Décadas atrás — na internet, passadas algumas semanas de qualquer notícia/post/mimimi, essa é a medida temporal que fica —, olhando os feeds de alguns blogs, vi que dois deles tratavam do mesmo assunto, embora por perspectivas diferentes: a comida. Achei até que fosse um sinal, a senha para desencavar um post inacabado e quase mofado dos meus rascunhos, mas que merecia melhor destino. Mas se não sabe, digo a você como são as coisas na cabeça deste blogueiro agnóstico: o costume de delongar e de não dar trela a supostos “sinais do além” é regra corrente.
Mas o assunto não tem culpa de nada, e os tais dois posts de tempos atrás já constavam deste rascunho. Por que então não retomá-lo no almoço de uma terça-feira?
O primeiro blog citava a interessante matéria do Times sobre o lançamento do livro “Como cozinhar nos tornou humanos”, do antropólogo Richard Wrangham. O livro em questão destaca a primazia não do sexo, mas da cocção dos alimentos como base dos relacionamentos humanos e da evolução da espécie. E como a matéria está em inglês, nada melhor do que um ótimo atalho feito por terceiros, que ainda por cima tripudia dessa hipótese:
A mais nova tese levantada sobre a evolução humana é que, por sermos os únicos animais que cozinham, o tempo poupado na mastigação e uma maior absorção de nutrientes, fez com que nos tornássemos os únicos seres com cérebros grandes, capazes de saber que ao final dessa festa toda morreremos. E a cocção também nos fez sociáveis, casamenteiros, urdidores de prole. Mas aí tem sempre um idiotazinho enxerido que vem com os urubus. Urubus? [...] Os urubus vivem em sociedade, e são tão rigorosos com esse negócio de culinária que desde tempos imemoriais só comem a carcaça cozida pela natureza: desidratada e já parcialmente digerida para um maior aproveitamento. E, por mais que os efeitos do aquecimento global estejam danosos, nunca vi uma ave destas com dúvidas existenciais suficientes para um suicídio de não-bater de asas dramático; e nas fotos, o cara por detrás da mesa de autógrafos assinando um exemplar d “O Alquimista”, não tem penugens marciais de urubu-rei em torno do pescoço, mas a santimônia de uma rabicho de cabelo atrás da nuca. [Parte de um comentário de Charlles Campos feito num (como sempre ótimo) post do Milton Ribeiro]
A menção ao escritor (sic) Paulo Coelho foi só “a cereja do bolo”, claro, daí a minha sorridente gratidão e o pedido de licença para republicação com o devido crédito, como é de praxe. Mas já que fiquei satisfeito apenas com esse comentário a respeito da referida tese do Richard Wrangham — e quem quiser mais pegue um taxi e siga aquele link! do Times lá em cima —, faltou citar o outro post, que falava do filme Julie & Julia, dirigido por Nora Ephron, que narra a história da tal Julie reproduzindo durante um ano as receitas de cozinha do livro Mastering the Art of French Cooking, de Julia Child. (Até alguns meses atrás, mesmo com a Meryl Streep no filme, achava pouco provável assistir. Ter visto A Festa de Babette, Como Água para Chocolate, O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e o Amante e A Comilança, entre outros, bastava. Mas aí comecei a papear com a minha mais nova amiga de infância, que andou falando bastante desse filme, e resolvi vê-lo, na base da pipoca e do namoro no sofá. Foi bom, sobretudo pelo namoro.) Como vedes, não se trata de mero acaso, mas de antropologia e cinema, duas áreas que, apesar de distintas, me interessam bastante e que são a base desses posts que abordaram um tema só: a comida. E este último, assim como o sexo, a religião e as guerras, é mesmo um dos temas que movem a humanidade, para o bem e para o mal.
