Ágora com dazibao no meio

Prolegômenos, (re)flexões e nadas, de todo tipo.

E também não somos classistas

| 11 Comments

Não apoie as mãos nas portas.
Não sente no chão.
Não use viaje com mochila nas costas.
Evite acidentes, a sua segurança também depende de você.

O texto com a frase em negrito aí de cima corresponde a uma das mensagens sonoras do metrô carioca, na voz que responde pela nova identidade sonora da concessionária MetrôRio. Gostaria de dizer que simpatizo bastante com o jeito cotidiano da nova narradora, bem diferente da voz grave, pausada e atuada de antes, naquele estilo Iris Lettieri de locução que já não anda muito valorizado. Só que tenho uma dificuldade danada em dissociar a voz do conteúdo — ou em termos chicobuarqueanos, a voz do dono e o dono da voz —, fazendo com que a simpatia dê lugar a um incômodo de que quero falar há tempos.

Mas antes de entrar propriamente no assunto, convém apresentar aos que não são do Rio uns poucos dados sobre o metrô daqui. Primeiro, que ele só tem duas linhas, a 1 (General Osório-Saens Peña) e a 2 (Botafogo-Pavuna) — quadro bem distante do projeto original, que previa seis (e que parece que ficará só com quatro). A linha 1 percorre bairros da Zona Sul carioca, a parte com maior visibilidade e onde ficam as praias mais famosas, vai até o centro da cidade e termina na Tijuca, tradicional bairro de classe média. Já a linha 2 atende sobretudo ao subúrbio da cidade, área historicamente “tão” privilegiada pelo poder público quanto a periferia de São Paulo. (Adendo: não é só o poder público que pouco olha para o subúrbio. Há inúmeros cariocas que desconhecem qualquer coisa que se passe fora da já falada Zonas Sul e de parte da Zona Oeste — leia-se Barra da Tijuca —, dando a entender que esta seria uma cidade partida, felizmente um entendimento equivocado).  E para arrematar, com as últimas mudanças no traçado da linha 4 — objeto de forte manifestação contrária, incluindo ação civil pública —, a ideia de “malha” que norteia qualquer projeto metroviário parece ter ido mesmo para o brejo.

Questões “técnicas” apresentadas, deixe eu contar algumas das minhas próprias impressões sobre o metrô carioca, especialmente sobre a linha 2. Sei que é do jogo que a maioria das ações urbanísticas de monta ocorram a partir dos interesses dos grupos e áreas mais ricos. Gostaria muito que fosse diferente, mas não há sinais no horizonte de que essa dinâmica vá mudar. Só que às vezes o resultado desses interesses é tão absurdamente grotesco que não dá para fingir que se trata de algo normal e/ou aceitável. Nesse sentido, apreciem as duas imagens abaixo:

A foto da esquerda corresponde ao interior dos antigos vagões da linha 2 e a da direita aos da linha 1 (que ainda estão em uso, agora também na linha 2). Os antigos vagões que circulavam pela linha 2 correspondiam ao que se conhecia como “pré-metrô”, expressão que só posso considerar como uma piada de

péssimo gosto que os moradores da Zona Norte começaram a ouvir em 1981 e da qual só se livraram em 2002. Porque as fotos talvez não deixem claro, mas as diferenças eram gritantes: a linha 2 não passava de alguns bondes, inicialmente importados da Bélgica, que foram adaptados para rodar sobre os trilhos do metrô. Eram composições de quatro vagões, mais estreitos que os da linha 1 e de interior bem modesto, grande intervalo entre as composições e o fato de que os vagões do famigerado pré-metrô simplesmente não tinham ar-condicionado, o que em se tratando da canícula do Rio de Janeiro só pode ser encarado como um detalhe praticamente insignificante…

Mas os tempos são outros, as diferenças entre as composições das duas linhas já não existe mais e a cidade parece querer fazer valer a fama de democrática e horizontal que suas praias lhe deram… Democrática? Horizontal? Falamos da cidade que precisou sancionar uma lei vedando “… qualquer forma de discriminação em virtude de raça, sexo, cor, origem, condição social, idade, porte ou presença de deficiência e doença não contagiosa por contato social no acesso aos elevadores existentes no Município do Rio de Janeiro? Ou que outro dia mesmo andou protestando contra uma estação do metrô em Ipanema, entre outros argumentos porque “… vai aumentar o trânsito de pessoas estranhas ao bairro? Melhor paro nesses dois exemplos, caso contrário não termino este post hoje. Até porque falei, falei e aquele parágrafo lá do começo acabou abandonado, sem justificativa nenhuma. Então trato de consertar as coisas contando a vocês uma particularidade sobre essas frases. É que cinco dias na semana ouço a nova narradora de fala cotidiana pedir a mim e aos demais passageiros que não nos sentemos no chão dos vagões. Só que não falo de todos os passageiros do metrô, mas apenas os que andam na linha 2, justo aquela que circula no subúrbio do Rio. Sim, tanto texto só para dizer que os passageiros da linha 1 parecem não precisar ouvir certas mensagens “pedagógicas”, ao contrário dos que andam pelos trilhos por onde circulou o antigo pré-metrô estreito e sem ar-condicionado. É como se ao passar do um ao dois se saísse da civilização e caísse na barbárie, faltando apenas alguns feitores nas estações distribuindo chibatadas sobre a turba.

