I
Não esperava nenhum estrondo. Mas tão seco, dois crec e pronto, também não. Ficou um oco sem graça, parado no ar, na contramão do que deveria sentir numa hora dessas, se ao menos desconfiasse que viveria algo assim.
De qualquer forma, reconheço que o mérito da estranheza foi meu. Não deveria ter duvidado do magricela dar [...]
Posts under ‘literatices e escrivinhações’
Sem título (1a. parte)
Resgate de valores essenciais
Neste mundo embrutecido, cínico, sem utopias e carente de valores e de ideais, nada como voltar um pouco ao passado e buscar inspiração no Camarada Mao, o grande Pai, Líder dos Líderes, o Timoneiro, cuja imagem permanece nos corações e mentes de todas as pessoas de bem e que acreditam num mundo melhor. E como [...]
Marulhos
Notou o choro ao cruzar por Ela, e mesmo sem atinar o porquê do nariz vermelho e daquelas bochechas ensopadas, ficou triste. Triste, de rumo descalibrado e um desgosto cada vez mais seu, salvo o fio que brotou do meio de sua coluna, que contorcionismo algum daria conta de alcançar, desnovelando-se até aquelas costas alvas, [...]
Sexo
— Comer…
— … não.
— Trepar…
— … também não.
— E foder?
— Não, não serve.
— Fazer amor é bem pior, parece tradução mal-feita, né?
— É, parece.
— Lembra de mais alguma?
— No México eles dizem coger.
— Ué, mas isso não significa “pegar”?
— Pois é, quero te pegar…
— … que em espanhol também quer dizer “bater”, e você sabe [...]
Xifópagos
Entraram de mãos dadas, dela a esquerda. Um belo casal, todos concordariam, desses espécimes que, à primeira vista, parecem flutuar sobre o chão, transportados por uma daquelas nuvenzinhas onde pequenos e rubicundos anjos tocam harpa e flauta doce, lugar comum nos quadros da Renascença e nas capas dos cadernos escolares de algumas secundaristas japonesas. E [...]
Insone
Durou um minuto. E nele vi cansaço, inquietação, receio. Derrota, também.
E o desgaste dos ossos, a arritmia, o fôlego em falta. Todos teus.
Você na penumbra, naquela pose crucificada, três ou quatro dedos de cada mão agarrados à tela protetora de tragédias que envelopa a tua varanda. E me apiedei.
Um minuto.
E no seguinte, você acendeu aquela [...]
Parece coisa do além
Em meados de 1944, contando com 33 anos, três filhos e uma fiel clientela em seu consultório médico de Teófilo Otoni, Dr. J. encasqueta que é sua obrigação patriótica alistar-se como voluntário na 2ª Guerra Mundial, desconhecendo não faltar tanto assim para que a guerra acabasse. Nem vem ao caso especular sobre motivações de qualquer [...]
Mescalina, psilocibina e azeite de dendê
Rodoviária de Nanuque, nordeste de Minas, 6:17 a.m. Ônibus para Belo Horizonte, só às oito e meia. Cadú e a irmã — hoje não se dão bem, há doze anos sim —, sonolentos da maratona iniciada em Itupeva (três e meia da madrugada), léguas de chão de terra batida atrás. Levanta-se ela e compra um [...]
Quatro anos antes
Outro, o continente. Imensa, a saudade. Tamanha, a dor.
Um telefonema, uma notícia: uma escala, amanhã. Horas, poucas, em trânsito. “Vá ao aeroporto. Tentemos.”
O ônibus, a ansiedade, a chegada, o saguão, o painel: avião pousado, “Passageiros para Montevidéu, embarque, portão A.” E agora?
“Atenção, senhor R., queira dirigir-se ao check-in da companhia S… Senhor R., favor [...]
Una Giornata Particolare
Não era dado a oráculos. Contentava-se com o Pariscope, comprado religiosamente às quartas-feiras na estação Saint-Paul. Com ele previu que assistiria ao Réquiem de Mozart naquela noite, desta vez com o chœur et orchestre de Paul Kuentz, na Salle Gaveau. O número 45 da rue de la Boétie dava-lhe a opção do metrô, baldeação para [...]
Tarde
…
— Um pouco culpada, sim. Só um pouco, só por causa dos meninos.
…
— Não, nem tente. Eu não quero entender. Ainda não.
…
— Eu sei que dói. Não sou essa escrota que você pensa, dói em mim também.
…
— De novo essa história?!? Não me compare, porra!, não sou a imbecil que disse aquilo, não precisa [...]
