“Trem parador com destino a Deodoro.
Próxima estação, Engenho de Dentro”. Queria mesmo é que esse anúncio fosse com a voz daquela moça já não tão moça do aeroporto, como é mesmo o nome?, ah, da Íris Lettieri, e todos os pêlos eriçaram só de lembrar. Não era. Claro, o que ela faria ali, a caminho de Madureira? Também, não importa, já ia saltar mesmo, faltavam só três paradas. Levantou e começou a se deslocar para a primeira porta do primeiro vagão, que, obsessivo que era, adorava coordenar as coisas. Onde era a saída daquela estação, qual o vagão e qual de suas três portas ficava estrategicamente mais próxima dela, a escada, qual o menor número de passos para chegar até aquelas enormes catracas de formato quase universal, com que pé começaria a andar para que o último fosse o direito, o de sua preferência. Isso tudo em frações de segundo, repetidas ad infinitum, tornando o tempo da costumeira viagem mais curto e minorando o enfado. Mas a alvorada prenunciara o mau agouro, que saltar da cama e por incompreensível engano apoiar-se no pé esquerdo era, batata!, azar pelas próximas vinte e quatro horas. Daí a razão de ter posto de molho as barbas que não tinha, antecipando em duas estações o seu deslocamento para o primeiro vagão do tal parador rumo a Deodoro. Mas destino é assim mesmo, não dá para dar-lhe rasteira que ele é bom nos contra-golpes, o danado há de ser faixa-preta de judô, se bem que maktub é árabe e não japonês, segundo lera nos livros de Paulo Coelho, o Mago, ou vira numa novela das oito. E com isso outras centenas de frações de segundo se passaram, até o fatídico instante em que, no corredor do primeiro vagão, as suas divagações metafísico-obsessivas foram devidamente postas para correr pelos urros daquele sujeito enorme, de cabeça desproporcionalmente pequena praquele corpanzil todo. “Cadê tua Oxum, cadê teu Oxóssi, traz eles aqui pra ver se curam que nem Criiisto!”, imprecou, e bem nos ouvidos do azarado-obsessivo-metafísico. E assim que aquela voz de trovão parou de reverberar em seu cérebro, juntou-se de coragem e pediu respeitosamente só um minutinho, que ele tinha uma dúvida de ordem semântica, omitindo a palavra semântica, obviamente. E com ar entre inocente e cansado, trouxe da memória um conhecido raciocínio e desfiou-o de supetão: “Rapaz, prestenção, se esse teu Deus é tão poderoso, então por que você não pede pra ele criar uma pedra tão grande, mas tão grande que não possa carregar? Só tem um problema: se ele não conseguir criar essa pedra, então não é tão poderoso assim. E se criar e não conseguir levantar, também não tá com essa bola toda não”, as últimas palavras ditas já de saída pela porta central do primeiro vagão, pé esquerdo primeiro, chegando com o direito de sua preferência à enorme catraca de formato quase universal, feliz por pegar o destino no contrapé e afirmar a superioridade do Oriente Distante sobre o Oriente Médio, ao menos nas artes marciais.
[Mais um texto antigo republicado por pura falta do que dizer misturada com preguiça.]















on Jul 2nd, 2009 at 12:15 pm
Beleza de texto, Ricardo.
Não quero ser chata, mas além da fruição estética, apreciei as belamente trabalhadas tessituras, o que eu chamo de contexturas do texto. Bonitas, mesmo!
E, no final, que interessante a sua criação para uma das mais graves questões da Teodicéia.
Aê, amigo querido, você e sua versão do Teorema de Pascal:-)
Beijos e saudades
Meg
P.S. Ainda estou claudicando:-), mas sofrendo menos. Logo,logo, volto à toda:-) Obrigada pela grande força, hein?
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Ricardo C. Reply:
July 4th, 2009 at 2:02 pm
Meg, surpresa boa te ver por aqui! E suas palavras elogiosas são um bálsamo, viu? Me diverti escrevendo, isso eu posso garantir. Mas é texto antigo, sinto-me na obrigação de escrever coisa melhor.
Beijos, feliz por saber que agora é melhora atrás de melhora!
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