De sexo, religião e guerras é do que mais ouço falar, mais ainda nesta esfera virtual. Mas de comida não tanto, exceto receitas de. Não posso passar batido pelo fato de que a comparação de comportamentos em relação à comida é tema de interesse e pesquisa há mais de 100 anos, com muita documentação sobre eles.1 Só não vejo com tanta frequência abordagens mais cotidianas e menos acadêmicas sobre o assunto, ao menos não além das ditas receitas ou do exotismo de culinárias de países “distantes”. (Parêntese. Não custa lembrar que não sou antropólogo, sociólogo ou especialista no assunto, o que significa que o fato de não encontrar algo por aí não é parâmetro para dizer se isso é comum ou não: é apenas o parâmetro para dimensionar a minha ignorância. Quero apenas escrever um post, nada além disso. Fecha parêntese) Não à toa lembrei de um vídeo que recebi por e-mail tempos atrás, e que suponho que muitos já conheçam. Aliás, vale o aviso de que não é para estômagos sensíveis, justamente por tratar do assunto em pauta. O vídeo mostra um concurso realizado na China, do “chef mais eficiente”, e foi gravado ao ar livre. A medida da eficiência dos chefs vem da combinação entre o tempo dispendido na preparação dos pratos — quanto menor, melhor — e a garantia de que seus ingredientes principais permaneçam, er… Bom, tome as devidas cautelas e assista, depois conversamos:
Se te faltou coragem, vou contar o que o vídeo mostra e que deixei de fora no primeiro parágrafo. Ganha o concurso não só quem preparar o prato no menor tempo possível, mas também quem conseguir que os ingredientes principais — neste caso, uma cobra e um peixe — sigam “vivos”, isto é, ainda se mexam depois que o prato estiver pronto.
Mas antes de partir para o que me interessa a respeito do vídeo, quero contar sobre ter assistido, no ano retrasado, à palestra de um antropólogo japonês sobre a história e as características da culinária do seu país.
[Por favor, não é hora de perguntar sobre que diabo eu fazia numa palestra dessas. Digo apenas que me diverti, e que tampouco é hora de perguntar que raio de concepção de diversão é essa que eu tenho.]
O palestrante, ao falar das influências religiosas e do intercâmbio com outros países sobre a comida japonesa, acabou contando uma anedota a respeito do que os chineses podem ou não comer — não custando lembrar o quão complicadas são as relações sino-japonesas, marcadas também (e muito) pelo preconceito. Segundo informações colhidas junto aos meus neurônios, a anedota sobre a culinária chinesa diz o seguinte:
Tem duas pernas, não é pai ou mãe, então pode comer.
Tem quatro pernas, não é mesa, então pode comer.
Tem asas, não é avião, então pode comer.
Vai dentro d’água, não é submarino, então pode comer.
Tem lá o seu interesse saber como os japoneses fazem troça dos chineses, e creio que o vídeo lá de cima é um exemplo que não deixa de corresponder ao que a anedota diz. Mas esse tipo de piada não é o que pretendo discutir, foi só uma lembrança pitoresca. Enfoco o que o vídeo mostra, para além dos possíveis engulhos que seja capaz de provocar. Sendo assim, se transpusermos o que ocorre nas imagens para um contexto mais próximo da gente, culturalmente falando — supondo que você e eu compartilhemos um —, dá para discutir questões como o nojo, o sagrado/profano, entre outras. Só evito tecer considerações ou avaliar/julgar o que os chefs chineses e os organizadores do concurso pensam, pois não sei “ser” um chinês, ao menos não de maneira suficientemente próxima para arriscar-me a tal. Interesso-me mesmo é como o que eles fazem nos afeta. E começo pela questão da crueldade com os animais, que suponho seja um ponto assaz incômodo para grande parte de nós, arrisco a dizer. Vale comentar que cá pras nossas bandas é mesmo diferente, sobretudo porque os abatedouros costumam ficar longe da vista da gente, e assim ninguém acompanha o processo que leva bois, porcos, galinhas, simpáticos patos, coelhos fofinhos etc. até aqueles pratos de isopor envoltos em filme de pvc transparente, dessas que “me enganam que eu gosto“, já que por conta disso o bicho nem parece tão bicho assim, o que dilui esse mistura de desconforto, nojo e culpa que costuma acometer a tanta gente. E o que os olhos não veem…
Esse desagrado com comidas onde “o bicho tem cara de bicho” não é uma regra para todo o mundo, nem tampouco em relação a todo tipo de animal, é claro. Peixes e frutos do mar parecem não incomodar tanto quanto um coelho, um leitão ou uma rã inteiros sobre a mesa — a depender do país e da região, vale dizer —, e o desconforto aumenta diante de alguns animais que também servem de companhia em casa ou são parte da atividade laboral — caso dos mencionados coelhos, consumidos “lá e cá”, e de cães e gatos, por um lado; e de cavalos, burros e camelos, por outro, e que também fazem parte da culinária de vários países.
