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Propagandas pela metade, equívocos inteiros e… a técnica, de que somos reféns

Encontrei esse cartão num restaurante de comida à quilo.1 Sua “frente” corresponde à primeira imagem (a maior), e o verso é o vermelho com letras brancas. Como sei? Ora, porque era assim que a pilha de cartões estava organizada, só por isso. E à primeira vista supus, equivocadamente, que se tratava da propaganda de alguma ferramenta complementar de ensino, oferecida pela faculdade cujo nome aparece no verso do cartão (e que borrei propositalmente). Mas lendo com cuidado, vi que uma das linhas do texto dizia, em negrito: “Receba todo o conteúdo do curso via SMS“. Por conta da frase, confirmei que a minha primeira leitura fora mesmo equivocada, erro de alguém vai ver que não tão antenado quanto deveria em relação aos “recursos tecnológicos” que caracterizariam o “ensino de vanguarda”… Mas para minha surpresa, muitos dos que viram pela primeira vez esse cartão cometeram o mesmo erro: como eu, só entenderam a “pegadinha” da peça publicitária depois que fizeram o que fiz, isto é, deram uma rápida googleada, descobriram o site da tal Uni-SMS e assistiram ao vídeo publicitário, disponível no YouTube — que há de ter passado na televisão no Rio de Janeiro, em algum momento, mas que não vi. Sem contar o banner que apareceu no MSN… mas que eu tampouco poderia ter visto, já que resisto bravamente a usar o MSN.

Posto que no vídeo o propósito da mensagem fica evidente, na hora me senti feito de bobo, mesmo só tendo visto o cartão. E desconfortável no segundo seguinte, por conta do meu “índice de perspicácia” ter beirado o zero, pois não “pescou” logo de cara a intenção da peça publicitária. Mas para além de qualquer ego ferido, o desconforto indicava alguma coisa a mais. E enquanto procurava na internet sobre o assunto, aconteceu de não apenas encontrar elogios à campanha publicitária — questão de gosto; eu não gostei —, como também ver um ou outro comentarista aparentemente empolgado com a perspectiva de “estudar” e até “formar-se” via celular. (Alguns dos comentários, claro, eram pura ironia; mas outros, pelo motivo que fosse, avaliavam positivamente essa possibilidade…)

*  *  *

Há tempos que venho me batendo com os usos que a contemporaneidade tem feito da tecnologia. Estou evidentemente atrasado, pois a discussão é mais velha do que os meus falecidos avós. Aliás, tem gente mais do que abalizada que já discutiu o assunto, então passa a palavra aos que têm algo mais consistente a dizer, e é o filósofo Franz Josef Brüseke2 quem os trás para cá:

[...] a ciência e a técnica foram vistas pelos representantes intelectuais das camadas burguesas, assim como pelos representantes acadêmicos do proletariado industrial, como indispensável para as suas projeções teóricas do avanço social e econômico. “Saber é poder!” - rimavam os sindicalistas socialistas. E os cientistas da pequena burguesia cultivavam a “razão” como conceito central do projeto da civilização do mundo. Não surpreende que a oposição ao avanço da técnica (que na realidade histórica era o avanço do setor industrial sobre o agrário) e da expansão da validade da racionalidade científica (que na realidade histórica significava a derrota do poder clerical e sua autojustificação teológica) restringiu-se, no fim do século XVIII e no século XIX, às pessoas e camadas marginalizadas pelo próprio “progresso” técnico: camponeses desenraizados, partes da aristocracia desclassificada, culturas tribais vítimas da expansão européia e indivíduos que expressaram de forma “romântica” a vontade de “fugir do mundo” (Brüseke, 2004). Mundo este, na época do romantismo, sob o impacto da primeira onda de industrialização e racionalização. Sabemos que as forças históricas racionalizantes e industrializantes venceram a disputa e moldaram o mundo conforme o dispositivo técnico. Todavia, ouvimos no fim do século XIX as primeiras vozes que retomam a crítica “romântica” ao industrialismo e racionalismo, ou começam a desenvolver uma primeira reflexão sobre a ciência e a técnica mais consistente e crítica à filosofia do progresso.3 (Grifos meus)

