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	<title>Ágora com dazibao no meio</title>
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	<description>Prolegômenos, (re)flexões e nadas, de todo tipo.</description>
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		<pubDate>Mon, 22 Apr 2013 16:47:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo C.</dc:creator>
				<category><![CDATA[(re)flexões]]></category>
		<category><![CDATA[conversê]]></category>

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		<description><![CDATA[Você pensa: entender a &#8220;impermanência&#8221; e exercitar o &#8220;desapego&#8221; são a combinação perfeita para lidar com isso que chamamos &#8220;viver&#8221;. Então pensa mais um pouco e vê que gerações mais novas do que a sua já experimentam essas mesmas palavras, &#8230; <a href="http://agora.opsblog.org/2013/04/converse/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
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<p>Você pensa: entender a &#8220;impermanência&#8221; e exercitar o &#8220;desapego&#8221; são a combinação perfeita para lidar com isso que chamamos &#8220;viver&#8221;. Então pensa mais um pouco e vê que gerações mais novas do que a sua já experimentam essas mesmas palavras, só que de outro jeito, um jeito próprio&#8230; de gerações mais novas. Em parte é isso mesmo, um jeito parecido com gerações anteriores — a sua inclusive —, quando eram&#8230; mais novas; em parte não, pois é um jeito que carrega algo próprio, relacionado aos últimos quinze, vinte anos se tanto, e ainda por cima elevado à terceira potência nos dez ou cinco que se passaram. As novas gerações, pois, vivem a impermanência e o desapego de maneira diferente. É que elas não se empenham em exercitá-las, como faz um aprendiz do budismo; elas são consumidas, às vezes até atropeladas por elas.</p>
<p>Ocorre que &#8220;impermanência&#8221; é o nome próprio que o cotidiano das últimas duas décadas carrega, onde tudo é costumeira e <a href="http://www.amalgama.blog.br/06/2011/bauman-teorico-do-mundo-liquido/" target="_blank">baumanianamente líquido</a>, em especial para os nascidos há 20 anos ou menos. Você pode argumentar: ora, isso <strong>é ter vinte anos ou menos</strong>, e não poderei negar (de todo). Mas acrescentarei que a parafernália tecno-eletrônico-informática que nos envolve resultou, sim, numa forma qualitativamente distinta e transformadora em relação às noções de tempo, espaço, afetos,<strong><span style="color: #0000ff">*</span></strong> tendo papel central no que chamamos &#8220;viver&#8221; e &#8220;mundo&#8221; — e aqui é você que vai ter que pensar um pouco antes de negar o que digo. É com o auxílio dessa parafernália que a noção de que tudo é impermanente deixou de ser algo que só se consegue compreender por meio de muita reflexão, meditação, do esforço por desidentificar-se — do corpo, do eu, de objetos, de conceitos etc. —, entre outros métodos ativos, e passou a ser &#8220;a&#8221; realidade. Só tem um porém: uma realidade que <strong>nos dirige</strong>, não uma realidade <strong>que somos</strong>.</p>
<p>Não sei se fui muito feliz na última frase acima, então deixe eu tentar distinguir o que seriam essas &#8220;duas impermanências&#8221;, falando principalmente da dos tempos atuais. Primeiro devo dizer que esta impermanência contemporânea não é o que nos constitui:<span style="color: #0000ff"><strong>**</strong></span> trata-se apenas de um efeito, o resultado da incrível velocidade que imprimimos (e/ou que nos imprimem) a tudo o que fazemos, tocamos, sentimos, pensamos e desejamos. Ora, é senso comum que hoje em dia tudo se torna obsoleto em segundos; ou melhor, tudo é planejado e construído para que sua obsolescência seja quase instantânea. Não é de estranhar que as próprias relações afetivas sejam influenciadas por isso. E é aqui que entra o tal desapego: ele não é exatamente o modo como se quer efetivamente lidar com os objetos, as pessoas, o próprio corpo. Não se trata da compreensão de que o apego é uma prisão, uma ilusão irresistível de que devemos nos libertar ou coisa parecida. No fundo, o que parece desapego não passa de uma versão do seu antônimo, o próprio apego, só que vivido em versão acelerada. Pula-se de um apego ao outro como se pula de um pensamento a outro, de um desejo a outro, feito um cavalo xucro lutando para não ser domado; mas a busca pelo apego segue a mesma e não cessa. Se há desapego, ele só exite no intervalo entre um apego que não se quer mais e o apego que ainda não foi alcançado.</p>
<p>Se falei que no mundo das gerações mais novas a impermanência e o desapego não passam de versões disfarçadas de permanência e apego, entre os<span style="color: #0000ff"><strong>***</strong></span> mais velhos as coisas não são muito melhores. Contra o que lhes parece volátil demais, inconstante demais, apegam-se aos seus objetos e lembranças, sentindo-se estrangeiros neste viver etéreo, certos de que o bom já aconteceu e o hoje não passa de uma versão resumida e descartável do ontem. Com isso, muitos não percebem que, ao viver assim, o presente passa inadvertido por eles.</p>
<p>É tudo isso e não é nada disso.</p>
<p>Se, como disse por aí, o mundo das novas gerações não conhece o limo, só os filtros do Instagram que o emulam, preciso acrescentar que o limo das velhas gerações também não parece mais ao alcance da mão, pois só existe o de suas lembranças.</p>
<p>Vamos sair à rua e andar com vagar: uns diminuindo a velocidade do passo e olhando ao redor; outros, deixando as lembranças em casa e vendo tudo como se fosse pela primeira vez.</p>
<p>Hora dessas pretendo fazer isso. As duas coisas.</p>
<p><span style="color: #ffffff">.</span></p>
<p>_______________</p>
<p><span style="color: #0000ff"><strong>* </strong></span>A compressão do tempo e do espaço em função de novas tecnologias ocorre desde que o ser humano criou sua primeira ferramenta. A diferença hoje talvez esteja não apenas na velocidade das mudanças, mas na capacidade que o ser humano tem de digeri-las adequadamente nesses intervalos cada vez mais curtos. Particularmente, percebo uma indigestão generalizada, o que considero um tipo resposta de nossa espécie sobre a lida com essa questão.<br />
<span style="color: #0000ff"><b>**</b></span> Vale dizer que não sei bem o que nos constitui, mas isso é outra conversa.<br />
<span style="color: #0000ff"><strong>***</strong></span> Talvez o mais correto seja dizer &#8220;nós&#8221;.</p>
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		<title>A culpa é do tradutor</title>
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		<pubDate>Sat, 13 Apr 2013 00:21:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo C.</dc:creator>
				<category><![CDATA[tolices]]></category>

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		<description><![CDATA[Gosto do I Ching porque é chinês. Ou seja, veio do outro lado do mundo, foi traduzido de um idioma esquisito e difícil pra chuchu, é da terra duns caras que fazem umas lutas muito malucas que ficam lindas em &#8230; <a href="http://agora.opsblog.org/2013/04/a-culpa-e-do-tradutor-do-celular-foi-ele-que-escreveu-isso/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[
<p>Gosto do I Ching porque é chinês. Ou seja, veio do outro lado do mundo, foi traduzido de um idioma esquisito e difícil pra chuchu, é da terra duns caras que fazem umas lutas muito malucas que ficam lindas em câmera lenta, onde tinha o Mestre e Gafanhoto, o discípulo dele, que era o David Carradine, que teria se enforcado num hotel de luxo em Bangcoc, que também não é longe da mesma China onde viveu um tal de Lao Tsé, que supostamente escreveu o Tao Te King — ou escreveram pra ele, sei lá —, uma figura que também disse umas coisas que a gente não entende e depois fica dizendo que é porque rompem com os nossos esquemas lógico-racionais de pensar, um sujeito dessa terra que por sinal fica perto da Índia, de onde vem Buda, que por sua vez não é longe do Japão, aquele conjunto de ilhas onde rolou uma forma de budismo particular, o tal do Zen, cheio de koans e de sei lá mais quantas coisas diferentes em relação ao jeito da gente entender o mundo por aqui, e que só por isso muitos dizem ohh!, ahh!, acreditando que aquilo tudo só pode ser super profundo, dum misticismo tão próprio — porque aprendi, acho que com o Gershom Scholem num livro chamado A Mística Judaica, dado por uma amiga que não vejo há um tempão, que misticismo, pra São Tomás de Aquino, é <em>Cognitio Dei Experimentalis</em>, ou seja, o conhecimento de Deus através da própria experiência —, misticismo tão próprio esse que sequer pode ser chamado realmente de misticismo, porque o budismo não tem Deus, ora, então que raio de experiência de Deus haveria nele?, embora a gente veja aquele monte de divindades no budismo tibetano e acabe meio confuso, só que parece que os budistas eram super flexíveis e diziam &#8220;beleza, topo incorporar teus deuses se você