Agora voltemos ao vídeo. Há algo de errado nele? Bom, se a gente puser aspas na palavra “errado”, talvez a conversa melhore. Porque o certo e o errado, a esta altura do campeonato, você já sabe que são de uma relatividade que vai até o tutano dos ossos. Então que “errado” você percebe nele? Que sentimentos ele te provoca? Nojo? Indignação? Um misto de incômodo e de curiosidade? Estranhamento? Fome? Indiferença? (Desconforto por conta de sua indiferença?)
Eu só posso falar por mim, não por você. E o que vem a minha mente diz respeito sobretudo a parâmetros, parâmetros estabelecidos na esfera de qualquer cultura, sobre tudo aquilo que pode (ou até deve) ser mostrado ou encoberto, glorificado ou mantido envergonhadamente secreto, longe da vista dos demais. Nesse sentido, no que se refere à comida, haveria uma espécie de código relativamente recente entre predador (nós, humanos) e presa (os bichos que morrerão para nos alimentar), “aplicado” especialmente aos que vivem em aglomerados urbanos razoavelmente longe de onde se criam ou capturam as ditas presas.
Desse código faria parte excluir, na maioria das vezes, o consumidor do processo de transformação desse ser vivo, muitas vezes considerado simpático ou até mesmo fofinho,
em alimento enlatado ou posto em qualquer outro tipo de embalagem sem “cara de bicho”, sem que nele haja cheiro de abate, de morte, e, por extensão, sem que se suponha sofrimento atroz à presa, com requintes de crueldade, com o predador deliciando-se com isso. (O cartunista Quino tem um ótimo livro chamado A La Buena Mesa, de onde tirei a charge ao lado. Recomendo.)
Aliás, por mais que hoje em dia muito do que envolve o processamento dos alimentos tenha saído da cozinha, “isto é dos fundos da casa, de sua parte menos nobre”, 2 vale dizer que o referido processamento não costuma ser completo, já que quase sempre o alimento chega pré-processado. É possível que alguns de vocês tenham tido a oportunidade de ver uma galinha ciscando no quintal horas antes de ser servida no almoço, ou que outros tantos a escolheram ainda viva num pequeno abatedouro perto de casa, com o vendedor levando-a para os fundos do estabelecimento e trazendo-a de volta embalada em plástico depois recoberto em jornal ou em papel pardo, com o sangue num saquinho à parte. Mas hoje em dia já não são muitos os que vivem em cidades grandes e têm esse tipo de experiência em seus cotidianos. No máximo assistem com um quê de prazer sádico alguns vídeos no youtube — que é só procurar, há muitos por lá —, mas provavelmente não o fazem perto das refeições.
Enfim, o vídeo parece quebrar um pouco o tal código a que me referi dois parágrafos acima. No afã de mostrar a habilidade de um chef de cozinha no preparo de um prato, ele fez uso de critérios que esbarrariam naquilo que para muitos tem o status de tabu: a proximidade entre a comida e a morte. É verdade que essa proximidade não é estranha aos que caçam o próprio alimento, algo que grande parte da humanidade ainda faz. Mas para aqueles “distantes da natureza”, desfrutando de um modo de vida em que a tarefa de conseguir alimento está cheia de intermediários e de métodos de transformar um bicho em prato, a morte não faz mais parte da fórmula. E parte dos engulhos de muitos passa por aí.