Mesmo com o surgimento dessas críticas lá atrás, basta uma olhada ao redor do nosso presente para ver que, em certo sentido, a maneira com que lidamos com o progresso técnico não mudou tanto assim. Claro que as visões edulcoradas do futuro, aquelas onde a tecnologia eliminaria qualquer problema e tudo funcionaria como um relógio, passaram a fazer-se acompanhar por previsões mais sombrias, onde a superpopulação, a poluição e o esgotamento de recursos naturais seriam a regra. Mas mesmo assim, de uma maneira geral somos não apenas tecnodependentes, mas tecnoconfiantes e tecno-otimistas em alto grau… Isso a despeito do fato de que [...] a técnica moderna, que implica a concepção do homem como sujeito assujeitado pela tecnologia, constitui a instância por meio da qual a vida humana pode ser simultaneamente produzida e aniquilada por meios científicos (Grifos meus)4 — e nada como a sombra dos arsenais nucleares pairando sobre nossas cabeças para confirmá-lo…

“Sujeitos assujeitados pela tecnologia”… Soa forte, não? Penso tratar-se da consequência mais complexa e cara para a humanidade, e não sou besta, pois apoio-me nos entendidos no assunto. Aliás, de carona com eles, diria que quando muito constato esse assujeitamento, e me contento por conseguir descontentar-me com isso — ou seja, fico satisfeito com a minha razoável capacidade de distanciar-me e de perceber certos ruídos num ambiente que se pretenderia “silencioso”, “homeostase” pura…

Falei em ruídos. Mas que ruídos? Ocorre-me pelo menos dois:

1) por um lado, a contradição entre o enorme alcance da técnica5 — i.e., o fato de que com ela transformamos o futuro e, por conseguinte, nos tornamos responsáveis pelas consequências dessas transformações —; e por outro, o desejo imediato de usufruir dela, sem termos lá muito saco para pensar em consequências, especialmente em consequências para outrem. [Calma, não se trata de moralismo raso; dê uma lida no artigo do Brüseke, cujo linque está nas notas de rodapé, e verá que o buraco é mais embaixo. Partindo de uma série de pensadores, ele fala com mais propriedade sobre esse aspecto.];

2) outra contradição, ainda entre o enorme alcance da técnica, neste caso em relação à progressiva incompetência para gerir os nossos corpos (e não só eles), cujo cuidado delegamos a ”especialistas garantidos” que com suas técnicas contribuem (involuntária e voluntariamente) para ampliar a nossa incompetência e desconhecimento sobre nós mesmos…6

Ouquei, peguei pesado nesse segundo item. Reconheço que aprendemos muita coisa sobre nós mesmos graças ao trabalho de diversos especialistas. O problema é que tendemos a “deixar com eles” muito do que talvez devesse estar em nossas mãos… E como reconhecer isso? Bom, geralmente quando nos vemos em algum apuro, sem os tais especialistas garantidos ao alcance da gente, e tendo que haver-nos com aquilo que em algum momento delegamos a eles…

Mas não só contamos com os especialistas e suas técnicas — que em conjunto formam um instrumentum (de que fala Heidegger na nota 4). Em algumas ocasiões, delegamos às próprias ferramentas muito mais do que deveríamos. (Lembrei da simpaticíssima animação WALL-E, com seus humanos obesos, alienados e entorpecidos, que infelizmente não aparecem no vídeo do link). É aqui que encontro o meu desconforto: a maneira alienada com que tratamos a técnica, onde, em nome de um imediatismo qualquer — no caso da propaganda lá de cima, a expectativa de uma “formação universitária via celular(!)” —, funcionamos como se o saber, a expertise, estivessem na ferramenta, e a sua mera aquisição fizesse com que essa expertise se transferisse para o usuário, quem sabe por osmose…

[Exemplo bobo e rápido: se não houver nada marcado pelo editor de textos do Word, o texto escrito nele não contém erros...]

*  *  *

Bom, mais uma vez, um post longo, com fim abrupto, que abre diversas frentes, não encerra nenhuma e nem avança muito. Lamentável, tsc tsc… Mas ao menos parte do que me interessa discutir sobre a nossa civilização tecnológica aparece por aqui — e também num outro e recente post —, embora falte sobretudo tocar no tema da ética, tema esse que atravessa tudo o que alinhavei até o momento.

Paciência, fica para outra ocasião, de preferência quando essas reflexões forem mais coesas e amadurecidas.

[Mas se quiserem adiantar-se no assunto, sugiro novamente o texto do Brüseke citado nas notas de rodapé, especialmente quando ele fala de Hans Jonas.]

.

