Uma conhecida, que há anos não vejo, certa vez me contou uma história. Dando aulas para adolescentes, resolveu levar uma trans para conversar com eles. A meninada ficou ouriçada, e alguns risinhos e piadas soaram aqui e ali. Nada que a moça não tirasse de letra, enquanto respondia pacientemente a todo tipo de dúvida. Até [...]
Posts under ‘memórias’
Viperinices
Cidade do México, nos anos oitenta de sempre. Universidad Nuevo Mundo, onde o meu então cunhado estudava psicologia, único representante masculino de uma turma de 30. Numa ocasião especial que não sei a que se referia, boa parte de suas colegas apareceram em sala de aula com seus respectivos namorados/noivos/maridos. Foi quando Diana — o [...]
Crianças
Lembrei de uma história. Corria o ano de 1985 e eu com 21 anos, estudando psicologia no México. Na universidade, uma das tarefas que recebemos na disciplina (que suponho fosse) “psicologia do desenvolvimento” foi a de ir a uma escola e observar uma turma de crianças, nem lembro com que objetivo. Éramos três colegas observando [...]
A culpa é de Fidel do B
Hoje, em seu Weblog, o Pedro Doria lembra dos 45 anos do golpe militar. E como por lá provavelmente acontecerão discussões acaloradas entre “destros” e “canhotos”, prefiro escrever por aqui mesmo umas poucas linhas da parte que (ainda) me toca.
Nasci no exato ano do golpe — dois meses depois, para ser mais preciso. E bem [...]
Acerto de contas com “Casanova”, de Fellini
[Encontrei este desenho aqui]
Sim, vi tudo o que pude de Fellini. Mas assumo que do supracitado filme guardo apenas três cenas, e só salvo a primeira:
1) o famoso recurso do “mar de celofane”, que a maioria costuma associar a E la Nave Va (1983) — mas que vi primeiro em Amarcord (1973).
Tudo bem que a [...]
Sinistroses e canhotismos
Sim sou canhoto. Sinistro, se quiser. E a terceira acepção do dicionário Aulete avisa que também se trata de uma forma jocosa de chamar alguém “de esquerda; que tem idéias ou tendências socialistas, ou comunistas”. Que seja. Fato é que o mundo em que vivo não foi feito para facilitar a vida dos canhotos (nem [...]
Lembrei de algo
Nos anos 70 houve uma dessas coleções, estilo “A Arte de…“, que meu pai comprou nas bancas, pouco depois de voltarmos a morar no Brasil — se é que, em pleno período Geisel, Brasília estivesse no Brasil… —, e com a qual aprendi algo sobre Música Popular Brasileira. (Como toda coleção, provavelmente muito do que [...]
Propaganda
[É dos 80, da televisão. Mas narrada com voz de locutor de rádio, carregando nos erres.]
Quando seus cabelos começam a cair,
Não adianta disfarçar,
Não passe ridículo!
Use logo Capiloton.
Capiloton combate a caspa,
A seborréia,
Ativando a raíz enfraquecida dos seus cabelos.
Capiloton:
É o seguro do seu cabelo!
Há décadas, sempre que minha irmã e eu nos flagramos em enrolações ou coisa [...]
Amigos e coleções
Bob Freling, amigo americano (mas é gente boa).
Giselle, psicanalista lacaniana (mas é gente boa).
Não sei das preferências da Gi, mas em suas andanças pelo mundo, o Bob cismou de colecionar traduções do Jaguadarte (ou Jabberwacky), aquele poema do Lewis Carroll de “Alice Através do Espelho”, e de aprender a recitá-las também. Da última vez que [...]
Reminiscências [2]
O filme Erêndira, do Ruy Guerra, num cinema na Costa Rica, visto por Martine, 28, belga, linda, num sábado à noite, nó máximo umas quinze pessoas na sala. Numa cena, os personagens falam algumas frases em flamengo. Nem era importante entender o que diziam, bastava ver a cena. E no entanto Martine entendeu, sorriu feliz, [...]
Sobe
“No one rises so high as he who knows not whither he is going.”
Oliver Cromwell
Essa frase já rodou muito “lá em casa”, no andar em que o meu cérebro habita. Fiquei pensando nela, e no fato de já ter gostado de lugares altos, e do frio na barriga gerado por eles, pelo receio de não [...]
Filosofices baratas
E no meio de um sanguinolento embate verbal, crendo-se meio Buda, pensou:
“Os extremos e os excessos fazem mal à saúde; convém o caminho do meio.”
Reouviu o que pensou, aumentou a dose de budeidade, e pós-pensou:
“Desmerecer os extremos e os excessos, sem nunca ter saído do meio, é ter ‘meio vivido’, e também faz mal [...]
Parece coisa do além
Em meados de 1944, contando com 33 anos, três filhos e uma fiel clientela em seu consultório médico de Teófilo Otoni, Dr. J. encasqueta que é sua obrigação patriótica alistar-se como voluntário na 2ª Guerra Mundial, desconhecendo não faltar tanto assim para que a guerra acabasse. Nem vem ao caso especular sobre motivações de qualquer [...]