topar incorporar meus ensinamentos&#8221; ou algo parecido, devo ter lido sobre o assunto naquela revista Seleções do Reader&#8217;s Digest que nem sei se ainda existe, e lembro dela porque dizia meu pai que eu tinha &#8220;conhecimento de revista Seleções&#8221; e só não ficava muito chateado porque ele só fazia esse comentário quando eu tentava engambelá-lo, e não era sempre, e é engambelado assim que eu me sinto quando leio o meu exemplar do I Ching, que foi traduzido do chinês pro italiano e dali pro espanhol, diferente da versão brasileira, que foi traduzida do chinês pro alemão, depois pro inglês e por último pro português, o que me faz ficar pensando no monte de ideogramas chineses do original, essas coisinhas cheias de tracinhos e palitinhos e borrõezinhos, e em como os primeiros tradutores, o do chinês pro italiano e o do chinês pro alemão, podem ter derramado café em cima dos originais e ficado sem saber o que estava escrito de verdade, ou como algum deles ficou tentado a inventar que aquela flor roxa que inspira o sábio sobre a natureza do vazio na verdade era amarela, ou nem flor era, e talvez na minha versão do I Ching o café do tradutor tenha sido expresso, e a mancha teria sido mais espessa, e, por conta disso,  mais ideogramas dançaram, então o resultado pode ter ficado ainda mais obscuro e difícil de entender, e a gente, de novo, achando que precisa quebrar essa besteira analítica do Ocidente que nos molda, e por conta disso deve mergulhar fundo no conhecimento da inexistência, e pra chegar perto de lá não adianta ler o I Ching com três moedinhas, o certo é com o método de varetas ou palitos, e digo, ou dizem, que é o jeito certo porque dá mais trabalho e se a gente que é preguiçoso e ao mesmo tempo acelerado preferir moedinhas ou quem sabe um I Ching virtual pra instalar no Smartphone vai ficar ainda mais longe do caminho da iluminação, mais ainda se continuar querendo tudo pra ontem, então é melhor comprar logo uma lanterna e parar de tonterias porque esse papo já está de bom tamanho por hoje.</p>
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		<title>Nadando contra a corrente, só pra exercitar (ou, por que não, &#8220;a Geni da vez&#8221;)</title>
		<link>http://agora.opsblog.org/2013/03/nadando-contra-a-corrente-so-pra-exercitar-ou-por-que-nao-a-geni-da-vez/</link>
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		<pubDate>Sun, 03 Mar 2013 16:26:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo C.</dc:creator>
				<category><![CDATA[(re)flexões]]></category>
		<category><![CDATA[humanidade]]></category>
		<category><![CDATA[notícias]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[Ok, muita gente se indignou com a privatização da praia do Forte de Copacabana, veiculada na matéria que saiu na Veja Rio no fim de semana passado. (Tem por aí, é fácil de achar na rede, não quero ficar fazendo propaganda gratuita &#8230; <a href="http://agora.opsblog.org/2013/03/nadando-contra-a-corrente-so-pra-exercitar-ou-por-que-nao-a-geni-da-vez/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[
<p>Ok, muita gente se indignou com a privatização da praia do Forte de Copacabana, veiculada na matéria que saiu na Veja Rio no fim de semana passado. (Tem por aí, é fácil de achar na rede, não quero ficar fazendo propaganda gratuita dessa publicação.) Cá entre nós, eu também fiquei bastante contrariado. E ainda vimos o tom de indignação nas redes sociais ser turbinado pela legenda da foto de uma moça, <em>&#8220;A socióloga Camila, que trocou Ipanema pelo beach club carioca&#8221;</em>, e pelo que seriam trechos de um depoimento seu. Diz a &#8220;matéria&#8221;:</p>
<blockquote><p>&#8216;Deixei de frequentar Ipanema e passei a vir aqui todos os dias porque o público é muito mais selecionado&#8217;, diz a socióloga Camila Diniz. &#8216;Posso beber champanhe na taça e fazer escova no cabelo após mergulhar.&#8217; Assídua desde a inauguração, ocorrida em 9 de janeiro, Camila calcula já ter gastado 3.000 reais na brincadeira (veja o quadro com os valores nesta página). &#8216;Vale muito a pena. Nem em Paris os garçons entendem tanto de bebida&#8217;, justifica.</p></blockquote>
<p>Ok de novo, porque essas falas acompanhadas pelo &#8220;socióloga&#8221; de fato não ajudam muito. E com isso a moça virou a representante mor de um grupo de endinheirados em busca de privilégios em relação à <a href="http://aulete.uol.com.br/nossoaulete/matulagem" target="_blank">matulagem</a> - e, sobretudo, querendo distância dela.</p>
<p>Esse é o resumo da história.</p>
<p>Mas é isso mesmo? A moça seria a reencarnação de Maria Antonieta, ou melhor, do infeliz raciocínio atribuído à <em>L&#8217;Autre-chienne</em> (<em>&#8220;Se o povo não tem pão, que coma brioches!&#8221;</em>)? Ainda bem que apareceu um &#8220;outro lado&#8221;, não na Veja, mas <a href="http://oglobo.globo.com/blogs/saideira/posts/2013/02/26/o-outro-lado-da-praia-dos-riquinhos-487721.asp" target="_blank">no jornal O Globo</a>, seu aparentado. Mesmo sem livrar a moça de todo o mal, amém, a matéria sugeriu que as coisas não foram bem assim, que as falas da menina teriam sido editadas e, com isso, soaram a puro preconceito:</p>
<blockquote><p> Me senti prejudicada com a matéria, pois colocaram duas coisas de contextos diferentes em uma frase: &#8216;A socióloga Camila Diniz deixou de frequentar Ipanema para ir ao Beach Club: o público é mais selecionado&#8217;. Isso soou com tom de preconceito da minha parte e não falei isso. O que eu disse foi que deixei de ir onde ia enquanto o clube funcionava naquela temporada e que as pessoas que vão ali buscam algo diferente do comum, uma praia com djs, com garçom, com ambiente diferente, buscam ter uma praia pra dançar, um clube onde você tem outros atrativos.</p></blockquote>
<p>Terceiro oquei, porque a defesa que a moça faz de si mesma não é propriamente um portento, mas tampouco dá a entender que se trate de uma alienada fútil cujo diploma de sociologia foi tão comprado quanto qualquer bolsa L&amp;V ostentada pelos <em>beach clubs</em> mundo afora, e que o canudo só teria sido dessa profissão porque os das outras já tinham acabado.</p>
<p>Mas nada disso importa, porque seguir nessa toada é continuar a malhar [a] Judas ou jogar pedra na Geni, enquanto outras personagens mais centrais ficam de fora. (Aliás, é interessante saber das iniciativas que pretendem &#8220;invadir a praia&#8221; dessa gente de salto alto bebendo champanhe, semelhante ao <a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/sp/churrasco+de+gente+diferenciada+reune+centenas+de+pessoas+em+sp/n1596952519276.html" target="_blank">Churrascão da Gente Diferenciada</a> que ocorreu em Higienópolis em 2011. Saberemos dos desdobramentos, caso eles resolvam mesmo sair do virtual.) Dito isso, ninguém vai falar sobre o veículo que fez a matéria, sobre sua (questionável) credibilidade? Ninguém vai discutir, por exemplo, o tom irônico da &#8220;reportagem&#8221;, um tantinho crítico a tudo e todos os que ela descreve, ironia essa que, curiosamente, serve para neutralizar seu próprio lado deslumbrado, estilo Revista Caras, que adora mostrar a &#8220;pujança&#8221; do capital, neste caso emoldurada pelos dezessete valores em Reais citados &#8211; que vão de 65 a 2,5 milhões &#8211; e por sua referência a uma atração que aproximaria o Rio de Janeiro das <em>&#8220;[...] sofisticadas praias de Ibiza, na Espanha, [...] [de] Punta del Este, no Uruguai, e [...] [da] badalada Jurerê Internacional&#8221;</em>? Ninguém vai indagar sobre a edição das entrevistas, cujo tom oscila entre a crítica desdenhosa e o elogio &#8220;inveja boa&#8221;? E não há nada a dizer sobre o foco da matéria ter sido posto nas mulheres? Porque, convenhamos, até os grãos de areia da praia do forte sabem que ao colocar o feminino em evidência abre-se a porteira para incontáveis argumentos <em>ad hominem</em>, todos eles rondando o significante &#8220;puta&#8221;, não é?</p>
<p>E para piorar um pouco as coisas, houve menções aqui e acolá sugerindo que os críticos do empreendimento na praia do forte de Copacabana estariam apenas com inveja, que no fundo eles queriam mesmo ter grana para gozar daqueles mimos todos regados a champanhe e embalados em música eletrônica. Pois direi algo que talvez vocês estranhem, se é que não vão detestar: esses comentários, por mais babacas que soem, não são tão descabidos assim, mesmo quando dirigidos a defensores da justiça social nem um pouco chegados à música eletrônica e que preferem uma boa cerveja numa roda de samba. (Eu avisei que pioraria as coisas.) Sim, a inveja é uma merda, mas ela não deixa de ter seu quinhão nesse imbróglio todo. (Não sei se consola, mas se ela diz respeito a vocês e a mim, não deixa de incluir os próprios comentaristas babacas do início do parágrafo.) E para dar <em>sustança </em>ao que digo, recorro a um artigo do psicanalista Manfred F. R. Kates de Vries: <strong><sup>1</sup></strong></p>