Não sei como é para você, mas para mim as palavras não são simplesmente levadas pelo vento, coisas inocentes ou mera brincadeira. E nas minhas diárias idas e vindas pelas duas linhas do metrô carioca, o que vejo ferir surda e cotidianamente não são essas palavras ditas na linha 2, mas o fato de nunca ouvi-las na linha 1.

Adendo: nos comentários, Débora Leão fez um importante comentário:

Essas mensagens tocam na Linha 1, sim. Pego o metrô todos os dias, saindo da Saens Peña, e escuto a cantilena (aliás, é “não viaje com mochila nas costas”). [Frase já devidamente corrigida]

Só fiquei com uma pulga atrás da orelha: só costumo ouvir essas mensagens na ida, ou seja, saindo da Tijuca pra Zona Sul. Na volta, saindo da civilizada Zona Sul, não lembro de ouvir nada.

Se por um lado o primeiro parágrafo bate de frente com o que escrevi, o segundo, a “pulga atrás da orelha”, o ratifica. A minha resposta foi:

Especificamente em relação à frase “não sente no chão”, entre Ipanema e Botafogo, onde salto para pegar a linha 2, nunca ouvi essa mensagem. E digamos que ela passe e eu não tive a sorte de ouvi-la em nenhum dia ao longo dos últimos dois meses. Mesmo que ela passe, suspeito que na linha 1 a frequência seja mínima… Enfim, tendo a acreditar em dois pesos e duas medidas, até por conta da histórica cisão que os da parte rica operam sobre a parte mais pobre.

Demorei muito tempo para escrever este post, por uma razão: achei por bem acumular um número suficiente de viagens no metrô para sustentar que a frase se ouvia na linha 2, mas não na linha 1. Mas devo ser preciso, especialmente depois do comentário da Débora. Embora ande de segunda a sexta-feira nas duas linhas, não o faço em toda a extensão da linha 1, só entre cinco de suas dezoito estações, e todas na Zona Sul (que por sua vez soma nove). Acrescento que ouvi a famigerada frase pela primeira vez no dia 16 de novembro, na linha 2, e ela tanto me chamou tanto a atenção que vivia esperando ouvi-la novamente. Até que, para meu espanto, percebi que ao longo destas oito semanas nunca, repito, nunca a ouvira na linha 1.

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11 Comments

  1. Para quem é de fora, impressiona sempre essa discrepância entre o Rio “lado 1 e lado 2″, cru e real (com o lado 2 correspondendo curiosamente à esmagadora maioria), e aquele outro Rio exportado para fora, resumido à tal zona sul.

    E mais: visto que o Rio é nosso espelho, uma espécie de “carro-chefe” do brazilian way of life, sempre fica a pergunta: como tudo isso acabou acontecendo?

    Ricardo C. Reply:

    @Catatau, para essa pergunta não tenho resposta, mas pode deixar que não porei a culpa na colonização portuguesa ;-)

  2. Essas mensagens tocam na Linha 1, sim. Pego o metrô todos os dias, saindo da Saens Peña, e escuto a cantilena (aliás, é “não viaje com mochila nas costas”).

    Só fiquei com uma pulga atrás da orelha: só costumo ouvir essas mensagens na ida, ou seja, saindo da Tijuca pra Zona Sul. Na volta, saindo da civilizada Zona Sul, não lembro de ouvir nada.

    Ricardo C. Reply:

    @Deborah Leão, já corrigi a cantilena sobre a mochila, obrigado! Especificamente em relação à frase “não sente no chão”, entre Ipanema e Botafogo, onde salto para pegar a linha 2, nunca ouvi essa mensagem. E digamos que ela passe e eu não tive a sorte de ouvi-la em nenhum dia ao longo dos últimos dois meses. Mesmo que ela passe, suspeito que na linha 1 a frequência seja mínima… Enfim, tendo a acreditar em dois pesos e duas medidas, até por conta da histórica cisão que os da parte rica operam sobre a parte mais pobre.

    Beijos e que bom que você passou por aqui

  3. Pingback: Ricardo Cabral

  4. Ricardo,

    Já que o assunto é metrô, aqui vai um desabafo de alguém em vias de ser discriminado. De cara peço desculpas, pois serei prolixo.

    Fortaleza não tinha metrô. Técnicamente ainda não tem, pois nenhuma obra foi entregue. Tudo o que tínhamos (temos) são duas linhas de trens urbanos/metropolitanos. Ambas saem do centro da cidade, da histórica Estação Central João Felipe, sendo que uma segue na direção Sul, até os municípios vizinhos de Maracanaú e Pacatuba, e a outra segue na direção Oeste, até o município de Caucaia.