Antonio
Por que foi fazer isso, assim, de uma hora pra outra? Quando foi que você resolveu que se instalaria no sofá, ali ao meu lado, enquanto eu via aquele seriado dos médicos e o Dr. Pratt parava de fazer massagens cardíacas naquele rapaz, e a noiva e os pais e os irmãos dele choravam de [...]
Epílogo
Descalço. Oito dedos, vinte e duas falanges flexionadas, equilibrado à borda do parapeito já vencido. Só os mínimos, unhas mal aparadas, permanecem horizontais.
Despido. De dúvidas, de roupas, de medo. A sunga, nova, discreta, traja-o.
Borboletas (um enxame, alvoroçando-lhe o estômago) e orvalho. Deles vinha o arrepio.
Silêncios. E um murmúrio, formando um todo coerente, ao menos para [...]
Um ponto, uma interrogação
Moderno, bem trajado, sem cutículas. Atuação: publicidade e marketing. Globalizado, alto índice de empregabilidade. De repente, pânico! Encontro catorze, hoje, jantar e algo mais… Frente a frente, ela toda ouvidos, entregue. Ele? Última história, ânsias, seu estoque zerou. E amanhã de manhã?
Um sujeito menor
Pouco trágico, pouco indulgente, pouco industrioso. Apoucado, exceto de mornidão. Um miserando.
“Sempre me surrupiaram o cimo!”, ruminava. Sua atividade diária: ver quantas vezes chegara atrasado, quantos à sua frente faziam das idéias obras. Ainda pior: ver-se também retardatário no somente imaginado.
Creditava a sua desdita aos vizinhos. A começar pelos do berçário,que certamente urraram no tom [...]
Arco-íris
Vermelho-alaranjado… violeta-de-genciana… marrom… e por fim preto, o que ela mais gostava, antes das manchas começarem a sumir e fazê-la pedir mais pro Onaicram, porteiro do Pinga-Pus, um exímio espancador que chora, de soluçar, vendo novela venezuelana.
Mas as coisas esfriaram, e ela resolveu pedir branding. “Que porra é essa?!?”. Acalmou-se ao saber que não era [...]
Janela
“Você está triste…”, e não era uma pergunta. “Está tudo bem?”, agora sim. “Está tudo bem sim”, em resposta à voz do apartamento em frente, da janela em frente, praquela dona, praquela moça nem tão moça assim, que bebia o que parecia whisky, pelo menos amarelo era, pelo menos gelo tinha.
(Ela estava bem, diziam-lhe os [...]
“Nada más que un puro”
Hijo mío, só te escrevo para que você pare de se preocupar. Entenda de uma vez por todas: estou bem, muito bem mesmo, nunca me senti melhor na vida. Aproveito e te peço que fale com o teu irmão Raúl, mándalo parar de pôr aqueles capangas atrás de mim, porque aquelas barbas deles, que dão [...]
A queda, a fratura e o gesso [1]
— Jair, preciso te dizer algo.
— Célia, que bom. Faz tempo que eu esperava essa conversa, só que, para não variar, me faltava coragem. Ainda bem que você deu a partida! Há tantos silêncios entre nós, Célia, tantos emudecimentos gritando nesses quilométricos dez centímetros regulamentares que nos impusemos na hora de deitar… [...]
Falando com Eiko Matsuda, sem ela me ouvir
Estimada senhora Matsuda,
Ou, quem sabe, senhorita Matsuda? Ignorar como devo tratá-la força-me a pedir-lhe desculpas — as primeiras desta carta —, e se eu seguir nesta toada não farei outra coisa. Sendo assim, quero dizer logo que tomarei certas liberdades, na expectativa de um grande perdão final de sua parte — ou sua indignação e [...]
Sócrates
Tinha três ódios e um mau caráter. Os ódios: filosofia, futebol e o próprio nome. Por pura escrotidão, resolveu se matar no aniversário do pai. À falta de cicuta, apelou pro formicida. Em vão. Hipócrates, o pai, caprichou na lavagem estomacal e encheu-o de sopapos.
(Não melhorou o caráter.)
Matemática
Há quinze anos te espero. Não catorze; não dezesseis. E nem adianta fingir. É de você que eu falo, Clara, de você, que sempre soube de mim, do que me era mais caro. Sim, já são 5.478 dias — porque não esqueço dos anos bissextos que somam três dias mais ao buraco que você deixou [...]
Devolva-me
— Senhorita, eu gostaria de falar com o Venerável.
— O Venerável está meditando, recarregando-se de prâna, para depois doá-la aos fieis. Mas… não foi a senhora que esteve com ele na semana retrasada, pedindo-lhe que a fizesse sair das trevas e voltar a enxergar de novo?
— Foi sim.
— Então a senhora veio agradecer o milagre? [...]



