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O sociólogo, Obama e os bodes

O sociólogo Boaventura de Sousa Santos, em sua última coluna para a Agência Carta Maior, faz uma interessantíssima avaliação sobre o presidente Barack Obama, passados quase dez meses de sua posse:

A hipnose é um estado psíquico, induzido artificialmente, em que o hipnotizado, numa condição semelhante à de transe, fica altamente sujeito à influência do hipnotizador. O estado de concentração hipnótica filtra a informação de modo a que ela coincida com as diretivas recebidas. Estas, por sua vez, podem trazer à consciência do hipnotizado memórias por ele suprimidas. A hipnose pode conduzir a atos destrutivos para o próprio ou para outros e, passado o seu efeito, o contacto com a realidade pode ser penoso. O mundo (não todo, mas uma boa parte) vive hoje em estado de hipnose e o hipnotizador é Barack Obama (BO). A hipnose consiste numa mudança radical de percepção sobre o que se passa no mundo sem que na realidade haja razões para sustentar tal mudança. Em que consiste a mudança e donde provêm os poderes hipnóticos de Obama? O que se passará quando o estado de hipnose desvanecer?

A mudança de percepção ocorre em diferentes áreas. A crise financeira global. Mudança: as medidas corajosas de BO para regular o sistema financeiro e assumir o controle de empresas importantes fez com que a crise fosse ultrapassada e a economia retomasse o seu curso. Realidade: BO injectou montantes astronômicos de dinheiro dos contribuintes nos bancos e empresas à beira do colapso sem assumir o controle da sua gestão; não introduziu até agora nenhuma regulação no sistema financeiro; prova disso é o regresso do capitalismo de casino à Wall Street com o banco Goldman Sachs a registar lucros fabulosos obtidos através dos mesmos processos especulativos que levaram à crise, enquanto o desemprego continua a aumentar e os americanos continuam a perder as suas casas por não poderem pagar as hipotecas.

O regresso do multilateralismo. Mudança: BO cortou com o unilateralismo de Bush e os tratados internacionais voltaram a ser respeitados pelos EUA. Realidade: as recentes negociações de Bangkok, que deveriam levar ao reforço do frágil Protocolo de Kyoto sobre as mudanças climáticas, conduziram, por pressão dos EUA, ao resultado oposto com a agravante de terem atenuado as responsabilidades globais dos países desenvolvidos, os grandes responsáveis pela degradação ambiental; os EUA, que não assinaram a Declaração de Durban contra o racismo, auspiciada pela ONU em 2001, voltaram a retirar o seu apoio à declaração sobre a revisão da declaração de Durban elaborada na reunião da ONU de Abril passado em Genebra, arrastando consigo vários países europeus; os EUA desautorizaram o corajoso relatório do Juiz Goldstone sobre os crimes de guerra cometidos por Israel e o Hamas durante a invasão israelense da faixa de Gaza no Inverno de 2008, e, juntamente com Israel, pressionaram a Autoridade Palestiniana a fazer o mesmo.

O fim das guerras. Mudança: BO estendeu a mão da fraternidade e do respeito ao mundo islâmico e vai pôr fim às guerras do Oriente Médio. Realidade: sem dúvida, houve mudança de retórica, mas Guantánamo ainda não encerrou; os generais dizem que a ocupação do Iraque continuará por muitos anos (ainda que os soldados sejam substituídos por mercenários); os pobres camponeses afegãos continuam a ser mortos “por engano” por bombardeiros covardemente não tripulados e as mortes estendem-se já ao Paquistão com consequências imprevisíveis; a burla da ameaça nuclear iraniana continua a ser propalada como verdade; no passado dia 10 de Setembro, BO renovou o estado de emergência, declarado inicialmente por Bush em 2001, sob o pretexto da continuada ameaça terrorista, atribuindo ao Estado poderes que suprimem direitos democráticos dos cidadãos.

