Desconheço se é costume nacional ou internacional, mas, cá no Rio, é hábito “botequinesco” emoldurar matérias de jornal elogiosas ao próprio estabelecimento. Sendo assim, não poderia ser diferente o que se vê nas paredes da Adega Pérola, pé-sujo da melhor qualidade onde volta e meia bebo os meus chopes e traço mexilhões, batata calabresa, sardinhas [...]
Posts under ‘murmúrios’
Solilóquio, fingindo conversa
Acabei de ler no Milton, meu famoso “vizinho de condomínio“, trechos da entrevista que o compositor iugoslavo (isso mesmo, você leu direito, é como o próprio se considera) Goran Bregovic deu para o jornal El País. E sem nem perceber, embarquei na canoa de emoções do Milton. (Leia o post!) É assim que o texto [...]
Diálogo? [2]
Leia.
Agora, passe de novo os olhos pelo que leu.
Está certo de ter entendido? Se sim, siga em frente, e se tiver vontade de (e o que) comentar, pode que seja boa hora para fazê-lo. Mas se não entendeu, há algumas alternativas:
Opção 1. Formule algumas perguntas ao autor. (Procure fazê-lo num tom que valorize o conteúdo [...]
Se você pensa que comunismo é isto…
… mas,
no seu caso,
crê em opiniões e vontade próprias,
olhe para as suas roupas,
seus badulaques eletrônicos,
o que come, o que bebe,
como engorda,
como emagrece,
como reza,
como ignora quem reza,
como trepa,
como fala,
como escuta,
como quer que o escutem.
Você não é comunista,
mas é comum.
Comuníssimo.
[Um velho cartum do Quino]
Uma moralização “de quinta”
É mais um recorte tirado do tal livro do Haruki Murakami. Ainda na página 13, o personagem principal fala de uma moça. Na época da leitura, não consegui fingir que aquilo não que me incomodou. Segue o trecho:
“(…) Dizem, naqueles velhos tempos tinha uma garota que dormia com qualquer um, lembra, como era mesmo [...]
Eu, você, eles. Quem não?
Noite. Rua. (Vazia.)
Sozinho, à procura; surge outro.
— O que foi?
— Perdi a chave.
— Quer ajuda?
— Quero.
(Meia-hora; em vão.)
— Dê uma dica. Perdeu onde?
— No breu do beco, lá atrás.
— Por que procura aqui?
— Tem mais luz.
Quatro anos antes
Outro, o continente. Imensa, a saudade. Tamanha, a dor.
Um telefonema, uma notícia: uma escala, amanhã. Horas, poucas, em trânsito. “Vá ao aeroporto. Tentemos.”
O ônibus, a ansiedade, a chegada, o saguão, o painel: avião pousado, “Passageiros para Montevidéu, embarque, portão A.” E agora?
“Atenção, senhor R., queira dirigir-se ao check-in da companhia S… Senhor R., favor [...]
Por favor
Não insista, pare de tentar me catequizar: eu não amo todo mundo. E dizer “se não ama então detesta!” é criancice da sua parte. Dá no mesmo, é só o avesso. Quer mesmo entender? Então te explico. Para começar, algo que talvez te surpreenda: não odeio ninguém. Fiz um apanhado geral e concluí que ódio [...]
Estultices, por culpa do calor
Começou com um telefonema. Liguei para uma amiga, não falava com ela há séculos.
— Tudo bem?
— Não, papai morreu anteontem… caramba, e você liga assim, do nada!…
Esses eventos ocorrem com relativa freqüência comigo. Nunca mapeei, nunca enumerei, mas o que me chateia um pouco é a falta de aviso. Bem que poderia ser uma sensação [...]
Pontuação
Eu quero só porque você não quer.
Eu quero, só. Por quê você não quer?
Eu quero, só. Por quê? Você não quer?
Eu? Quero, só porque você, não. Quer?
Eu quero só pôr. Quê? Você! Não quer?
Licença
Licença.
Licença poética.
Com licença poética.
Com licença, poética.
Poética com licença.
Pô, ética, com licença!
Ética com licença.
Ética com licença, pô.
Ética, com licença, pô!
Licença com ética.
Licença com poética.
Licença.
Bons-modos mal-educados
— Operadora Francilene Gomes, bom dia. Informe seu nome e o número do seu celular com o DDD, por favor.
— Ricardo C., vinte e um, número-número-número-número, número-número-número-número.
— Para sua segurança, precisamos confirmar alguns dados. Diga o seu nome completo e os três primeiros números do seu CPF.
— Acabei de de dizer o meu nome completo, [...]


