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Posts under ‘cotidiano’

Surtos de sinceridade

“Sou medíocre demais pra ser vaidoso.”
E a mão dela ensaiou um agrado em seu pescoço — a direção parecia essa —, que ladearia, assim me ocorreu, o discreto sorriso dirigido a ele. Mas desviou-se para o livro de poesias do autor iraquiano do mês, e nem ele nem ninguém, salvo eu e aqueles que estavam [...]

De um pato e meio a quase três — ou o contexto e a perfeição

“O pato [da família Anseridae, e das sub-famílias Dendrocygninae, Anatinae, Merginae ou Oxyurinae] é um dos poucos animais da natureza que anda, nada e voa com razoável competência“ (grifo meu), segundo conta a Wikipédia. Enquanto isso, uma porção de blogs, além de sítios que tratam de recursos humanos e outros que arrotam marketing, adoram dizer [...]

Latitude 22°52′43.34″S, Longitude 43°15′3.16″O

Um calor imenso. E na hora em que o ônibus aproximou-se de lá, a passageira ao meu lado, até então conversando animadamente sobre o clima, olhou para os lados e baixou o tom de voz, como se precisasse medir as palavras, refreando qualquer demonstração mais explícita de contentamento. De medo tampouco, ao menos não em [...]

Cenas

A empregada volta da feira, com cara de poucos amigos.
— Que foi, Deise, aconteceu alguma coisa?
— Ah, uns cara lá da barraca do peixe, falano umas coisa tudiruim…
— Mas o que foi, criatura, fala logo!
— Eles gritaro: “Que pavão!”
— Pavão? Como assim, criatura, o que isso quer dizer?
— Oras, dona Régiâne, é só a senhora [...]

Duas notas: primeiro a ruim, depois a boa. Boa??

1) Um daqueles aforismos do Cioran* de que lembro mal, mas que ainda me incomodam um pouco. Diz mais ou menos assim:
“Você pode matar uma, dez, cem pessoas. Mas ao se matar, no que te diz respeito, consegue eliminar toda a humanidade.”
2) Sobre o temor da morte, eis um raciocínio** interessante, que soube pertencer aos [...]

(Mais) conversas roubadas

Um casal tomando café-da-manhã no Parque Lage, bairro do Jardim Botânico (RJ). Ela lê uma matéria que trata da violência contra a mulher, sobretudo no âmbito do casamento.
[Ela, indignada] Amor, olha que absurdo: diz aqui que, em média, a esposa agredida leva dez anos para pedir socorro!
[Ele, sorriso "espertinho"] Nesse caso, se eu começar a [...]

Contradições

Acabei de ouvir, a dez metros de mim, no balcão de uma farmácia, uma moça gritar: “Vai tomar no c*, seu mal-educado!”
Curioso, outro dia mesmo pensava numa vizinha que, sempre aos berros, vive mandando a filha falar baixo com ela; e também em falas paradoxais, tais como “Não tolero intolerância”…
E para não ficar de fora [...]

Bons-modos mal-educados

— Operadora Francilene Gomes, bom dia. Informe seu nome e o número do seu celular com o DDD, por favor.
— Ricardo C., vinte e um, número-número-número-número, número-número-número-número.
— Para sua segurança, precisamos confirmar alguns dados. Diga o seu nome completo e os três primeiros números do seu CPF.
— Acabei de de dizer o meu nome completo, [...]

Ecumenismo carioca, expressão redundante (ainda!)

Ingredientes:
- Um flanelinha;
- Um guardador de carros uniformizado;
- Um taxista com o seu carro (irregularmente) parado, de portas abertas, numa esquina do Leblon (mas podia ser em qualquer esquina);
- Uma noite de outono, temperatura amena.

“Preparo”:
Junte esses três representantes de categorias que se odeiam e o resultado certamente não será dos mais palatáveis. Já no Rio [...]

Somos todos japoneses

Não, não soube de nenhum novo 11 de setembro em Nagasaki, bomba no metrô londrino de Tóquio ou nos trens madrilenhos de Osaka que inspirasse em mim esse título. Não se trata, hoje, de qualquer sentimento solidário por alguma vítima do terror contemporâneo. É apenas o início de uma singela reflexão: a de constatar, [...]

Um quê de incorreção política

Desprovido da minha câmera, não pude registrar. Terão que confiar quando digo que vi o texto que segue, num dos adesivos colados ao Land Rover estacionado na praça do Bairro Peixoto, em Copacabana:
Não compro bala porque sou diabético.
Não sou seu tio porque sou filho único.
E malabarismo faço eu mesmo
para pagar minhas contas todos os dias
Uma [...]

Moucos

— Entre o que eu quero dizer e o que eu consigo pôr em palavras, um abismo.
— Sei…
— E entre o que eu consigo pôr em palavras e o que você compreende, outro abismo.
— Hum hum…
— Como é possível que a gente consiga se entender?
— Hein?!?!?

Sinuca de bico

- Alfredo, o que você está fazendo?
- Desistindo, Nitinha, desistindo.
- Mas por quê?
- Nitinha, cheguei aos sessenta e não fiz nada que preste nesta vida. O pior é que nem mais tempo dá de mudar de rumo.
- E agora?
- Agora, só na próxima encarnação.
- Ih, Alfredo, mas você não é ateu?

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