As bases militares na Colômbia. Mudança: sem precedentes, BO criticou o golpe de Estado nas Honduras, o que dá garantias de que as sete bases militares a instalar na Colômbia são exclusivamente destinadas à luta contra a droga. Realidade: BO criticou o golpe mas não lhe pôs termo nem retirou o seu embaixador; o alcance dos aviões a estacionar na Colômbia revelam que os verdadeiros objetivos das bases são 1) mostrar ao Brasil que, como potencial regional, não pode rivalizar com o EUA, 2) controlar o acesso aos recursos naturais da região, nomeadamente da Amazônia, 3) dissuadir os governos progressistas da região a terem veleidades socialistas mesmo que democráticas.

Donde provém o poder hipnótico de BO? Da insidiosa presença do colonialismo na constituição político-cultural do mundo. O Presidente negro de tão importante país dá aos fautores históricos do racismo no mundo contemporâneo o conforto de poderem espiar sem esforço a sua culpa histórica, e dá às vítimas do racismo a ilusão credível de que o fim das suas humilhações está próximo.

E o que passará depois da hipnose? BO está preparando-se meticulosamente para governar durante oito anos, fará algumas reformas que melhorarão a vida dos americanos, ainda que ficando muito aquém das promessas (como no caso da reforma do sistema de saúde) e sem nunca pôr em causa a vigência do Estado de mercado; evitará a todo custo “mexer” no conflito Israel/Palestina; manterá a América Latina sob apertado controle; agradará em tudo a China, tal o medo que ela deixe de financiar o american way of life; deixará o Irã onde está e, se puder, sairá do Afeganistão; tudo isto num contexto de crescente declínio econômico dos EUA em parte camuflado pelo aumento das despesas militares algumas delas orientadas para o controlo de conflitos internos.

Em primeiro lugar, é muito prazeroso ver alguém à esquerda fazer uma análise crítica de um personagem que muitos à direita identificam como “inimigo” — pouco importando que o evidente binarismo dessa identificação seja de uma miopia e superficialidade atrozes. Eu só acrescentaria à análise do sociólogo uma besterinha: por mais que o Barack Obama tenha esse poder hipnótico, é preciso levar bem mais em conta o que representaram os oito anos anteriores, caracterizados pelo tal unilateralismo que o Boaventura Sousa Santos menciona no terceiro parágrafo de sua análise. Esses oito anos do mundo sob a administração Bush Junior foram simplesmente a encarnação da piada do bode na sala.

Lembram dela? Alguns dizem que é de origem chinesa, outros que é árabe e tem até versão nordestina. A que eu conheço tem uma sogra e um rabino muito sábio. É o seguinte. Num apartamento mínimo, moravam bem apertados um jovem casal e seus três filhos. Tudo ia mais ou menos, até que a sogra do rapaz foi morar com eles. Alguns dias depois, o rapaz foi conversar com o rabino de sua comunidade, na esperança de uma solução para o seu padecimento.

— Rabino, a minha sogra veio morar comigo, e a vida, que não estava lá essas coisas, agora virou um horror. Brigamos o dia todo, as crianças estão irritadas, minha mulher nem fala mais comigo. O que faço?

E o sábio rabino responde:

— Filho, vá ao mercado e compre um bode, um bode vivo, e leve-o para a sua casa.

— Vivo?!? Mas eu moro num apartamento…

— Não discuta, meu filho, faça o que estou dizendo.

O rapaz compra o bode e leva-o para casa. Dali a três semanas ele volta para falar com o rabino:

— Rabino, se a minha vida era ruim, só fez piorar. Sigo discutindo com a minha sogra, sobretudo por causa do bode, que já comeu o tapete e uma parte do sofá. As crianças vivem puxando o rabo do bode, ele dá cabeçadas nelas, elas choram, minha mulher grita… Por favor, o senhor que é tão sábio diga pra mim: o que faço?

— Filho, vá ao mercado e compre outro bode. E já disse antes que não é para discutir, é isso mesmo que você deve fazer.

Ele fez, e voltou dali a duas semanas:

Pelamor de D’us (sic), Rabino, os bodes tão se matando, as crianças gritam, já nem sei mais da minha sogra e a minha mulher parou de falar comigo… O que faço???

