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Algumas razões

Há algo de geracional no que tenho a dizer. Geracional, posto que os meus coetâneos e contemporâneos costumam ser bem mais discretos a respeito de suas vidas do que as gerações mais novas — desde que não sejam contemporâneos do meio artístico, é claro. Mas além de geracional, é também ligado à minha formação profissional e, suspeito fortemente, a dimensões mais pessoais e privadas. E como para mim aquilo que é mais pessoal significa (ainda) que não serve para ser tornado público, seguirá assim, privado.

Mas chega de tergiversar. O que me ocorre dizer vem de um comentário que deixei no (ótimo) blog da Lu, É bom pra quem gosta, e diz respeito às minhas reservas sobre a exposição pública — especialmente na internet ou, por exemplo, nesses  programas de auditório que passam na tevê (e os Big Brothers da vida e demais reality shows também estão no pacote) — de experiências pessoais trágicas, traumáticas. Transcrevo parte do que comentei no post da Lu:

Explico quais as minhas reservas. É que em boa parte das vezes, quando o que se busca ainda é um efeito catártico, libertador, uma tentativa de enfrentar os fantasmas e traumas de determinadas experiências, essas exposições públicas perdem parte do efeito pretendido simplesmente por não estarem diante da ‘plateia’ ideal (ou ao menos pretensamente ideal), isto é, pessoas mais significativas para você — sejam elas amigas, parentes, profissionais psi, grupos de apoio etc. O resultado é que depois desse esvaziamento inicial, que não deixa de ter seu lado bom, o vazio que sobra ‘pede’ para ser compreendido, trabalhado, algo que o desabafo por si só dificilmente dá conta, pois fica muito aquém da necessária e desejada elaboração daquela experiência, uma busca de reparação. E o complicado é que depois de um tempo tendemos a repetir essa mesma exposição em foros que não são os ideais para a mínima elaboração dessa experiência.

Como disse, uma parte das minhas reservas se confunde com a minha (de)formação profissional. Há de ser uma limitação, na opinião de alguns. Aceito a crítica, e não me furto a pagar o preço por ela.

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2 Comments on “Algumas razões”

  1. #1 Darwinista
    on Jun 26th, 2009 at 11:39 pm

    Ricardo, li duas vezes o texto e creio que concordo com você. Mas me parece que esse fenômeno da confusão catártica não ocorre apenas quando a pessoa está sob os holofotes reais ou da internet. A cultura da exposição está ficando tão impregnada que um estranho que dá atenção ja é encarado como platéia. E aí, dá-lhe “desabafo” travestido de terapia.

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Vc tem razão, Darw, acontece em todo canto. Dei atenção à internet e aos realities só por andarem em evidência.

    Tantas pessoas conhecemos que costumam repetir o mesmo desabafo em todo cenário onde a encontramos, não? No trabalho, no bar, no supermercado, numa fila qualquer, e dá-lhe desabafo — geralmente o mesmo, com pequenas variações. Fica aquele discurso pré-mastigado, tanto que o sujeito bem poderia gravá-lo, e em vez de tornar a dizê-lo para a audiência da vez bastaria apertar o “play”, sair de cena e deixar os outros ouvindo… Daria quase no mesmo!

    [Responder]

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