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1 MINTZ, Sidney W. Comida e antropologia: uma breve revisão, Revista Brasileira de Ciências Sociais - Vol. 16 n. 47 outubro 2001, pp. 32-41.
2 ROMANELLI, Geraldo. O significado da alimentação na família: uma visão antropológica. Medicina, Ribeirão Preto, 39 (3): 333-9, jul./set. 2006.
















on Jan 26th, 2010 at 1:48 pm
Caro Ricardo C., surpresa ao ver meu comentário reproduzido aqui. Como são essas coisas… também estive pensando sobre aspectos deste seu instigante post, principalmente sobre a crueldade com animais e a realidade distante que mencionas (tão bem para um leigo) dos abatedouros e matadouros. Talvez já saiba_ se acompanha o Milton_ que sou veterinário inspetor de abate. Como não estou com tempo justo essa semana, onde confluem com uma coincidência incrível esse seu texto com a linha de reflexão que não me sai da cabeça nesses últimos dias, peço licença para postar aqui o longo e deficiente comentário abaixo, que não passa de um rascunho canhestro de um ensaio que em tempo hei de escrever pela própria pressão do tormento. Talvez te sirva em seu aprofundamento do assunto; ou talvez não. Fica livre para apagá-lo, se desejar. Há noções não muito precisas de música, mas absolutamente sinceras até onde vai minha ignorância a respeito do assunto. Abraço!
(…)No meu último ano de curso de veterinária não sabia ainda a qual área iria me dedicar. Eu gostava de tudo, embora uma isca de lucidez me poupasse dos ares aristocráticos da eqüinocultura e do monastério vocacional do estudo dos animais silvestres. Para escolher onde passar os seis meses de estágio, caí na sedução do sobrenome russo de um professor recém chegado à universidade, um senhor corpulento, alto, de olhos azuis e grande barba catedrática que destoava do ambiente campesino, muito parecido com Turgueniév e que era a maior sumidade nacional em suinocultura. De malas prontas, desembarquei numa das maiores granjas de suíno do centro-oeste, acolhedoramente rústica e descomplicada, onde os funcionários já estavam acostumados a estagiários para não se incomodarem comigo. Passava a maior parte do tempo no assim chamado berçário da granja, olhando com o cenho franzido de científica seriedade os leitõezinhos quando o coordenador estava por perto, e me agachando ao lado das baias suspensas para que esses animaizinhos excessivamente curiosos me procurassem colocando as cabecinhas apoiadas na grade, quando não havia ninguém. O cheiro dos animais era forte, imponente, e não precisava de muito tempo para que me familiarizasse com ele e o achasse cheio de um reconfortante poder harmonizador. Se algo perfurasse aquele sólido bloqueio aromático, os suínos já não dormiam, ficavam afoitos e desconfiados. Recordo-me que um dos funcionários amigo meu, enquanto dois outros homens e eu auxiliávamos o cachaço a se sustentar sobre as patas traseiras por sobre a fêmea, todos nós segurando o seu desamparado pênis com a glande rosa exposta para pó-lo na vagina da fêmea, tirou uma foto Polaroid desse evento e a colocou no mural do refeitório, com os dizeres abaixo: “Isto não é uma suruba?”.