<blockquote><p>O sociólogo Helmut Shoeck [...] levanta a questão da universalidade da &#8216;causa da inveja&#8217;. Ele sustenta que &#8216;a inveja é uma força que se situa no coração do homem como ser social e que se manifesta assim que dois indivíduos estão em condições de estabelecer uma comparação recíproca.<br />
Segundo Shoeck, a essência da inveja reside na rejeição da diversidade. O homem experimenta uma grande necessidade de igualização. Por exemplo, mesmo uma política governamental, como a progressividade dos impostos, encontraria raízes na inveja. É assim que a inveja geraria os controles sociais dos quais depende a sociedade.</p></blockquote>
<p>Bom, conviria comentar um pouco mais sobre a citação aí de cima, mas fica para outro dia. É que está na hora de terminar, já falei muito sobre uma notícia velha demais para os parâmetros da internet. Agora vou ali, pedalar vendo o mar, imaginando a praia do forte de Copacabana não mais privada, por fim livre de riquinhos e outra vez exclusiva dos valorosos militares que servem por lá e precisam renovar constantemente suas energias mergulhando nas águas daquele pedaço de paraíso. Vou na direção de Ipanema, perguntando-me se a Camila Diniz já pode voltar a frequentar essa praia sem medo, quem sabe escolhendo ficar no posto 9, e, já pensou, com sua canga estendida pertinho d@ jornalista que a entrevistou e do grupo que pediu a cassação do seu diploma.</p>
<p>__________</p>
<p><sup><strong>1</strong> </sup>&#8220;A inveja, grande esquecida dos fatores de motivação em gestão&#8221;. In: CHANLAT, Jean-François (coord.). <strong>O Indivíduo na Organização: Dimensões Esquecidas</strong>. SP: Atlas, 1996, pp. 67-82.</p>
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		<title>Par</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Feb 2013 09:02:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo C.</dc:creator>
				<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>
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<p>Você e eu, amig@, vivemos um momento ímpar. Somos testemunhas de uma verdadeira revolução de costumes, de quebra de tabus, sobretudo sexuais, de contestação da autoridade patriarcal e de modelos fossilizados de Estado. Como é fantástico assistirmos de camarote a tanta gente dizer em alto e bom som tudo aquilo que deseja e pensa, a tantos que enfrentam, destemidamente, as tentativas de censura dos moralistas, da igreja e dos conservadores em geral. Que emoção nos dá ao ouvir todos esses gritos por liberdade, contra qualquer tipo de opressão, tirania e afins, não é?</p>
<p>Por isso não me canso de repetir: que privilegio nosso, o de viver nestes primeiros e gloriosos anos da década de 1960.</p>
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		<title>Tempo tempo tempo tempo</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Feb 2013 22:36:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo C.</dc:creator>
				<category><![CDATA[estranhamentos]]></category>
		<category><![CDATA[nadas]]></category>

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		<description><![CDATA[Tomava um café em Ipanema, olhando o movimento dos já-não-apenas-pedestres-mas-sim-foliões, de todas as cores e línguas, quando postou-se na minha linha de visão uma senhora esguia, de postura corporal que sugeria uma estatura muito maior do que de fato tinha. A &#8230; <a href="http://agora.opsblog.org/2013/02/tempo-tempo-tempo-tempo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[
<p>Tomava um café em Ipanema, olhando o movimento dos já-não-apenas-pedestres-mas-sim-foliões, de todas as cores e línguas, quando postou-se na minha linha de visão uma senhora esguia, de postura corporal que sugeria uma estatura muito maior do que de fato tinha. A idade parecia muita, e sem medo de ser mostrada.</p>
<p>[Admito gostar disso. Numa cidade como o Rio de Janeiro, onde se cometem cirurgias plásticas na mesma proporção com que os foliões urinam pelas ruas durante o Carnaval, ver alguém ostentar mais de sessenta anos sem tentar se passar por balzaquian@ é um bálsamo para os meus olhos quase cinquentões.]</p>
<p>Suas costas, seus braços e as pernas exibiam uma quantidade bem significativa de rugas, e o fato de todas estarem à vista, em sintonia com a temperatura do verão carioca, me fez pensar em como é bom ainda existirem pessoas que conseguem não brigar com o tempo, apenas vivem-no. Mas o pensamento durou pouco, transformou-se tão logo a senhora mudou de posição e ficou de perfil. Foi quando surgiu diante dos meus olhos um contraste, impossível de não notar: um par de seios em riste, impávidos, desafiando a gravidade, que equivocaram a mim e ao garçom que me atendia, enquanto a moça na mesa ao lado da minha ia mais longe, ornando o próprio rosto com o cenho franzido, na mais franca das desaprovações estéticas.</p>
<p>[É bem provável que eu não passe de um reles conservador em matéria de transformações corporais, correndo o sério risco de pertencer à mesma categoria dos moralizadores de plantão que costumo criticar por aí. Reconheço que muitas dessas modificações corporais não são mesmo do meu agrado, embora não costume registrar isso com frequência nas internetes da vida, no máximo em conversas de bar ou no intervalo do café. Paciência, não se pode acertar todas.]</p>
<p>Estou certo de que a senhora de ampla idade e o par de seios que portava já foram mais próximos, decerto coetâneos. Mas hoje, sexta-feira de Carnaval, pareciam três estranhos, com o desentendimento comum aos de gerações diferentes. E por conta disso, um desejo me atravessou: que um dia todas as próteses que a medicina inventou e ainda há de inventar sejam obrigadas a envelhecer junto com seus donos.</p>
<p>Não sei dizer sobre o companheiro tempo, mas eu ficaria deveras agradecido.</p>
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		<title>Ainda há pouco</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Sep 2012 02:37:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo C.</dc:creator>
				<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[receitas]]></category>
		<category><![CDATA[singelezas]]></category>

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		<description><![CDATA[No balcão, depois do trabalho. No balcão, depois do trabalho, tomando sakê. No balcão, depois do trabalho, tomando sakê e lendo um artigo, enquanto espero uma dupla de enguia. No balcão, depois do trabalho, demorando a terminar o sakê e &#8230; <a href="http://agora.opsblog.org/2012/09/ainda-ha-pouco/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
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<p>No balcão, depois do trabalho.</p>
<p>No balcão, depois do trabalho, tomando sakê.</p>
<p>No balcão, depois do trabalho, tomando sakê e lendo um artigo, enquanto espero uma dupla de enguia.</p>
<p>No balcão, depois do trabalho, demorando a terminar o sakê e a terceira página do artigo, olhando com pena para a segunda unidade da ex-dupla de enguia, pena de comê-la e daquele festival de sensações que inunda a minha boca acabar logo.</p>
<p>No balcão, depois do trabalho, pedindo o segundo sakê e lendo, extasiado, já não sei mais que página do artigo, esperando o dono do restaurante me recomendar outra iguaria, a mais esquisita que passar pela cabeça dele, enquanto o prato e o masu, aquela caixinha onde se bebe sakê, me olham vazios.</p>
<p>Lendo um balcão depois do artigo, digo, pedindo para encher o artigo vazio, quer dizer, mais sakê, por favor, e por fim chega a dupla de ankimo de tamboril — o fois gras japonês, veio dizer o dono num português sorridente e sofrível — e depois de comer o primeiro, penso que o artigo, que responde por &#8220;<a href="http://www.centrowinnicott.com.br/saopaulo/uploads/c93f7194-32a9-4989.pdf" target="_blank">Onde começam os erros de Lacan</a>&#8220;, faz ainda mais sentido e que o Peter Sloterdijk só não é meu novo herói porque não pretendo começar a cultivar heróis depois de velho, e depois do segundo ankimo só quero saber do que paira no céu da minha boca, de papilas para lá de gustativas, de sorrisos imperceptíveis ao olhar alheio por serem meus e eu ter certeza que ninguém está me observando, e de voltar logo pra casa, e compartilhar com a Rê tudo isso menos sobre os erros de Lacan, que o negócio dela é o Freud mesmo, e combinar de ampliar a minha dose e inaugurar a dose dela no fim de semana, o menu degustação, por favor, porque a gente merece rir um com e do outro, e ainda mais pelo prazer de estarmos juntos há quatorze anos e querer refestelar-nos, regozijar-nos e quantos ar-nos ainda dermos conta juntos, enquanto seu lobo não vem.</p>
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		<title>Martedi, 7 agosto, de Ipanema a Laranjeiras, passando por Copacabana</title>
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		<pubDate>Sun, 12 Aug 2012 00:01:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo C.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fotos]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>

