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Posts under ‘literatices e escrivinhações’

Reclamação

Quando vi a sua filha, adorei o contraste. Juntar os meus panos de bunda com uma depressiva-reflexiva, cética até a medula e ainda por cima meio grossa, dessas que não levam desaforo pra casa, foi tudo o que as minhas manias sempre pediram a Deus. Mas a senhora me trapaceou. Validade só de um mês [...]

Perversão

Um pacto bem simples: entre os dois só a verdade, sempre, não importasse qual.
Ligou para a Lúcia, amiga de infância de Sílvia. Preciso conversar com você, pode ser às sete?, te apanho no trabalho. O primeiro chope ainda pela metade e atacou, sem dó, até ver aqueles Sérgio, pare com isso largados no chão, ao [...]

Sinais

Lista de convidados escandalosamente intelectualizada, invejada e invejosa.
Black-tie impecável, que esperava usar mais vezes, torcendo para não engordar muito nos próximos anos.
Esposa elegante, despida de arrogância e botox, companheira até nos avessos da vida… e porque não agora, na riqueza, saboreando junto ao marido aquele galardão que os seus pares resolveram lhe outorgar? Tivesse ele [...]

Compro memória

Preciso de algumas doses.
Troco por alguma ansiedade, pitadas de desânimo e muita dispersão, que andam sobrando por aqui.
Observação: este post tem um propósito meramente catártico, desejado e bem-vindo. Broncas, puxões de orelha e assemelhados anulam esse resultado…

Resgate de valores essenciais

Neste mundo embrutecido, cínico, sem utopias e carente de valores e de ideais, nada como voltar um pouco ao passado e buscar inspiração no Camarada Mao, o grande Pai, Líder dos Líderes, o Timoneiro, cuja imagem permanece nos corações e mentes de todas as pessoas de bem e que acreditam num mundo melhor. E como [...]

Marulhos

Notou o choro ao cruzar por Ela, e mesmo sem atinar o porquê do nariz vermelho e daquelas bochechas ensopadas, ficou triste. Triste, de rumo descalibrado e um desgosto cada vez mais seu, salvo o fio que brotou do meio de sua coluna, que contorcionismo algum daria conta de alcançar, desnovelando-se até aquelas costas alvas, [...]

Sexo

— Comer…
— … não.
— Trepar…
— … também não.
— E foder?
— Não, não serve.
— Fazer amor é bem pior, parece tradução mal-feita, né?
— É, parece.
— Lembra de mais alguma?
— No México eles dizem coger.
— Ué, mas isso não significa “pegar”?
— Pois é, quero te pegar…
— … que em espanhol também quer dizer “bater”, e você sabe [...]

Insone

Durou um minuto. E nele vi cansaço, inquietação, receio. Derrota, também.
E o desgaste dos ossos, a arritmia, o fôlego em falta. Todos teus.
Você na penumbra, naquela pose crucificada, três ou quatro dedos de cada mão agarrados à tela protetora de tragédias que envelopa a tua varanda. E me apiedei.
Um minuto.
E no seguinte, você acendeu aquela [...]

Parece coisa do além

Em meados de 1944, contando com 33 anos, três filhos e uma fiel clientela em seu consultório médico de Teófilo Otoni, Dr. J. encasqueta que é sua obrigação patriótica alistar-se como voluntário na 2ª Guerra Mundial, desconhecendo não faltar tanto assim para que a guerra acabasse. Nem vem ao caso especular sobre motivações de qualquer [...]

Mescalina, psilocibina e azeite de dendê

Rodoviária de Nanuque, nordeste de Minas, 6:17 a.m. Ônibus para Belo Horizonte, só às oito e meia. Cadú e a irmã — hoje não se dão bem, há doze anos sim —, sonolentos da maratona iniciada em Itupeva (três e meia da madrugada), léguas de chão de terra batida atrás. Levanta-se ela e compra um [...]

Quatro anos antes

Outro, o continente. Imensa, a saudade. Tamanha, a dor.
Um telefonema, uma notícia: uma escala, amanhã. Horas, poucas, em trânsito. “Vá ao aeroporto. Tentemos.”
O ônibus, a ansiedade, a chegada, o saguão, o painel: avião pousado, “Passageiros para Montevidéu, embarque, portão A.” E agora?
“Atenção, senhor R., queira dirigir-se ao check-in da companhia S… Senhor R., favor [...]