Nos últimos três meses passei do idílio do sistema de criação para o estágio final de trabalhar no matadouro contíguo à granja. Eu não era burro o suficiente para nunca ter feito a conexão óbvia do destino desses animais, mas mesmo assim, já no primeiro dia na sala de matança, tive que mudar a composição da monografia que vinha escrevendo. Tinha que abri-la da inércia cega do manejo e das descrições biológicas para acolher as estatísticas financeiras, a aferição da média de ganho de peso, a descrição das características das carcaças, a conversão da ração em centímetros de gordura. Nada nos prepara para o que acontece em um matadouro; nenhum filme, nenhuma memória pretensamente resgatada de nosso longínquo passado de caçadores_ e não há matadouro onde a violência genuína se desacoberte de forma tão crua e brutal de sua aparência de assepsia e eufemismo técnico do que um que mata suínos. Li em algum lugar que outra razão dos patriarcas judeus proibirem o consumo de carne de porco, além da erradicação das doenças provenientes da má conservação da carne branca, era que, à diferença das vacas e dos carneiros, o porco sabe que esta sendo conduzido para a morte. E não haveria como um rabino providenciar os rituais de um abate kosher de um porco de uma maneira que dignifique a carne como um oferecimento semivoluntário do animal. O suíno expressa com todo desespero que não quer morrer. Ele não fica em prontidão na fila do corredor diante o boxe de abate, esperando alheadamente a sua vez no sacrifício: ele tenta escapar, esperneia, revira o corpo, grita. Não há nenhum tipo de pudor na morte de um suíno. É a mais completa decepção do desejo humano de que o animal a ser abatido se desabnege de sua vida com hombridade. O promotor que diante o tribunal do júri salienta que o assassino matou a vítima de forma humilhante e indefesa, tal qual a um porco, faz justiça à imagem.
O repúdio que eu sentia me deixava constantemente deprimido. Não era a questão tola de ter feito amizade com os suínos os quais eu era obrigado a acompanhar até a morte; a eficiência determinista que os condiciona a terem um curto período de vida anula qualquer afloramento de afeição. Mesmo com os simpáticos leitõezinhos era impossível dar a algum um nome e promove-lo a escolhido, pois a cada dia tudo mudava: a máquina, calibrada com precisão, tirava da natureza, numerava, dava uma insípida ração que o enchia e estufava por dentro, e o concluía no produto para consumo com a insuspeita e bem sucedida mudez de que ali havia uma vida, expurgada com incrível carga de sofrimento. Era um estágio novo da domesticação, um outro significado da palavra: não mais a domesticação cúmplice à vida do homem, caseira e terna, mas a ultramoderna despersonalização absoluta. Os animais de uma granja são absolutamente semelhantes entre si. De uma brancura angelical, com o mesmo peso. Não há uma mancha de nascença, um formato desigual de orelha que revele o traço distintivo. Entre dois cães labradores gêmeos há o detalhe idiossincrático da inteligência e vivacidade, entre os dez suínos paridos de uma mesma leitoa e monitorados até a sua conversão em produto, há apenas a tediosa igualdade do laboratório genético na qual já vem estampado o rótulo da morte. A propaganda é fazer crer que se incluíram em alguma espécie de botânica, cuja flor de pureza se abre para oferecer a imaculada carne vegetal.