______________

1. Embora a frase inicial levante suspeitas, este blog não faz apologia a drogas de qualquer espécie.
2. Franz Josef Brüseke, dr.phil. pela Universidade de Münster, Alemanha; leciona sociologia na Universidade Federal de Santa Catarina.
3. BRÜSEKE, Franz Josef. Ética e técnica? Dialogando com Marx, Spengler, Jünger, Heidegger e Jonas. Ambiente & Sociedade [online]. 2005, vol. 8, n. 2, pp. 37-52, p. 37.
4. DUARTE, André. Heidegger e Foucault, críticos da modernidade: humanismo, técnica e biopolítica. Trans/Form/Ação, São Paulo, 29(2): 95-114, 2006, p. 95.
5. “Todos conhecem os dois enunciados que respondem à nossa questão. Um diz: técnica é um meio para fins. O outro diz: técnica é um fazer do homem. As duas determinações da técnica estão correlacionadas. Pois estabelecer fins e para isso arranjar e empregar os meios constitui um fazer humano. O aprontamento e o emprego de instrumentos, aparelhos e máquinas, o que é propriamente aprontado e empregado por elas e as necessidades e os fins a que servem, tudo isso pertence ao ser da técnica. O todo destas instalações é a técnica. Ela mesma é uma instalação; expressa em latim, um instrumentum.
[...]
É correto dizer: também a técnica moderna é um meio para fins. Por isso, todo esforço para conduzir o homem a uma correta relação com a técnica é determinado pela concepção instrumental da técnica. Tudo se reduz ao lidar de modo adequado com a técnica enquanto meio. Pretende-se, como se diz, ‘ter espiritualmente a técnica nas mãos’. Pretende-se dominá-la. O querer-dominar se torna tão mais iminente quanto mais a técnica ameaça escapar do domínio dos homens.”
(Grifos meus) Heidegger, Martin. A questão da técnica. Scientiæ Studia, São Paulo, v. 5, n. 3, p. 375-98, 2007, p.376.
6. Aliás, [...] a técnica deixou de ser um instrumento na mão do homem e molda, hoje, a sua percepção, sua fala, sua audição”. Georg Friedrich Jünger, A Perfeição da Técnica (1953), apud Brüseke, op. cit., p. 47.

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12 Comments on “Propagandas pela metade, equívocos inteiros e… a técnica, de que somos reféns”

  1. #1 Gwyn
    on May 2nd, 2009 at 2:48 am

    Ricardo..

    so para deixar um beijo, afinal faz tanto tempo que nao consigo ter tempo de acessar e ler nada por aqui..
    fico com um partezinha do que escreveu

    “..tendemos a “deixar com eles” muito do que talvez devesse estar em nossas mãos…”

    engracado que nas fotos, o que realmente me chamou atencao foram os dedos (e a mao) que segurava o cartao.

    saudades

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Gosto da parte que destacou, Gwyn, embora seu conteúdo seja mesmo complicado, já que “delegamos demais” para outrem muito do que nos cabe.

    E quanto às mãos das fotos, posso te dizer que felizmente as pessoas não estão dando suas responsabilidades a elas… :-P

    Bjs

    [Responder]

  2. #2 Gwyn
    on May 3rd, 2009 at 2:40 am

    As maos das fotos sao sabias….

    ;)

    [Responder]

  3. #3 cesarkiraly
    on May 4th, 2009 at 1:09 pm

    Amigo Ricardo,

    você é a síntese entre rigor e facilidade de leitura.

    Um forte abraço,

    Cesar

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Cesar, elogio teu, e ainda por cima nesses termos, tem peso dobrado!

    Gostaria mesmo era de que essas reflexões do post estivessem bem mais maduras. Se assim fosse, poderia ter sido mais conciso e bem mais claro para muito mais gente, abrindo mais espaço para a discussão. Tenho para mim que tudo o que escrevi inibiu um pouco a participação dos que costumam comentar na Ágora — gente do mais alto gabarito, diga-se de passagem. Nesse sentido, acredito que a falha seja mesmo minha.

    Abração!

    [Responder]

  4. #4 Guilevy
    on May 4th, 2009 at 6:06 pm

    Ricardo, tudo bem?
    Há tempos o Pedro Doria indicou um livrinho chamado “Em que crêem os que não crêem”, diálogos trocados entre Umberto Eco e o cardeal Carlo Maria Martini em forma de cartas. Você o leu? No final são publicados textos críticos e o primeiro destes, denominado “A técnica é o ocaso de qualquer boa-fé”, do filósofo italiano Emanuele Severino, vai ao encontro (ou de encontro, discussão boa) deste seu post.
    Tomo a liberdade de colocar aqui o parágrafo final para me apoiar:
    “Mas acima das formas filosófico-religiosas da boa-fé, e todavia legitimada pela inevitabilidade deste ocaso, coloca-se há muito tempo a ética da ciência e da técnica, ou seja, a boa-fé constituída pela convicção de que aquilo que deve ser feito, a tarefa suprema a ser realizada é o incremento indefinido daquela capacidade de realizar objetivos que o aparato científico-tecnológico planetário está convencido de saber promover mais que qualquer outra força e que hoje é a condição suprema da salvação do homem sobre a Terra. No tempo da morte da verdade, a ética da técnica tem a capacidade prática de subordinar a si mesma qualquer forma de fé. Mas qual é o sentido da técnica? E como é possível que a civilização do Ocidente consiga afastar a violência se ela coloca como próprio fundamento aquela fé no devenir que- pensando as coisas como disponíveis para a produção e para a destruição- é a raiz mesma da violência?”
    Abraço

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Guilevy, tempão que não te vejo por aqui! Excelente recorte. Conheço o título, mas não o li, por isso só poderei comentar a partir desse trecho.