Una Giornata Particolare

Não era dado a oráculos. Contentava-se com o Pariscope, comprado religiosamente às quartas-feiras na estação Saint-Paul. Com ele previu que assistiria ao Réquiem de Mozart naquela noite, desta vez com o chœur et orchestre de Paul Kuentz, na Salle Gaveau. O número 45 da rue de la Boétie dava-lhe a opção do metrô, baldeação para [...]

Tarde


— Um pouco culpada, sim. Só um pouco, só por causa dos meninos.

— Não, nem tente. Eu não quero entender. Ainda não.

— Eu sei que dói. Não sou essa escrota que você pensa, dói em mim também.

— De novo essa história?!? Não me compare, porra!, não sou a imbecil que disse aquilo, não precisa [...]

Antonio

Por que foi fazer isso, assim, de uma hora pra outra? Quando foi que você resolveu que se instalaria no sofá, ali ao meu lado, enquanto eu via aquele seriado dos médicos e o Dr. Pratt parava de fazer massagens cardíacas naquele rapaz, e a noiva e os pais e os irmãos dele choravam de [...]

Epílogo

Descalço. Oito dedos, vinte e duas falanges flexionadas, equilibrado à borda do parapeito já vencido. Só os mínimos, unhas mal aparadas, permanecem horizontais.
Despido. De dúvidas, de roupas, de medo. A sunga, nova, discreta, traja-o.
Borboletas (um enxame, alvoroçando-lhe o estômago) e orvalho. Deles vinha o arrepio.
Silêncios. E um murmúrio, formando um todo coerente, ao menos para [...]

Um ponto, uma interrogação

Moderno, bem trajado, sem cutículas. Atuação: publicidade e marketing. Globalizado, alto índice de empregabilidade. De repente, pânico! Encontro catorze, hoje, jantar e algo mais… Frente a frente, ela toda ouvidos, entregue. Ele? Última história, ânsias, seu estoque zerou. E amanhã de manhã?

Arco-íris

Vermelho-alaranjado… violeta-de-genciana… marrom… e por fim preto, o que ela mais gostava, antes das manchas começarem a sumir e fazê-la pedir mais pro Onaicram, porteiro do Pinga-Pus, um exímio espancador que chora, de soluçar, vendo novela venezuelana.
Mas as coisas esfriaram, e ela resolveu pedir branding. “Que porra é essa?!?”. Acalmou-se ao saber que não era [...]

Janela

“Você está triste…”, e não era uma pergunta. “Está tudo bem?”, agora sim. “Está tudo bem sim”, em resposta à voz do apartamento em frente, da janela em frente, praquela dona, praquela moça nem tão moça assim, que bebia o que parecia whisky, pelo menos amarelo era, pelo menos gelo tinha.
(Ela estava bem, diziam-lhe os [...]

“Nada más que un puro”

Hijo mío, só te escrevo para que você pare de se preocupar. Entenda de uma vez por todas: estou bem, muito bem mesmo, nunca me senti melhor na vida. Aproveito e te peço que fale com o teu irmão Raúl, mándalo parar de pôr aqueles capangas atrás de mim, porque aquelas barbas deles, que dão [...]

A queda, a fratura e o gesso [1]

— Jair, preciso te dizer algo.
— Célia, que bom. Faz tempo que eu esperava essa conversa, só que, para não variar, me faltava coragem. Ainda bem que você deu a partida! Há tantos silêncios entre nós, Célia, tantos emudecimentos gritando nesses quilométricos dez centímetros regulamentares que nos impusemos na hora de deitar… [...]

Falando com Eiko Matsuda, sem ela me ouvir

Estimada senhora Matsuda,
Ou, quem sabe, senhorita Matsuda? Ignorar como devo tratá-la força-me a pedir-lhe desculpas — as primeiras desta carta —, e se eu seguir nesta toada não farei outra coisa. Sendo assim, quero dizer logo que tomarei certas liberdades, na expectativa de um grande perdão final de sua parte — ou sua indignação e [...]

Devolva-me

— Senhorita, eu gostaria de falar com o Venerável.
— O Venerável está meditando, recarregando-se de prâna, para depois doá-la aos fieis. Mas… não foi a senhora que esteve com ele na semana retrasada, pedindo-lhe que a fizesse sair das trevas e voltar a enxergar de novo?
— Foi sim.
— Então a senhora veio agradecer o milagre? [...]