    Desnecessário dizer que as localidades citadas são cidades-dormitório, e que diversos conjuntos habitacionais foram construídos ao longo das linhas. E a maioria do percurso até elas passa pelos bairros da classe media-baixa e pela periferia.

    Apesar de o tema “metrô” povoar o imaginário da cidade sabe-se lá desde quando, foi apenas no primeiro governo Tasso Jereissati (1986) que algo real começou tratado, mas de uma maneira pra lá de equivocada e ultravagarosa. Equivocada porque se aferrou (em sua quase totalidade) ao trajeto do trens já existentes, ignorando as mudanças que a cidade-área metropolitana vem passando. Ultravagarosa porque… Precisa explicar? Estamos em 2011 e NADA ainda funcionou…

    Pois bem, depois que foi anunciado que a cidade seria uma das sedes da Copa 2014, acrescentou-se ao projeto uma linha de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), ligando o Porto do Mucuripe até o bairro Parangaba, de novo aproveitando uma linha de trens já existente (é nessa parte, do VLT, que estão havendo os maiores problemas com desapropriações, mas isso é outro assunto…).

    As obras que vem sendo executadas até agora são exclusivamente na linha Sul. Previsão de entrega: só Deus sabe… O governo diz que os testes começam no final deste ano, mas não dá pra confiar.

    Quando eu citei que o projeto é equivocado, uma das razões é que ele ignorava solenemente as áreas Leste e Sudoeste da cidade, coincidentemente onde mora a “elite” da cidade e onde o tráfego de automóveis chega a dimensão de “inferno”. Sempre se falou que uma linha deveria ser construída para atender essas áreas, mas que o fato de necessitar ser totalmente subterrânea levaria o custo a valores proibitivos.

    Bem, cerca de um ano atrás, saindo do nada, veio o anúncio do Governo do Estado de que essa linha Leste seria construída, e que os recursos já estariam garantidos (a licitação inicial foi desencadeada uns 60 dias atrás).

    Beleza. O problema é que as notícias relativas as obras da Linha Oeste, desapareceram quase completamente por um bom tempo, e quando ressurgiram falavam de uma simples troca dos veículos e quase nada além.

    Curioso com sou, cerca de umas 3 semanas atrás liguei para a companhia que gerencia todo o processo, a METROFOR. Pedi para falar com a área de comunicações e expus minhas dúvidas. Meio constrangido, meio resignado, um funcionário confirmou minhas piores suspeitas. Simplesmente, o governo jogou o projeto da linha Oeste para as calendas, e vai realizar apenas um serviço cosmético, exceto pelos trens, que serão similares aos do VLT. Com isso vai centrar esforços na linha Leste, a dos bairros “cartão-postal”.

    E o povão que se f…

    Pra terminar: este indignado que vos escreve precisa dizer onde mora?

    Abração.

  5. Nossa!!
    Nunca tinha reparado na mensagem para não sentar no chão, vou fingir que ainda não sei dessa mensagem, pois ela parece totalmente absurda.
    Pois passei a minha juventude sentando no chão do Metro para fazer as viagens mais longas e até hoje ainda faço quando estou cansado.
    Acho que essa mensagem deve ser pra mim. rs.

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  9. Chegando com atraso, mas vou comentar assim mesmo, porque uma frase do Catatau iluminou um desconforto que eu sentia, e não sabia expressar:
    “o Rio é nosso espelho, uma espécie de “carro-chefe” do brazilian way of life”. É isso que eu sinto. Capixaba, casada com carioca, o Rio é o meu espelho. Acho que não exatamente por ser capixaba, mas por ser do Sudeste, da região mais desenvolvida que pensa que o Brasil é só aquilo ali. Mas eis que me embrenhei pelo Planalto Central, e pelo Norte. Como o brazilian way of life aqui é distante do carioca! Aqui em Rondônia ninguém fala em Rio de Janeiro, ninguém tem essa referência, e era esse o desconforto que eu sentia. Como assim, o Rio colocado em quinto plano? E não é preciso vir tão longe. No interior de São Paulo, rumo ao Oeste, já se encontra o Brasilsão rural, caipira, sertanejo. E, nas minhas andanças de lá prá cá, de cá prá lá, vou pensando como o “carioca” (aqui, no sentido de quem tem o Rio como espelho) não conhece o Brasil. Acho que todo brasileiro interessado em conhecer seu país devia fazer uma lenta viagem de carro, rumo ao Norte, para conhecer o Brasil. Não sei como sente o Luiz, que tem a referência nordestina, mas imagino que ele proporia também uma viagem pelo sertão.
    Desculpe ter mudado o rumo da conversa, mas foi essa a reflexão que me veio. Achei interessante sua sacação desse classismo pelos anúncios do trem. Um olhar sensível e antenado como o seu sempre nos brinda com sacações inteligentes e perspicazes.

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