[Daria para aumentar o número de bodes a serem comprados, mas é melhor parar por aqui.]

— Filho, agora vá ao mercado e venda todos os bodes.

Três dias depois o rapaz volta para agradecer ao rabino, dizendo que a sua vida agora era uma maravilha, que a paz reinava em seu lar e que não podia imaginar o quanto adorava a sua sogra…

.

Ou seja, o que os norte-americanos fizeram foi simplesmente desfazer-se do seu bode-mor, isto é, da administração Bush Junior. Consequentemente, qualquer coisa que o Obama diga ou faça soará como música da mais alta qualidade aos ouvidos de considerável parte do mundo. Até quando? Até que o Obama mude de papel na piada e passe a representar não mais o rapaz que se desfez dos bodes, mas sim o de uma dessas sogras estereotípicas, cujo poder de azedar qualquer relação matrimonial é maior do que o arsenal nuclear existente no planeta, e que nem a venda de 300 bodes vivendo num conjugado em Copacabana daria conta de neutralizar.

Espero, sinceramente, que isso não aconteça.

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12 Comments on “O sociólogo, Obama e os bodes”

  1. #1 Rafael Reinehr
    on Oct 24th, 2009 at 1:07 pm

    Amigo Ricardo, apesar de você não publicar com muita frequência postagens políticas, sua análise, pontuada pela brilhante percepção do Boaventura, mostra que deverias te aventurar com mais frequência por estas sendas. Bom te ler.

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    RR, minha autocrítica não me permite maiores arroubos nessa seara. Não que seja despossuído de opiniões que eventualmente resultariam em posts mais assumidamente políticos, mas percebo que não tenho tanto a dizer sobre assuntos d gênero que outros não façam muitíssimo melhor do que eu…
    Obrigado, mesmo assim.

    [Responder]

  2. #2 Tarilonte
    on Oct 24th, 2009 at 5:25 pm

    O Boaventura sabe das coisas, heim?
    Sinceramente, estou calejado demais para acreditar em qualquer mudança que não seja para pior. Principalmente se tais mudanças são revestidas de pó de pirlimpimpim, que fazem as medidas - do BO, Lula ou quem quer que seja - parecerem soluções mágicas.

    O pressuposto básico do poder é. “Meu único interesse é me manter no poder”. É um fim em si mesmo. Seria ingenuidade acreditar que alguém recebesse, como em uma sessão de macumba, o espírito de Jesus e desandasse a fazer o bem. Mesmo porque Jesus não era espírita.

    O fato é que o mundo é um pau de sebo com uma nota falsa na ponta. É tudo um grande circo, uma grande farsa montada para afastar da nossa mente a consciência daquilo que realmente somos: servos.

    A farsa está cada vez mais elaborada e complexa. Cada mais bem escrita e com atuações cada vez melhores. Mas o roteiro não muda. Olhares atentos como o do Boaventura percebem isso.

    Para finalizar, só quero dizer o que realmente me faz dar de ombros para tudo isso. É a certeza que, mesmo que houvesse uma mudança total, uma revolução ou qualquer outra coisa, nesse momento os novos dominantes assumiriam a mesma premissa que os fizeram se insurgir. Isso está na condição humana e é impossível de ser mudado.

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Não sou tão descrente quanto você, Tarilonte, pois mesmo que eu veja que as disputas de poder de hoje em dia muitas vezes são barra-pesadíssimas como as dos Médici da Renascença, reconheço que a complexidade do mundo é bem maior, com resultados variando de maneira distinta de outras épocas. A servidão, que na Idade Média tinha a “resignação” como palavra de ordem, ganhou a perspectiva de outra palavra: “esperança”. Parece tolice, avaliação “pollyânica” da vida, mas fez diferença.

    P.S. Vi comentários seus no Rafael Galvão, a propósito dos posts sobre Boxe e Vale-Tudo. Gostei bastante do que li, mesmo não concordando com a sua sugestão de que haveria esqueletos no armário do blogueiro.