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		<description><![CDATA[Visconde de Pirajá, Gomes Carneiro, Francisco Sá, o sinal fecha. Uns três minutos para o 485, linha Penha &#8211; Pça. General Osório, tornar a andar e logo virar à esquerda, mais ou menos no início da Avenida Nossa Senhora de &#8230; <a href="http://agora.opsblog.org/2012/08/martedi-de-ipanema-a-laranjeiras-passando-por-copacabana/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[
<p>Visconde de Pirajá, Gomes Carneiro, Francisco Sá, o sinal fecha. Uns três minutos para o 485, linha Penha &#8211; Pça. General Osório, tornar a andar e logo virar à esquerda, mais ou menos no início da Avenida Nossa Senhora de Copacabana.</p>
<p>Éramos o motorista, o trocador, eu e mais um, até o ônibus frear nalgum ponto do bairro e outro passageiro entrar. Parei de ler meu livro e dirigi o olhar para a roleta, sabendo que a explicação do gesto fica por conta das teorias sobre atenção e percepção. Não notei se o pagamento foi em dinheiro ou com algum bilhete eletrônico, mas lembro de ter perguntado aos meus botões se o cara seria estrangeiro, um estrangeiro de cara conhecida, ou se era cearense. A dúvida só acabou quando o sujeito atendeu o celular com um sotaque de alguém vindo de terras mais distantes que o nordeste brasileiro, e a cara que não me era estranha ganhou nome e sobrenome bem na hora em que ele olhou de rabo de olho para mim, eu sorri e perguntei &#8220;o senhor não é escritor?&#8221;, e ele acenou naquele gesto universal dizendo que sim, sorrindo de volta.</p>
<p>Voltei meus olhos para o livro assim que o tempo regulamentar dos sorrisos entre cidadãos que não se conhecem acabou, mas não deu nem meia página até  ter que guardá-lo na pasta e apertar o botão para descer do ônibus. Mais de cinco passos e escutei um &#8220;ei!, ei!&#8221; e me virei para ver que se tratava do estrangeiro de cara conhecida que se aproximava estendendo a mão para me cumprimentar.  &#8221;Eu até tive vontade de tirar um retrato seu, mas fiquei constrangido, não queria ser invasivo&#8221;, disse a ele, deixando claro por que não há a menor chance de um dia eu vir a ser um bom fotógrafo. &#8220;Pode tirar&#8221;, foi o que entendi ele responder. Tirei da pasta a câmera que vivo levando para passear comigo, a cara conhecida postou-se ao meu lado e bati a foto. Achei o registro aceitável, ele pareceu concordar, então perguntei como andavam as coisas. &#8220;Tem só um juiz chateando, falou que não dei meu endereço pra polícia federal, mas não é verdade. Acho que quer mídia&#8221;, e depois piscou. &#8220;Então boa sorte&#8221;, foi a última coisa que eu disse, os dois seguindo em direções opostas.</p>
<p style="text-align: center"><a href="http://agora.opsblog.org/files/2012/08/P1050216.jpg"><img class="aligncenter  wp-image-5237" src="http://agora.opsblog.org/files/2012/08/P1050216-1024x768.jpg" alt="" width="496" height="372" /></a><em>Sigo achando que o Cesare Battisti tem um pé no Ceará</em></p>
<p>Pode que ele tenha feito aquilo de que o acusam, pensei.  E se eu tivesse certeza, teria bateria a foto?, pensei também.</p>
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		<title>Estas son las mañanitas que cantaba el rey David</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Jun 2012 13:39:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo C.</dc:creator>
				<category><![CDATA[murmúrios]]></category>
		<category><![CDATA[nadas]]></category>

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		<description><![CDATA[Lembro que aos treze eu tinha certeza de que não passaria dos trinta e cinco. E também de ficar chateado ao ouvir que essa quase certeza era um dos mais comuns lugares-comuns vivenciados por nossa espécie, não uma, mas várias &#8230; <a href="http://agora.opsblog.org/2012/06/estas-son-las-mananitas-que-cantaba-el-rey-david/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[
<p>Lembro que aos treze eu tinha certeza de que não passaria dos trinta e cinco. E também de ficar chateado ao ouvir que essa quase certeza era um dos mais comuns lugares-comuns vivenciados por nossa espécie, não uma, mas várias vezes ao longo da vida, mudando apenas os anos das quase certas mortes e os endereços dos moribundos.</p>
<p>Cá pra nós, saber-se comum, igual à maioria, a previsibilidade em pessoa, não deve ser propriamente o nirvana, o zênite ou o <em>Sunyata </em>para moleques de treze anos, que só por terem uma idade dessas já devem sentir-se desagradavelmente diferentes de si, não mais meninos e ainda longe de serem homens feitos. Decerto o pior dos mundos: sensações igualmente previsíveis às dos demais, diferenças igualmente semelhantes às dos demais. E nos dois casos, tudo o que se gostaria de ser era justamente o oposto.</p>
<p>Já se passou um bom tempo desde que eu tinha treze. Trinta e cinco anos, por sinal. E um pouco menos tempo desde que aquele querer ser diferente deixou de ter importância, o tipo de querer que de tão central e presente quase define a vida da gente — e não só aos treze. Trata-se de uma diferença tão frequentemente desejada, mas nada fácil de realizar, que por isso mesmo gera uma angústia  danada — a angústia <strong>pela </strong>diferença —, tão intensa quanto o seu reverso, a diferença entre a maioria e os que estão à margem, invisíveis aos demais, angustiados pelo não pertencimento e pelo isolamento resultante — uma angústia <strong>da</strong> diferença.</p>
<p>Certas idades são boas. A de agora, por exemplo, sem todo aquele desejo ora pela diferença, ora pelo pertencimento, ao menos não com a urgência e centralidade de outros tempos.  Gosto disso.</p>
<p>Não tenho mais treze, não morri aos trinta e cinco.</p>
<p>Espere: treze mais trinta e cinco dá quarenta e oito, a idade que fiz hoje. Será que isso quer dizer alguma coisa?</p>
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		<item>
		<title>&#8220;Eu sou aquilo que aconteceu com a minha mãe&#8221; [Página/12]</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Apr 2012 19:44:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo C.</dc:creator>
				<category><![CDATA[tradução]]></category>
		<category><![CDATA[aborto]]></category>
		<category><![CDATA[Argentina]]></category>
		<category><![CDATA[direito]]></category>
		<category><![CDATA[estupro]]></category>
		<category><![CDATA[suicídio]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Andrea Homene * Madrugada de inverno na emergência de um hospital público. Uma regra implícita diz que ninguém deve mencionar como o plantão anda calmo, que é para evitar que de repente tudo mude. São superstições dos trabalhadores da &#8230; <a href="http://agora.opsblog.org/2012/04/sou-aquilo-que-aconteceu-com-a-minha-mae/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[
<blockquote>
<p style="text-align: right">Por Andrea Homene *</p>
<p style="text-align: justify">Madrugada de inverno na emergência de um hospital público. Uma regra implícita diz que ninguém deve mencionar como o plantão anda calmo, que é para evitar que de repente tudo mude. São superstições dos trabalhadores da saúde. E, de fato, depois de achar que o plantão vai terminar sem maiores surpresas, você escuta a sirene de uma patrulha, seguida pela da ambulância. Na maca, uma jovem adolescente com ataduras caseiras nos pulsos. Sangra muito, então rapidamente a levamos para a UTI e os cirurgiões correm para atendê-la. Carolina tentou o suicídio. Não foi a primeira vez, relata um familiar cheio de angústia. Já tentou tantas vezes que provavelmente um dia vai conseguir se matar.</p>
<p style="text-align: justify">No dia seguinte, depois do tratamento intensivo, eu a entrevisto. Carolina tem 16 anos. Conta que desde bem nova sente muita vontade de se matar; que tenta desde os doze e que lamenta que desta vez a descobrissem na hora em que se trancou no banheiro. Já tentou várias formas de suicídio e, garante, da próxima vez não vai falhar. Fala de sua mãe: “Nunca me quis”; “Da parte dela só senti ódio”. Não suporta o olhar da mãe, que descreve como “de desprezo”. Diz que não tem fotos de quando era bebê; melhor dizendo, ela não tem foto nenhuma. E que de tanto perguntar-se e perguntar o porquê de sempre ter se sentido só e vazia, finalmente a mãe confessou o que era um segredo bem guardado, mas muito mal dissimulado: Carolina é produto de um estupro.</p>
<p style="text-align: justify">Quando a mãe de Carolina tinha 14 anos, um parente próximo, já falecido, abusou sexualmente dela quantas vezes quis, até que a engravidou. Sua mãe, prossegue Carolina, não soube o que fazer. Não queria tê-la, escondeu a gravidez até não conseguir mais dissimular a barriga. Quando o pai de sua mãe descobriu, deu-lhe uma surra, duvidando do que ela contara sobre os abusos. Depois ela quis dar Carolina a alguém, mas não deixaram. Foi desse jeito que ficou com ela, sem nenhuma possibilidade de fazer “daquilo”, do produto de um estupro, uma menina filha de algum desejo. “Aquilo”. É assim que Carolina se diz: “Eu sou aquilo que aconteceu com a minha mãe, e não quero mais viver”.</p>