O repúdio vinha da mente à busca de esclarecimento. Num dos relatórios quinzenais que eu enviava ao dr. Turgueniév, relatei que não se fazia ali o procedimento de atordoamento dos animais, previsto nos códigos de abate, como o eletrochoque ou o uso permissivo da marreta. Isto é: matavam-se os suínos sem dar-lhes o lenitivo do desmaio, o que os pouparia da dor (também isso se explicando pela razão financeira de diminuir o stress e tornar a carne mais macia). Pendurava-se o animal de cabeça para baixo vivo, e o sangrava, não sendo raro que durante a morte lhe sobreviesse a agonia do engasgamento com o próprio sangue. O dr. Turgueniév não esperou para me responder por escrito; pelo telefone da granja eu tive que ouvir sua voz infantilizada me passar a maior bronca: como eu demonstrava tamanha ingratidão escrevendo aquelas barbaridades ofensivas, tendo sido tão bem recebido pela empresa? Enquanto passei a escrever desde então apenas cifras, avaliava as coisas que só interessavam ao meu frágil espírito de contradição, ao meu romantismo afeminado, à minha cegueira canhestra quanto ao nosso direito de extermínio por estarmos no topo da evolução. Enquanto confeccionava pelo computador os gráficos de rendimento de carcaça, de fertilidade da fêmea, enquanto repassava as taxas de fecundação conseguidas pelos machos, me vinha à mente um outro tipo de descoberta sobre os matadouros. Um ouvido levemente treinado na música do século XX sabe que ela deve muito à estética dos sons produzidos dentro das áreas do matadouro. Quando se escuta o som incrivelmente abrangente da caldeira aquecendo a água onde os suínos serão lançados para a retirada dos pelos, ouve-se ali o som que inspirou a música de vários compositores eruditos modernos. Krzysztof Penderecki, Steve Reich, John Cage, Philip Glass. Os alçapões que se batem num clangor premonitório, quando o animal é lançado na grade do chão (uma das peças que esqueceram de empregar um termo suavizante_ chamam-na grade de vômito), o espectador que assistiu aos mais conceituados filmes de terror descobre a semelhança das trilhas sonoras com os guinchos e estribilhos.. Desde o Exterminador do Futuro, Carrie, O Iluminado, Psicose, até a sonoplastia do demônio deixando o corpo da menina, no Exorcista. O matadouro é uma experiência absorvente para os ouvidos quando se acostuma com a riqueza de suas proporções caóticas. Quando se esta ali no momento do trabalho a mais de uma hora, à mercê da narcotização daquelas pancadas eloqüentes, vem uma certeza difícil de explicar, que sempre tentei entender relacionando-a ao que Jonas deveria ter sentido na expansão claustrofóbica do estômago da baleia: a de uma fria inteligência conduzindo os sons, de uma mensagem orquestrada cheia de significados inapreensíveis e que os compositores e artistas mais argutos intuíram.(…)
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Ricardo C. Reply:
January 26th, 2010 at 1:58 pm
Caríssimo Charlles, só li o primeiro parágrafo e parei apenas para rolar a página e escrever a você que um comentário teu aqui no blog muito me honra, e que não apagaria de jeito algum.
Pronto, agora deixe eu voltar lá pra cima e seguir a leitura.
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Ricardo C. Reply:
January 26th, 2010 at 2:43 pm
Charlles, sou um ignorante em matéria de música, mas enquanto lia o teu comentário, juro que a sua descrição da matança, mais do que evocar John Cage ou Philip Glass, soou-me wagneriana como poucas.
Não sabia da tua profissão, e pela grande quantidade de assuntos que te vi dissertar, é pouco provável que adivinhasse. Dito isso, acrescento que o teu relato me faz imaginar uma espécie de “linha de desmontagem” que glorifica a pretensa superioridade do homem, que por isso acaba indiferente diante de qualquer coisa que não seja ele mesmo.
Dr. Turgueniév que me desculpe, mas sua surdez ao desespero de um porco prestes a ser abatido me ofende. Não é preciso ir tão longe quanto os cozinheiros da charge do Quino, mas essa nossa capacidade de sermos indiferentes a tudo não é o que trazemos de melhor em nossa espécie.
Grande abraço e obrigado por deixar aqui esse belo e duro registro.
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charlles campos Reply:
January 26th, 2010 at 3:16 pm
Obrigado, Ricardo C.!
O que procurei trazer com o texto foi que os matadouros repetem tristemente algo de nosso fracasso como espécie.
Adorno, na filosofia, e Coetzee, no romance, dizem bem isto. O Quino, através das atitudes da Mafalda, agora vejo que talvez tenha tomado partido para uma visão mais humanista sobre a comida, e em consequência, no melhor tratamento aos animais. Adorno sustenta a necessidade da contradição, que não há apenas a injunção de “senão aquilo? isso”; não há apenas o fato e o oposto direto a ele; se sou crítico ao sistema de extermínio de animais da maneira como é feita, não me restringe a querer acabar com todos os matadouros, e que voltemos a comer vegetais crus.