    De fato, como aponta o próprio Brüseke (no artigo lincado no post), há uma discussão necessária sobre a “ética da técnica”, e o Hans Jonas, em seu “O princípio da responsabilidade - proposta de uma ética para a civilização tecnológica” levanta boas questões. Primeiro, quando fala da ética tradicional, que “[...] regulamenta [...] as relações entre pessoas” (apud Brüseke, p. 47), sendo portanto uma ética antropocêntrica, “[...] voltada para o ‘agora’ e para o ‘aqui’”, e que se refere “[...] aos resultados imediatos dos meus atos e não conhece dimensões temporais que ultrapassam o tempo das relações humanas” (id.).

    Prossegue Brüseke dizendo que, segundo Hans Jonas,

    “[...] a situação do homem e o contexto de qualquer propósito ético estariam hoje fundamentalmente mudados [...]. A técnica moderna introduziu novos objetos e processos, com conseqüências até então desconhecidas, na sociedade humana, de uma maneira que exigiria uma adaptação da ética (e conseqüentemente da ação humana) aos desafios tecnológicos. A ‘ética do próximo’ teria validez, ainda, nas ‘proximidades’; o futuro da humanidade no seu habitat planetário exigiria, todavia, uma ‘ética da responsabilidade’.
    Essa nova responsabilidade resultaria da posição de poder do homem
    moderno sobre todo destino da terra, enquanto ecossistema e moradia humana. Ele ganhou essa responsabilidade em relação à natureza e em relação ao futuro da humanidade, exatamente por causa do seu poderio técnico.”
    (id.)

    Observa-se agora a necessidade de cuidados com as consequências do uso da técnica, justamente por conta do seu potencial de destruição. A discussão se daria então sobre onde buscar as bases dessa nova ética, uma vez que a tradicional se fundamentava na metafísica. Jonas — e Heidegger antes dele —, busca seus fundamentos na ontologia. Pelo menos tem-se aqui uma possível saída: o ser, posto que a outra alternativa seria o não-ser — que não parece propriamente uma alternativa interessante para a nossa espécie, não?

    [Tomara que os entendidos em Hans Jonas e em Heidegger não achem que falei muita besteira...]

    Abraços

    [Responder]

  5. #5 Diego Viana
    on May 7th, 2009 at 5:10 pm

    Cabral, em primeiro lugar, adorei a maneira como você borrou sem borrar o nome do Mackenzie… É incrível que eles tenham descido a esse ponto!

    Tem um autor que você vai adorar, cuja principal preocupação, bom, uma das principais, foi a técnica. Chamava-se Gilbert Simondon e é menos conhecido do que merecia. O livro mais famoso dele e que trata exatamente do que você está falando, a relação entre o homem e os objetos que ele cria, a tecnologia que ele desenvolve, as técnicas que ele inventa, se chama “Du mode d’existence des objets techniques”. Não sei se foi traduzido no Brasil, mas recomendo.

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Não conheço o Simondon, Diego, vou fuçar, a começar por essa recomendação que vc deixou.

    Abração!

    [Responder]

  6. #6 Um escuro onde a gente vê | Agora com dazibao no meio
    on Jun 12th, 2009 at 7:57 pm

    [...] me pré-existe, mas que se torna cada vez mais gritante. Por isso realmente acredito no que andei dizendo: damos crédito demais às ferramentas que inventamos e crédito de menos àquilo que está [...]

  7. #7 Ulisses Adirt
    on Jul 28th, 2009 at 2:02 pm

    Mto interessante. Tb caí na ironia do cartão e só me toquei vendo o vídeo. Bela reflexão.

    P.S.: Ricardo, vc é uma pessoa muito mais sensata que eu… nem pensei em retirar o nome da instituição…

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Fiquei foi na noia de possíveis queixas, Ulisses. Tempos atrás fiz um post brincando com tipos de depilação e seus respectivos preços (citei o nome de uma franquia de depilação) e acabei recebendo um nada educado e-mail de um escritório de advocacia. Depois disso, barbas de molho!

    Abs

    [Responder]

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