Ágora com dazibao no meio

Prolegômenos, (re)flexões e nadas, de todo tipo.

O outro

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Terrível aquela história do teu vizinho recém-separado. Tão amoroso com as filhas, tão carinhoso com a mulher… mas veio o álcool e desgraçou tudo, né? Álcool é fogo mesmo, só podia, de uma hora para outra o sujeito ficou irreconhecível, as gargalhadas estridentes e as broncas megafônicas que vez ou outra ele dava nas meninas tornaram-se outra coisa, perderam o apelo carinhoso que amenizava um pouco a tua irritação pelos sustos no meio do teu sono. O que você me contou desse sujeito só faz a gente pensar que talvez não fosse só o álcool, né? Ele já devia ser mesmo um monstro, que essa história de aparecer a qualquer hora do dia e ficar se esgoelando no interfone, dizendo vou te matar, sua puta! para aquela mesma moça que lhe disse, toda feliz, aceito, certa de que seriam felizes para sempre, já era coisa de maluco, pra mim o cara deve ter um tumor na cabeça, vai ver que pelos lados da circunvolução cingulada, uma bomba psicopática enterrada em camadas e mais camadas de civilização superegóica.

Do mesmo jeito que você, eu também fiquei com pena das meninas, mais até do que da mãe delas. Porque ela pelo menos expulsou-o de casa, entrou na justiça e pelo visto consegue gritar de volta toda vez que ele aparece e a vê na portaria do prédio — e ainda bem que a grade é resistente — e ela tasca um tu é covarde!, só um grandessíssimo dum covarde é que bate em mulher!, e mesmo com o doido aumentando as ameaças e os palavrões, até que ela parece não se submeter mais a ele. As meninas não, imagine o sofrimento vendo os pais se pegando desse jeito e não saber como lidar com os sentimentos em relação a cada um deles, se gostando de um estariam traindo o outro… E também concordo contigo sobre a mulher, ela dever ter sido agredida de tudo que é jeito e por um bom tempo antes de conseguir agir assim. É raro que alguém com dois filhos pré-adolescentes “jogue tudo pro alto”, com muitas aspas nessa hora, “largando”, com tantas aspas quanto, um casamento com um advogado ou engenheiro ou médico ou qualquer uma dessas profissões clichê de sucesso garantido, para depois ter que encarar os vizinhos, a família dela, possivelmente a dele também, e não se sentir culpada, onde foi que eu errei, alguma incompetência eu tenho para que o meu casamento tenha ido pro brejo, pro saco e pras cucuias. Não adianta, pelo visto a gente é assim mesmo, sente que tem dedo nosso nisso tudo, mais ainda quem vive em posição de rainha… do lar, é claro, só manda e mal dentro dos limites de uma casa, já que na rua é figura secundária, coadjuvante, o típico caso do por trás de todo homem de sucesso há sempre uma mulher estafada. E mesmo a mulher, aliás, só a mulher não, a pessoa que tiver o locus de controle mais externo da face da terra tenderá a julgar-se em parte responsável pelo fato de ter sido agredida, ô sina!, e caso não sinta isso, tem sempre alguém muito próximo para sugerir que a culpa é dela, ela é que provocou, nem que seja um pouquinho.

Mas voltando ao cara, ele só podia ser doido mesmo, quem é capaz de fazer esse tipo de coisa se já não tiver algum traço de loucura? Porque gente como a gente não faz isso não, é incapaz de querer o mal de outra pessoa nesse nível, não gritaria jamais com alguém dessa forma, esse desequilíbrio todo é de gente que tinha que estar internada, um dia de fúria só acontece no cinema, talvez com o vizinho do 311 também, pena que às vezes acontece com um primo, um amigo, até com um tio que a gente gostava muito, merda, se bem que outro dia sonhei que matava o meu chefe, cortava o escroto daquele escroto, há há há, eu sempre quis dizer algo assim, dizer não, eu sempre quis fazer algo assim, só não faço porque não quero ir presa, mas bem que eu podia…

Desculpe, me exaltei, é que essas histórias absurdas de psicopatas como o teu vizinho estragam a tranquilidade da gente, né? Confesso que elas costumam me tirar um pouco do sério, mas nada que uns chopinhos não acalmem. Você toma uns comigo? Certeza que não? Ué, tá me olhando agora assim por quê?

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