No tocante aos músicos, esse texto tinha o propósito (quando pronto) de se chamar “Pastoral Matadouro”, em referência a uma crítica que Stravinski fez da sinfonia pastoral de Beethoven, dizendo que no século que passou, uma música tão cheia de beleza era completamente inútil. Auschwitz, Treblinka, Gulag… dita a nova pastoral moderna. Reich compôs uma peça onde reproduz o som dos trens que levavam os judeus ao extermínio. O matadouro, a mim, metaforiza o estilo de vida escritorial, burocrático, apressado, insensível.
Um grande amigo meu me deixou pasmo um dia, ao se desabafar sobre um desafeto: “ele que não sabe, mas já trabalhei em matadouro por três anos. Ele que venha me encher o saco.”
Grande abraço.
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miltonribeiro Reply:
January 26th, 2010 at 3:08 pm
Generalização é foda… Ok, Glass é ruinzinho mesmo e não vou defendê-lo. Mas Penderecki há mais de 20 anos é um compositor pré-stravinsky. Faz uma música bastante convencional, muitas vezes tonal e bela, o que nos faz pensar que aqueles gritos de porcos fossem bem menos casuais do que se imaginava.
O maior problema é atacar Reich. Atacar Reich é falta grave. Deixemos que ele fale por si:
Todos os músicos do passado, começando na Idade Média, estavam interessados na música popular. A música de Béla Bartók se fez inteiramente com fontes de música tradicional húngara. E Igor Stravinsky, ainda que gostasse de nos enganar, utilizou toda a sorte de fontes russas para seus primeros balés. A grande obra-prima Ópera dos Três Vinténs, de Kurt Weill, utiliza o estilo de cabaret da República de Weimar. Arnold Schoenberg e seus seguidores criaram um muro artificial, que nunca existiu antes. Minha geração atirou o muro abaixo e agora estamos novamente numa situação normal. Por exemplo, se Brian Eno ou David Bowie recorrem a mim e se músicos populares reutilizam minha música, como The Orb ou DJ Spooky, é uma coisa boa. Este é um procedimento histórico habitual, normal, natural.
Steve Reich
A música de Reich é de compreensão simples, exatidão e complexidade perversa e quase sempre é MUITO SIGNIFICATIVA. Ouça Different Trains, em que o quarteto de cordas toca sob gravações de estações de trens que levaram pessoas para a morte. Sim, ouve-se chamadas para Auschwitz e para todos os lugares para onde houve pessoas levadas — de trem — para a morte. Bom, pode-se não gostar, mas Steve Reich é um gênio como teórico. E, sim, sua música sempre trocou figurinhas com a música dita “popular”.
Cage, adoro Cage! Mas o fato é que a arte da música erudita do século XX não prescinde de vivência. Sem ela, é impossível separar o que é citação, humor, drama até ou simples virtuosismo. Ninguém aí pensa que 4`33 é uma peça séria, né? Cage tem coisas sérias, mas outras eram apenas tiradas de marketing. Sei que é sacanagem dizer: ah, é difícil compreender… Só que é assim mesmo…
Abraços.
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Ricardo C. Reply:
January 26th, 2010 at 3:27 pm
Milton, essa conversa é de vocês. Vou puxar um banquinho e prestar muita atenção, anotar no caderno e depois ouvir os compositores que citaram a partir do que vocês discutirem, tá?
Abração
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charlles campos Reply:
January 26th, 2010 at 3:31 pm
Quem sou eu para discutir com o Milton sobre música!!!
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charlles campos Reply:
January 26th, 2010 at 3:29 pm
Opa! Todos os compositores que mencionei acima (inclusive Glass) eu aprecio e gosto com paixão…. como bem disse, meu texto é um rascunho precário, o que pode gerar mal entendido. Daí você, meu caro Milton, achar que ataquei Reich.