<p style="text-align: justify">A suprema Corte argentina deu recentemente uma sentença admitindo que uma adolescente estuprada, que acabou grávida e decidiu abortar, não fosse penalizada por isso. Da mesma forma, ficam isentos de consequências penais os médicos que praticarem o aborto, com o consentimento dado pela mulher através de declaração juramentada, sem necessidade de autorização judicial. Em casos anteriores as exigências jurídicas resultaram na impossibilidade de realizar o aborto, já que quando as sentenças favoráveis saíam a gravidez estava tão avançada que era impossível interrompê-la.</p>
<p style="text-align: justify">Como visto no presente caso, o estupro não apenas resulta em consequências tremendas para a psique da mulher violentada: as consequências também se dão para a criança fruto do estupro, em relação ao lugar que ela ocupará no desejo materno; frente aos olhares, às vezes de ódio, às vezes de desprezo, às vezes até piedosos, de que a criança pode ser objeto sem que possua um saber consciente que ajude a decodificá-los.</p>
<p style="text-align: justify">Não se deveria ignorar — por respeito à dignidade, ao desejo — que a ausência absoluta de um desejo vital sobre o qual sustentar-se pode fazer com que a vida da criança que é fruto de um estupro carregue a marca do mortífero. Carolina transforma essa marca em ato. Ela quer se matar, não há vida possível para ela. Sua marca de origem assinala o seu destino, condenando-a a viver com um pesar imenso, impossível de suportar. Ninguém quis que ela vivesse; ela não quer. É a memória permanente do horror sofrido.</p>
<p style="text-align: justify">A sentença da Suprema Corte criou as bases para que o aborto sem punição possa ser tratado no Congresso. O debate está aberto, mas é imprescindível que se escute a voz dos mudos: as mulheres violentadas, os filhos que resultaram dessa violência, seu sofrimento, o sentimento de culpa que os invade, a vergonha que sentem ao falar disso, como se eles, os filhos, fossem responsáveis pelo ato aberrante que lhes deu origem.</p>
<p style="text-align: justify">* Autora do livro “Psicoanálisis en las trincheras. Práctica analítica y derecho penal” (ed. Letra Viva).</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify">Mais um exemplo que os nossos vizinhos nos dão. Assim fica difícil não ficarmos envergonhados com a forma como lidamos com o assunto em nossa sociedade.</p>
<p style="text-align: justify">[<a href="http://www.pagina12.com.ar/diario/psicologia/9-190137-2012-03-25.html">Página/12</a>, domingo 25 de março de 2012. Tradução (e erros): Ricardo Cabral]</p>
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		<item>
		<title>Sexta-feira, 30 de março de 2012</title>
		<link>http://agora.opsblog.org/2012/03/sexta-feira-30-de-marco-de-2012/</link>
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		<pubDate>Sat, 31 Mar 2012 02:02:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo C.</dc:creator>
				<category><![CDATA[nadas]]></category>

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		<description><![CDATA[Sim, é fato que morreram figuras célebres na semana passada. Verdade, não dá para ficarmos quietos quando um bando de viúvas da ditadura querem comemorar 31 de março de 64 como se tivessem salvado o país e não feito um &#8230; <a href="http://agora.opsblog.org/2012/03/sexta-feira-30-de-marco-de-2012/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[
<p>Sim, é fato que morreram figuras célebres na semana passada.</p>
<p>Verdade, não dá para ficarmos quietos quando um bando de viúvas da ditadura querem comemorar 31 de março de 64 como se tivessem salvado o país e não feito um estrago de proporções mastodônticas.</p>
<p>Sério, não há como ficar indiferente ao ver uma vestal como o Demóstenes Torres, o arauto da moralidade do DEM, ser flagrado no maior chamego com um contraventor de carteirinha (e mostrando-se tão contraventor quanto).</p>
<p>Concordo, as contradições e retrocessos do governo Dilma são um desgosto danado, especialmente para os que (como eu) votaram nela.</p>
<p>Mas mesmo sabendo de tudo isso (e de uma ou outra coisa a mais), estando razoavelmente atento aos movimentos do nosso tempo, constato que o meu próprio tempo, dimensão, território e crítica são outros. É do Complexo do Alemão, de suas pessoas, projetos, riqueza, violência, afetos, tensões, tráfico, desconfiança, ignorância, saberes, esperteza, solidariedade, orgulho, simpatia, beleza, intolerância, impertinência, temperança e mais trezentos e quarenta e nove mil outros atributos que falo. São eles que me ocupam, que tomam a maior parte de quem sou. E o Brasil? E o mundo? Por sorte têm quem cuide deles. Além disso, sou um só, pouco tem sobrado de mim e ainda por cima tenho muito o que fazer. Ou seja, a bola seguirá com vocês e continuarei não lhes fazendo falta. Mas se acontecer do calo apertar e precisarem de uma mãozinha, eu volto. Só não aparecerei sozinho, porque um monte de novos amigos lá dos lados de Bonsucesso, Inhaúma, Penha e que tais vão querer vir comigo. E sem eles nada feito, combinado?</p>
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		<title>&#8220;Acho que foi coisa da minha imaginação&#8221; [Página&#124;12]</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Mar 2012 00:45:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo C.</dc:creator>
				<category><![CDATA[tradução]]></category>
		<category><![CDATA[narrativas]]></category>
		<category><![CDATA[Página/12]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia sistêmica]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Carlos E. Sluzki* Tempos atrás eu estava ajudando um homem em terapia a reorganizar sua identidade, danificada durante dois meses de impiedosa tortura numa prisão do governo militar do seu país de origem, seguida de exílio forçado. Depois de &#8230; <a href="http://agora.opsblog.org/2012/03/acho-que-foi-coisa-da-minha-imaginacao-pagina12/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[
<blockquote>
<p style="text-align: right">Por Carlos E. Sluzki*</p>
<p>Tempos atrás eu estava ajudando um homem em terapia a reorganizar sua identidade, danificada durante dois meses de impiedosa tortura numa prisão do governo militar do seu país de origem, seguida de exílio forçado. Depois de algumas sessões onde se mostrara profundamente embotado, esse homem começou a chorar de maneira inconsolável, o que durou semanas. Chorava, dizia ele, pelo tempo perdido, pela inocência perdida, por seus ideais traídos, pelos amigos mortos ou que continuavam presos, pelo seu próprio sofrimento. Em certo momento do processo terapêutico incitei-o com suavidade a incluir comentários sobre seus algozes, que expressasse suas emoções sobre o assunto. Freou minha iniciativa: “Não estou interessado neles — disse. — Deixe-me viver meu luto do meu jeito, em paz”. É claro que ele tinha razão.</p>
<p>Recentemente, ao longo do processo terapêutico com uma mulher que fora abusada emocional e sexualmente durante muito tempo pelo seu namorado, ela começou a descrever seu violador referindo-se ao seu contexto, sua história e seu estilo. Como tive a impressão de que com essas descrições ela estava tentando justificar essa violência, desafiei sua descrição, definindo sem nenhuma ambiguidade a responsabilidade que ele tinha sobre tal violência. Ela me corrigiu: ”Não é que eu esteja justificando seus atos. Tento entendê-lo, vê-lo como um ser humano e não como um objeto, para diferenciar-me dele. É isso que eu estou fazendo”. De fato, ela tinha razão.</p>
<p>Outra mulher, vítima de assalto e estupro que a deixou profundamente traumatizada, passou um longo período dominada pelo que considerei um discurso interminável de ódio, com planos fantasiosos de vingança contra seus agressores. Enquanto isso, como testemunha da sua história, eu legitimava a sua indignação, de vez em quando fazendo observações centradas no seu sofrimento, na perda da inocência, sua decepção a respeito do mundo. E cada vez que eu fazia isso, ela me acusava de tentar distraí-la do que era central para ela, isto é, a legitimidade de sua fúria. E, claro, ela também estava certa.</p>
<p>O trabalho terapêutico com vítimas de violência — sobreviventes de atrocidades individuais e coletivas — envolve um processo de descoberta e recuperação de verdades, de facilitar o luto, de reconstituir a autoria e a capacidade de tomar iniciativas através da ação e da reivindicação, de recuperar o futuro e reconectar-se consigo mesmo e com os outros. Isto implica numa tarefa por vezes árdua de ajudar nossos pacientes a mudar especificamente aquelas narrativas sobre a sua experiência de vitimização e as consequências morais e comportamentais das mesmas, que os aprisionaram num mundo onde sua capacidade de autoafirmação, reconhecimento, autoria, autonomia, crescimento, alegria e enriquecimento emocional recíproco foi drasticamente reduzida.</p>