O Livro de Cabeceira (The Pillow Book)
Uma sinopse do filme que considero, se não o melhor, um dos melhores do Peter Greenaway, realizado em 1995, que ponho aqui para aqueles que nem idéia têm, não sem antes me deliciar pela milionésima vez com a beleza da Vivian Wu na foto acima:
Em 1970, em Kyoto, um calígrafo grafa delicadamente na face da [...]
Ruminações (2)
Umas conversas no weblog me fizeram lembrar de algo que me aconteceu há 22, 23 anos atrás. (Experiência importante para mim, e que, portanto, não ponho aqui como “verdade” ou “receita” para ninguém, vou logo avisando.)
Estudava eu psicologia, aquela maravilha de universo onde em minha sala éramos dois homens e 54 mulheres, uma realidade [...]
Paisagem na neblina, uma única cena
Dois irmãos, Voula e Alexander, em busca do pai que nunca conheceram, numa Grécia seca, abandonada, cinza, suja, e por isso densa, misteriosa, poética.
Vou à (minha) imagem.
Câmera estática, acostamento de uma estrada vazia, reta sem fim. Pela esquerda um caminhão encosta e para na (nossa) frente, uns dez metros. O motorista salta, puxando Voula pelo [...]
Quase nouveau riche (a duras penas classe moyenne)
Numa viagem à Itália, quatro anos atrás, entrei na Viceversa, uma maravilhosa loja de artigos de design de Florença, onde depois de consultar o que sobrara das minhas finanças, resolvi comprar uma dessas cafeteiras de expresso (ou “espresso”, vá lá) da FrancisFrancis!. (A verdade me dói, mas é necessária. Portanto, de açoite em punho, continuo [...]
Conversas roubadas
“Todo mundo fica dizendo: ‘nossa, vocês deram uma sorte danada de se conhecer, vocês tiveram uma sorte danada de estar casados até hoje, vocês tiveram uma sorte danada com esses filhos maravilhosos…’ Sorte porra nenhuma! Anos de análise, muita conversa, muita negociação, muito sofrimento no meio, e esse povo tem coragem de chamar isso tudo [...]
Reminiscências [1]
Lembrança parcial (se bem que todas são), mas lembrança simpática.
Festa à fantasia, início dos 80, Lago Norte, Brasília (na época, só não era mais longe que o Park Way). MPB da boa, o momento era “raiz” e anti-imperialista. (Ué, isso não é o Posto 9 e a Lapa carioca dos dias de hoje?!?).
A banda Fio [...]
Como Johnny Weissmuller
Por conta de um post para lá de sério e preocupante que o Pedro Doria colocou hoje no seu Weblog, resolvi pôr aqui uma velha história, com o propósito de aligeirar os espíritos. E para os mais novos — Nat e Monsores, para começar… —, que provavelmente nem têm idéia de quem foi o Johnny [...]
“Bienheureuse Insécurité”, de Alan Watts
Comprei num sebo em Paris, na hora certa. Mas emprestei, na hora errada, para alguém que provavelmente nunca mais verei. Por conta disso, acabei de lembrar do ditado que uma amiga judia me contou, gargalhando, e que diz mais ou menos assim: “A quem empresta um livro deve-se cortar-lhe uma mão. Mas a quem devolve, [...]
Que ladeira é essa…
Almoço de domingo, tempos atrás.
Início dos trabalhos: dois pastéis de camarão e alguns chopes.
Prato principal: carne assada com arroz, farofa, feijão e batata frita.
Sexto chope, o suficiente.
A vida é mesmo boa.
Sobremesa: uma generosa fatia de pudim de leite condensado. (Para viagem, por favor.)
A caminho de casa, uma parada: comprar ingredientes para um tabule, pois urge [...]
A Balada de Narayama, uma cena (em dois tempos)
[Primeiro uma sinopse encontrada — e encurtada — por aí, pra relembrar. Depois, uma cena do filme.] Japão, fim do século XIX, um pequeno vilarejo aos pés do monte Narayama. Ao completar 70 anos de idade, seus moradores deveriam subir ao topo do monte, levados por seus primogênitos e, como elefantes velhos, esperar pela [...]
1985
7:19 a.m. E o balanço do prédio lembrou uma rede, dessas vindas do Ceará, compradas com irritação em Copacabana quando saímos para levar algum amigo estrangeiro para conhecer a Princesinha do Mar, e que depois a gente pendura feliz na varanda para o cochilo pós-almoço, daqueles só interrompidos pelo sobrinho de três anos que quer [...]
Cura
Itabuna, Bahia, década de 40, trinta anos antes chamada Vila de Itabuna, que por força da Lei n°. 807, de 28 de julho de 1910, elevou-se à categoria de cidade, quando nesse então à Rua J.J. Seabra restavam não mais que uns vinte anos carregando esse nome, expropriado no rebatismo para “Avenida do Cinqüentenário”, por [...]