Adoro os minimalistas, e quanto mais estranha a música, melhor. O que quis dizer é que estes são tanto melhores por trazerem esses elementos perturbadores, como críticas à modernidade.
Said analisa, num belo ensaio sobre Glenn Gould, a inspiração atmosférica que a ruína trouxe aos músicos do século XX.
Penderecki eu esqueci de retirá-lo, e quando vi, já foi! O coloquei pela trilha tomada de emprestimo pelo Exorcista, e por suas composições sobre a tragédia do WTC, em 2001.
Mas, ora bolas, é melhor colocar minha cara a tapa_ e aprender_ do que me limitar à humildade conformada.
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on Jan 26th, 2010 at 4:51 pm
Ricardo,
Sigo o teu exemplo e puxo um banquinho pra acompanhar o papo gostoso dos entendidos. Falando nisso, fui reler aquele post sobre a humm… Ivete Sangalo e me veio à cabeça que seu blog é sinônimo de “lugar aprazível”.
Além disso, (que inveja!), o seu texto é informativo, articulado, gostoso de ler, o que não é pouca coisa, némess?
Mas e o tema da comida, falando nisso? Há muito a dizer a partir do texto do charlles, claro, mas confesso que a telinha do filme não abre no computador em que estou hoje, o que acho que prejudica a resposta às suas indagações
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on Jan 26th, 2010 at 9:05 pm
O comentário do Charlles lá em cima é de arrepiar…
Tem um banquinho sobrando aí?
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on Jan 27th, 2010 at 12:44 pm
Li tudinho e agora levanto-me, cambaleando de sono porque aqui na China já é quase meia-noite e eu trabalhei feito um operário chinês o dia todo, para apenas dizer que a culinária na China é algo extraordinário mesmo, e bastante aterrador.
Eu tive oportunidade de sair para caminhar algumas vezes e aproveitei para visitar o mercado mais próximo do hotel - quem me conhece sabe que eu gosto de me misturar ao povo e fugir dos lugares puramente turísticos. O tal mercado parecia uma feira de animais exóticos. Os peixes aqui não são vendidos mortos e congelados. Estão bem frescos, vivinhos da silva, nadando dentro de grandes bacias onde os vendedores ficam em pé com suas galochas coloridas, e gritando suas ofertas (ou pelo menos foi o que achei já que ainda não domino nem o cantonês, muito menos o mandarim). A quantidade de bichos oferecidos ao abate e, claro, à culinária local é impressionante! Os coelhos fofinhos são lindos e multicoloridos. Aves de todas as espécies e tamanhos. Mas há também escorpiões, cavalos-marinhos, tartarugas, cobras e crocodilos. Sim! Crocodilos!
Bem, estou na China e não sou de recusar alimentos oferecidos, sendo assim, já provei de vários desses animais que vi no tal mercado. Ainda não tive coragem de provar a sopa de crocodilo, mas ainda tenho uma semana. Quem pode dizer o que acontecerá?
Apenas para finalizar: cobra tem gosto de galinha e não de peixe como eu havia imaginado. As grandes são mais suculentas e saborosas, as pequeninas tem textura de sardinha em lata e um gosto impalatável. O tal ovo de mil anos não é conhecido por essa alcunha aqui, nem imagino quem inventou esse nome, mas eu provei. Parece uma gelatina preto-esverdeada com gosto de ovo cozido, sem sal. Enguia é legalzinho, mas prefiro a cobra mesmo. O resto eu não pude identificar com clareza, só sei que ainda não provei o tal crocodilo. Comi enroladinho de fígado de ganso com cogumelos, bem estranho e meio adocicado como a maioria das comidas aqui. Mas tem um hábito chinês que eu estranhei muito no começo e agora estou viciado: água quente. Eles bebem água quente o tempo todo. E agora eu também…
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on Jan 27th, 2010 at 5:00 pm
Ricardo, para não perder a fama de mercador:
Vende-se banquinhos!
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