<p>Qualquer ato de violência interpessoal põe em cheque nossas premissas sobre como conceber e descrever nossa vida e nosso entorno, destruindo nosso lugar no mundo. Não surpreende que o primeiro efeito de um ato de violência sobre a vítima seja uma experiência de confusão, uma perda da coerência interna que constitui sua identidade: a violência destrói o modo de descrever o mundo; consequentemente, destrói esse mundo. Uma criança com um braço quebrado por uma surra de um pai ou de uma mãe mal-humorados, uma mulher que recebe um soco de seu marido, um idoso inválido emancipado pelo abandono de seus filhos, uma menina que acaba estuprada num encontro que ela pensou ser amigável, uma pessoa que é assaltada num beco por um ladrão, um cidadão que é torturado por um agente de segurança, o estupro em massa de mulheres para “contaminar seu grupo racial”, o extermínio sistemático de uma determinada população, a expulsão massiva de um grupo étnico, o Holocausto, os atos de Khmer Vermelho, Ruanda, Darfur, todos têm em comum a violação dessas premissas básicas de segurança e de respeito mútuo enquanto seres humanos, desse apoio que esperamos como membros de uma família, de uma comunidade ou da família humana. Em cada um desses casos as vítimas são despojadas do requisito de coerência necessário para viver em um mundo previsível, ordenado e razoável.</p>
<p>Essa fratura na trama do mundo despedaça a identidade e gera, nos que a padecem, uma fome de coerência, um desejo básico de ordem. Consequentemente, buscarão e aceitarão qualquer descrição que lhes permita restabelecer uma aparente estabilidade em sua visão de mundo e de si mesmos. Esta necessidade extrema de clareza faz com que as vítimas de violência estejam disponíveis para incorporar narrativas distorcidas e tóxicas provenientes de sua cultura ou da tradição familiar, de suas próprias experiências anteriores, ou ainda daquelas oferecidas seja por seus próprios algozes ou pelas testemunhas da violência.</p>
<p>Uma bofetada, o estupro, um ato de tortura, uma morte violenta são rótulos descontextualizados, desnudos, que definem atos de violência e não a sequência dos atos, o total de participantes, o contexto ou os preceitos morais ou relacionais, a totalidade de elementos constitutivos de uma história. Muitos dos traços das histórias — e de suas transformações a partir de uma experiência de violência e a partir de uma terapia — são facilitados pelas histórias dominantes em nossas culturas, pelas tradições e mitos e múltiplas histórias que outorgam identidade a nossa família e a nosso entorno cultural e étnico, pelos temas dominantes em nosso estrato sócio-econômico-político — com sua cota variável de sexismo, classismo e regionalismo —, por nossos credos — tais como a noção de carma num contexto budista e a de pecado e castigo num contexto judaico-cristão —, e pelos relatos dominantes nos meios de comunicação de massa. Esses mitos e histórias arquetípicas ou idiossincráticas proporcionam anteprojetos explicativos prontos para influenciar ou ainda guiar as histórias pessoais em vias de serem reorganizadas logo que uma experiência de violência tira uma pessoa do prumo.</p>
<p>Só que os algozes, os cúmplices, os possíveis espectadores, as testemunhas (mesmo as mais bem intencionadas) e até a própria vítima têm o poder de, através de suas ações e comentários, facilitar, semear, inocular certos argumentos que mistificam, opacam e re-editam, por assim dizer, a natureza violenta do ato, assim como a responsabilidade tanto dos perpetradores quanto de suas vítimas.</p>
<p>Quando se deturpa a quem pertence a iniciativa e se mistifica o papel do agressor, a violência passa a ser definida como se seu autor tivesse sido forçado por alguma outra instância (“Eu não queria, mas &#8230;”), culpando, em última instância, a vítima (“você me fez fazer isso”), as circunstâncias externas (“Eu estava estressado pelo meu trabalho”,”Eu apenas obedecia ordens”), os hormônios (“O que você quer? Eu não sou feito de pedra! “), os genes (“você sabe que eu sou assim, temperamental. Por que foi me provocar?”), os mal-entendidos (“Você me convidou para ir ao seu apartamento, por isso não venha me dizer que não esperava que fôssemos para a cama!”), as outras gerações (“Eu estava me vingando pelo que seus avós fizeram com os meus avós”).</p>
<p>Acrescentando mais confusão ao cenário, o agressor — ou uma testemunha, ou mesmo a vítima, quando foi “adequadamente treinada” por suas experiências anteriores — pode rotular o ato de violência não como violência, mas como educação (“É pra você aprender!”) ou como amor (“Fiz isso porque te amo demais!”).</p>
<p>Desqualificando a experiência da vítima, o efeito físico ou emocional da violência pode ser negado (“Não doeu tanto assim!”; “Bem que você gostou, não é?”).</p>
<p>Mistificando o corolário moral, a intenção do ato de violência pode ser redefinida (“O que estou fazendo é pro teu bem!”). Além disso, o agressor, o contexto ou mesmo o imaginário da vítima podem forçar esta última a aceitar uma versão distorcida da realidade, através de ameaças de isolamento social, de risco de desesperança, do apelo à vergonha (“Todos te conhecem e vão ficar sabendo que, na verdade, foi você que provocou, você vai ser motivo de chacota pra todo mundo!”), à falta de credibilidade (“Ninguém vai acreditar em você!”), ao terror (“Se você contar pra alguém eu volto e te mato!”), à loucura (“Você está completamente louco/a! Isso nunca aconteceu!”).</p>
<p>Resumindo, depois de sofrer atos de violência intensa e às vezes repetida, as vítimas, em função dos processos descritos acima, tenderão a apresentar graus variados de confusão ou desorganização — efeito da diminuição de sua capacidade de narrar sua história sobre as circunstâncias e manter a coerência a respeito do seu mundo —, ou então distorções na história da violência onde creem ocupar, em alguma medida, a posição de auto-agressoras ou no mínimo cúmplices de sua própria vitimização e sofrimento (“Fui eu que provoquei”; “Fui eu que procurei”; “Eu mereci”; “Acho que foi coisa da minha imaginação”).</p>
<p>Estas descrições distorcidas dão à vítima uma pausa temporária, uma saída provisória para o terrível sentimento de traição das premissas básicas da vida por parte do ato de violência, já que essas mistificações questionam a própria existência da traição: na verdade teria sido um ato de amor, ou pedagógico, ou provocado pela vítima ou mesmo desfrutado por ela. Assim a vítima esquece o que aconteceu, redesenhando e adequando a história distorcida. Essa alternativa, a que muitas vítimas de violência se agarram como tábua de salvação, ocorre às custas do abandono de qualquer insight,validação e protagonismo ético. De fato, tal saída acarreta desvantagens significativas: requer um intenso esforço psíquico para ser mantida, já que ocorre a partir da negação de sinais provenientes do feedback dos demais, do próprio corpo e até do senso comum; portanto, esta estratégia promove um entorpecimento emocional, levando ao isolamento progressivo em relação aos membros significativos da rede social — família, amigos, vizinhos — que contrariam essa versão da realidade, levando à redução do contato social íntimo; aumenta o risco de recorrência do dano, posto que não favorece comportamentos protetores necessários para evitar a recorrência da violência, ou seja, reduz a possibilidade de aprendizagem e mudança, obscurece a necessidade de uma reparação em relação ao sofrimento, já que o agressor deixa de aparecer como tal na história. Portanto, escamoteia a ética relacional e, a longo prazo, consolida uma visão solitária e desesperançada da realidade, já que a visão de mundo adotada frequentemente implica que “as pessoas estão sempre prontas para tirar vantagem de mim” ou que “eu mereço ”, minimizando a resistência e facilitando a perpetuação da violência.</p>
<p>Um dos resultados — e às vezes uma das intenções — de todo tipo de violência coletiva é não apenas a eliminação da própria vítima (seu desaparecimento, seu absoluto denegrir, sua expulsão), mas também a destruição da história de vida das vítimas, de seus testemunhos e lembranças, da sua identidade. Esse processo é frequentemente compartilhado pela violência interpessoal, privada.</p>
<p>O objetivo do processo terapêutico com vítimas da violência é exatamente o oposto: é “dar voz” às vitimas desestabilizando os componentes mistificados da história de vitimização, restaurando a memória e a identidade e abrindo as possibilidades de re-capturar o protagonismo de sua vida, assim como de recuperar sua dignidade.</p>
<p><strong>Narrativas de recuperação</strong></p>