    Abs

    [Responder]

  3. #3 andreegg
    on Oct 25th, 2009 at 8:29 am

    Ricardo,

    não sei quanto ao bode na sala, desconfio que você tem razão. Pode-se aplicar também a lógica à situação inflacionária no Brasil, cujos méritos de tirar o bode couberam a FHC.

    Agora, os casos Lula e Obama mostram uma certa infantilidade política, uma crença pueril na resolução de todos os problemas pela eleição de um homem bom, bem-intencionado. Males do presidencialismo.

    O controle das decisões políticas, mude-se de Bush para Obama ou de FHC para Lula, está onde sempre esteve: nas grandes corporações e nos órgãos de imprensa/publicidade delas derivados. Ação do Estado é muito limitada. E controle social do Estado é uma utopia distante…

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Concordo, André, embora veja uma movimentação muito grande e o surgimento de novos atores no atual cenário globalizado, inclusive com a presença cada vez maior do “quarto setor”, o de atividades ilegais — tráfico (drogas, armas, pessoas etc), pirataria e outros. Que os Estados-nação andam patinando ainda mais diante da velocidade dos processos (sociais, econômicos, comunicacionais etc), isso é fato. Que o surgimento de verdadeiras Cidades-nação tem o seu quinhão nesse desequilíbrio, também é notório. Mas suponho dificuldades para os velhos atores que vc mencionou, seja pelas reviravoltas no setor de comunicação, seja pela importância que o BRIC adquiriu… Enfim, joguei no liquidificador vários dos ingredientes que ora se destacam, e o resultado não me parece igual ao da receita de décadas anteriores.

    [Responder]

  4. #4 He will be Bach
    on Oct 25th, 2009 at 10:09 am

    Fico espantado com uma análise tão lúcida do Boaventura. Ele despencou vertiginosamente no meu conceito quando escreveu, em “Pela Mão de Alice”, que “segundo Hegel, a família é a tese, a sociedade civil é a antítese e o Estado é a síntese”.
    Desde então, passei a deplorá-lo, desprezá-lo e ridicularizá-lo.
    Mas talvez tenha sido o estagiário que escreveu isso.
    Ou será que foi o estagiário que escreveu o texto sobre o Obama??? :)

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Meu conhecimento de Hegel é tanto que eu seria capaz de jurar que foi ele o co-autor do Manifesto Comunista, junto com aquele seu amigo bigodudo, o Groucho Marx… :-P

    Deixemos a autoria da análise para depois, HwbB, e fiquemos apenas com o conteúdo, que ambos concordamos que é bem bonzinho, né?

    Abração

    [Responder]

    He will be Bach Reply:

    Hehehe… Tenho um amigo que é professor de cursinho e às vezes tem de aturar um que outro aluno perguntando se “Marx ainda está vivo?”
    Ele responde:
    - Se estiver, deve estar muito chateado.
    - Por quê?
    - Porque enterraram ele!!

    De fato, o texto é legal. Uma crítica sensata, pé no chão, sem histerias como a camiseta do “the solution for Obama Communism is a New Era of McCarthism” ou o RA chamando-o de Hussein para ver se ele fica mais parecido com terrorista.

    Abraço chuvoso!

    [Responder]

  5. #5 Catatau
    on Oct 26th, 2009 at 3:47 pm

    Boa!

    E vai bem pela moral da história do Obama ganhar o Nobel mesmo: com o Bush o negócio estava russo (ou texano) mesmo!

    [Responder]

    Ricardo C. Reply:

    Verdade, Catatau, estava russíssimo, em níveis pra lá de putinescos, hehe!

    Mudando de assunto, problemas com o blog? Não consegui acessá-lo hoje.

    Abs

    [Responder]

  6. #6 Catatau
    on Oct 26th, 2009 at 10:39 pm

    Poisé, derrubaram o blog! Problemas de servidor no blogsome, ou sabe lá o que ocorreu. Um monte de gente está sem blog, enquanto outros ainda rodam normalmente.

    E os admins nem se pronunciam!

    [Responder]

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