja apenas fraterno — e desculpe pelo “apenas”, a palavra aqui empobrece as coisas —, embora não esteja tão certo de que isso importe tanto assim. (Hoje em dia, pelo menos, acredito que não.)

Bom, falei muito e pouco disse, além de quase nada concluir. Então melhor paro por aqui.

É, está de bom tamanho. Agora volto para as caixas de comentários desses dois blogueiros que tanto admiro.

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2 Comments on “O Caio através do Idelber, o Milton junto. (E eu lá atrás, tentando acompanhar.)”

  1. #1 Monsores
    on May 29th, 2009 at 10:54 am

    Ricardo, de todas as pessoas que conheço e olha, são muitas, você é a única que poderia escrever análise tão profunda. Me perdi algumas vezes, mas a culpa não é sua. Enfim, Clap! Clap! Clap!

    Agora, termine o conto, cacete!!!!!! Meu F5 daqui a pouco vai saltar do teclado.

    Grande abraço

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Tá difícil de terminar, André. Te disse que tenho o rascunho na cabeça, mas escrevo e corto, escrevo e apago, escrevo e deleto, escrevo e dá-lhe backspace… Aguente um pouco, rapaz, esse conto eu prometo que dou fim!

    [Responder]

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