<p>A evolução de cada narrativa de violência daquele que sobrevive é idiossincrática: cada paciente evoluirá em seu próprio ritmo, através de seu próprio calvário e seus próprios ritos de passagem. A cura frequentemente inclui uma série de transformações na história da violência. Cada paciente permanecerá em uma ou outra das possíveis narrativas durante o tempo que precisar para poder tecer a trama que recapturará de forma digna suas identidades, suas introspecções e sua capacidade para a alegria e a esperança. Algumas incluirão o mundo dos seus agressores, o mundo dos seus autores, algumas não (e ela pode evoluir da não inclusão para a inclusão ou vice-versa). Algumas localizarão a fonte da responsabilidade de vitimização no agressor, outros nos expectadores, ou no contexto, ou em outros personagens (frequentemente movendo-se de uma história simples, linear, para uma mais complexa e rica) ou, em parte, na vítima — se disto se depreenderem aprendizagens e <em>insights</em> enriquecedores. Alguns apresentarão uma história em contínua evolução, enquanto outros alcançarão um determinado ponto e pararão por aí. De fato, existem muitas maneiras de viver uma vida.</p>
<p>No curso desse processo acompanhamos nossos pacientes através de alguns paradoxos resistentes. Um deles é que o fechamento da história, a resolução interior é algo necessário, mas toda conclusão definitiva da história é impossível, já que para garantir que se retenha tudo o que se aprendeu dela é preciso, até certo ponto, mantê-la viva.</p>
<p>É importante ter em mente que, apesar de toda a expectativa, a terapia não é restauradora, isto é, as vidas dos sobreviventes nunca serão “como antes”. Eles viverão, esperamos, vidas diferentes, vidas com menos sofrimento e mais prazer, com mais iniciativa e mais liberdade, vidas valiosas, mas não “como antes”. De fato, as fantasias de restitutio ab initio (ou seja, de que a experiência traumática vai desaparecer através da terapia, como uma espécie de recompensa pelo esforço e pelo sofrimento) constituem uma expectativa ilusória bastante frequente não apenas em muitas das vítimas de violência em processo de recuperação, mas também em muitos terapeutas, o que acrescenta ao processo mais um nível de luto (a perda do final feliz tanto para a vítima quanto para o terapeuta). É por isso que podemos prever que a conclusão de um processo de reparação será seguida por uma sensação ambivalente de sucesso e de fracasso, de satisfação e de vazio.</p>
<p>* Extraído do artigo ”Victimización, recuperación y las historias ‘con mejor forma’”, incluído na revista Sistemas Familiares y otros Sistemas Humanos, da Associação de Psicoterapia Sistêmica de Buenos Aires.</p></blockquote>
<p>[<em>“Las 'Narrativas' en la Terapia con Víctimas de Violencia”</em>, <a href="//www.pagina12.com.ar/diario/psicologia/9-188621-2012-03-04.html”" target="“_blank”">Página|12</a>, domingo, 4 de março de 2012. Tradução: Ricardo Cabral.]</p>
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		<title>Posta restante</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Mar 2012 15:39:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo C.</dc:creator>
				<category><![CDATA[conversê]]></category>
		<category><![CDATA[ficção?]]></category>

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		<description><![CDATA[Querida F., Era pra ser um email, mas eu e meus botões ficamos pensando no que a M. falou sobre privacidade, na minha própria relação com o público e o privado e no fato de nós dois blogarmos faz tempo, &#8230; <a href="http://agora.opsblog.org/2012/03/posta-restante/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[
<p>Querida F.,</p>
<p>Era pra ser um email, mas eu e meus botões ficamos pensando no que a <a href="http://duasfridas.wordpress.com/2012/02/29/privacidade/" target="_blank">M. falou sobre privacidade</a>, na minha própria relação com o público e o privado e no fato de nós dois blogarmos faz tempo, eu para meia-dúzia e você para as multidões, minha Emilinha Borba das internetes. Foi por isso que resolvi pôr a conversa aqui no blog e deixar pra quem quiser ler do jeito que quiser ler. Você sabe, é a tal questão, comum à maioria, que não sei dizer <del>se</del> o quanto nos inclui, mas agora já foi, e que só se diferencia pela escala: o fato de todos sermos meio <em>voyeurs</em>,  minha flor, sorvendo histórias alheias, furtando-as nos pontos de ônibus (e dentro dos próprios), no restaurante, na fila do pão, da loteria e até na sala de espera do oncologista, torcendo pra não ser melanoma, só marcas da galopante velhice. Além do mais, de vez em quando é bom arrefecer esse péssimo e constante hábito de tentar controlar os pingos da chuva, a dureza das pedras e o fato dos cheiros e dos sons não pedirem licença para invadir-nos enquanto perambulamos por aí, não é? Eu pelo menos preciso aprender.</p>
<p>O que me faz lembrar que há cinco dias — na verdade tinha escrito há três, depois há quatro, mas como não consigo terminar este post-carta nunca, anteontem já é hoje e nessa marcha daqui a pouco será há trinta e três dias atrás —, naquela hora do dia em que a gente resolve dizer boa tarde e os outros respondem boa noite, aconteceu da minha composição chegar na estação X do metrô, pertinho aqui de casa, eu posicionado na primeira porta do terceiro vagão, a mais próxima da escada rolante — você bem sabe como o tédio das longas jornadas leva a mim e outros tantos a calcular essas coisas — e nem te conto, ou melhor, conto sim, sabe quem entrou antes que eu conseguisse dar o primeiro passo? Uma maresia inverossímil e intensa, e tinha mesmo que ser assim para ter chegado até ali, a seis quadras da praia, minha preta, isso mesmo, seis, sem contar as duas escadas rolantes que ela teve que descer quando resolveu entrar na composição em que eu estava, com especial atenção ao terceiro vagão, tenho pra mim que porque achou de resolver mudar de praia. Maresia pra maravilhar crianças, linda minha, e ao mesmo tempo preocupar velhos, temerosos de que aquilo seja mais um sinal daquele fim do mundo que eles ouvem falar desde que se entendem por gente.</p>
<p>Mas as visitas inopinadas não pararam por aí. Dois dias depois, ou seja trasantontem — palavra que o Houaiss diz ter surgido em 1721, sessenta e oito anos antes de trasanteontem —, tomei um susto danado quando vi uma abelha na capa do livro que há uma semana venho lendo todo dia de manhã a caminho do trabalho — sabe como é, nessa hora do dia a vista ainda está razoável, bem diferente do lixo que ela fica oito horas depois e que me tira a concentração e me convence que emburreci, ou seja, melhor rever de uma vez o grau dos meus óculos de velhinho. Mas eu falava da abelha que pousou na capa, tenho quase certeza de que na cadeira vermelha ali estampada, vá entender o que essa abelha viu nela, mas vale dizer que a cadeira deixou a capa bem bonita, pelo menos eu achei, não sei se você também vai gostar, espera um pouco&#8230;</p>
<p><a href="http://agora.opsblog.org/files/2012/03/1027513_4.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-5127" style="border-style: initial;border-color: initial" src="http://agora.opsblog.org/files/2012/03/1027513_4-192x300.jpg" alt="" width="192" height="300" /></a></p>
<p>pronto, olha ela aí, não tem mesmo o jeito de puteiro de cidade do interior de que o livro trata? Dá até pra imaginar a Nelly, a Irene, a Maria Bonita ou o próprio Larsen sentados nessa cadeira. Aliás, não sei se você o conhece, é o Junta-Cadáveres do título, chamado assim</p>
<blockquote><p><em>&#8230; por se fazer &#8216;colecionador de putas pobres&#8217;, do hábito de tratar mulheres já gastas com uma condescendência interesseira e ao mesmo tempo mesclada de dolorosa piedade — desde que elas, as mulheres, fossem aproveitáveis.</em></p></blockquote>
<p>Li esse livro faz uma eternidade, mas naquele então não lhe fui digno, se é que dignidade é a melhor palavra, porque só agora, nas manhãs a caminho do trabalho, com surpreendentes abelhas me acompanhando e tendo a vista remoçada por um tiquim de sono bem dormido, e também semi-saciado do mundo ao redor por conta dos <a href="https://www.facebook.com/media/set/?set=a.10150413277080598.351845.701720597&amp;type=3" target="_blank">registros matinais em P&amp;B</a> feitos em dezembro e janeiro, consegui apreciar com o vagar necessário as imagens meio <a href="http://agora.opsblog.org/files/2012/03/francis-bacon_cabeza-vi_1949.jpg" target="_blank">Francis Bacon</a> meio <a href="http://agora.opsblog.org/files/2012/03/lucian-freud-big-sue.jpg" target="_blank">Lucian Freud</a> que o Onetti imprimiu nas minhas retinas, só consigo falar mesmo das minhas. E invejei tudo o que li até agora, F., as cento e dez páginas — porque leio devagar, umas vinte por viagem, até a trezentos e dezessete ainda falta a companhia de um enxame inteiro —, sem essa conversa de inveja boa, inveja branca e que tais, pois vá pôr em cinco linhas tanta poética lá no raio que os parta, seu Juan Carlos.</p>
<p>Sabe, tô aqui pensando que não é só a beleza das prosas que me arrebata. É que depois de velho reconheço ter finalmente sucumbido às tais identificações, minha nega, à precária ilusão de que quando algo se parece com um arremedo do (que imagino ter sido) real colecionado nestas mais de quatro décadas respirando por aí, esse meu instável real, só me resta baixar a guarda e dar corda à condescendência, igualzinho àquelas mães que veem seus filhos sociopatas como anjos barrocos, sabe? E a cada dia parece que conservo com mais carinho, nos cantos da minha divagante memória, essas histórias relatadas, filmadas, emolduradas ou encapadas, brochura ou capa dura, tanto faz, que com a guarda baixa conseguem me tirar do sério, do conforto, das certezas que vivo dizendo que não tenho e que de vez em quando dão o ar da graça. O exemplo mais próximo, fora a ficção do Onetti lá de cima, é <a href="http://www.youtube.com/watch?v=LNEByTO9x2k" target="_blank">o filme que vi ontem</a>, que a R. gostou, mas que eu disse gostei com a boca mais cheia, os olhos mais abertos, mesmo não sendo o filme do ano de 2010, deste mês então nem se fala. Mas tenho que te dizer que ele é próximo, F., próximo da história da gente, da nossa geração, daquela história que alguns andam dizendo que nem existiu ou então que temos que virar a página, parar de insistir. Pois eu só quero esquecer aquilo que estiver doendo demais, minha amiga, mas só enquanto estiver doendo demais. Assim que o sangue esfriar um pouco quero mais é lembrar, lembrar e elaborar, lembrar e chorar, gritar, acusar, sei lá se perdoar (embora saiba que faz um bem danado pra quem perdoa), e depois seguir em frente, se der. E esse filme bateu ali, nas identificações, no latinoamericanismo que carrego e que não sumiu, não tem como sumir, e por isso condescender vai virando o verbo a conjugar, em papel, película, tela ou suporte que for.</p>
<p>Bom, é isso, dona moça, acho que te atualizei um pouco das coisas por estas bandas. Tem outras novidades, coisa boa, mas essas só você ouvindo a minha voz, sem registro escrito. Te ligo, me ligue, o celular você tem e pode chamar quando quiser, pode ser por skype.</p>
<p>Beijo grande,</p>
<p>Eu</p>
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		<title>O mundo e o umbigo</title>
		<link>http://agora.opsblog.org/2012/02/o-mundo-e-o-umbigo/</link>
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		<pubDate>Sun, 12 Feb 2012 12:53:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo C.</dc:creator>
				<category><![CDATA[nadas]]></category>
		<category><![CDATA[desaforismos]]></category>

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		<description><![CDATA[É o melhor do mundo&#8230; É o melhor da América Latina&#8230; É o melhor do Brasil&#8230; É o melhor do estado&#8230; É o melhor da cidade&#8230; É melhor do bairro&#8230; Bom, das três lojinhas da rua que eu costumo frequentar, &#8230; <a href="http://agora.opsblog.org/2012/02/o-mundo-e-o-umbigo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[
<p>É o melhor <del>do mundo</del>&#8230;<br />
É o melhor <del>da América Latina</del>&#8230;<br />
É o melhor <del>do Brasi</del>l&#8230;<br />
É o melhor <del>do estado</del>&#8230;<br />
É o melhor <del>da cidade</del>&#8230;<br />
É melhor <del>do bairro</del>&#8230;<br />
Bom, das três lojinhas da rua que eu costumo frequentar, garanto que é o melhor.</p>
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		<title>Filosofia de botequim</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Jan 2012 15:21:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo C.</dc:creator>
				<category><![CDATA[(re)flexões]]></category>
		<category><![CDATA[murmúrios]]></category>

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		<description><![CDATA[Alguém sabe dizer se existe algum estudo sobre &#8220;a história universal do&#8221; elogio ou da crítica elogiosa? Porque só hoje, depois de semanas desatualizado sobre o que anda sendo noticiado, comentado, criticado, elogiado e sei lá o que mais, acabei &#8230; <a href="http://agora.opsblog.org/2012/01/filosofia-de-botequim/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[
<p>Alguém sabe dizer se existe algum estudo sobre &#8220;a história universal do&#8221; elogio ou da crítica elogiosa? Porque só hoje, depois de semanas desatualizado sobre o que anda sendo noticiado, comentado, criticado, elogiado e sei lá o que mais, acabei lendo em blogs, Facebook e twitter umas quatro ou cinco críticas elogiosas sobre os temas mais díspares, mas todas com uma característica comum: seus autores acrescentaram às tais críticas elogiosas que fizeram o fato delas <a href="http://agora.opsblog.org/2010/07/brilhante-cara-adorei-o-que-voce-disse-e-exatamente-o-que-eu-penso/" target="_blank">coincidirem com aquilo que eles mesmos pensavam</a>.</p>
<p>Mesmo sem ter saído do país nos últimos oito anos e circulando relativamente pouco pelos diferentes estados da nação nesse mesmo período, tenho a nítida impressão de que a gente — você, eu, o Eike Batista, o Mr. Catra e boa parte das torcidas dos times mais populares do país — anda mais umbiguista do que antes. Se de fato a diferença não for estatisticamente significativa, parece que as manifestações do gênero têm sido mais visíveis. Claro, é preciso levar em consideração que estamos muito mais conectados do que antes, acessando informações e manifestando nossas opiniões em fóruns diversos com muito mais facilidade do que na era pré-internet. Ou seja, o que antes dizíamos apenas a um círculo restrito de pessoas, hoje pode se tornar um viral e chegar ao outro lado do planeta em poucas horas, com gente respondendo, concordando, discordando e tudo mais. Mas insisto no ponto: é possível avaliar se com a consolidação de uma cultura do narcisismo e do individualismo — ao menos em boa parte do Ocidente — a autorreferência do nosso olhar para o mundo aumentou nas últimas décadas?</p>
<p>Em outras palavras, espero não estar confundindo duas coisas:</p>
<p>1) que, de forma explícita ou não, nós realmente andamos mais autorreferentes do que em outros tempos; e<br />
2) o fato de hoje em dia explicitarmos com maior frequência aquilo que pensamos (e sermos incentivados a fazer isso), ou seja, que isso é apenas mais visível do que antes, mas que sempre funcionamos mais ou menos do mesmo jeito, que é algo relativamente atemporal e universal, mudando um pouco a forma como isso é manifesto, levando em consideração diferenças culturais, de gênero, de geração, de classe social e de crença religiosa, entre outras.</p>
<p>Por último, tenho para mim que quanto mais conseguirmos enxergar aspectos positivos em notícias, modos de viver, pensar e agir que sejam francamente distintos das nossos (e mesmo opostos), o nosso mundinho pessoal se verá amplamente enriquecido, a despeito da angústia que esse tipo de atitude possa gerar em nós. Só espero conseguir agir de acordo e ainda por cima manter-me firme nessa trilha.</p>
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		<title>Já disseram tudo sobre Belo Monte? Posso mostrar só uma coisinha que vi por aí?</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Jan 2012 21:03:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo C.</dc:creator>
				<category><![CDATA[nadas]]></category>
		<category><![CDATA[bom humor]]></category>
		<category><![CDATA[humor involuntário]]></category>

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		<description><![CDATA[XINGÚ (sic) VIVO. ACORDE O ÍNDIO DENTRO DE VOCÊ RESPEITE NOSSA  CULTURA BELO MONTE NEVER O bom destes tempos globalizados é o cada vez mais frequente congraçamento dos povos, inclusive povos indígenas. Por isso mesmo, sejam bem-vindos ao calçadão de &#8230; <a href="http://agora.opsblog.org/2012/01/ja-disseram-tudo-sobre-belo-monte-posso-mostrar-so-uma-coisinha-que-vi-por-ai/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
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<p style="text-align: center"><a href="http://agora.opsblog.org/files/2012/01/Belo-Monte-Never.jpg"><img class="aligncenter  wp-image-5074" src="http://agora.opsblog.org/files/2012/01/Belo-Monte-Never-1024x130.jpg" alt="" width="922" height="117" /></a></p>
<p style="text-align: center">XINGÚ (sic) VIVO.<br />
ACORDE O ÍNDIO DENTRO DE VOCÊ<br />
RESPEITE NOSSA  CULTURA<br />
BELO MONTE NEVER</p>
<p style="text-align: center"><a href="http://agora.opsblog.org/files/2012/01/8.jpg"><img class="aligncenter  wp-image-5079" src="http://agora.opsblog.org/files/2012/01/8.jpg" alt="" width="336" height="448" /></a></p>
<p>O bom destes tempos globalizados é o cada vez mais frequente congraçamento dos povos, inclusive povos indígenas. Por isso mesmo, sejam bem-vindos ao calçadão de Copacabana, irmãos Sioux, Comanches, Apaches, Cherokees e demais povos do hemisfério norte. Então gritemos em uníssono: Belo Monte NEVER!</p>
<p><em>[P.S. Belo Monte e sua justificativa mal-ajambrada em torno de um modelo desenvolvimentista não me agradam em nada, que fique bem claro. Mas no bom espírito carioca, não resisto: perco o amigo, mas não a piada.]</em></p>
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